Comit Cientfico Internacional da UNESCO para Redao da Histria Geral da frica




HISTRIA GERAL
DA FRICA I                                    




Metodologia
e pr-histria da frica
EDITOR J. KI-ZERBO




UNESCO Representao no BRASIL
Ministrio da Educao do BRASIL
Universidade Federal de So Carlos
Comit Cientfico Internacional da UNESCO para Redao da Histria Geral da frica


HISTRIA GERAL DA FRICA  I
Metodologia e prhistria da frica
Coleo Histria Geral da frica da UNESCO

Volume I        Metodologia e pr-histria da frica
                (Editor J. Ki-Zerbo)

Volume II       frica antiga
                (Editor G. Mokhtar)

Volume III      frica do sculo VII ao XI
                (Editor M. El Fasi)
                (Editor Assistente I. Hrbek)

Volume IV       frica do sculo XII ao XVI
                (Editor D. T. Niane)

Volume V        frica do sculo XVI ao XVIII
                (Editor B. A. Ogot)

Volume VI       frica do sculo XIX  dcada de 1880
                (Editor J. F. A. Ajayi)

Volume VII      frica sob dominao colonial, 1880-1935
                (Editor A. A. Boahen)

Volume VIII frica desde 1935
            (Editor A. A. Mazrui)
            (Editor Assistente C. Wondji)




Os autores so responsveis pela escolha e apresentao dos fatos contidos neste livro,
bem como pelas opinies nele expressas, que no so necessariamente as da UNESCO,
nem comprometem a Organizao. As indicaes de nomes e apresentao do
material ao longo deste livro no implicam a manifestao de qualquer opinio por parte
da UNESCO a respeito da condio jurdica de qualquer pas, territrio, cidade, regio
ou de suas autoridades, tampouco da delimitao de suas fronteiras ou limites.
Comit Cientfico Internacional da UNESCO para Redao da Histria Geral da frica




HISTRIA GERAL
DA FRICA  I
Metodologia e
prhistria
da frica
EDITOR JOSEPH KIZERBO




                      Organizao
               das Naes Unidas
                  para a Educao,
              a Cincia e a Cultura
Esta verso em portugus  fruto de uma parceria entre a Representao da UNESCO no Brasil, a
Secretaria de Educao Continuada, Alfabetizao e Diversidade do Ministrio da Educao do
Brasil (Secad/MEC) e a Universidade Federal de So Carlos (UFSCar).

Ttulo original: General History of Africa, I: Methodology and African Prehistory. Paris: UNESCO;
Berkley, CA: University of California Press; London: Heinemann Educational Publishers Ltd., 1981.
(Primeira edio publicada em ingls).

 UNESCO 2010 (verso em portugus com reviso ortogrfica e reviso tcnica)

Coordenao geral da edio e atualizao: Valter Roberto Silvrio
Preparao de texto: Eduardo Roque dos Reis Falco
Reviso tcnica: Kabengele Munanga
Reviso e atualizao ortogrfica: Cibele Elisa Viegas Aldrovandi
Projeto grfico e diagramao: Marcia Marques / Casa de Ideias; Edson Fogaa e Paulo Selveira /
UNESCO no Brasil



     Histria geral da frica, I: Metodologia e pr-histria da frica / editado por Joseph
           Ki-Zerbo.  2.ed. rev.  Braslia : UNESCO, 2010.
           992 p.

         ISBN: 978-85-7652-123-5

          1. Histria 2. Prhistria 3. Historiografia 4. Mtodos histricos 5. Tradio oral
     6. Histria africana 7. Culturas africanas 8. Arqueologia 9. Lnguas africanas 10. Artes
     africanas 11. Norte da frica 12. Leste da frica 13. Oeste da frica 14. Sul da frica
     15. frica Central 16. frica I. Ki-Zerbo, Joseph II. UNESCO III. Brasil. Ministrio da
     Educao IV. Universidade Federal de So Carlos

Organizao das Naes Unidas para a Educao, a Cincia e a Cultura (UNESCO)
Representao no Brasil
SAUS, Quadra 5, Bloco H, Lote 6, Ed. CNPq/IBICT/UNESCO, 9 andar
70070-912  Braslia  DF  Brasil
Tel.: (55 61) 2106-3500
Fax: (55 61) 3322-4261
Site: www.unesco.org/brasilia
E-mail: grupoeditorial@unesco.org.br

Ministrio da Educao (MEC)
Secretaria de Educao Continuada, Alfabetizao e Diversidade (Secad/MEC)
Esplanada dos Ministrios, Bl. L, 2 andar
70047-900  Braslia  DF  Brasil
Tel.: (55 61) 2022-9217
Fax: (55 61) 2022-9020
Site: http://portal.mec.gov.br/index.html

Universidade Federal de So Carlos (UFSCar)
Rodovia Washington Luis, Km 233  SP 310
Bairro Monjolinho
13565-905  So Carlos  SP  Brasil
Tel.: (55 16) 3351-8111 (PABX)
Fax: (55 16) 3361-2081
Site: http://www2.ufscar.br/home/index.php

Impresso no Brasil
SUMRIO                                                                                         V




                                     SUMRIO




Apresentao ...................................................................................VII
Nota dos Tradutores .......................................................................... IX
Cronologia ....................................................................................... XI
Lista de Figuras ............................................................................. XIII
Prefcio ..........................................................................................XXI
Apresentao do Projeto ..............................................................XXVII
Introduo Geral ......................................................................... XXXI

Captulo 1 A evoluo da historiografia da frica.................................... 1
Captulo 2 Lugar da histria na sociedade africana ................................ 23
Captulo 3 Tendncias recentes das pesquisas histricas africanas e
           contribuio  histria em geral .......................................... 37
Captulo 4 Fontes e tcnicas especficas da histria da frica
           Panorama Geral ................................................................... 59
Captulo 5 As fontes escritas anteriores ao sculo XV ........................... 77
Captulo 6 As fontes escritas a partir do sculo XV ............................ 105
Captulo 7 A tradio oral e sua metodologia ..................................... 139
Captulo 8 A tradio viva ................................................................... 167
Captulo 9 A Arqueologia da frica e suas tcnicas. Processos de
           datao ............................................................................... 213
VI                                                                       Metodologia e pr-histria da frica



Captulo 10       Parte I: Histria e lingustica ............................................ 247
                  Parte II: Teorias relativas s "raas" e histria da frica.... 283
Captulo 11       Migraes e diferenciaes tnicas e lingusticas .............. 295
Captulo 12       Parte I: Classificao das lnguas da frica....................... 317
                  Parte II: Mapa lingustico da frica ................................. 337
Captulo 13       Geografia histrica: aspectos fsicos .................................. 345
Captulo 14       Geografia histrica: aspectos econmicos ......................... 367
Captulo 15       Os mtodos interdisciplinares utilizados nesta obra ......... 387
Captulo 16       Parte I: Quadro cronolgico das fases pluviais e glaciais
                  da frica ........................................................................... 401
                  Parte II: Quadro cronolgico das fases pluviais e glaciais
                  da frica ........................................................................... 417
Captulo 17       Parte I: A hominizao: problemas gerais ......................... 447
                  Parte II: A hominizao: problemas gerais ....................... 471
Captulo 18       Os homens fsseis africanos ............................................. 491
Captulo 19       A Pr-Histria da frica oriental .................................... 511
Captulo 20       Pr-Histria da frica austral ........................................... 551
Captulo 21       Parte I: Pr-Histria da frica central.............................. 591
                  Parte II: Pr- Histria da frica central .......................... 615
Captulo 22       Pr-Histria da frica do norte........................................ 637
Captulo 23       Pr-Histria do Saara ....................................................... 657
Captulo 24       Pr-Histria da frica ocidental ....................................... 685
Captulo 25       Pr-Histria do vale do Nilo ............................................ 715
Captulo 26       A arte pr-histrica africana ............................................. 743
Captulo 27       Origens, desenvolvimento e expanso das tcnicas
                  agrcolas............................................................................. 781
Captulo 28       Descoberta e difuso dos metais e desenvolvimento dos
                  sistemas sociais at o sculo V antes da Era Crist .......... 803

Concluso        Da natureza bruta  humanidade liberada ......................... 833
Membros do Comit Cientfico Internacional para a Redao de
uma Histria Geral da frica ............................................................853
Dados Biogrficos dos Autores do Volume I ......................................855
Abreviaes e Listas de Peridicos ....................................................859
Referncias Bibliogrficas ................................................................865
ndice Remissivo..............................................................................927
APRESENTAO                                                                          VII




                       APRESENTAO



   "Outra exigncia imperativa  de que a histria (e a cultura) da frica devem pelo menos ser
   vistas de dentro, no sendo medidas por rguas de valores estranhos... Mas essas conexes
   tm que ser analisadas nos termos de trocas mtuas, e influncias multilaterais em que algo
   seja ouvido da contribuio africana para o desenvolvimento da espcie humana". J. Ki-Zerbo,
   Histria Geral da frica, vol. I, p. LII.

    A Representao da UNESCO no Brasil e o Ministrio da Educao tm a satis-
fao de disponibilizar em portugus a Coleo da Histria Geral da frica. Em seus
oito volumes, que cobrem desde a pr-histria do continente africano at sua histria
recente, a Coleo apresenta um amplo panorama das civilizaes africanas. Com sua
publicao em lngua portuguesa, cumpre-se o objetivo inicial da obra de colaborar para
uma nova leitura e melhor compreenso das sociedades e culturas africanas, e demons-
trar a importncia das contribuies da frica para a histria do mundo. Cumpre-se,
tambm, o intuito de contribuir para uma disseminao, de forma ampla, e para uma
viso equilibrada e objetiva do importante e valioso papel da frica para a humanidade,
assim como para o estreitamento dos laos histricos existentes entre o Brasil e a frica.
    O acesso aos registros sobre a histria e cultura africanas contidos nesta Coleo se
reveste de significativa importncia. Apesar de passados mais de 26 anos aps o lana-
mento do seu primeiro volume, ainda hoje sua relevncia e singularidade so mundial-
mente reconhecidas, especialmente por ser uma histria escrita ao longo de trinta anos
por mais de 350 especialistas, sob a coordenao de um comit cientfico internacional
constitudo por 39 intelectuais, dos quais dois teros africanos.
    A imensa riqueza cultural, simblica e tecnolgica subtrada da frica para o conti-
nente americano criou condies para o desenvolvimento de sociedades onde elementos
europeus, africanos, das populaes originrias e, posteriormente, de outras regies do
mundo se combinassem de formas distintas e complexas. Apenas recentemente, tem-
se considerado o papel civilizatrio que os negros vindos da frica desempenharam
na formao da sociedade brasileira. Essa compreenso, no entanto, ainda est restrita
aos altos estudos acadmicos e so poucas as fontes de acesso pblico para avaliar este
complexo processo, considerando inclusive o ponto de vista do continente africano.
VIII                                                          Metodologia e pr-histria da frica



    A publicao da Coleo da Histria Geral da frica em portugus  tambm resul-
tado do compromisso de ambas as instituies em combater todas as formas de desigual-
dades, conforme estabelecido na Declarao Universal dos Direitos Humanos (1948),
especialmente no sentido de contribuir para a preveno e eliminao de todas as formas
de manifestao de discriminao tnica e racial, conforme estabelecido na Conveno
Internacional sobre a Eliminao de todas as Formas de Discriminao Racial de 1965.
    Para o Brasil, que vem fortalecendo as relaes diplomticas, a cooperao econ-
mica e o intercmbio cultural com aquele continente, essa iniciativa  mais um passo
importante para a consolidao da nova agenda poltica. A crescente aproximao com
os pases da frica se reflete internamente na crescente valorizao do papel do negro
na sociedade brasileira e na denncia das diversas formas de racismo. O enfrentamento
da desigualdade entre brancos e negros no pas e a educao para as relaes tnicas
e raciais ganhou maior relevncia com a Constituio de 1988. O reconhecimento da
prtica do racismo como crime  uma das expresses da deciso da sociedade brasileira
de superar a herana persistente da escravido. Recentemente, o sistema educacional
recebeu a responsabilidade de promover a valorizao da contribuio africana quando,
por meio da alterao da Lei de Diretrizes e Bases da Educao Nacional (LDB) e
com a aprovao da Lei 10.639 de 2003, tornou-se obrigatrio o ensino da histria e
da cultura africana e afro-brasileira no currculo da educao bsica.
    Essa Lei  um marco histrico para a educao e a sociedade brasileira por criar, via
currculo escolar, um espao de dilogo e de aprendizagem visando estimular o conheci-
mento sobre a histria e cultura da frica e dos africanos, a histria e cultura dos negros
no Brasil e as contribuies na formao da sociedade brasileira nas suas diferentes
reas: social, econmica e poltica. Colabora, nessa direo, para dar acesso a negros e
no negros a novas possibilidades educacionais pautadas nas diferenas socioculturais
presentes na formao do pas. Mais ainda, contribui para o processo de conhecimento,
reconhecimento e valorizao da diversidade tnica e racial brasileira.
    Nessa perspectiva, a UNESCO e o Ministrio da Educao acreditam que esta publica-
o estimular o necessrio avano e aprofundamento de estudos, debates e pesquisas sobre
a temtica, bem como a elaborao de materiais pedaggicos que subsidiem a formao
inicial e continuada de professores e o seu trabalho junto aos alunos. Objetivam assim com
esta edio em portugus da Histria Geral da frica contribuir para uma efetiva educao
das relaes tnicas e raciais no pas, conforme orienta as Diretrizes Curriculares Nacionais
para a Educao das Relaes tnico-Raciais e para o Ensino da Histria e Cultura Afro-
brasileira e Africana aprovada em 2004 pelo Conselho Nacional de Educao.

Boa leitura e sejam bem-vindos ao Continente Africano.

             Vincent Defourny                              Fernando Haddad
 Representante da UNESCO no Brasil Ministro de Estado da Educao do Brasil
NOTA DOS TRADUTORES                                                        IX




          NOTA DOS TRADUTORES




    A Conferncia de Durban ocorreu em 2001 em um contexto mundial dife-
rente daquele que motivou as duas primeiras conferncias organizadas pela
ONU sobre o tema da discriminao racial e do racismo: em 1978 e 1983 em
Genebra, na Sua, o alvo da condenao era o apartheid.
    A conferncia de Durban em 2001 tratou de um amplo leque de temas, entre
os quais vale destacar a avaliao dos avanos na luta contra o racismo, na luta
contra a discriminao racial e as formas correlatas de discriminao; a avaliao
dos obstculos que impedem esse avano em seus diversos contextos; bem como
a sugesto de medidas de combate s expresses de racismo e intolerncias.
    Aps Durban, no caso brasileiro, um dos aspectos para o equacionamento
da questo social na agenda do governo federal  a implementao de polticas
pblicas para a eliminao das desvantagens raciais, de que o grupo afrodescen-
dente padece, e, ao mesmo tempo, a possibilidade de cumprir parte importante
das recomendaes da conferncia para os Estados Nacionais e organismos
internacionais.
    No que se refere  educao, o diagnstico realizado em novembro de 2007,
a partir de uma parceria entre a UNESCO do Brasil e a Secretaria de Educao
Continuada, Alfabetizao e Diversidade do Ministrio da Educao (SECAD/
MEC), constatou que existia um amplo consenso entre os diferentes participan-
tes, que concordavam, no tocante a Lei 10.639-2003, em relao ao seu baixo
grau de institucionalizao e sua desigual aplicao no territrio nacional. Entre
X                                                       Metodologia e pr-histria da frica



os fatores assinalados para a explicao da pouca institucionalizao da lei estava
a falta de materiais de referncia e didticos voltados  Histria de frica.
    Por outra parte, no que diz respeito aos manuais e estudos disponveis sobre
a Histria da frica, havia um certo consenso em afirmar que durante muito
tempo, e ainda hoje, a maior parte deles apresenta uma imagem racializada e
eurocntrica do continente africano, desfigurando e desumanizando especial-
mente sua histria, uma histria quase inexistente para muitos at a chegada
dos europeus e do colonialismo no sculo XIX.
    Rompendo com essa viso, a Histria Geral da frica publicada pela UNESCO
 uma obra coletiva cujo objetivo  a melhor compreenso das sociedades e cul-
turas africanas e demonstrar a importncia das contribuies da frica para a
histria do mundo. Ela nasceu da demanda feita  UNESCO pelas novas naes
africanas recm-independentes, que viam a importncia de contar com uma his-
tria da frica que oferecesse uma viso abrangente e completa do continente,
para alm das leituras e compreenses convencionais. Em 1964, a UNESCO
assumiu o compromisso da preparao e publicao da Histria Geral da frica.
Uma das suas caractersticas mais relevantes  que ela permite compreender
a evoluo histrica dos povos africanos em sua relao com os outros povos.
Contudo, at os dias de hoje, o uso da Histria Geral da frica tem se limitado
sobretudo a um grupo restrito de historiadores e especialistas e tem sido menos
usada pelos professores/as e estudantes. No caso brasileiro, um dos motivos
desta limitao era a ausncia de uma traduo do conjunto dos volumes que
compem a obra em lngua portuguesa.
    A Universidade Federal de So Carlos, por meio do Ncleo de Estudos
Afrobrasileiros (NEAB/UFSCar) e seus parceiros, ao concluir o trabalho de
traduo e atualizao ortogrfica do conjunto dos volumes, agradece o apoio
da Secretaria de Educao Continuada, Alfabetizao e Diversidade (SECAD),
do Ministrio da Educao (MEC) e da UNESCO por terem propiciado as
condies para que um conjunto cada vez maior de brasileiros possa conhecer e
ter orgulho de compartilhar com outros povos do continente americano o legado
do continente africano para nossa formao social e cultural.
Cronologia                                                                XI




                        CRONOLOGIA




   Na apresentao das datas da pr-histria convencionou-se adotar dois tipos
de notao, com base nos seguintes critrios:
        Tomando como ponto de partida a poca atual, isto , datas B.P. (before
         present), tendo como referncia o ano de +1950; nesse caso, as datas so
         todas negativas em relao a +1950.
        Usando como referencial o incio da Era Crist; nesse caso, as datas so
         simplesmente precedidas dos sinais - ou +.
   No que diz respeito aos sculos, as menes "antes de Cristo" e "depois de
Cristo" so substitudas por "antes da Era Crist", "da Era Crist".
     Exemplos:
    (i) 2300 B.P. = -350
    (ii) 2900 a.C. = -2900
         1800 d.C. = +1800
    (iii) sculo V a.C. = sculo V antes da Era Crist
          sculo III d.C. = sculo III da Era Crist
Lista de Figuras                                                                                                        XIII




                             LISTA DE FIGURAS




Figura 2.1 Estatueta em bronze representando o poder dinstico dos Songhai
           (Tera Nger). ......................................................................................................... 27
Figura 4.1 Baixo-relevo do Museu de Abomey ..................................................................... 71
Figura 5.1 Manuscrito rabe (verso) n. 2291, flio 103 Ibn Battuta (2a parte),
           referncia ao Mali ............................................................................................... 102
Figura 6.1 Fac-smile de manuscrito bamum ...................................................................... 106
Figura 6.2 Fac-smile do manuscrito vai intitulado "An Early Vai Manuscript" ................. 134
Figura 8.1 Msico tukulor tocando o "ardin"....................................................................... 179
Figura 8.2 Cantor Mvet ...................................................................................................... 179
Figura 8.3 Tocador de Valiha. O instrumento  de madeira com cordas de ao ................. 194
Figura 8.4 "Griot hutu" imitando o "mwami" cado ............................................................ 194
Figura 9.1 Microfotografia de uma seco da fateixa de cobre pertencente ao barco
           de Quops em Gizeh.......................................................................................... 217
Figura 9.2 Radiografia frontal do peito da Rainha Nedjemet, da 21a dinastia.
           Museu do Cairo.................................................................................................. 217
Figura 9.3 Bloco de vitrificao mostrando a superfcie superior plana, as paredes
           laterais e uma parte do cadinho ainda aderente ao lado direito .......................... 227
Figura 9.4 Base de uma das colunas de arenito do templo de Buhen. Nota-se o
           esboroamento da camada superficial devido  eflorescncia ............................... 227
Figura 10.1 Estela do rei serpente ....................................................................................... 271
Figura 10.2 Rcade representando uma cabaa, smbolo de poder ....................................... 272
Figura 10.3 Rcade dedicada a Dakodonu ........................................................................... 272
Figura 10.4 Leo semeando o terror.................................................................................... 272
XIV                                                                                        Metodologia e pr-histria da frica



Figura 10.5   Pictogramas egpcios e nsibidi ......................................................................... 273
Figura 10.6   Palette de Narmer ............................................................................................. 273
Figura 10.7   Amostras de vrias escritas africanas antigas.................................................... 274
Figura 10.8   Primeira pgina do principal captulo do Alcoro em vai ................................ 275
Figura 10.9   Sistema grfico vai ........................................................................................... 276
Figura 10.10   Sistema grfico mum ..................................................................................... 278
Figura 10.11   Sistema pictogrfico ....................................................................................... 278
Figura 10.12   Sistema ideogrfico e fontico-silbico .......................................................... 278
Figura 11.1   Mulher haratina de Idls. Arglia................................................................... 302
Figura 11.2   Marroquino ...................................................................................................... 302
Figura 11.3   Mulher e criana argelinas ............................................................................... 302
Figura 11.4   Voltense ............................................................................................................ 304
Figura 11.5   Mulher sarakole, Mauritnia, grupo Soninke, da regio do rio ........................ 304
Figura 11.6   Chefe nmade de Rkiz, Mauritnia ................................................................. 304
Figura 11.7   Mulher peul bororo, Tahoura, Nger ................................................................ 306
Figura 11.8   Criana tuaregue de Agads, Nger.................................................................. 306
Figura 11.9   Mulher djerma songhay de Balayera, Nger ..................................................... 306
Figura 11.10   Pigmeu twa, Ruanda ...................................................................................... 308
Figura 11.11   Grupo San...................................................................................................... 308
Figura 11.12   Pigmeu do Congo .......................................................................................... 308
Figura 11.13   Mulheres zulu ................................................................................................ 311
Figura 11.14   Mulher peul ................................................................................................... 313
Figura 11.15   Mulher peul das proximidades de Garoua-Boulay, Camares ....................... 313
Figura 11.16   Jovem peul do Mali ........................................................................................ 313
Figura 12.1   Mapa diagramtico das lnguas da frica ........................................................ 338
Figura 13.1   frica fsica ...................................................................................................... 347
Figura 14.1   Os recursos minerais da frica ........................................................................ 385
Figura 16.1   Grficos mostrando analogias entre istopos de oxignio (ou variaes
              de temperatura) e a intensidade do campo magntico da Terra, em um
              testemunho de fundo de mar, para os ltimos 450000 anos ............................ 418
Figura 16.2 Grficos mostrando analogias entre temperaturas indicadas pela microfauna
              e a inclinao magntica para os ltimos 2 milhes de anos............................ 419
Figura 16.3 Mapa das isotermas da gua de superfcie do oceano Atlntico em fevereiro,
              18000 B.P. ........................................................................................................ 426
Figura 16.4 e 16.5 Mapa mostrando diferenas na temperatura da gua de superfcie
              entre a poca atual a 17000 B.P. Figura 16.4: inverno. Figura 16.5: vero. ...... 427
Figura 16.6 Evoluo relativa da razo pluviosidade/evaporao nos ltimos 12000 anos
              na bacia do Chade (13  18 de lat. N.) .......................................................... 433
Figura 16.7 Variaes dos nveis lacustres nas bacias do Afar ............................................. 434
Figura 16.8 Mapa das localidades fossilferas do Plio-Pleistoceno da frica oriental ........ 438
Lista de Figuras                                                                                                                 XV


Figura 16.9 Cronologia radiomtrica e paleomagntica do Plioceno/Pleistoceno da
             frica oriental, do sudoeste da Europa e do noroeste da Amrica .................. 439
Figura 16.10 Cronologia e ritmo da evoluo das civilizaes durante o Pleistoceno,
               com relao  evoluo dos homindeos ........................................................ 442
Figura 16.11 Tendncias gerais do clima global para o ltimo milho de anos.................. 443
Figura 17.1 Reconstituio do meio ambiente do Faium h 40 milhes de anos.
             Desenhos de Bertoncini-Gaillard sob a direo de Yves Coppens .................. 450
Figura 17.2 Depsitos eocnico e oligocnico do Faium, Egito.......................................... 450
Figura 17.3 Os dados paleontolgicos ................................................................................. 454
Figura 17.4 Garganta de Olduvai, Tanznia ....................................................................... 455
Figura 17.5 Crnio de Australopithecus africanus. Da direita para a esquerda, perfil de
             criana (Taung, Botsuana) e de adulto (Sterkfontein, Transvaal) ..................... 455
Figura 17.6 Garganta de Olduvai, Tanznia ....................................................................... 457
Figura 17.7 Stio do Omo, Etipia...................................................................................... 457
Figura 17.8 Stio do Omo, Etipia...................................................................................... 458
Figura 17.9 Crnios de Australopithecus boisei, stio do Omo, Etipia ................................. 458
Figura 17.10 Stio de Afar, Etipia ..................................................................................... 459
Figura 17.11 Crnio de Cro-Magnoide de Afalu, Arglia.................................................. 459
Figura 17.12 Canteiro de escavaes em Olduvai ............................................................... 461
Figura 17.13 Crnios de Australopithecus robustus,  direita, e Australopithecus gracilis,
                esquerda ...................................................................................................... 461
Figura 17.14 Homo habilis ................................................................................................... 463
Figura 17.15 Os stios de Siwalik no Norte do Paquisto, expedio D. Pilbeam .............. 465
Figura 17.16 Reconstituio do crnio de Ramapithecus ..................................................... 465
Figura 17.17 Esqueleto de Oreopithecus bambolii, com 12 milhes de anos, encontrado
               em Grossetto (Toscana) por Johannes Hrzeler, em 1958 ............................ 465
Figura 17.18 Reconstituio do meio ambiente do Homo erectus de Chu-Ku-Tien
               (ou Sinantropo), China (400 mil anos).......................................................... 466
Figura 17.19 Homo erectus de Chu-Ku-Tien (reconstituio) .............................................. 466
Figuras 17.20 e 17.21 Detalhe do solo olduvaiense (observam-se vrios objetos,
               entre os quais, poliedros e um grande osso de hipoptamo).......................... 475
Figura 17.22 Uma das mais antigas pedras lascadas do mundo .......................................... 479
Figura 17.23 Uma das primeiras pedras lascadas do mundo ............................................... 479
Figura 18.1 frica: alguns dos stios mais importantes de homindeos............................... 492
Figura 18.2 Crnio de Homo habilis (KNM-ER 1470). Vista lateral. Koobi Fora,
             Qunia.............................................................................................................. 499
Figura 18.3 Crnio de Homo erectus (KNM-ER 3733). Vista lateral. Koobi Fora,
             Qunia ............................................................................................................. 499
Figura 18.4 Crnio de Australopithecus boisei (OH5). Vista lateral. Garganta de
             Olduvai, Tanznia ............................................................................................ 503
Figura 18.5 Mandbula de Australopithecus boisei (KNM-ER 729). Vista em face
             oclusiva. Koobi Fora, Qunia ........................................................................... 503
XVI                                                                                    Metodologia e pr-histria da frica



Figura 18.6 Crnio de Australopithecus africanus (KNM-ER 1813). Vista lateral.
             Koobi Fora, Qunia.......................................................................................... 505
Figura 18.7 Mandbula de Australopithecus africanus (KNM-ER 992). Vista em
             face oclusiva. Koobi Fora, Qunia .................................................................... 505
Figura 19.1 A pr-histria na frica Oriental (1974) ......................................................... 512
Figura 19.2 frica oriental: principais jazidas da Idade da Pedra (1974) ............................ 523
Figura 19.3 Garganta de Olduvai, Tanznia setentrional .................................................... 530
Figura 19.4 Early Stone Age, primeira fase: utenslios olduvaienses tpicos
            ("seixos lascados"). ............................................................................................ 530
Figura 19.5 Early Stone Age, segunda fase: instrumentos acheulenses tpicos
            (vista frontal e lateral). 1. pico; 2. machadinha; 3. biface ................................ 533
Figura 19.6 Isimila, terras altas da Tanznia meridional. Vista da ravina erodida
            mostrando as camadas onde foram encontrados utenslios acheulenses........... 535
Figura 19.7 Concentrao de bifaces, machadinhas e outros utenslios acheulenses
            (a pequena colher de pedreiro no centro serve como escala) ............................ 535
Figura 19.8 Middle Stone Age e utenslios de transio: o exemplo da direita  uma
            ponta fina podendo ser encabada, talvez como ponta de lana ........................ 537
Figura 19.9 Olorgesailie, no Rift Valley do Qunia. Escavaes em um stio de
            ocupao acheulense......................................................................................... 537
Figura 19.10 Late Stone Age: lmina com bordo de preenso retocado ( direita);
               segmento de crculo (no centro); raspador e micrlito ( esquerda), feitos
               de obsidiana no Rift Valley do Qunia .......................................................... 540
Figura 19.11 Apis Rock (Nasera), Tanznia setentrional. As escavaes sob o abrigo,
               bem visvel,  direita revelaram uma sucesso de ocupaes humanas da
               Idade da Pedra Recente ................................................................................. 540
Figura 20.1 Localizao dos depsitos fauresmithienses e sangoenses na frica austral .... 554
Figura 20.2 Depsitos de fsseis humanos do Pleistoceno Superior e alguns do
            Ps-Pleistoceno na frica austral .................................................................... 554
Figura 20.3 Principais depsitos de fauna e fsseis humanos do fim do Plioceno ao
            incio do Pleistoceno na frica austral............................................................. 556
Figura 20.4 Localizao dos principais depsitos acheulenses na frica austral ................. 556
Figura 20.5 Acheulense Inferior, Sterkfontein: biface, lasca cuboide e dois ncleos ........... 563
Figura 20.6 Utenslios do Acheulense Superior, de Kalambo Falls, datados de mais de
            190000 anos B.P. ............................................................................................. 563
Figura 20.7 Utenslios provenientes dos depsitos de Howiesonspoort .............................. 563
Figura 20.8 Utenslios da Middle Stone Age, provenientes de Witkrans Cave ..................... 572
Figura 20.9 Utenslios do Lupembiense Mdio, de Kalambo Falls ..................................... 572
Figura 20.10 Distribuio de lminas e fragmentos de lminas utilizadas, com relao a
               estruturas de blocos de dolerito, no horizonte primrio em Orangia ............ 572
Figura 20.11 Civilizao sangoense de Zimbabwe, variante do Zambeze .......................... 578
Figura 20.12 Indstrias da Middle Stone Age, provenientes de Twin Rivers (Zmbia),
               datadas de 32000 a 22000 anos B.P. ............................................................. 578
Lista de Figuras                                                                                                                XVII


Figura 20.13 Indstrias de Pietersburg e Bambata, provenientes da gruta das Lareiras
               (Cave of Hearths), no Transvaal, e da gruta de Bambata, em Zimbabwe.
               Instrumentos caractersticos das regies de arbustos espinhosos e do
               bushveld .......................................................................................................... 578
Figura 20.14 De 1 a 12, utenslios em slex e calcednia, das indstrias wiltonienses da
               provncia do Cabo, na frica do Sul. De 13 a 20, utenslios das indstrias
               de Matopan (Wiltoniense de Zimbabwe ), provenientes da caverna de
               Amadzimba, Matopos Hills, em Zimbabwe ................................................. 580
Figura 20.15 Utenslios de madeira provenientes de depsitos do Pleistoceno na frica
               austral ............................................................................................................ 580
Figura 20.16 Lasca-enx em forma de crescente feita de slex negro, montada por meio
               de mstique sobre um cabo de chifre de rinoceronte, proveniente de uma
               caverna da baa de Plettenberg, no leste da provncia do Cabo ..................... 580
Figura 21.1 Variaes climticas e indstrias pr-histricas da bacia do Zaire ................... 592
Figura 21.2 Monumento megaltico da regio de Buar na Repblica Centro-Africana ..... 603
Figura 21.3 Acheulense Superior. Repblica Centro-Africana, rio Ngoere, Alto Sanga..... 603
Figura 21.4 Vaso neoltico de fundo plano. Repblica Centro-Africana, Batalimo,
              Lobaye ............................................................................................................ 610
Figura 21.5 Zonas de vegetao da frica Central ............................................................. 616
Figura 21.6 Mapa da frica Central com os nomes dos lugares citados no texto .............. 619
Figura 22.1 Evoluo da Pebble Culture para as formas do Acheulense ....................... 639
Figura 22.2 Biface Acheulense  o mais evoludo da jazida de Ternifine (Arglia
              ocidental).......................................................................................................... 641
Figura 22.3 Machados de riolito do Acheulense encontrados no stio de Erg
              Tihodaine. ........................................................................................................ 643
Figura 22.4 Ponta do Musteriense, El-Guettar (Tunsia) ................................................... 643
Figura 22.5 "Esferoides facetados" de Ain Hanech ............................................................. 643
Figura 22.6 Ateriense do Uede Djouf el-Djemel (Arglia oriental) ................................... 647
Figura 22.7 Indstria do Capsiense tpico........................................................................... 647
Figura 22.8 Indstria de armaduras do Capsiense superior ................................................ 647
Figura 22.9 Indstria do Capsiense superior ....................................................................... 647
Figura 22.10 Neoltico de tradio capsiense do Damous el-Ahmar, Arglia oriental.
               M e moleta. Traos de carvo e ocre. Fragmentos de conchas de Helix ...... 654
Figura 22.11 Pequena placa calcria gravada. Capsiense superior do Khanguet
               el-Mouhaad, Arglia oriental......................................................................... 654
Figura 22.12 Ain Hanech, seixos com lascamento unifacial (chopper) ou bifacial
               (choppingtool) ................................................................................................ 655
Figura 22.13 Pernio humano em forma de punhal  Capsiense superior  Mechta
               el-Arbi, Arglia oriental, escavaes feitas em 1952 ...................................... 655
Figura 23.1 Principais stios de pinturas e gravuras rupestres saarianas .............................. 661
Figura 23.2 Machado plano com entalhes, Gossolorum (Nger). ..................................... 661
Figura 23.3 Machadinha de Ti-n-Assako (Mali). ............................................................... 661
Figura 23.4 e 23.5 Seixos lascados (Pebble Culture), Aoulef (Saara argeliano) .................... 666
XVIII                                                                                 Metodologia e pr-histria da frica



Figura 23.6    Biface do Paleoltico Inferior, Tachenghit (Saara argeliano). ........................... 666
Figura 23.7    Machadinha do Paleoltico Inferior, Tachenghit (Saara argeliano) .................. 666
Figura 23.8    Grande ponta dupla bifacial ateriense, Timimoum (Saara argeliano) .............. 670
Figura 23.9    Pontas aterienses, Aoulef (Saara argeliano) ...................................................... 670
Figura 23.10    Ponta dupla bifacial ateriense, Adrar Bous V (Nger) .................................... 670
Figura 23.11    Cermica neoltica, Dhar Tichitt (Mauritnia) .............................................. 675
Figura 23.12    Cermica de Akreijit, Mauritnia .................................................................. 675
Figura 23.13    Pontas de flechas neolticas, In Guezzam (Nger).......................................... 681
Figura 23.14    Machado com garganta neoltica, Adrar Bous (Nger)................................... 681
Figura 23.15    Machado polido neoltico, regio de Faya (Chade) ........................................ 681
Figura 24.1    Zonas de vegetao da frica ocidental. ..................................................686
Figura 24.2    Cermica do Cabo Manuel, Senegal ................................................................ 696
Figura 24.3    Brunidor de osso, encontrado no stio neoltico do Cabo Manuel ................... 696
Figura 24.4    M feita de rocha vulcnica, encontrada no stio neoltico de Ngor ............... 700
Figura 24.5    Pendentes de pedra basalto do stio neoltico de Patte d'Oie .......................... 700
Figura 24.6    Machados polidos de "Bel Air" em dolerito ..................................................... 704
Figura 24.7    Cermica neoltica de "Bel Air", do stio de Diakit, no Senegal .................... 704
Figura 24.8    Vaso de fundo plano da Idade do Ferro ........................................................... 709
Figura 24.9    Crculo megaltico, Tiekene Boussoura, Senegal: o "tmulo do rei"
               aparece em primeiro plano ............................................................................... 711
Figura 24.10    Estatueta antropomrfica encontrada em Thiaroye, no Senegal .................... 711
Figura 25.1    O Vale das Rainhas .......................................................................................... 720
Figura 25.2    Pontas de dardos em slex de Mirgissa, Sudo ................................................. 720
Figura 26.1    Rinoceronte, Blaka, Nger ................................................................................ 749
Figura 26.2    Gazela, Blaka, Nger......................................................................................... 749
Figura 26.3    Bovino, Tin Rharo, Mali .................................................................................. 749
Figura 26.4    Elefante, In-Ekker, Saara argelino ................................................................... 749
Figura 26.5    Pintura rupestre, Nambia ................................................................................ 754
Figura 26.6    Pintura rupestre, Tibesti, Chade ...................................................................... 754
Figura 26.7    "Pista da Serpente", pintura rupestre ............................................................... 760
Figura 26.8    Dama Branca, pintura rupestre ........................................................................ 760
Figura 26.9    Detalhe de uma gravura rupestre, Alto Volta ................................................... 764
Figura 26.10    Pintura rupestre, Nambia .............................................................................. 764
Figura 26.11    Pinturas rupestres, planalto do Tassili n'Ajjer, Arglia ............................................. 766
Figura 26.12    Cena ertica, Tassili ....................................................................................... 770
Figura 26.13    Cena ertica, Tassili........................................................................................ 770
Figura 27.1    Zoneamento ecolgico latitudinal .................................................................... 785
Figura 27.2    Diferentes ecossistemas .................................................................................... 785
Figura 27.3    Os beros agrcolas africanos ........................................................................... 791
Figura 27.4    Mapa geoagrcola da frica ............................................................................. 791
Lista de Figuras                                                                                                         XIX


Figura 27.5 Aspecto de urna queimada (aps a combusto)  Futa Djalon: Pita,
            Timbi-Madina ................................................................................................. 794
Figura 27.6 Terra lavrada com o Kadyendo pelos Diula de Oussouye (Casamance)
            antes do replantio do arroz............................................................................... 794
Figura 27.7 O Soung ou p entre os Seereer Gnominka, pescadores-rizicultores das
            ilhas da Petite Cte, no Senegal ....................................................................... 796
Figura 27.8 Arrozais em solos hidromorfos sujeitos a cheias temporrias na estao
            das chuvas (rizicultura de impluvium), Casamance: aldeia bayoyy de Niassa ... 798
Figura 27.9 Ilhas artificiais para a cultura do arroz em arrozais aquticos muito
            profundos onde o nvel da gua no baixa o suficiente .................................... 798
Figura 28.1 Tmulo de Rekh mi-re em Tebas..................................................................... 827
Figura 28.2 Tmulo de Huy: parede leste (fachada sul) ...................................................... 827
Figura 28.3 Navalha, Mirgissa, Sudo ................................................................................. 827
Figura 28.4 Tmulo de Huy ................................................................................................ 829
Figura 28.5 Esttua de cobre de Ppi I (Antigo Imprio)................................................... 831
Figura 29.1 Australopithecus boisei, jazidas do Omo ............................................................. 842
Figura 29.2 Laboratrio destinado s pesquisas sobre o remanejo do delta do Senegal,
           Rosso-Bethio, Senegal ........................................................................................ 842
Prefcio                                                               XXI




                           PREFCIO
                    por M. Amadou Mahtar M'Bow,
                Diretor Geral da UNESCO (1974-1987)




    Durante muito tempo, mitos e preconceitos de toda espcie esconderam do
mundo a real histria da frica. As sociedades africanas passavam por sociedades
que no podiam ter histria. Apesar de importantes trabalhos efetuados desde
as primeiras dcadas do sculo XX por pioneiros como Leo Frobenius, Maurice
Delafosse e Arturo Labriola, um grande nmero de especialistas no africanos,
ligados a certos postulados, sustentavam que essas sociedades no podiam ser
objeto de um estudo cientfico, notadamente por falta de fontes e documentos
escritos.
    Se a Ilada e a Odisseia podiam ser devidamente consideradas como fontes
essenciais da histria da Grcia antiga, em contrapartida, negava-se todo valor
 tradio oral africana, essa memria dos povos que fornece, em suas vidas, a
trama de tantos acontecimentos marcantes. Ao escrever a histria de grande
parte da frica, recorria-se somente a fontes externas  frica, oferecendo
uma viso no do que poderia ser o percurso dos povos africanos, mas daquilo
que se pensava que ele deveria ser. Tomando frequentemente a "Idade Mdia"
europeia como ponto de referncia, os modos de produo, as relaes sociais
tanto quanto as instituies polticas no eram percebidos seno em referncia
ao passado da Europa.
    Com efeito, havia uma recusa a considerar o povo africano como o criador
de culturas originais que floresceram e se perpetuaram, atravs dos sculos, por
XXII                                                    Metodologia e pr-histria da frica



vias que lhes so prprias e que o historiador s pode apreender renunciando a
certos preconceitos e renovando seu mtodo.
    Da mesma forma, o continente africano quase nunca era considerado
como uma entidade histrica. Em contrrio, enfatizava-se tudo o que pudesse
reforar a ideia de uma ciso que teria existido, desde sempre, entre uma "frica
branca" e uma "frica negra" que se ignoravam reciprocamente. Apresentava-se
frequentemente o Saara como um espao impenetrvel que tornaria impossveis
misturas entre etnias e povos, bem como trocas de bens, crenas, hbitos e ideias
entre as sociedades constitudas de um lado e de outro do deserto. Traavam-se
fronteiras intransponveis entre as civilizaes do antigo Egito e da Nbia e
aquelas dos povos subsaarianos.
    Certamente, a histria da frica norte-saariana esteve antes ligada quela da
bacia mediterrnea, muito mais que a histria da frica subsaariana mas, nos
dias atuais,  amplamente reconhecido que as civilizaes do continente africano,
pela sua variedade lingustica e cultural, formam em graus variados as vertentes
histricas de um conjunto de povos e sociedades, unidos por laos seculares.
    Um outro fenmeno que grandes danos causou ao estudo objetivo do passado
africano foi o aparecimento, com o trfico negreiro e a colonizao, de esteretipos
raciais criadores de desprezo e incompreenso, to profundamente consolidados
que corromperam inclusive os prprios conceitos da historiografia. Desde que
foram empregadas as noes de "brancos" e "negros", para nomear genericamente
os colonizadores, considerados superiores, e os colonizados, os africanos foram
levados a lutar contra uma dupla servido, econmica e psicolgica. Marcado
pela pigmentao de sua pele, transformado em uma mercadoria entre outras,
e destinado ao trabalho forado, o africano veio a simbolizar, na conscincia de
seus dominadores, uma essncia racial imaginria e ilusoriamente inferior: a de
negro. Este processo de falsa identificao depreciou a histria dos povos africanos
no esprito de muitos, rebaixando-a a uma etno-histria, em cuja apreciao das
realidades histricas e culturais no podia ser seno falseada.
    A situao evoluiu muito desde o fim da Segunda Guerra Mundial, em
particular, desde que os pases da frica, tendo alcanado sua independncia,
comearam a participar ativamente da vida da comunidade internacional e
dos intercmbios a ela inerentes. Historiadores, em nmero crescente, tm
se esforado em abordar o estudo da frica com mais rigor, objetividade e
abertura de esprito, empregando  obviamente com as devidas precaues 
fontes africanas originais. No exerccio de seu direito  iniciativa histrica, os
prprios africanos sentiram profundamente a necessidade de restabelecer, em
bases slidas, a historicidade de suas sociedades.
Prefcio                                                                                               XXIII



     nesse contexto que emerge a importncia da Histria Geral da frica, em
oito volumes, cuja publicao a Unesco comeou.
    Os especialistas de numerosos pases que se empenharam nessa obra,
preocuparam-se, primeiramente, em estabelecer-lhe os fundamentos tericos
e metodolgicos. Eles tiveram o cuidado em questionar as simplificaes
abusivas criadas por uma concepo linear e limitativa da histria universal,
bem como em restabelecer a verdade dos fatos sempre que necessrio e possvel.
Eles esforaram-se para extrair os dados histricos que permitissem melhor
acompanhar a evoluo dos diferentes povos africanos em sua especificidade
sociocultural.
    Nessa tarefa imensa, complexa e rdua em vista da diversidade de fontes e
da disperso dos documentos, a UNESCO procedeu por etapas. A primeira
fase (1965-1969) consistiu em trabalhos de documentao e de planificao da
obra. Atividades operacionais foram conduzidas in loco, atravs de pesquisas de
campo: campanhas de coleta da tradio oral, criao de centros regionais de
documentao para a tradio oral, coleta de manuscritos inditos em rabe e
ajami (lnguas africanas escritas em caracteres rabes), compilao de inventrios
de arquivos e preparao de um Guia das fontes da histria da frica, publicado
posteriormente, em nove volumes, a partir dos arquivos e bibliotecas dos pases
da Europa. Por outro lado, foram organizados encontros, entre especialistas
africanos e de outros continentes, durante os quais se discutiu questes
metodolgicas e traou-se as grandes linhas do projeto, aps atencioso exame
das fontes disponveis.
    Uma segunda etapa (1969 a 1971) foi consagrada ao detalhamento e 
articulao do conjunto da obra. Durante esse perodo, realizaram-se reunies
internacionais de especialistas em Paris (1969) e Addis-Abeba (1970), com o
propsito de examinar e detalhar os problemas relativos  redao e  publicao
da obra: apresentao em oito volumes, edio principal em ingls, francs e
rabe, assim como tradues para lnguas africanas, tais como o kiswahili, o
hawsa, o peul, o yoruba ou o lingala. Igualmente esto previstas tradues para
o alemo, russo, portugus, espanhol e chins1, alm de edies resumidas,
destinadas a um pblico mais amplo, tanto africano quanto internacional.


1    O volume I foi publicado em ingls, rabe, chins, coreano, espanhol, francs, hawsa, italiano, kiswahi-
     li, peul e portugus; o volume II, em ingls, rabe, chins, coreano, espanhol, francs, hawsa, italiano,
     kiswahili, peul e portugus; o volume III, em ingls, rabe, espanhol e francs; o volume IV, em ingls,
     rabe, chins, espanhol, francs e portugus; o volume V, em ingls e rabe; o volume VI, em ingls,
     rabe e francs; o volume VII, em ingls, rabe, chins, espanhol, francs e portugus; o VIII, em ingls
     e francs.
XXIV                                                   Metodologia e pr-histria da frica



    A terceira e ltima fase constituiu-se na redao e na publicao do trabalho.
Ela comeou pela nomeao de um Comit Cientfico Internacional de trinta e
nove membros, composto por africanos e no africanos, na respectiva proporo
de dois teros e um tero, a quem incumbiu-se a responsabilidade intelectual
pela obra.
    Interdisciplinar, o mtodo seguido caracterizou-se tanto pela pluralidade
de abordagens tericas quanto de fontes. Dentre essas ltimas,  preciso
citar primeiramente a arqueologia, detentora de grande parte das chaves da
histria das culturas e das civilizaes africanas. Graas a ela, admite-se, nos
dias atuais, reconhecer que a frica foi, com toda probabilidade, o bero da
humanidade, palco de uma das primeiras revolues tecnolgicas da histria,
ocorrida no perodo Neoltico. A arqueologia igualmente mostrou que, na
frica, especificamente no Egito, desenvolveu-se uma das antigas civilizaes
mais brilhantes do mundo. Outra fonte digna de nota  a tradio oral que,
at recentemente desconhecida, aparece hoje como uma preciosa fonte para
a reconstituio da histria da frica, permitindo seguir o percurso de seus
diferentes povos no tempo e no espao, compreender, a partir de seu interior, a
viso africana do mundo, e apreender os traos originais dos valores que fundam
as culturas e as instituies do continente.
    Saber-se- reconhecer o mrito do Comit Cientfico Internacional
encarregado dessa Histria geral da frica, de seu relator, bem como de seus
coordenadores e autores dos diferentes volumes e captulos, por terem lanado
uma luz original sobre o passado da frica, abraado em sua totalidade, evitando
todo dogmatismo no estudo de questes essenciais, tais como: o trfico negreiro,
essa "sangria sem fim", responsvel por umas das deportaes mais cruis da
histria dos povos e que despojou o continente de uma parte de suas foras
vivas, no momento em que esse ltimo desempenhava um papel determinante
no progresso econmico e comercial da Europa; a colonizao, com todas suas
consequncias nos mbitos demogrfico, econmico, psicolgico e cultural;
as relaes entre a frica ao sul do Saara e o mundo rabe; o processo de
descolonizao e de construo nacional, mobilizador da razo e da paixo de
pessoas ainda vivas e muitas vezes em plena atividade. Todas essas questes
foram abordadas com grande preocupao quanto  honestidade e ao rigor
cientfico, o que constitui um mrito no desprezvel da presente obra. Ao fazer o
balano de nossos conhecimentos sobre a frica, propondo diversas perspectivas
sobre as culturas africanas e oferecendo uma nova leitura da histria, a Histria
geral da frica tem a indiscutvel vantagem de destacar tanto as luzes quanto as
sombras, sem dissimular as divergncias de opinio entre os estudiosos.
Prefcio                                                                                                 XXV



    Ao demonstrar a insuficincia dos enfoques metodolgicos amide utilizados
na pesquisa sobre a frica, essa nova publicao convida  renovao e ao
aprofundamento de uma dupla problemtica, da historiografia e da identidade
cultural, unidas por laos de reciprocidade. Ela inaugura a via, como todo
trabalho histrico de valor, para mltiplas novas pesquisas.
     assim que, em estreita colaborao com a UNESCO, o Comit Cientfico
Internacional decidiu empreender estudos complementares com o intuito de
aprofundar algumas questes que permitiro uma viso mais clara sobre certos
aspectos do passado da frica. Esses trabalhos, publicados na coleo UNESCO
 Histria geral da frica: estudos e documentos, viro a constituir, de modo til,
um suplemento  presente obra2. Igualmente, tal esforo desdobrar-se- na
elaborao de publicaes versando sobre a histria nacional ou sub-regional.
    Essa Histria geral da frica coloca simultaneamente em foco a unidade
histrica da frica e suas relaes com os outros continentes, especialmente
com as Amricas e o Caribe. Por muito tempo, as expresses da criatividade dos
afrodescendentes nas Amricas haviam sido isoladas por certos historiadores em
um agregado heterclito de africanismos; essa viso, obviamente, no corresponde
quela dos autores da presente obra. Aqui, a resistncia dos escravos deportados
para a Amrica, o fato tocante ao marronage [fuga ou clandestinidade] poltico
e cultural, a participao constante e massiva dos afrodescendentes nas lutas da
primeira independncia americana, bem como nos movimentos nacionais de
libertao, esses fatos so justamente apreciados pelo que eles realmente foram:
vigorosas afirmaes de identidade que contriburam para forjar o conceito
universal de humanidade.  hoje evidente que a herana africana marcou, em
maior ou menor grau, segundo as regies, as maneiras de sentir, pensar, sonhar
e agir de certas naes do hemisfrio ocidental. Do sul dos Estados Unidos ao
norte do Brasil, passando pelo Caribe e pela costa do Pacfico, as contribuies
culturais herdadas da frica so visveis por toda parte; em certos casos, inclusive,
elas constituem os fundamentos essenciais da identidade cultural de alguns dos
elementos mais importantes da populao.



2    Doze nmeros dessa srie foram publicados; eles tratam respectivamente sobre: n. 1 - O povoamento
     do Egito antigo e a decodificao da escrita merotica; n. 2 - O trfico negreiro do sculo XV ao sculo
     XIX; n. 3  Relaes histricas atravs do Oceano ndico; n. 4  A historiografia da frica Meridional;
     n. 5  A descolonizao da frica: frica Meridional e Chifre da frica [Nordeste da frica]; n. 6 
     Etnonmias e toponmias; n. 7  As relaes histricas e socioculturais entre a frica e o mundo rabe; n.
     8  A metodologia da histria da frica contempornea; n. 9  O processo de educao e a historiografia
     na frica; n. 10  A frica e a Segunda Guerra Mundial; n. 11  Lbia Antiqua; n. 12  O papel dos
     movimentos estudantis africanos na evoluo poltica e social da frica de 1900 a 1975.
XXVI                                                    Metodologia e pr-histria da frica



    Igualmente, essa obra faz aparecerem nitidamente as relaes da frica com
o sul da sia atravs do Oceano ndico, alm de evidenciar as contribuies
africanas junto a outras civilizaes em seu jogo de trocas mtuas.
    Estou convencido de que os esforos dos povos da frica para conquistar
ou reforar sua independncia, assegurar seu desenvolvimento e consolidar
suas especificidades culturais devem enraizar-se em uma conscincia histrica
renovada, intensamente vivida e assumida de gerao em gerao.
    Minha formao pessoal, a experincia adquirida como professor e, desde os
primrdios da independncia, como presidente da primeira comisso criada com
vistas  reforma dos programas de ensino de histria e de geografia de certos
pases da frica Ocidental e Central, ensinaram-me o quanto era necessrio,
para a educao da juventude e para a informao do pblico, uma obra de
histria elaborada por pesquisadores que conhecessem desde o seu interior
os problemas e as esperanas da frica, pensadores capazes de considerar o
continente em sua totalidade.
    Por todas essas razes, a UNESCO zelar para que essa Histria Geral da
frica seja amplamente difundida, em numerosos idiomas, e constitua base
da elaborao de livros infantis, manuais escolares e emisses televisivas ou
radiofnicas. Dessa forma, jovens, escolares, estudantes e adultos, da frica e de
outras partes, podero ter uma melhor viso do passado do continente africano e
dos fatores que o explicam, alm de lhes oferecer uma compreenso mais precisa
acerca de seu patrimnio cultural e de sua contribuio ao progresso geral da
humanidade. Essa obra dever ento contribuir para favorecer a cooperao
internacional e reforar a solidariedade entre os povos em suas aspiraes
por justia, progresso e paz. Pelo menos, esse  o voto que manifesto muito
sinceramente.
    Resta-me ainda expressar minha profunda gratido aos membros do
Comit Cientfico Internacional, ao redator, aos coordenadores dos diferentes
volumes, aos autores e a todos aqueles que colaboraram para a realizao desta
prodigiosa empreitada. O trabalho por eles efetuado e a contribuio por eles
trazida mostram, com clareza, o quanto homens vindos de diversos horizontes,
conquanto animados por uma mesma vontade e igual entusiasmo a servio da
verdade de todos os homens, podem fazer, no quadro internacional oferecido
pela UNESCO, para lograr xito em um projeto de tamanho valor cientfico
e cultural. Meu reconhecimento igualmente estende-se s organizaes e aos
governos que, graas a suas generosas doaes, permitiram  UNESCO publicar
essa obra em diferentes lnguas e assegurar-lhe a difuso universal que ela merece,
em prol da comunidade internacional em sua totalidade.
Apresentao do Projeto                                                XXVII




     APRESENTAO DO PROJETO
                        pelo Professor Bethwell Allan Ogot
                 Presidente do Comit Cientfico Internacional
                 para a redao de uma Histria Geral da frica




    A Conferncia Geral da UNESCO, em sua dcima sexta sesso, solicitou
ao Diretor-geral que empreendesse a redao de uma Histria Geral da frica.
Esse considervel trabalho foi confiado a um Comit Cientfico Internacional
criado pelo Conselho Executivo em 1970.
    Segundo os termos dos estatutos adotados pelo Conselho Executivo da
UNESCO, em 1971, esse Comit compe-se de trinta e nove membros
responsveis (dentre os quais dois teros africanos e um tero de no africanos),
nomeados pelo Diretor-geral da UNESCO por um perodo correspondente 
durao do mandato do Comit.
    A primeira tarefa do Comit consistiu em definir as principais caractersticas
da obra. Ele definiu-as em sua primeira sesso, nos seguintes termos:
     Em que pese visar a maior qualidade cientfica possvel, a Histria Geral
       da frica no busca a exausto e se pretende uma obra de sntese que
       evitar o dogmatismo. Sob muitos aspectos, ela constitui uma exposio
       dos problemas indicadores do atual estdio dos conhecimentos e das
       grandes correntes de pensamento e pesquisa, no hesitando em assinalar,
       em tais circunstncias, as divergncias de opinio. Ela assim preparar o
       caminho para posteriores publicaes.
     A frica  aqui considerada como um todo. O objetivo  mostrar as
       relaes histricas entre as diferentes partes do continente, muito amide
XXVIII                                                     Metodologia e pr-histria da frica



         subdividido, nas obras publicadas at o momento. Os laos histricos
         da frica com os outros continentes recebem a ateno merecida e
         so analisados sob o ngulo dos intercmbios mtuos e das influncias
         multilaterais, de forma a fazer ressurgir, oportunamente, a contribuio
         da frica para o desenvolvimento da humanidade.
        A Histria Geral da frica consiste, antes de tudo, em uma histria das ideias
         e das civilizaes, das sociedades e das instituies. Ela fundamenta-se sobre
         uma grande diversidade de fontes, aqui compreendidas a tradio oral e a
         expresso artstica.
        A Histria Geral da frica  aqui essencialmente examinada de seu
         interior. Obra erudita, ela tambm , em larga medida, o fiel reflexo da
         maneira atravs da qual os autores africanos veem sua prpria civilizao.
         Embora elaborada em mbito internacional e recorrendo a todos os
         dados cientficos atuais, a Histria ser igualmente um elemento capital
         para o reconhecimento do patrimnio cultural africano, evidenciando os
         fatores que contribuem para a unidade do continente. Essa vontade de
         examinar os fatos de seu interior constitui o ineditismo da obra e poder,
         alm de suas qualidades cientficas, conferir-lhe um grande valor de
         atualidade. Ao evidenciar a verdadeira face da frica, a Histria poderia,
         em uma poca dominada por rivalidades econmicas e tcnicas, propor
         uma concepo particular dos valores humanos.
   O Comit decidiu apresentar a obra, dedicada ao estudo de mais de 3 milhes
de anos de histria da frica, em oito volumes, cada qual compreendendo
aproximadamente oitocentas pginas de texto com ilustraes (fotos, mapas e
desenhos tracejados).
   Para cada volume designou-se um coordenador principal, assistido, quando
necessrio, por um ou dois codiretores assistentes.
   Os coordenadores dos volumes so escolhidos, tanto entre os membros
do Comit quanto fora dele, em meio a especialistas externos ao organismo,
todos eleitos por esse ltimo, pela maioria de dois teros. Eles se encarregam da
elaborao dos volumes, em conformidade com as decises e segundo os planos
decididos pelo Comit. So eles os responsveis, no plano cientfico, perante
o Comit ou, entre duas sesses do Comit, perante o Conselho Executivo,
pelo contedo dos volumes, pela redao final dos textos ou ilustraes e, de
uma maneira geral, por todos os aspectos cientficos e tcnicos da Histria. 
o Conselho Executivo quem aprova, em ltima instncia, o original definitivo.
Uma vez considerado pronto para a edio, o texto  remetido ao Diretor-Geral
Apresentao do Projeto                                                   XXIX



da UNESCO. A responsabilidade pela obra cabe, dessa forma, ao Comit ou,
entre duas sesses do Comit, ao Conselho Executivo.
    Cada volume compreende por volta de 30 captulos. Cada qual redigido por
um autor principal, assistido por um ou dois colaboradores, caso necessrio.
    Os autores so escolhidos pelo Comit em funo de seu curriculum vitae.
A preferncia  concedida aos autores africanos, sob reserva de sua adequao
aos ttulos requeridos. Alm disso, o Comit zela, tanto quanto possvel, para
que todas as regies da frica, bem como outras regies que tenham mantido
relaes histricas ou culturais com o continente, estejam de forma equitativa
representadas no quadro dos autores.
    Aps aprovao pelo coordenador do volume, os textos dos diferentes
captulos so enviados a todos os membros do Comit para submisso  sua
crtica.
    Ademais e finalmente, o texto do coordenador do volume  submetido
ao exame de um comit de leitura, designado no seio do Comit Cientfico
Internacional, em funo de suas competncias; cabe a esse comit realizar uma
profunda anlise tanto do contedo quanto da forma dos captulos.
    Ao Conselho Executivo cabe aprovar, em ltima instncia, os originais.
    Tal procedimento, aparentemente longo e complexo, revelou-se necessrio,
pois permite assegurar o mximo de rigor cientfico  Histria Geral da frica.
Com efeito, houve ocasies nas quais o Conselho Executivo rejeitou originais,
solicitou reestruturaes importantes ou, inclusive, confiou a redao de um
captulo a um novo autor. Eventualmente, especialistas de uma questo ou
perodo especfico da histria foram consultados para a finalizao definitiva
de um volume.
    Primeiramente, uma edio principal da obra em ingls, francs e rabe ser
publicada, posteriormente haver uma edio em forma de brochura, nesses
mesmos idiomas.
    Uma verso resumida em ingls e francs servir como base para a traduo
em lnguas africanas. O Comit Cientfico Internacional determinou quais
os idiomas africanos para os quais sero realizadas as primeiras tradues: o
kiswahili e o haussa.
    Tanto quanto possvel, pretende-se igualmente assegurar a publicao da
Histria Geral da frica em vrios idiomas de grande difuso internacional
(dentre outros: alemo, chins, italiano, japons, portugus, russo, etc.).
    Trata-se, portanto, como se pode constatar, de uma empreitada gigantesca
que constitui um ingente desafio para os historiadores da frica e para a
comunidade cientfica em geral, bem como para a UNESCO que lhe oferece
XXX                                                     Metodologia e pr-histria da frica



sua chancela. Com efeito, pode-se facilmente imaginar a complexidade de uma
tarefa tal qual a redao de uma histria da frica, que cobre no espao todo um
continente e, no tempo, os quatro ltimos milhes de anos, respeitando, todavia,
as mais elevadas normas cientficas e convocando, como  necessrio, estudiosos
pertencentes a todo um leque de pases, culturas, ideologias e tradies histricas.
Trata-se de um empreendimento continental, internacional e interdisciplinar,
de grande envergadura.
    Em concluso, obrigo-me a sublinhar a importncia dessa obra para a frica
e para todo o mundo. No momento em que os povos da frica lutam para se unir
e para, em conjunto, melhor forjar seus respectivos destinos, um conhecimento
adequado sobre o passado da frica, uma tomada de conscincia no tocante
aos elos que unem os Africanos entre si e a frica aos demais continentes, tudo
isso deveria facilitar, em grande medida, a compreenso mtua entre os povos
da Terra e, alm disso, propiciar sobretudo o conhecimento de um patrimnio
cultural cuja riqueza consiste em um bem de toda a Humanidade.


                                                             Bethwell Allan Ogot
                                                         Em 8 de agosto de 1979
                                    Presidente do Comit Cientfico Internacional
                                   para a redao de uma Histria Geral da frica
Introduo Geral                                                                                      XXXI




                   INTRODUO GERAL
                                             Joseph KiZerbo




    A frica*1tem uma histria. J foi o tempo em que nos mapas-mndi e
portulanos, sobre grandes espaos, representando esse continente ento marginal
e servil, havia uma frase lapidar que resumia o conhecimento dos sbios a respeito
dele e que, no fundo, soava tambm como um libi: "Ibi sunt leones". A existem
lees. Depois dos lees, foram descobertas as minas, grandes fontes de lucro, e
as "tribos indgenas" que eram suas proprietrias, mas que foram incorporadas
s minas como propriedades das naes colonizadoras.

*    Nota do coordenador do volume: A palavra FRICA possui at o presente momento uma origem difcil
     de elucidar. Foi imposta a partir dos romanos sob a forma AFRICA, que sucedeu ao termo de origem
     grega ou egpcia Lybia, pas dos Lebu ou Lubin do Gnesis. Aps ter designado o litoral norte-africano,
     a palavra frica passou a aplicar-se ao conjunto do continente, desde o fim do sculo I antes da Era
     Crist.
    Mas qual  a origem primeira do nome? Comeando pelas mais plausveis, pode-se dar as seguintes verses:
         A palavra frica teria vindo do nome de um povo (berbere) situado ao sul de Cartago: os Afrig. De onde
          Afriga ou Africa para designar a regio dos Afrig.
         Uma outra etimologia da palavra frica  retirada de dois termos fencios, um dos quais significa espiga,
          smbolo da fertilidade dessa regio, e o outro, Pharikia, regio das frutas.
         A palavra frica seria derivada do latim aprica (ensolarado) ou do grego aprik (isento de frio).
         Outra origem poderia ser a raiz fencia faraga, que exprime a ideia de separao, de dispora. Enfatizemos
          que essa mesma raiz  encontrada em certas lnguas africanas (bambara).
         Em snscrito e hindi, a raiz apara ou africa designa o que, no plano geogrfico, est situado "depois", ou
          seja, o Ocidente. A frica  um continente ocidental.
         Uma tradio histrica retomada por Leo, o Africano, diz que um chefe iemenita chamado Africus teria
          invadido a frica do Norte no segundo milnio antes da Era Crist e fundado uma cidade chamada
          Afrikyah. Mas  mais provvel que o termo rabe Afriqiyah seja a transliterao rabe da palavra frica.
         Chegou-se mesmo a dizer que Afer era neto de Abrao e companheiro de Hrcules!
XXXII                                                   Metodologia e pr-histria da frica



    Mais tarde, depois das tribos indgenas, chegou a vez dos povos impacientes
com opresso, cujos pulsos j batiam no ritmo febril das lutas pela liberdade.
Com efeito, a histria da frica, como a de toda a humanidade,  a histria
de uma tomada de conscincia. Nesse sentido, a histria da frica deve ser
reescrita. E isso porque, at o presente momento, ela foi mascarada, camuflada,
desfigurada, mutilada. Pela "fora das circunstncias", ou seja, pela ignorncia e
pelo interesse. Abatido por vrios sculos de opresso, esse continente presenciou
geraes de viajantes, de traficantes de escravos, de exploradores, de missionrios,
de procnsules, de sbios de todo tipo, que acabaram por fixar sua imagem no
cenrio da misria, da barbrie, da irresponsabilidade e do caos. Essa imagem
foi projetada e extrapolada ao infinito ao longo do tempo, passando a justificar
tanto o presente quanto o futuro.
    No se trata aqui de construir uma histria-revanche, que relanaria a
histria colonialista como um bumerangue contra seus autores, mas de mudar
a perspectiva e ressuscitar imagens "esquecidas" ou perdidas. Torna-se necessrio
retornar  cincia, a fim de que seja possvel criar em todos uma conscincia
autntica.  preciso reconstruir o cenrio verdadeiro.  tempo de modificar o
discurso. Se so esses os objetivos e o porqu desta iniciativa, o como  ou seja,
a metodologia  , como sempre, muito mais penoso.  justamente esse um dos
objetivos desse primeiro volume da Histria Geral da frica, elaborada sob o
patrocnio da UNESCO.


   I. PORQU?
    Trata-se de uma iniciativa cientfica. As sombras e obscuridades que cercam o
passado desse continente constituem um desafio apaixonante para a curiosidade
humana. A histria da frica  pouco conhecida. Quantas genealogias mal
feitas! Quantas estruturas esboadas com pontilhados impressionistas ou mesmo
encobertas por espessa neblina! Quantas sequncias que parecem absurdas
porque o trecho precedente do filme foi cortado! Esse filme desarticulado e
parcelado, que no  seno a imagem de nossa ignorncia, ns o transformamos,
por uma formao deplorvel ou viciosa, na imagem real da histria da frica
tal como efetivamente se desenrolou. Nesse contexto, no  de causar espanto o
lugar infinitamente pequeno e secundrio que foi dedicado  histria africana
em todas as histrias da humanidade ou das civilizaes.
    Porm, h algumas dcadas, milhares de pesquisadores, muitos de grande
ou mesmo de excepcional mrito, vm procurando resgatar pores inteiras da
Introduo Geral                                                             XXXIII



antiga fisionomia da frica. A cada ano aparecem dezenas de novas publicaes
cuja tica  cada vez mais positiva. Descobertas africanas, por vezes espetaculares,
questionam o significado de certas fases da histria da humanidade em seu
conjunto.
    Mas essa mesma proliferao comporta certos perigos: risco de cacofonia
pela profuso de pesquisas desordenadas ou sem coordenao efetiva; discusses
inteis entre escolas que tendem a dar mais importncia aos pesquisadores que
ao objeto das pesquisas, etc. Por essas razes, e pela honra da cincia, tornava-se
importante que uma tomada de posio acima de qualquer suspeita fosse levada
a cabo por equipes de pesquisadores africanos e no-africanos, sob os auspcios
da UNESCO e sob a autoridade de um conselho cientfico internacional e de
coordenadores africanos. O nmero e a qualidade dos pesquisadores mobilizados
para esta nova grande descoberta da frica denotam uma admirvel experincia
de cooperao internacional. Mais que qualquer outra disciplina, a histria 
uma cincia humana, pois ela sai bem quente da forja ruidosa e tumultuada
dos povos. Modelada realmente pelo homem nos canteiros da vida, construda
mentalmente pelo homem nos laboratrios, bibliotecas e stios de escavaes, a
histria  igualmente feita para o homem, para o povo, para aclarar e motivar
sua conscincia.
    Para os africanos, a histria da frica no  um espelho de Narciso, nem um
pretexto sutil para se abstrair das tarefas da atualidade. Essa diverso alienadora
poderia comprometer os objetivos cientficos do projeto. Em contrapartida, a
ignorncia de seu prprio passado, ou seja, de uma grande parte de si mesmo,
no seria ainda mais alienadora? Todos os males que acometem a frica hoje,
assim como todas as venturas que a se revelam, resultam de inumerveis
foras impulsionadas pela histria. E da mesma forma que a reconstituio
do desenvolvimento de uma doena  a primeira etapa de um projeto racional
de diagnstico e teraputica, a primeira tarefa de anlise global do continente
africano  histrica. A menos que optssemos pela inconscincia e pela alienao,
no poderamos viver sem memria ou com a memria do outro. Ora, a histria
 a memria dos povos. Esse retorno a si mesmo pode, alis, revestir-se do valor
de uma catarse libertadora, como acontece com o processo de submerso em si
prprio efetivado pela psicanlise, que, ao revelar as bases dos entraves de nossa
personalidade, desata de uma s vez os complexos que atrelam nossa conscincia
s razes profundas do subconsciente. Mas para no substituir um mito por
outro,  preciso que a verdade histrica, matriz da conscincia desalienada e
autntica, seja rigorosamente examinada e fundada sobre provas.
XXXIV                                                                Metodologia e pr-histria da frica



    II. COMO?
    Passemos agora  problemtica questo do como, ou seja, da metodologia.
Neste campo, como em outros,  necessrio evitar tanto a singularizao excessiva
da frica quanto a tendncia a alinh-la demasiadamente segundo normas
estrangeiras. De acordo com alguns, seria preciso esperar que fossem encontrados
os mesmos tipos de documentos existentes na Europa, a mesma panplia de
peas escritas ou epigrfica, para que fosse possvel falar numa verdadeira histria
da frica. Para estes, em resumo, os problemas do historiador so sempre os
mesmos, dos trpicos aos plos. Torna-se necessrio reafirmar claramente que
no se trata de amordaar a razo sob pretexto de que falta substncia a ser-lhe
fornecida. No se deveria considerar a razo como tropicalizada pelo fato de ser
exercida nos trpicos. A razo, soberana, no conhece o imprio da geografia.
Suas normas e seus procedimentos fundamentais, em particular a aplicao do
princpio da causalidade, so os mesmos em toda parte. Mas, justamente por
no ser cega, a razo deve apreender diferentemente realidades distintas, para
que essa apreenso seja sempre muito firme e precisa. Assim, os princpios da
crtica interna e externa se aplicaro segundo uma estratgia mental diferente
para o canto pico Sundiata Fasa2, para a capitular De Villis ou para as circulares
enviadas aos prefeitos de Napoleo. Os mtodos e tcnicas sero diferentes.
Alis, essa estratgia no ser exatamente a mesma em todas as partes da frica;
nesse sentido, o vale do Nilo e a fachada do Mediterrneo se encontram, para
reconstruo histrica, numa situao menos original em relao  Europa do
que a frica subsaariana.
    Na verdade, as dificuldades especficas da histria da frica podem ser
constatadas j na observao das realidades da geografia fsica desse continente.
Continente solitrio, se  que existe algum, a frica parece dar as costas para
o resto do Velho Mundo, ao qual se encontra ligada apenas pelo frgil cordo
umbilical do istmo de Suez. No sentido oposto, ela mergulha integralmente sua
massa compacta na direo das guas austrais, rodeada por macios costeiros,
que os rios foram atravs de desfiladeiros "heroicos" que constituem, por sua
vez, obstculos  penetrao. A nica passagem importante entre o Saara e
os montes abissnios encontra-se obstruda pelos imensos pntanos de Bahr
el-Ghazal. Ventos e correntes martimas extremamente violentos montam guarda
do Cabo Branco ao Cabo Verde. Entretanto, no interior do continente, trs

2   Elogio a Sundiata, em lngua malinke. Fundador do Imprio do Mali no sculo XIII, Sundiata  um dos
    heris mais populares da histria africana.
Introduo Geral                                                                                      XXXV



desertos encarregam-se de agravar o isolamento exterior por uma diviso interna.
Ao sul, o Calaari. Ao centro, o "deserto verde" da floresta equatorial, temvel
refgio no qual o homem lutar para se impor. Ao norte, o Saara, campeo dos
desertos, imenso filtro continental, oceano fulvo dos ergs e regs que, com a franja
montanhosa da cordilheira dos Atlas, dissocia o destino da zona mediterrnea
do restante do continente. Sobretudo durante a pr-histria, essas potncias
ecolgicas, mesmo sem serem muralhas estanques, pesaram muito no destino
africano em todos os aspectos. Deram tambm um valor singular a todas essas
seteiras naturais que desempenharam o papel de passarelas na explorao do
territrio africano, levada a efeito pelas populaes que a habitavam h milhes
de anos atrs. Citemos apenas a gigantesca fenda meridiana do Rift Valley, que
se estende do centro da frica ao Iraque, passando atravs do molhe etiopiano.
No sentido mais transversal, a curva dos vales do Sanga, do Ubangui e do Zaire
deve ter constitudo igualmente um corredor privilegiado. No  por acaso que
os primeiros reinados da frica negra tenham se desenvolvido nessas regies
das terras abertas, estes sahels3 que eram beneficiados simultaneamente por uma
permeabilidade interna, por uma certa abertura para o exterior e por contatos
com as zonas africanas vizinhas, dotadas de recursos diferentes e complementares.
Essas regies abertas, que experimentaram um ritmo de evoluo mais rpido,
constituem a prova a contrario de que o isolamento foi um dos fatores-chave
da lentido do progresso da frica em determinados setores4. "As civilizaes
repousam sobre a terra", escreve F. Braudel. E acrescenta: "A civilizao  filha do
nmero". Ora, a prpria vastido desse continente, com uma populao diluda
e, portanto, facilmente itinerante, em meio a uma natureza ao mesmo tempo
generosa (frutas, minerais, etc.) e cruel (endemias, epidemias)5, impediu que fosse
atingido o limiar de concentrao demogrfica que tem sido quase sempre uma
das precondies das mudanas qualitativas importantes no domnio econmico,
social e poltico. Alm disso, a severa puno demogrfica da escravido desde
os tempos imemoriais e, sobretudo, aps o comrcio negreiro do sculo XV ao
XX, contribuiu muito para privar a frica do tnus humano e da estabilidade
necessrios a toda criao eminente, mesmo que seja no plano tecnolgico. A
natureza e os homens, a geografia e a histria no foram benevolentes com a

3   Do rabe sahil: margem. Aqui, margem do deserto, considerado como um oceano.
4   O fator climtico no deve ser negligenciado. O professor Thurstan Shaw destacou o fato de que certos
    cereais adaptados ao clima mediterrneo (chuvas de inverno) no puderam ser cultivados no vale do
    Nger, porque ao sul do paralelo 18, latitude norte, e em virtude da barreira da frente intertropical, sua
    aclimatao era impossvel. Cf. J. A. H. XII 1, 1971, p. 143-153.
5   Sobre esse assunto ver J. FORD, 1971.
XXXVI                                                                  Metodologia e pr-histria da frica



frica.  indispensvel retornar a essas condies fundamentais do processo
evolutivo, para que seja possvel colocar os problemas em termos objetivos e
no sob a forma de mitos aberrantes como a inferioridade racial, o tribalismo
congnito e a pretensa passividade histrica dos africanos. Todas essas abordagens
subjetivas e irracionais apenas mascaram uma ignorncia voluntria.


    A. As fontes difceis
   No que concerne ao continente africano,  preciso reconhecer que o manuseio
das fontes  particularmente difcil. Trs fontes principais constituem os pilares do
conhecimento histrico: os documentos escritos, a arqueologia e a tradio oral.
Essas trs fontes so apoiadas pela lingustica e pela antropologia, que permitem
matizar e aprofundar a interpretao dos dados, por vezes excessivamente brutos
e estreis sem essa abordagem mais ntima. Estaramos errados, entretanto,
em estabelecer a priori uma hierarquia peremptria e definitiva entre essas
diferentes fontes.

    1. As fontes escritas
    Quando no so raras, tais fontes se encontram mal distribudas no tempo e
no espao. Os sculos mais "obscuros" da histria africana so justamente aqueles
que no se beneficiam do saber claro e preciso que emana dos testemunhos escritos,
por exemplo, os sculos imediatamente anteriores e posteriores ao nascimento
de Cristo (a frica do Norte  uma exceo). No entanto, mesmo quando esse
testemunho existe, sua interpretao implica frequentemente ambiguidades e
dificuldades. Nesse sentido, a partir de uma releitura das "viagens" de Ibn Battuta
e de um novo exame das diversas grafias dos topnimos empregados por este
autor e por al'Umari, certos historiadores so levados a contestar que Niani,
situada s margens do rio Sankarani, tivesse sido a capital do antigo Mali6.
Do ponto de vista quantitativo, massas considerveis de materiais escritos de
carter arquivstico ou narrativo permanecem ainda inexploradas, como provam
os recentes inventrios parciais dos manuscritos inditos relativos  histria da
frica negra exumados de bibliotecas do Marrocos7, da Arglia e da Europa.


6   Cf. HUNWICK, J. O. 1973, p. 195-208. O autor corre o risco do argumento a silentio: "Se Ibn Battuta
    tivesse atravessado o Nger ou o Senegal, teria feito referncia a isso".
7   Cf. UNESCO, Coletnea seletiva de textos em rabe proveniente dos arquivos marroquinos, pelo professor
    Mohammed Ibraim EL KEITANI, SCH/VS/894.
Introduo Geral                                                           XXXVII



Tambm nas bibliotecas particulares de grandes eruditos sudaneses, encontradas
em cidades da curva do Nger8, h manuscritos inditos cujos ttulos permitem
entrever files analticos novos e promissores. A UNESCO estabeleceu em
Tombuctu o Centro Ahmed Baba para promover a coleta desses documentos.
Nos fundos de arquivos existentes no Ir, no Iraque, na Armnia, na ndia e na
China, sem falar das Amricas, muitos fragmentos da histria da frica esto
 espera da perspiccia inventiva do pesquisador. Nos arquivos do primeiro-
-ministro de Istambul, por exemplo, onde esto classificados os registros dos
decretos do Conselho de Estado Imperial Otomano, uma correspondncia
indita datada de maio de 1577, enviada pelo sulto Murad III ao Mai Idriss
Alaoma e ao bei de Tnis, projetam nova luz sobre a diplomacia do Kanem
Bornu daquela poca e tambm sobre a situao do Fezzan9.
    Um trabalho ativo de coleta vem sendo realizado com xito pelos institutos
de estudos africanos e centros de pesquisas histricas nas regies africanas que
foram penetradas pela cultura islmica. Por outro lado, novos guias editados pelo
Conselho Internacional dos Arquivos, sob os auspcios da UNESCO, propem-
-se a orientar os pesquisadores na floresta de documentos espalhados em todas
as partes do mundo ocidental.
    Apenas um grande esforo de edies e reedies judiciosas, de traduo
e difuso na frica permitir, pelo efeito multiplicador desses novos fluxos
conjugados, transpor um novo limiar qualitativo e crtico sobre a viso do passado
africano. Por outro lado, quase to importante quanto a grande quantidade de
documentos novos ser a atitude dos pesquisadores ao examin-los.  assim
que numerosos textos explorados desde o sculo XIX ou mesmo depois, mas
ainda no perodo colonial, reclamam imperiosamente uma releitura expurgada
de qualquer preconceito anacrnico e marcada por uma viso endgena. Assim
sendo, as fontes escritas a partir das escrituras subsaarianas (vai, bamum, ajami)
no devem ser negligenciadas.

    2. A arqueologia
    Os testemunhos mudos revelados pela arqueologia so em geral mais
eloquentes ainda do que os testemunhos oficiais dos autores de certas crnicas.
A arqueologia, por suas prestigiosas descobertas, j deu uma contribuio
valiosa  histria africana, sobretudo quando no h crnica oral ou escrita


8   Cf. tudes Maliennes, I. S. H. M., n. 3, set. 1972.
9   MARTIN, B. G. 1969, p. 15-27.
XXXVIII                                                 Metodologia e pr-histria da frica



disponvel (como  o caso de milhares de anos do passado africano). Apenas
objetos-testemunho, enterrados com aqueles a quem testemunham, velam sob
o pesado sudrio de terra por um passado sem rosto e sem voz. Alguns deles
so particularmente significativos como indicadores e medidas da civilizao:
objetos de ferro e a tecnologia envolvida em sua fabricao, cermicas com
suas tcnicas de produo e estilos, peas de vidro, escrituras e estilos grficos,
tcnicas de navegao, pesca e tecelagem, produtos alimentcios, e tambm
estruturas geomorfolgicas, hidrulicas e vegetais ligadas  evoluo do clima...
A linguagem dos achados arqueolgicos possui, por sua prpria natureza, algo de
objetivo e irrecusvel. Assim, o estudo da tipologia das cermicas e dos objetos
de osso e metal encontrados na regio ngero-chadiana do Saara demonstra a
ligao entre os povos pr-islmicos (Sao) da bacia chadiana e as reas culturais
que se estendem at o Nilo e o deserto lbio. Estatuetas de argila cozida com
talabartes cruzados, ornatos corporais das estatuetas, formas de vasos e braceletes,
arpes e ossos, cabeas ou pontas de flechas e facas de arremesso ressuscitam
assim, graas a seus parentescos, as solidariedades vivas de pocas antigas10, para
alm desta paisagem contempornea massacrada pela solido e pela inrcia.
Diante disso, a localizao, a classificao e a proteo dos stios arqueolgicos
africanos se impem como prioridade de grande urgncia, antes que predadores
ou profanos irresponsveis e turistas sem objetivos cientficos os pilhem e
os desorganizem, despojando-os, dessa maneira, de qualquer valor histrico
srio. Mas a explorao destes stios por projetos prioritrios de escavao em
grande escala s poder desenvolver-se no contexto de programas interafricanos
sustentados por poderosa cooperao internacional.

     3. A tradio oral
   Paralelamente s duas primeiras fontes da histria africana (documentos
escritos e arqueologia), a tradio oral aparece como repositrio e o vetor do
capital de criaes socioculturais acumuladas pelos povos ditos sem escrita:
um verdadeiro museu vivo. A histria falada constitui um fio de Ariadne
muito frgil para reconstituir os corredores obscuros do labirinto do tempo.
Seus guardies so os velhos de cabelos brancos, voz cansada e memria um
pouco obscura, rotulados s vezes de teimosos e meticulosos (veilliesse oblige!):
ancestrais em potencial... So como as derradeiras ilhotas de uma paisagem
outrora imponente, ligada em todos os seus elementos por uma ordem precisa


10   Cf. HUARD, P. 1969, p. 179-224.
Introduo Geral                                                            XXXIX



e que hoje se apresenta erodida, cortada e devastada pelas ondas mordazes do
"modernismo". Fsseis em sursis!
    Cada vez que um deles desaparece,  uma fibra do fio de Ariadne que se
rompe,  literalmente um fragmento da paisagem que se toma subterrneo.
Indubitavelmente, a tradio oral  a fonte histrica mais ntima, mais suculenta
e melhor nutrida pela seiva da autenticidade. "A boca do velho cheira mal" 
diz um provrbio africano  "mas ela profere coisas boas e salutares". Por mais
til que seja, o que  escrito se congela e se desseca. A escrita decanta, disseca,
esquematiza e petrifica: a letra mata. A tradio reveste de carne e de cores,
irriga de sangue o esqueleto do passado. Apresenta sob as trs dimenses aquilo
que muito frequentemente  esmagado sobre a superfcie bidimensional de uma
folha de papel. A alegria da me de Sundiata, transtornada pela cura sbita de
seu filho, ecoa ainda no timbre pico e quente dos griots do Mali (animadores
pblicos; ver captulo 8).  claro que muitos obstculos devem ser ultrapassados
para que se possa peneirar criteriosamente o material da tradio oral e separar
o bom gro dos fatos, da palha das palavras-armadilha  falsas janelas abertas
para a simetria , do brilho e das lantejoulas de frmulas que constituem apenas
a embalagem circunstancial de uma mensagem vinda de longe.
    Costuma-se dizer que a tradio no inspira confiana porque ela  funcional;
como se toda mensagem humana no fosse funcional por definio, incluindo-se
nessa funcionalidade os documentos de arquivos que, por sua prpria inrcia e
sob sua aparente neutralidade objetiva, escondem tantas mentiras por omisso e
revestem o erro de respeitabilidade. Certamente, a tradio pica em particular
 uma recriao paramtica do passado. Uma espcie de psicodrama que revela
 comunidade suas razes e o corpo de valores que sustenta sua personalidade:
um vitico encantado para singrar o rio do tempo em direo ao reino dos
ancestrais.  por isto que a palavra pica no coincide exatamente com a palavra
histrica: cavalga-a atravs de projees anacrnicas a montante e a jusante
do tempo real, com interpenetraes que se assemelham s perturbaes do
relevo em arqueologia. E os escritos, escaparo eles prprios a essas intruses
enigmticas? Aqui, como em toda parte,  preciso procurar a palavra fssil-guia,
tentar encontrar a pedra de toque que identifica o metal puro e rejeita a ganga
e a escria.
    Certamente, no discurso pico, a fragilidade do encadeamento cronolgico
constitui seu verdadeiro calcanhar de Aquiles; as sequncias temporais
subvertidas criam um quebra-cabea onde a imagem do passado no nos chega
de modo claro e estvel como num espelho de boa qualidade, mas como um
reflexo fugaz que dana sobre a agitao da gua. A durao mdia dos reinados
XL                                                       Metodologia e pr-histria da frica



ou das geraes constitui um domnio extremamente controvertido no qual as
extrapolaes feitas a partir de perodos recentes so muito pouco seguras, em
razo das mutaes demogrficas e polticas. Por vezes, um dinasta excepcional
e carismtico polariza sobre si os feitos mais notveis de seus predecessores e
sucessores que, assim, so literalmente eclipsados.  o que acontece com certos
dinastas de Ruanda, como Da Monzon, rei de Segu (incio do sculo XIX), a
quem os griots atribuem toda a grande conquista desse reino.
    Por outro lado, o texto literrio oral retirado de seu contexto  como peixe fora
da gua: morre e se decompe. Isolada, a tradio assemelha-se a essas mscaras
africanas arrebatadas da comunho dos fiis para serem expostas  curiosidade
dos no iniciados. Perde sua carga de sentido e de vida. Por sua prpria existncia
e por ser sempre retomada por novas testemunhas que se encarregam de sua
transmisso, a tradio adapta-se s expectativas de novos auditrios  adaptao
essa que se refere primordialmente  apresentao da mensagem, mas que no
deixa intacto o contedo. E no vemos tambm mercadores ou mercenrios da
tradio que servem  vontade verses de textos escritos reinjetados na prpria
tradio?!
    Enfim, o prprio contedo da mensagem permanece frequentemente
hermtico, esotrico mesmo. Para o africano, a palavra  pesada. Ela  fortemente
ambgua, podendo fazer e desfazer, sendo capaz de acarretar malefcios.  por
isso que sua articulao no se d de modo aberto e direto. A palavra  envolvida
por apologias, aluses, subentendidos e provrbios claro-escuros para as pessoas
comuns, mas luminosos para aqueles que se encontram munidos das antenas
da sabedoria. Na frica, a palavra no  desperdiada. Quanto mais se est em
posio de autoridade, menos se fala em pblico. Mas quando se diz a algum:
"Voc comeu o sapo e jogou a cabea fora", a pessoa compreende que est sendo
acusada de se furtar a uma parte de suas responsabilidades11. Esse hermetismo
das "meias-palavras" indica, ao mesmo tempo, o valor inestimvel e os limites
da tradio oral, uma vez que sua riqueza  praticamente impossvel de ser
transferida integralmente de uma lngua para outra, sobretudo quando esta outra
se encontra estrutural e sociologicamente distante. A tradio acomoda-se muito
pouco  traduo. Desenraizada, ela perde sua seiva e sua autenticidade, pois a
lngua  a "morada do ser". Alis, muitos dos erros que so imputados  tradio
so provenientes de intrpretes incompetentes ou inescrupulosos.




11   Cf. AGUESSY, H. 1972, p. 269-297.
Introduo Geral                                                               XLI



    Seja como for, a validade da tradio oral est amplamente provada nos dias
atuais. Ela  largamente comprovada pelo confronto com as fontes arqueolgicas
ou escriturais, como no caso do stio de Kumbi Saleh, dos vestgios do lago Kisale,
ou mesmo dos acontecimentos do sculo XVI transmitidos pelos Shona, cuja
conformidade com os documentos escritos por viajantes portugueses daquela
poca foi verificada por D. P. Abraham.
    Em suma, o discurso da tradio, seja ela pica, prosaica, didtica ou
tica, pode ser histrico sob um trplice ponto de vista. Em primeiro lugar,
ele  revelador do conjunto de usos e valores que animam um povo e que
condicionam seus atos futuros pela representao dos arqutipos do passado.
Fazendo isso, a epopeia no s reflete, mas tambm cria a histria. Quando Da
Monzon  tratado de "senhor das guas e dos homens", expressa-se com isso o
carter absoluto de seu poder. Contudo, essas mesmas narrativas mostram-no
consultando incessantemente seus guerreiros, seus griots, suas mulheres12. O
senso de honra e de reputao explode na famosa rplica do "canto do arco" em
louvor a Sundiata (Sundiata Fasa): "Saya Kaoussa malo y"13. Esse valor tambm
se exprime muito bem no episdio da luta de Bakary Dian contra os Peul do
Kournari. Ressentido, o bravo Bakary retirara-se para sua aldeia, Dongorongo;
diante das splicas de seu povo para que retomasse o comando das tropas de
Segu, cedeu apenas quando foi tocado na corda sensvel do orgulho e da glria:
"As velhas palavras trocadas, esquece-as.  o teu nome agora que precisa ser
considerado; pois se vem ao mundo para construir um nome. Se nasces, cresces
e morres sem ter um nome, vieste por nada, partiste por nada". Bakary, ento,
exclama: "Griots de Segu, j que vs vistes, no ser impossvel. Farei o que me
pedis, por meu renome. No o farei por Da Monzon. No o farei por ningum
em Segu. F-lo-ei somente por minha reputao. Mesmo depois de minha
morte, isso ser acrescentado ao meu nome".
    Encontramos um trao similar de civilizao e lei, quando Silamaka diz:
"Tendes sorte que me seja proibido matar mensageiros".
    Em suma, a recomposio do passado est longe de ser integralmente
imaginria. Encontram-se a fragmentos de lembranas, files de histria que
frequentemente so mais prosaicos que os ornamentos coloridos da imaginao
pica: "Foi assim que surgiu essa instituio de pastores coletivos nas aldeias
bambara. Se eras escolhido e feito pastor, tornavas-te Peul pblico. Os Peul
pblicos guardavam os rebanhos do rei. Eram homens de etnias diferentes, e

12   Cf. KESTELOOT, L. Tomos 1, 3 e 4.
13   "A morte vale mais do que a desonra".
XLII                                                     Metodologia e pr-histria da frica



seu pastor chefe chamava-se Bonke". Ou ainda "Nessa poca no se usavam
babuchas, mas chinelas de couro de boi curtido, com um cordo na parte da
frente (em torno do dedo grande do p) e um outro no calcanhar". Enfim, a
narrativa pica  salpicada de aluses a tcnicas, a objetos que no so essenciais
ao desenvolvimento da ao, mas que do indcios sobre o modo de vida. "Ele
(Da Monzon) convocou, seus sessenta remadores Somono, trinta homens na
proa e trinta na popa. A piroga estava ricamente decorada". "As escadas so
preparadas e colocadas contra a muralha. Os caadores de Segu sobem de
surpresa e infiltram-se na cidade (...). Os cavaleiros de Segu lanam flechas
flamejantes. As casas da aldeia pegam fogo". Saran, a mulher apaixonada por Da
Monzon, vai umedecer a plvora dos fuzis dos guerreiros de Kore...  por um
diagnstico rigoroso  que s vezes se vale da anlise psicanaltica e neste caso
considera as prprias psicoses do pblico ou dos transmissores da tradio  que
o historiador pode atingir a medula substantiva da realidade histrica.
    Por conseguinte, a multiplicidade de verses transmitidas por cls adversrios,
por exemplo, pelos griots-clientes de cada nobre protetor (horon, dyatigui),
longe de constituir uma desvantagem, representa uma garantia suplementar
para a crtica histrica. E a conformidade das narrativas, como no caso dos
griots bambara e peul, que pertencem a campos inimigos, d um realce particular
 qualidade desse testemunho. A histria falada, por sua prpria polignese,
comporta elementos de autocensura, como mostra o caso dos Gouro, entre os
quais a tradio esotrica liberal e integracionista, transmitida pelas linhagens,
coexiste com a tradio esotrica oligrquica e meticulosa da sociedade secreta.
Na verdade, no se trata de uma propriedade privada, mas de um bem indiviso
pelo qual respondem diversos grupos da comunidade.
    O essencial  proceder  crtica interna desses documentos atravs do
conhecimento ntimo do gnero literrio em questo, sua temtica e suas tcnicas,
seus cdigos e esteretipos, as frmulas de execuo, as digresses convencionais,
a lngua em evoluo, o pblico e o que ele espera dos transmissores da tradio.
E sobretudo a casta destes ltimos, suas regras de conduta, sua formao, seus
ideais, suas escolas. Sabe-se que no Mali e na Guin, por exemplo  em Keyla,
Kita, Niagassola, Niani, etc. , existem h sculos verdadeiras escolas de iniciao.
    Essa tradio rgida, institucionalizada e formal  geralmente melhor
estruturada e sustentada pela msica de corte que se integra a ela, que a
esconde em partes didticas e artsticas. Alguns dos instrumentos utilizados,
como o Sosso Balla (balafo de Sumauro Kante), so em si mesmos, por sua
antiguidade, monumentos dignos de uma investigao de tipo arqueolgico.
Mas as correspondncias entre tipos de instrumento e tipos de msica, de
Introduo Geral                                                                                 XLIII



cantos e de danas constituem um mundo minuciosamente regulado, no qual
as anomalias e as adies posteriores so facilmente detectadas. Cada gnero
literrio oral possui, assim, um instrumento especfico em cada regio cultural: o
balla (xilofone) ou o bolon (harpa-alade) para a epopeia mandinga; o bendr dos
Mossi (grande tambor redondo de uma s face, feito com uma cabaa e tocado
com as mos nuas) para a exaltao, muitas vezes silenciosa, dos nomes de guerra
(zabyouya) dos soberanos; o mvet (harpa-ctara) para os poetas msicos dos Fang
em suas Nibelungen tropicais. Veculos da histria falada, esses instrumentos
so venerados e sagrados. Com efeito, incorporam-se ao artista, e seu lugar 
to importante na mensagem que, graas s lnguas tonais, a msica torna-se
diretamente inteligvel, transformando-se o instrumento na voz do artista sem
que este tenha necessidade de articular uma s palavra. O trplice ritmo tonal,
de intensidade e de durao, faz-se ento msica significante, nessa espcie
de "semntico-melodismo" de que falava Marcel Jousse. Na verdade, a msica
encontra-se de tal modo integrada  tradio que algumas narrativas somente
podem ser transmitidas sob a forma cantada. A prpria cano popular, que
exprime a "vontade geral" de forma satrica e que permaneceu vigorosa mesmo
com as lutas eleitorais do sculo XX,  um gnero precioso, que contrabalana
e completa as afirmaes dos "documentos" oficiais.
    O que se diz aqui sobre a msica vale tambm para outras formas de
expresso, como as artes plsticas, cujas produes so, por vezes, a expresso
direta de personagens, de acontecimentos ou de culturas histricas, como nos
reinos de Abomey e do Benin (baixos-relevos) ou na nao Kuba (esculturas).
    Em poucas palavras, a tradio oral no  apenas uma fonte que se aceita por
falta de outra melhor e  qual nos resignamos por desespero de causa.  uma
fonte integral, cuja metodologia j se encontra bem estabelecida e que confere
 histria do continente africano uma notvel originalidade.

     4. A lingustica
   A histria da frica tem na lingustica no apenas uma cincia auxiliar, mas
uma disciplina autnoma, que, no entanto, a conduz diretamente ao mago de
seu prprio objeto... Percebe-se bem isso no caso da Nbia, que se encontra
amortalhada no duplo silncio opaco das runas de Mero e da escrita merotica
no decifrada porque a lngua permanece desconhecida14.  claro que h muito


14   A UNESCO organizou em 1974, no Cairo, um simpsio cientfico internacional para a decifrao dessa
     lngua africana.
XLIV                                                  Metodologia e pr-histria da frica



a ser feito nesse campo, comeando pela catalogao cientfica das lnguas.
Na verdade, no  necessrio sacrificar a abordagem descritiva  abordagem
comparatista e sinttica com pretenses tipolgicas e genticas.  por meio
de uma anlise ingrata e minuciosa do fato lingustico, com seu significante
de consoantes, vogais e tons, com suas latitudes combinatrias em esquemas
sintagmticos, "com seu significado vivido pelos falantes de uma determinada
comunidade"15, que se pode fazer extrapolaes retroativas, operao que muitas
vezes se torna difcil pela falta de conhecimento histrico profundo dessas
lnguas. De modo que elas s podem ser comparadas a partir de seu extrato
contemporneo pelo mtodo sincrnico, base indispensvel para toda sntese
diacrnica e gentica. A tarefa  rdua, e  compreensvel que duelos de erudio
aconteam em algumas reas, particularmente no que diz respeito  lngua
bantu. Malcolm Guthrie, por exemplo, sustenta a teoria da autognese, enquanto
Joseph Greenberg defende com veemncia a tese de que as lnguas bantu
devem ser colocadas num contexto continental mais amplo. Isto se justifica,
diz Greenberg, pelo fato de as semelhanas existentes no serem analogias
acidentais resultantes de influncias externas, mas derivarem de um parentesco
gentico intrnseco, expresso em centenas de lnguas  desde o wolof at o baka
(Repblica do Sudo)  pelas similitudes dos pronomes, do vocabulrio de base
e das caractersticas gramaticais, como o sistema de classes nominais. Para o
historiador, todos esses debates no so meros exerccios acadmicos. Um autor
que se baseie, por exemplo, na distribuio dos grupos de palavras anlogas
que designam o carneiro na frica central na orla da floresta constatar que
esses grupos homogneos no ultrapassam a franja vegetal, mas distribuem-se
paralelamente a ela. Isto sugere uma distribuio dos rebanhos de acordo com
os paralelos dos dois bitopos contguos da savana e da floresta, ao passo que,
mais a leste, o padro lingustico se ordena claramente em faixas meridianas da
frica oriental para a frica austral, o que supe um caminho de introduo
perpendicular  primeira, e ilustra a contrario o papel inibidor da floresta na
transmisso das tcnicas16. Esse papel, no entanto, no  idntico para todas
as tcnicas. Em suma, os estudos lingusticos demonstram que as rotas e os
caminhos das migraes, assim como a difuso de culturas materiais e espirituais,
so marcados pela distribuio de palavras aparentadas. Da a importncia da
anlise lingustica diacrnica e da glotocronologia para o historiador que deseja
compreender a dinmica e o sentido da evoluo.

15   Cf. HOUIS, M. 1971, p. 45.
16   Cf. EHRET, C. 1963, p. 213-221.
Introduo Geral                                                             XLV



    J. Greenberg, por exemplo, trouxe  luz as contribuies do kanuri ao haussa
em relao a termos culturais e a termos da tcnica militar, contribuies
essas que valorizam a influncia do imprio de Bornu no desenvolvimento
dos reinos haussa. Em particular, os ttulos das dinastias de Bornu, incluindo
termos kanuri como kaygamma, magira, etc., conheceram uma notvel difuso
at o corao do Camares e da Nigria. O estudo sistemtico dos topnimos
e antropnimos pode tambm fornecer indicaes bastante precisas, contanto
que essa nomenclatura seja revista segundo uma abordagem endgena, pois um
grande nmero de nomes foi deformado pela pronncia ou redao exticas de
no-africanos ou de africanos que atuavam como intrpretes ou escribas. A caa
 palavra correta, mesmo quando esta foi congelada pela escrita h sculos atrs,
 uma das tarefas mais complexas da crtica histrica da frica.
    Tomemos um exemplo: a palavra "Gaoga" utilizada por Leo, o Africano, para
designar um reino do Sudo tem sido frequentemente assimilada a Gao. Mas a
anlise desse topnimo a partir do teda e do kanuri permite localizar tambm
um reino chamado Gaoga entre o Uadai (Chade), o Darfur (Sudo) e o Fertit
(Repblica Centro-Africana)17. Quanto  referncia ao Imen para designar
o pas de origem de numerosas dinastias sudanesas, um reexame srio desse
problema tem sido feito desde H. R. Palmer. No se deveria interpretar a palavra
"Yemen" no mais segundo as evocaes religiosas dos cronistas muulmanos
orientados em direo  Arabia Felix, e sim em referncia ao antigo pas de Yam
(da Yamem)?18
    Tambm o exame do lxico swahili, recheado de termos de origem rabe, e
do lxico das regies da costa oriental malgaxe (Antemoro, Antalaotra, Anosy),
banhada por influncias rabes, revela-se uma fonte rica de ensinamentos para
o historiador.
    De qualquer maneira, a lingustica, que j prestou um bom servio  histria
da frica, deve desvencilhar-se de incio do desprezo etnocentrista que marcou
a lingustica africana elaborada por A. W. Schlegel e Auguste Schleicher,
segundo a qual "as lnguas da famlia indo-europeia esto no topo da evoluo,
e as lnguas dos negros, no ponto mais baixo da escala, apresentando estas,
entretanto, o interesse de  segundo alguns  revelar um estado prximo ao
estado original da linguagem, em que as lnguas no teriam gramtica, o discurso




17   Cf. KALAK, P. 1972, p. 529-548.
18   Cf. MOHAMMADOU, A. e ELDRIDGE. 1971, p. 130-155.
XLVI                                                                      Metodologia e pr-histria da frica



seria uma sequncia de monosslabos e o lxico estaria restrito a um inventrio
elementar"19.

     5. A antropologia e a etnologia
    O mesmo comentrio aplica-se a fortiori  antropologia e  etnologia. Na
verdade, o discurso etnolgico20 tem sido, por fora das circunstncias, um discurso
com premissas explicitamente discriminatrias e concluses implicitamente
polticas, havendo entre ambas um exerccio "cientfico" forosamente ambguo.
Seu principal pressuposto era muitas vezes a evoluo linear:  frente da caravana
da humanidade ia a Europa, pioneira da civilizao, e atrs os povos "primitivos"
da Oceania, Amaznia e frica. Como se pode ser ndio, negro, papua, rabe?
O "outro", atrasado, brbaro, selvagem em diversos graus,  sempre diferente,
e por essa razo torna-se objeto de interesse do pesquisador ou de cobia do
traficante. A etnologia recebeu, assim, procurao geral para ser o ministrio
da curiosidade europeia diante dos "nossos nativos". Apreciadora dos estados
miserveis, da nudez e do folclore, a viso etnolgica era muitas vezes sdica,
lbrica e, na melhor das hipteses, um pouco paternalista. Salvo excees, as
dissertaes e os relatrios resultantes justificavam o status quo e contribuam
para o "desenvolvimento do subdesenvolvimento"21. O evolucionismo  Darwin,
apesar de seus grandes mritos, o difusionismo de sentido nico, que tem visto
muitas vezes a frica como o escoadouro passivo das invenes de outros
lugares, o funcionalismo de Malinowski e de Radcliffe-Brown, enfim, que
negava toda dimenso histrica s sociedades primitivas, todas essas escolas se
adaptavam naturalmente  situao colonial na qual proliferavam como num
terreno frtil22. Suas abordagens, muito pobres afinal para a compreenso das
sociedades exticas, desqualificavam-se ainda mais pelo fato de as sociedades
pelas quais tinham maior interesse serem exatamente as mais inslitas, isto , os
prottipos de uma humanidade instalada no elementar. Tais prottipos, contudo,


19   Cf. HOUIS, M. 1971, p. 27
20   O termo etnia, atribudo aos chamados povos sem escrita, foi sempre marcado pelo preconceito racista:
     "Idlatra ou tnico", escrevia Clment Marot desde o sculo XVI. A etnografia  a coleta descritiva dos
     documentos. A etnologia  a sntese comparativa.
21   Cf. COPANS, J. 1971, p. 45: "A ideologia colonial e a etnologia decorrem de uma mesma configurao,
     e existe entre essas duas ordens de fenmenos um jogo que condiciona o desenvolvimento de ambas".
22   Cf. RUFFIE, J. 1977, p. 429: "O pseudodarwinismo cultural que inspira o pensamento antropolgico do
     sculo XIX legitima o colonialismo que, assim, no se caracteriza como produto de uma certa conjuntura
     poltica, mas de estrutura biolgica; em resumo, um caso particular de competio natural. A antropologia
     do sculo XIX justifica a Europa imperialista".
Introduo Geral                                                         XLVII



constituam apenas microrganismos, com um papel histrico no desprezvel
 por vezes mesmo notvel  mas na maioria dos casos marginal em relao
aos conjuntos sociopolticos mais poderosos e melhor engajados no curso da
histria.
    Desse modo, toda a frica foi simbolizada por imagens que os prprios
africanos podiam considerar estranhas, exatamente como se a Europa fosse
definida no comeo do sculo XX pelos costumes  mesa e pelas formas de
moradia ou pelo nvel tcnico das comunidades do interior da Bretanha, do
Cantal ou da Sardenha. Alm disso, o mtodo etnolgico baseado na entrevista
individual, marcado com o selo de uma experincia subjetiva total porque
intensa, mas total apenas no nvel do microcosmo, desemboca em concluses
"objetivas" muito frgeis para que possam ser extrapoladas.
    Enfim, por uma dialtica implacvel, o prprio objeto da etnologia, sob
a influncia colonial, desvanecia-se pouco a pouco. Os indgenas primitivos,
que viviam da coleta e da caa, e mesmo do "canibalismo", transformavam-se
aos poucos em subproletrios dos centros perifricos de um sistema mundial
de produo cujos plos esto situados no hemisfrio norte. A ao colonial
consumia e aniquilava seu prprio objeto. Por isso, aqueles que haviam sido
incumbidos do papel de objetos, os africanos, decidiram iniciar, eles prprios,
um discurso autnomo na qualidade de sujeitos da histria, pretendendo
mesmo que, em certos aspectos, os mais primitivos no so exatamente os que
se imagina... Ao mesmo tempo, pioneiros como Frobenius, Delafosse, Palmer,
Evans Pritchard, que, sem preconceitos haviam trabalhado na descoberta de
um fio histrico e de estruturas originais nas sociedades africanas com ou
sem Estado, continuavam seus esforos, retomados e aperfeioados por outros
pesquisadores contemporneos. Estes acreditam que se podem atingir resultados
objetivos aplicando os mesmos instrumentos intelectuais das cincias humanas,
mas adaptando-os  matria africana. Derrubam assim, de uma s vez, as
abordagens errneas baseadas na diferena congnita e substantiva dos "nativos"
ou em seu primitivismo na rota da civilizao. Basta reconhecer que se o ser
dos africanos  o mesmo  o do Homo sapiens  seu "ser-no-mundo"  diferente.
A partir da novos instrumentos podem ser aperfeioados para apreender sua
evoluo singular.
    Ao mesmo tempo, a abordagem marxista, com a condio de no ser
dogmtica, e a abordagem estruturalista de Lvi-Strauss contribuem tambm
com observaes vlidas, mas opostas, sobre a evoluo dos povos ditos sem
escrita. O mtodo marxista, essencialmente histrico e para o qual a histria 
a conscincia coletiva em ao, insiste muito mais nas foras produtivas e nas
XLVIII                                                                     Metodologia e pr-histria da frica



relaes de produo, na prxis e nas normas; o mtodo estruturalista, por sua
vez, quer desvendar os mecanismos inconscientes, mas lgicos, os conjuntos
coerentes que sustentam e enquadram a ao dos espritos e das sociedades.
Bebendo nessas novas fontes, a antropologia ser, esperamos, algo mais que
uma Fnix que, em defesa da causa, haja renascido das cinzas de um certo tipo
de etnologia23.
    A antropologia deve criticar seu prprio procedimento, insistir tanto nas
normas quanto nas prticas, no confundir as relaes sociais, decifrveis pela
experincia, e as estruturas que as sustentam. Ela enriquecer assim, umas atravs
das outras, as normas, estruturas e opinies, por meio da ampla utilizao das
tcnicas quantitativas e coletivas de pesquisa, racionalizando e objetivando o
discurso. No apenas as interaes dos fatores globais, mas tambm a sntese
histrica, interessam particularmente  antropologia. Por exemplo, pode-se
constatar uma correspondncia entre a existncia de rotas comerciais com
monoplio real de certas mercadorias e as formas polticas centralizadas (em
Gana e no Mali antigos, no Imprio Ashanti do sculo XVIII, no Reino Lunda
do Zaire, etc.). Enquanto isso  contraprova decisiva  em oposio aos Ngonde
e aos Zulu, povos de lnguas e costumes idnticos (os Nyakusa e os Xhosa), mas
que viviam  margem dessas rotas, no atingiram uma fase monrquica24. A
partir disso, podemos tentar inferir uma espcie de "lei" de antropologia ou de
sociologia poltica. Por outro lado, as estruturas de parentesco podem acarretar
um grande nmero de consequncias sobre a evoluo histrica. Assim, quando
dois grupos de lnguas diferentes se encontram, a forma de unio conjugal entre
esses grupos geralmente decide qual ser a lngua dominante, pois a lngua
materna s poder impor-se se as mulheres forem tomadas como esposas e no
como escravas ou concubinas. Assim, certos grupos Nguni conservaram sua
lngua de origem, enquanto outros, que desposaram mulheres sotho, perderam
sua lngua em favor da lngua sotho.  tambm o caso dos pastores peul vindos
de Macina e de Futa Djalon, que tomaram suas esposas entre os Mandinga e
criaram a provncia de Uassulu: eles so peul apenas pelo nome e por certos
traos fsicos, j que perderam sua lngua de origem em favor do malinke ou
do bambara.



23   A sociologia seria uma cincia intra-social para o mundo moderno, enquanto a antropologia se
     caracterizaria por uma abordagem comparativa (inter-social). Mas isso no significa ressuscitar categorias
     contestveis como a diferena, com seu cortejo de etno-histria, etno-arquelogia, etno-matemtica...?
24 Cf. THOMPSON, L. 1969, p. 72-73.
Introduo Geral                                                               XLIX



    Dessa forma, as principais fontes da histria da frica mencionadas acima,
no podem ser classificadas a priori de acordo com uma escala de valores que
privilegie permanentemente uma ou outra. Toma-se necessrio julgar caso por
caso. Na verdade, no se trata de testemunhos de tipos radicalmente diferentes.
Todas correspondem  definio de signos que nos chegam do passado e que,
enquanto veculos de mensagens, no so inteiramente neutros, mas carregados
de intenes francas ou ocultas. Todas necessitam ento da crtica metodolgica.
Cada categoria de fonte pode conduzir s demais: a tradio oral, por exemplo, tem
levado muitas vezes a depsitos arqueolgicos e pode at auxiliar na comparao de
certos documentos escritos. Assim, o grande Ibn Khaldun escreve, na Histria dos
Berberes, sobre Sundiata: "Seu filho Mana Ueli o sucedeu. Mana em sua lngua
escrita significa sulto e Ueli  o equivalente de Ali". Todavia os transmissores da
tradio ainda hoje explicam que Mansa Ule significa "o rei de pele clara".


     B. Os quatro grandes princpios
    Quatro princpios devem nortear a pesquisa, se se quer levar adiante a frente
pioneira da historiografia da frica.
    1 Primeiramente, a interdisciplinaridade, cuja importncia  tal que chega
quase a constituir por si s uma fonte especfica. Assim, a sociologia poltica
aplicada  tradio oral no Reino de Segu enriqueceu consideravelmente uma
viso que, sem isso, limitar-se-ia s linhas esquelticas de uma rvore genealgica
marcada por alguns feitos estereotipados. A complexidade, a interpenetrao de
estruturas s vezes modeladas sobre hegemonias antigas (o modelo mali, por
exemplo) aparecem, assim, em sua realidade concreta e viva. Da mesma forma,
no caso dos pases do delta do Nger, as tradies orais permitem completar
o conjunto de fatores de desenvolvimento, demasiadamente reduzidos s
influncias do comrcio negreiro e do leo de palmeira; as relaes endgenas
anteriores no sentido norte-sul e leste-oeste at Lagos e a regio de Ijebu so
atestadas pela tradio oral, que apia e enriquece admiravelmente as aluses
de Pacheco Pereira no Esmeraldo25.
    E foi exatamente um elemento de antropologia cultural (o texto de iniciao
dos pastores peul26) que permitiu a certos pr -historiadores interpretar



25   Cf. ALAGOA, L. 1973.
26   Cf. HAMPAT B e DIETERLEN, G. 1961.
L                                                       Metodologia e pr-histria da frica



corretamente os enigmas dos afrescos do Tassili: animais sem patas do quadro
chamado O Boi e a Hidra, o mgico U de Ouan Derbaouen, etc.
    Assim, decorridos mais de 10 mil anos, os ritos de hoje permitem identificar
as cinco irms mticas dos sete filhos do ancestral Kikala nas cinco maravilhosas
danarinas dos afrescos de Jabbaren.
    A expanso dos Bantu, atestada pelas fontes concordantes da lingustica,
da tradio oral, da arqueologia e da antropologia, bem como pelas primeiras
fontes escritas em rabe, portugus, ingls e pelos africnderes, torna-se uma
realidade palpvel susceptvel de ser ordenada numa sntese cujas arestas se
mostram mais ntidas no encontro desses diferentes planos. Do mesmo modo,
os argumentos lingusticos juntam-se aos da tecnologia para sugerir uma
difuso dos gongos reais e sinos cerimoniais geminados a partir da frica
ocidental em direo ao baixo Zaire, ao Shaba e a Zmbia. Mas as provas
arqueolgicas trariam, evidentemente, uma confirmao inestimvel para tal
fato. Essa combinao de fontes impe-se ainda mais quando se trata de minorar
as dificuldades relativas  cronologia. No  sempre que dispomos de datas
determinadas pelo carbono 14. E quando existem, estas devem ser interpretadas
e confrontadas com dados de outras fontes, como a metalurgia ou a cermica
(materiais e estilos). E no  sempre que podemos contar, como ao norte do
Chade27, com enormes quantidades de fragmentos de cermicas que permitem
construir uma tipologia representada numa escala cronolgica de seis nveis.
Uma excelente demonstrao desta conjugao de todas as fontes disponveis
 a que permite estabelecer uma tipologia diacrnica dos estilos pictricos e
cermicos e confront-los para extrair uma srie cronolgica que se estende
por oito milnios, sendo o todo sustentado pelas sondagens estratigrficas e
confirmado pelas dataes de carbono 14 e pelo estudo da flora, da fauna, do
habitat e da tradio oral28.
    s vezes, o mapa dos eclipses datados e visveis em regies especficas permite
comprovaes excepcionais quando tais acontecimentos so relacionados com o
reinado deste ou daquele dinasta. Em geral, porm, a cronologia no  acessvel
sem a mobilizao de vrias fontes, ainda mais porque a durao mdia das
geraes ou dos reinados  susceptvel de variaes, a natureza da relao entre
os soberanos que se sucedem nem sempre  precisa, o sentido da palavra filho
pode no ser biolgico, mas sociolgico, s vezes trs ou quatro nomes ou "nomes


27   Cf. COPPENS, Y. 1960, p. 129 e ss.
28   BAILLOUD, A. 1961, p. 51 e ss.
Introduo Geral                                                               LI



fortes" so atribudos ao mesmo rei, ou ainda porque, como entre os Bemba, a
lista dos candidatos  chefia incorpora-se  lista dos chefes.
    Sem minimizar a importncia da cronologia, espinha dorsal da matria
histrica, e sem renunciar aos esforos para assent-la sobre bases rigorosas,
ser preciso, no entanto, sucumbir  psicose da preciso a qualquer preo, que
corre ento o risco de ser uma falsa preciso? Por que obstinar-se em escrever
1086 para a queda de Kumbi Saleh em vez de dizer "no fim do sculo XI"? Nem
todas as datas tm, alis, a mesma importncia. O grau de preciso requerido
em cada caso no  o mesmo, nem todas as datas devem ser erigidas em esttua.
    Por outro lado,  importante reintegrar todo o fluxo do processo histrico no
contexto do tempo africano, que no  alrgico  articulao do acontecimento
numa sequncia de fatos que originam uns aos outros por antecedncia e
causalidade. De fato, os africanos tm uma ideia do tempo baseada no princpio
da causalidade. Este ltimo, contudo,  aplicado de acordo com normas originais,
em que o contgio do mito impregna e deforma o processo lgico; em que o nvel
econmico elementar no cria a necessidade do tempo demarcado, matria-prima
do lucro; em que o ritmo dos trabalhos e dos dias  um metrnomo suficiente
para a atividade humana; em que calendrios, que no so nem abstratos nem
universalistas, so subordinados aos fenmenos naturais (lunaes, sol, seca), aos
movimentos dos animais e das pessoas. Cada hora  definida por atos concretos.
Em Burundi, por exemplo, pas essencialmente rural, o tempo  marcado pela
vida pastoril e agrcola: Amakana (hora da ordenha: 7 horas); Maturuka (sada
dos rebanhos: 8 horas); Kuasase (quando o sol se alastra: 9 horas); Kumusase
(quando o sol se espalha sobre as colinas: 10 horas); etc. Em outros lugares, os
nomes das crianas so funes do dia do nascimento, do acontecimento que o
precedeu ou sucedeu. Os muulmanos na frica do Norte acham muito natural
chamar suas crianas pelo nome do ms em que nasceram: Ramdane, Chabane,
Mulud.
    Essa concepo do tempo  histrica em muitos aspectos. Nas sociedades
africanas gerontocrticas, a noo de anterioridade no tempo  ainda mais
carregada de sentido que em outros lugares, pois nela esto baseados os direitos
sociais, como o uso da palavra em pblico, a participao numa dana reservada,
o acesso a certas iguarias, o casamento, o respeito de outrem, etc. Alm disso,
a primogenitura no , na maioria das vezes, um direito exclusivo na sucesso
real; o nmero dos pretendentes (tios, irmos, filhos)  sempre grande e a idade
 levada em conta no contexto de uma competio bastante aberta. Decorre da
uma preocupao ainda maior com a cronologia. Mas no h necessidade de
saber que algum nasceu em determinado ano: o essencial  provar que nasceu
LII                                                    Metodologia e pr-histria da frica



antes de determinada pessoa. As referncias a uma cronologia absoluta impem-
-se apenas no caso de sociedades mais amplas e mais annimas.
    Essa concepo do tempo social no  esttica, pois no contexto da filosofia
africana pandinamista do universo, cada um deve aumentar incessantemente
sua forma vital, que  eminentemente social, o que inclui a ideia de progresso
dentro e atravs da comunidade. Como diz Bakary Dian: "Mesmo depois de
minha morte, isso ser acrescentado ao meu nome". Em algumas lnguas, a
mesma palavra (bogna em barambara, por exemplo) designa o dom material, a
honra, o crescimento.
    A contagem das estaes do ano  muitas vezes baseada na observao
astronmica, podendo abranger uma srie de constelaes, como a Ursa Maior;
entre os Komo (alto Zaire), as Pliades, que so comparadas a um cesto de
machetes, anunciam a hora de afiar tais instrumentos para o arroteamento dos
campos. Em caso de necessidade, essa concepo do tempo  mais matemtica.
Como exemplo, podemos citar os entalhes em madeiras especiais conservadas
como arquivos nas grutas da regio dos Dogon ou o depsito anual de uma pepita
de ouro num pote de estanho na capela dos tronos no reino de Bono Mansu,
ou de uma pedra num jarro, na cabana dos reis na regio mandinga; sem contar,
evidentemente, as importantes realizaes nesse campo do Egito faranico e
dos reinos muulmanos (almada, por exemplo). Se pensarmos na dificuldade
em converter uma sequncia de duraes numa sucesso de datas e ainda na
necessidade de encontrar um ponto fixo de referncia, verificaremos que este
ltimo , na maior parte do tempo, fornecido por um fato externo datado, como
o ataque ashanti contra Bono Mansu. Na verdade, somente a utilizao da escrita
e o acesso s religies "universalistas" que dispem de um calendrio dependente
de um terminus a quo preciso, assim como a entrada no universo do lucro e da
acumulao monetria, remodelaram a concepo "tradicional" do tempo. Em
sua poca, porm, tal concepo respondia adequadamente s necessidades das
sociedades em questo.
    2 Outra exigncia imperativa  que essa histria seja enf im vista do
interior, a partir do plo africano, e no medida permanentemente por padres
de valores estrangeiros; a conscincia de si mesmo e o direito  diferena so
pr-requisitos indispensveis  constituio de uma personalidade coletiva
autnoma. Certamente, a opo e a tica de auto-exame no consistem em
abolir artificialmente as conexes histricas da frica com os outros continentes
do Velho e do Novo Mundo. Mas tais conexes sero analisadas em termos de
intercmbios recprocos e de influncias multilaterais, nas quais as contribuies
positivas da frica para o desenvolvimento da humanidade no deixaro de
Introduo Geral                                                                                      LIII



aparecer. A atitude histrica africana no ser ento uma atitude vingativa nem
de auto-satisfao, mas um exerccio vital da memria coletiva que varre o
campo do passado para reconhecer suas prprias razes. Aps tantas vises
exteriores que tm modelado a marca registrada da frica a partir de interesses
externos (at nos filmes contemporneos),  tempo de resgatar a viso interior
de identidade, de autenticidade, de conscientizao: "volta repatriadora", como
diz Jacques Berque para designar esse retorno s razes. Ao considerar o valor
da palavra e do nome na frica, ao pensar que atribuir nome a uma pessoa 
quase apoderar-se dela  a tal ponto que os personagens venerados (pai, esposo,
soberano) so designados por perfrases e cognomes , compreenderemos por
que toda a srie de vocbulos ou conceitos, todo o arsenal de esteretipos e de
esquemas mentais relativos  histria da frica situam-se no contexto da mais
sutil alienao.  preciso aqui uma verdadeira revoluo copernicana, que seja
primeiramente semntica e que, sem negar as exigncias da cincia universal,
recupere toda a corrente histrica desse continente, em novos moldes29.
    Como observava J. Mackenzie j em 1887, referindo -se aos Tsuana
(Botsuana), quantos povos da frica so conhecidos por nomes que eles
prprios ou quaisquer outras populaes africanas jamais utilizaram! Esses
povos passaram pelas pias batismais da colonizao e saram consagrados 
alienao. A nica sada real  escrever cada vez mais livros de histria da frica
em lnguas africanas, o que pressupe outras reformas de estrutura... Quantos
livros de histria da frica dedicam generosamente um dcimo de suas pginas
 histria pr-colonial, sob o pretexto de que  mal conhecida! Assim, damos um
salto sobre "sculos obscuros" e vamos diretamente a algum explorador famoso
ou procnsul, demiurgo providencial e deus ex machina, a partir do qual comea
a verdadeira histria, ficando o passado africano confinado a uma espcie de
pr-histria desonrosa. Certamente, no se trata de negar as influncias externas,
que agem como fermento acelerador ou detonador. A introduo no sculo
XVI das armas de fogo no Sudo central, por exemplo, favoreceu a infantaria
formada por escravos, em prejuzo dos cavaleiros feudais. Tal mutao repercutiu
na estrutura do poder atravs do Sudo central, tendo o kacella ou kaigamma,
de origem servil, suplantado junto ao soberano o ministro nobre Cirema. Mas
as explicaes mecnicas a partir de influncias externas (inclusive no caso

29   Ver a esse respeito a interessante demonstrao de I. A. AKINJOGBIN, 1967. A partir da comparao
     entre o sistema do ebi (famlia ampliada), que seria a fonte da autoridade de Oyo sobre as famlias, e
     o sistema daomeano de adaptao ao trfico de escravos pela monarquia autoritria exercida sobre os
     indivduos, o autor explica a disparidade entre os dois regimes. Ver tambm VERHAEGEN, B. 1974,
     p. 156: "O fato bruto  um mito. A linguagem que o designa  implicitamente uma teoria do fato".
LIV                                                                       Metodologia e pr-histria da frica



dos apoios de cabea!) e as correspondncias automticas entre os influxos
exteriores e os movimentos da histria da frica devem ser banidas em favor
de uma anlise mais profunda, a fim de revelar as contradies e os dinamismos
endgenos30.
    3 Alm disso, essa histria  obrigatoriamente a histria dos povos africanos
em seu conjunto, considerada como uma totalidade que engloba a massa
continental propriamente dita e as ilhas vizinhas como Madagascar, segundo
a definio da carta da OUA.  claro que a histria da frica integra o setor
mediterrneo numa unidade consagrada por muitos laos milenares, s vezes
sangrentos,  verdade, mas na maioria dos casos mutuamente enriquecedores.
Tais laos fazem da frica, de um lado e do outro da dobradia do Saara, os dois
batentes de uma mesma porta, as duas faces de uma mesma moeda.
     necessariamente uma histria dos povos, pois na frica mesmo o
despotismo de certas dinastias tem sido sempre atenuado pela distncia, pela
ausncia de meios tcnicos que agravem o peso da centralizao, pela perenidade
das democracias aldes, de tal modo que em todos os nveis, da base ao topo,
o conselho reunido pela e para a discusso constitui o crebro do corpo
poltico.  uma histria dos povos porque, com exceo de algumas dcadas
contemporneas, no foi moldada de acordo com as fronteiras fixadas pela
colonizao, pelo simples motivo de que a posio territorial dos povos africanos
ultrapassa em toda parte as fronteiras herdadas da partilha colonial. Assim,
para tomar um exemplo entre mil, os Senufo ocupam uma rea correspondente
a parte do Mali, da Costa do Marfim e do Alto Volta. No contexto geral do
continente, tero maior destaque os fatores comuns resultantes de origens
comuns e de intercmbios inter-regionais milenares de homens, mercadorias,
tcnicas, ideias, em suma, de bens materiais e espirituais. Apesar dos obstculos
impostos pela natureza e do baixo nvel tcnico, tem havido desde a Pr-Histria
uma certa solidariedade continental entre o vale do Nilo e o Sudo, at a floresta
da Guin; entre esse mesmo vale e a frica oriental, incluindo, entre outros
acontecimentos, a disperso dos Luo; entre o Sudo e a frica central pela
dispora dos Bantu; entre fachada atlntica e a costa oriental pelo comrcio
transcontinental atravs do Shaba.
    Os fenmenos migratrios ocorridos em grande escala no espao e no tempo
no devem ser entendidos como uma imensa onda humana atrada pelo vazio ou


30    Cf. LAW, R. C. C. 1971. Para o autor, o declnio de Oyo  provocado pelas tenses intestinas entre
      categorias sociais subalternas: escravos, intendentes do alafin (rei) nas provncias, representantes das
      provncias na corte, triunviratos de eunucos reais (do centro, da direita e da esquerda).
Introduo Geral                                                                      LV



deixando o vazio atrs de si. Mesmo a saga torrencial de Chaka, o mfcane, no
pode ser interpretada unicamente nesses termos. O movimento de grupos Mossi
(Alto Volta) em direo ao norte, a partir do Dagomba e do Mamprusi (Gana),
foi realizado por bandos de cavaleiros que, de etapa em etapa, foram ocupando as
vrias regies; no entanto, s podiam concretizar tal ocupao amalgamando-se
aos autctones, tomando esposas nativas. Os privilgios judiciais que eles prprios
se outorgavam provocaram rapidamente a proliferao de suas escarificaes
faciais (uma espcie de carteira de identidade), enquanto a lngua, bem como as
instituies dos recm-chegados, prevaleceram a ponto de eliminar as dos outros
povos. Outros costumes, como os ligados aos cultos agrrios ou os que regiam os
direitos de estabelecimento, continuavam a ser de competncia dos chefes locais,
ao mesmo tempo em que se instauravam relaes de "parentesco de brincadeira"
com certos povos encontrados pelo caminho. O grande conquistador "mossi"
Ubri, alis, j era ele prprio um "mestio". Esse esboo de processo por osmose
deve substituir quase sempre o cenrio romntico e simplista da invaso niilista
e devastadora, como foi longa e erradamente representada a irrupo dos Beni
Hilal na frica do Norte.
    Os excessos da antropologia fsica, com seus preconceitos racistas, so
hoje rejeitados por todos os autores srios. Mas os "Hamitas" e outras "raas
morenas", inventadas em defesa da causa, no cessaram de povoar as miragens
e os fantasmas de espritos ditos cientficos.
    "Tais categorias", declara J. Hiemaux31 num texto importante:
         "No podem ser admitidas como unidades biolgicas de estudo. Os Peul no
     constituem um grupo biolgico, mas sim cultural. Os Peul do sul de Camares, por
     exemplo, tm seus parentes biolgicos mais prximos nos Haya da Tanznia. Quanto
      proximidade biolgica entre os Mouros e os Warsingali da Somlia, ela deriva tanto
     da hereditariedade quanto do bitopo similar que os condiciona: a estepe rida".
    H vrios milnios, os dados propriamente biolgicos, constantemente
subvertidos pela seleo ou pela oscilao gentica, no do nenhuma referncia
slida para a classificao, nem sobre o grupo sanguneo, nem sobre a frequncia
do gene Hbs, que determina uma hemoglobina anormal e que, associado a um
gene normal, refora a resistncia  malria. Isto ilustra o papel importantssimo
da adaptao ao meio natural. A estatura mais elevada e a bacia mais larga, por
exemplo, coincidem com as zonas de maior seca e de calor mais intenso. Neste
caso, a morfologia do crnio mais estreito e mais alto (dolicocefalia)  uma

31   HIERNAUX, J. 1970, p. 53 e ss.
LVI                                                                       Metodologia e pr-histria da frica



adaptao que permite uma menor absoro de calor. O vocbulo "tribo" ser
tanto quanto possvel banido desta obra, exceto no caso de certas regies da
frica do Norte32, em razo de suas conotaes pejorativas e das diversas ideias
falsas que o sustentam. Por mais que se destaque que a "tribo"  essencialmente
uma unidade cultural e, s vezes, poltica, alguns continuam a v-la como um
estoque biologicamente distinto e destacam os horrores das "guerras tribais",
cujo saldo muitas vezes se limitava a algumas dezenas de mortos ou menos que
isso; esquecem, porm, todos os intercmbios positivos que ligaram os povos
africanos no plano biolgico, tecnolgico, cultural, religioso, sociopoltico, etc.,
e que do aos empreendimentos africanos um indiscutvel ar de famlia.
    4 Alm do mais, esta histria dever evitar ser excessivamente fatual, pois
com isso correria o risco de destacar em demasia as influncias e os fatores
externos. Certamente, o estabelecimento de fatos-chave  uma tarefa primordial,
indispensvel at, para definir o perfil original da evoluo da frica. Mas
sero tratadas com especial interesse as civilizaes, as instituies, as estruturas:
tcnicas agrrias e de metalurgia, artes e artesanato, circuitos comerciais, formas
de conceber e organizar o poder, cultos e modos de pensamento filosfico ou
religioso, tcnicas de modernizao, o problema das naes e pr-naes, etc. Esta
opo metodolgica requer, com mais vigor ainda, a abordagem interdisciplinar.
    Finalmente, por que esse retorno s fontes africanas? Enquanto a busca desse
passado pode ser, para os estrangeiros, uma simples curiosidade, um exerccio
intelectual altamente estimulante para a mente desejosa de decifrar o enigma da
Esfinge, o sentido real dessa iniciativa deve ultrapassar tais objetivos puramente
individuais, pois a histria da frica  necessria  compreenso da histria
universal, da qual muitas passagens permanecero enigmas obscuros enquanto
o horizonte do continente africano no tiver sido iluminado. Alm disso, no
plano metodolgico, a execuo da histria da frica de acordo com as normas
estabelecidas neste volume pode confirmar a estratgia dos adeptos da histria
total, apreendida em todos os seus estratos e em todas as suas dimenses, por todo
o arsenal de instrumentos de investigao disponveis. Dessa forma, a histria
torna-se essa disciplina sinfnica em que a palavra  dada simultaneamente a
todos os ramos do conhecimento; em que a conjuno singular das vozes se


32    O termo rabe Khabbylia designa um grupo de pessoas ligadas geneologicamente a um ancestral comum e
      que vivem num territrio delimitado. Como a filiao genealgica tem grande importncia entre os povos
      semticos (rabes, berberes), la Khabbylia (que corresponde em portugus ao termo tribo) desempenhou, e
      por vezes desempenha, um papel que no pode ficar esquecido por silncio na histria de inmeros pases
      norte-africanos. A fim de preservar toda sua conotao histrica e sociocultural, o vocbulo Khabbylia
      ser mantido em sua grafia original.
Introduo Geral                                                             LVII



transforma de acordo com o assunto ou com os momentos da pesquisa, para
ajustar-se s exigncias do discurso. Mas essa reconstruo pstuma do edifcio
h pouco construdo com pedras vivas  importante, sobretudo, para os africanos,
que tm nisso um interesse carnal e que penetram nesse domnio aps sculos
ou dcadas de frustrao, como um exilado que descobre os contornos ao mesmo
tempo velhos e novos, porque secretamente antecipados, da almejada paisagem
da ptria. Viver sem histria  ser uma runa ou trazer consigo as razes de
outros.  renunciar  possibilidade de ser raiz para outros que vm depois.
 aceitar, na mar da evoluo humana, o papel annimo de plncton ou de
protozorio.  preciso que o homem de Estado africano se interesse pela histria
como uma parte essencial do patrimnio nacional que deve dirigir, ainda mais
porque  pela histria que ele poder ter acesso ao conhecimento dos outros
pases africanos na tica da unidade africana.
   Mas esta histria  ainda mais necessria aos prprios povos para os quais
ela constitui um direito fundamental. Os Estados africanos devem organizar
equipes para salvar, antes que seja tarde demais, o maior nmero possvel de
vestgios histricos. Devem-se construir museus e promulgar leis para a proteo
dos stios e dos objetos. Devem ser concedidas bolsas de estudo, em particular
para a formao de arquelogos. Os programas e cursos devem sofrer profundas
modificaes, a partir de uma perspectiva africana. A histria  uma fonte na
qual poderemos no apenas ver e reconhecer nossa prpria imagem, mas tambm
beber e recuperar nossas foras, para prosseguir adiante na caravana do progresso
humano. Se tal  a finalidade desta Histria Geral da frica, essa laboriosa e
enfadonha busca, sobrecarregada de exerccios penosos, certamente se revelar
fecunda e rica em inspirao multiforme. Pois em algum lugar sob as cinzas
mortas do passado existem sempre brasas impregnadas da luz da ressurreio.
A evoluo da historiografia da frica                                   1



                                         CAPTULO 1


      A evoluo da historiografia da frica
                                           J. D. Fage




    Os primeiros trabalhos sobre a histria da frica so to antigos quanto o
incio da histria escrita. Os historiadores do velho mundo mediterrnico e os
da civilizao islmica medieval tomaram como quadro de referncia o conjunto
do mundo conhecido, que compreendia uma considervel poro da frica.
A frica ao norte do Saara era parte integrante dessas duas civilizaes e seu
passado constitua um dos centros de interesse dos historiadores, do mesmo
modo que o passado da Europa meridional ou o do Oriente Prximo. A histria
do norte da frica continuou a ser parte essencial dos estudos histricos at a
expanso do Imprio Otomano, no sculo XVI.
    Aps a expedio de Napoleo Bonaparte ao Egito em 1798, o norte da
frica tornou-se novamente um campo de estudos que os historiadores no
podiam negligenciar. Com a expanso do poder colonial europeu nessa parte
da frica  aps a conquista de Argel pelos franceses em 1830 e a ocupao do
Egito pelos britnicos em 1882  um ponto de vista europeu colonialista passou
a dominar os trabalhos sobre a histria da poro norte da frica. No entanto,
a partir de 1930, o movimento modernizador no Isl, o desenvolvimento da
instruo de estilo europeu nas colnias da frica do Norte e o nascimento dos
movimentos nacionalistas norte-africanos comearam a combinar-se para dar
origem a escolas autctones de histria que produziam obras no apenas em
rabe, mas tambm em francs e ingls, restabelecendo assim o equilbrio nos
estudos histricos dessa regio do continente.
2                                                       Metodologia e pr-histria da frica



    Assim sendo, o presente captulo preocupar-se- sobretudo com a
historiografia da frica ocidental, central, oriental e meridional. Ainda que
nem os historiadores clssicos nem os historiadores islmicos medievais tenham
considerado a frica tropical como destituda de interesse, seus horizontes
estavam limitados pela escassez de contatos que podiam estabelecer com ela,
seja atravs do Saara em direo  "Etipia" ou o BiladalSuden, seja ao longo
da costa do mar Vermelho e do oceano ndico, at os limites que a navegao
de mones permitia atingir.
    As informaes fornecidas pelos antigos autores no que se refere mais
particularmente  frica ocidental eram raras e espordicas. Herdoto, Maneto,
Plnio, o Velho, Estrabo e alguns outros descrevem apenas umas poucas viagens
atravs do Saara, ou breves incurses martimas ao longo da costa Atlntica,
sendo a autenticidade de alguns desses relatos objeto de animadas discusses
entre especialistas. As informaes clssicas a respeito do mar Vermelho e do
oceano ndico tm um fundamento mais slido, pois  certo que os mercadores
mediterrnicos, ou ao menos os alexandrinos, comerciavam nessas costas. O
Priplo do Mar da Eritreia (mais ou menos no ano +100) e as obras de Cludio
Ptolomeu (por volta do ano +150, embora a verso que chegou at ns parea
referir-se sobretudo ao ano +400, aproximadamente) e de Cosmas Indicopleustes
(+647) constituem ainda as principais fontes da histria antiga da frica oriental.
    Os autores rabes eram mais bem informados, uma vez que em sua poca a
utilizao do camelo pelos povos do Saara havia facilitado o estabelecimento de
um comrcio regular com a frica ocidental e a instalao de negociantes norte-
-africanos nas principais cidades do Sudo ocidental. Por outro lado, o comrcio
com a parte ocidental do oceano ndico tinha se desenvolvido a tal ponto que um
nmero considervel de mercadores da Arbia e do Oriente Prximo se instalara
ao longo da costa oriental da frica. Assim, as obras de homens como al-Mas'udi
(que morreu por volta de +950), al-Bakri (1029-1094), al-Idrisi (1154), Yakut
(cerca de 1200), Abu'l-Fida (1273-1331), al'Umari (1301-1349), Ibn Battuta
(1304-1369) e Hassan Ibn Mohammad al-Wuzza'n (conhecido na Europa
pelo nome de Leo, o Africano, 1494-1552 aproximadamente) so de grande
importncia para a reconstruo da histria da frica, em particular a do Sudo
ocidental e central, durante o perodo compreendido entre os sculos IX e XV.
    No entanto, por mais teis que sejam essas obras para os historiadores
modernos, pairam dvidas de que possamos incluir algum desses autores ou
de seus predecessores clssicos entre os principais historiadores da frica. O
essencial da contribuio de cada um deles consiste numa descrio das regies
da frica a partir das informaes que puderam recolher na poca em que
A evoluo da historiografia da frica                                                                   3



escreveram. No existe nenhum estudo sistemtico sobre as mudanas ocorridas
ao longo do tempo e que constituem o verdadeiro objetivo do historiador. Alis,
tal descrio nem chega a ser realmente sincrnica, pois se  verdade que uma
parte das informaes pode ser contempornea, outras delas, embora pudessem
ainda ser consideradas verdadeiras na poca em que o autor vivia, muitas vezes
poderiam ser provenientes de relatos mais antigos. Alm disso, essas obras
apresentam o inconveniente de que, em geral, no h nenhum meio de avaliar
a autoridade da informao, de saber, por exemplo, se o autor a obteve por sua
observao pessoal ou a partir da observao direta de um contemporneo, ou
se ele simplesmente relata rumores correntes na poca ou a opinio de autores
antigos. Leo, o Africano, constitui um exemplo interessante desse problema.
Assim como Ibn Battuta, ele prprio viajou pela frica, mas, ao contrrio deste,
no se pode afirmar com certeza que todas as informaes que ele nos fornece
tenham provindo de suas observaes pessoais.
    Talvez fosse til relembrar aqui que o termo "histria" no deixa de ser ambguo.
Atualmente, pode ser definido como "um relato metdico dos acontecimentos
de um determinado perodo", mas pode tambm ter o sentido mais antigo de
"descrio sistemtica de fenmenos naturais".  essencialmente nessa acepo
que ele  empregado no ttulo em ingls da obra de Leo, o Africano (Leo
Africanus, A Geographical History of Africa; em francs, Description de l' Afrique),
significado que s permanece hoje na ultrapassada expresso "histria natural"
(que, alis, era o ttulo da obra de Plnio).
    Entre os primeiros historiadores da frica, porm, encontra-se um muito
importante, um grande historiador no sentido amplo do termo: referimo-nos
a Ibn Khaldun (1332-1406) que, se fosse mais conhecido pelos especialistas
ocidentais, poderia legitimamente roubar de Herdoto o ttulo de "pai da
histria". Ibn Khaldun era um norte-africano nascido em Tnis. Uma parte
de sua obra  consagrada  frica1 e s suas relaes com os outros povos
do Mediterrneo e do Oriente Prximo. Da compreenso dessas relaes ele
induziu uma concepo que faz da histria um fenmeno cclico, no qual os
nmades das estepes e dos desertos conquistam as terras arveis dos povos
sedentrios e a estabelecem vastos reinos, que, depois de cerca de trs geraes,
perdem sua vitalidade e se tornam vtimas de novas invases de nmades.
Trata-se, sem dvida, de um bom modelo para grande parte da histria do


1    As principais explicaes sobre a frica encontram-se na mais importante obra desse autor, a Muqqadima
     (traduo francesa de Vincent MONTEIL), e no fragmento de sua histria traduzido por DE SLANE
     sob o ttulo Histoire des Berbres.
4                                                                     Metodologia e pr-histria da frica



norte da frica e um importante historiador, Marc Bloch2, utilizou-o para sua
brilhante explicao da histria da Europa no incio da Idade Mdia. Ora, Ibn
Khaldun distingue-se de seus contemporneos no somente por ter concebido
uma filosofia da histria, mas tambm  e talvez principalmente  por no ter,
como os demais, atribudo o mesmo peso e o mesmo valor a todo fragmento de
informao que pudesse encontrar sobre o passado; acreditava que era preciso
aproximar-se da verdade passo a passo, atravs da crtica e da comparao.
    Ibn Khaldun , realmente, um historiador muito moderno e  a ele que
devemos o que se pode considerar quase como histria da frica tropical, em
sentido moderno. Na qualidade de norte-africano e tambm pelo fato de ter
trabalhado, a despeito da novidade de sua filosofia e de seu mtodo, no quadro
das antigas tradies mediterrneas e islmicas, ele no deixou de se preocupar
com o que ocorria no outro lado do Saara. Assim, um dos captulos de sua obra3
 uma histria do Imprio do Mali, que na poca em que ele viveu atingia seu
auge. Esse captulo  parcialmente fundamentado na tradio oral da poca e,
por esta razo, permanece at hoje como uma das bases essenciais da histria
desse grande Estado africano.
    Nenhum Estado vasto e poderoso como o Mali, nem mesmo os Estados
de menor importncia como os primeiros reinados haussa ou as cidades
independentes da costa oriental da frica, podiam manter sua identidade ou
sua integridade sem uma tradio reconhecida relativa  sua fundao e ao seu
desenvolvimento. Quando o Isl atravessou o Saara e se expandiu ao longo da
costa oriental trazendo consigo a escrita rabe, os negros africanos passaram a
utilizar textos escritos ao lado dos documentos orais de que j dispunham para
conservar sua histria.
    Os mais elaborados dentre esses primeiros exemplos de obras de histria
atualmente conhecidos so provavelmente o Ta'rikh alSudan e o Ta'rikh
elFattash, ambos escritos em Tombuctu, principalmente no sculo XVII4. Nos
dois casos, os autores fazem um relato dos acontecimentos de sua poca e do
perodo imediatamente anterior, com muitos detalhes e sem omitir a anlise
e a interpretao. Mas antecedendo esses relatos crticos h tambm uma
evocao das tradies orais relativas a perodos mais antigos. Dessa forma, o


2   Ver sobretudo BLOCH, M. 1939, p. 91.
3   Na traduo de M. G. DE SLANE, intitulada Histoire des Berbres (1925-1956), este captulo figura no
    volume 2, p. 105-16.
4   O Ta'rikh alSudan foi traduzido para o francs e comentado por O. HOUDAS (1900); o Ta'rikh
    elFattash, por O. HOUDAS e M. DELAFOSSE (1913).
A evoluo da historiografia da frica                                                                5



resultado no  somente uma histria do Imprio Songhai, de sua conquista e
dominao pelos marroquinos, mas tambm uma tentativa de determinar o que
era importante na histria pregressa da regio, sobretudo nos antigos imprios
de Gana e do Mali. Em funo disso,  importante distinguir os Ta'rikh de
Tombuctu de outras obras histricas escritas em rabe pelos africanos, tais
como as conhecidas pelos nomes de Crnica de Kano e Crnica de Kilwa5. Estes
ltimos nos oferecem somente anotaes diretas, por escrito, de tradies que at
ento eram, sem dvida alguma, transmitidas oralmente. Embora uma verso da
Crnica de Kilwa parea ter sido utilizada pelo historiador portugus de Barros
no sculo XVI, no h nada que prove que a Crnica de Kano tenha existido
antes do incio do sculo XIX.
     interessante notar que as crnicas dessa natureza escritas em rabe no
se limitam necessariamente s regies da frica que foram inteiramente
islamizadas. Assim, o centro da atual Gana produziu sua Crnica de Gonja (Kitab
alGhunja) no sculo XVIII e as recentes pesquisas de especialistas como Ivor
Wilks revelaram centenas de exemplos de manuscritos rabes provenientes dessa
regio e de regies vizinhas6. Por outro lado,  preciso no esquecer que uma
parte da frica tropical  a atual Etipia  possua sua prpria lngua semtica,
inicialmente o gueze e mais tarde o amrico, na qual uma tradio literria foi
preservada e desenvolvida durante quase 2 mil anos. Sem dvida nenhuma, essa
tradio produziu obras histricas j no sculo XIV, das quais um exemplo 
a Histria das Guerras, de Amda Syn7. As obras histricas escritas em outras
lnguas africanas como o haussa e o swahili, distintas das escritas em rabe
clssico importado mas utilizando sua escrita, s apareceram no sculo XIX.
    No sculo XV os europeus comearam a entrar em contato com as regies
costeiras da frica tropical, fato que desencadeou a produo de obras literrias
que constituem preciosas fontes de estudo para os historiadores modernos.
Quatro regies da frica tropical foram objeto de particular ateno: a costa
da Guin na frica ocidental; a regio do Baixo Zaire e de Angola; o vale
do Zambeze e as terras altas vizinhas; e, por fim, a Etipia. Nessas regies,
durante os sculos XVI e XVII, houve uma considervel penetrao em direo
ao interior. Mas, como no caso dos escritores antigos, clssicos, ou rabes, o

5    Pode-se encontrar uma traduo inglesa da Crnica de Kano em H. R. PALMER, 1928, vol. 3, p. 92-132,
     e da Crnica de Kilwa em G. S. P. FREEMAN-GRENVILLE, 1962, p. 34-49.
6    Sobre a Crnica de Gonja e a coleo de manuscritos rabes na atual Gana, ver Nehemin LEVTZION,
     1968, p. 27-32 sobretudo; Ivor WILKS, 1963, p. 409-17; e Thomas HODGKIN, 1966, p. 442-60.
7    Existem vrias tradues dessa obra, sobretudo uma (em francs) de J. PERRUCHON no Journal
     Asiatique, 1889.
6                                                                     Metodologia e pr-histria da frica



resultado no foi sempre, e em geral no de forma imediata, a produo de obras
de histria da frica.
    A costa da Guin foi a primeira regio da frica tropical descoberta
pelos europeus; ela foi o tema de toda uma srie de obras a partir de 1460,
aproximadamente (Cadamosto), at o incio do sculo XVIII (Barbot e
Bosman). Uma boa parte desse material  de grande valor histrico, porque
fornece testemunhos diretos e datados, graas aos quais podem-se situar vrias
outras relaes de carter histrico. H tambm nessas obras abundante material
histrico (entendido como no-contemporneo), sobretudo em Dapper (1688),
que, ao contrrio da maioria dos demais autores, no era um observador direto,
mas apenas um compilador de relatos alheios. Porm, o objetivo essencial de
todos esses autores era mais descrever a situao contempornea do que fazer
histria. E  somente agora, depois que uma boa parte da histria da frica
ocidental foi reconstituda, que podemos avaliar corretamente muitas das
afirmaes que eles fizeram8.
    Nas outras regies que despertaram o interesse dos europeus nos sculos
XVI e XVII a situao era um pouco diferente. Isso talvez se deva ao fato
de terem sido o campo de atividade dos primeiros esforos missionrios, ao
passo que o principal motor das atividades europeias na Guin foi sempre o
comrcio. Enquanto os africanos forneciam as mercadorias que os europeus
desejavam comprar, como era em geral o caso da Guin, os negociantes no
se sentiam impelidos a mudar a sociedade africana; eles se contentavam em
observ-la. Os missionrios, ao contrrio, sentiam-se obrigados a tentar alterar
o que encontravam e, nessas condies, um certo grau de conhecimento da
histria da frica poderia ser-lhes til. Na Etipia, as bases j existiam. Podia-
-se aprender o gueez e aperfeioar seu estudo, bem como utilizar as crnicas e
outros escritos nessa lngua. Obras histricas sobre a Etipia foram elaboradas
por dois eminentes pioneiros entre os missionrios, Pedro Paez (morto em
1622) e Manoel de Almeida (1569-1646), e uma histria completa foi escrita
por um dos primeiros orientalistas da Europa, Hiob Ludolf (1634-1704)9. No
baixo vale do Congo e em Angola, assim como no vale do Zambeze e em suas
imediaes, os interesses comerciais eram provavelmente mais fortes que os


8   The Voyages of Cadamosto, comentadas por G. R. CRONE, 1937; John BARBOT, 1732; William
    BOSMAN, edio comentada, 1967.
9   Em C. BECCARI, Rerum Aethiopicarum Scriptores Occidentales lnediti (Roma, 1905-1917), a obra de
    Paez se encontra nos volumes 2 e 3 e a de Almeida, nos volumes 5 e 7; existe uma traduo parcial em
    ingls da obra de ALMEIDA em C. F. BECKINGHAM e G. W. B. HUNTINGFORD, Some Records
    of Ethiopia, 1593-1646 (1954). A Historia Aethiopica de LUDOLF foi publicada em Frankfurt, em 1681.
A evoluo da historiografia da frica                                                                 7



da evangelizao. Ocorre porm que, em seu conjunto, a sociedade africana
tradicional no estava disposta a fornecer aos europeus o que eles desejavam, a
no ser que sofresse presses considerveis. O resultado  que ela foi obrigada
a mudar de modo to drstico que mesmo os ensaios descritivos dificilmente
podiam deixar de ser em parte histricos. De fato, importantes elementos de
histria podem ser encontrados em livros de autores como Pigafetta e Lopez
(1591) e Cavazzi (1687). Em 1681, Cadornega publica uma Histria das Guerras
Angolanas10.
    A partir do sculo XVIII, parece que a frica tropical recebeu dos historiadores
europeus a ateno que merecia. Era possvel, por exemplo, utilizar como fontes
histricas os autores mais antigos, sobretudo os descritivos  como Leo, o
Africano, e Dapper , de maneira que as histrias e geografias universais da
poca, como The Universal History, publicada na Inglaterra entre 1736 e 1765,
podiam consagrar um nmero aprecivel de pginas  frica11. Houve tambm
ensaios monogrficos, como  o caso da Histria de Angola, de Silva Correin
(cerca de 1792), da Some Historical account of Guinea, de Benezet (1772) e das
duas histrias do Daom: Memrias do Reino de Bossa Ahade, de Norris (1789)
e History of Dahomey, de Dalzel ( 1793). Mas uma advertncia se faz necessria
aqui. O livro de Silva Correin s foi publicado neste sculo12. E a razo pela
qual as trs obras mencionadas acima foram publicadas naquela poca deve-se
ao fato de que, no fim do sculo XVIII, comeava a acirrar-se a controvrsia em
torno do trfico de escravos, que tinha sido o principal elemento das relaes
entre a Europa e a frica tropical havia pelo menos 150 anos. Dalzel e Norris,
ambos recorrendo  sua experincia no comrcio de escravos no Daom, assim
como Benezet, desempenharam o papel de historiadores, mas seus trabalhos
tinham como objetivo fornecer argumentos a favor ou contra a abolio do
trfico negreiro.
    Se no fosse por isso, no se tem como certo que esses livros tivessem
encontrado compradores, pois nessa poca a principal tendncia da cultura
europeia comeava a considerar de forma cada vez mais desfavorvel as
sociedades no-europeias e a declarar que elas no possuam uma histria
digna de ser estudada. Essa mentalidade resultava sobretudo da convergncia


10   CADORNEGA, A. de Oliveira. Historia General das Guerras Angolanas. Comentada por M. DELGADO
     e A. CUNHA (Lisboa, 1940-1942).
11   A edio infolio da Universal History compreende 23 volumes, dos quais 16 so consagrados  histria
     moderna, contendo estes ltimos dois volumes sobre a frica.
12   Lisboa, 1937.
8                                                            Metodologia e pr-histria da frica



de correntes de pensamento oriundas do Renascimento, do Iluminismo e da
crescente revoluo cientfica e industrial. O resultado foi que, baseando-se no
que era considerado uma herana greco-romana nica, os intelectuais europeus
convenceram-se de que os objetivos, os conhecimentos, o poder e a riqueza
de sua sociedade eram to preponderantes que a civilizao europeia deveria
prevalecer sobre todas as demais. Consequentemente, sua histria constitua
a chave de todo conhecimento, e a histria das outras sociedades no tinha
nenhuma importncia. Esta atitude era adotada sobretudo em relao  frica.
De fato, nessa poca os europeus s conheciam a frica e os africanos sob
o ngulo do comrcio de escravos, num momento em que o prprio trfico
era causador de um caos social cada vez mais grave em numerosas partes do
continente.
   Hegel (1770-1831) definiu explicitamente essa posio em sua Filosofia
da Histria, que contm afirmaes como as que seguem: "A frica no  um
continente histrico; ela no demonstra nem mudana nem desenvolvimento".
Os povos negros "so incapazes de se desenvolver e de receber uma educao.
Eles sempre foram tal como os vemos hoje".  interessante notar que, j em 1793,
o responsvel pela publicao do livro de Dalzel julgara necessrio justificar o
surgimento de uma histria do Daom. Assumindo claramente a mesma posio
de Hegel, ele declarava:
     "Para chegar a um justo conhecimento da natureza humana,  absolutamente necessrio
     preparar o caminho atravs da histria das naes menos civilizadas (...) (No h
     nenhum outro) meio de julgar o valor da cultura, na avaliao da felicidade humana, a
     no ser atravs de comparaes deste tipo"13.
   Ainda que a influncia direta de Hegel na elaborao da histria da frica
tenha sido fraca, a opinio que ele representava foi aceita pela ortodoxia histrica
do sculo XIX. Essa opinio anacrnica e destituda de fundamento ainda hoje
no deixa de ter adeptos. Um professor de Histria Moderna na Universidade
de Oxford, por exemplo, teria declarado:
     "Pode ser que, no futuro, haja uma histria da frica para ser ensinada. No presente,
     porm, ela no existe; o que existe  a histria dos europeus na frica. O resto so
     trevas... e as trevas no constituem tema de histria. Compreendam-me bem. Eu
     no nego que tenham existido homens mesmo em pases obscuros e sculos obscuros,
     nem que eles tenham tido uma vida poltica e uma cultura interessantes para os


13   DALZEL, Archibald. The History of Dahomey (1793) p.v.
A evoluo da historiografia da frica                                                                      9



     socilogos e os antroplogos; mas creio que a histria  essencialmente uma forma de
     movimento e mesmo de movimento intencional. No se trata simplesmente de uma
     fantasmagoria de formas e de costumes em transformao, de batalhas e conquistas,
     de dinastias e de usurpaes, de estruturas sociais e de desintegrao social...".
    Ele argumentava que "a histria, ou melhor, o estudo da histria, tem uma
finalidade. Ns a estudamos (...) a fim de descobrir como chegamos ao ponto
em que estamos". O mundo atual, prosseguia ele, "est a tal ponto dominado
pelas ideias, tcnicas e valores da Europa ocidental que, pelo menos nos cinco
ltimos sculos, na medida em que a histria do mundo tem importncia, 
somente a histria da Europa que conta". Por conseguinte, no podemos nos
permitir "divertirmo-nos com o movimento sem interesse de tribos brbaras
nos confins pitorescos do mundo, mas que no exerceram nenhuma influncia
em outras regies"14.
    Por ironia do destino, foi durante a vida de Hegel que os europeus
empreenderam a explorao real, moderna e cientfica da frica e comearam
assim a lanar os fundamentos de uma avaliao racional da histria e das
realizaes das sociedades africanas. Essa explorao era ligada, em parte, 
reao contra a escravido e o trfico de escravos, e, em parte,  competio
pelos mercados africanos.
    Alguns dos primeiros europeus eram impelidos por um desejo sincero de
aprender tudo o que pudessem a respeito do passado dos povos africanos e
recolhiam todo o material que encontravam: documentos escritos, quando os
havia, ou ainda tradies orais e testemunhos que descobriam sobre os traos
do passado. A literatura produzida pelos exploradores  imensa. Alguns desses
trabalhos contm histria no melhor sentido do termo, e em sua totalidade,
tal literatura constitui um material de grande valor para os historiadores. Uma
pequena lista dos principais ttulos poderia incluir Travels to Discoverer the
Sources of the Nile de James Bruce (1790); os captulos especificamente histricos
dos relatos de visitas a Kumasi, capital de Ashanti, de T. E. Bowdich (Mission
from Cape Coast to Ashantee, 1819) e de Joseph Dupuis (Journal of a Residence
in Ashantee, 1824); Reisen und Entdeckungen in Nordund Zentral Afrika (1857-
-1858) de Heinrich Barth; Documents sur l'Histoire, la Gographie et le Commerce
de l'Afrique Oriental de M. Guillain (1856); e Saara und Sudan de Gustav
Nachtigal (1879-1889).

14   Estas citaes foram extradas das notas de abertura do primeiro ensaio de uma srie de cursos proferidos
     pelo professor Hugh TREVOR-HOPER intitulada "The Rise of Christian Europe" (A Ascenso da
     Europa Crist). Ver The Listener, 28-11-1963, p. 871.
10                                                      Metodologia e pr-histria da frica



   A carreira de Nachtigal prosseguiu numa fase inteiramente nova da histria
da frica: aquela em que os europeus haviam iniciado a conquista do continente
e o domnio de suas populaes. Como essas tentativas pareciam necessitar
de uma justificativa moral, as consideraes hegelianas foram reforadas pela
aplicao dos princpios de Darwin. O resultado sintomtico disso tudo foi o
aparecimento de uma nova cincia, a Antropologia, que  um mtodo no-
-histrico de estudar e avaliar as culturas e as sociedades dos povos "primitivos",
os que no possuam "uma histria digna de ser estudada", aqueles que eram
"inferiores" aos europeus e que podiam ser diferenciados destes pela pigmentao
de sua pele.
    interessante citar aqui o caso de Richard Burton (1821-1890), um dos
grandes viajantes europeus na frica durante o sculo XIX. Trata-se de um
esprito curioso, cultivado, sempre atento e um orientalista eminente. Ele foi,
em 1863, um dos fundadores da London Anthropological Society (que tornar-
-se-ia mais tarde o Royal Anthropological Institute). Entretanto, de modo bem
mais acentuado que Nachtigal, sua carreira marca o fim da explorao cientfica
e imparcial da frica, que havia comeado com James Bruce. Encontramos,
por exemplo, em sua Mission to Gelele, King of Dahomey ( 1864), uma notvel
digresso sobre "o lugar do negro na natureza" (e no, como se pode notar, "o lugar
do negro na histria"). Pode-se ler a frases como esta: "O negro puro se coloca
na famlia humana abaixo das duas grandes raas, rabe e ariana" (a maioria dos
seus contemporneos teria classificado estas duas ltimas em ordem inversa) e
"o negro, coletivamente, no progredir alm de um determinado ponto, que
no merecer considerao; mentalmente ele permanecer uma criana..."15.
Foi em vo que certos intelectuais africanos, como James Africanus Horton,
responderam a essas colocaes, polemizando com os membros influentes da
London Anthropological Society.
   As coisas ficaram ainda mais difceis para o estudo da histria da frica
aps o aparecimento, nessa poca e em particular na Alemanha, de uma nova
concepo sobre o trabalho do historiador, que passava a ser encarado mais
como uma atividade cientfica fundada sobre a anlise rigorosa de fontes
originais do que como uma atividade ligada  literatura ou  filosofia.  evidente
que, para a histria da Europa, essas fontes eram sobretudo fontes escritas, e
nesse domnio a frica parecia especialmente deficiente. Tal concepo foi
exposta de forma muito precisa pelo professor A. P. Newton, em 1923, numa


15   0p. cit., edio de 1893, v. 2, p. 131 e 135.
A evoluo da historiografia da frica                                                                   11



conferncia diante da Royal African Society de Londres, sobre "A frica e a
pesquisa histrica". Segundo ele, a frica no possua "nenhuma histria antes
da chegada dos europeus. A histria comea quando o homem se pe a escrever".
Assim, o passado da frica antes do incio do imperialismo europeu s podia
ser reconstitudo "a partir de testemunhos dos restos materiais, da linguagem
e dos costumes primitivos", coisas que no diziam respeito aos historiadores, e
sim aos arquelogos, aos linguistas e aos antroplogos16.
    De fato, o prprio Newton encontrava-se um pouco  margem do papel de
historiador tal como era concebido na poca. Durante grande parte do sculo
XIX alguns dos mais eminentes historiadores britnicos, como James Stephen
(1789-1859), Herman Merivale (1806-1874), J. A. Froude (1818-1894) e J. R.
Seeley (1834-1895)17, haviam demonstrado muito interesse pelas atividades dos
europeus (ou pelo menos de seus compatriotas) no resto do mundo. Mas o sucessor
de Seeley no cargo de Regius Professor de Histria Moderna em Cambridge foi
Lord Acton (1834-1902), que havia se graduado na Alemanha. Acton comeara
imediatamente a preparar The Cambridge Modern History, cujos catorze volumes
apareceram entre 1902 e 1910. Essa obra  to centrada na Europa que chega
a ignorar quase totalmente at mesmo as atividades dos prprios europeus pelo
mundo. Em consequncia, a histria colonial foi geralmente deixada a cargo
de homens como Sir Charles Lucas (ou, na Frana, Gabriel Hanotaux)18 que,
como Stephen, Merivale e Froude, j haviam se encarregado ativamente dos
assuntos coloniais.
    Entretanto, com o tempo, a histria colonial ou imperial se fez aceitar, mesmo
permanecendo  margem da profisso. The New Cambridge Modern History, que
comeara a aparecer em 1957 sob a direo de Sir George Clark, traz alguns
captulos sobre a frica, a sia e a Amrica em seus doze volumes e, por outro
lado, a coleo de histria de Cambridge havia sido enriquecida nessa poca
com a srie The Cambridge History of the British Empire (1929-1959), da qual

16   "Africa and historical research", J. A. S., 22 (1922-1923).
17   STEPHEN foi funcionrio no Colonial Office de 1825 a 1847 e professor de Histria Moderna em
     Cambridge de 1849 a 1859; MERIVALE foi professor de Economia Poltica em Oxford antes de
     suceder STEPHEN na qualidade de Permanent Under-Secretary do Colonial Office (1847-1859);
     FROUDE passou a maior parte de sua vida em Oxford e foi professor de Histria Moderna em 1892-
     -1894, mas na dcada de 1870 serviu como emissrio do Colonial Secretary na frica do Sul; SEELEY
     foi professor de Histria Moderna em Cambridge de 1869 a 1895.
18 LUCAS foi funcionrio no British Colonial Office de 1877 a 1911, tendo atingido o grau de Assis-
   tant Under-Secretary; ele obteve depois um posto no All Soul's College, em Oxford. HANOTAUX
   (1853-1944) seguiu duas carreiras: como poltico e homem de Estado desempenhou, na dcada de
   1890, importante papel nas relaes coloniais e exteriores da Frana; como historiador, foi eleito para a
   Academia Francesa.
12                                                    Metodologia e pr-histria da frica



Newton foi um dos diretores fundadores. Mas basta um exame superficial desse
trabalho para perceber que a histria colonial, mesmo no que se refere  frica,
 muito diferente da histria da frica.
    Dos oito volumes dessa obra, quatro so consagrados ao Canad,  Austrlia,
 Nova Zelndia e  ndia Britnica. Restam ento trs volumes gerais,
nitidamente orientados para a poltica imperial (de 68 captulos, somente quatro
referem-se diretamente s relaes da Inglaterra com a frica) e um volume
consagrado  frica do Sul, o nico lugar da frica subsaariana no qual os
colonos europeus realmente se estabeleceram. A quase totalidade desse volume
(o maior dos oito)  dedicada aos intrincados negcios desses colonos europeus
desde sua chegada em 1652. Os povos africanos, que constituem a maioria da
populao, so relegados a um captulo introdutrio (e essencialmente no-
-histrico) redigido por um antroplogo social, e a dois captulos que, embora
escritos pelos dois historiadores sul-africanos mais lcidos de sua gerao, C.
W. de Kiewiet e W. M. MacMillan, os consideram, por necessidade, sob a
perspectiva de sua reao  presena europeia. Em outros lugares, a histria da
frica aparecia muito timidamente em colees mais ou menos monumentais,
como por exemplo, Peuples et Civilizations, Histria Geral, 20 volumes, Paris,
1927-52; G. Glotz, editor, Histoire Gnrale, organizada por G. Glotz, 10
volumes, Paris, 1925-1938; Propylen Weltgeschichte, 10 volumes, Berlim, 1929-
-1933; Historia Mundi, ein Handbuch der Weltgeschichte in 10 Bnden, Bern,
1952 ff; V semirnaja Istoriya (World History), 10 volumes, Moscou, 1955 ff.
O italiano C. Conti Rossini publicou em Roma, em 1928, uma importante
Storia d' Etiopia.
    Os historiadores coloniais profissionais estavam, assim como os
historiadores profissionais em geral, apegados  concepo de que os povos
africanos ao sul do Saara no possuam uma histria suscetvel ou digna de
ser estudada. Como vimos, Newton considerava essa histria como domnio
exclusivo dos arquelogos, linguistas e antroplogos. Mas se  verdade que
os arquelogos, assim como os historiadores, por fora de sua profisso se
interessam pelo passado do homem e de suas sociedades, eles estavam quase
to desinteressados quanto os historiadores em dedicar-se a descobrir e
elucidar a histria da sociedade humana na frica subsaariana. Concorriam
para isso duas razes principais. Em primeiro lugar, uma das correntes mais
importantes da Arqueologia, cincia ento em desenvolvimento, professava
que, assim como a Histria, ela deveria orientar -se essencialmente pelas
fontes escritas. Consagrava-se a problemas como encontrar o local exato da
antiga cidade de Troia ou detectar fatos ainda desconhecidos atravs de fontes
A evoluo da historiografia da frica                                           13



literrias relativas s antigas sociedades da Grcia, de Roma ou do Egito, cujos
principais monumentos haviam sido fontes de especulaes durante sculos.
A Arqueologia era  e s vezes ainda   estreitamente ligada ao ramo da
Histria conhecido pelo nome de Histria Antiga. Em geral, ela se preocupava
mais em procurar e decifrar antigas inscries do que em encontrar outras
relquias. S muito raramente  por exemplo em Axum e Zimbabwe e em
torno desses stios  admitia-se que a frica subsaariana possua monumentos
suficientemente importantes para atrair a ateno dessa escola de arqueologia.
Em segundo lugar, uma outra atividade essencial da pesquisa arqueolgica se
concentrava nas origens do homem, tendo como consequncia uma perspectiva
mais geolgica do que histrica de seu passado.  verdade que, em funo de
especialistas como L. S. B. Leakey e Raymond Dart, uma parte substancial
dessa pesquisa acabou finalmente por se concentrar na frica oriental e do sul.
Mas esses homens buscavam um passado longnquo demais, no qual no se
podia afirmar que existissem sociedades; alm disso, habitualmente havia um
abismo entre as conjeturas sobre os fsseis que esses pesquisadores descobriam
e as populaes modernas cujo passado os historiadores desejavam estudar.
    Enquanto a maioria dos arquelogos e dos historiadores considerava
a frica subsaariana, at os anos 50, aproximadamente, no digna de sua
ateno, a imensa variedade de tipos fsicos, de sociedades e de lnguas desse
continente despertava o interesse dos antroplogos e linguistas  medida
que suas disciplinas comeavam a desenvolver-se. Foi possvel a uns e outros
permanecerem durante muito tempo encerrados em seus gabinetes de trabalho.
Mas homens como Burton e S. W. Koelle (Polyglotte Africana, 1854) em boa
hora demonstraram o valor da pesquisa de campo, e os antroplogos, em
particular, tornaram-se os pioneiros desse trabalho na frica. Mas, ao contrrio
dos historiadores e dos arquelogos, nem os antroplogos nem os linguistas
sentiam-se obrigados a descobrir o que ocorrera no passado. Na frica, eles
encontraram uma abundncia de fatos simplesmente  espera de descrio,
classificao e anlise, o que representava uma imensa tarefa. Frequentemente
eles s se interessavam pelo passado na medida em que tentavam reconstruir
uma histria que parecia-lhes estar na origem dos dados recolhidos e seria
capaz de explic-los.
    No entanto, nem sempre eles percebiam o quanto essas reconstrues eram
especulativas e hipotticas. Um exemplo clssico  o do antroplogo C. G.
Seligman que, na obra Races of Africa, publicada em 1930, escrevia sem rodeios:
"As civilizaes da frica so as civilizaes dos camitas, e sua histria, os anais
14                                                                     Metodologia e pr-histria da frica



desses povos e de sua interao com duas outras raas africanas, a negra e a
bosqumana..."19.
    Inferimos dessa afirmao que essas "duas outras raas africanas" so inferiores
e que todo o progresso que tenham conseguido seria resultante da influncia
"camtica" que sofreram de forma mais ou menos intensa. Em outro trecho
dessa mesma obra, ele fala da chegada, "vaga aps vaga", de pastores "camitas"
que estavam "melhor armados e eram ao mesmo tempo mais inteligentes" que
"os cultivadores negros atrasados" sobre os quais exerciam influncia20. Mas, na
realidade, no h nenhuma prova histrica que sustente as afirmaes de que
"as civilizaes da frica so as civilizaes dos camitas", ou que os progressos
histricos verificados na frica subsaariana se devam apenas ou principalmente
a eles. O prprio livro no apresenta nenhuma evidncia histrica, e muitas
das hipteses sobre as quais ele se apia sabe-se agora no terem nenhum
fundamento. J. H. Greenberg, por exemplo, demonstrou de uma vez por todas
que os termos "camita" e "camtico" no tm nenhum sentido, a no ser, e na
melhor das hipteses, como categorias da classificao lingustica21.
     certo que no existe, necessariamente, uma correlao entre a lngua falada por
uma populao e sua origem racial ou sua cultura. Assim, Greenberg pode citar, entre
outros, este maravilhoso exemplo: "os cultivadores haussa, que falam uma lngua
`camtica', esto sob a dominao dos pastores fulani que falam (...) uma lngua
nger-congolesa" (isto , uma lngua negra)22. Ele refuta igualmente a base camtica
que sustentava grande parte da reconstruo feita por Seligman da histria cultural
dos negros em outras partes da frica, sobretudo das populaes de lngua bantu.
    Escolhemos particularmente Seligman porque ele se situava entre as
personalidades mais destacadas de sua profisso na Gr-Bretanha (foi um dos
primeiros a empreender srias pesquisas de campo na frica) e porque seu livro
tornou-se, de certa forma, um modelo, vrias vezes reeditado. Ainda em 1966
ele era divulgado como "um clssico em seu gnero". Mas essa adoo do mito
da superioridade dos povos de pele clara sobre os de pele escura era somente
uma parte dos preconceitos correntes na Europa no fim do sculo XIX e no
incio do sculo XX. Os europeus acreditavam que sua pretensa superioridade

19   0p. cit., ed. de 1930, p. 96; ed. de 1966, p. 61.
20   0p. cit., ed. de 1930, p. 158; ed. de 1966, p. 101.
21   GREENBERG, J. H., 1953 e 1963. De fato, GREENBERG, como a maioria dos linguistas modernos,
     evita empregar o termo "camtico"; eles classificam as lnguas outrora denominadas camticas, ao lado
     das lnguas semticas e outras, num grupo mais amplo, o afro-asitico ou eritreu, e no reconhecem o
     subgrupo "camtico" de modo especfico.
22 GREENBERG, J. H., 1963, p. 30.
A evoluo da historiografia da frica                                                                15



sobre os negros africanos estava confirmada por sua conquista colonial. Em
consequncia disso, em muitas partes da frica, especialmente no cinturo
sudans e na regio dos grandes lagos, eles estavam convictos de que apenas
davam continuidade a um processo de civilizao que outros invasores de pele
clara, chamados genericamente de camitas, haviam comeado antes deles.23 O
mesmo tema reaparece ao longo de muitas outras obras do perodo que vai
de 1890 a 1940, aproximadamente, e que contm uma quantidade bem maior
de elementos srios de histria do que os encontrados no pequeno manual de
Seligman. Em sua maioria, essas obras foram escritas por homens e mulheres
que tinham participado pessoalmente da conquista ou da colonizao e que
no eram nem antroplogos, nem linguistas, nem historiadores profissionais.
Tratava-se sim de amadores no melhor sentido da palavra, que se interessavam
sinceramente pelas sociedades exticas que haviam descoberto, e que desejavam
obter mais informaes a seu respeito e partilhar seus conhecimentos com
outras pessoas. Sir Harry Johnston e Maurice Delafosse, por exemplo, trouxeram
contribuies notveis para a lingustica africana (assim como para outros ramos
do conhecimento). Mas o primeiro denominou seu grande estudo geral de A
History of the Colonization of Africa by Alien Races (1899, obra revista e ampliada
em 1913), e, nas sees histricas do magistral estudo de Delafosse sobre o Sudo
ocidental, HautSngalNiger (1912), o tema geral aparece quando ele invoca
uma migrao judaico-sria para fundar a antiga Gana. Flora Shaw (A Tropical
Dependency, 1906) era fascinada pela contribuio dos muulmanos  histria
da frica. Margery Perham, amiga e bigrafa de Lord Lugard, refere-se com
propriedade ao "movimento majestoso da histria desde as primeiras conquistas
rabes da frica s de Goldie e de Lugard"24. Um excelente historiador amador,
Yves Urvoy (Histoire des Populations du Soudan Central, 1936 e Histoire du Bornou,
1949), equivoca-se completamente a respeito do significado das interaes entre
os nmades do Saara e os negros sedentrios que ele descreve com preciso;
ao mesmo tempo, Sir Richmond Palmer (Sudanese Memoirs, 1928 e The Bornu
Sahara and Sudan, 1936), arquelogo inspirado, procura sempre as origens da
ao dos povos nigerianos em lugares to distantes quanto Trpoli ou o Imen.




23    interessante notar que a edio atualmente revisada, a quarta, de Races of Africa (1966) contm na
     pgina 61 uma frase importante que no se encontra na edio original de 1930. Os camitas so a
     definidos como "europeus, ou seja, pertencentes  mesma grande raa da humanidade a que pertencem
     os homens brancos"!
24   PERHAM, Margery. Lugard, the Years of Authority. 1960, p. 234.
16                                                                      Metodologia e pr-histria da frica



    No entanto, aps Seligman, os antroplogos sociais britnicos conseguiram
de certa forma escapar  influncia do mito camtico. Sua formao, a partir desse
momento, foi dominada pela influncia de B. Malinowski e A. R. Radcliffe-
-Brown, que se opunham decididamente a qualquer espcie de histria fundada
em conjeturas. De fato, o mtodo estritamente funcionalista adotado pelos
antroplogos britnicos entre 1930 e 1950 para o estudo das sociedades africanas
tendia a desencorajar qualquer interesse histrico, mesmo quando, graas a
seu trabalho de campo, eles se encontravam numa situao excepcionalmente
favorvel para obter dados histricos. Porm, no continente europeu (e tambm
na Amrica do Norte, ainda que poucos antroplogos americanos tenham
trabalhado na frica antes dos anos 50) subsistia uma tradio mais antiga de
etnografia que, entre outras caractersticas, dava tanto peso  cultura material
quanto  estrutura social.
    Isso gerou uma grande quantidade de trabalhos de importncia histrica,
como por exemplo The King of Ganda, de Tor Irstam (1944), ou The trade of
Guinea, de Lar Sundstrom (1965). Entretanto, duas obras merecem destaque
especial; Vlkerkunde von Afrika, de Hermann Baumann (1940) e Geschichte
Afrikas de Diedrich Westermann (1952). A primeira era um estudo enciclopdico
dos povos e civilizaes da frica que valorizava bastante as partes conhecidas
de sua histria e at hoje no foi superado como manual de um s volume. O
livro mais recente, Africa: its Peoples and their Culture History (1959), escrito
pelo antroplogo americano G. P. Murdock, fica prejudicado na comparao
por faltar ao seu autor experincia direta da frica, o que lhe teria permitido
avaliar corretamente os materiais de que dispunha, e por ele ter fornecido alguns
esquemas hipotticos to excntricos em seu gnero quanto os de Seligman,
embora menos perniciosos25. Quanto a Westermann, ele era sobretudo um
linguista. Sua obra sobre a classificao das lnguas da frica , em muitos
aspectos, a precursora da de Greenberg; alm disso, ele contribuiu com uma
seo lingustica para o livro de Baumann. Mas sua Geschichte, infelizmente
deformada pela teoria camtica,  tambm uma compilao muito valiosa das
tradies orais africanas tais como se apresentavam em sua poca.
    A estes trabalhos pode-se talvez acrescentar o de H. A. Wieschoff, The
ZimbabweMonomotapa Culture (1943), ainda que seja s para apresentar seu
mestre, Leo Frobenius. Frobenius era etnlogo e antroplogo cultural, mas
era tambm um arquelogo disfarado de historiador. Durante seu perodo

25   Ver meu resumo sobre o assunto no artigo "Anthropology, botany and history". In: J. A. H., n. 2, 1961,
     299-309.
A evoluo da historiografia da frica                                                                         17



de atividade, que corresponde aproximadamente s quatro primeiras dcadas
do sculo XX, ele foi quase com certeza o mais produtivo dos historiadores
da frica. Ele empreendeu inmeros trabalhos de campo em quase todas as
partes do continente africano e apresentou seus resultados numa srie regular de
publicaes (pouco lidas atualmente). Escrevia em alemo, lngua que se tornou
pouco importante para a frica e os africanistas. Somente uma pequena parte de
suas obras foi traduzida, e seu sentido  geralmente difcil de recuperar, porque
elas esto repletas de teorias mticas relativas  Atlntida,  influncia etrusca
sobre a cultura africana, etc.
    Aos olhos dos historiadores, arquelogos e antroplogos atuais, de formao
bastante rigorosa, Frobenius parece um autodidata original cujos trabalhos
so desvalorizados no apenas por suas interpretaes um tanto ousadas, mas
tambm por seu mtodo de trabalho rpido, sumrio e s vezes destrutivo.
Contudo, ele chegou a alguns resultados que anteciparam claramente os obtidos
por pesquisadores que trabalharam com maior rigor cientfico e que surgiram
depois dele, e a outros difceis ou mesmo impossveis de obter nas condies
atuais. Parece que ele possua um talento instintivo para ganhar a confiana dos
informantes e descobrir dados histricos. Os historiadores modernos deveriam
procurar esses dados nas obras de Frobenius e reavali-los em funo dos
conhecimentos atuais, liberando-os das interpretaes fantasiosas acrescentadas
por ele26.
    As singularidades de um gnio autodidata como Frobenius, que buscava
inspirao em si mesmo, contriburam para reforar a opinio dos historiadores
profissionais de que a histria da frica no constitua um campo aceitvel para
sua profisso e desviar assim a ateno de muitos trabalhos srios realizados
durante o perodo colonial. O crescimento do interesse dos europeus pela frica
havia proporcionado aos africanos grande variedade de culturas escritas, que
lhes permitia exprimir seu interesse por sua prpria histria. Foi esse o caso
principalmente da frica ocidental, onde o contato com os europeus havia sido
mais longo e mais constante, e onde  sobretudo nas regies que se tornaram
colnias britnicas  uma demanda pela instruo europeia j existia desde o

26    impossvel num artigo desta dimenso fazer justia  grandeza da produo de FROBENIUS. Sua
     ltima obra de sntese foi Kulturgeschichte Afrikas (Viena, 1933) e sua obra mais notvel foi, provavelmente,
     a coleo em 12 volumes Atlantis: Volksmrchen und Wolksdichtungen Afrikas (Iena, 1921-1928). Mas cabe
     tambm mencionar os livros que relatam cada uma de suas expedies, por exemplo, para os Ioruba e
     Mosso: Und Afrika Sprach (Berlim-Charlottenburg, 1912-1913). Ver a bibliografia completa em Freda
     KRETSCHMAR, Leo Frobenius (1968). Certos artigos recentes em ingls (por exemplo Dr. K. M. ITA.
     "Frobenius in West African History". J. A. H. XIII, 4 (1972) e obras citadas neste artigo sugerem um
     renascimento do interesse pela obra de FROBENIUS.
18                                                                         Metodologia e pr-histria da frica



incio do sculo XIX. Assim como os eruditos islamizados de Tombuctu se
puseram rapidamente a escrever seus ta'rikh em rabe ou na lngua ajami, no fim
do sculo XIX tambm os africanos que haviam aprendido a ler o alfabeto latino
sentiram necessidade de deixar por escrito o que eles conheciam da histria de
seus povos, para evitar que estes fossem completamente tragados pelos europeus
e sua histria.
    Entre os primeiros clssicos desse gnero, escritos por africanos que como os
autores dos ta'rikh antes deles  haviam exercido uma atividade na religio da
cultura importada e dela haviam extrado seus nomes, pode-se citar A History
of the Gold Coast and Asante de Carl Christian Reindorf (1895) e History of the
Yorubas de Samuel Johnson (terminada em 1897 mas publicada somente em
1921). Trata-se de duas obras de histria bastante srias; at hoje ningum pode
empreender um trabalho sobre a histria dos Ioruba sem consultar Johnson. Mas
talvez fosse inevitvel que a ensaios histricos desta ordem se incorporassem
as obras dos primeiros protonacionalistas, desde J. A. B. Horton (1835-1883) e
E. W. Blyden (1832-1912) a J. M. Sarbah (1864-1910), J. E. Casely-Hayford
(1866-1930) e J. B. Danquah (1895-1965), que abordaram muitas questes
histricas mas, na maioria das vezes, com o propsito de fazer propaganda.
 provvel que J. W. de Graft-Johnson (Towards Nationhood in West Africa,
1928; Historical Geography of the Gold Coast, 1929) e E. J. P. Brown (A Gold
Coast and Asiante Reader, 1929) pertenam s duas categorias. Depois deles,
porm, pode-se observar em certos ensaios uma tendncia a glorificar o passado
africano no intuito de combater o mito da superioridade cultural europeia, como
por exemplo em J. O. Lucas, The Religion of Yoruba (1949) e J. W. de Graft-
-Johnson, African Glory (1954). Alguns autores europeus demonstraram uma
tendncia anloga.  o caso, por exemplo, de Eva L. R. Meyerowitz, que, em seus
livros sobre os Akan, tenta outorgar-lhes gloriosos ancestrais mediterrnicos,
comparveis aos que Lucas buscava para os Ioruba27.
    Por outro lado, numa escala mais reduzida, muitos africanos continuaram a
registrar as tradies histricas locais de modo srio e confivel. Os contatos
com os missionrios cristos parecem ter desempenhado um papel significativo.
Assim, floresceu em Uganda uma escola importante de historiadores locais
desde a poca de A. Kagwa (cuja primeira obra foi publicada em 1906); ao
mesmo tempo, R. C. C. Law anotou, para a regio ioruba, 22 historiadores que



27   The Sacred State of the Akan (1951); The Akan Traditions of Origin (1952); The Akan of Ghana; their Ancient
     Beliefs (1958).
A evoluo da historiografia da frica                                                             19



haviam publicado trabalhos antes de 194028, em geral (como alis os autores
ugandenses) em lnguas nativas. Dentre as das obras desse tipo, uma tornou-se
merecidamente clebre: A Short History of Benin de J. U. Egharevba, reeditada
diversas vezes desde sua primeira publicao em 1934.
    Por outro lado, certos colonizadores, espritos inteligentes e curiosos, tentavam
descobrir e registrar a histria daqueles a quem tinham vindo governar. Para
eles, a histria africana geralmente apresentava um valor prtico. Os europeus
podiam ser melhores administradores se possussem algum conhecimento
sobre o passado dos povos que eles haviam colonizado. Alm do mais, seria til
ensinar um pouco de histria da frica nas escolas, cada vez mais numerosas,
fundadas por eles e seus compatriotas missionrios, ainda que fosse apenas para
servir como introduo ao ensino, mais importante, da histria da Inglaterra
ou da Frana. Isso possibilitaria aos africanos obter os school certificates e os
baccalaurats e ser recrutados depois como preciosos auxiliares pseudo-europeus.
    Flora Shaw, Harry Johnson, Maurice Delafosse, Yves Urvoy e Richmond
Palmer j foram mencionados anteriormente. Mas h tambm outros que
escreveram sobre a frica obras histricas relativamente isentas de preconceitos
culturais, ainda que s vezes tenham escolhido (eles ou seus editores) ttulos
bizarros. Entre esses autores podemos citar: Ruth Fisher, Twilight Tales of the
Black Baganda (1912); C. H. Stigand, The Land of Zing (1913); Sir Francis
Fuller, A Vanished Dynasty: Ashanti (1921), exatamente na tradio de Bowdich
e Dupuis; E. W. Bouill, Caravans of the Old Sahara (1933); numerosas obras
eruditas de Charles Monteil (por exemplo, Les Empires du Mali, 1929) ou
de Louis Tauxier (por exemplo, Histoire des Bambara, 1942). Parece que os
franceses foram mais bem sucedidos que os ingleses na elaborao de uma
histria realmente africana. Alguns dos mais slidos trabalhos britnicos  por
exemplo, History of the Gold Coast and Ashanti (1915) de W. W. Claridge ou
History of the Gambia (1940) de Sir John Gray (exceo feita a alguns de seus
artigos mais recentes sobre a frica oriental)  possuam uma forte tendncia
eurocntrica.  conveniente notar tambm que, quando de seu retorno  Frana,
alguns administradores franceses (como Delafosse, Georges Hardy, Henry
Labouret29) elaboraram breves histrias gerais a respeito de todo o continente
ou do conjunto da frica subsaariana.



28   LAW, R. C. C. Early Historical Writing Among the Yoruba (to c. 1940).
29 DELAFOSSE, Maurice. Les Noirs de l'Afrique (Paris, 1921); HARDY, Georges. Vue Gnral de l'Histoire
   d'Afrique (Paris, 1937); LABOURET, Henry. Histoire des Noirs d'Afrique (Paris, 1946).
20                                                      Metodologia e pr-histria da frica



   Isso se explica, em parte, pelo fato de que a administrao colonial francesa
tendia a desenvolver estruturas mais rgidas para a formao e a pesquisa
do que a administrao britnica. Pode-se citar a instituio (em 1917) do
Comit d'Etudes Historique et Scientifique de l'AOF* e de seu Bulletin, que
levaram  criao do Institut Franais d'Afrique Noire, sediado em Dacar
(1938), ao seu Bulletin e  srie Mmoires que editou; a partir da, surgiram
obras como o magistral Tableau Gographique de l'Ouest Africain au Moyen Age
(1961) de Raymond Mauny. Apesar disso, os historiadores do perodo colonial
permaneceram amadores, marginalizados da principal corrente historiogrfica.
Isto ocorreu tanto na Frana quanto na Gr-Bretanha, pois, embora homens
como Delafosse e Labouret tivessem obtido cargos universitrios quando
retornaram  Frana, fizeram-no como professores de lnguas africanas ou de
administrao colonial, e no como historiadores clssicos.
   A partir de 1947, a Socit Africaine de Culture e sua revista Prsence Africaine
empenharam-se na promoo de uma histria  da frica descolonizada. Ao
mesmo tempo, uma gerao de intelectuais africanos que havia dominado as
tcnicas europeias de investigao histrica comeou a definir seu prprio
enfoque em relao ao passado africano e a buscar nele as fontes de uma
identidade cultural negada pelo colonialismo. Esses intelectuais refinaram e
ampliaram as tcnicas da metodologia histrica desembaraando-a, ao mesmo
tempo, de uma srie de mitos e preconceitos subjetivos. A esse propsito
devemos mencionar o simpsio organizado pela UNESCO no Cairo em 1974,
que permitiu a pesquisadores africanos e no-africanos confrontar livremente
seus pontos de vista sobre o problema do povoamento do antigo Egito.
   Em 1948, aparecia a obra History of the Gold Coast de W. E. F. Ward. No
mesmo ano, a Universidade de Londres criava o cargo de lecturer em Histria da
frica na School of Oriental and African Studies, confiado ao Dr. Roland Oliver.
 a partir dessa mesma data que a Gr-Bretanha empreende um programa
de desenvolvimento das universidades nos territrios que dela dependiam:
fundao de estabelecimentos universitrios na Costa do Ouro e na Nigria;
elevao do Gordon College de Cartum e do Makerere College de Kampala
 categoria de universidades. Nas colnias francesas e belgas, desenrolava -se
um processo semelhante. Em 1950 era criada a Escola Superior de Letras de
Dacar que, sete anos mais tarde, adquiriria o estatuto de universidade francesa.
Lovanium, a primeira universidade do Congo (mais tarde Zaire), comeou a
funcionar em 1954.

*    AOF  Afrique Occidentale Franaise (N. do T.).
A evoluo da historiografia da frica                                          21



    Do ponto de vista da historiografia africana, a multiplicao das novas
universidades a partir de 1948 foi seguramente mais significativa que a
existncia dos raros estabelecimentos criados antes, mas que vegetavam por
falta de recursos, tais como o Liberia College de Monrvia e do Fourah Bay
College de Serra Leoa, fundados respectivamente em 1864 e 1876.
    Por outro lado, as nove universidades que existiam na frica do Sul em 1940
eram prejudicadas pela poltica segregacionista do regime de Pretria: tanto a
pesquisa histrica quanto o ensino eram eurocentristas, e a histria da frica
no passava da histria dos imigrantes brancos.
    Todas as novas universidades, ao contrrio, organizaram logo departamentos
de histria, o que, pela primeira vez, levou um nmero considervel de
historiadores profissionais a trabalhar na frica. Era inevitvel, no incio, que a
maioria desses historiadores fosse proveniente de universidades no-africanas.
Mas a africanizao sobreveio rapidamente. O primeiro diretor africano de um
departamento de histria, o professor K. O. Dike, foi nomeado em 1956, em
Ibad. Formaram-se muitos estudantes africanos. Os professores africanos que
se tornaram historiadores profissionais sentiram necessidade de ampliar a parte
reservada  histria da frica em seus programas e, quando essa histria fosse
pouco conhecida, de inclu-la em suas pesquisas.
    A partir de 1948, a historiografia da frica vai progressivamente se
assemelhando  de qualquer outra parte do mundo. E evidente que ela possui
problemas especficos, como a escassez relativa de fontes escritas para os
perodos antigos e a consequente necessidade de lanar mo de outras fontes
como a tradio oral, a lingustica ou a arqueologia. Mas, embora a historiografia
africana tenha trazido importantes contribuies no que diz respeito ao uso
e  interpretao dessas fontes, ela no se distingue fundamentalmente da
historiografia de certos pases da Amrica Latina, da sia e da Europa que
enfrentam problemas anlogos. Alis, o conhecimento da provenincia dos
materiais no  essencial para o historiador, cuja tarefa fundamental consiste em
fazer deles uma utilizao crtica e comparativa, de modo a criar uma descrio
inteligente e significativa do passado. O importante  que, nos ltimos 25 anos,
equipes de universitrios africanos vm se dedicando ao ofcio de historiador. O
estudo da histria africana constitui hoje uma atividade bem estabelecida, a cargo
de especialistas de alto nvel. Seu desenvolvimento ulterior ser assegurado pelos
intercmbios interafricanos e pelas relaes entre as universidades da frica e
as de outras partes do mundo. Mas  preciso ressaltar que esta evoluo positiva
teria sido impossvel sem o processo de libertao da frica do jugo colonial: o
levante armado de Madagscar em 1947, a independncia do Marrocos em 1955,
22                                                     Metodologia e pr-histria da frica



a heroica luta do povo argelino e as guerras de libertao em todas as colnias
da frica contriburam enormemente para esse processo j que criaram, para os
povos africanos, a possibilidade de retomar o contato com sua prpria histria e
de controlar a sua organizao. Compreendendo desde logo esta necessidade, a
UNESCO promoveu ou facilitou a realizao de encontros entre especialistas.
Acertadamente, colocou como pr-requisito a coleta sistemtica de tradies
orais. Respondendo aos desejos dos intelectuais e dos Estados Africanos essa
entidade lanou, a partir de 1966, a ideia da elaborao de uma Histria Geral
da frica. A execuo desse importante projeto foi iniciada sob os seus auspcios,
em 1969.
Lugar da histria na sociedade africana                                     23



                                          CAPTULO 2


     Lugar da histria na sociedade africana
                                   Boubou Hama e J. KiZerbo




    O homem  um animal histrico. O homem africano no escapa a esta
definio. Como em toda parte, ele faz sua histria e tem uma concepo dessa
histria. No plano dos fatos, as obras e as provas de sua capacidade criativa
esto a sob nossos olhos, em forma de prticas agrrias, receitas de cozinha,
medicamentos da farmacopeia, direitos consuetudinrios, organizaes polticas,
produes artsticas, celebraes religiosas e refinados cdigos de etiqueta. Desde
o aparecimento dos primeiros homens, os africanos criaram ao longo de milnios
uma sociedade autnoma que unicamente pela sua vitalidade  testemunha do
gnio histrico de seus autores. Essa histria engendrada na prtica foi, enquanto
projeto humano, concebida a priori. Ela  tambm refletida e interiorizada a
posteriori pelos indivduos e pelas coletividades. Torna-se, portanto, um padro
de pensamento e de vida: um "modelo".
    Mas sendo a conscincia histrica um reflexo de cada sociedade, e mesmo de
cada fase significativa na evoluo de cada sociedade, compreender-se- que a
concepo que os africanos possuem de sua prpria histria e da histria em geral
seja marcada por seu singular desenvolvimento. O simples fato do isolamento
das sociedades  suficiente para condicionar estreitamente a viso histrica.
Assim, o rei dos Mossi (Alto Volta) intitulava-se Mogho-Naba, ou seja, rei do
mundo, o que ilustra bem a influncia das limitaes tcnicas e materiais sobre
a viso que se tem das realidades sociopolticas. Desse modo, pode-se constatar
24                                                     Metodologia e pr-histria da frica



que o tempo africano , s vezes, um tempo mtico e social, mas tambm que os
africanos tm conscincia de serem os agentes de sua prpria histria. Enfim,
veremos que este tempo africano  um tempo realmente histrico.


     Tempo mtico e tempo social
    Num primeiro contato com a frica, e mesmo a partir da leitura de numerosas
obras etnolgicas, tem-se a impresso de que os africanos estavam imersos e,
como que afogados no tempo mtico, vasto oceano sem margens nem marcos,
enquanto os outros povos percorriam a avenida da histria, imenso eixo balizado
pelas etapas do progresso. De fato, o mito, representao fantstica do passado,
em geral domina o pensamento dos africanos na sua concepo do desenrolar
da vida dos povos. Isso a tal ponto que, s vezes, a escolha e o sentido dos
acontecimentos reais deviam obedecer a um "modelo" mtico que predeterminava
at os gestos mais prosaicos do soberano ou do povo. Sob forma de "costumes"
vindos de tempos imemoriais, o mito governava a Histria, encarregando-se,
por outro lado, de justific-la. Num tal contexto, aparecem duas caractersticas
surpreendentes do pensamento histrico: sua intemporalidade e sua dimenso
essencialmente social.
    Nesta situao o tempo no  a durao capaz de dar ritmo a um destino
individual;  o ritmo respiratrio da coletividade. No se trata de um rio que
corre num sentido nico a partir de uma fonte conhecida at uma foz conhecida.
Nos pases tecnicamente desenvolvidos, os prprios cristos estabelecem uma
ntida demarcao entre "o fim dos tempos" e a eternidade. Isto talvez porque
o Evangelho ope nitidamente este mundo transitrio ao mundo futuro, mas
tambm porque, por esta viso distorcida e por outras razes, o tempo humano
 praticamente laicizado. Ora, em geral o tempo africano tradicional engloba e
integra a eternidade em todos os sentidos. As geraes passadas no esto perdidas
para o tempo presente.  sua maneira, elas permanecem sempre contemporneas
e to influentes, se no mais, quanto o eram durante a poca em que viviam.
Assim sendo, a causalidade atua em todas as direes: o passado sobre o presente
e o presente sobre o futuro, no apenas pela interpretao dos fatos e o peso dos
acontecimentos passados, mas por uma irrupo direta que pode se exercer em
todos os sentidos. Quando o imperador do Mali, Kankou Moussa (1312-1332),
enviou um embaixador ao rei do Yatenga para pedir-lhe que se convertesse ao
islamismo, o chefe Mossi respondeu que antes de tomar qualquer deciso ele
precisava consultar seus ancestrais. Percebe-se aqui como o passado, atravs do
Lugar da histria na sociedade africana                                        25



culto, est diretamente ligado ao presente, constituindo-se os ancestrais agentes
diretos e privilegiados dos negcios que ocorrem sculos depois deles. Da mesma
forma, na corte de numerosos reis, funcionrios intrpretes de sonhos exerciam
um peso considervel sobre a ao poltica projetada. Esses exegetas do sonho
eram, em suma, ministros do futuro. Cita-se o caso do rei ruands Mazimpaka
Yuhi III (fim do sculo XVII) que viu em sonho homens de tez clara vindos do
leste. Armou-se ento de arcos e flechas mas, antes de lanar as flechas contra
eles, guarneceu-as com bananas maduras. A interpretao desta atitude ambgua,
ao mesmo tempo agressiva e acolhedora, introduziu uma imagem privilegiada
na conscincia coletiva dos ruandeses e talvez contribua para explicar a atitude
pouco combativa desse povo, tradicionalmente aguerrido, face s colunas alems
do sculo XIX, semelhantes aos plidos rostos avistados durante o sonho real
dois sculos antes. Nesse tempo "suspenso", a ao do presente  possvel mesmo
sobre o que  considerado passado mas que permanece, de fato, contemporneo.
O sangue dos sacrifcios de hoje reconforta os ancestrais de ontem. E at agora,
os africanos ainda exortam seus prximos a no negligenciarem as oferendas
em nome dos parentes falecidos, pois os que nada recebem constituem a classe
pobre desse mundo paralelo dos mortos e so obrigados a viver do auxlio dos
privilegiados, que so objeto de generosos "sacrifcios" feitos em seu nome.
    De uma forma ainda mais profunda, certas cosmogonias atribuem a um
tempo mtico os progressos obtidos num tempo histrico, que no sendo
recebido como tal por cada indivduo,  substitudo pela memria histrica do
grupo. E o caso da lenda Gikuyu que explica o advento da tcnica de fundio
do ferro. Mogai (Deus) havia distribudo os animais entre os homens e as
mulheres. Mas estas foram to cruis com seus animais que eles escaparam e
tornaram-se selvagens. Os homens ento intercederam junto a Mogai em favor
de suas mulheres, dizendo: "Em tua honra, ns queremos sacrificar um carneiro;
mas no pretendemos faz-lo com uma faca de madeira, para no incorrer nos
mesmos riscos que nossas mulheres". Mogai felicitou-os por sua sabedoria e,
para dot-los de armas mais eficazes, ensinou-lhes a receita da fundio do ferro.
    Essa concepo mtica e coletiva era tal que o tempo tornava-se um atributo
da soberania dos lderes. O rei Shilluk era o depositrio mortal de um poder
imortal, j que totalizava em si prprio o tempo mtico (encarnando o heri
fundador) e o tempo social considerado como fonte da vitalidade do grupo.
Do mesmo modo, entre os Bafulero (Zaire oriental), os Bunyoro (Uganda) e os
Mossi (Alto Volta), o chefe  o sustentculo do tempo coletivo: "O Mwami est
presente: o povo vive. O Mwami est ausente: o povo morre". A morte do rei
constitui uma ruptura do tempo que paralisa as atividades, a ordem social, toda
26                                                      Metodologia e pr-histria da frica



expresso de vida, desde o riso at a agricultura e a unio sexual dos animais e das
pessoas. O interregno constitui um parnteses no tempo. Apenas o advento de
um novo rei recria o tempo social que se reanima novamente. Tudo  onipresente
nesse tempo intemporal do pensamento animista, no qual a parte representa e
pode significar o todo; como os cabelos e unhas que se impede de carem nas
mos dos inimigos por medo de que estes tenham poder sobre a pessoa.
    De fato,  preciso atingir uma concepo geral do mundo para entender a
viso e o significado profundo do tempo entre os africanos. Veremos ento que
no pensamento tradicional, o tempo perceptvel pelos sentidos no passa de um
aspecto de um outro tempo vivido por outras dimenses da pessoa. Quando vem
a noite e o homem se estende sobre sua esteira ou sua cama para dormir,  o
momento que seu duplo escolhe para partir, para percorrer o caminho seguido
pelo homem durante o dia, frequentar os lugares que ele frequentou e refazer
os gestos e os trabalhos que ele realizou conscientemente durante a vida diurna.
 no curso dessas peregrinaes que o duplo se choca com as foras do Bem
e do Mal, com os bons gnios e com os feiticeiros devoradores de duplos ou
cerko (em lngua songhai e zarma).  no duplo que reside a personalidade de
cada um. O songhai diz que o bya (duplo) de um homem  pesado ou leve,
querendo significar que sua personalidade  forte ou frgil: os amuletos tm
como finalidade proteger e reforar o duplo. E o ideal  chegar a confundir-se
com o prprio duplo, a fundir-se nele at formar uma s entidade, que ascende
assim a um grau de sabedoria e de fora sobre-humano. Somente o grande
iniciado, o mestre (kortkonyn, zimaa) atinge esse estado em que o tempo e
o espao no constituem mais obstculos. Era esse o caso de SI, o ancestral
epnimo da dinastia: "Assustador  o pai dos SI, o pai dos troves. Quando ele
est com uma crie,  ento que mastiga cascalhos; quando est com conjuntivite,
 nesse momento que, resplandecente, acende o fogo. Com seus grandes passos,
ele percorre a terra. Ele est em toda parte e em parte alguma".
    O tempo social, a histria, vivida assim pelo grupo, acumula um poder que
 a maior parte do tempo simbolizado e concretizado num objeto transmitido
pelo patriarca, chefe do cl ou rei ao seu sucessor. Pode tratar-se de uma bola de
ouro conservada num tobal (tambor de guerra) associado a elementos extrados
do corpo do leo, do elefante ou da pantera. Esse objeto pode estar fechado
numa caixa ou numa arca, como as insgnias reais (tibo) do rei mossi... Entre
os Songhai-Zarma,  uma haste de ferro afiada numa das extremidades. J entre
os Sorko do antigo Imprio de Gao,  um dolo em forma de um grande peixe
provido de uma argola na boca. Entre os ferreiros,  uma forja mtica que s vezes,
durante a noite, torna-se rubra para expressar sua clera. A transferncia desses
Lugar da histria na sociedade africana                                                               27




figura 2.1 Estatueta em bronze representando o poder dinstico dos Songhai (Tera Nger), Col. A. Salifou.
28                                                      Metodologia e pr-histria da frica



objetos  que constitua a devoluo jurdica do poder. O caso mais interessante
 o dos Sonianke, descendentes de Sonni Ali, que possuem correntes de ouro,
prata ou cobre, cada elo das quais representando um ancestral, e o conjunto
simbolizando a descendncia dinstica at Sonni, o Grande. No decorrer de
cerimnias mgicas, estas correntes magnficas so regurgitadas diante de um
pblico embasbacado. No momento de morrer, o patriarca sonianke regurgita
a corrente pela ltima vez, fazendo com que o escolhido para seu sucessor
engula-a pela outra extremidade. Ele morre logo aps ter passado sua corrente
quele que deve substitu-lo. Esse testamento vivo ilustra com eloquncia a fora
da concepo africana do tempo mtico e do tempo social. Poder-se-ia pensar
que uma tal viso do processo histrico seria esttica e estril, na medida em que,
ao colocar a perfeio do arqutipo no passado, na origem dos tempos, parece
indicar como ideal para o conjunto das geraes a repetio estereotipada dos
gestos e da gesta do ancestral. O mito no seria, assim, o motor de uma histria
imvel? Ficar claro mais adiante que no podemos nos ater unicamente a esse
enfoque do pensamento histrico entre os africanos.
   Por outro lado, o enfoque mtico   preciso reconhec-lo  est na origem da
histria de todos os povos. Toda histria  originalmente uma histria sagrada.
Do mesmo modo, esse enfoque acompanha o desenvolvimento histrico,
reaparecendo de tempos em tempos sob formas maravilhosas ou monstruosas.
Entre elas est o mito nacionalista, que faz com que um determinado chefe de
Estado contemporneo se dirija ao seu pas como a uma pessoa viva, e o mito
da raa, sob o regime nazista, concretizado por rituais cujas origens remontam
a um passado longnquo, que condenou milhes de pessoas ao holocausto.


     Os africanos tm conscincia de ser
     os agentes de sua histria?
    Certamente, durante alguns sculos o homem africano teve razes de sobra
para no desenvolver uma conscincia responsvel. Excessivas imposies
exteriores e alienantes domesticaram-no a tal ponto que mesmo quando ele
vivia longe da costa onde se dava o aprisionamento de escravos e da rea de
influncia do comandante branco, ele guardava num canto qualquer de sua alma
a marca aniquiladora da escravido.
    Do mesmo modo, no perodo pr-colonial, numerosas sociedades africanas
elementares, quase fechadas, do a impresso de que seus membros s tinham
conscincia de estar fazendo histria numa escala e numa medida bastante
Lugar da histria na sociedade africana                                                                   29



limitadas, em geral na dimenso da grande famlia e no quadro de uma hierarquia
consuetudinria gerontocrtica, rigorosa e pesada. Entretanto, mesmo (e quem
sabe sobretudo) nesse nvel, o sentimento da auto-regulao da comunidade,
da autonomia, era vivo e poderoso. O campons lobi e kabye na sua aldeia,
quando "senhor da casa"1, acreditava ter amplo controle de seu prprio destino.
A melhor prova disso  que nessas regies de "anarquia" poltica, onde o poder
era a coisa mais bem distribuda do mundo,  que os invasores e em particular
os colonizadores tiveram maior dificuldade em se impor. O apego  liberdade
atestava aqui o gosto pela iniciativa e o repdio pela alienao.
    Em compensao, nas sociedades fortemente estruturadas a concepo
africana de chefe d a este ltimo um espao exorbitante na histria dos povos
dos quais ele literalmente encarna o projeto coletivo. Assim, no  de admirar que
a tradio relembre toda a histria original dos Malinke no Elogio a Sundiata. O
mesmo acontece com Sonni Ali entre os Songhai da curva do Nger. Isto no
significa, em absoluto, um condicionamento "ideolgico" que destri o esprito
crtico, ainda que, nas sociedades em que o nico canal de informaes  a
via oral, as autoridades que controlam uma slida rede de griots praticamente
monopolizem a difuso da "verdade" oficial. Mas os griots no constituam um
corpo monoltico e "nacionalizado".
    Por outro lado, a histria mais recente da frica pr-colonial demonstra
que a posio dedicada aos lderes africanos nas representaes mentais das
pessoas provavelmente no  superestimada.  o caso, por exemplo, de Chaka,
que realmente forjou a "nao" Zulu na tormenta dos combates. O que os
testemunhos escritos e orais permitem perceber da atuao de Chaka deve
ter-se reproduzido vrias vezes durante o desenvolvimento histrico africano.
Diz-se que a constituio dos cls mande remonta a Sundiata; e a ao de Osei
Tutu ou a de Anokye na formao da "nao" Ashanti parece corresponder 
ideia de nao que os Ashanti tm at hoje. Tanto mais que a ideia de um lder
que atua como motor da histria quase nunca se reduz a um esquema simplista,
creditando a um s homem todo o desenvolvimento humano. Geralmente trata-
-se de um grupo dinmico, celebrado como tal. Os companheiros dos chefes
no so esquecidos, mesmo os de condio inferior (griots, porta-vozes, servos).
Eles frequentemente entram para a histria como heris.
    A mesma observao vale para as mulheres que, ao contrrio do que se tem
dito e repetido  saciedade, ocupam na conscincia histrica africana uma posio

1    A expresso bambara sotigui, equivalente, numa escala inferior, a dougoutigui (chefe de aldeia), dyamani
     tigui (chefe de canto) e keletigui (general em chefe), mostra bem a fora dessa autoridade.
30                                                                     Metodologia e pr-histria da frica



sem dvida mais importante que em qualquer outro lugar. Nas sociedades de
regime matrilinear isto  facilmente compreensvel. Em Uanzarba, perto de Tera
(Nger), onde a sucesso na chefia era matrilinear, durante o perodo colonial os
franceses, no intuito de reunir os habitantes dessa aldeia aos de outras aldeias
songhai, haviam nomeado um homem para comandar essa aglomerao. Mas
os Sonianke2 no deixaram de conservar sua kassey (sacerdotisa), que continua
at hoje a assumir a responsabilidade do poder espiritual. Tambm em outros
lugares as mulheres so vistas como protagonistas na evoluo histrica dos
povos. Filhas, irms, esposas e mes de reis, como essa admirvel Luedji, que foi
tudo isso sucessivamente e mereceu o ttulo de Swana Mulunda (me do povo
Lunda), ocupavam posies que lhes permitiam influir nos acontecimentos. A
clebre Amina, que, na regio haussa, no sculo XV, conquistou para Zaria tantas
terras e aldeias que ainda levam o seu nome,  apenas um exemplo, entre milhares,
da ideia de autoridade histrica que as mulheres impuseram s sociedades
africanas. Esta ideia permanece viva at hoje na frica, na atuao das mulheres
na guerra da Arglia e nos partidos polticos durante a luta nacionalista pela
independncia ao sul do Saara.  claro que a mulher africana  utilizada tambm
como objeto de prazer e de decorao, como nos sugerem as que so mostradas
envoltas em tecidos de exportao ao redor do rei do Daom ao presidir uma
festa tradicional. Mas do mesmo espetculo participavam as amazonas, ponta
de lana das tropas reais contra Oyo e os invasores colonialistas na batalha de
Cana (1892). Pela sua participao no trabalho da terra, no artesanato e no
comrcio, pela sua ascendncia sobre os filhos, sejam eles prncipes ou plebeus,
por sua vitalidade cultural, as mulheres africanas sempre foram consideradas
personagens eminentes da histria dos povos. Houve e ainda h batalhas para
ou pelas mulheres. Porque as prprias mulheres muitas vezes desempenharam
o papel de traidoras ou sedutoras. Como no caso da irm de Sundiata ou das
mulheres enviadas pelo rei de Segu Da Monzon s bases inimigas. Apesar de
sofrer uma segregao aparente nas reunies pblicas, todos sabem na frica
que a mulher est onipresente na evoluo. A mulher  a vida. E tambm a
promessa de expanso da vida. E atravs dela que os diferentes cls consagram
suas alianas. Pouco loquaz em pblico, ela faz e desfaz os acontecimentos no
sigilo de seu lar. E a opinio pblica formula este ponto de vista no provrbio:
"As mulheres podem tudo comprometer, elas podem tudo arranjar".



2    Neste cl, o poder se transmite "pelo leite", ainda que se admita que o lao de sangue contribua para
     refor-lo. Entre os Cerko, porm,  unicamente atravs do leite que o poder  transmitido.
Lugar da histria na sociedade africana                                        31



   Em suma, tudo se passa como se na frica a permanncia das estruturas
elementares das comunidades de base atravs do movimento histrico tivesse
conferido a todo processo um carter popular bastante notvel. A frgil
envergadura das sociedades tornou a histria uma questo que diz respeito
a todos. Apesar da mediocridade tcnica dos meios de comunicao (ainda
que o tan-t assegurasse a telecomunicao de aldeia para aldeia), a estreita
amplitude do espao histrico media-se pela apreenso mental de cada um.
Da a inspirao "democrtica" incontestvel que anima a concepo africana da
histria na maioria dos casos! Cada um tinha o sentimento de poder, em ltima
instncia, subtrair-se  ditadura, mesmo que fosse atravs da secesso, para
refugiar-se no espao disponvel. O prprio Chaka passou por essa experincia
no fim de sua carreira. Este sentimento de fazer a histria mesmo na escala
microcsmica da aldeia, assim como a sensao de ser somente uma molcula
na corrente histrica criada pelo rei visto como demiurgo, so muito importantes
para o historiador. Porque constituem em si mesmos fatos histricos e porque
contribuem por sua vez para criar a histria.


    O tempo africano  um tempo histrico
    O tempo africano pode ser considerado um tempo histrico? Alguns afirmam
que no, sustentando que o africano s concebe o mundo como uma reedio
estereotipada do passado. Ele no passaria ento de um incorrigvel discpulo
do passado repetindo a todo mundo: "Foi assim que os ancestrais fizeram", para
justificar todas as suas aes e seus gestos. Se fosse assim, Ibn Battuta s teria
encontrado no lugar do Imprio do Mali comunidades pr-histricas vivendo
em abrigos cavados nas rochas e homens vestidos com peles de animais. O
prprio carter social da concepo africana da histria lhe d uma dimenso
histrica incontestvel, porque a histria  a vida crescente do grupo. Ora, deste
ponto de vista pode-se dizer que para o africano o tempo  dinmico. Nem na
concepo tradicional, nem na viso islmica que influenciar a frica, o homem
 prisioneiro de um processo esttico ou de um retorno cclico. Evidentemente,
na ausncia da ideia do tempo matemtico e fsico contabilizado pela adio
de unidades homogneas e medido por instrumentos confeccionados para esse
fim, o tempo permanece um elemento vivido e social. Nesse contexto, porm,
no se trata de um elemento neutro e indiferente. Na concepo global do
mundo, entre os africanos, o tempo  o lugar onde o homem pode, sem cessar,
lutar pelo desenvolvimento de sua energia vital. Tal  a dimenso principal
32                                                                       Metodologia e pr-histria da frica



do "animismo"3 africano em que o tempo  o campo fechado e o mercado no
qual se confrontam ou negociam as foras que habitam o mundo. Defender-se
contra qualquer diminuio de seu ser, desenvolver a sade, a forma fsica, a
extenso de seus campos, a grandeza de seus rebanhos, o nmero de filhos, de
mulheres, de aldeias, este  o ideal dos indivduos e das coletividades. E essa
concepo  incontestavelmente dinmica. Os cls Cerko e Sonianke (Nger)
so antagonistas. O primeiro, que representa o passado e tenta reinar sobre a
noite, ataca a sociedade. O segundo, ao contrrio,  o mestre do dia; representa o
presente e defende a sociedade. Esse simbolismo  eloquente em si. Mas vejamos
uma estrofe significativa da invocao mgica entre os Songhai:
     "No  da minha boca
      da boca de A
     Que o deu a B
     Que o deu a C
     Que o deu a D
     Que o deu a E
     Que o deu a F
     Que o deu a mim
     Que o meu esteja melhor na minha boca
     Que na dos ancestrais."
    Existe assim no africano uma vontade constante de invocar o passado, que
constitui para ele uma justificao. Mas esta invocao no significa o imobilismo
e no contradiz a lei geral da acumulao das foras e do progresso. Da a frase:
"Que o meu esteja melhor na minha boca que na dos ancestrais".
    O poder na frica negra se expressa em geral por uma palavra que significa
"a fora"4. Esta sinonmia assinala a importncia que os povos africanos
outorgam  fora e mesmo  violncia no desenrolar da histria. Mas no se
trata simplesmente da fora material bruta. Trata-se da energia vital que rene
uma polivalncia de foras, que vo da integridade fsica  sorte e  integridade
moral. O valor tico  considerado, na verdade, como uma condio sine qua non
do exerccio benfico do poder. A sabedoria popular  testemunha dessa ideia
e em numerosos contos coloca em cena chefes despticos que so punidos no
final, extraindo assim literalmente desse fato a moral da histria. O Ta'rikh


3    O animismo, ou ainda melhor, a religio tradicional africana, caracteriza-se pelo culto devotado a Deus
     e s foras dos espritos intermedirios.
4    Fanga (em bambara), panga (em more), pan (em samo).
Lugar da histria na sociedade africana                                                 33



alSudan e o Ta'rikhelFattash no poupam elogios aos mritos de al-Hajj
Askiya Muhammad.  verdade que havia interesses materiais em jogo. Mas
sistematicamente as virtudes desse prncipe so relacionadas  sua "fortuna".
Bello Muhammad pensa da mesma forma e convida Yacouba Baoutchi a
meditar sobre a histria do Imprio Songhai: foi graas  sua justia que Askiya
Muhammad no apenas manteve como tambm reforou a herana de Sonni
Ali. E foi quando os filhos de Askiya se afastaram da justia do Isl que seu
imprio se desarticulou, dividindo-se em mltiplos principados impotentes.
    Para o filho de Usman dan Fodio, o mesmo princpio vale para seu prprio
governo:
    "Olhe para o passado, para todos aqueles que comandaram antes de ns... Havia
    antes de ns dinastias milenares no territrio haussa. Nelas, muitos povos tinham
    adquirido grandes poderes que desmoronaram porque estavam distanciados de sua
    base fundada na justia, de seus costumes e tradies, alterados pela injustia. Quanto
    a ns, nossa fora, para que seja duradoura, deve ser a fora da verdade e a do isla-
    mismo. Para ns, o fato de ter matado Yunfa, destrudo a obra de Nafata, de Abarchi
    e de Bawa Zangorzo5 pode impressionar as geraes atuais mesmo fora da influncia
    do Isl. Mas as que viro depois de ns, no mais percebero isso: elas julgar-nos-
    -o pelo valor das organizaes que lhes tivermos deixado, pela fora permanente
    do islamismo que tivermos estabelecido, pela verdade e justia que tivermos sabido
    impor ao Estado".
    Esta viso elevada do papel da tica na histria no provm somente das
convices islmicas do lder de Socoto. Nos meios "animistas" tambm existe
a ideia de que a ordem das foras csmicas pode ser alterada por procedimentos
imorais e que o desequilbrio resultante s pode ser prejudicial ao seu autor.
Esta viso do mundo em que os valores e exigncias ticas so parte integrante
da prpria organizao do mundo pode parecer mtica. Mas ela exercia uma
influncia objetiva sobre o comportamento dos homens e particularmente
sobre diversos lderes polticos da frica. Nesse sentido, pode-se dizer que
se a histria , em geral, justificao do passado, ela  tambm exortao do
futuro. Nos sistemas pr-estatais, a autoridade moral que afianava ou corrigia
eventualmente a conduta dos negcios pblicos era assumida por sociedades
especializadas, s vezes secretas, tal como o lo do povo Senoufo ou o poro da Alta
Guin. Essas sociedades constituam muitas vezes poderes paralelos encarregados
de desempenhar o papel de recurso  parte do sistema estabelecido. Mas elas

5    Prncipes do Gobir.
34                                                                     Metodologia e pr-histria da frica



acabavam s vezes substituindo clandestinamente o poder constitudo. Elas
apareciam assim s pessoas como centros ocultos de deciso, que confiscavam ao
povo o controle de sua prpria histria. Nesse tipo de sociedade, a organizao
em classes etrias  uma estrutura de primeira importncia no encaminhamento
da histria do povo. Essa estrutura, na medida em que est estabelecida a partir
de uma periodicidade conhecida, permite reconstituir a histria dos povos at
o sculo XVIII. Mas desempenhava tambm uma funo especfica na vida das
sociedades. De fato, mesmo nas coletividades rurais que desconheciam maiores
inovaes tcnicas e eram, consequentemente, bastante estveis, os conflitos de
geraes no estavam ausentes. Era necessrio ento assumi-los, por assim dizer,
ordenando o fluxo das geraes e estruturando as relaes entre elas para evitar
que degenerassem em conflitos violentos resultantes de bruscas mutaes. A
gerao engajada na ao delega um de seus membros  gerao de jovens que
a sucede. O papel desse adulto no  o de aplacar a impacincia dos jovens, mas
de canalizar a fria irrefletida que poderia ser nefasta ao conjunto da coletividade
ou que, na melhor das hipteses, prepararia mal os interessados para assumir
suas responsabilidades pblicas6.
    A conscincia do tempo passado era muito viva entre os africanos. No entanto,
esse tempo que tem um grande peso sobre o presente no anula o dinamismo
deste, como testemunham numerosos provrbios. A concepo do tempo tal
como a detectamos nas sociedades africanas no , com certeza, inerente ou
consubstancial a uma espcie de "natureza" africana.  a marca de um estgio
no desenvolvimento econmico e social. Prova disso so as diferenas flagrantes
que notamos ainda hoje entre o tempo-dinheiro dos habitantes das cidades e
o tempo tal como  apreendido pelos habitantes do campo. O essencial  que
a ideia de desenvolvimento a partir das origens (a serem pesquisadas) esteja
presente. Mesmo sob a forma de contos e de lendas, ou de resqucios de mitos,
trata-se de um esforo para racionalizar o desenvolvimento social. s vezes,
tm-se verificado esforos ainda mais positivos no sentido de iniciar o clculo do
tempo histrico. Este pode estar relacionado com o espao, como quando se fala
em "dar um passo", para qualificar uma durao mnima. Pode estar relacionado
tambm  vida biolgica, como o tempo de uma inspirao ou de uma expirao.
Mas est frequentemente relacionado a fatores exteriores ao indivduo, como
por exemplo, os fenmenos csmicos, climticos e sociais, sobretudo quando


6    Por exemplo, entre os Alladian de Moosu (perto de Abidjan) a organizao por geraes (em nmero
     de cinco, cada uma "reinando" nove anos) permanece em vigor inclusive para tarefas de tipo "moderno":
     construo, festa de formatura ou de promoo...
Lugar da histria na sociedade africana                                                                35



eles so recorrentes. Na savana sudanesa, entre os adeptos das religies africanas
tradicionais, geralmente conta-se a idade pelo nmero das estaes chuvosas.
Para indicar que um homem  idoso, fala-se do nmero de estaes das chuvas
que ele viveu ou, atravs de uma imagem, que ele "bebeu muita gua".
    Tambm foram elaborados alguns sistemas de clculo mais aperfeioados7.
Mas o passo decisivo nesse campo s ser dado pela utilizao da escrita. Ainda
que a existncia de uma classe letrada absolutamente no garanta a tomada de
conscincia de uma histria coletiva por parte de todo povo, ela ao menos permite
estabelecer pontos de referncia que organizam o curso do fluxo histrico.
    Por outro lado, a introduo das religies monotestas baseadas num
determinado processo histrico contribuiu para fornecer uma outra representao
do passado coletivo, "modelos" que apareciam geralmente nas entrelinhas das
narrativas. Por exemplo, sob a forma de ligaes arbitrrias das dinastias s
fontes islmicas cujos valores e ideais serviro aos profetas negros para modificar
o curso dos acontecimentos em seu pas de origem.
    Mas a grande reviravolta na concepo africana do tempo se opera sobretudo
pela entrada desse continente no universo do lucro e da acumulao monetria.
S agora o sentido do tempo individual e coletivo se transforma pela assimilao
dos esquemas mentais em vigor nos pases que influenciam os africanos
econmica e culturalmente. Descobrem ento que, em geral,  o dinheiro que
faz a histria. O homem africano, to prximo de sua histria que tinha a
impresso de forj-la ele prprio em suas microssociedades, enfrenta agora, ao
mesmo tempo, o risco de uma gigantesca alienao e a oportunidade de ser
coautor do progresso global.




7    Ivor WILKS mostra, assim, ao criticar o livro de D. P. HENIGE, The cronology of Oral Tradition: Quest
     for a Chimera, que os Akan (Fanti, Ashanti...) dispunham de um sistema de calendrio complexo, com
     semana de sete dias, ms de seis semanas e ano de nove meses, ajustado periodicamente ao ciclo solar
     segundo um mtodo ainda no completamente esclarecido. "Era ento possvel no esquema do calendrio
     Akan referir-se, por exemplo, ao 18o dia do quarto ms do terceiro ano do reinado de Ashantihene Osei
     Bonsu". Mtodo de datao ainda corrente nos pases europeus no sculo XVIII e mesmo no sculo
     XIX. Cf. WILKS, I. 1975, p. 279 e segs.
Tendncias recentes das pesquisas histricas africanas e contribuio  histria em geral   37



                                           CAPTULO 3


           Tendncias recentes das pesquisas
          histricas africanas e contribuio 
                    histria em geral
                                                P. D. Curtin




    O objetivo deste volume e dos ulteriores  tornar conhecido o passado da
frica tal como  visto pelos africanos. Trata-se de uma perspectiva justa 
provavelmente a nica forma de levar a termo um esforo internacional; 
tambm a mais aceita pelos historiadores da frica, tanto na prpria frica
quanto no ultramar. Para os africanos, o conhecimento do passado de suas
prprias sociedades representa uma tomada de conscincia indispensvel ao
estabelecimento de sua identidade em um mundo diverso e em mutao. Ao
mesmo tempo, longe de ser considerada uma custosa fantasia, que pode ser posta
de lado at que estejam sob controle os elementos prioritrios do desenvolvimento,
a histria da frica revelou-se nos ltimos decnios um elemento essencial do
desenvolvimento africano.  por esta razo que, na frica e em outros lugares,
a primeira preocupao dos historiadores foi ultrapassar os vestgios da histria
colonial e reatar os laos com a experincia histrica dos povos africanos. Outros
captulos e outros volumes trataro desses reencontros, da histria enquanto
tradio viva e desabrochar constante, do papel dos conhecimentos histricos na
elaborao de novos sistemas de educao para servir  frica independente. Este
captulo tratar do significado no exterior, da histria da frica  inicialmente
aos olhos da comunidade internacional dos historiadores e em seguida para o
conjunto do grande pblico cultivado.
    O fato de a histria da frica ter sido deploravelmente negligenciada at
os anos 50  apenas um dos sintomas  no domnio dos estudos histricos
38                                                                     Metodologia e pr-histria da frica



de um fenmeno mais amplo. A frica no  a nica regio a possuir uma
herana intelectual da poca colonial que deve ser transcendida. No sculo XIX,
os europeus conquistaram e subjugaram a maior parte da sia, enquanto na
Amrica tropical o subdesenvolvimento e a dominao exercida pelos povos de
origem europeia sobre as populaes afro-americanas e indgenas reproduziram
as condies do colonialismo nas prprias reas onde as convenes do direito
internacional apontavam um grupo de Estados independentes. No sculo XIX
e no incio do sculo XX, a marca do regime colonial sobre os conhecimentos
histricos falseia as perspectivas em favor de uma concepo eurocntrica da
histria do mundo, elaborada na poca da hegemonia europeia. A partir da,
tal concepo  difundida por toda parte graas aos sistemas educacionais
institudos pelos europeus no mundo colonial. Mesmo nas regies onde jamais
se verificara a dominao europeia, os conhecimentos europeus, inclusive os
aspectos da historiografia eurocntrica, impem-se por sua modernidade.
    Hoje, essa viso eurocntrica do mundo praticamente desapareceu das
melhores obras histricas recentes; mas ela ainda predomina em numerosos
historiadores e no grande pblico tanto ocidental quanto no ocidental1. Esta
persistncia deve-se ao fato de que, em geral, "aprendia-se histria" na escola,
no havendo mais ocasies para rever os conhecimentos adquiridos. Os prprios
historiadores especializados na pesquisa sentem dificuldades em se manter a par
das descobertas estranhas a seu campo de atividade. Comparados s ltimas
pesquisas, os manuais esto de dez a vinte anos atrasados, enquanto as obras
de histria geral conservam frequentemente os preconceitos antiquados de um
saber em desuso. Nenhuma interpretao nova, nenhum elemento novo adquire
sem luta direito  cidadania.
    A despeito dos prazos que separam a descoberta de sua difuso, os estudos
de histria atravessam, em seu conjunto, uma dupla revoluo. Iniciada logo aps
a Segunda Guerra Mundial, tal revoluo ainda no acabou. Trata-se, por um
lado, da transformao da histria, partindo da crnica para chegar a uma cincia
social que trate da evoluo das sociedades humanas; por outro, da substituio
dos preconceitos nacionais por uma viso mais ampla.
    Em favor destas novas tendncias, chegaram contribuies de todos os lados:
da prpria Europa; de historiadores da nova escola na frica, na sia e na
Amrica Latina; dos europeus de ultramar  da Amrica do Norte e da Oceania.


1     O termo "Ocidente"  empregado neste captulo para designar as regies do mundo culturalmente
     europeias ou cuja cultura deriva sobretudo da cultura europeia; ele engloba portanto, alm da prpria
     Europa, as Amricas, a Unio Sovitica, a Austrlia e a Nova Zelndia.
Tendncias recentes das pesquisas histricas africanas e contribuio  histria em geral              39



Seus esforos para ampliar o quadro da histria voltam-se ao mesmo tempo para
os povos e regies at ento negligenciados, assim como para certos aspectos
da experincia humana antes ocultos sob concepes tradicionais e estreitas da
histria poltica e militar. Nesse contexto, o simples advento da histria africana
j constitui em si uma preciosa contribuio. Mas isso poderia simplesmente
acabar criando mais uma histria particularista, vlida em si e capaz de colaborar
com o desenvolvimento da frica, mas no de trazer  histria do mundo uma
contribuio mais eloquente.
    No h dvida de que o chauvinismo foi um dos traos mais profundamente
marcantes da antiga tradio histrica. Na primeira metade do sculo XX,
os bons historiadores mal comeavam a se desfazer da antiga tendncia em
considerar a histria como propriedade quase privada. Dentro desse esprito,
a histria de uma dada sociedade s tinha valor em si; no exterior, perdia toda
significao. No melhor dos casos, o interesse manifestado pelos estrangeiros
no passava de indiscrio; no pior, tratava-se de espionagem acadmica. Esta
insistncia em se apropriar da histria  particularmente marcante na tradio
europeia do incio do sculo XX. As autoridades responsveis pela educao
tendem a considerar a histria como uma histria nacional, no como uma
histria geral da Europa e menos ainda como uma viso do processo histrico
mundial. Mito confesso, a histria servia para forjar o orgulho nacional e a
ideia de sacrifcio pela ptria. Lord Macaulay escreveu que ela era ao mesmo
tempo um relato e um "instrumento de educao poltica e moral"2. Esperava-
-se que inculcasse o patriotismo e no que inspirasse perspectivas justas sobre o
desenvolvimento da humanidade. Tal ponto de vista prevalece ainda na maioria
dos sistemas educativos.
    Alguns historiadores fizeram objees  uns em nome da cincia, outros
em nome do internacionalismo , mas a maioria deles considerou normais
os preconceitos nacionalistas, por mais indesejveis que fossem. Na Frana,
 possvel chegar  agregao* de histria possuindo apenas conhecimentos
rudimentares sobre a Europa situada alm das fronteiras francesas  sem falar da
sia, da frica ou da Amrica. Em vrias universidades inglesas, pode-se obter
um diploma em humanidades, com meno honrosa, tendo por base apenas a
histria inglesa. O emprego da palavra "ingls" (english) em lugar de "britnico"
(british)  intencional. O estudante "ingls" tem toda a probabilidade de saber


2     MACAULAY, Thomas Babington, 1835 e 1971.
*    Admisso sob concurso ao ttulo de agrg (agregado), que torna as pessoas aptas a serem titulares de
     uma cadeira de professor de colgio ou de certas faculdades.
40                                                                Metodologia e pr-histria da frica



mais sobre a histria de Roma que sobre a do Pas de Gales, da Esccia ou
da Irlanda antes do sculo XVIII. Levando em conta as variantes ideolgicas,
o problema  praticamente o mesmo na Europa Oriental. Somente os pases
europeus de menor importncia  os do grupo do Benelux ou da Escandinvia
 parecem ter mais facilidade em considerar a Europa como um todo.
    Da mesma forma, o mtodo norte-americano, fundado (como seus homlogos
europeus) na histria da civilizao,  sempre etnocntrico. O problema que ele
coloca  "Como nos tornamos aquilo que somos?" e no "Como a humanidade
se tornou o que vemos hoje?".
     medida que rejeitavam as tendncias eurocntricas de sua prpria histria
nacional, cabia aos historiadores de cada continente a tarefa de avanar em
direo a uma histria do mundo verdica, na qual a frica, a sia e a Amrica
Latina tivessem um papel aceitvel no plano internacional. Essa tendncia
manifestava-se particularmente nos historiadores cujos trabalhos tratavam de
culturas diferentes das suas e nos historiadores africanos que se propunham a
escrever sobre a sia ou a Amrica Latina, nos europeus e nos norte-americanos
que comeavam a interpretar a histria da frica ou da sia em proveito
dos povos desses continentes, esforando-se para ultrapassar os preconceitos
eurocentristas.
    No mbito desse esforo geral, o papel dos historiadores da frica na prpria
frica e fora dela  assumia particular importncia, provavelmente pelo fato de
a histria africana ter sido mais negligenciada que a das regies no europeias
equivalentes e porque os mitos racistas a desfiguraram ainda mais que a estas
ltimas. Em razo de seu carter multiforme, o racismo , como se sabe, um dos
flagelos mais difceis de extirpar. Teorizado sob diversas formas desde o sculo
XVI, ele se encarnou na histria de modo agudo, chegando ao genocdio em
certos perodos: trfico de negros, Segunda Guerra Mundial. Sobrevive ainda
como um desafio monstruoso na frica do Sul e em outras regies, apesar dos
trabalhos da UNESCO3 e de outras instituies para demonstrar sua natureza
irracional. Mas a cura dos preconceitos  demorada, pois o racismo se espalhou
de forma difusa e imanente nos manuais escolares, nos filmes e programas de
rdio e televiso facciosos, e na presena de "dados" psquicos mais ou menos
conscientes trazidos s vezes pela educao religiosa e com mais frequncia
ainda pela ignorncia e pelo obscurantismo. Nessa batalha, o ensino cientfico
da histria dos povos constitui a arma estratgica decisiva. A partir do momento


3    Cf. captulo 10, notas sobre "Raas e histria na frica".
Tendncias recentes das pesquisas histricas africanas e contribuio  histria em geral   41



em que o racismo pseudocientfico ocidental do sculo XIX estabeleceu uma
escala de valores levando em conta as diferenas fsicas, sendo a mais evidente
dessas diferenas a cor da pele, os africanos situaram-se automaticamente na
base dessa escala, por serem os que mais se diferenciavam dos europeus, que
automaticamente outorgaram a si mesmos o nvel mais alto. Os racistas no
cessavam de proclamar que a histria da frica no tinha importncia nem
valor: os africanos no poderiam ser os autores de uma "civilizao" digna desse
nome e por isso no havia entre eles nada de admirvel que no houvesse sido
copiado de outros povos.  assim que os africanos se tornaram objeto  e
jamais sujeito  da histria. Eram considerados aptos a recolher as influncias
estrangeiras sem dar em troca a mnima contribuio ao mundo.
    O racismo pseudocientfico exerceu sua influncia mxima no incio do sculo
XX. Aps 1920, tal influncia declinou entre os especialistas em cincias sociais e
naturais, e aps 1945, virtualmente desapareceu dos meios cientficos respeitveis.
Mas a herana desse racismo perpetuou-se. Ao nvel dos conhecimentos do
homem comum, o racismo alimentava-se de um recrudescimento das tenses
sociais urbanas que coincidiam com o aparecimento, nas cidades ocidentais,
de um nmero cada vez maior de imigrantes de origem africana ou asitica.
Ele se apoiava na lembrana, ainda viva na populao, das lies aprendidas na
escola; para os escolares de 1910  poca em que o racismo pseudocientfico
constitua a doutrina oficial da biologia  a hora da retirada s deveria soar aps
1960. Bem mais insidiosa ainda foi a sobrevivncia das concluses fundadas nas
alegaes racistas, depois que estas perderam sentido. O postulado "a histria da
frica no oferece interesse porque os africanos so uma raa inferior" tornou -se
insustentvel, mas certos intelectuais ocidentais se recordavam vagamente de
que "a frica no tem passado", ainda que houvessem esquecido a razo.
    Sob esta ou outra forma, a herana do racismo no cessava de consolidar
um chauvinismo cultural que considerava a civilizao ocidental como a nica
verdadeira "civilizao". No fim dos anos 60, sob o simples ttulo "Civilizao",
a BBC apresentou uma longa srie de programas consagrados exclusivamente 
herana cultural da Europa Ocidental. Sem dvida, de tempos em tempos outras
sociedades eram consideradas "civilizadas"; mas em meados do sculo, o grau de
alfabetizao determinava a linha de demarcao entre a civilizao e o resto.
Em grande parte iletradas na poca pr-colonial, as sociedades africanas eram
rebaixadas  categoria de "primitivas". No entanto, a maior parte da frica era,
de fato, letrada, no sentido de que uma classe de escribas sabia ler e escrever 
mas no, certamente, no sentido de uma alfabetizao macia, que por toda parte
havia sido um fenmeno ps-industrial. A Etipia possua sua antiga escrita em
42                                                      Metodologia e pr-histria da frica



gueze. Toda a frica islmica  a frica do Norte, o Saara, a franja setentrional
da regio sudanesa, do Senegal ao Mar Vermelho, e as cidades costeiras da costa
oriental at o estreito de Moambique  havia utilizado a escrita rabe. Antes
mesmo da poca colonial, o rabe havia penetrado aqui e ali na floresta tropical
atravs dos mercadores diula, enquanto o portugus, o ingls e o francs escritos
serviam normalmente como lnguas comerciais ao longo das costas ocidentais.
Apesar disso, o chauvinismo cultural, acompanhado pela ignorncia, conduzia as
autoridades ocidentais a estabelecerem no limite do deserto a demarcao entre
a alfabetizao e o analfabetismo. Reforava-se assim a desastrosa tendncia em
separar a histria da frica do Norte da histria do conjunto do continente.
    Entretanto, a excluso dos "no civilizados" do reino da histria era apenas uma
das facetas de um elemento bem mais importante da tradio histrica ocidental.
As prprias massas ocidentais eram atingidas por esta excluso, sem dvida no
em vista de manifestas prevenes de classe, mas simplesmente em consequncia
do carter didtico da histria, uma vez que a apologia dos homens clebres era
capaz de propor modelos a serem imitados. No entanto, no  por acaso que
esses modelos eram em geral escolhidos entre os ricos e poderosos, enquanto que
a histria se tornava o relato dos fatos e gestos de uma pequena elite. Os tipos
de comportamento que afetavam o conjunto da sociedade eram minimizados ou
ignorados. A histria das ideias no era a histria do que as pessoas pensavam:
era a histria dos "grandes desgnios". A histria econmica no era a histria da
economia ou dos comportamentos econmicos: era a histria de determinadas
polticas econmicas governamentais importantes, de certas firmas privadas,
de determinadas inovaes na vida econmica. Se os historiadores europeus se
desinteressaram to completamente por um amplo setor de sua prpria sociedade,
como poderiam interessar-se por outras sociedades ou por outras culturas?
    At aqui, as duas tendncias revolucionrias que se manifestam no interior dos
recentes estudos histricos seguiram cursos estreitamente paralelos simplesmente
porque a histria eurocntrica e a histria das elites se alimentavam nas mesmas
fontes. Lentamente, porm, ir estabelecer-se a aliana potencial entre os que
trabalham para ampliar o campo de estudo da sociedade ocidental e os que se
dedicam a dar um impulso maior s pesquisas histricas para alm do mundo
ocidental. No incio, os dois grupos avanaram guardando certa distncia um
do outro. A principal preocupao dos historiadores da frica era desmentir a
afirmao segundo a qual a frica no possua passado ou s possua um passado
sem interesse. No primeiro caso, o mais simples era, para usar uma expresso
popular, pegar o touro a unha. Aos que pretendiam que o continente africano no
possua nenhum passado, os especialistas da frica podiam opor a existncia de
Tendncias recentes das pesquisas histricas africanas e contribuio  histria em geral   43



reinados e de vastos imprios cuja histria poltica se assemelhava  da Europa nos
seus primrdios. As prevenes "elitistas" do pblico ocidental (como tambm
do pblico africano educado  moda ocidental) podiam servir de meio de
ao para demonstrar, em ltima anlise, a importncia da histria africana.
Tratava-se de um tmido incio. Era suficiente para resgatar os aspectos do
passado da frica que se assemelhavam ao do Ocidente, sem ratificar os mal-
-entendidos suscitados pelas divergncias de cultura. Poucos historiadores
estavam convencidos, at a, de que os imprios so em geral instituies duras
e cruis, e no necessariamente um ndice de progresso poltico. Poucos se
prontificavam a reconhecer, por exemplo, que uma das grandes realizaes
da frica fora provavelmente a sociedade sem Estado, fundada mais sobre a
cooperao do que sobre a opresso, e que o Estado africano se havia organizado
de maneira a realmente apresentar autonomias locais.
    Essa tendncia a aceitar certas particularidades da historiografia clssica
 como primeiro passo para uma "descolonizao" da histria africana  
comumente encontrada no estudo do perodo colonial, nas reas onde j
existia uma histria "colonial" oficial, que tendia a acentuar as atividades
europeias e a ignorar a parte africana. Pior ainda, tal histria mostrava os
africanos como brbaros pusilnimes ou desorientados. Seguia-se que da
Europa tinham vindo seres superiores que haviam feito o que os prprios
africanos no teriam condies de fazer. Mesmo no seu mais alto grau
de objetividade, "a histria colonial" s outorgou aos africanos papis
secundrios no palco da histria.
    Sem modificar em nada os papis, o primeiro esforo para corrigir essa
interpretao limita-se a modificar os julgamentos de valor. De heris a
servio da civilizao em marcha, os desbravadores, governadores das colnias,
oficiais do exrcito, tornam-se cruis exploradores. O africano aparece como
vtima inocente, a quem se atribuem apenas atitudes passivas.  sempre a
um punhado de europeus que a frica e sua histria devem o que so. (Sem
dvida, os europeus desempenharam s vezes os principais papis durante o
perodo colonial, mas todas as revises fundadas em novas pesquisas em nvel
local permitem minimizar a influncia europeia tal como foi vista na "histria
colonial" publicada antes de 1960).
    Um segundo passo em direo  descolonizao da histria do perodo
colonial se d paralelamente  vaga de movimentos nacionalistas pela
independncia. Eis que os africanos desempenham um papel na histria:
 necessrio traz-lo  luz do dia. Os especialistas em cincia poltica que
escreveram no perodo dos movimentos de independncia derrubaram as
44                                                             Metodologia e pr-histria da frica



barreiras4. Pouco depois, sobretudo durante os anos 60, os estudiosos comearam
a retroceder o tempo, buscando as razes da resistncia e dos movimentos de
protesto no incio da poca colonial e, mais longe ainda, nas primeiras tentativas
de resistncia ao jugo europeu5. Estes trabalhos sobre os movimentos de
resistncia e de protesto constituem uma importante contribuio para corrigir
os desvios da histria colonial, mas ainda estamos longe de considerar a histria
da frica com objetividade.
    No ltimo estgio, a descolonizao da histria africana da poca colonial
dever derivar de uma fuso da revolta contra o eurocentrismo e do movimento
antielitista. A revoluo behaviorista j comeou a influenciar a historiografia
africana. Trata-se de uma influncia ainda recente e limitada, restando muito a ser
publicado. Certos historiadores, porm, comearam a buscar um mtodo comum
interdisciplinar que lhes permita iniciar o estudo da histria da agricultura ou da
urbanizao a fim de se utilizarem das outras cincias sociais. Outros comeam
a se interessar por pequenas reas isoladas, na esperana de que tais estudos de
microcosmos revelem a trama da evoluo de estruturas econmicas e sociais
mais importantes e mais complexas6. A pesquisa modela arrojadamente seu
caminho no domnio dos problemas peculiares  histria econmica e religiosa,
mas a verdadeira descolonizao da histria africana est apenas no incio.
    Os progressos da histria analtica  que  tambm "a histria de campo"
baseada em investigaes e questes colocadas nos prprios locais de pesquisa,
e no somente a consulta aos arquivos  constituem um importante passo nessa
direo. A independncia em relao aos arquivos se mostra to essencial para
o perodo colonial quanto para o perodo pr-colonial, cuja documentao
 relativamente rara. O problema da "histria colonial" sempre foi que, ao
contrrio do que se passou e se passa na Europa ou nos Estados Unidos, os
arquivos foram criados e alimentados por estrangeiros. Os escritos incorporam
necessariamente os preconceitos de seus autores, seus sentimentos sobre eles
mesmos, sobre aqueles a quem governavam e sobre seus respectivos papis.  o
caso da histria da poltica interna da Europa ou dos Estados Unidos, na qual
o preconceito  apenas pr-governamental. No mundo colonial, o historiador
corre o risco de chegar a resultados desastrosos, se negligenciar, por pouco que


4    Consultar, por exemplo, HODGKIN, T. 1956; APTER, D. 1955; COLEMAN, J. S. 1958; JULIEN,
     C. A. 1952.
5    `Ver, por exemplo, SHEPPERSON, G. e PRICE, T. 1958; RANGER, Y. O. 1967; ILIFFE, J. 1969;
      ROTHBERG, R. e MAZRUI, A. A. 1970; PERSON, Y. 1968.
6    Ver HILL, P. 1963.
Tendncias recentes das pesquisas histricas africanas e contribuio  histria em geral              45



seja, a possibilidade de levar em conta outro ponto de vista, que ele pode obter
atravs de testemunhos orais de pessoas que viveram sob o domnio colonial.
     provvel que, no que se refere a tcnicas recentes, os historiadores da
frica estejam atrasados em relao e outros colegas; no entanto, quanto 
utilizao das tradies orais da poca pr-colonial, mais ainda que da colonial,
eles realizaram um trabalho pioneiro. Esse trabalho divide-se em dois perodos.
Entre 1890 e 1914, uma gerao de administradores letrados, ento a servio
das potncias coloniais, comeou a assegurar a conservao das tradies orais
de importncia histrica. O segundo perodo remonta ao incio dos anos 60.
O decnio 1950-1960 terminou com a opinio formulada em 1959 por G. P.
Murdock; segundo ele, "era impossvel confiar nas tradies orais indgenas"7. A
dcada seguinte abriu-se com a publicao de Jan Vansina, Oral tradition. A study
in historical methodology. Ela indicava quais os controles e as crticas necessrios
para a utilizao cientfica das tradies orais. Os trabalhos histricos recentes,
baseados na tradio oral, geralmente utilizada em conjunto com outras fontes
de documentao, podem ser considerados um sucesso notvel8. O seminrio
de Dacar organizado em 1961 pelo International African Institute sobre o
tema "O historiador na frica tropical" e o de Dar-es-Salam, em 1965, sobre o
tema "Novas perspectivas sobre a histria africana" acentuaram vigorosamente
a necessidade de novos enfoques, sublinhando o papel insubstituvel da tradio
oral como fonte da histria africana assim como todo o partido que o historiador
pode tirar da lingustica e da arqueologia informada pela tradio oral.
    Graas a seus trabalhos sobre a poca pr-colonial, os historiadores da frica
j influenciaram as outras cincias sociais. Tal influncia se faz sentir em diversos
planos. Acima de tudo, foram eles que impuseram o reconhecimento do fato de
que a frica "tradicional" no permaneceu esttica. Economistas, especialistas em
cincias polticas, socilogos, todos tendem a estudar a modernizao referindo-
-se aos critrios "antes" e "depois": "antes", aplicado  "sociedade tradicional",
considerada como virtualmente sem mudanas; "depois", ao processo de
modernizao, que implicou uma transformao dinmica da imagem anterior.
Observadores da evoluo, os historiadores estavam  espera das mudanas que
no cessam de ocorrer nas sociedades humanas. Suas pesquisas dos ltimos


7    MURDOCK, G. P. 1959, p. 43.
8    Ver, por exemplo, VANSINA, J. 1973; KENT, R. K. 1970; COHEN, D. W. 1972; o estudo de E. J.
     ALAGOA, resumido em parte no seu captulo "The Niger Delta States and their Neighbours, 1609-
     -1900". In: History of West Africa, de J. F. A. AJAYI e M. CROWDER, 2 v. (Londres, 1971), I: 269-303;
     A. ROBERTS, 1968. Nairbi; NIANE, D. T., 1960. Prsence Africaine.
46                                                     Metodologia e pr-histria da frica



decnios provaram que, na frica pr-colonial, instituies, costumes, modos
de vida, religies e economias mudaram to rapidamente quanto em outras
sociedades, entre as revolues agrcola e industrial. O ritmo no  to rpido
quanto o ritmo ps-industrial, que no deixa de afetar a frica de hoje, mas o
"imobilismo" do passado "tradicional" no ocorreu em parte alguma.
    Foi aos antroplogos que a utilizao de uma base, de um ponto de partida
"tradicionais", colocou os problemas mais srios. Desde os anos 20, a maioria dos
antroplogos de lngua inglesa trabalhou a partir de um modelo de sociedade
que permite destacar o papel desempenhado por cada um dos elementos
constitutivos para manter o conjunto das atividades do todo. Eles reconheciam
que as sociedades africanas que puderam examinar haviam mudado muito desde
o incio do regime colonial, fato que consideravam prejudicial a sua demonstrao.
A seus olhos, era conveniente restabelecer o quadro, concentrando-se num
nico perodo, tomado ao acaso no passado imediatamente anterior  conquista
europeia. Eles sustentavam que era possvel descobrir a natureza dessa sociedade
tradicional destacando os dados das observaes atuais e abstraindo tudo o que
se assemelhasse a influncia exterior. O resultado foi o "presente antropolgico".
    Tal enfoque funcionalista deve muito a Bronislaw Malinowski, que dominou
a antropologia britnica na segunda e na terceira dcada deste sculo. Ele
contribuiu de modo significativo para a compreenso do "funcionamento" das
sociedades primitivas, e os "funcionalistas" conseguiram outros importantes
progressos graas a um mtodo que no se limitava ao questionamento de
informantes, mas valia-se sobretudo da observao participante e da explorao
cuidadosa e prolongada do local de pesquisa. No entanto, toda medalha tem seu
reverso. Os antroplogos partiram em busca de sociedades primitivas, de ilhotas
culturais, subvertendo as ideias ocidentais sobre a civilizao africana. Disto
resultaram graves lacunas na documentao relativa s sociedades africanas
maiores e mais complexas e, consequentemente, uma nova contribuio ao mito
de uma frica "primitiva". Seu esforo para abstrair o presente antropolgico do
presente real contribuiu para reforar a convico de que na frica a mudana
vinha obrigatoriamente do exterior, desde que suas hipteses pareciam negar
qualquer evoluo s sociedades africanas at a chegada dos europeus. Seu esforo
para imobilizar a sociedade-testemunha, a fim de descrever seu funcionamento
bsico, os levou geralmente a esquecer que esta sociedade que, para fins de
anlise, estavam tratando como esttica, no o era na realidade. Acima de tudo,
tal esforo iria impedi-los de se interrogarem sobre as razes e os meios desta
evoluo, o que acabaria por revelar um outro aspecto da sociedade examinada.
Tendncias recentes das pesquisas histricas africanas e contribuio  histria em geral   47



    Sem dvida, o funcionalismo teria, apesar de tudo, seguido seu curso sem
o impacto da disciplina histrica. Ele sofreu a influncia dos estudos sobre a
aculturao dos anos 40 e 50, enquanto Claude Lvi-Strauss e seus discpulos
tomavam uma outra direo nos decnios do ps-guerra. No que se refere
 antropologia poltica e a certos aspectos da antropologia social, porm, os
trabalhos dos historiadores do perodo pr-colonial aclararam a dinmica da
evoluo e contriburam para dar um novo impulso  antropologia.
    O estudo das religies e das organizaes religiosas africanas modificou-se
sob a influncia das recentes pesquisas histricas. Os primeiros pesquisadores
da religio africana eram, em sua maioria, ou antroplogos em busca de um
conjunto esttico de crenas e prticas, ou missionrios que aceitavam o conceito
de um presente antropolgico ao estudar as religies que esperavam suplantar.
Eles reconheciam o dinamismo inegvel do Isl, cuja difuso durante o perodo
colonial foi ainda mais rpida que a do cristianismo. Todavia, os estudos mais
importantes sobre o Isl foram patrocinados pelo governo francs, na frica
do norte e na frica ocidental, com o objetivo de pr em xeque uma eventual
dissidncia. O tema desses estudos era menos a evoluo no interior da religio
que as organizaes religiosas e seus chefes. Nas ltimas dcadas, diversos
fatores  e no apenas o trabalho dos historiadores contriburam para dar um
novo impulso ao estudo da evoluo religiosa. Os especialistas das misses se
interessaram pelo progresso das novas religies africanas, fundadas sobre bases
parcialmente crists, assim como pelas igrejas independentes que se desligavam
das misses europeias. Os antroplogos apaixonados pela aculturao voltavam-
-se para trabalhos similares e, curiosos acima de tudo sobre o papel da religio
nas rebelies coloniais e nos movimentos de protesto, os historiadores traziam
tambm uma contribuio positiva. Com referncia ao perodo pr-colonial,
eles foram levados a reconhecer igualmente a importncia evidente e capital da
reforma religiosa no conjunto do mundo islmico. Disso resultou uma tomada de
conscincia mais aguda da evoluo das religies no crists e no muulmanas,
embora os especialistas das diversas cincias sociais tenham apenas comeado
a estudar as particularidades dessa evoluo to sistematicamente como elas
o merecem. Desse ponto de vista, deve-se destacar o interesse recente pelas
religies "animistas", bem como por suas associaes, frequentemente secretas,
que tm um papel histrico muitas vezes admirvel.
    Enquanto que, para os especialistas das diversas cincias sociais, parece
possvel estudar em conjunto e eficientemente a religio africana, atravs de uma
ampla troca de ideias e de mtodos, os trabalhos sobre as economias africanas
permanecem totalmente isolados. Da mesma forma que os historiadores da
48                                                     Metodologia e pr-histria da frica



religio, os especialistas em economia demonstraram, nos ltimos anos, que os
diferentes tipos de economia no paravam de evoluir e que essa evoluo respondia
tanto a estmulos de ordem interna quanto a influncias de ultramar. No entanto,
os economistas, particularmente os especialistas em desenvolvimento econmico,
prosseguem seus trabalhos sem considerar a cultura econmica que tentam
dominar. No s tendem a ignorar o mecanismo da evoluo em curso, mas muitos
deles do pouca ateno aos modelos estticos dos antroplogos economistas.
    Assim, por exemplo, para justificar a teoria do desenvolvimento econmico,
convinha assegurar ser a frica, em grande medida, formada por economias de
"subsistncia", nas quais cada unidade familiar produz a quase totalidade dos bens
e servios de que necessita. Esse ponto de vista foi defendido principalmente
por Hla Myint em meados da dcada de 60, ao mesmo tempo que a teoria
do desenvolvimento econmico ventforsurplus, baseada na liberao dos
recursos e dos meios de produo insuficientemente empregados9. Na realidade,
nenhuma comunidade da frica pr-colonial supria inteiramente suas prprias
necessidades sem se dedicar a algum comrcio; e eram numerosas as sociedades
africanas que possuam complexas redes de produo e exportao dirigidas
s necessidades de seus vizinhos. Na orla do Saara, numerosas tribos pastoris
obtinham a metade, se no mais, de seu consumo anual de calorias, trocando os
produtos de sua criao por cereais. Outras produziam e vendiam regularmente
os excedentes agrcolas, o que lhes permitia adquirir certos gneros exticos 
sal, gado, manteiga de Galam, noz de cola, tmaras. O erro que se dissimula
sob o quadro de uma economia africana esttica , se bem entendido, o mito
eterno da frica "primitiva", erro reforado pela tendncia dos antroplogos
em escolher as comunidades mais simples e sua antiga propenso a abstrair o
tempo em suas concepes.
    Os economistas e antroplogos que estudaram a economia africana in loco
ressaltaram, evidentemente, a importncia do comrcio na frica pr-colonial.
Alguns notaram que as economias africanas evoluram rapidamente antes da
chegada macia dos europeus. Todavia, distanciando-se da linha de pensamento
ortodoxo, um grupo sublinhou mais as diferenas que as semelhanas entre
as culturas econmicas. Os membros desse grupo  s vezes denominados
"substantivistas", em razo de sua insistncia em estudar a natureza substantiva
da produo e do consumo e tambm de seu esforo para relacionar a forma
como o homem satisfaz suas necessidades materiais ao quadro mais amplo de


9    MYINT, H. 1964
Tendncias recentes das pesquisas histricas africanas e contribuio  histria em geral   49



uma sociedade particular, e no a uma teoria oficial tentaram provar que a teoria
econmica no  aplicvel ao domnio de suas pesquisas10. Como resultado,
estabeleceu-se um verdadeiro abismo entre os economistas do desenvolvimento,
que, trabalhando sob a inspirao de teorias macroeconmicas, prestam pouca
ateno s realidades econmicas do momento, e os substantivistas, que
desprezam as teorias contrrias. At agora, os especialistas em histria da
economia no preencheram o abismo, assim como no exerceram sobre as ideias
relativas  frica uma influncia comparvel  que os historiadores tiveram sobre
a antropologia ou sobre o estudo das religies.
    A histria africana caminhou a largos passos, especialmente ns ltimos anos,
para lanar mtodos novos e cobrir zonas no suficientemente exploradas. Mas
ela no tirou proveito suficiente dos novos caminhos abertos em outros lugares.
Ela no respondeu to rapidamente quanto outras disciplinas ao desafio da
revoluo behaviorista, nem aproveitou as possibilidades admirveis da histria
quantitativa, tanto em matria poltica quanto no domnio da econometria.
    No curso das exploraes sobre o passado da frica, realizadas com impulso
cada vez maior, a irradiao da nova histria africana foi obra de um grupo de
historiadores profissionais que fizeram dessa histria o objeto principal de seu
ensino e de seus escritos. Se, no mundo ocidental, o conhecimento da histria
da frica foi to menosprezado, mesmo em relao  historiografia da sia ou
da Amrica Latina,  porque era obra de historiadores amadores, pessoas que
tinham outras atividades profissionais, mas no uma posio estabelecida no
mundo universitrio, e que portanto no tinham possibilidade de influenciar
os meios historiogrficos em nenhum pas ocidental. Alguns trabalhos de
pesquisa sobre a frica eram realizados nos institutos da Escandinvia ou da
Europa central e oriental, desde antes da Segunda Guerra Mundial. Mas eles
permaneciam marginais no programa geral do ensino superior e, desse modo,
no contribuam para a formao de historiadores. As nicas excees so
representadas pela egiptologia e por certos aspectos do passado da frica do norte
na poca romana. Para o restante, antes de 1950 contam-se poucos profissionais
entre os historiadores da frica. H administradores coloniais e missionrios;
h tambm clrigos e religiosos africanos, que empregam uma das lnguas
internacionais  Carl Christian Reindorf, da Costa do Ouro; Samuel Johnson,
para os Ioruba; ou o xeque Moussa Kamara, do Senegal, cujo Zuhur ulBasatin fi
Ta'rikh isSawadin no est ainda inteiramente publicado e apenas comea a ser


10   Para um resumo apropriado da posio, ver DALTON, G. 1968.
50                                                           Metodologia e pr-histria da frica



consultado por outros historiadores11. Certos antroplogos voltaram-se tambm
para temas histricos; mas na frica, antes de 1950, nenhuma universidade
propunha ainda um programa satisfatrio de especializao em histria africana
em nvel de graduao. Em 1950, no houve nenhum historiador profissional
que se dedicasse exclusivamente a escrever a histria africana e a ensin-la. Vinte
anos depois, cerca de quinhentos historiadores com doutorado ou qualificao
equivalente elegeram a histria da frica como atividade principal.
    A rapidez com que essa evoluo ocorreu  surpreendente. Retrospectivamente,
ela pode ser muito bem explicada. Na frica, na Europa, na Amrica do Norte 
e em cada continente por diferentes razes  a conjuntura poltica, intelectual e
universitria revelou-se particularmente favorvel ao aparecimento de uma pliade
de historiadores profissionais cujo trabalho se orientava para a frica. Nesse
continente, a partir do fim dos anos 40, a necessidade era maior  medida que se
podia prever um movimento cada vez mais acelerado em direo  independncia,
ao menos para a maior parte da frica do norte e do oeste. Depois de 1950, a
fundao de novas universidades criava a necessidade de uma histria renovada
da frica, considerada de um ponto de vista africano  em princpio ao nvel da
universidade e, passando pelos estabelecimentos de formao pedaggica, atingindo
a escola em geral. Entre os pioneiros desse enorme esforo de reeducao, devemos
citar K. Onwuka Dike, o primeiro de uma nova gerao de historiadores africanos a
ultrapassar as etapas de uma formao pedaggica normal  feita na Universidade
de Londres. Historiadores estrangeiros aderem ao movimento: J. D. Fage, da
Universidade de Gana (Costa do Ouro, na poca); J. D. Hargreaves, de Forah Bay,
em Serra Leoa; Christopher Wrigley e Cyril Ehrlich, no Makerere College.
    Na frica de fala francesa delineou-se progressivamente um movimento
paralelo. Nos antigos territrios franceses, as universidades continuaram, muito
tempo depois da Independncia dos respectivos pases, a depender do sistema
francs. Em consequncia, conservaram as tradies histricas francesas.
Todavia, alguns pioneiros se orientavam para uma histria da frica. Neste
sentido, notveis contribuies foram oferecidas por Amadou Mahtar M'Bow,
no Senegal; por Joseph Ki-Zerbo, no Alto Volta; pelo padre Engelbert Mveng,
em Camares. Desde o incio dos anos 50, os historiadores vindos do exterior
e estabelecidos na frica de lngua francesa, que teriam um papel dominante
nas universidades, dedicaram-se  pesquisa. Desde ento, Jan Vansina, que iria
contribuir para o ensino da histria africana na universidade de Lovanium,


11   JOHNSON, S. 1921; REINDORF, C. 1899; KAMARA, M. 1970.
Tendncias recentes das pesquisas histricas africanas e contribuio  histria em geral   51



trabalhava nas instituies de pesquisa do governo belga no Congo e em Ruanda.
No IFAN*, em Dacar, Raymond Mauny, futuro professor de histria africana na
Sorbonne, dedicava-se  pesquisa sobre a frica ocidental. Yves Person, ainda
administrador colonial, comeava as investigaes que originariam em 1968 sua
tese sobre Samori e lhe permitiriam contribuir para a introduo da histria da
frica nas universidades de Abidjan e Dacar. Presena Africana, atravs de sua
revista e dos dois grandes congressos de Escritores e Artistas Negros, realizados
em Paris e Roma em 1956 e 1959, impulsionava vigorosamente tal processo.
    Todas essas atividades caminhavam simultaneamente ao desenvolvimento, na
prpria frica, de estudos histricos africanos. Neste reencontro da histria da
frica com a histria do mundo, o momento capital  aquele em que progride
nos outros continentes o estudo da histria africana  progressos paralelos no
tempo aos da histria da frica nas universidades africanas. Em 1950, Roland
Oliver comeou a ensinar histria africana na escola de estudos orientais e
africanos da Universidade de Londres. Na Unio Sovitica, D. A. Olderogge e
seus colegas do Instituto Etnogrfico de Leningrado inauguravam um programa
sistemtico de pesquisas que culminou, algum tempo depois, com a publicao
de toda a documentao conhecida sobre a frica subsaariana do sculo XI
em diante, nas lnguas da Europa oriental, com traduo e notas em russo12.
Durante esse mesmo decnio, foi criada na Sorbonne a primeira cadeira de
Histria Africana; logo havia duas, a do antigo governador das colnias, Hubert
Deschamps, e a de Raymond Mauny. Por seu lado, Henri Brunschwig assumia
a direo das pesquisas sobre a histria africana na Ecole Pratique des Hautes
Etudes, enquanto Robert Cornevin publicava a primeira edio de seu resumo
da Histria da frica, vrias vezes revista e completada desde ento.
    Para alm da Europa e da frica, os progressos eram mais lentos; na prpria
Europa, a histria africana s foi admitida inicialmente nos cursos universitrios
dos pases colonizadores. Nas Amricas, onde uma grande parte da populao  de
origem africana, poderamos esperar manifestaes de interesse. No entanto, por
mais importantes que fossem os vestgios culturais africanos, nem o Brasil nem
as Carabas deram a ateno merecida ao assunto. No Haiti, alguns intelectuais
demonstraram solicitude com relao  cultura local baseada num africanismo
datado dos primeiros trabalhos do Doutor Price-Mars (1920). Em Cuba, sentia-
-se forte influncia da cultura afro-cubana entre certas personalidades do mundo


*    Institut Fondamental d'Afrique Noire (N. do T.).
12   KUBBEL, L. E. e MATVEEV, V. V. 1960 e 1965.
52                                                       Metodologia e pr-histria da frica



das letras, entre outras, Nicolas Guillen. Todavia, tal como no Brasil, a simpatia
manifestada pela cultura afro-americana no suscitou interesse pela frica nem por
sua histria. Nas Antilhas britnicas, a descolonizao, inclusive a descolonizao
da histria local, beneficiou-se de maior prioridade; no entanto, mesmo depois de
1960, o pan-africanismo poltico no teve ressonncia histrica entre os intelectuais
das Antilhas.
    O interesse era ainda menor nos Estados Unidos antes de 1960; o pouco que
existia estava concentrado sobre a frica do norte. De acordo com uma pesquisa
recente, foram apresentadas at 1960, inclusive, 74 teses de doutorado relativas
 histria africana. Trata-se de um nmero surpreendente, mas enganador.
A maioria dessas teses refere-se  frica do norte e  obra de historiadores
especializados em histria ou arqueologia clssicas, na histria da frica do norte
e do Oriente Mdio, ou ainda  o mais frequente na colonizao ultramarina
europeia. S o acaso, ou quase, permitiu que os temas de tese se referissem 
frica. Dos que haviam escolhido como tema a histria colonial, poucos se
tornaram verdadeiros especialistas em frica. Entre os pioneiros, encontra-se
Harry R. Rudin, em Yale. Desde os anos 30, ele havia publicado ensaios sobre
a histria da colonizao alem na frica; depois de 1950, seu interesse pela
frica no parou de crescer. Os afro-americanos formavam um grupo ainda
mais importante. W. E. B. Dubois interessara-se pela frica desde o incio
de sua carreira, embora s tenha podido dedicar-se a esse estudo quando se
aposentou e emigrou para Gana. Bem antes dele, em 1916, Carter G. Woodson
havia fundado The Journal of Negro History. Na verdade a publicao era mais
afro-americana do que africana, mas a histria africana figurava oficialmente
na sua ptica, e podiam-se encontrar nele, de tempos em tempos, artigos sobre
o passado da frica. Entretanto, o verdadeiro apstolo da histria da frica
foi William Lo Hansberry, da Universidade de Howard, que desenvolveu
uma campanha solitria pela incluso da histria da frica no programa de
ensino das universidades americanas e  estando ainda em vigor a segregao
 especialmente dos colgios com grande maioria negra nos Estados do sul.
    Assim, em graus diversos, as condies que assegurariam a difuso da histria
africana fora da frica existiam antes de 1960. Prxima a esta data, a conquista
da independncia na frica do norte e na frica tropical assegurou, no resto
do mundo, um renovado interesse pelo continente, alm de ter suscitado a
curiosidade popular  curiosidade voltada mais para o passado que para o
presente ou o futuro da frica. Entretanto, em vrios lugares os progressos da
histria africana eram decepcionantes. Apesar da importncia poltica dada 
unidade africana, era imperceptvel o avano das universidades e dos estudantes
Tendncias recentes das pesquisas histricas africanas e contribuio  histria em geral   53



da frica do norte em direo a uma concepo mais continental do estudo de
seu prprio passado. O Magreb aderia fortemente ao mundo mediterrneo, ao
mundo muulmano, ao mundo intelectual de lngua francesa, cujo centro ainda
era Paris. Esses trs mundos eram suficientes para mobilizar toda a ateno
do pblico letrado. Diversas vezes, os porta-vozes oficiais egpcios ressaltaram
ser o Egito to africano quanto rabe e muulmano, mas os estudos histricos
no Egito eram frutos sobretudo do esprito de parquia, enquanto a barragem
de Assu e os trabalhos das equipes arqueolgicas internacionais na Nbia
chamavam a ateno para o Nilo Superior.
    "Esprito de parquia" era tambm  e mais ainda  a caracterstica dos estudos
histricos na frica do Sul. O controle poltico exercido pela populao de
origem europeia na Repblica da frica do Sul no diminua. Nas universidades,
a histria africana passava mais ou menos despercebida: a "histria" era a da
Europa e da minoria europeia da frica do Sul. Com The Oxford History of South
Africa (1969-1971) a ptica se ampliou a ponto de incluir a maioria africana,
mas um dos autores, o historiador Leonard Thompson, no lecionava mais na
frica do Sul; e ainda que apaixonada pela histria, a outra, Monica Wilson,
era uma antroploga. Em Zimbabwe, por volta de 1960, havia a tendncia 
incluso de um apanhado geral da histria africana nos estudos de histria, mas
a declarao unilateral de independncia da minoria branca em relao  Gr-
-Bretanha alteraria o curso das coisas. Fato curioso, Zimbabwe produziu uma
porcentagem mais elevada de estudantes de histria da frica do que a frica
do Sul. No entanto, a maioria teve de prosseguir o exerccio de sua profisso
no exlio.
    A frica tropical foi o primeiro centro de estudo da histria da frica no
continente africano e l se realizaram os progressos mais notveis na primeira
dcada aps a Independncia. A histria africana j fazia parte do programa
de ensino das universidades dessa regio, mas tratava-se agora de encontrar um
equilbrio apropriado entre a histria local, regional, africana e mundial. Resumindo,
tratava-se de descolonizar o conjunto do programa de histria e no apenas de lhe
adicionar um componente africano. Foi na frica de lngua inglesa que ocorreram
as maiores mudanas: as rgidas normas institudas pelos europeus abrandaram-se
mais rapidamente nesses pases que nos de lngua francesa. O ensino da histria
da Gr-Bretanha e de seu imprio cedeu lugar a outros temas: a histria do
Imprio Britnico tendeu a desaparecer completamente e a da Gr-Bretanha a se
fundir com a da Europa. No que se refere ao ensino da histria da Europa, a nova
corrente que se esboou tendeu a subordinar as diferentes histrias nacionais ao
estudo dos grandes temas que transcendem as fronteiras, como a urbanizao ou a
54                                                       Metodologia e pr-histria da frica



Revoluo Industrial. Ao mesmo tempo, os historiadores comearam a se interessar
tambm pela histria de outras regies  a do mundo islmico ao norte, insistindo
particularmente na sua influncia ao sul do Saara; a da Amrica Latina ou do
Sudeste Asitico, porque elas poderiam recuperar certos aspectos da experincia
africana; a do Leste Asitico, onde o crescimento econmico do Japo constitua
um exemplo do qual a frica poderia tirar ensinamentos. O impacto da histria
africana proporcionou assim uma reorientao geral, no sentido de uma concepo
do mundo e de seu passado, verdadeiramente afrocntrica  sem se interessar
exclusivamente pela frica e pelos africanos, como a velha tradio europeia se
interessava apenas pelos europeus, mas no quadro de uma Weltanschauung da qual
a frica, e no a Europa, constitui o ponto de partida.
    Esse objetivo no foi ainda completamente atingido, mesmo nas mais avanadas
universidades de lngua inglesa. Ser necessrio um certo tempo para formar uma
gerao de historiadores africanos inovadores que explorem novos caminhos,
escolhidos por eles mesmos. As universidades de lngua francesa esto um decnio
atrasadas: em Abidjan, Dacar e Lubumbashi (herdeira de Lovanium no domnio
da histria), as mais antigas universidades de lngua francesa, s a partir do incio
da dcada de 70  que o corpo de professores de histria passou a ser composto
majoritariamente por africanos, ao passo que essa evoluo havia ocorrido desde
o incio dos anos 60 nas mais antigas universidades de lngua inglesa. Agora que
os historiadores africanos possuem seu lugar nas universidades de lngua francesa,
pode-se prever um reajustamento semelhante das concepes da histria mundial.
Mas j a partir de 1963 se realizou a reforma dos programas de histria nas escolas
secundrias dos pases de lngua francesa. Ela seria imediatamente seguida pela
reforma dos programas dos estudos histricos universitrios, de acordo com o
programa do CAMES (Conselho Africano e Malgaxe para o Ensino Superior).
    O impacto da histria africana sobre a pesquisa e o ensino de histria na
Europa ocidental est ligado  antiga relao colonial. Essa  uma das razes
pelas quais a Frana e a Inglaterra constituram os principais centros europeus
de estudo da histria africana.
    Todavia, tambm em outros lugares se registraram progressos no ensino da
histria africana, em particular na Tchecoslovquia e na Polnia, assim como
na Unio Sovitica, onde ela  sistematicamente ensinada na Universidade
Patrice Lumumba, de Moscou, cuja misso especfica consiste em formar
estudantes africanos. Em outros lugares, especialistas solitrios prosseguem
pesquisas em diferentes centros universitrios, sendo que isso ocorre de forma
mais sistemtica nos institutos de pesquisa que seguem a tradio alem de
organizao universitria. Os pesquisadores que se dedicam  frica esto,
Tendncias recentes das pesquisas histricas africanas e contribuio  histria em geral   55



portanto, um pouco isolados, o que poderia contribuir para explicar por que os
estudos histricos continuam a no ceder nenhum lugar  frica em numerosas
universidades europeias, exceto na Inglaterra e na Frana.
    Tambm nestes pases a tradio geral dos estudos histricos se inspira num
esprito de campanrio, mas a formao de administradores coloniais teve a
um peso particular. A partir de 1955 aproximadamente, comeou o processo
de repatriao desses administradores, e muitos deles iniciaram uma nova
carreira de historiadores dos pases onde haviam exercido suas funes. Esse foi
o caso da Frana, principalmente, como demonstra o exemplo dos professores
Deschamps e Person. Para esse pas, assim como para a Inglaterra, a criao e o
crescimento de novas universidades africanas, que datam dos anos 50, abriram
a possibilidade de empregos na frica. Jovens historiadores escolheram temas
africanos para sua aprendizagem de pesquisa ou comearam a se interessar pela
histria africana quando foram lecionar na frica. Em seguida, nos anos 60 e 70,
esses historiadores estrangeiros foram progressivamente substitudos por africanos
e voltaram a lecionar na ex-metrpole, muitas vezes depois de terem passado oito
ou dez anos na frica. Nem todos voltaram a ensinar a histria africana, mas
o nmero total dos que o fizeram  significativo. O nmero dos historiadores
vindos das universidades africanas que entraram nas universidades britnicas entre
1965 e 1975 situa-se provavelmente entre sessenta e setenta, o que representa em
torno de 8 a 10% dos historiadores que passaram a trabalhar nas universidades
britnicas nesse perodo. Em 1974, trs cadeiras de "Histria Moderna" (expresso
que designava tradicionalmente a histria da Gr-Bretanha moderna) estavam
ocupadas por historiadores cujos principais trabalhos de pesquisa tinham sido
dedicados  frica.  ainda muito cedo para determinar a influncia que tal
retorno da frica ter sobre as tradies histricas britnicas em geral, mas
provavelmente ser considervel.
    Na Frana, observa-se um fenmeno semelhante, ainda que os nmeros
correspondentes sejam um pouco mais baixos e que os professores vindos da
frica constituam uma porcentagem menor do recrutamento para o ensino
universitrio. Uma nova gerao de historiadores comeou a se interessar pela
frica. Em Paris, tanto nas diferentes universidades quanto no Centro de Estudos
Africanos, que  interuniversitrio, um certo nmero de especialistas em histria,
sociologia e arqueologia trabalharam muito tempo nas universidades africanas,
com as quais continuam mantendo estreitas relaes. A situao  semelhante
em Aix, Bordeaux e Lyon. Paralelamente, as universidades britnicas e francesas
asseguraram a formao de historiadores africanos encarregados de substituir os
56                                                                      Metodologia e pr-histria da frica



estrangeiros que voltavam para a Europa13. Nesse sentido, instituies como a
School of Oriental and African Studies (SOAS) de Londres e seces esparsas da
Sorbonne e das grandes escolas em Paris, tiveram um papel especial. Na SOAS,
por exemplo, 58% dos que obtiveram doutorado entre 1963 e 1973 comearam
lecionando na frica; menos de 20% do total eram britnicos e somente 13%
tiveram seu primeiro cargo numa universidade britnica14. Isso diminuiu em
parte o impacto direto da SOAS  instituio que congrega o mais importante
grupo de historiadores da frica j reunido no mundo por uma universidade 
sobre a educao britnica. Sua influncia indireta, porm, foi considervel. Alm
da SOAS, as universidades de Birminghan, Sussex e Edimburgo reservaram
entre seus programas um papel especial  histria africana; e pelo menos outras
oito dispem de um especialista em histria africana que leciona regularmente
essa matria a estudantes de graduao.
    Esse nvel particular de desenvolvimento na Gr-Bretanha talvez fosse
previsvel, levando em conta os interesses colonialistas e neocolonialistas deste
pas em relao s estruturas universitrias africanas. Em compensao, o enorme
crescimento da pesquisa sobre a histria da frica na Amrica do Norte durante
os anos 60 era completamente inesperado, j que os historiadores dos Estados
Unidos pareciam no tratar equitativamente nem a histria dos afro-americanos
de sua prpria sociedade. A numerosa minoria de descendentes de africanos
presente nos Estados Unidos desde suas origens no havia suscitado um interesse
notvel pela frica, mesmo entre a maior parte dos afro-americanos. De resto, o
impulso repentino dos estudos sobre a histria africana pode ser observado tanto
no Canad como nos Estados Unidos, embora o Canad no tenha governado
uma parte da frica, como a Gr-Bretanha, nem conte entre seus habitantes com
uma minoria afro-americana importante, como ocorre com os Estados Unidos.
    Antes de 1960, a histria da frica mal era ensinada na Amrica do Norte.
Em torno de 1959, pouco depois de sua fundao, o African Studies Association
s contava com 21 membros, residentes nos Estados Unidos ou no Canad, que
poderiam ser considerados historiadores. Entre esses, menos da metade ocupava
cargos universitrios que os obrigassem a consagrar o tempo disponvel  histria
da frica. Por outro lado, o Primeiro Congresso Internacional de Africanistas


13   Agradeo ao professor J. F. Ade AJAYI, da Universidade de Lagos, e aos professores J. D. FAGE e
     Roland OLIVER, pelas informaes que me forneceram a respeito do impacto da histria africana
     sobre a histria em geral na Europa e na frica, respectivamente. No entanto, deve ser atribudo a mim
     qualquer erro fatual ou de avaliao que este texto porventura apresente.
14   OLIVER, R. "African Studies in London, 1963-1973". (Comunicao no publicada distribuda no
     Terceiro Congresso Internacional de Africanistas, Adis Abeba, dezembro de 1973).
Tendncias recentes das pesquisas histricas africanas e contribuio  histria em geral   57



reuniu em Acra, em 1962, cerca de oitocentos participantes, diante dos quais o
presidente Kwame Nkrumah, no discurso inaugural, descreveu em linhas gerais
as responsabilidades da disciplina histrica para com a nova frica. A partir da
deu-se a avalanche. Em 1970, o nmero de norte-americanos especializados em
histria ou arqueologia africanas aproximava-se de 350. Alguns eram historiadores
que haviam iniciado sua carreira numa outra disciplina qualquer, antes de mudar
de opinio; a maioria, porm, era constituda por jovens estudantes que acabavam
de sair do secundrio. Entre 1960 e 1972, as escolas americanas forneceram mais
de 300 doutores PhD em histria africana. Entre eles, h jovens africanos que
pretendem retornar. Alguns so europeus, mas a grande maioria  formada por
norte-americanos. A proporo de afro e euro-americanos  igual  desses grupos no
conjunto da populao: cerca de 10% nos Estados Unidos e bem menos no Canad.
    Dessa forma, no quadro dos estudos histricos, duas tendncias contraditrias
impulsionaram a difuso da histria da frica na Amrica do Norte. Das ideias
da comunidade afro-americana nasceu a slida convico de que a frica era
propriedade dos povos africanos e de seus descendentes estabelecidos em outros
continentes, exatamente como na Europa as histrias nacionais tinham-se
tornado propriedade de cada nao europeia. Nesse sentido, a diferena implcita
entre os objetivos da "histria da frica para os africanos" e da "histria da
frica no contexto da histria mundial" se manifestava com clareza. Diferena,
porm, no significa conflito. As duas "histrias" no so incompatveis, ainda
que tenham optado por acentuar diferentes aspectos do passado.
    Em consequncia disso, a tendncia ao etnocentrismo em histria foi
mais seriamente abalada na Amrica do Norte do que em outros lugares. Em
inmeras escolas, a velha "histria do mundo", que no passava na realidade de
uma histria da civilizao ocidental, deu lugar nos anos 60 a novas tendncias
mais autnticas de situar a histria numa perspectiva mundial, em que a frica
foi colocada em relao de igualdade com outras grandes zonas culturais, como
o sul ou o leste da sia. Numerosos departamentos de histria de universidades
norte-americanas comearam a passar da antiga diviso entre histria americana
e europeia a uma diviso da histria em trs ramificaes, sendo que a terceira
 a do Terceiro Mundo  se tornava igual s duas outras.
    Essa evoluo ainda no est terminada, mas, paralelamente  difuso da
histria africana na Gr-Bretanha e na Frana e  reorientao do programa de
ensino de histria nas universidades africanas, ela marca uma etapa no caminho
que assegurar  histria africana seu pleno impacto sobre a histria em geral. A
longo prazo, o xito depender dos esforos conjuntos de especialistas africanos
ao escreverem a histria de suas prprias sociedades, dos de historiadores no
58                                                    Metodologia e pr-histria da frica



africanos que interpretam a histria africana para outras sociedades e de uma
ampliao das cincias sociais internacionais at o ponto em que os especialistas
em outras disciplinas sejam obrigados a levar em considerao os dados africanos
antes de arriscarem qualquer generalizao sobre a vida das sociedades humanas.
Fontes e tcnicas especficas da histria da frica  Panorama Geral        59



                                          CAPTULO 4


    Fontes e tcnicas especficas da histria
         da frica  Panorama Geral
                                                T. Obenga




    As regras gerais da crtica histrica, que fazem da histria uma tcnica do
documento, e o esprito histrico, que pede o estudo da sociedade humana
em sua caminhada atravs dos tempos, so aquisies fundamentais utilizveis
por todos os historiadores, em qualquer pas. O esquecimento desse postulado
manteve durante muito tempo os povos africanos fora do campo dos historiadores
ocidentais, para quem a Europa era, em si mesma, toda a histria. Na realidade,
o que estava subjacente e no se manifestava claramente, era a crena persistente
na inexistncia de uma histria na frica, dada a ausncia de textos e de uma
arqueologia monumental.
    Portanto, parece claro que o primeiro trabalho histrico se confunde com o
estabelecimento de fontes. Essa tarefa est ligada a um problema terico essencial,
ou seja, o exame dos procedimentos tcnicos do trabalho histrico.
    Sustentados por uma nova e profunda necessidade de conhecer e compreender
ligada ao advento da era ps-colonial, os pesquisadores fundaram definitivamente
a histria africana, embora a construo de uma metodologia histrica ainda
prossiga. Setores imensos de documentao foram revelados, permitindo aos
pesquisadores formularem novas questes. Quanto mais os fundamentos da
histria africana se tornam conhecidos, mais essa histria se diversifica e se
constri de diferentes formas, de modo inesperado. H cerca de quinze anos
produziu-se uma profunda transformao dos instrumentos de trabalho e hoje
60                                                      Metodologia e pr-histria da frica



se admite de bom grado a existncia de fontes utilizadas mais particularmente
para a histria africana: geologia e paleontologia, pr-histria e arqueologia,
paleobotnica, palinologia, medidas de radiatividade de istopos capazes de
fornecer dados cronolgicos absolutos, geografia fsica, observao e anlise
etno-sociolgicas, tradio oral, lingustica histrica ou comparada, documentos
escritos europeus, rabes, hindus e chineses, documentos econmicos ou
demogrficos que podem ser processados eletronicamente.
    A variedade das fontes da histria africana permanece extraordinria. Dessa
forma, devem-se buscar de forma sistemtica novas relaes intelectuais que
estabeleam ligaes imprevistas entre setores anteriormente distintos. A
utilizao cruzada de fontes aparece como uma inovao qualitativa. Uma certa
profundidade temporal s pode ser assegurada pela interveno simultnea
de diversos tipos de fontes, pois um fato isolado permanece, por assim dizer,
 margem do movimento de conjunto. A integrao global dos mtodos e o
cruzamento das fontes constituem desde j uma eficaz contribuio da frica 
cincia e mesmo  conscincia historiogrfica contempornea.
    A curiosidade do historiador deve seguir vrias trajetrias ao mesmo tempo.
Seu trabalho no se limita a estabelecer fontes. Trata-se de se apropriar, atravs
de uma slida cultura pluridimensional, do passado humano. Porque a histria
 uma viso do homem atual sobre a totalidade dos tempos.
    A maioria dessas fontes e tcnicas especficas da histria africana extradas
das cincias matemticas, da fsica dos tomos, da geologia, das cincias naturais,
das cincias humanas e sociais, esto amplamente descritas no presente volume.
Desse modo, insistiremos aqui nos aspectos e problemas no desenvolvidos em
outras partes.
    Sem dvida, o fato metodolgico mais decisivo desses ltimos anos foi a
interveno das cincias fsicas modernas no estudo do passado humano, com as
medidas de radiatividade dos istopos, que asseguram a apreenso cronolgica
do passado at os primeiros tempos do aparecimento do Homo sapiens (teste
do carbono 14) e das pocas anteriores a 1 milho de anos (mtodo do
potssio-argnio).
    Atualmente, esses mtodos de datao absoluta abreviam de modo considervel
as discusses no campo da paleontologia humana e da prhistria1. Na frica, os
homindeos mais antigos datam de -5.300.000 anos pelo mtodo K/Ar. Essa
 a idade de um fragmento de maxilar inferior com um molar intacto de um


1    BIRDSELL, J. B. 1972, p. 299.
Fontes e tcnicas especficas da histria da frica  Panorama Geral            61



homindeo encontrado pelo professor Bryan Patterson, em 1971, em Lothagam
no Qunia. Por outro lado, os dentes de homindeos encontrados nas camadas
villafranchianas do vale do Omo, na Etipia meridional, pelas equipes francesas
(Camille Arambourg, Yves Coppens) e americana (F. Clark-Howell) tm 2 a
4 milhes de anos. O nvel do Zinjanthropus (nvel I) do clebre depsito de
Olduvai, na Tanznia, data de 1.750.000 anos, sempre atravs do mtodo do
potssio-argnio.
    Assim, graas ao istopo potssio-argnio, a gnese humana do leste africano,
a mais antiga de todas no estgio atual dos conhecimentos, constitui a gnese
humana propriamente dita, tanto mais que o monofiletismo  uma tese cada
vez mais amplamente admitida hoje na paleontologia geral. Em consequncia,
os restos fsseis africanos conhecidos atualmente fornecem elementos decisivos
para responder a esta questo primordial das origens humanas, colocada de mil
maneiras ao longo da histria da humanidade: "Onde nasceu o homem? H
quanto tempo?".
    As velhas ideias estereotipadas, que colocavam a frica praticamente  margem
do Imprio de Clio, esto agora completamente modificadas. Os fatos, postos
em evidncia atravs de vrias fontes e mtodos  desde a paleontologia humana
at a fsica nuclear  mostram claramente, ao contrrio, toda a profundidade
da histria africana, cujas origens se confundem precisamente com as prprias
origens da humanidade.
    As informaes obtidas de outras fontes  as cincias da Terra, por exemplo
 iluminam igualmente a histria da frica, independentemente de qualquer
documento escrito. A vida e a histria da populao da bacia lacustre do Chade,
por exemplo, seriam dificilmente compreensveis sem a interveno da geografia
fsica.  conveniente ressaltar o valor metodolgico desse enfoque.
    Com efeito, a vida e os homens no se distribuem ao acaso na bacia do lago
Chade, que apresenta de forma esquemtica o seguinte quadro hipsomtrico:
uma plancie central de acumulao situada entre 185 e 300 m de altitude;
em torno, um anel bastante descontnuo de velhos planaltos desgastados, cuja
peneplanizao foi s vezes camuflada por atividades vulcnicas recentes; unindo
esses planaltos de, em mdia, 1000 m de altitude, e as zonas baixas de acumulao,
h encostas geralmente ngremes afetadas por uma eroso ativa num clima mido.
 precisamente a zona de solos detrticos bastante leves que recebe a chuva a que
apresenta a maior densidade demogrfica, ou seja, de 6 a 15 hab/km2. Sob o clima
do Sahel ocorre ainda boa densidade nos aluvies fertilizados pelas infiltraes ou
inundaes do Chade. Nos altos planaltos do leste e do sul, Darfur e Adamaua,
de onde descem os tributrios do lago, a populao reduz-se a 1 hab/km2. No
62                                                      Metodologia e pr-histria da frica



norte, j saariano, a densidade diminui ainda mais. O aspecto humano da bacia
, por consequncia, estreitamente ligado a um problema de geografia fsica, de
geomorfologia, que condiciona o desenvolvimento humano.
    Dessa forma, a civilizao recuou diante do deserto. Ela retrocedeu at o limite
da rea em que o milho-mido e o sorgo podem ser cultivados sem irrigao, na
latitude aproximada do Neo-Chade (as culturas irrigadas de legumes, tabaco,
trigo duro, so feitas s margens do Logone e do Chari). Agricultores, pastores
e pescadores vivem na zona meridional, onde as guas flvio-lacustres fecundam
as terras, tornam verdes os pastos, atraem periodicamente uma multido de
pescadores. Ao contrrio, a eroso nas zonas desrticas setentrionais torna o solo
instvel e a vegetao precria, caracterizada por arbustos espinhosos xerfilos.
    Mas tais estruturas geomorfolgicas condicionaram ainda outras atividades
humanas. Por exemplo, as invases dos conquistadores expulsaram vrias vezes
os agricultores autctones dos planaltos salubres e das plancies frteis, fazendo-
-os recuar para as zonas (inclinaes ou cumes) imprprias para a criao de
gado. Desse modo, os Fulb empurraram os Bum e os Duru para os terrenos
menos frteis da Adamaua, e os Kiroi do norte de Camares para os terrenos
granticos do macio montanhoso do Mandara. Ora, o trabalho nas terras dos
declives outrora submersos  certamente rude e ingrato para estes povos; mas
 o que melhor corresponde a suas ferramentas precrias. Por fim, a presena
peridica ou permanente de reas palustres na zona de aluvio cria condies
para a existncia de imensa quantidade de mosquitos (Anopheles gambiae).
Existem, por outro lado, focos da mosca ts-ts (Glossina palpalis) s margens do
Logone e do Chari, nas formaes higrfilas baixas de Salix e Mimosa asperata
que cercam os depsitos recentes. A malria e a doena do sono, transmitidas
por tais insetos, transformam essas reas em locais extremamente adversos.
    Em resumo, para ter uma viso concreta da vida humana na bacia do Chade,
que conheceu antes vrias flutuaes quaternrias devidas a alteraes de clima,
o historiador deve necessariamente valer-se de uma srie de fontes e tcnicas
particulares, extradas das cincias da Terra e das cincias da vida, j que a
atual distribuio das populaes, seus movimentos migratrios passados, suas
atividades agrcolas, pastoris, etc., so estreitamente condicionadas pelo meio
ambiente.
    O caso da bacia lacustre do Chade  apenas um exemplo entre outros. Todas
as vezes que a curiosidade cientfica se libertou de certos esquemas restritivos, os
resultados foram igualmente esclarecedores. Entre os Nyangatom ou Bumi do
vale do Omo, prximos dos Turkana do noroeste do Qunia, existe uma diferena
imunolgica notvel manifesta nos exames de sangue dos homens testados
Fontes e tcnicas especficas da histria da frica  Panorama Geral                          63



(300 indivduos em 1971 e 359 em 1972). Tal diferena no era observvel
entre os sexos, mas entre as aldeias (que renem de 20 a 300 habitantes).
Essas aldeias, cuja populao vive de criao, agricultura, coleta, caa e pesca,
obedecem a uma organizao clnica rgida, acentuada por uma distribuio
em setores territoriais. Mas no existe nessa sociedade nenhum chefe acima
do membro mais velho. Desse modo, as diferenas originrias da organizao
social territorial dos Nyangatom projetam-se na sorologia: o mapa das reaes
dos soros aos antgenos arbovirais reproduz exatamente a distribuio territorial
das populaes testadas2.
    Esse exemplo de colaborao dinmica entre o parasitlogo e o antroplogo
pode ser de grande utilidade para o historiador.  importante que ele saiba
da existncia desse material documental, que pode revelar-se "pertinente" na
anlise de comportamentos sexuais e no estudo do crescimento demogrfico
dos Nyangatom.
    O problema heurstico e epistemolgico fundamental permanece sempre o
mesmo: na frica, o historiador deve estar absolutamente atento a todos os tipos
de procedimentos de anlise, para articular seu prprio discurso, fundamentando-
-se num vasto conjunto de conhecimentos.
    Esta "abertura de esprito"  particularmente necessria quando se estudam
perodos antigos, sobre os quais no se dispe nem de documentos escritos
nem mesmo de tradies orais diretas. Sabemos, por exemplo, que a base da
agricultura para os homens do Neoltico era o trigo, a cevada e o milhete, na sia,
na Europa e na frica, e o milho, na Amrica. Mas como identificar os sistemas
agrcolas iniciais, que surgiram h tanto tempo? O que permitiria distinguir uma
populao de predadores sedentrios de uma de agricultores? Como e quando a
domesticao das plantas se difundiu nos diversos continentes? Quanto a isso,
a tradio oral e a mitologia prestam apenas uma pequena ajuda. Unicamente
a arqueologia e os mtodos paleobotnicos podem dar uma resposta vlida a tais
questes importantes, relativas a essa inestimvel herana neoltica que  a
agricultura.
    A pelcula externa do plen  muito resistente ao tempo num solo favorvel,
no cido. A paleopalinologia fornece uma anlise microscpica de tais
vestgios botnicos. Os gros de plen fsseis podem ser recolhidos dissolvendo
progressivamente uma amostra de terra com o emprego de cidos quentes (cido
fluordrico ou clordrico), que eliminam o silcio e o calcrio sem atacar o plen,

2    Trabalhos de Franois RODHAIN, entomologista, e de Serge TORNAY, etnlogo, membros da misso
     francesa do Omo, dirigida por M. Yves COPPENS (1971, 1972).
64                                                                    Metodologia e pr-histria da frica



e em seguida os hmus orgnicos (potssio). O resduo, centrifugado e colorido,
 ento colocado em gelatina, restando ao operador apenas reconhecer e contar
cada gro para construir uma tabela de porcentagem. Esta fornece o perfil
polnico do sedimento estudado. Dessa forma, pode-se detectar a presena da
agricultura num stio, precisar a evoluo da paisagem, diagnosticar o clima
atravs das variaes da vegetao e determinar a eventual ao do homem e
dos animais sobre a cobertura vegetal.
    Tais anlises permitiram revelar atividades de domesticao de plantas
alimentcias na frica, atividades essas centralizadas em vrios pontos e
difundidas por diversas regies. O sorgo (inicialmente domesticado na savana que
se estende do lago Chade  fronteira entre o Sudo e a Etipia), o milho-mido,
o arroz africano, a voandzeia, a ervilha forrageira, o dendezeiro (domesticado
na orla das florestas), o finger millet, o quiabo e o inhame africano eram as
principais plantas cultivadas na poca.
    As plantas americanas foram introduzidas h relativamente pouco tempo,
como atestam desta vez certas fontes escritas. A mandioca, por exemplo,
hoje o alimento bsico de vrios povos da frica central, penetrou o reino
do Kongo pela costa atlntica s depois do sculo XVI. Com efeito, entre as
plantas cultivadas no planalto de Mbanza Congo, capital do reino, a Relao de
Pigafetta-Lopez (1591) menciona apenas o luko, isto , a Eleusine coracana, cuja
"semente  originria das margens do Nilo, na regio em que este rio desemboca
no segundo lago"3; o masa ma Kongo, uma gramnea que  uma espcie de sorgo;
o milho, masangu ou ainda masa ma Mputu, "que  o menos apreciado e com o
qual se alimentam os porcos"4; o arroz, loso, que "tambm no tem muito valor"5;
enfim, a bananeira, dikondo, e o dendezeiro, ba.
    Fato menos conhecido, as plantas africanas tambm se difundiriam para
fora do continente.  certo que algumas espcies africanas se expandiram
para a ndia, por exemplo, e para outras regies asiticas, embora em poca
tardia. Com efeito, as duas espcies de milho-mido (milhete e finger millet)
so comprovadas arqueologicamente na ndia por volta do ano 1000 antes da
Era Crist. O sorgo s seria conhecido nessa regio posteriormente, porque o
snscrito no possui uma palavra para design-lo.



3    PIGALETTA-LOPEZ. 1591, p. 40: "Venendo sementa dal fiume Nilo, in quella parte dove empie il
     secondo lago".
4    PIGAFETTA-LOPEZ. ibid.: "Ed il maiz che  il pi vile de tutti, che dassi  porci".
5    PIGAFETTA-LOPEZ. ibid.: "il roso e in pocco prezzo".
Fontes e tcnicas especficas da histria da frica  Panorama Geral          65



    Na ausncia de qualquer documento escrito ou tradio oral, essas informaes
da arqueologia e da paleobotnica podem informar o historiador sobre a srie
de etapas que fizeram nossos ancestrais neolticos passarem de uma economia
de coleta a uma economia de produo. Alm disso, esses fatos evidenciam
por si mesmos um fluxo de relaes entre as civilizaes neolticas, e no um
difusionismo.
    Restos de ces, porcos, carneiros e cabras sugerem que a domesticao de
animais comeou, nos centros neolticos do Oriente Prximo, mais ou menos
na mesma poca que a cultura das plantas, entre 9000 e 8000 antes da Era
Crist. A partir disso, foi proposta uma cronologia terica da domesticao dos
diferentes grupos de animais. De incio, os necrfagos, como o co; em seguida,
os animais nmades, como a rena; a cabra e o carneiro; e por fim os animais para
os quais se impe uma vida sedentria: o gado grosso e os porcos. Os animais
que podem servir de meio de transporte, como o cavalo, o asno e a lhama, teriam
sido domesticados em ltimo lugar. Esta cronologia geral, porm, no se refere
sempre  frica.
    O cavalo, que, como o boi e o asno, desempenhou um papel de "motor da
histria" atravs dos tempos, s aparece na frica, precisamente no Egito, no
fim da invaso dos hicsos, cerca de 1600 antes da Era Crist; como atestam
fontes iconogrficas e da Sagrada Escritura. Por volta do sculo XIII antes da
Era Crist, ele foi transmitido, como animal de guerra, aos lbios e mais tarde,
no incio do primeiro milnio, aos nbios. Com exceo das reas atingidas pela
civilizao romana, o resto da frica s utilizaria amplamente o cavalo a partir
das conquistas rabes na Idade Mdia. Dois cavalos selados e arreados, ladeados
por dois carneiros, faziam parte dos emblemas do rei do Mali, de acordo com o
relato do escritor Ibn Battuta (1304-1377).
    Quanto ao dromedrio, o camelo de uma corcova, sua chegada  civilizao
africana tambm no  tardia. Esse animal aparece de forma suficientemente
clara numa pintura rupestre, no Saara chadiano, no sculo III antes da Era
Crist. Os homens de Cambises o introduziram em 525 antes da Era Crist no
Egito, onde ele desempenharia importante papel nas comunicaes entre o Nilo
e o mar Vermelho. Sua penetrao no Saara Ocidental ocorreu mais tarde. De
fato, o camelo, que  essencialmente um animal do deserto, onde substitui com
frequncia o boi e o asno, foi difundido no Magreb ao que parece pelas tropas
romanas de origem sria. Os berberes, refratrios  paz romana e a sua forma
de organizar a posse da terra, emanciparam-se graas ao camelo. Ele permitiu-
-lhes estabelecerem-se alm do limes, nas estepes e nos desertos. Os negros
66                                                         Metodologia e pr-histria da frica



sedentrios dos osis foram imediatamente repelidos para o sul ou reduzidos 
escravido.
    Tendo em vista tudo o que foi exposto acima, chega-se a uma concluso que
constitui um avano metodolgico decisivo: um vasto material documental, rico
e variado, pode ser obtido a partir das fontes e tcnicas baseadas nas cincias
exatas e nas cincias naturais. O historiador se v obrigado a desenvolver esforos
de investigao por vezes audaciosos. Todos os caminhos que se abrem esto
doravante entrelaados. O conceito de "cincias auxiliares" perde cada vez mais
terreno nesta nova metodologia, exceto se entendermos por "cincias auxiliares da
histria", as tcnicas fundamentais da pesquisa histrica, originrias de qualquer
campo cientfico e que, de resto, no foram ainda totalmente descobertas. De
agora em diante, as tcnicas de investigao so parte da prtica histrica e
fazem com que a histria se incline de forma concreta para o lado da cincia.
    Dessa forma, a histria se beneficia das conquistas das cincias da Terra e
das cincias da vida. Todavia, seu aparato de pesquisa e de crtica se enriquece
sobretudo com a contribuio das outras cincias humanas e sociais: egiptologia,
lingustica, tradio oral, cincias econmicas e polticas.
    At hoje a egiptologia permanece uma fonte insuficientemente utilizada pela
histria da frica.  conveniente, portanto, insistir no assunto. A egiptologia
compreende a arqueologia histrica e a decifrao dos textos. Nos dois casos, o
conhecimento da lngua egpcia  um pr-requisito indispensvel. Esse idioma,
que permaneceu vivo durante cerca de 5000 anos (se levarmos em considerao
o copta), apresenta-se materialmente sob trs escritas distintas:
          Escrita hieroglfica, cujos signos se dividem em duas grandes classes: os
           ideogramas ou signos-palavras (por exemplo, o desenho de um cesto de vime
           para designar a palavra "cesto", cujos principais componentes fonticos so
           nb) e os fonogramas ou signos-sons (por exemplo, o desenho de um cesto, do
           qual s se retm o valor fontico nb e que serve para escrever outras palavras
           diferentes de "cesto" mas que tm o mesmo valor fontico: nb, "senhor"; nb,
           "tudo"). Os fonogramas, por sua vez, classificam-se em: trilteros, signos que
           combinam trs consoantes; bilteros, signos que combinam duas consoantes;
           unilteros, signos que contm uma s vogal ou consoante: trata-se, nesse
           caso, do alfabeto fontico egpcio.
          Escrita hiertica, ou seja, a escrita cursiva dos hierglifos, que apareceu em
           torno da III dinastia (-2778 a -2423);  sempre orientada da direita para a
           esquerda e traada com um clamo sobre folhas de papiro ou fragmentos de
Fontes e tcnicas especficas da histria da frica  Panorama Geral                   67



               cermica e de calcrio. Teve uma durao to longa quanto a dos hierglifos
               (o texto hieroglfico mais recente data de +394).
              Escrita demtica, uma simplificao da escrita hiertica, surgiu em torno
               da XXV dinastia (-751 a -656), deixando de ser usada no sculo V. No
               plano estrito dos grafemas, reconhece-se uma origem comum entre a escrita
               demtica egpcia e a escrita merotica nbia (que veicula uma lngua ainda
               no decifrada).
   Considerando apenas esse nvel do sistema grfico egpcio, j se colocam
interessantes questes metodolgicas. Isso porque, atravs de uma tal conveno
grfica, dotada de fisionomia prpria, o historiador  que se torna um pouco
decifrador  capta por assim dizer a conscincia e a vontade dos homens de
outrora, j que o ato material de escrever traduz sempre um valor profundamente
humano. Com efeito, decifrar  dialogar, graas a um esforo constante de rigor
e de objetividade. Alm disso, a diversidade, as complicaes e as simplificaes
sucessivas do sistema grfico egpcio constituem em si mesmas parte da histria:
a histria das decifraes, uma das fontes essenciais de toda historicidade. Assim,
com o sistema grfico egpcio a frica toma um lugar importante nos estudos
gerais sobre a escrita, vista como um sistema de signos e de intercomunicao
humana6.
   O problema da difuso da escrita egpcia na frica negra amplia ainda mais
o aparato metodolgico do historiador, abrindo perspectivas totalmente novas
 pesquisa histrica africana. Os fatos que se seguem referem-se a esse aspecto.
Os gicandi constituem um sistema ideogrfico utilizado outrora pelos Kikuyu
do Qunia. Os pictogramas desse sistema oferecem notveis analogias com os
pictogramas egpcios. Tambm a semelhana estrutural entre os pictogramas
nsibidi do territrio dos Efik (sudeste da Nigria) e os pictogramas egpcios foi
reconhecida e assinalada desde 1912 por um especialista britnico, P. Amaury-
Talbot. Muitos dos hierglifos egpcios apresentam ainda um parentesco
escritural claro com os signos da escrita mende do sul de Serra Leoa. Fenmeno
semelhante ocorre com a maioria dos signos da escrita loma do norte da Libria.
Existe ainda uma indubitvel conexo causal entre os hierglifos egpcios e vrios
signos da escrita vai das proximidades de Monrvia (Libria). A escrita dos
Bamun de Camares, que inclui mais de dois sistemas grficos, tambm oferece
analogias admirveis, externas  verdade, com os hierglifos do vale do Nilo.
Como no Egito, os hierglifos dogon, bambara e bozo podem ser decompostos


6    DORLHOFER, E. 1959.
68                                                     Metodologia e pr-histria da frica



e, portanto, analisados. Mas o fato mais significativo  que estes signos do oeste
africano  fazem com que as coisas e os seres escritos com sua ajuda tomem
conscincia de si mesmos, concepo tpica do poder transcendente da escrita,
que encontramos literalmente no Egito, na grafia de certos textos relativos ao
destino depois da morte.
    Assim, permanece grande a possibilidade de ver nascer e se desenvolver
uma epigrafia e uma paleografia absolutamente desconhecidas at aqui e cujo
objeto ser o estudo rigoroso das relaes mtuas entre as famlias escriturais
da frica negra. O historiador tiraria proveito disso, j que, atravs da histria
da escrita e das decifraes surge a histria dos homens responsveis por essas
grafias. O exame dos sistemas grficos  em si mesmo uma fonte preciosa da
histria. O historiador, porm, que nunca deve perder o sentido do tempo,
no pode esperar revelaes antigas dessas escritas em geral recentes. Sua
importncia revela sobretudo a estranha profundidade temporal do impacto
egpcio. Aparentemente desaparecida desde 394 da Era Crist, a escrita egpcia
nos apresenta, sem descontinuidade, diversos ressurgimentos, do sculo XVII
ao sculo XIX. A ruptura entre a antiguidade e o passado recente da frica no
passa portanto de uma iluso de nossa ignorncia; uma via subterrnea une de
facto esses dois plos.
    Conhecer a escrita egpcia, decifrar os textos,  ter acesso direto  lngua
faranica.  recomendvel que o historiador recorra sempre que possvel
aos textos originais, pois as tradues, mesmo as melhores, raramente so
irrepreensveis. O historiador que conhece a lngua egpcia pode assim ler
diretamente os numerosos e variados textos do Egito antigo: estelas funerrias,
inscries monumentais, atas administrativas, hinos religiosos, obras filosficas,
tratados de medicina e matemtica, composies literrias (romances, contos e
fbulas).
    Uma srie de textos mostra claramente que a barreira que se supunha existir
entre o Egito faranico e as demais regies africanas vizinhas em pocas remotas
no est de acordo com a materialidade dos fatos.
    Pode-se mencionar neste sentido a carta que Neferkar (Ppi II), fara da
VI dinastia, enviou por volta de 2370 antes da Era Crist a Herkhouf, chefe de
uma expedio econmica feita s regies meridionais afastadas a "Terra do Fim
do Mundo", como diz o texto referindo-se provavelmente  regio dos grandes
lagos africanos. Um pigmeu havia sido trazido dessa longnqua expedio,
que foi a quarta de uma srie. Um outro texto egpcio, O Conto do Nufrago,
datado do sculo XX antes da Era Crist (no princpio da XII dinastia) fornece
informaes precisas e muito interessantes sobre a vida dos marinheiros dessa
Fontes e tcnicas especficas da histria da frica  Panorama Geral             69



poca, a navegao no mar Vermelho, as relaes econmicas entre a costa
oriental africana e o vale do Nilo. A rainha Hatshepsut, que ocupou o trono
egpcio durante 21 anos (1504-1483), organizou vrias expedies comerciais,
entre as quais se destaca a do ano 9 de seu reinado, que se dirigiu  regio de
Punt (costa somaliana); essa expedio  representada nos esplndidos baixos-
-relevos de Deir el-Bahari, no Alto Egito.
    Existe a uma nova linha de pesquisa, que no pode deixar indiferente o
historiador da frica.  possvel avaliar a importncia de introduzir o ensino
do egpcio antigo nas universidades africanas. Tal ensino deve contribuir
sobremaneira para o estudo vivo do patrimnio cultural africano em toda a sua
profundidade espacial e temporal.
    Em relao ao parentesco lingustico do egpcio antigo, afirma o relatrio
final do importante simpsio internacional sobre O Povoamento do Egito Antigo
e a Decifrao da Escrita Merotica (Cairo, 28 de janeiro  3 de fevereiro de 1974):
"O egpcio no pode ser isolado do seu contexto africano e o semtico no d
conta de seu surgimento;  legtimo portanto encontrar seus pais ou primos na
frica" (relatrio final, p. 29, 5).
    Em termos claros, a lngua faranica no  uma lngua semtica. Convm, por
conseguinte, abandonar a orientao que atribui ao antigo egpcio parentesco
com o "camito-semtico" ou o "afro-asitico", seguida por certos autores que, em
geral, no so nem estudiosos do semtico nem egiptlogos.
    O problema fundamental consiste em aproximar, atravs de tcnicas
lingusticas apropriadas, o antigo egpcio e as lnguas atuais da frica negra,
para reconstituir, na medida do possvel, formas anteriores comuns a partir
de correspondncias e comparaes morfolgicas, lexicolgicas e fonticas.
Uma tarefa gigantesca espera o linguista. Tambm o historiador dever estar
preparado para uma radical mudana de perspectiva quando for desvendada
uma macroestrutura cultural comum entre o Egito faranico e o resto da
frica negra. Essa relao , no sentido matemtico dos termos, uma evidncia
intuitiva que espera uma demonstrao formal. Mas aqui, mais do que em outros
lugares, o historiador e o linguista so obrigados a trabalhar juntos. Isso porque a
lingustica  uma fonte histrica, particularmente na frica, onde as numerosas
lnguas se imbricam.
    Trata-se sobretudo da lingustica comparativa ou histrica. O mtodo
empregado  comparativo e indutivo, pois o objetivo da comparao  reconstruir,
isto , procurar o ponto de convergncia de todas as lnguas comparadas. Este
ponto de convergncia ser chamado de "lngua comum pr-dialetal". Mas 
preciso ser muito prudente. O "bantu comum", por exemplo, reconstrudo a
70                                                    Metodologia e pr-histria da frica



partir do estudo cuidadoso de diversas lnguas hoje encontradas, no  nem uma
lngua antiga nem uma lngua real, recuperada em todos os seus componentes.
O termo "bantu comum" ou "proto-bantu" designa apenas o sistema constitudo
pelos elementos comuns s lnguas bantu conhecidas; tais elementos remontam
a uma poca em que essas lnguas eram quase idnticas. O mesmo ocorre com
o "indo-europeu", por exemplo. No nvel estrito da realidade, a arqueologia
lingustica , no limite, uma pura iluso, porque, da poca mais antiga, pr-
-histrica, em que se falava a lngua comum recuperada, no subsiste nenhum
trao histrico ou lingustico.
    O interesse da lingustica histrica reside menos em reencontrar uma
"lngua comum pr-dialetal" do que em detectar, por assim dizer, a amplitude
lingustica total de diversas lnguas aparentemente estranhas umas s outras.
Muito raramente uma lngua se encerra num espao claramente definido.
Na maioria das vezes, ela ultrapassa sua prpria rea, mantendo com outras
lnguas mais ou menos distantes relaes s vezes imperceptveis  primeira
vista. O grande problema subjacente , evidentemente, o do deslocamento das
populaes. Uma comunidade lingustica no se confunde forosamente com
uma unidade racial. No entanto, ela fornece informaes pertinentes sobre
uma unidade essencial, na verdade a nica: a unidade cultural bsica que existe
entre os povos linguisticamente unidos, mesmo que tais povos tenham s vezes
origens muito diversas e sistemas polticos completamente diferentes. A famlia
"Nger-Congo", por exemplo, embora no tenha sido ainda bem estabelecida,
aponta a existncia de laos socioculturais muito antigos entre os povos do
oeste atlntico, os povos Mande, Gur e Kwa, os povos situados entre o Benue e
o Congo (Zaire ), os povos do Adamaua oriental e os Bantu, da frica central,
oriental e meridional.
    A lingustica histrica  portanto uma fonte preciosa da histria africana,
assim como a tradio oral, que foi durante muito tempo desprezada. Ora, s
vezes a tradio oral constitui a nica fonte imediatamente disponvel.  o caso,
por exemplo, dos Mbochi do Congo. A histria de suas diferentes chefias s
pode ser reconstituda, no espao e no tempo (um tempo relativamente curto, 
verdade), com a ajuda da tradio oral. Esta pode tambm resolver uma questo
onde o documento escrito permanece impotente. Os cronistas (Delaporte, 1753;
Droyat, 1776) so unnimes em afirmar que os reis de Loango (frica central
ocidental) eram sepultados em dois cemitrios distintos: em Lubu e Luandjili.
Quando e por que ocorreu uma tal distino? A esse respeito, os documentos
escritos at hoje conhecidos permanecem mudos. S a tradio oral dos Vili
atuais permite explicar essa dualidade. De acordo com ela, foi uma querela
Fontes e tcnicas especficas da histria da frica  Panorama Geral         71




figura 4.1    Baixo-relevo do Museu de Abomey (Foto Nubia).



extremamente violenta entre a corte de Maloango e os habitantes de Luandjili,
uma rica provncia do reino, que levou o rei e os prncipes da poca a mudarem
o lugar da sepultura. O cemitrio de Luandjili foi ento abandonado em favor
do de Lubu. Neste caso, a tradio oral presta uma contribuio valiosa ao
documento escrito. Na frica existem inmeros casos em que a tradio oral
orienta, por assim dizer, a escavao arqueolgica, esclarecendo paralelamente a
crnica escrita. Durante as escavaes de Tegdaoust, cidade do reino de Gana
72                                                      Metodologia e pr-histria da frica



(Sudo ocidental), conduzidas no fim de 1960 pelos professores J. Devisse,
D. e S. Robert, ento na Universidade de Dacar, os pesquisadores exploraram
simultnea e combinadamente as tradies locais, as crnicas rabes medievais
e as tcnicas propriamente arqueolgicas. Assim, um perodo mal conhecido
da histria africana (do sculo VII ao XIII) pde ser restitudo  memria dos
homens, graas evidentemente  prpria arqueologia, mas tambm, em parte, 
tradio local e aos documentos escritos.
    Esses exemplos, que poderamos multiplicar, mostram que na frica, mais
do que em outros lugares, a tradio oral  parte integrante da base documental
do historiador, que desse modo se amplia. A histria africana no pode mais
ser feita como no passado, quando a tradio oral  que  uma manifestao do
tempo  era afastada da investigao histrica.
    No foi ainda suficientemente destacado um ponto importantssimo: de um
lado, a maneira como a tradio oral apresenta o tempo, e de outro, a maneira
como ela apresenta os acontecimentos atravs do tempo. De que modo o
griot apresenta a histria? Essa  a questo decisiva. O griot africano quase
nunca trabalha com uma trama cronolgica. Ele no apresenta a sequncia
dos acontecimentos humanos com suas aceleraes ou seus pontos de ruptura.
O que ele diz e reconstitui merece ser escutado em perspectiva e no pode
ser de outra forma. O griot s se interessa pelo homem apreendido em sua
existncia, como condutor de valores e agindo na natureza de modo intemporal.
 por isso que ele no se dispe a fazer a sntese dos diversos momentos da
histria que relata. Trata cada momento em si mesmo, com um sentido prprio,
sem relaes precisas com outros momentos. Os momentos dos fatos relatados
so descontnuos. Trata-se, a rigor, da histria absoluta. Essa histria  que
apresenta sem datas e de modo global, estgios de evoluo,  simplesmente a
histria estrutural. Os afloramentos e as emergncias temporais denominadas
em outros lugares "ciclo" (ideia de crculo), "perodo" (ideia de espao de tempo),
"poca" (ideia de parada ou de momento marcado por algum acontecimento
importante), "idade" (ideia de durao, de passagem do tempo), "srie" (ideia de
sequncia, de sucesso), "momento" (ideia de instante, de circunstncia, de tempo
presente), etc., so praticamente deixadas de lado pelo griot africano, enquanto
expresses possveis de seu discurso.  claro que ele no ignora nem o tempo
csmico (estaes, anos, etc.) nem o passado humano, j que o que ele relata ,
de fato, passado. Mas lhe  bastante difcil esboar um modelo do tempo. Ele
oferece de uma s vez toda a plenitude de um tempo.
    Ainda no domnio das cincias humanas e sociais, a contribuio dos
socilogos e cientistas polticos permite redefinir o saber histrico e cultural.
Fontes e tcnicas especficas da histria da frica  Panorama Geral           73



Com efeito, os conceitos de "reino", "nao", "Estado", "imprio", "democracia",
"feudalismo", "partido poltico", etc., utilizados em outros lugares certamente
de maneira adequada, nem sempre so automaticamente aplicveis  realidade
africana.
    O que se deve entender, exatamente, por "reino do Kongo", por exemplo? O
prprio povo usa a expresso nsi a Kongo, literalmente, "o pas (nsi) dos Kongo".
Temos ento um grupo tnico (os Kongo), uma regio (nsi) e a conscincia
que tal grupo tem de habitar essa regio, que assim se torna o pas (nsi) do
grupo tnico em questo. Os limites ou fronteiras so bastante fluidos, pois
so funo da disperso dos cls e subgrupos da etnia considerada. A palavra
"reino" corresponde aqui a um territrio habitado exclusivamente por homens e
mulheres pertencentes a uma mesma etnia. A homogeneidade tnica, lingustica
e cultural  essencial. O "rei" (mfumu)  na realidade o mais velho (mfumu), o
tio materno (mfumu) de todas as famlias (nzo) e de todos os cls matrilineares
(makanda) que reconhecem ancestrais fundadores comuns (bankulu mpangu).
Quando se examina a realidade mais de perto, o "reino do Kongo" resume-
-se, em definitivo, a uma vasta chefia, isto , a um sistema de governo que
engloba pequenas chefias locais. O "rei"  o mais velho dos ancios, o tio materno
mais idoso entre os vivos; por isso  um ntinu, "chefe supremo". A expresso
"reino do Kongo" no designa, portanto, um Estado governado por um rei, no
sentido ocidental. Alm do mais, esse sentido ocidental (reino de Lus XIV, por
exemplo)  um sentido esprio, tardio, inadequado, em suma, um caso particular
de passagem do Estado a Estado nacional atravs da monarquia "absoluta".
    Ao contrrio, o "reino de Danxome" (atual Benin) aproxima-se mais do tipo
de monarquia absoluta, desastrosamente encarnada, na Frana, pelos reinados
de Henrique IV a Lus XVI. Existe, com efeito, um territrio principal e
permanente, que, como assinala o professor M. Gll, possui uma administrao
central: o rei e seus ministros e os delegados dos ministros. O rei  a prpria
essncia do poder. Ele detm todos os atributos de autoridade e comando. Tem
direito de vida e morte sobre seus sditos, os anato, "pessoas do povo", entre
as quais o rei, senhor e proprietrio de todas as riquezas (dokunno), escolhia e
recrutava os glesi, isto , os agricultores que ele destinava aos seus domnios ou
oferecia como presente aos prncipes e chefes. O poder central era exercido nas
aldeias e regies pelos chefes, em nome do rei. O "reino de Danxome" apresenta-
-se portanto como uma organizao estatal fortemente centralizada, na qual
se insere o sistema de descentralizao administrativa constitudo pela chefia.
Existe assim um poder central que controla um povo (os Danxomenu) atravs
74                                                       Metodologia e pr-histria da frica



das chefias. No curso da histria e ao acaso das conquistas, pases anexados se
uniro ao antigo ncleo tnico, ao territrio permanente.
   Houve ento, num dado momento, um processo de conquista e aculturao-
-assimilao entre os povos aparentados e vizinhos (Fon, Mahi, Alada, Savi,
Juda, etc.). O "reino" torna-se, a partir da, um Estado pluritnico, estruturado e
centralizado graas a uma forte organizao administrativa e militar, e tambm
a uma economia dirigida e dinmica. s vsperas da penetrao colonial, o
reino de Danxome constitua um verdadeiro Estado-Nao, onde o dilogo e
a palavra, a adeso das populaes (atravs das chefias), eram um princpio de
governo.
   A palavra "reino" no tem portanto a mesma acepo em toda a frica.
Nesse sentido, os dois exemplos dados, do Kongo e de Danxome, so bastante
elucidativos.  necessrio, por conseguinte, que o historiador seja bastante
cuidadoso ao empregar esse termo. Deve-se notar ainda que, enquanto no Kongo
a chefia corresponde a um sistema de governo, no antigo reino de Danxome
(Abomey), ela  um modo de descentralizao administrativa.
   Quanto ao termo "feudalismo", no campo de observao constitudo pela
Europa ocidental (no entendida apenas em seus limites geogrficos), pode-
-se compreend-lo no sentido dos medievalistas com tendncia jurdica: o
feudalismo  o que se refere ao feudo (surgido em torno dos sculos X-XI) e
o conjunto de relaes (lealdade, homenagem e obrigaes) que liga o vassalo
ao senhor, proprietrio do domnio. Os camponeses, que no fazem parte da
camada superior da sociedade, no so considerados nesta acepo da palavra.
   Os marxistas, ao contrrio, do um sentido mais amplo ao vocbulo
"feudalismo":  um modo de produo caracterizado pela explorao econmica
das classes inferiores (os servos) pelas classes dirigentes (os senhores feudais). Os
servos esto ligados  gleba e dependem do senhor. Este no pode mais matar
o servo, mas pode vend-lo (propriedade limitada ao trabalhador). A servido
substitui a escravido, mas muitos aspectos da condio desta ltima esto ainda
presentes. Os servos, ou os camponeses, no esto associados  gesto dos negcios
pblicos e tambm no assumem funes administrativas. Do ponto de vista da
evoluo das sociedades europeias, o regime feudal  uma etapa intermediria no
processo de formao da economia capitalista. No entanto, muitos marxistas ainda
misturam a noo poltica de feudalismo e a noo socioeconmica de senhoria,
que, graas a Marx, os historiadores aprenderam a distinguir desde 1847.
   Seja qual for o sentido em que o termo  empregado, pode-se dizer que os
regimes medievais europeus se assemelham aos da frica negra pr-colonial?
S os estudos sociais comparativos (ainda bastante raros) podero fornecer
Fontes e tcnicas especficas da histria da frica  Panorama Geral             75



respostas adequadas a esta questo e estabelecer as distines necessrias. O
carter "feudal" da organizao dos Bariba (Daom) j foi assinalado, sobretudo
como hiptese de trabalho. O estgio pouco avanado das pesquisas sobre a
questo do "feudalismo" na frica negra exige do historiador uma prudncia
maior. E parece que as tendncias "feudais" apresentadas pelas sociedades da
frica negra no devem ser definidas em relao a direitos reais devidos 
atribuio de um "feudo", mas sobretudo em relao a uma forma de organizao
poltica baseada num sistema de relaes sociais e econmicas particulares.
    Dessa forma, as anlises dos socilogos e cientistas polticos podem constituir
fontes explorveis pelo historiador. Os "arquivos" do historiador, na frica,
variam enormemente em funo dos materiais e perodos histricos, e tambm
da curiosidade do prprio historiador.
    Na frica, as sries documentais so estabelecidas pelos mais diversos tipos
de cincias  exatas, naturais, humanas e sociais. O "relato" histrico renovou-se
completamente, na medida em que a metodologia consiste em empregar vrias
fontes e tcnicas particulares ao mesmo tempo e de modo cruzado. Informaes
fornecidas pela tradio oral, os raros manuscritos rabes, as escavaes
arqueolgicas e o mtodo do carbono residual ou carbono 14 reintroduziram
definitivamente o "legendrio" povo Sao (Chade, Camares, Nigria) na histria
autntica da frica. A colina de Mdaga, na Repblica do Chade, foi ocupada
por um longo perodo  durante cerca de 2500 anos, do sculo V antes da Era
Crist  metade do sculo XIX da Era Crist. Sem a explorao global e cruzada
de fontes to diversas, teria sido totalmente impossvel chegar a concluses de
tal modo pertinentes e inesperadas.
    As noes clssicas da crtica histrica, tais como "cincias auxiliares",
"escolha de fontes", "materiais histricos nobres", etc., so doravante abolidas da
pesquisa histrica africana, o que assinala uma importante etapa na historiografia
contempornea.
    A prtica da histria na frica torna-se um permanente dilogo interdisciplinar.
Novos horizontes se esboam graas a um esforo terico indito. A noo de
"fontes cruzadas" exuma, por assim dizer, do subsolo da metodologia geral, uma
nova maneira de escrever a histria. A elaborao e a articulao da histria da
frica podem, consequentemente, desempenhar um papel exemplar e pioneiro
na associao de outras disciplinas  investigao histrica.
As fontes escritas anteriores ao sculo XV                                  77



                                             CAPTULO 5


                   As fontes escritas anteriores
                          ao sculo XV
                                               H. Djait




   A noo de fonte escrita  to ampla que chega a se tornar ambgua.
Se entendemos como escrito tudo o que serve para registrar a voz e o som,
seremos forados ento a incluir no testemunho escrito as inscries gravadas
na pedra, disco, moeda... em suma, toda mensagem que fixa a linguagem e o
pensamento, independentemente de seu suporte1. Isto nos levaria a aludir neste
captulo  numismtica,  epigrafia e outras cincias "auxiliares" que, a rigor, se
tornaram independentes da esfera do texto escrito. Portanto, restringiremos
nossa investigao ao que  traado ou impresso em signos convencionais sobre
qualquer tipo de suporte: papiro, pergaminho, osso, papel. Trata-se, j, de um
imenso campo de pesquisas e de reflexes: primeiramente, porque cobre um
perodo que comea com a inveno da escrita e termina no limiar dos Tempos
Modernos (sculo XV); depois, porque abrange um continente inteiro, com
diversas civilizaes justapostas e sucessivas; e, por fim, porque as fontes so de
lnguas, tradies culturais e tipos diferentes.
   Examinaremos os problemas gerais suscitados por essas fontes (anlises por
perodos, regies, tipos), antes de estabelecer um inventrio crtico.




1    DAIN, A. 1961, p. 449.
78                                                        Metodologia e pr-histria da frica



     Problemas gerais
    No existe at o momento, nenhum estudo do conjunto das fontes escritas da
histria da frica. Por razes de especializao cronolgica ou regional, os raros
estudos realizados tm sido associados a campos especficos da pesquisa cientfica.
Assim, o Egito faranico  domnio do egiptlogo, o Egito ptolomaico e romano,
do classicista, o Egito muulmano do islamista: trs perodos, trs especialidades,
das quais apenas uma se origina do que  especificamente egpcio; as outras duas
navegam em rbitas mais vastas (o mundo clssico, o Isl). O mesmo acontece
com o Magreb, ainda que o especialista em civilizao pnica seja ao mesmo
tempo um orientalista e um classicista, e que o estudioso da civilizao berbere
seja marginal e inclassificvel. O domnio da frica negra, tambm variado,
abrange diferentes lnguas e especialidades: h fontes clssicas, rabes e fontes
propriamente africanas. Mas, embora encontremos a mesma trilogia do norte
do Saara, aqui ela no tem nem a mesma amplido nem significao anloga.
Existe uma imensa rea onde, antes do sculo XV, inexiste fonte escrita; ocorre
tambm que determinada fonte rabe, de segunda ordem para o Magreb, por
exemplo, adquire importncia capital para a bacia do Nger. O historiador da
frica negra, ao examinar um documento escrito em rabe, no o faz da mesma
maneira que o historiador do Magreb, ou que o historiador do Isl em geral.
    Tais limitaes e interferncias traduzem a estrutura objetiva da histria da
frica, e tambm a orientao da cincia histrica moderna desde o sculo XIX.
 um fato que o Egito foi integrado ao mundo helenstico, ao Imprio Romano,
a Bizncio e que, convertido ao Isl, se tornou um foco radiante. Tambm 
um fato que os Clssicos consideraram a histria da frica como ilustrao
da histria de Roma e que uma determinada frica estava profundamente
envolvida no destino da civilizao romana. Mas no se pode esquecer que
mesmo o historiador moderno da frica romana  romanista em primeiro lugar
e africanista em segundo, e que o aspecto islmico  excludo de seu campo
epistemolgico.
    Assim, apreender a histria da frica como um todo e considerar, nessa perspectiva,
suas fontes escritas, continua a ser tarefa delicada e particularmente difcil.

     O problema da periodizao
    Como se justificaria, no estudo das fontes escritas, uma cesura localizada no
incio do sculo XV? Seria porque a massa documentria de que dispomos, no
obstante as disparidades culturais e temporais, guardasse uma certa unidade
As fontes escritas anteriores ao sculo XV                                                                      79



estrutural interna? Ou seria pelo desenvolvimento da prpria histria geral,
que, amalgamando Antiguidade e Idade Mdia num nico longo perodo, as
separaria de uma Idade Moderna nitidamente diferente de tudo que a precedeu?
Na verdade, os dois argumentos se sustentam e se completam: as fontes
antigas e medievais caracterizam-se por sua escrita literria; so testemunhos
conscientes em sua maioria, sejam anais, crnicas, viagens ou geografias. J
a partir do sculo XV, tornam-se abundantes as fontes arquivsticas, que so
testemunhos inconscientes. Por outro lado, se at ento a predominncia era de
textos "clssicos" e rabes, a partir do sculo XV as fontes rabes esgotam-se, e
passamos a encontrar evidncias de diferentes origens: o documento europeu
(italiano, portugus, etc.) e, para a frica negra, o documento autctone. Mas
essa mudana de natureza e de procedncia das fontes traduz tambm uma
mutao no destino histrico real da frica. O sculo XV  o sculo da expanso
europeia2, os portugueses chegam s costas da frica negra em 1434; vinte anos
antes (1415), j haviam se estabelecido em Sebta (Ceuta)3. No que diz respeito
 orla mediterrnica e islmica da frica (Magreb, Egito), entretanto, a ruptura
entre duas idades histricas j aparece no sculo XIV, quando essa regio sentia
os efeitos da lenta expanso do Ocidente assim como a ao de foras internas de
decomposio. Mas o sculo XV foi decisivo porque esgotou as fontes extremo-
-orientais do comrcio muulmano, determinando, assim, o fim de seu papel
intercontinental. Da em diante, o Isl afro-mediterrnico caminha rapidamente
para a decadncia. O terminus ad quem do sculo XV , assim, amplamente
justificado desde que no o interpretemos muito rigidamente; poderia, talvez,
encontrar melhor justificao se o deslocssemos para o incio do sculo XVI.
    Isto posto, dividiremos a poca em estudo em trs perodos principais,
levando em considerao a dupla necessidade de diversidade e de unidade:
              a Antiguidade at o Isl: Antigo Imprio at +622;
              a primeira Idade Islmica: de +622 at a metade do sculo XI (1050);
              a segunda Idade Islmica: do sculo XI ao sculo XV.
   Aqui, a noo de Antiguidade certamente no se compara  que vigora na
histria do Ocidente, na medida em que s se identifica parcialmente com a
Antiguidade "clssica"; o perodo no se encerra com as invases brbaras, mas

2    R. MAUNY prope a data de 1434, que  a data da expanso martima portuguesa pela frica negra:
     Le problme des sources de l'histoire de l'Afrique noire jusqu' la colonization europenne. In: XII Congresso
     Internacional das Cincias Histricas. Viena, 29 ago./5 set. 1965. II, Relatrios, Histria dos continentes,
     p. 178. V. tambm: MAUNY, R. 1961, p. 18.
3    LAROUI, A. 1970, p. 218.
80                                                      Metodologia e pr-histria da frica



com o sbito aparecimento do Isl. Precisamente pela profundidade e alcance
de seu impacto, o Isl representa uma ruptura com o passado que poderamos
chamar antigo, pr-histrico ou proto-histrico, conforme a regio. Tambm 
fato que, desde a poca helenstica, a maior parte de nossas fontes antigas so
escritas em grego e latim.
    Se, pela estrutura de nossa documentao, assim como pelo movimento
histrico global, o sculo VII, sculo do aparecimento do Isl e das fontes rabes,
deve ser considerado o incio de uma nova idade, o prprio perodo islmico
deveria, ento, ser dividido em duas subidades: a primeira, da conquista at a
metade do sculo XI, e, a segunda, do sculo XI, at o sculo XV. Na histria da
frica ao norte do Saara, a primeira fase corresponde  organizao da regio
segundo o modelo islmico e  sua ligao com um imprio multicontinental
(Califado omada, abssida, fatmida). Em compensao, a segunda fase
 testemunha do ressurgimento de princpios de organizao autctone, ao
mesmo tempo que, do ponto de vista da civilizao, se opera uma profunda
transformao. Em relao ao Magreb, a metade do sculo XI  a poca da
formao do Imprio Almorvida, da autonomia reconquistada pelos Zridas,
e da consequente invaso hilaliana. No Egito, a cesura poltica situa-se um
sculo mais tarde, com os Aibidas; mas  nessa poca que os grandes centros
de atividade do comrcio transportam-se do golfo Prsico para o mar Vermelho
e que, progressivamente, se estabelece um quadro de intercmbios, em escala
mundial, cujo alcance  considervel.
    Ao sul do Saara,  tambm no decorrer do sculo XI que se desenvolvem
relaes permanentes com o Isl, especialmente no plano comercial e religioso.
    A natureza do material documentrio altera-se. Quantitativamente, torna-
-se abundante e variado; qualitativamente, quanto mais avanamos no tempo,
maior o nmero de fontes inconscientes (documentos de arquivos, pareceres
jurdicos) encontradas na frica mediterrnica, e mais precisas as informaes
relativas  frica negra.

     reas etnoculturais e tipos de fontes
   A classificao das fontes por perodos histricos no basta por si s.
Convm levarmos em conta a articulao da frica em reas etnoculturais, cuja
caracterizao resulta de uma conjugao de fatores, e a prpria tipologia das
fontes disponveis, que se coloca alm dos perodos histricos e das diferenciaes
espaciais.
As fontes escritas anteriores ao sculo XV                                      81



    reas etnoculturais
    Ao examinar o primeiro ponto, seramos tentados desde logo a fazer uma
distino elementar entre a frica ao norte do Saara  frica branca, arabeizada
e islamizada, profundamente tocada pelas civilizaes mediterrnicas e por isso
mesmo desafricanizada  e a frica ao sul do Saara, negra, plenamente africana,
dotada de uma irredutvel especificidade etno-histrica. Na verdade, sem negar a
importncia dessa distino, um exame histrico mais aprofundado revela linhas
de diviso mais complexas e menos ntidas. O Sudo senegals e nigeriano, por
exemplo, viveu em simbiose com o Magreb rabe-berbere e, do ponto de vista
das fontes, est muito mais prximo do Magreb que do mundo bantu. Acontece
o mesmo com o Sudo niltico em relao ao Egito, e com o chifre oriental
da frica em relao ao sul da Arbia. Assim somos tentados a opor uma
frica mediterrnica, desrtica e de savana, incluindo o Magreb, o Egito, os dois
Sudes, a Etipia, o chifre da frica e a costa oriental at Zanzibar, a uma outra
frica "animista", tropical e equatorial  bacia do Congo, costa guineense, rea
do Zambeze-Limpopo, regio interlacustre e, finalmente, a frica do Sul. E 
verdade que essa segunda diferenciao se justifica, em grande parte, pelo critrio
de abertura para o mundo exterior e, nesse caso, pela importncia da penetrao
islmica. Esse fato de civilizao  confirmado pelo estado das fontes escritas,
que opem uma frica bem servida de documentos  com gradaes norte-sul 
a uma frica completamente desprovida deles, ao menos no perodo em estudo.
Mas a dupla considerao da abertura para o exterior e do estado das fontes
escritas corre o risco de permitir julgamentos de valor e de ocultar sob o vu da
obscuridade quase metade da frica (central e meridional). Muitos historiadores
j chamaram a ateno para o risco do "recurso s fontes rabes", que poderia
fazer crer, pela nfase dada  zona sudanesa, que tenha sido esta regio o nico
centro de uma civilizao e de um Estado organizados4. Voltaremos a esse ponto
mais tarde. Contudo, reconheamos desde j que, se h relao entre o estado
de uma civilizao e o estado das fontes, essa relao jamais poderia explicar
completamente o movimento da histria real. O historiador objetivo no tem o
direito de fazer julgamentos de valor com base nos documentos de que dispe,
mas tambm no deve negligenciar seu potencial informativo sob pretexto de
que podem induzi-lo a erro.
    Se uma histria geral, que abrange a totalidade do perodo histrico, apoiando-
-se em todos os documentos disponveis pode atribuir tanta importncia 


4    HRBEK, I. 1965, v. V, p. 311.
82                                                         Metodologia e pr-histria da frica



bacia do Zaire quanto  do Nger ou ao Egito, um estudo que se limite s
fontes escritas at o sculo XV no poderia faz-lo. Considerando todas estas
observaes, podemos operar a seguinte estruturao regional:
        a)   Egito, Cirenaica, Sudo niltico;
        b)   Magreb, incluindo a franja norte do Saara, as zonas do extremo ocidente, a
             Tripolitnia e o Fezzan;
        c)   Sudo ocidental, no sentido amplo, isto , at o lago Chade em direo a
             leste e incluindo o sul do Saara;
        d)   Etipia, Eritreia, chifre oriental e costa oriental;
        e)   O resto da frica, ou seja, o golfo da Guin, a frica central e o sul da
             frica.
   Essa classificao tem a vantagem de no opor duas fricas; estrutura
o continente segundo afinidades geo-histricas orientadas dentro de uma
perspectiva africana, mas leva tambm em considerao o carter particular
das fontes escritas de que dispomos. Em termos de fontes escritas, a frica
central e meridional, por mais rica em civilizao que possa ser, faz pobre
figura em comparao com a menor frao das outras unidades regionais
(Fezzan ou Eritreia, por exemplo). Por outro lado, no h dvida de que,
alm da solidariedade geral que aproxima as fontes da frica conhecida, h
uma solidariedade especfica e mais ntida em nossa informao sobre cada
uma das zonas delimitadas acima. Um inventrio detalhado deveria, ento,
passar em revista os textos, simultaneamente por perodos e por regies, mas
reconhecendo previamente que, atravs das reas, e em menor grau, atravs dos
perodos histricos, essas fontes se resumem apenas a algumas lnguas, a certos
tipos limitados, no provm sempre da rea de que tratam, nem so sempre
contemporneas do que descrevem.

     Tipologia das fontes escritas
   a) So inmeras as lnguas em que foram escritos os documentos que
chegaram at ns, mas nem todas tm a mesma importncia. As mais utilizadas,
aquelas em que foi veiculada a maior quantidade de informao so: o egpcio
antigo, o berbere, as lnguas etopes, o copta, o swahili, o haussa, o fulfulde.
As lnguas mais prolficas so as de origem no-africana: grego, latim, rabe
(ainda que acolhido como lngua nacional por inmeros povos africanos). Se
classificarmos os documentos numa ordem hierrquica que leve em conta ao
mesmo tempo a quantidade e a qualidade da informao, obteremos a seguinte
As fontes escritas anteriores ao sculo XV                                                             83



lista aproximativa: rabe, grego, latim, egpcio antigo (hiertico e demtico),
copta, hebraico, aramaico, etope, italiano, swahili, persa, chins, etc.
    Em termos cronolgicos, nossas primeiras fontes escritas so os papiros
hierticos egpcios datando do Novo Imprio, mas cuja primeira redao
remontaria ao incio do Mdio Imprio (incio do segundo milnio), em particular,
o papiro conhecido sob o ttulo de Ensinamentos para o rei Merikare5. Seguem-
-se os papiros e os ostraka do Novo Imprio, tambm em egpcio hiertico; as
fontes gregas, que remontam ao sculo VII antes da Era Crist e prosseguem,
sem interrupo, at poca mais recente, que coincide, aproximadamente, com a
expanso do Isl (sculo VII da Era Crist); as fontes em hebraico (Bblia) e em
aramaico ( Judeus de Elefantina), que datam da 26a dinastia; os textos demticos,
da poca ptolomaica; a literatura latina, a literatura copta (em lngua egpcia, mas
empregando o alfabeto grego enriquecido com algumas letras), que tm incio
no sculo III da Era Crist; fontes em rabe, chins6, talvez persa, italiano, e,
mais tarde, em lngua etope, na qual o mais antigo documento escrito remonta
ao sculo XIII7.
    b) Classificadas por gneros, as fontes de que dispomos dividem-se em fontes
narrativas e em fontes arquivsticas, umas conscientemente consignadas com o
objetivo de deixar um testemunho, outras participando do movimento normal
da existncia humana. No caso da frica, com exceo do Egito, mas incluindo
o Magreb, as fontes narrativas so representadas quase que exclusivamente pelos
documentos escritos at o sculo XII; cobrem, portanto, no s a Antiguidade
como tambm a primeira Idade Islmica. A partir do sculo XII, o documento
arquivstico, embora raro, comea a aparecer no Magreb (peas almoadas, fatwas
ou pareceres jurdicos da poca hafssida). No Egito, os documentos arquivsticos
tornam-se mais abundantes sob os Aibidas e os Mamelucos (sculos XII-
-XV), enquanto os manuscritos dos mosteiros etopes renem, em apndice,
documentos oficiais. Mas esse tipo de texto praticamente inexiste no resto
da frica, durante a poca aqui considerada8. Nosso perodo  caracterizado

5    GOLENISCHEFF. Les papyrus hiratiques, n. 1115, 1116A e 1116B de l'Ermitage imprial  Saint
     Ptersbourg, 1913; o n. 1116A foi traduzido por GARDINER. In: Journal of Egyptian archaeology.
     Londres, 1914, p. 22 e segs. Cf. a esse respeito DRIOTON, E. e VANDIER, J. 1962, p. 226.
6    Existe um texto chins datado da segunda metade do sculo XI, mas o essencial das fontes chinesas,
     ainda a ser explorado, diz respeito ao sculo XV e  costa do leste africano. Pode-se notar tambm os
     seguintes trabalhos: DUYVENDAK, J. J. L. 1949; HIRTH, F. 1909-1910; FILESI, T. 1962; LIBRA
     1963; WHEATLEY, P. 1964.
7    SELASSI, S. H. 1967, p. 13.
8    Dispomos de mahrams, cartas-patente emitidas pelos reis do Bornu e que datariam do fim do sculo XI:
     o de Umm Jilmi e o da famlia Masbarma. Cf. MAUNY, R. 1961 e PALMER, H. 1928, t. III, p. 3.
84   Metodologia e pr-histria da frica
As fontes escritas anteriores ao sculo XV   85
86                                                            Metodologia e pr-histria da frica



pela preponderncia contnua das fontes narrativas, pelo aparecimento ou
crescimento relativo das fontes arquivsticas a partir do sculo XII na frica
mediterrnica, pela quase ausncia dela, na frica negra, mas, de maneira geral,
pelo aumento substancial de nosso acervo de documentos a partir do sculo XI,
culminando nos sculos XII-XIV.
   Os tipos de fontes podem ser enumerados do seguinte modo:

     Fontes narrativas

           crnicas e anais;
           obras de geografia, relatos de viagens, obras de naturalistas;
           obras jurdicas e religiosas, como tratados de direito cannico, livros santos
            ou hagiografias;
           obras propriamente literrias.


     Fontes arquivsticas

           documentos particulares: cartas familiares, correspondncia comercial, etc.;
           documentos oficiais oriundos do Estado ou de seus representantes:
            correspondncia oficial, decretos, cartas-patente, textos legislativos e fiscais;
           documentos jurdico-religiosos.
    Devemos observar que as fontes narrativas comeam no sculo VIII antes
da Era Crist, com Homero, e compreendem um nmero considervel de
obras-primas do esprito e do saber humanos. Entre os autores, encontramos
grandes nomes, que, embora, em sua maioria, no tratem especificamente da
frica, concedem-lhe um lugar mais ou menos importante dentro de uma
perspectiva mais ampla. Entre esses nomes figuram: Herdoto, Polbio, Plnio,
o Velho, Ptolomeu, Procpio, Khwarizmi, Mas'udi, Jahiz, Ibn Khaldun. A
documentao arquivstica  a mais antiga do mundo: se os papiros de Ravena
so os mais antigos registros arquivsticos conservados na Europa, datando do
incio do sculo VI da Era Crist, os papiros do Novo Imprio egpcio lhes so
anteriores em vinte sculos.  verdade que, na primeira Idade Islmica, esse
tipo de testemunho no ultrapassou os limites do Egito, tendo conhecido uma
expanso relativamente pequena at o fim de nosso perodo, o que talvez se possa
explicar pelo fato de a civilizao islmica medieval ter praticamente ignorado
o princpio da conservao de documentos de Estado. Dos sculos XIV e XV,
o perodo mais rico em peas de arquivos, o que chega at ns so sobretudo
As fontes escritas anteriores ao sculo XV                                                                  87



obras enciclopdicas.  somente na poca moderna, otomana e europeia, que se
constituem os depsitos de arquivos propriamente ditos.


    Inventrio por perodos
    A Antiguidade prislmica (das origens a 622)
   Esse perodo, em relao ao que o segue,  caracterizado pela predominncia
das fontes arqueolgicas e, em geral, no-literrias. Entretanto, ainda que
secundrios, os documentos escritos nos fornecem por vezes informaes muito
importantes; ademais, vo se tornando mais numerosos e precisos  medida que
avanamos no tempo. Do ponto de vista da diviso regional, devemos notar que
esto totalmente ausentes na frica ocidental e central.

    Egito, Nbia, frica oriental
    a) As fontes escritas referentes ao Egito at o primeiro milnio so exclusivamente
egpcias; trata-se dos papiros hierticos e dos ostraka, cuja origem no remonta
alm do Novo Imprio, mas que podem, como dissemos, conter informaes mais
antigas9. Papirus e ostrakon designam o suporte: no primeiro caso, trata-se de uma
planta; no segundo, de uma lmina de calcrio. Os signos hierticos distinguem-se
dos signos hieroglficos por sua aparncia cursiva, prestando-se melhor ao trao
que ao entalhe. Os papiros e ostraka, numerosos na 19a e 20a dinastias do Novo
Imprio ou perodo ramessita (1314-1085 antes da Era Crist), referem-se tanto
 vida administrativa, como  vida privada; encontramos relatrios administrativos
e judicirios, registros de contabilidade, cartas particulares e tambm contos e
romances. Os papiros jurdicos10 e os papiros literrios11 tm sido objeto de
cuidadosos estudos e, desde o sculo XIX, vm sendo publicados.


9    DRIOTON, E. e VANDIER, J. 1962, p. 7-9; YOYOTTE, J. L'Egypte ancienne. In: Histoire universalle.
     Col. Pliade.
10 Entre os documentos jurdicos, temos o papiro Abbott, os papiros Amherst e Mayer, igualmente o de
   Turim... nos quais se baseia nosso conhecimento dos reinados de Ramss IX, X e XI. So publicados: cf.
   Select Papyri in the hieratic character from the collections of the British Museum. Londres, 1860; NEWBERRY.
   The Amherst Papyri. Londres, 1899; PEET. The Mayer Papyri. Londres, 1920; PEET. The great tombs
   robberies of the Twentieth Egyptian Dynasty. 2 v., Oxford, 1930.
11 A coleo do British Museum  rica em papiros literrios. Encontramos, por exemplo, o conto da Verdade
   e da Mentira, o de Horus e de Seth. G. POSENER, grande especialista no assunto, elaborou uma lista
   quase completa das obras literrias egpcias e chegou a 85 ttulos: Revue d'Egyptologie VI. 1951, p. 27-48.
   G. POSENER publicou, ainda, stracos: Catalogue des ostraka hiratiques littraires de Deir elMedineh,
   Cairo, 1934-1936.
88                                                                     Metodologia e pr-histria da frica



    Nossos conhecimentos a respeito da Nbia e do pas de Punt baseiam-
-se unicamente em material arqueolgico e epigrfico (desenhos murais em
particular), no se tendo encontrado fontes escritas at o presente momento.
    b) No primeiro milnio antes da Era Crist, especialmente a partir do sculo
VI, diversifica-se e se altera a contribuio de nossas fontes. Os documentos
narrativos somam-se aos documentos arquivsticos e, em certos momentos,
substituem-nos. Um exemplo  o Livro dos Reis, fragmento do Antigo Testamento,
que nos d informaes preciosas sobre o advento da 22a dinastia (cerca de -950)
e continua a ser de grande utilidade para todo o perodo seguinte, isto , at
o domnio persa (-525). O Livro dos Reis recebeu uma primeira redao antes
da destruio de Jerusalm, ou seja, antes de -58612, e foi retocado durante o
exlio, mas reproduz tradies que remontam ao incio do primeiro milnio
antes da Era Crist. Outras fontes estrangeiras, gregas sobretudo, trazem dados
sobre o baixo perodo a partir da primeira dinastia Sata (sculo VIII antes
da Era Crist): Menandro, Aristodemo, Filocoro, Herdoto. Do ponto de
vista arquivstico, os papiros deste perodo aparecem escritos em grego ou em
demtico escrita ainda mais cursiva que o hiertico. No sculo -V, os papiros
dos Judeus de Elefantina so nossa principal fonte, enquanto, nos sculos -IV e
-III, aparece a crnica demtica.
    c) O perodo que se estende do estabelecimento dos Ptolomeus no Egito
(fim do sculo IV antes da Era Crist) at a conquista rabe (639) cobre um
milnio que se caracteriza pela abundncia de fontes gregas e pela emergncia
da zona etope-eritreia em nosso campo de conhecimento. Polbio, Estrabo,
Diodoro, Plnio, o Velho falam-nos dessa regio com uma preciso relativa, que
no exclui a ignorncia ou a ingenuidade. O naturalista romano nos d em sua
Histria natural numerosas informaes sobre o mundo etope, em particular no
que diz respeito aos produtos do comrcio e aos circuitos de troca.  obra de
compilao, certamente de valor desigual, mas rica em detalhes.
    A informao de que dispomos torna-se mais precisa no meio milnio que
se segue ao aparecimento do Cristianismo. O Egito, como sabemos, passa a ser,
no sculo II, o foco principal da cultura helenstica, sendo muito natural que
tenha produzido historiadores, gegrafos, filsofos e padres da Igreja. Integrado
politicamente ao Imprio Romano, depois Bizantino, o Egito era objeto de
inmeros escritos latinos ou gregos externos, de ordem narrativa ou arquivstica
(Cdigo de Teodsio, por exemplo, ou Novellae de Justiniano). Notemos tambm

12   LODS, A. Les Prophtes d'Isral et les dbuts du judasme. Paris, 1950, p. 7; DRIOTON e VANDIER, op.
     cit. pas.; DORESSE, 1971, t. 1, p. 47-61.
As fontes escritas anteriores ao sculo XV                                                              89



que a corrente papirolgica no se esgota. Dessa massa documentria interna e
externa emergem algumas obras de especial importncia: a Geografia de Ptolomeu
(140 aproximadamente)13; o Priplo do Mar da Eritreia14, obra annima que
calculamos ter sido composta em cerca de 230 (datada anteriormente do sculo
I); a Topografia Crist15 de Cosmas Indicopleustes (535 aproximadamente).
Esses escritos representam a base de nossa informao sobre a Etipia e o chifre
oriental da frica. No conjunto, esta breve exposio aponta dois descompassos:
o das fontes escritas em relao aos outros tipos de documentos, e o do nosso
conhecimento do Egito em relao ao nosso conhecimento da Nbia e do
mundo eritreu.

     O Magreb antigo
    A histria escrita do Magreb antigo nasceu do encontro de Cartago com
Roma. Isso significa que no dispomos de nenhum documento importante
anterior ao segundo sculo antes da Era Crist: apenas indicaes esparsas na
obra de Herdoto, evidentemente, e nas obras de outros historiadores gregos.
O perodo autenticamente pnico depende da arqueologia e da epigrafia.
Alm disso, a histria de Cartago, tanto anterior quanto posterior a Anbal  o
confronto com Roma e o curto perodo de sobrevivncia que se seguiu  no
deve quase nada s fontes pnicas escritas. Sabe-se hoje que o Priplo de Hano
(em grego), cuja descrio se estende s costas norte-ocidentais da frica,  falso
e no pode ter sido escrito antes do sculo I. Restam os trabalhos agronmicos
atribudos a Mago, dos quais apenas alguns trechos foram conservados por
autores latinos. Entre as fontes autctones, seria necessrio mencionar as notas
de Juba II, que Plnio, o Velho, compilou em sua Histria Natural.
    O essencial, se no a totalidade, de nossas fontes escritas relativas  histria do
Magreb antigo fases cartaginesa, romana, vndala e bizantina  constitudo pelas


13   Sobre os gegrafos clssicos e ps-clssicos que trataram da frica, ver a obra fundamental de Yusuf
     KAMEL: Monumenta cartographica Africae et Aegypti, Cairo e Leyde, 1926 a 1951, 16 vol. Convm que
     esse trabalho seja reeditado com um aparato crtico novo e importante.
14 Editado por MLLER. Geographi Graeci minores. Paris, 1853, t. I. Reeditado por Hjalmar FRISK em
   Gteborg em 1927. Essa importante obra vem sendo editada desde o sculo XVI, em 1533, e depois
   em 1577.
15   COSMAS  um viajante que visitou a Etipia e a ilha de Socotra. Sua obra figura na Patrologie grecque,
     de MIGNE, t. 88, coleo que deve necessariamente ser consultada no que se refere  Antiguidade, ao
     lado da Patrologie Latine, do mesmo MIGNE. A obra de COSMAS recebeu excelente edio em trs
     tomos das Editions du Cerf, Paris, 1968-1970. Assinalemos a importncia, para nosso conhecimento
     da cristianizao da Etipia, da Historia Ecclesiastica, de RUFINO. In: Patrologie grecque, de MIGNE,
     com traduo latina.
90                                                                   Metodologia e pr-histria da frica



obras dos historiadores e gegrafos clssicos, isto , aqueles que escreviam em grego
ou latim. Em geral, esses autores no so africanos, mas  medida que a frica se
romaniza, surgem escritores autctones, especialmente entre os padres da Igreja.
    a) No perodo que se estende de -200 a +100 e que corresponde ao
apogeu e  queda de Cartago,  organizao da provncia romana da frica
sob a Repblica e o principado, temos por fontes uma grande quantidade de
documentos conhecidos, escritos em latim e grego: Polbio (-200 a -120), nossa
fonte principal; Estrabo; Diodoro da Siclia; Salstio (-87 a -35); Tito Lvio;
pio; Plnio; Tcito; Plutarco (sculo +I) e Ptolomeu (sculo +II), sem contar
os numerosos escritores menores16.
    Seria muito til que se reunissem os escritos dispersos relativos  frica do
Norte. At agora foram coligidos apenas os documentos referentes ao Marrocos17.
Assim sendo, o pesquisador v-se obrigado a examinar sistematicamente as
grandes colees clssicas, em que a erudio europeia do sculo XIX utilizou
todos os seus recursos de crtica e de formidvel labor: Bibliotheca Teubneriana,
The Loeb Classical Library (texto e traduo inglesa), Collection G. Bud (texto
e traduo francesa), Collection des Universits de France, Scriptorum classicorum
Bibliotheca Oxoniensis. Seria conveniente acrescentar a essas fontes narrativas,
outras mais diretas, constitudas pelos textos do direito romano, embora sejam
estes de origem epigrfica18.
    As obras escritas dos analistas, cronistas e gegrafos greco-latinos no tm
valor uniforme em todo o subperodo considerado. Alguns tendem a compilar
as informaes de seus predecessores, outros nos trazem informaes originais
preciosas e s vezes at mesmo um testemunho direto. Polbio, por exemplo,
viveu na intimidade dos Cipio e provavelmente assistiu ao stio de Cartago em
-146; o Bellum Jugurthinum, de Salstio,  um documento de primeira ordem
sobre os reinos berberes; o Bellum Civile, de Csar,  a obra de um ator da
Histria.
    A figura e a obra de Polbio dominam esse perodo. Polbio , como j foi dito19,
o filho da poca e da cultura helensticas. Nasceu em -200 aproximadamente,
isto , no momento em que ocorre o encontro de Roma, na exploso de seu
imperialismo, com o mundo mediterrnico e, mais especificamente, com o


16   Citemos: ARISTTELES (Poltica), CSAR (Bellum Civile e Bellum Ajricum), EUTRPIO,
     JUSTINO, ORSIO. H mais de trinta fontes textuais apenas para a histria de Anbal.
17 ROGET, M. Le Maroc chez les auteurs anciens. 1924.
18   GIRARD, P. P. Textes de droit romain. 6.a ed., 1937.
19 Cambridge Ancient History, v. VIII: Rome and the Mediterranean.
As fontes escritas anteriores ao sculo XV                                          91



mundo helenstico. Prisioneiro e exilado em Roma, aprendeu as duras lies
do exlio, esse "mestre violento" do historiador e do filsofo. A proteo dos
Cipio amenizou sua estada, mas lhe valeu, sobretudo, para a aquisio de vasto
conhecimento da histria de Roma e de Cartago. Aps 16 anos de cativeiro,
retornou  ptria, a Grcia, mas no demorou a deix-la novamente para
percorrer o mundo. Conta-se que durante sua estada na frica, Cipio Emiliano
ofereceu-lhe uma frota para que pudesse explorar a costa atlntica do continente.
Em outras palavras, estamos diante de um homem de audcia, experincia e
incansvel curiosidade. Polbio no  apenas nossa principal fonte para tudo
que se refere ao duelo pnico-romano; de um ponto de vista mais amplo, 
um observador de primeira ordem da frica e do Egito de seu tempo. Se os
40 livros que compem as Pragmateia tivessem chegado at ns, talvez nossos
conhecimentos fossem muito mais completos; talvez tivssemos informaes
precisas  preciso que falta em toda parte  sobre a prpria frica negra. Assim
mesmo, os seis livros que se conservaram destacam-se das demais fontes pela
qualidade da informao e inteligncia da observao.
    b) Aps o sculo I e durante os quatro sculos em que se enraza ao mximo a
organizao imperial na frica, entrando, posteriormente, numa crise prolongada,
as fontes literrias tornam-se raras. H um vazio quase total no sculo II e os sculos
III e IV so marcados pela predominncia de escritos cristos, especialmente os de
Cipriano e Agostinho. H obras gerais, que ultrapassam o quadro africano para
colocar os grandes problemas religiosos e que no participam do discurso histrico
direto, mas h tambm obras polmicas e de circunstncia, mais comprometidas
com os acontecimentos. O que sabemos a respeito do movimento donatista
baseia-se nos ataques do maior de seus adversrios, Santo Agostinho (354-430),
e, por isso mesmo, as precaues mais srias mostram-se necessrias.
    Do mesmo modo, no que se refere s fontes escritas relativas ao perodo
imperial, a patrologia apresenta-se como o principal instrumento de nosso
conhecimento, embora seja muito parcial. O pesquisador ter, tambm nesse
caso, acesso a grandes colees:
              o Corpus de Berlim em grego (apenas o texto);
              o Corpus de Viena em latim (apenas o texto).
   Esses monumentos da erudio alem tm seus equivalentes na erudio
francesa, com os dois Corpus de Migne:
              a Patrologia grega (texto e traduo latina);
              a Patrologia latina (apenas o texto latino).
92                                                                         Metodologia e pr-histria da frica



    O intermdio vndalo, a reconquista bizantina e a presena bizantina
durante mais de um sculo, levaram um nmero maior de escritores a registrar
os acontecimentos. Os documentos chamados "menores" so abundantes;
aparecem as fontes arquivsticas (correspondncia, textos legislativos). Alm do
mais, temos a sorte de contar com um observador fecundo e talentoso: Procpio
(sculo VI), que , sem dvida alguma, nossa fonte fundamental com seu De
Bello Vandalico. Recorreremos  Coleo Bizantina de Bonn e, secundariamente,
aos Fragmenta historicorum graecorum, para os textos gregos. Os numerosos
textos latinos encontram-se na Patrologia latina (as obras de So Fulgncio
apresentam certo interesse para o conhecimento do perodo vndalo), ou nas
Monumenta Germanica historica, autores antiquissimi20, outro monumento da
erudio alem, que reagrupa as "crnicas menores" do perodo bizantino:
Cassiodoro, Prspero Tiro, e sobretudo Victor de Vita e Coripo. Estes dois
autores merecem a maior ateno o primeiro para o perodo vndalo, o segundo
para o perodo bizantino , pois penetram no interior do continente, fazendo
emergir da obscuridade essa frica por tanto tempo esquecida21. Em sua obra
clssica sobre a frica bizantina, Charles Diehl mostrou como se podia utilizar
conjuntamente o material arqueolgico e textual para se obter a mais completa
representao da realidade histrica. Utilizou o maior nmero possvel de
fontes escritas: primeiramente Procpio, depois Coripo, mas tambm Agathias,
Cassiodoro, Jorge de Chipre22, as cartas do Papa Gregrio Magno e documentos
jurdicos, tais como as Novellae e o Cdigo Justiniano, to teis no estudo da vida
econmica e social.
    Parece pouco provvel que se possa enriquecer, com novas descobertas,
a lista estabelecida de nossos documentos escritos. Em compensao, pode-
-se explor-los melhor, estudando-os com maior profundidade, aplicando-
-lhes uma crtica rigorosa, confrontando-os com um material arqueolgico e
epigrfico ainda inesgotado, sobretudo utilizando-os com mais honestidade
e objetividade23.


20   Nas Monumenta, de Mommsen, t. 9/1-2 (1892) 11 (1894) e 13 (1898), encontram-se o texto de Victor
     de Vita no t. 3-1 (1879), editado por C. HOLM, e o texto de Coripo no t. 3-2 (1879), editado por J.
     PARTSCH.
21   Sobre a frica vndala e bizantina, dispomos de duas obras modernas fundamentais, que fornecem detalhes
     das fontes utilizveis: C. COURTOIS, 1955, e C. DIEHL, 1959. Para o alto perodo, a Histoire ancienne
     de l'Afrique du Nord, de S. GSELL, que, embora envelhecida, ainda deve ser consultada.
22   Descriptio orbis romani. ed. Gelzer.
23   Sobre as distores advindas de uma leitura parcial dos textos, a crtica da historiografia ocidental apre-
     sentada por Abdallah LAROUI  to pertinente quanto bem-informada (1970).
As fontes escritas anteriores ao sculo XV                                                           93



     A frica saariana e ocidental
    A rigor, no dispomos de nenhum documento digno de confiana sobre a
frica negra ocidental. Admitindo com Mauny24 que os antigos cartagineses,
gregos, romanos no ultrapassaram o cabo Juby e a latitude das ilhas Canrias,
o que  mais que provvel, somos levados a concluir que as informaes
transmitidas por suas obras referem-se ao extremo sul marroquino. Certamente
alcanam a fronteira do mundo negro, mas no o penetram.
    O Priplo de Hano  falso, se no inteiramente, ao menos em grande
parte25.  um documento composto, em que se misturam dados tomados
de emprstimo de Herdoto, Polbio, Possidnio e do Pseudo-Sila, e que
deve datar do sculo I. As obras desses autores so mais dignas de crdito.
Herdoto fala-nos sobre o comrcio mudo que os cartagineses praticavam
no sul do Marrocos. O continuador do PseudoSila (sculo -IV ) nos d, por
sua vez, informaes preciosas sobre as relaes entre cartagineses e lbico-
-berberes. Mas  novamente Polbio que se revela a fonte mais confivel. Os
fragmentos de seu texto, interpolados em Plnio, o Velho, oferecem-nos os
primeiros topnimos identificveis da Antiguidade; mas, tambm nesse caso,
sua informao interrompe-se no cabo Juby. Seria necessrio complet-la, no
que se refere ao arquiplago das Canrias, com as notas de Juba II recolhidas
por Plnio, Estrabo, Diodoro da Siclia. Os outros histpriadores-gegrafos do
sculo I antes e depois da Era Crist apenas compilaram os autores anteriores,
salvo alguns detalhes. Finalmente, no sculo lI, Ptolomeu, retomando todos seus
predecessores, baseando-se principalmente em Posidnio e Marino de Tiro,
consigna em sua Geografia a evoluo mxima dos conhecimentos relativos
aos contornos da frica na Antiguidade26. O mapa da "Lbia Interior", do
gegrafo alexandrino, tornou acessveis as informaes recolhidas pelo exrcito
romano, na ocasio de suas expedies punitivas alm do limes at o Fezzan: a
de Balbo em -19, a de Flaco em +70, a de Materno em +86 (que penetrou mais
profundamente no deserto lbio)27. Nomes de povos e regies sobreviveram 
Antiguidade: Mauritnia, Lbia, Garamantes, Getulos, Nmidas, Hesprides e
at mesmo Nger, empregado por Ptolomeu, e retomado por Leo, o Africano, e
depois pelos europeus modernos. Essa  uma das contribuies de nossos textos

24   MAUNY, R. 1970, p. 87-111.
25   Id., p. 98; TAUXIER, L. 1882, p. 15-37; GERMAIN, G. 1957, p. 205-48.
26   KAMEL, Y. Monumenta, op. cit., t. II, Fasc. I, p. 116 e segs.; MAUNY, R. "L'Ouest africain chez
     Ptolme", nas Actes de la IIe Confrence Internationale des Africanistes de l'Ouest. Bissau, 1947.
27   MARINO DE TIRO, uma das fontes de PTOLOMEU, divulgou-o; cf. KAMEL, Y. t. I, 1926, p. 73.
94                                                                   Metodologia e pr-histria da frica



que, por outro lado, nos fornecem, mais do que dados reais, a representao
que a Antiguidade fazia da frica. As poucas indicaes existentes referem-se
ao deserto da Lbia e s costas do Saara Ocidental; em todos esses textos, a
frica negra ocidental permanece marginalizada.


     A primeira idade islmica (6221050 aproximadamente)
   A conquista rabe e o estabelecimento do califado tiveram por consequncia
a unificao de domnios poltico-culturais anteriormente dissociados (Imprio
Sassnida, Imprio Bizantino), o alargamento do horizonte geogrfico do
homem, o remanejamento das correntes de intercmbio, a penetrao de povos
at ento desconhecidos. No , portanto, surpreendente que, pela primeira vez,
tenhamos informaes mais precisas sobre o mundo negro, tanto do leste como
do oeste. Mas enquanto o Egito e o Magreb estavam integrados no corpo do
Imprio e depois da comunidade islmica, o mundo negro simplesmente fazia
parte de sua esfera de influncia; da uma informao parcelar, desconexa, s
vezes mtica, mas ainda assim preciosa.
   Se excluirmos as fontes arquivsticas, cuja tradio continua no Egito (papiros
coptas e gregos de Afrodite, papiros rabes do Faium e de Ashmunayn28,
enfim, no sculo X, algumas peas de arquivos fatmidas) e que concernem
especificamente a esse pas, a maior parte de nossas fontes, narrativas no sentido
amplo ou indireto,  comum a toda a frica.  uma caracterstica evidente nas
obras geogrficas e que pode ser percebida em vrios textos jurdicos. Portanto,
parece mais cmodo proceder, nesse caso, a um inventrio por gnero, destacando,
todavia, a sucesso cronolgica e sem perder de vista a estrutura regional.

     As crnicas
   a) No dispomos de nenhuma crnica anterior ao sculo IX. Mas foi no sculo
VIII que se elaborou a informao oral, tendo como centro incontestvel o Egito,
com exceo da costa oriental da frica, em ligao comercial direta com o Iraque
meridional. Por outro lado, o carter excntrico do Egito, do Magreb e a fortiori
do Sudo fez com que, mesmo no sculo IX, sculo da exploso da historiografia


28   So importantes os trabalhos de GROHMANN: Arabie papyri in the Egyptian Library. 5 v., 1934-
     -1959; Einfhrung und Chrestomathie der Arabischen Papyruskinde. Praga, 1955. Os papiros gregos e
     coptas foram estudados por H. BELL. Para os registros fatmidas: SHAYYAL, Majm at al-Wath iq
     al-Ftimiyya, Cairo, 1958.
As fontes escritas anteriores ao sculo XV                                                                 95



rabe, lhe fosse reservado um pequeno lugar nas grandes ta'rikh29 (al-Tabari,
al-Dinawari, al-Baladhori dos Ansab alAshraf ) focalizadas no Oriente. Deve-
-se fazer exceo a uma crnica at recentemente quase desconhecida: a ta'rikh
de Khalifa b. Khayyat30. Esse livro no constitui apenas a mais antiga obra de
anais rabes (Khalifa morreu em 240 H.); conservou tambm materiais antigos
negligenciados por al-Tabari; a destacar, principalmente, suas indicaes sobre a
conquista do Magreb. Enquanto a tradio medinense deixou na obscuridade a
conquista do Egito e do Magreb, dos Maghazi dos quais apenas os traos mais
evidentes so referidos, de modo conciso, nos Futuh alBuldan de Baladhori, um
jurista egpcio dedica-se exclusivamente ao assunto, numa obra que constitui o
documento mais importante do sculo IX. Os Futuh Misr walMaghrib31, de
Ibn'Abd al-Hakam, semelhantes a uma crnica ou a uma obra de maghazi, so
na realidade uma coletnea de tradies jurdicas que distorcem a informao
histrica.32
    b) Aps um sculo de silncio33 (850-950), surge uma obra fundamental
que parece no ter sido explorada em todas as suas dimenses: o Kitab Wulat
Misr wa Qudhatuha, de Kindi (morto em 961). Essa obra biogrfica, que no
 uma crnica, embora possa ser tratada como tal, no apenas encerra dados
precisos e de primeira mo sobre o Egito, mas tambm devido aos primeiros
laos dessa provncia com o Magreb se revela uma das fontes mais seguras para
o conhecimento do Magreb no sculo VIII34. O sculo X  o sculo isma'iliano
do Isl e do Isl africano principalmente: consultar-se-o, assim, os escritos

29   Todavia,  importante assinalar que um dos primeiros historigrafos rabes, UMAR B. SHABBA nos
     legou o mais antigo testemunho rabe relativo aos Negros, texto reproduzido por AL-TABARI, Ta'rikh,
     t. VII, p. 609-614. Trata-se da revolta dos "Sudan", em Medina, em 145 H. /+762, atestando uma forte
     presena africana no alto perodo. Esse texto no foi comentado at agora.
30   Editado em Najaf, em 1965, por UMARI com prefcio de A. S. al-ALI, 344 p.
31 Editado por TORREY em 1922, traduzido parcialmente por GATEAU, reeditado no Cairo por 'AMIR
   em 1961. Sobre as precaues que devem ser tomadas para sua utilizao: R. BRUNSCHWIG, "Ibn Abd
   al Hakam et la conqute de l'Afrique du Nord par les Arabes", Annales de l'Institut d'Etudes orientales
   d'Alger, VI, 1942-1947, estudo hipercrtico que no nos parece prejudicar a contribuio desse texto,
   fundamental para o Egito, til para a Ifrikya, importante para o mundo negro (eventuais contatos de
   Uqba com o Fezzan negados por BRUNSCHWIG num outro artigo; o famoso tratado chamado Baqt
   com os nbios).
32 No h muita coisa para se extrair de um compilador tardio, UBAYD ALLAH B. SALIH, descoberto
   e magnificado por E. LVI-PROVENAL, cf. Arabica, 1954, p. 35-42, como uma nova fonte da
   conquista do Magreb. E. LVI-PROVENAL  seguido em seu julgamento por MAUNY, in: Tableau,
   op. cit., p. 34, cuja anlise das fontes rabes, cuidadosa e exaustiva, no se preocupa muito com a crtica
   rigorosa.
33 Com exceo de algumas crnicas annimas interessantes como al-Iman wa-s-Siyasa, Cairo, 1904, do
   pseudo-Ibn QUTAYBA e o annimo Akhbar MADJMU'A, Madri, 1867.
34   Editado por R. GUEST em 1912 e reeditado em Beirute em 1959.
96                                                                     Metodologia e pr-histria da frica



xiitas, como a Sirat alHajib Ja far, mas sobretudo a Iftitah adDa wa do Cadi
al-Nu'Man, obra fundamental, sem muitas datas, mas rica em informaes sobre
o incio do movimento fatmida35.
    c) A primeira metade do sculo XI presenciou a redao do famoso Ta'rikh,
de al-Raqiq (morto em 1028), fonte fundamental. A obra  considerada
perdida, mas o essencial foi retomado por compiladores, como Ibn al-Idhari.
Recentemente, um fragmento dedicado  alta poca ifriqiyana, descoberto pelo
marroquino Mannuni, foi editado em Tnis (1968) por "M. Kaabi", sem que,
com segurana, possamos atribu-la a Raqiq36.
    Em todas essas crnicas, o lugar reservado  frica negra  mnimo. Alm
disso, elas exigem do historiador uma crtica rigorosa, uma confrontao constante
dos dados, entre si e com os de outra origem. O historiador do Magreb e do
Egito, principalmente, no pode parar nesse ponto: um conhecimento profundo
do Oriente  absolutamente necessrio. A utilizao dessas fontes deve, ento,
ser completada com a utilizao em profundidade das crnicas orientais clssicas.

     Fontes geogrficas
   So importantes e numerosas a partir do sculo IX. Quer pertenam ao
gnero cartogrfico do Surat al-Ardh, ilustrado por al-Khwarizmi,  geografia
administrativa,  categoria dos itinerrios e pases (Masalik) ou simplesmente 
de viagem mais ou menos romanceada, os documentos geogrficos escritos em
rabe ilustram um desejo de apreenso da totalidade do oekumene. Assim, no  de
surpreender que a frica negra esteja representada nessas fontes e que sejam elas
elemento fundamental do nosso conhecimento dessa frica. A coletnea exaustiva
compilada por Kubbel e Matveev37, que se interrompe no sculo XII, mostra que,
dos 40 autores que falaram da frica negra, 21 so gegrafos, e seus textos so os
mais ricos em contedo. Mas no poderamos tirar real proveito dessas fontes sem
um trabalho crtico preliminar. O historiador da frica negra deve recolocar as
obras geogrficas rabes dentro de seu contexto cultural prprio. Em que medida,
por exemplo, tal descrio corresponde  realidade e em que medida no  reflexo
dos temas repetidos do Adab com seus diversos componentes?38 Qual  a parte da


35   Publicado em Tnis por M. DACHRAOUI, e em Beirute.
36   M. TALBI negou declaradamente a autoria a al-RAQIQ, in: Cahiers de Tunisie, XIX, 1917, p. 19 e segs.,
     sem, entretanto, chegar verdadeiramente a convencer. A incerteza, portanto, subsiste.
37   KUBBEL, L. E. e MATVEEV, v. V, 1960 e 1965. Ver tambm CUOQ, J. 1975.
38   MIQUEL, A., 1967 e 1975.
As fontes escritas anteriores ao sculo XV                                                                 97



herana grega, da herana iraniana, da prpria tradio rabe a da compilao, a
da observao concreta? Mas, por outro lado, deve-se exercer a crtica dos textos a
partir do interior, isto , com um conhecimento aprofundado da histria da frica,
tomando-se cuidado para no ler essa histria apenas em fontes essencialmente
geogrficas. Mas  inadmissvel o ponto de vista estritamente ideolgico daqueles
que, por islamofobia39, preocupao mal colocada de um africanismo introvertido,
recusam o exame aprofundado dessas fontes40.
   Da pliade de gegrafos que, da metade do sculo IX a meados do sculo XI,
concederam um lugar  frica  quase todos esto nesse caso , somente alguns
transmitem uma informao original e sria: Ibn Khordadhbeh, Ya'kub (morto
em 897), al-Mas'udi (965), Ibn Hawkal (977), al-Biruni41. Ya'kub viajou pelo
Egito e Magreb, deixando-nos um relatrio substancial desses pases. Tanto na
sua Ta'rikh como em seus Buldan42, encontram-se inmeras informaes relativas
ao mundo negro: sobre a Etipia, o Sudo, a Nbia, os Bejja, os Zendj. No Sudo,
menciona os Zghawa do Kanem e descreve seu habitat; ao descrever o importante
reino de Gana trata do problema do ouro, assim como, ao falar do Fezzan,
refere-se ao problema dos escravos. So ainda mais detalhados os Masalik43,
de Ibn Hawkal, que visitou a Nbia e talvez o Sudo ocidental; sua descrio
vale, sobretudo, pela ideia que d das relaes comerciais entre o Magreb e o
Sudo. Quase todos os outros gegrafos do sculo X fazem observaes sobre a
frica negra: Ibn al-Fakih sobre Gana e Kuki; o viajante Buzurg Ibn Shariyan
sobre a costa oriental e os Zendj; e Muhallabi, que conservou em seu tratado
fragmentos de Uswani. Finalmente, o Campos de Ouro de al-Mas'udi (965)
 rico em informaes sobre os Zendj e a costa oriental. Desde cedo, esses


39   Ver sobre esse assunto a posio bastante crtica de L. FROBENIUS e a de J. ROUCH: Contribution
      l'histoire des Songhay. Dacar, 1953. Que denuncia, sobretudo, a deformao ideolgica das crnicas
     sudanesas.
40    verdade que esses textos se aplicam sobretudo ao cinturo sudans e que, por esse motivo, uma leitura
     unilateral das fontes rabes, sem o auxlio da arqueologia, pode falsear a perspectiva. Mas no se pode
     dizer que faltava objetividade aos autores rabes. Quanto a lastimar o carter fragmentrio e desordenado
     de seus escritos, significaria abandonar o ponto de vista do historiador para adotar o do historiador da
     literatura. Encontraremos julgamentos variados em N. LEVTZION. Ser til tambm referirmo-nos
      comunicao de I. HRBEK no XII Congresso internacional das cincias histricas em Viena (Atas,
     p. 311 e segs.). Ver tambm T. LEWICKI: Perspectives nouvelles sur l'histoire africaine, relatrio do
     Congresso de Dar-es-Salam, 1971, e Arabic external sources for the History of Africa to the South of the
     Sahara, Wroclaw-Warszawa-Krakow, 1969.
41   Ver Correio da Unesco, jun. 1974.
42   Editado na Bibliotheca Geographorum arabicorum, t. 7, de GOEJE, como a maioria dos gegrafos rabes.
     A traduo de G. WIST, sob o ttulo de Livre des Pays,  til, mas nem sempre precisa.
43 Kitab al-Masalik wa-l-Mamalik, B. G. A. II; KUBBEL, L. E. e MATVEEV, V. V. II, p. 33 e segs.
98                                                                             Metodologia e pr-histria da frica



textos chamaram a ateno dos especialistas africanistas e orientalistas, como
Delafosse, Cerulli44, Kramers45 e Mauny46.

     Fontes jurdicas e religiosas
    Os tratados de direito e as viagens hagiogrficas de Tabakat, desde a
Mudawwana de Sahnun at os tratados caridjitas constituem rico manancial
de informaes sobre o Magreb; alguns so utilizveis para a regio saariana
de contato com a frica negra. A crnica sobre os ims rustmidas de Taher,
de Ibn al-Saghir (incio do sculo X)47, permite-nos afirmar a existncia,
a partir do fim do sculo VIII, de relaes comerciais entre o principado
ibadita e Gao. Permite-nos, tambm, completada por compilaes posteriores,
tais como as Siyar de al-Wisyani, identificar a ocorrncia desse comrcio em
toda a orla saariana da frica do Norte. Mas essas fontes hagiogrficas s
fornecem informaes de maneira alusiva; devem ser lidas de acordo com
uma problemtica prefixada e constantemente comparadas com outros tipos
de fontes. No autorizam, em nossa opinio, construes e dedues ousadas,
como a que prope Lewicki.


     A segunda idade islmica (10501450)
    O que caracteriza esse longo perodo  a riqueza, a qualidade e a variedade
de nossa informao. As fontes arquivsticas, sempre secundrias em relao
aos documentos "literrios" escritos, so, contudo, importantes: documentos da
Geniza, cartas almorvidas e almoadas, registros de Waqf, fatwas, documentos
italianos, peas oficiais intercaladas nas grandes compilaes. Os cronistas
produzem obras de primeira ordem, que valem tanto pela observao dos
fatos a eles contemporneos como pela reproduo de antigas fontes perdidas.
Finalmente, no que se refere  frica negra, nosso conhecimento atinge seu
ponto mximo, enquanto com os manuscritos etopes surgem novos documentos
africanos.


44   Documenti arabi per la storia dell Ethiopia, 1931.
45   Djughrafiya, Enciclopdia do Isl; L'Erythre dcrite dans une source arabe du Xe sicle, Atti dei XIX Congresso
     degli Orientalisti, Roma, 1938.
46   O primeiro captulo de seu Tableau  um inventrio sistemtico das fontes geogrficas.
47   Publicada nas Actes du XIVe Congrs international des orientalistes (3a parte), 1908, e estudada por T.
     LEWICKI, 1971, v. 13, p. 119 e segs.
As fontes escritas anteriores ao sculo XV                                                                       99



     Fontes arquivsticas
   Valem unicamente para o Egito e o Magreb.
   a) Dispomos atualmente dos documentos da Geniza do Cairo, que cobrem
toda a poca em considerao; a maior parte, entretanto,  do perodo fatmida, e
apenas alguns pertencem aos sculos mamelucos. Esses documentos constituem
um bricabraque de papis de famlia, de correspondncia comercial, que refletem
as preocupaes da comunidade judaica do Egito e outros lugares. A utilizao
dos documentos escritos em lngua rabe e em caracteres hebraicos no-datados
exige um certo nmero de precaues tcnicas. Mas, mesmo como so, eles
representam um manancial inesgotvel de informaes48.
   Pode-se classificar na mesma categoria  a dos arquivos particulares  os
registros de Waqf, numerosos para a poca mameluca, conservados pelo Cartrio
do Cairo49, assim, talvez, como os fatwas da poca hafssida.
   b) Por outro lado, os documentos europeus relativos ao Egito e ao Magreb,
datados dos sculos XII, XIII e XIV, pertencem em parte ao domnio privado
e em parte ao domnio pblico. So mantidos nos arquivos pblicos e privados
de Veneza, Gnova, Pisa, Barcelona e consistem de tratados, contratos, cartas,
em geral referentes a relaes comerciais. Apenas alguns foram publicados por
Amari e Mas-Latrie50. Oferecem, no conjunto, uma massa documentria capaz
de ampliar o campo da investigao no domnio da histria econmica e social.
   c) No temos, propriamente dito, arquivos de Estado relativos a essa poca.
Mas foram conservadas e publicadas peas oficiais almorvidas e almadas, que
lanaram uma nova luz sobre a ideologia e as instituies produzidas pelos dois
movimentos imperiais51. "Comeamos", comenta Laroui, "a ver o almoadismo
de dentro: j no  impossvel escrever uma histria religiosa e poltica da


48   So importantes os trabalhos de S. D. GOITEIN, artigo "Geniza" in: E. I. 2.a ed.; The Cairo Geniza
     as source for mediterranean social history; Journal of the American Oriental Society, 1960. S. D. GOITEN
     comeou a publicar um estudo muito importante sobre as fontes da Geniza: "A Mediterranean society:
     the jewish communities of lhe Arab world as portrayed in the Documents of the Cairo Geniza", v. I, Economics
     Foundations, Berkeley-Los Angeles, 1967. S. SHAKED, A tentative bibliography of Geniza documents.
     Paris-La Haye, 1964; H. RABIE, 1972, p. 1-3. Um grande nmero desses documentos encontra-se no
     British Museum e em Cambridge.
49   RABIE, H. 1972, p. 6-8 e 200.
50   AMARI, I diplomi arabi dei R. Archivio Fiorentino, Florence, 1863; MAS-LATRIE, Traits de paix et de
     commerce et documents divers concernant les relations des Chrtiens avec les Arabes d'Afrique septentrionale au
     Moyen ge. Paris, 1866, suplemento 1872.
51   Lettres officielles almohavides, editadas por H. MU'NIS e A. M. MAKKI; trentesept lettres officielles
     almohades, editadas e traduzidas por E. LEVI-PROVENAL, Rabat, 1941; Al-Baydaq, Documents
     indits d'histoire almohade, ed. e trad. francesa por E. LEVI-PROVENAL, Paris, 1928.
100                                                                  Metodologia e pr-histria da frica



dinastia"52. De poca mais antiga encontramos no Egito enciclopdias histrico-
-jurdicas que renem inmeros documentos oficiais: a descrio detalhada que
nos oferecem das estruturas fiscais e institucionais do Egito provm, em geral,
de uma consulta prvia a documentos pblicos. Nesse gnero meio arquivstico,
meio de crnica, podemos classificar os Qawanin alDawawin de Mammati
(poca aibida), "o Minhadj de Makhzum", Subh-al-sha al-Kalkashandi (sculo
XIV), e as inmeras obras de al-Makrizi, dentre as quais, os valiosos Khitat
(sculo XV)53. Al-Makrizi  uma fonte preciosa no s para toda a histria do
Egito islmico, mas tambm para a histria da Nbia, do Sudo e da Etipia54.

      Fontes narrativas
   a) Crnicas: aps um sculo de silncio o sculo XII, no decorrer do qual
encontramos quase apenas o annimo alIstibsar e obras menores , os sculos
XIII e XIV nos oferecem uma safra de crnicas, ricas em todo ponto de vista,
desde o Kamil, de Ibn al-Athir, at o Kitab alIbar, de Ibn Khalduri, passando por
Ibn al-Idhari, al-Nuwairi, Ibn Abi Zar', al-Dhahabi. Testemunhas de seu tempo,
esses homens realizaram tambm um esforo de sntese dos acontecimentos dos
sculos anteriores. Nuwairi  to importante para os Mamelucos como para a
conquista do Magreb55; Ibn Idhari, tanto para a histria almoada como para
todo o passado da Ifrikya; e o conhecimento de Ibn Khaldun, enfim, sobre o
mundo berbere o faz autoridade suprema em matria de histria da frica.
   b) Geografia: os tratados de geografia aparecem em abundncia nesses quatro
sculos. Seu valor varia conforme o autor e conforme a regio descrita. Dois
gegrafos destacam-se da maioria pela amplitude e qualidade de sua observao:
al-Bakri (1068), no sculo XI, e al'Umari (morto em 1342) no sculo XIV.
Enquanto obra to notria como a de Idrisi  discutvel e discutida, podemos
obter informaes originais em obras geogrficas menos conhecidas: a de Ibn




52    LAROUI, A. 1970, p. 162.
53    RABIE, H. 1972, p. 10-20.
54    Seu Kitab alIlman nos d uma relao dos reinos muulmanos da Etipia, emprestada,  verdade, de
      UMARI. Um trecho foi publicado em Leyde em 1790 sob o ttulo de Historia regum islamicorum in
      Abyssinia.
55 Mas esse fragmento conserva-se, ainda, em manuscrito na Biblioteca Nacional do Cairo. Assinalemos
   que IBN SHADDAD, autor de uma histria, agora perdida, de Kairuan,  considerado uma das fontes
   principais de IBN AL-ATHIR e de NUWAIRI. Recentemente, foi editada obra annima, o Kitab
   alUyun, em Damasco, por M. Saidi, com informaes interessantes sobre o Magreb.
As fontes escritas anteriores ao sculo XV                                                             101



Sa'id, por exemplo, to interessante para o Sudo56. Os Masalik e Namalik57, de
Bakri, representam "o apogeu" de nosso conhecimento geogrfico do Magreb e do
Sudo. O prprio Bakri no viajou nessas regies, mas utilizou inteligentemente
as notas de al-Warraq, hoje perdidas, assim como informaes de mercadores
e viajantes.
    O Livro de Roger de al-Idrisi (1154), no prelo na Itlia, toma emprestado
muita coisa de seus predecessores. Confusa quando trata da Etipia, sua
descrio torna-se mais precisa para a frica ocidental. Mas, aqui e ali, aparece
uma observao original, s vezes preciosa.
    A Geografia de Ibn Sa'id al-Gharnata (antes de 1288) utiliza-se de Idrisi
em sua descrio da Etipia, embora traga, tambm, informaes novas. Mas
seu interesse principal deve-se  descrio que faz do Sudo, amplamente
baseada nos documentos escritos por um viajante do sculo XII: Ibn Fatima. A
obra capital do sculo XIV para o historiador da frica negra  a de al'Umari:
Masalik alAbsar58. Testemunho de um observador de primeira ordem, ela 
nossa principal fonte para o estudo do reino do Mali, em sua organizao interna
e em suas relaes com o Egito e o Isl. Mas  tambm o relatrio rabe mais
rico que temos sobre os Estados muulmanos da Abissnia no sculo XIV. A
obra de al'Umari apresenta, alm do interesse de sua descrio, o problema do
aparecimento do Estado no Sudo e o da islamizao, como fazia, trs sculos
antes, al-Bakri relativamente ao problema do grande comrcio de ouro. Este
ltimo autor evoca a profundeza dos laos entre o Magreb e o Sudo; o primeiro
sugere o deslocamento desses laos para o Egito.
    A obra de Umari  completada por outra, de um observador direto da
realidade sudanesa e magrebiana: Ibn Battuta.
    Mas os gegrafos menores e autores de narrativas de viagens so numerosos
e devem, de qualquer modo, ser consultados. Citemos: al-Zuhri (sculo XII),
Yakut, al-Dimashki (sculo XIV), a geografia dita Mozhaferiana, Ibn Jubayr,
al-Baghdadi, Abdari, Tijani, al-Balawi, al-Himyari.
    c) Fontes de inspirao religiosa e literria: as fontes religiosas provm de vrios
horizontes. Notemos as obras de Tabakat e de hagigrafos sunitas, caridjitas,
marabticos e mesmo cristos (originrios da comunidade copta). Citemos

56   Para uma relao completa dos gegrafos, ver L. KUBBEL e V. V. MATVEV, juntamente com o
     primeiro captulo de R. MAUNY, 1961; pela nota de T. LEWICKI, 1971; e a introduo da tese de A.
     MIQUEL, 1967.
57   Publicado e traduzido por DE SLANE sob o ttulo Description de l'Afrique septentrionale, Paris, 1911.
58   Parcialmente traduzido por M. GAUDEFROY-DEMOMBYNES sob o ttulo: L'Afrique moins l'Egypte,
     Paris, 1927.
102                                                                   Metodologia e pr-histria da frica




figura 5.1 Manuscrito rabe (verso) n. 2291, flio 103  Ibn Battuta (2a parte), referncia ao Mali (Fot.
Bibl. Nac. Paris).
As fontes escritas anteriores ao sculo XV                                                           103



tambm os manuscritos das igrejas etopes que reproduzem documentos oficiais
em suas margens. Todos esses documentos mostram-se teis no apenas para o
conhecimento da evoluo da sensibilidade religiosa e do mundo religioso, mas
tambm para o conhecimento do mundo social. Obras como o Riyah de Malik,
ou os Madarik de Iyadh so ricas em observaes sociolgicas, encontrveis no
decorrer da exposio. As fontes caridjitas, como sabemos, so importantes para
toda a regio saariana do Magreb, zona de contato com os Negros. Al-Wisyani,
Darjini, Abu Zakariya e mesmo um autor tardio como al-Shammakhi so seus
principais representantes. Enfim, toda a massa de material em lngua rabe ou
em copta, produzida no Egito medieval pela Igreja local, traz esclarecimentos
sobre as relaes entre as igrejas e entre a hierarquia eclesistica e o Estado59.
So numerosas as fontes propriamente literrias sobre esse perodo; referem-se
quase que exclusivamente ao Magreb e ao Egito. Ainda nessa categoria os Ras
al'Ain, de al-Qahi al Fadhil, e especialmente o grande dicionrio de Safadi,
alWafibil Wafayat, ocupam um lugar  parte.
   Portanto, no que diz respeito  segunda Idade Islmica, nossa documentao
 abundante, variada e em geral de boa qualidade, em contraste com o perodo
precedente. Na frica propriamente islmica, esses escritos trazem muitos
esclarecimentos sobre o funcionamento das instituies e sobre as tendncias
profundas da histria. J no se contentam em traar apenas um simples quadro
poltico. No que concerne  frica negra, o sculo XIV  o perodo do apogeu
de nosso conhecimento. Espera-se, no entanto, que documentos europeus e
autctones nos permitam aprofundar esse conhecimento, e ampli-lo de forma
a abranger regies que at o momento se mantm na obscuridade.


     Concluso
   No seria exato pensar que o estado das fontes escritas do continente africano
antes do sculo XV seja de extrema pobreza, mas a verdade  que, no conjunto,
a frica  menos provida que a Europa e a sia. Todavia, enquanto em uma
grande parte do continente no existem fontes escritas, nas regies restantes
o conhecimento histrico  possvel e baseia-se  no caso do Egito  numa
documentao excepcionalmente rica. Isso significa que uma explorao rigorosa


59   Patrologie orientale, coleo essencial. Entre as obras que nos dizem respeito, citemos as de SEVERO
     DE ALEXANDRIA (sculo I) e de IBN MUFRAH (sculo XI), interessantes para a Etipia; Kitab
     Siyar alAba alBatariqa. Cf. tambm MIGUEL, o Srio, ed. trad. Chabot, 3 v., 1899-1910.
104                                                       Metodologia e pr-histria da frica



e atenta desses textos ainda pode contribuir muito, embora no se possam esperar
grandes descobertas.  preciso que nos dediquemos com urgncia a todo um
trabalho de crtica textual, de reedio, de confrontao e de traduo, j iniciado
por alguns pioneiros e que deve ser continuado.
    Por outro lado, ainda que nossas fontes tenham sido redigidas no quadro de
culturas "universais", cujo ponto focal se situa fora da frica  culturas "clssicas",
cultura islmica  tm a vantagem de ser em sua maioria comuns a todos podendo
ser lidas numa perspectiva africana, mantidas as devidas ressalvas quando
diante de qualquer pressuposto ideolgico. Isso  particularmente verdadeiro
para o caso das fontes rabes, que continuam sendo a base essencial de nosso
conhecimento. Sua exterioridade relativa ou absoluta em relao a seu objeto
no diminui em nada seu valor, a no ser pela distncia. No obstante devam
ser reconhecidas as diferenas socioculturais,  fato que essas fontes valorizam
uma certa solidariedade de comunicao africana,  qual, at agora, islamistas e
africanistas nem sempre tm se mostrado sensveis.
As fontes escritas a partir do sculo XV                                  105



                                           CAPTULO 6


                       As fontes escritas a partir
                            do sculo XV
                                             I. Hrbek




    Paralelamente a profundas mudanas em todo o mundo, e, em especial,
na frica, no final do sculo XV e princpio do sculo XVI, ocorreram
transformaes no carter, provenincia e volume das fontes escritas para a
histria da frica. Observa-se, em relao ao perodo precedente, um certo
nmero de novas tendncias na produo desse material, algumas referentes a
todo o continente, outras, a apenas algumas partes  em geral,  frica ao sul
do Saara.
    Inicialmente, ao lado do contnuo crescimento de todos os tipos de fontes
narrativas (narrativas de viajantes, descries, crnicas, etc.), surgem numerosos
materiais de carter primrio, como correspondncias e relatrios oficiais,
comerciais ou missionrios, escrituras legais e outros documentos arquivsticos,
raramente encontrados antes desse perodo. Se, por um lado, a abundncia
crescente desse material oferece ao historiador um auxlio muito maior, por
outro torna muito mais difcil uma viso de conjunto.
    Pode-se observar, tambm, uma ntida diminuio no volume das fontes
narrativas rabes para a frica ao sul do Saara. No obstante, surge nesse perodo
a literatura histrica escrita em rabe por autctones, e  somente a partir dessa
poca que se faz ouvir a voz de autnticos africanos falando de sua prpria
histria. Os mais antigos e mais conhecidos exemplos dessa historiografia local
106                                                            Metodologia e pr-histria da frica



provm do cinturo sudans e da costa africana oriental; em outras partes da
frica tropical, s mais tarde  que essa evoluo se far notar.
    Nos ltimos duzentos anos, os africanos tambm comearam a escrever em
suas prprias lnguas, usando primeiramente o alfabeto rabe (por exemplo,
em kiswahili, haussa, fulfulde, kanembu, diula, malgaxe, etc.) e mais tarde o
latino. Mas tambm existem materiais histricos (e outros) em escrita de origem
genuinamente africana, como os alfabetos bamum e vai.
    Uma terceira tendncia, resultante da anterior,  o aparecimento de uma
literatura em ingls (e, em menor grau, em outras lnguas europeias) feita pelos
africanos, escravos libertados ou seus descendentes na Amrica, conscientes de
seu passado africano.




figura 6.1   Fac-smile de manuscrito bamum (Museu do IFAN).
As fontes escritas a partir do sculo XV                                       107



    Finalmente temos as narrativas em vrias lnguas europeias, que aos poucos
vo ocupando o espao das fontes rabes. A quantidade de obras dessa natureza
aumenta progressivamente e, nos sculos XIX e XX, atinge um tal volume que
s os livros de referncia bibliogrfica poderiam ser contados s dezenas.
    Apesar de todas as mudanas, houve, evidentemente, uma continuidade na
historiografia de algumas regies da frica, especialmente na do Egito, Magreb e
Etipia. Nesses pases, os cronistas e bigrafos mantiveram viva a tradio herdada
do perodo anterior. Enquanto no Egito e, em parte, na Etipia observou-se um
certo declnio na qualidade e mesmo quantidade desses trabalhos, o Magreb e,
em particular, o Marrocos continuaram a produzir competentes estudiosos que
contriburam grandemente para a histria de seus pases.
    As reas geogrficas cobertas por fontes escritas tambm vo registrar uma
evoluo. Enquanto, at o sculo XVI, as margens do Sahel sudans e uma
estreita faixa da costa oriental africana formavam os limites do conhecimento
geogrfico, e, portanto, histrico, a nova poca viria gradualmente acrescentar a
esse espao novas regies antes no mencionadas por aquele tipo de fontes. A
quantidade e a qualidade dessas fontes variam bastante, evidentemente, de uma
regio para outra e de um sculo para outro, tornando a classificao por lngua,
carter, propsito e origem dos documentos ainda mais complexa.
    De modo geral, registrou-se uma expanso da costa para o interior. O
movimento foi bastante lento, s ganhando acelerao no fim do sculo XVIII.
A costa africana e seu interior imediato, j no sculo XV, haviam sido descritos
pelos portugueses, de modo sumrio. Nos sculos seguintes as fontes escritas,
j ento em vrias lnguas, comearam a registrar informes mais detalhados e
abundantes sobre as populaes costeiras. Os europeus penetraram no interior
somente em algumas regies (no Senegal e na Gmbia, no delta do Nger e no
Benin, no Reino do Congo, e pelo Zambeze, at o Imprio de Monomotapa),
trazendo, assim, essas reas para o horizonte das fontes escritas. Ao mesmo
tempo, algumas partes da frica, at ento praticamente inexploradas, tornaram-
-se mais conhecidas, como, por exemplo, a costa sudoeste africana e Madagscar.
    Um territrio muito maior era coberto por fontes escritas em rabe. A escola
historiogrfica sudanesa,  medida que ia obtendo informaes sobre regies at
ento desconhecidas, estendia-se a outros pases, sobretudo em direo ao sul, de
modo que no sculo XIX toda a regio entre o Saara e a floresta  e, em alguns
pontos, at a costa  podia-se considerar coberta por fontes escritas locais. J,
no interior, vastas regies tiveram que esperar at o sculo XIX pela produo
das primeiras narrativas escritas dignas de confiana.
108                                                        Metodologia e pr-histria da frica



   Mesmo nas regies costeiras pode-se constatar grandes diferenas no que diz
respeito  informao histrica: em geral, a costa atlntica  mais bem provida
de documentos escritos que a costa oriental, e tambm a quantidade de material
disponvel para o antigo Congo, a Senegmbia, a costa entre o cabo Palmas e o
delta do Nger  muito maior que para a Libria, Camares, Gabo ou Nambia,
por exemplo. A situao difere tambm quanto aos perodos: h muito mais
informao escrita para a costa oriental, Benin ou Etipia nos sculos XVI e
XVII que no XVIII, e, para o Saara, mais na primeira metade que na segunda
metade do sculo XIX.
   Devido a essa distribuio irregular dos materiais em relao tanto a
espao, tempo e carter, quanto a sua origem e lngua,  prefervel examin-
-los sob diferentes critrios ao invs de adotar um nico procedimento.
Consequentemente, ns os apresentaremos, em alguns casos, de acordo com as
regies geogrficas, em outros, de acordo com suas origens e carter.


      frica do Norte e Etipia
      frica do Norte
    Os materiais para a frica do Norte de lngua rabe, como os de outras partes
do continente, passaram por algumas profundas mudanas em comparao
com o perodo anterior, o mesmo no ocorrendo, no entanto, com as narrativas
histricas locais, que continuaram, como anteriormente, a relatar os principais
acontecimentos da maneira tradicional. Nenhuma figura comparvel aos grandes
historiadores rabes da Idade Mdia surgiu entre os cronistas e compiladores
dessa poca, e a abordagem crtica do historiador, preconizada por Ibn Khaldun,
no foi seguida por seus sucessores. A historiografia rabe moderna s vai
aparecer no sculo XX.
    As mudanas que se fazem sentir dizem respeito principalmente a dois tipos
de fontes: os documentos arquivsticos de diversas origens e os escritos europeus.
Somente a partir do incio do sculo XVI, os materiais primrios, tanto em rabe
como em turco, comeam a aparecer em maior abundncia. Os arquivos otomanos
so comparveis em volume e importncia aos mais ricos da Europa, mas, quela
poca, raramente eram utilizados e estudados por historiadores dessa parte da
frica.  do mesmo perodo que remontam os arquivos secundrios dos pases que
faziam parte do Imprio Otomano (Egito, Tripolitnia, Tunsia e Arglia)1. Um caso

1     DENY, J. 1930; MANTRAN, R. 1965; LE TOURNEAU, R. 1954.
As fontes escritas a partir do sculo XV                                               109



especial  o do Marrocos, que sempre conservou sua independncia, e seus arquivos
preservaram um rico material histrico2. Os documentos so principalmente de
arquivos governamentais, administrativos e jurdicos; os materiais relativos ao
comrcio,  produo,  vida social e cultural so menos numerosos, pelo menos os
de antes do sculo XIX. Isto se deve, em parte,  falta de arquivos particulares que
forneam informaes valiosas para a histria econmica e social da Europa. Para
alguns pases e perodos esta lacuna pode ser preenchida: por exemplo, o material
sobre o Marrocos, encontrado em muitos pases europeus, foi coligido e publicado
no trabalho monumental de Henri de Castries3. A compilao de colees similares,
ou ao menos o arrolamento dos documentos relativos aos demais pases da frica
do Norte est entre as tarefas mais urgentes do futuro prximo.
    Examinando, agora, as fontes narrativas em rabe, pode-se constatar uma
retrao constante na quantidade e na qualidade dos escritos histricos na frica
do Norte, com exceo apenas do Marrocos, onde as escolas tradicionais de
cronistas continuaram a produzir histrias detalhadas das duas dinastias xerifinas
at a poca atual. Pode-se citar como exemplo a Ma'sul de Mokhtar Soussi,
em vinte volumes, e a Histoire de Tetouan, em vias de publicao4. Da corrente
ininterrupta de historiadores podemos indicar apenas alguns nomes entre os mais
destacados. A dinastia Sdida encontrou um excelente historiador em al-Ufrani
(morto em c. 1738)5, que cobriu os anos 1511-1670; o perodo seguinte (1631-
-1812) foi descrito detalhadamente pelo maior historiador marroquino desde a
Idade Mdia, al-Zay (morto em 1833)6, enquanto al-Nasiri al-Slawi (morto em
1897) escreveu uma histria geral de seu pas com nfase especial no sculo XIX,
combinando os mtodos tradicional e moderno, usando, entre outros, documentos
de arquivos. Ele  o autor tambm de uma obra geogrfica bastante rica em
informaes sobre a vida social e econmica7. A essas obras estritamente histricas
devem ser acrescentadas as narrativas de viajantes, em sua maioria peregrinos,
que descreveram no apenas o Marrocos, mas tambm outros pases rabes at
a Arbia. As duas melhores narrativas desse tipo so as escritas por al-'Ayyashi
de Sijilmasa (morto em 1679) e Ahmad el-Darci de Tamgruti nas proximidades


2    MEKNASI, A. 1953; AYACHE, G. 1961.
3    Les Sources indites de l'histoire du Maroc, 24 v., Paris, 1905-1951.
4    LVI-PROVENAL, E. 1922; MOKHTAR SOUSSI, Ma'sul, 20 v. publicados; DAOUD, Histoire de
     Tetouan.
5    Ed. e trad. por O. HOUDAS, Paris, 1889.
6    HOUDAS, Paris, 1886.
7    Ed. no Cairo, em 1894, em 4 v. Muitas tradues parciais em francs e espanhol.
110                                                                   Metodologia e pr-histria da frica



do Saara (morto em 1738)8; outros textos interessantes so o relatrio de el-
Tamghruti, embaixador marroquino junto  corte otomana em 1589-15919, e a
Rihla de Ibn Othman, embaixador do Marrocos junto  corte de Madri.
    Nos pases entre o Marrocos e o Egito as crnicas locais no eram to
abundantes, nem tinham a mesma qualidade. No que diz respeito  Arglia, h
histrias annimas em rabe e em turco, de Aru e Khayruddin Barbarossa10, e
uma histria militar que vai at 1775, de Mohammed el-Tilimsani11. A histria
da Tunsia pode ser reconstituda graas a uma srie de anais, desde el-Zarkachi
(at 1525)12 at Maddish el-Safakusi (morto em 1818)13. Uma histria de Trpoli
foi escrita por Mohammed Ghalboun (1739)14. As crnicas e biografias ibaditas,
como a de al-Shammakhi (morto em 1524), merecem ateno especial, j que
fornecem muitas informaes valiosas sobre o Saara e o Sudo15.
    Biografias ou dicionrios biogrficos, gerais ou especficos, na maior parte
consagrados a pessoas proeminentes (eruditos, advogados, prncipes, msticos,
escritores, etc.), geralmente combinam materiais biogrficos com narrativas
histricas, esclarecendo muitos aspectos da histria cultural e social. Obras desse
gnero proliferaram em todos os pases rabes, especialmente no Marrocos.
Mesmo algumas poesias, s vezes em dialetos vernculos, podem servir como
fontes histricas, como, por exemplo, os poemas satricos do egpcio el-Sijazi
(morto em 1719), em que ele descreve os principais acontecimentos de sua poca16.
    No que se refere  histria do Egito otomano, deve-se recorrer a crnicas,
em grande parte ainda inditas e inexploradas. O Egito produziu, nesse perodo,
apenas dois grandes historiadores  um no incio do domnio turco, o outro
exatamente no fim: Ibn Iyas (morto em 1524) fez um registro dirio da histria
de sua poca, oferecendo, assim, uma riqueza de detalhes raramente encontrada
em outras obras17; el-Jabarti (morto em 1822)  o cronista dos ltimos dias
do domnio otomano, da ocupao napolenica e da ascenso de Mohammed



8     Ambas traduzidas por S. BERBRUGGER, Paris, 1846.
9     Traduzido por H. de CASTRIES, Paris, 1929.
10    Editado por NURUDDIN, Argel, 1934.
11    Traduzido por A. ROUSSEAU, Argel, 1841.
12    Traduzido por E. PAGNA, Constantina, S.d.
13    Publicado em Tnis, 1903.
14    Publicado por Ettore ROSSI, Bolonha, 1936. H tambm algumas crnicas turcas da Tripolitnia.
15    LEWICKI, T. 1961.
16    Mencionado por EL-JABARTI.
17    WIET, G. Journal d'un bourgeois du Caire.
As fontes escritas a partir do sculo XV                                                       111



Ali, cobrindo, portanto, um perodo crucial da histria do Egito18. Embora
muitas crnicas e outras obras histricas de todos os pases rabes tenham sido
publicadas, a grande maioria encontra-se ainda em manuscritos espalhados por
muitas bibliotecas tanto dentro como fora de seu pas de origem,  espera de
estudo e publicao.
    Nesse perodo as narrativas de viajantes europeus ganham importncia
crescente. Embora o preconceito anti-islmico de seus autores raramente
permita relatrios verdadeiramente objetivos, elas trazem muitas reflexes e
observaes interessantes no encontradas em outros documentos, j que os
escritores locais consideravam muitos aspectos da vida banais e desprovidos
de interesse.  incontvel o nmero de europeus  viajantes, embaixadores,
cnsules, mercadores e mesmo prisioneiros (entre eles Miguel de Cervantes) 
que deixaram reminiscncias e relatrios mais ou menos detalhados dos pases
do Magreb, que visitaram; o mesmo aconteceu, talvez at com maior intensidade,
no caso do Egito, que atraa muitos visitantes por sua importncia comercial e
a proximidade da Terra Santa19. De interesse particular  a obra monumental
Description de l' Egypte (24 volumes, Paris, 1821-1824), compilada pela comisso
cientfica da expedio de Napoleo Bonaparte, fonte inesgotvel de todo tipo
de informao sobre o Egito s vsperas de uma nova poca.
    No sculo XIX, as fontes para a histria da frica do Norte so to abundantes
quanto para qualquer pas europeu. As crnicas locais e narrativas de viajantes
assumem um lugar secundrio em relao s fontes mais objetivas  arquivos,
estatsticas, jornais e outros testemunhos diretos ou indiretos , permitindo aos
historiadores empregar os mtodos e abordagens clssicos elaborados para uma
histria amplamente documentada, como a da Europa.
    Duas regies de lngua rabe, Mauritnia e Sudo oriental, merecem um
tratamento especial devido  sua situao particular, nos limites do mundo rabe.
Uma caracterstica comum das fontes nesses dois pases  a predominncia de
biografias, genealogias e poesia, sobre os anais histricos propriamente ditos, pelo
menos at o final do sculo XVIII. Em relao  Mauritnia, vrias genealogias
e biografias foram publicadas por Ismal Hamet20, a que se acrescentam poemas
e outros materiais folclricos recolhidos por Ren Basset e mais recentemente
por H. T. Norris21. Um exame intensivo de novos materiais foi realizado com


18   Muitas edies; uma traduo no muito digna de confiana de Chefik MANSOUR, Cairo, 1886-1896.
19   CARRE, J. M. Cairo, 1932.
20   Chroniques de la Mauritaine sngalaise, Paris, 1911.
21   BASSET, R. 1909-1940; NORRIS, H. T. 1968.
112                                                                      Metodologia e pr-histria da frica



sucesso pelo estudioso da Mauritnia Mukhtar Wuld Hamidun. A primeira
obra propriamente histrica remonta ao incio deste sculo: al Wasil, de Ahmad
al-Shinqiti, que  uma enciclopdia da histria e da cultura mouriscas do passado e
do presente22. Existe um grande nmero de crnicas locais manuscritas, de maior
ou menor valor, no estilo das crnicas breves de Nema, Oualata e Shinqiti23. As
fontes rabes da Mauritnia so de especial interesse e importncia, porque em
muitos casos cobrem no somente a Mauritnia propriamente dita, mas tambm
todos os pases limtrofes do Sudo ocidental. Devido s estreitas relaes que
existiram no passado entre a Mauritnia e o Marrocos, as bibliotecas e arquivos
marroquinos devem conter certamente um precioso material histrico para o
primeiro pas. Alm das fontes rabes, h tambm a literatura narrativa europeia,
que se inicia no sculo XV nas regies costeiras, e no fim do sculo XVII
nas regies fluviais. A partir do sculo seguinte, encontramos correspondncia
diplomtica e comercial, tanto em rabe como em lnguas europeias.
    A historiografia local no Sudo oriental parece ter comeado somente nos
ltimos anos do Sultanato Funj, isto , no incio do sculo XIX, quando a tradio
oral foi registrada por escrito no texto chamado Crnica de Funj, do qual existem
vrias verses24. So fontes valiosas as genealogias de vrios grupos rabes25, assim
como o grande dicionrio biogrfico de estudiosos sudaneses, o Tebaqat, escrito por
Wad Dayfallah, que constitui um rico manancial de informaes sobre a vida social,
cultural e religiosa do Reino Funj26. O mais antigo visitante estrangeiro conhecido
foi o viajante judeu David Reubeni (em 1523). At o sculo XIX h apenas um
pequeno nmero de obras valiosas, mas entre elas se encontram as narrativas de
observadores particularmente lcidos, como James Bruce (em 1773), W. G. Browne
(1792-1798) e el-Tounsy (1803), sendo os dois ltimos os primeiros a visitar Darfur27.
Na primeira metade do sculo XIX, o Sudo foi, de toda a frica tropical, a regio
mais visitada por viajantes. Suas narrativas so inumerveis e de variada qualidade
enquanto fontes histricas. At a dcada de 1830, no existe nenhuma fonte escrita
para as regies do alto vale do Nilo (ao sul da latitude 12), mas a parte norte 
fartamente coberta por documentos arquivsticos do Egito (arquivos do Cairo) e,

22    AL-SHINQITI, A. AlWasit fi tarajim udaba `Shinqit, Cairo, 1910, e muitas edies novas. Trad. francesa
      parcial, St. Louis, 1953.
23 MARTY, P. 1927; NORRIS. In: BIFAN, 1962; MONTEIL, V. In: BIFAN, 1965, n. 3-4.
24 Estudado por M. SHIBEIKA. In: Ta'rkh MulkalSudan, Khartum, 1947.
25    Recolhidas por H. A. MACMICHAEL. In: History of the Arabs in the Sudan, II, Cambridge, 1922,
      juntamente com outros documentos histricos.
26 A edio comentada mais atualizada  de Yusuf FADL HASAN, Khartum, 1971.
27 BRUCE, J., 1790; BROWNE, W. G., 1806; EL-TOUNSY, Omar, 1845.
As fontes escritas a partir do sculo XV                                              113



em menor nmero, europeus. So de extrema importncia para os ltimos vinte
anos do sculo XIX os registros do Mahdiyya, que consistem em cerca de 80 mil
documentos rabes, conservados, em sua maioria, em Cartum.

     Etipia
    A situao da Etipia  anloga  da frica do Norte no que respeita s fontes
escritas. Como nos pases daquela regio da frica, na Etipia o historiador tem
 sua disposio uma grande variedade de documentos, tanto internos como
externos. Pode at empregar material de fontes opostas, para alguns perodos
cruciais, caso, por exemplo, da invaso muulmana de Ahmed Gran, na primeira
metade do sculo XVI, coberta, do ponto de vista etope, pela Crnica Real (em
gueze) do Imperador Lebna Dengel, e, da viso muulmana, pela detalhada
crnica escrita em 1543 pelo escriba de Gran, Arab Faqih, sem mencionar os
registros portugueses de testemunhas oculares28.
    A redao das Crnicas Reais iniciou-se no sculo XIII, e h, relativas a
quase todos os reinos, mesmo durante o perodo de declnio, uma ou mais
crnicas detalhadas, que registram os principais eventos da poca29. Essa tradio
perdurou por todo o sculo XIX e uma boa parte do sculo XX, como testemunha
a Crnica Amrica do Imperador Menelik II30. Vrias obras da literatura etope,
de diferentes gneros, podem fornecer precioso material histrico, como, por
exemplo, as hagiografias, as polmicas religiosas, a poesia, as lendas, as histrias
dos mosteiros, etc. Um documento nico  a Histria dos Galla do Monge Bahrey
(1593), testemunha ocular da invaso galla da Etipia31. Um sculo mais tarde,
Hiob Ludolf, o iniciador dos estudos etopes na Europa, compila, a partir de
informaes fornecidas por um especialista etope, uma das primeiras histrias
gerais do pas32.
    Sendo o nico pas cristo que restou na frica, a Etipia naturalmente
despertou muito mais interesse na Europa que as demais partes do continente,
isso j desde o sculo XV. No  de surpreender o grande nmero de estrangeiros
viajantes, missionrios, diplomatas, soldados, mercadores ou aventureiros que
visitaram esse pas e dele deixaram registro. So no apenas portugueses,

28   ARAB FAQIH, 1897-1901; CASTANHOSO, M. 1548; trad. inglesa, Cambridge, 1902.
29   Cf. PANKHURST, R. 1966; BLUNDEL, H. W. 1923.
30   Escrito por Gabr SELASSI e traduzido para o francs, Paris, 1930-1931.
31   Cf. BECKINGHAM, C. F. e HUNTINGFORD, G. W. B., 1954. Alm da histria de BAHREY, esse
     livro contm trechos da History of High Ethiopia, de ALMEIDA, 1660.
32   LUDOLF, Hiob, 1681; traduo inglesa, 1682-1684.
114                                                                       Metodologia e pr-histria da frica



franceses, italianos e ingleses, mas tambm muitas pessoas de vrios outros
pases  russos, tchecos, suecos, armnios e georgianos 33. Ocasionalmente
surgem registros turcos ou rabes, que, de diversos modos, complementam as
outras fontes34.
    Da segunda metade do sculo XIX em diante, so os documentos de arquivos,
de todas as grandes potncias europeias como tambm os de Adis Abeba e
mesmo os de Cartum que vo fornecer os principais materiais histricos. A
importncia de um estudo minucioso dos documentos amricos originais
para uma interpretao correta da histria foi demonstrada recentemente pela
brilhante anlise do tratado de Wichale (1889) feita por Sven Rubenson35.


      frica do Sul
   Em comparao com outras partes do continente (com exceo dos pases de
lngua rabe e da Etipia), a frica do Sul oferece, para o perodo em estudo,
uma quantidade muito maior de interessantes materiais escritos, na forma de
arquivos e de narrativas. A falta de fontes de origem genuinamente africana
anteriores ao sculo XIX representa uma certa desvantagem, no obstante
muitas narrativas europeias preservarem fragmentos de tradies orais dos povos
locais. As informaes mais antigas provm de marinheiros portugueses ou
holandeses cujos navios naufragaram na costa sudeste no decorrer dos sculos
XVI e XVII36. Com o estabelecimento da colnia holandesa no Cabo (1652),
a produo de materiais torna-se mais rica e mais variada: consiste, por um
lado, em documentos oficiais, mantidos atualmente sobretudo em arquivos da
prpria frica do Sul, mas tambm em Londres e Haia, parcialmente publicados
ou difundidos por outros meios, mas em sua grande maioria inditos 37; por


33    Cf. a monumental coleo de BECCARI. Rerum Aethiopicarum Scriptores occidentales inediti a seculo
      XVI ad XX curante. 15 v., Roma, 1903-1911. Mas muitos registros anteriormente desconhecidos foram
      descobertos depois de BECCARI e esto  espera de publicao e estudo.
34    Por exemplo, o famoso viajante turco Evliya CHELEBI (morto em 1679), cuja obra Siyasatname (Livro
      de viagens) contm em seu dcimo volume descries do Egito, Etipia e Sudo. O embaixador iemenita
      al-Khaymi al-Kawkabani deixou (em 1647) um relato vivo de sua misso junto ao Imperador Faslidas,
      para cujo reino no h nenhuma crnica etope. Publicado por F. E. PEISER em dois volumes, Berlim,
      1894 e 1898.
35    RUBENSON, Sven. "The Protectorate Paragraph of the Wichale Treaty". JAH 5, n. 2, 1964; e discusso
      com C. GIGLIO, JAH 6, n. 2, 1965 e 7, n. 3, 1966.
36 Cf. THEAL, G. M. 1898-1903, e BOXER, C. R. 1959.
37    Trechos de dirios oficiais e outros documentos relativos a povos de fala san, khoi e bantu encontram-se
      em MOODIE, D. 1960; v. tambm THEAL, G. M. 1897-1905
As fontes escritas a partir do sculo XV                                                    115



outro, em documentos narrativos representados por livros e artigos escritos
por brancos  viajantes, comerciantes, oficiais, missionrios e colonizadores,
todos eles observadores diretos das sociedades africanas. Durante muito tempo,
entretanto, seu horizonte geogrfico permaneceu bastante restrito, e foi s na
segunda metade do sculo XVIII que comearam a penetrar realmente o interior
das terras. Assim,  natural que as primeiras narrativas tratem dos Khoi do
Cabo (hoje desaparecidos). A primeira descrio detalhada desse povo, depois
de alguns registros do sculo XVII38,  a de Peter Kolb (1705-1712)39. Durante
o perodo holands, muitos europeus visitaram a colnia do Cabo, mas muito
raramente chegaram a demonstrar mais que um ligeiro interesse pelos africanos
ou a aventurar-se para o interior. Um grande nmero de seus relatrios foi
reunido por Godee-Molsbergen e L'Honor-Naber, e muitos relatos menos
conhecidos tm sido regularmente publicados, desde a dcada de 1920, pela
Sociedade Van Riebeeck da Cidade do Cabo40. Um retrato mais detalhado
das sociedades africanas pode ser obtido nos arquivos de missionrios41 ou nos
registros de alguns observadores experientes do fim do sculo XVIII e incio do
XIX, como Sparrman, Levaillant, Alberti, John Barrow e Lichtenstein42. Um
lugar de honra pertence a John Philips, cuja vida e trabalho foram dedicados 
defesa dos direitos africanos, sendo, por isso, sua obra, reveladora de aspectos
raramente encontrados em relatos mais conformistas43.
    Com a expanso comercial, missionria e colonial no sculo XIX, material
mais rico e em maior quantidade sobre os grupos tnicos africanos mais afastados
tornou-se acessvel. Embora a Nambia fosse esporadicamente visitada no fim
do sculo XVIII44,  somente a partir de 1830 que comeam as descries mais
detalhadas da vida dos San, Nama e Herero, quando ento os missionrios
iniciaram suas atividades45 e a regio tornou-se alvo de pesquisadores, como J.
Alexander, F. Galton, J. Tindall e outros46.

38   SHAPERS, 1668; TEN RHYNE, W. 1686 e GREVEBROEK, G. 1695, Cidade do Cabo, 1933.
39   KOLB, P. 1719.
40   GODEE-MOLSBERGEN, E. C. 1916-1932; L'HONOR-NABER, S. L. 1931.
41   Cf., por exemplo, MLLER, D. K. 1923.
42   SPARRMAN, A. 1785; LEVAILLANT, F. 1790; ALBERTI, L. 1811; BARROW, J. 1801-1806;
     LICHTENSTEIN, H. 1811.
43   PHILIPS, J. 1828.
44   WAITS, A. D. 1926.
45   A obra clssica de H. VEDDER, South West Africa in Early Times, Oxford, 1938, foi compilada
     principalmente de relatrios de missionrios alemes.
46 ALEXANDER, Sir James, 1836, 1967; GALTON, G. 1853; Journal of Joseph Tindall 18391855, Cidade
   do Cabo, 1959.
116                                                                    Metodologia e pr-histria da frica



    Situao anloga  observada nas reas ao norte do rio Orange: os relatrios
dos primeiros comerciantes e caadores do lugar a uma quantidade cada
vez maior de trabalhos escritos por pesquisadores e missionrios, melhor
capacitados para a observao devido  sua maior experincia e conhecimento
das lnguas africanas. Podemos citar, por exemplo, Robert Moffat, E. Casalis,
T. Arbousset e outros, sendo, o mais conhecido, evidentemente, David
Livingstone47. Vrios documentos (arquivos, correspondncia, contratos e atas
oficiais, etc.) da histria antiga do Lesoto foram coletados por G. M. Theal48.
Uma caracterstica positiva desse perodo  o surgimento de documentos que
expressam pontos de vista africanos, como as cartas escritas por Moshesh e
outros lderes africanos.
    Diversamente da costa, o interior de Natal e da Zululndia tornou-
-se conhecido por forasteiros somente nas primeiras dcadas do sculo
XIX. Os primeiros observadores, como N. Isaac ou N. F. Fynn 49, em geral
eram inexperientes, raramente precisos e careciam de objetividade quando
tratavam dos no-brancos. J os registros das tradies orais dos Zulu foram
feitos relativamente cedo, na dcada de 1880, embora s fossem publicados
mais tarde, por A. T. Bryant, cujo livro deve, todavia, ser utilizado com
cautela 50.
    Como para outras partes da frica, a quantidade de materiais escritos por
europeus aumentou enormemente no decorrer do sculo XIX, e no cabe aqui
examinar, com mais detalhe todos os seus tipos e autores. Mais interessantes
so os registros das reaes dos primeiros africanos letrados ou de alguns
chefes tradicionais, encontrados em correspondncias, jornais, queixas, dirios,
contratos ou, j mais tarde, nas primeiras tentativas de redao da histria de
seu prprio povo.
    Alm da volumosa correspondncia entre governantes africanos Moshesh,
Dingaan, Cetwayo, Mzilikazi, Lobenguela, Witbooi, os chefes Grqua e muitos
outros  e as autoridades coloniais, encontramos documentos tais como as Leis


47    MOFFAT, R. 1842 e 1945; CASALIS, E., Les Bassutos, Paris, 1859; ed. inglesa, Londres, 1861; T.
      ARBOUSSET, Relation d'un voyage d'exploration, Paris, 1842; ed. inglesa; Cidade do Cabo, 1846;
      LIVINGSTONE, D. 1957.
48    THEAL, G. M., Basutoland Records, 3 v., Cidade do Cabo, 1883 (v. 4 e 5 manuscritos, no publicados,
      nos Arquivos da Cidade do Cabo).
49 ISAAC, N. 1836; FYNN, N. F. 1950.
50 BRYANT, A. T. 1929. V. tambm sua A History of the Zulu, primeiramente publicada como uma srie de
   artigos em 1911-1913 e depois como livro, na Cidade do Cabo, 1964. Cf. tambm BIRD, J. The Annals
   of Natal, 1495-1845, 2 v., Pietermaritsburg, 1888.
As fontes escritas a partir do sculo XV                                                       117



Ancestrais (Vaderlike Wete) da Comunidade Rehoboth do ano de 1874, ou
o Dirio de Henrik Witbooi51, ambos escritos em africner. H numerosas
peties e queixas de africanos mantidas nos arquivos da frica do Sul ou em
Londres, assim como muitos estudos, levantamentos cadastrais e estatsticos
feitos com base na informao oral africana.
    Graas ao aparecimento de jornais nas lnguas vernculas, podemos
acompanhar as ideias dos antigos representantes de uma sociedade em
mudana. No semanrio Isidigimi (publicado entre 1870 e 1880) apareceu a
primeira crtica  poltica europeia e seu impacto negativo na vida africana,
escrita pelos primeiros protonacionalistas, como Tiyo Soga (morto em 1871)
ou G. Chamzashe (morto em 1896), assim como a compilao das tradies
histricas dos Xhosa, por W. W. Gqoba (morto em 1888). Outro porta-voz
da opinio africana, desde 1884, foi Ibn Zabantsundu (A Voz do Povo Negro),
que por muitos anos teve como editor John T. Jabawu (morto em 1921).
Imediatamente aps a Primeira Guerra Mundial, havia onze jornais em lnguas
africanas sendo publicados, mas nem todos defendendo a causa dos africanos.
Uma das grandes figuras da poca foi Ngoki (morto em 1924), que, aps haver
participado ativamente na guerra zulu de 1879, publicou (nos Estados Unidos)
suas reminiscncias, assim como muitos artigos sobre a vida na frica do
Sul52. As primeiras histrias escritas pelos prprios africanos s vo aparecer
no sculo XX53, inaugurando, assim, uma nova poca na historiografia sul-
-africana. Com efeito, a histria dessa parte do continente foi por muito
tempo enfocada do ponto de vista da comunidade branca, que tendia a tratar
a histria dos povos africanos como algo insignificante e sem importncia. A
luta atualmente em curso na frica do Sul em todos os domnios da atividade
humana requer tambm uma nova atitude na abordagem das fontes. Uma
ateno especial deve ser dispensada aos testemunhos escritos da rdua luta
dos africanos por seus direitos54. S uma pesquisa baseada em todos estes
testemunhos e material dar condies para se escrever uma histria verdica
da frica do Sul.



51   As leis foram preservadas em Rehoboth e Windhoek; o Dirio de WITBOOI foi publicado na Cidade
     do Cabo em 1929.
52   Cf. TURNER, L. D. 1955.
53   Cf. PLAATJE, S. T. 1916 e 1930; MOLEMA, S. M. 1920; SOGA, J. H., The SouthEastern Bantu, 1930;
     idem, AmaXoza: Life and Customs, Johannesburg, 1930; SOGA, T. B. Lovedale, 1936.
54 Cf. PLAATJE, S. T. 1916 e 1930; MOLEMA, S. M. 1920; SOGA, J. H. The SouthEastern Bantu, 1930;
   idem, AmaXoza: Life and Customs, Johannesburg, 1930; SOGA, T. B. Lovedale, 1936.
118                                                                     Metodologia e pr-histria da frica



      Fontes narrativas externas
   Se o perodo entre os sculos IX e XV chega a ser chamado "era das fontes
rabes" devido  predominncia de material nessa lngua, o perodo em estudo
 marcado por um ntido declnio nesse aspecto. As razes para essa mudana
esto ligadas ao desenvolvimento poltico e cultural geral do mundo islmico, que
sero discutidas mais apropriadamente num volume posterior. Isso, no entanto,
no significa que no haja fontes rabes, mas que seu nmero e qualidade, com
algumas excees, no podem ser comparados nem com o perodo anterior nem
com fontes de outras origens.


      Em rabe e em outras lnguas orientais
   Embora o trabalho de Leo, o Africano (conhecido originalmente como
al-Hasan al-Wuzzan el-Zayyati), tenha sido escrito em italiano, tem procedncia
na tradio geogrfica rabe; alm disso, as viagens de Leo, o Africano, no
Sudo ocidental e central no incio do sculo XVI foram realizadas antes de
sua converso ao cristianismo e retiro na Itlia, consequentemente como rabe
e muulmano. O trabalho no est isento de erros, tanto geogrficos como
histricos; todavia foi que supriu a Europa por quase trs sculos com seu nico
verdadeiro conhecimento do interior da frica55.
   Uma fonte de particular interesse  representada pelas obras sobre navegao
de Ahmad Ibn Majid (incio do sculo XVI), o piloto que conduziu Vasco da
Gama do Malindi at a ndia. Entre seus numerosos livros sobre teoria e prtica
da navegao, o que trata da costa leste da frica  o mais importante, j que
contm, alm de uma vasta quantidade de material topogrfico e um mapa das
rotas martimas, opinies categricas sobre os portugueses no oceano ndico56.
Alguns detalhes originais sobre a frica oriental e o Zanj so encontrados na
Crnica da Fortaleza de Aden, escrita por Abu Makhrama (morto em 1540)57. H
uma crnica mais recente, que trata da mesma regio, de Salil Ibn Raziq (morto


55    Publicado primeiramente em Roma, 1550; a melhor traduo moderna  de Jean-Lon, o Africano,
      Description de l'Afrique, de A. EPAULARD, com anotaes de A. EPAULARD, T. MONOD, H.
      LHOTE e R. MAUNY, 2 v., Paris, 1956.
56    SHUMOVSKIY, T. A. Tri neizvestnye lotsli Akhmada ibn Majida (Trs livros desconhecidos de pilotagem,
      de A. Ibn M.), Moscou, 1937.
57    Publicado por LOFGREN, O. Arabische Texte zur Kenntnis des Stadt Aden im Mittelalter, 3 v., Leipzig-
      -Upsala, 1936-1950.
As fontes escritas a partir do sculo XV                                                               119



em 1873), intitulada Histria dos Imanes e Sayyds de Om,  qual foi incorporado
um trabalho anterior, escrito na dcada de 1720, por Sirhan Ibn Sirhan de Om58.
    O sculo XVIII no deixou nenhuma fonte rabe externa de grande valor
para a histria da frica ao sul do Saara; e somente no incio do sculo seguinte 
que vamos assistir a um certo reflorescimento nesse domnio. El-Tounsy (morto
em 1857), j citado, descreveu sua visita a Uadai na primeira crnica dedicada
quele reino, e redigiu tambm um valioso relatrio sobre Darfur59. Algumas
dcadas antes, e do outro lado do cinturo sudans, o marroquino Abd es-Salam
Shabayni registrou informaes sobre Tombuctu e a regio de Macina, antes da
ascenso dos Dina60.
    A histria do Imprio Songhai, sua queda e o posterior desenvolvimento do
vale do Nger foram registrados no s pelos cronistas sudaneses mas tambm
por alguns dos historiadores marroquinos acima mencionados. Recentemente
muitas fontes at ento desconhecidas sobre as relaes entre o Magreb e o
Sudo foram descobertas em bibliotecas marroquinas e aguardam publicao
e estudo por parte dos historiadores da frica. Deve haver tambm material
muito valioso, em rabe e turco, disperso pelos outros pases norte-africanos e na
prpria Turquia, e de cuja existncia temos, at o presente momento, informaes
extremamente escassas. Essa situao oferece perspectivas interessantes para o
historiador, e a localizao, organizao e traduo desse material esto entre as
tarefas mais urgentes para o futuro.
    Os materiais em outras lnguas orientais so ainda mais escassos que em
rabe, o que, todavia, no significa que no possamos descobrir novos materiais,
menos ou mais importantes, por exemplo em persa ou em certas lnguas hindus.
At agora, a principal fonte ainda  o viajante turco Evliya Chelebi, que visitou
o Egito e parte do Sudo e da Etipia; no entanto seu conhecimento de
outras regies da frica s se fez indiretamente61. O mesmo acontece com seu
compatriota o Almirante Sidi Ali, que copiou e traduziu do rabe trechos do
livro de Ahmad Ibn Majid, AlMuhit, sobre o oceano ndico, acrescentando-
-lhes apenas alguns detalhes62. No incio do sculo XIX, um estudioso de
Azerbaijani, Zain el-Abidin Shirvani, visitou a Somlia, a Etipia, o Sudo


58   Trad. por BADGER, G. P. Londres, 1871.
59   Voyage ao Ouaday. Trad. por Dr. PERRON, Paris, 1851.
60   Publicado por JACKSON, J. G. An Account of Timbuctoo and Housa, Territories in the Interior of Africa,
     Londres, 1820 (reeditado em 1967).
61   CHELEBI, E. Seychatname, Istambul, 1938.
62   BITTNER, M. 1897.
120                                                                     Metodologia e pr-histria da frica



oriental e o Magreb, descrevendo suas viagens num livro intitulado Bustanu
sSeyahe (O Jardim das Viagens)63. Parece que existia um ntido interesse pela
frica, especialmente pela Etipia, na Transcaucsia e especialmente entre os
armnios. No fim do sculo XVII, dois padres armnios, Astvacatur Timbuk e
Avatik Bagdasarian, empreenderam uma viagem pela frica, da qual mais tarde
deixaram descrio, comeando na Etipia e continuando atravs da Nbia,
Darfur, lago Chade e Tecrur at o Marrocos64. Em 1821, Warga, um armnio
de Astrakhan, cruzou o Saara partindo do norte, visitou Tombuctu e chegou
 Costa do Ouro, onde escreveu, em ingls, sua narrativa, breve mas rica em
informaes65. Outros materiais relativos  frica em armnio ou georgiano
existem nas bibliotecas e arquivos nas respectivas repblicas soviticas66.

      Em lnguas europeias
    O enorme volume da literatura europeia sobre a frica tropical, desde o incio
do sculo XVI, torna impossvel uma enumerao at mesmo dos trabalhos
ou autores mais importantes. No entanto, um estudo do carter geral e uma
avaliao dessa literatura como fonte para a histria da frica serviro melhor
ao propsito deste captulo que um arrolamento interminvel de nomes e ttulos.
    J falamos das alteraes nos limites geogrficos: no incio do sculo XVI toda
a linha costeira do Senegal at o cabo Guardafui era conhecida dos portugueses,
que, no fim do mesmo sculo, penetraram no interior, no antigo Congo, Angola
e ao longo do Zambeze. Os dois sculos seguintes acrescentaram muito pouco
ao conhecimento europeu: houve algumas tentativas espordicas de cruzar o
Saara; contatos mais duradouros foram estabelecidos ao longo do Senegal e
Gmbia, e um viajante foi do Zambeze at Kilwa parando no lago Malau. Por
outro lado, as informaes sobre os povos costeiros, especialmente na frica
ocidental, tornaram-se mais detalhadas e variadas. A explorao sistemtica do


63    Cf. KHANYHOV, M., in: Mlange Asiatique, S. Petersburgo, 1859. Os trechos relativos  frica oriental
      esto sendo preparados para uma traduo de V. P. SMIRNOVA em Leningrado.
64    KHALATYANC, G. Armyanskiv pamyatnik XVII v. o. geograffi Abssinii i Severnoy Afrique voobchetche
      (Memria Armnia do sculo XVII sobre a Geografia da Etipia e da frica do Norte em Geral), in:
      Zemlevedenye, v. 1-2, Moscou, 1899.
65    Cf. CURTIN, P. D. 1967, (dir. de publ.) Africa Remembered, Madison, 1967. p. 170-89: WILKS,
      I. "Wargee of Astrakhan". V. tambm OLDEROGGE, D. A., "Astrakhanec v Tombuktu v 1821 g."
      (Um homem de Astrakan em Tombuktu em 1821), Africana/Afrikanskiy etnografitcheskiy sbornik, VIII,
      Leningrado, 1971.
66    Uma srie de documentos sobre a histria das relaes entre a Etipia e a Armnia, dos tempos antigos
      at o sculo XIX, est sendo publicada pelo Instituto de Estudos Orientais da RSS da Armnia, Erevan.
As fontes escritas a partir do sculo XV                                      121



interior africano iniciou-se somente no fim do sculo XVIII, terminando com
a diviso do continente entre as potncias coloniais.
    Em termos de representao nacional, pode-se dizer que os autores do sculo
XVI eram predominantemente portugueses; os do XVII, holandeses, franceses
e ingleses; os do XVIII, principalmente ingleses e franceses, e os do XIX,
ingleses, alemes e franceses. Outras naes europeias foram, evidentemente,
representadas no decorrer de todos esses sculos, como, por exemplo, os italianos
no Congo no sculo XVII e no Sudo oriental no XIX, ou os dinamarqueses na
Costa dos Escravos e na Costa do Ouro nos sculos XVIII e XIX. E h, entre os
autores de livros de viagens e descries (mas especialmente no ltimo sculo),
pessoas da Espanha, Rssia, Blgica, Hungria, Sucia, Noruega, Tchecoslovquia,
Polnia, Sua, Estados Unidos, Brasil, e por vezes at um grego, romeno ou
malts. Felizmente, a maioria dos livros escritos em lnguas menos conhecidas
tem sido traduzida para lnguas mais acessveis.
    Ao avaliar os materiais europeus, devemos levar em considerao no tanto
a nacionalidade dos autores, mas, sim, a mudana de atitudes dos europeus em
relao aos africanos e suas sociedades em geral. Seria simplista afirmar que os
escritores portugueses estavam mais inclinados a observar com preconceitos
cristos os povos que descreviam, do que os ingleses, por exemplo; ou que os
holandeses estavam mais propensos  observao objetiva do que os escritores
de outras naes. Evidentemente, h diferena entre um cronista portugus do
sculo XVI, cuja abordagem estava impregnada dos valores medievais, e um
estudioso ou mdico holands do fim do sculo XVII, produto de uma cultura
j mais racional. A quantidade e variedade dos materiais  nossa disposio no
nos permitem nenhuma generalizao apressada; somente a anlise individual de
cada um, de acordo com seus mritos, que leve em considerao, evidentemente,
sua data e o assunto tratado, nos permitiria formalizar um julgamento. Deve-
-se tambm evitar a falcia de que, com o tempo, houve uma melhora gradual
na objetividade das narrativas e de que, quanto mais nos aproximamos da
atualidade, mais cientficas se tornam as observaes sobre a realidade africana,
o que equivaleria a admitir, aprioristicamente, que uma narrativa de um viajante
do sculo XIX tem, simplesmente por isso, uma credibilidade maior que uma
narrativa escrita trs sculos antes. Burton e Stanley, enquanto observadores,
eram prisioneiros da ideia, apresentada como cientificamente provada, da
superioridade dos homens brancos, do mesmo modo que os autores portugueses
eram prisioneiros da pretensa superioridade de sua f crist. O perodo do
comrcio de escravos no era, em geral, favorvel a narrativas objetivas sobre
os africanos, mas as necessidades prticas do comrcio exigiam um estudo
122                                                    Metodologia e pr-histria da frica



minucioso das atividades econmicas e sistemas de governo na frica, de modo
que temos, j nessa poca, uma srie de fontes muito valiosas.
   Livros sobre a frica e os africanos foram escritos por missionrios,
comerciantes, funcionrios pblicos, oficiais da marinha e do exrcito, cnsules,
exploradores, viajantes, colonizadores e, alguns, por aventureiros e prisioneiros
de guerra. Cada qual tinha seus prprios interesses; assim sendo, os propsitos
e abordagens variam consideravelmente. As "narrativas de viajantes", tpicas de
um certo gnero literrio, estavam preocupadas com um mundo desconhecido,
extico e estranho e deviam responder s exigncias gerais de seus leitores. Essa
inclinao pelo extico e pela aventura, ornamentada por opinies mais ou
menos fantsticas sobre os povos africanos, ou descrevendo com complacncia os
inmeros perigos encontrados pelo heroico viajante, persistiu at o sculo XIX67.
   Os missionrios dispensavam alguma ateno s religies africanas, mas
em sua maioria careciam da habilidade e boa vontade para compreend-las, e
estavam preocupados principalmente em expor seus "erros" e "barbarismo"; por
outro lado, eles conheciam as lnguas locais, estando, portanto, numa posio
melhor que os outros para apreender a estrutura social. s vezes demonstravam
interesse pela histria, passando ento a coletar as tradies orais locais.
   No sculo XIX, a maior parte da literatura narrativa provm dos exploradores,
que, de acordo com a tendncia da poca, tinham sua ateno voltada principalmente
para a soluo de grandes problemas geogrficos, de modo que sua contribuio
serviu mais para a geografia fsica que para o conhecimento da sociedade africana.
"A maioria deles estava mais interessada nas vias navegveis do que nas vias da
cultura"68. E muitos, sendo cientistas naturais, careciam de senso histrico ou
acreditavam no mito da ausncia de histria africana. Existem, evidentemente,
excees a essa regra, sendo a mais famosa a de Heinrich Barth.
   Por outro lado, surgiram, j no decorrer do sculo XVIII, certas histrias
de Estados ou povos africanos, como The History of Dahomy (Londres, 1793),
de Archibald Dalzel, que, num exame minucioso, revela-se como um panfleto
antiabolicionista.
   Depois de mostrar algumas deficincias das fontes narrativas europeias,
podemos agora examinar seus aspectos mais positivos. Acima de tudo, elas nos
fornecem a estrutura cronolgica to necessria na histria da frica, onde
a datao  um dos pontos mais fracos da tradio oral. Mesmo uma nica
data, dada por um viajante ou outro autor, por exemplo, de seu encontro com

67    Cf. agora ROTHBERG, R. 1971.
68    MAZRUI, A. A. 1969.
As fontes escritas a partir do sculo XV                                        123



alguma personalidade africana, pode constituir um ponto de partida para toda
a cronologia de um povo e s vezes at para mais de um. O simples fato de
estarem registradas por escrito no significa, entretanto, que todas as datas
devam estar corretas. H casos em que autores europeus, relatando boatos ou
tentando calcular um intervalo de tempo de acordo com fontes no-controlveis,
cometeram erros mais ou menos graves. Mas os europeus tinham, em geral, 
sua disposio, uma medida do tempo tecnicamente mais desenvolvida.
    A literatura narrativa  de importncia primordial como fonte da histria
econmica: rotas comerciais, principais mercados, mercadorias e preos, agricultura
e artesanato, recursos naturais, tudo isso podia e era observado e descrito sem
preconceitos. Com efeito, os europeus necessitavam, em seu prprio favor, de
narrativas to objetivas quanto possvel sobre esses assuntos.  verdade que os
recursos naturais ou possibilidades econmicas de algumas regies foram pintados
com cores muito brilhantes, a fim de se fazerem realar os mritos do explorador.
Mas o historiador est acostumado a esses exageros e os leva em considerao.
    O que os europeus mais bem registraram foram suas observaes dos
aspectos exteriores das sociedades africanas, dos chamados "usos e costumes";
os documentos fornecem descries ricas, precisas e requintadas de vrias
cerimnias, vestimentas, comportamentos, estratgias e tticas de guerra,
tcnicas de produo, etc., no obstante, s vezes, a descrio ser acompanhada
por eptetos como "brbaro", "primitivo", "absurdo", "ridculo" e outros termos
pejorativos, o que, por si s, no significa muito; trata-se somente de um
julgamento em funo dos hbitos culturais do observador. Muito mais grave
 a total falta de compreenso da estrutura interna das sociedades africanas,
da complicada rede de relaes sociais, da ramificao das obrigaes mtuas,
das razes mais profundas para determinados comportamentos. Em suma, os
autores eram incapazes de descobrir as motivaes profundas das atividades
africanas.
    Apesar de tudo, a redao da histria da frica seria quase impossvel
sem o material fornecido pelas fontes narrativas europeias. Elas podem ter
suas deficincias: ignorar muitos detalhes, ou trat-los de um ponto de vista
preconceituoso, parcial, ou, ainda, interpret-los incorretamente. Mas estes so
riscos normais, inerentes a toda historiografia, e no  razo para se rejeitar esse
amplo e extremamente importante conjunto de informaes. Ao contrrio, h
uma necessidade urgente de se reeditar o maior nmero possvel de narrativas
desse tipo, e de public-las com comentrios e notas apropriados, tornando
possvel, assim, sua avaliao e reinterpretao  luz da nova historiografia da
frica.
124                                                                     Metodologia e pr-histria da frica



      Fontes narrativas internas
    Durante o perodo que estamos estudando, ocorreu um novo fenmeno, de
consequncias capitais: o aparecimento e desenvolvimento de uma literatura
histrica escrita por africanos da regio ao sul do Saara. O meio de expresso
no era, inicialmente, nenhuma das lnguas africanas locais, mas, sim, o rabe 
cujo papel no mundo islmico pode ser comparado ao que o latim representou
na Idade Mdia europeia, isto , o meio de comunicao entre os povos cultos
, e, mais tarde, tambm algumas das lnguas europeias.
    A tradio historiogrfica parece ter comeado ao mesmo tempo no cinturo
sudans e na costa africana oriental, precisamente nas duas grandes regies
cobertas at essa poca pelas fontes rabes externas e nas quais o Isl exerceu
uma prolongada influncia. As mais antigas crnicas existentes datam do incio
do sculo XVI, embora relatem eventos dos perodos anteriores. A primeira,
o Ta'rikh alFattash, obra de trs geraes da famlia Kati de Djenn, cobre
a histria do Songhai e dos pases vizinhos at a conquista marroquina em
1591. Mais extenso e mais rico em detalhes  o Ta'rikh alSudan, escrito pelo
historiador de Tombuctu, El-Saadi, e que cobre em parte o mesmo perodo,
continuando, porm, at 1655. Ambas so obras de grandes estudiosos, com um
vasto campo de interesses e um conhecimento profundo dos acontecimentos
seus contemporneos. Mais significativo ainda  o fato de, pela primeira vez,
podermos ouvir a voz de africanos autnticos, mesmo sabendo serem os autores
francamente partidrios do Isl e observarem os acontecimentos desse ponto de
vista. No sculo XVIII tem origem uma histria annima, mas muito detalhada,
dos paxs marroquinos de Tombuctu, entre 1591 e 1751, contendo tambm
material til dos pases e povos vizinhos69. Outro tipo de fonte  representado
pelo dicionrio biogrfico dos intelectuais do Sudo ocidental, compilado pelo
famoso estudioso Ahmed Baba, de Tombuctu (morto em 1627)70.   mesma
regio do Imprio Songhai que pertence o Ta'rikh Say, crnica rabe de Ibn
Adwar, escrita, segundo dizem, em 1410. Se fosse autntica, seria o mais antigo
documento existente escrito na frica ocidental. Contudo, parece ser, mais
propriamente, uma verso tardia da tradio oral71.



69    Tarikh alFattach. Trad. e comentado por O. HOUDAS e M. DELAFOSSE, Paris, 1913 (reed. 1964);
      Tarikh alSudan, trad. e comentado por O. HOUDAS, Paris, 1900 (reed. 1964); Tadhkirat esnisyan, trad.
      e anotado por O. HOUDAS, Paris, 1899 (reed. 1964).
70 Publicado em Fez, 1899, e no Cairo, 1912.
71    Cf. MONTEIL, V. BIFAN 28, 1966, p. 675.
As fontes escritas a partir do sculo XV                                                              125



    De Tombuctu e Djenn a tradio da crnica escrita expandiu-se para outras
reas, especialmente para o sul e oeste, na regio situada entre o Sahel e a floresta
tropical, e, em alguns casos, at mais ao sul ainda. Intelectuais muulmanos
comearam a registrar por escrito, a partir da metade do sculo XVIII ou at antes
disso, crnicas locais, genealogias de cls, biografias concisas e livros religiosos. O
exemplo mais notvel  Kitab Gonja, escrito depois de 1752, que  uma histria
do Reino Gonja, baseada, em parte, em tradies orais72. H muitas crnicas
de menor importncia, e  de se esperar que outras surjam em outros lugares,
nessa regio sob influncia das comunidades diula ou haussa, ou de ambas. A
maior parte desses trabalhos est escrita em rabe. Muitas crnicas tambm foram
escritas em ajami, isto , em lnguas locais, mas com caracteres rabes.
    A situao  anloga nas regies de fala fulfulde, sobretudo em Futa Toro
e Futa Djalon. Na prpria Guin, assim como em Dacar e nas bibliotecas em
Paris, h muitas crnicas daquelas regies em rabe ou em fulfulde (ou em
ambas), a maioria datando dos sculos XVIII e XIX. Os materiais de Futa
Djalon s recentemente foram publicados e examinados em obras cientficas,
Quanto a esse aspecto, pode-se fazer referncia  coleo de Gilbert Vieillard,
mantida na biblioteca do IFAN em Dacar73. J para Futa Toro a situao  outra:
as Crnicas dos Futa Senegaleses de Sir-Abbas Soh, um autor do sculo XVIII,
tornaram-se acessveis j h meio sculo74. Outro antigo trabalho, um dicionrio
biogrfico de Muhammad el-Bartayili chamado Fath elSahkur (c. 1805), est
sendo preparado para publicao por John O. Hunwick; uma histria mais
moderna dos Futa Toro, escrita em 1921 por Xeque Kamara Musa de Ganguel
e intitulada Zuhur alBasatin (Flores dos Jardins), ainda no foi publicada75.
    No norte da Nigria tambm, crnicas e outras fontes em rabe surgiram em
data relativamente recente. O imame Ibn Fartuwa (fim do sculo XVI) deixou
um relato fascinante e detalhado da vida e da poca de Mai Idris e de suas
guerras76. De perodo mais recente so as vrias listas de governantes e crnicas
do Bornu. Uma fonte excepcional  representada pelos chamados mahrams,
registros de privilgios concedidos por governantes a famlias de notveis
religiosos, atravs dos quais podemos perceber tambm condies econmicas



72   V. sobre esses e outros assuntos WILKS, I. 1963, e HODGKIN, T. 1966.
73   SOW, A. I. 1968; DIALLO, T. 1968.
74   Trad. por M. DELAFOSSE e H. GADEN, Paris, 1913.
75   Mantida na biblioteca do IFAN, Dacar; cf. MONTEIL, V. 1965, p. 540.
76   Editado por H. R. PALMER, Kano, 1930; trad. in: Sudanese Memoirs I, Lagos, 1928, e in: History of the
     first twelve years of Ma Idriss Alaoma, Lagos, 1929.
126                                                                       Metodologia e pr-histria da frica



e sociais77. No resta muita coisa do material histrico prjehad na regio haussa,
embora o nvel de instruo, especialmente entre os lderes religiosos fulani, fosse
relativamente alto78; mas alguns poemas na lngua haussa ou em kanuri (Bornu)
contm comentrios sobre acontecimentos da poca79.
    O incio do sculo XIX presenciou um renascimento da literatura rabe
no Sudo central e ocidental; alm dos trabalhos naquela lngua, um nmero
cada vez maior de livros foi escrito em lnguas locais, como haussa, fulfulde,
kanuri, mandara, kotoco, etc., utilizando caracteres rabes. Os mais produtivos
foram os lderes dos jehad fulani, no norte da Nigria, apesar de grande parte
de sua produo literria tratar de assuntos religiosos, e somente algumas obras
poderem ser consideradas verdadeiras crnicas80; toda essa literatura, em rabe ou
numa das lnguas africanas, ajuda a construir um quadro mais coerente da vida
social e intelectual nessa regio. As crnicas das cidades haussa (Kano, Katsina,
Abuja, etc.), embora originrias do fim do sculo XIX, baseiam-se de certa
medida em documentos mais antigos ou na tradio oral81. Um desenvolvimento
similar ocorreu mais a leste, em Baguirmi, Kotoco, Mandara e Uadai. Algumas
crnicas ou listas de reis j foram publicadas, mas muitas outras ainda esto em
manuscritos e espera-se descobrir outras mais, em colees particulares82.
    Uma crnica rimada em fulfulde descreve a vida e as atividades do grande
reformador tukulor al-Hadjdj'Umar83, autor de um trabalho religioso, Rimah
Hizb elRahim (Lanas do Partido do Deus Misericordioso), que contm tambm
muitas aluses histricas s condies de vida no Sudo ocidental84.


77    Recolhido por H. R. PALMER, nas suas Sudanese Memoirs, 3 v., Lagos, 1928 e em The Bornu, Sahara and
      the Sudan, Londres, 1936; cf. tambm Y. URVOY, "Chroniques du Bornu", Journ. Socit des Africainistes,
      II, 1941.
78 HISKETT, M. 1957, p. 550-558; BIVAR, A. D. H. e HRSKETT, M. 1962, p. 104-48.
79    Cf. PATTERSON, J. R. 1926.
80    BELLO MUHAMMAD, Infaqu lmaysur, editado por C. E. J. WHITING, Londres, 1951; trad.
      inglesa da parfrase haussa de E. J. ARNETT, The Rise of the Sokoto Fulani, Kano, 1922; Abdullahi
      DAN FODIO, Tazyin alwaraqat, trad. e coment. por M. HISKETT, Londres, 1963; HAJJI SACID,
      History of Sokoto, trad. por C. E. J. WHITING, Kano, s.d.; tambm uma traduo francesa de O. Houdas,
      Tadhkirat annisyan, Paris, 1899.
81    The Kano Chronicle. Trad. por H. R. PALMER, in: Sudanese Memoirs III, 1928; sobre Katsina cf. op. cit.,
      p. 74-91; sobre Abuja, v. MALLAMS HASSAN e SHUAIBU, A Chronicle of Abuja, trad. do haussa por
      P. L. HEATH, Ibadan, 1952.
82    Cf. H. R. PALMER, 1928; vrias obras de J. P. LEBOEUF e M. RODINSON em tudes camerounaises,
      1938, 1951, 1955 e BIFAN, 1952 e 1956; M. A. TUBIANA sobre Uadai, in: Cahiers d'tudes africaines
      2, 1960.
83 RYAM, M. A. La vie d'El Hadj Omar  Qasida en Poular. Trad. por H. CAHEN, Paris, 1935.
84    Kitab Rimah Hizb alRahim, Cairo, 1927; nova ed. e trad. est sendo preparada por J. R. WILLIS.
As fontes escritas a partir do sculo XV                                                            127



    A costa africana oriental pode ser comparada com o Sudo quanto ao nmero
de suas crnicas. H crnicas de muitas cidades, escritas em rabe ou em kiswahili
(em escrita rabe), que fornecem listas de reis e narrativas da vida poltica. Somente
a crnica de Kilwa  realmente antiga. Foi composta em 1530 aproximadamente
e chegou at ns em duas verses diferentes, uma transmitida por de Barros, e
a outra copiada em Zanzibar em 187785. As crnicas, na sua maioria, s foram
compiladas recentemente, embora algumas remontem  segunda metade do
sculo XVIII. Muitas delas se concentram em acontecimentos anteriores 
chegada dos portugueses. Constituem, de certa forma, registros de tradies
orais e devem ser tratadas e avaliadas como tais86. Um nmero considervel
de manuscritos ainda pertence a colees particulares. Desde 1965, mais de
30 mil pginas de manuscritos swahili (e rabes tambm) foram descobertas,
e  de se esperar que, quando toda a costa tiver sido completamente explorada,
encontremos materiais que venham esclarecer muitos aspectos desconhecidos
da histria da frica oriental87. Alm das crnicas das cidades, outros gneros
literrios podem ser utilizados com proveito pelos historiadores, como, por
exemplo, a poesia swahili, notadamente o poema alInkishafi (composto na
segunda dcada do sculo XIX), que descreve a ascenso e o declnio de Pate88.
    A produo literria dos africanos em lnguas europeias tem incio dois
sculos mais tarde que a redao em rabe. Como era de se esperar, os primeiros
exemplares foram produzidos por indivduos da costa ocidental, onde os contatos
com o mundo exterior eram mais intensos que em qualquer outro ponto.
    Apesar dos nomes de Jacobus Captain (1717-1747), A. William Amo (c.
1703-c. 1753) e Philip Quaque (1741-1816), todos de origem fanti, no deverem
ser esquecidos como os pioneiros da literatura africana em lngua europeia, sua
contribuio para a historiografia da frica foi insignificante. Incomparavelmente
mais importantes como fontes histricas so os trabalhos dos escravos libertados,
da segunda metade do sculo XVIII: Ignatius Sancho (1729-1780), Ottobah
Cugoano (c. 1745-1800) e Oloduah Equiano (Gustavus Vasa; c. 1745-1810?).
Todos os trs estavam especialmente interessados na abolio do comrcio de
escravos, e seus livros, embora polmicos, fornecem muito material biogrfico

85   Analisado por FREEMAN-GRENVILLE, G. S. P. The Medieval History of the Coast of Tanganyika,
     Oxford, 1962.
86   Sobre as crnicas rabes e swahili em geral, cf. FREEMAN-GRENVILLE, G. S. P., 1962; PRINS, A.
     H. J. 1958; ALLEN, J. W. T. 1959, p. 224-27.
87   A mais importante descoberta desse tipo nos ltimos anos foi a de KitabalZanj (Livro dos Zanj), que
     trata da histria da Somlia do sul e do Qunia do norte; cf. CERULLI, E. 1957.
88   Cf. HARRIES, L. 1962.
128                                                                    Metodologia e pr-histria da frica



sobre a situao dos africanos, tanto na frica como na Europa89. Do mesmo
perodo provm um documento nico, o dirio de Antera Duke, um dos principais
comerciantes de Calabar, escrito em pidgin English local e que cobre um longo
perodo; embora um pouco breve, esse dirio nos fornece importantes dados sobre
a vida cotidiana num dos mais importantes portos negreiros"90.
    Em Madagscar, o grande rei merina Radama I (1810-1828) mantinha uma
espcie de dirio em escrita rabe (sura-be). Em 1850, aproximadamente, dois
outros aristocratas merina, Raombana e Rahaniraka, escreveram, no alfabeto
latino, relatos que ajudam a reconstruir uma imagem mais completa da vida
cotidiana dos Merina no sculo XIX91.
    Durante o sculo XIX muitos africanos ou afro-americanos participaram
de viagens de explorao ou publicaram reflexes sobre a vida africana, s
vezes em combinao com polmicas de diversa natureza. Samuel Crowther,
um ioruba, educado em Serra Leoa e na Gr-Bretanha, tomou parte das
expedies do Nger de 1841 e 1853, deixando descrio de suas viagens92.
Thomas B. Freeman, nascido na Inglaterra, de origem mestia, viajou muito
na frica ocidental e descreveu os povos da costa e do interior com simpatia
e inspirao93. Dois afro-americanos, Robert Campbel e Martin R. Delany,
foram para a Nigria na dcada de 1850 em busca de rea adequada para uma
possvel colnia de afro-americanos94. Um liberiano, Benjamin Anderson,
descreveu, com muitos detalhes e observao precisa, sua viagem no alto vale
do Nger95. Dois eminentes lderes africanos, Edward W. Blyden e James
Africanus B. Horton, pertencem a uma classe particular. Alguns dos livros,
papeis e artigos de Blyden constituem, por si s, uma fonte histrica; outros j
tm um carter de interpretao histrica, mas, mesmo assim, so indispensveis
para qualquer pesquisa que trate do surgimento da conscincia africana96. O
mesmo se pode dizer do trabalho de Horton, com a diferena de que suas


89    SANCHO, I. 1781; CUGOANO, O. 1787; The Interesting Narrative of the Life of Olaudah Equiano, or
      Gustavus Vasa, the African, Londres, 1798.
90 FORDE, D. 1956. Os manuscritos originais foram destrudos na Esccia pelos bombardeios durante a
   ltima guerra, mas foram preservadas cpias de alguns trechos de 1785-1787.
91    BERTHIER, H., 1933; "Manuscrito de Raombana e Rahaniraka", Bull. de l'Acadmie Malgache, 19, 1937,
      p. 49-76.
92    Cf. Journals of the Rev. J. J. Schn and Mr. Crowtlher, Londres, 1842; CROWTHER, S. 1855.
93    FREEMAN, T. B. 1844.
94    CAMPBEL, R. 1861; DELANY, M. R. 1861.
95    ANDERSON, B. 1870.
96    Sobre BLYDEN, cf. LYNCH. H. R. 1967.
As fontes escritas a partir do sculo XV                                                                129



observaes tendiam a ser mais precisas quando tratava das sociedades com
as quais manteve mais estreito contato97.
    Esses dois homens pertencem j a uma fase de transio com o grupo de
africanos que comearam a escrever a histria de seus prprios pases ou povos.
Uma primeira tentativa, embora com maior nfase na etnografia, foi feita pelo
Ab. Boilat, um mulato de St. Louis, em seus Esquisses Sngalaises98. Um interesse
maior pela historiografia baseada principalmente na tradio oral pode-se
observar nas regies da frica sob domnio britnico, mas somente no fim do
sculo XIX. C. C. Reindorf, um ga, publicou em 1895, em Basle, sua History
of the Gold Coast and Asanle e  considerado o primeiro historiador moderno
de origem africana. Com ele e Samuel Johnson  cuja History of the Yorubas 
contempornea do livro de Reindorf, mas s foi publicada em 1921  inicia-se a
cadeia ininterrupta de historiadores africanos, a princpio amadores (na maioria
missionrios), mais tarde, profissionais. Suas ideias e suas obras so abordadas
no captulo dedicado ao desenvolvimento da historiografia da frica.
    Todas essas fontes narrativas, escritas em rabe ou nas diversas lnguas
africanas e europeias, formam um vasto e rico conjunto de materiais histricos.
Elas no cobrem, evidentemente, todos os aspectos do processo histrico e
possuem um carter regional, oferecendo, em alguns casos, apenas uma imagem
fragmentria. As fontes escritas por muulmanos demonstram, em geral, um
pronunciado ponto de vista islmico, que aparece claramente quando abordam
sociedades no-muulmanas. Os autores de fontes narrativas em lnguas
europeias eram ao mesmo tempo polemistas em campanha contra o comrcio
de escravos ou em favor da igualdade, e, portanto, com uma certa tendncia 
parcialidade. Mas trata-se de limitaes normais de todas as fontes narrativas,
e, cientes delas, devemos, ainda assim, reconhecer que possuem uma vantagem
decisiva: so vozes dos africanos, que nos revelam uma outra face da histria.
que esteve sufocada pela torrente de opinies estrangeiras.


     Fontes arquivsticas particulares, relatrios
     confidenciais e outros testemunhos
   Fontes particulares so, essencialmente, os documentos escritos que resultam
da necessidade de registrar vrias atividades humanas e que, originalmente,

97   HORTON, J. A. B. 1863; Letters on the Political Conditions of lhe Gold Coast ..., Londres, 1870.
98   Paris, 1833.
130                                                         Metodologia e pr-histria da frica



no eram destinados ao pblico, mas apenas a um pequeno grupo de pessoas
interessadas. Compreendem, assim, principalmente, a correspondncia oficial
e particular, relatrios confidenciais de vrias transaes, registros comerciais,
estatsticas, documentos particulares de diversos tipos, tratados e acordos, dirios
de bordo, etc. Esse material  a matria-prima do historiador, j que oferece 
ao contrrio das fontes narrativas, feitas com um propsito bem definido  um
testemunho objetivo, isento, em princpio, de quaisquer segundas intenes
visando um vasto pblico ou a posterioridade. Esse material  encontrado
principalmente em arquivos e bibliotecas estatais ou particulares.
    A antiga ideia de que no h fontes escritas particulares suficientes para a histria
da frica j no tem fundamento. Existem no apenas colees extremamente
ricas de documentos nas antigas metrpoles assim como extenso material na
prpria frica, produzidos nos perodos pr-colonial e colonial, por instituies
particulares ou ligadas aos Estados europeus, mas tambm colees de material
particular originrias dos prprios africanos, escritas em lnguas europeias ou em
rabe. Enquanto, anteriormente, esses documentos eram considerados raridades,
encontradas somente em alguns lugares muito especiais, est claro agora que
existe uma grande quantidade de fontes escritas de origem africana em vrias
partes do continente e tambm nos arquivos europeus e asiticos.
    Observemos, primeiramente, o material escrito em rabe. Para o perodo
anterior ao sculo XIX, foram descobertos at agora somente exemplares isolados de
correspondncia, local e internacional, provenientes, sobretudo, da frica ocidental.
H cartas do sulto o otomano ao Mai Idris do Bornu (em 1578), descobertas
em arquivos turcos, e alguma correspondncia do sulto do Marrocos ao Askiya
de Songhai e ao Kanta de Kebbi, tambm do fim do sculo XVI. O rabe era
utilizado como lngua diplomtica no apenas pelas cortes islamizadas do Sudo,
mas tambm por governantes no-muulmanos. O caso mais conhecido  o dos
Asantehenes, que utilizaram os servios de escribas muulmanos, que escreviam
em rabe, para redigir sua correspondncia com seus vizinhos do norte, assim como
com os europeus da regio costeira. Algumas dessas cartas foram encontradas na
Biblioteca Real em Copenhague. A chancelaria rabe de Kumasi funcionou durante
grande parte da segunda metade do sculo XIX, e o rabe tambm era utilizado para
manter registros de decises administrativas e judiciais, transaes financeiras, etc.
No outro lado da frica tem-se como exemplo o tratado, escrito em rabe, entre o
comerciante de escravos francs, Morice, e o sulto de Kilwa, no ano de 1776.
    O sculo XIX presenciou um aumento considervel da correspondncia em rabe
em todo o continente. Com o estabelecimento de Estados centralizados no Sudo
houve um desenvolvimento das atividades administrativas e diplomticas, tendo
As fontes escritas a partir do sculo XV                                                             131



sido descoberto um abundante material desse tipo, principalmente no sultanato
de Socotoe em seus emirados dependentes, de Guandu a Adamaua, no Estado de
Macina ou no Estado de Liptako e no Imprio de Bornu. Todos os governantes
muulmanos de grandes ou pequenos Estados mantinham correspondncia intensa
entre si e com as potncias coloniais em desenvolvimento. Em muitos arquivos
dos pases da frica ocidental (e em alguns da Europa), encontram-se milhares
de documentos em rabe de personalidades como al-Hadjdj'Umar, Ahmadu Seku,
Ma-Ba, Lat Dyor, Mahmadu Lamine, Samory, al-Bakka'i, Rabih e muitos outros
lderes e chefes de menor envergadura. As administraes coloniais em Serra Leoa,
Guin, Nigria e Costa do Ouro tambm mantinham sua correspondncia com
eles em rabe. Existem cartas trocadas entre o pax otomano de Trpoli e os xeques
bornu, entre o sulto do Darfur e o Egito, entre Tombuctu e o Marrocos. O mesmo
ocorreu com a frica oriental; parece, entretanto, que os arquivos de Zanzibar no
so to ricos em documentos rabes, como poderia se esperar de uma cidade com
to grandes interesses comerciais e polticos. Deve haver, evidentemente, um vasto
nmero de documentos, com diversidade de contedo, em colees particulares; a
reunio e catalogao de todos eles no ser uma tarefa fcil, mas  indispensvel no
futuro prximo.
    Muitos textos foram escritos na escrita vai, que foi inventada em 1833,
aproximadamente, por Momolu Duwela Bukele, e expandiu -se muito
rpidamente entre o povo Vai, de modo que, no fim do sculo, quase todos a
conheciam e empregavam correntemente, na correspondncia particular e oficial,
na manuteno das contas e tambm na redao de leis costumeiras, provrbios,
contos e fbulas. Muitos povos vizinhos, como os Mende, os Toma (Loma), os
Gerze (Kpele) e os Basa, adotaram e adaptaram a escrita vai, empregando-a com
propsitos semelhantes99.
    No incio do sculo XX o Sulto Njoya de Bamum (Camares) inventou para
a lngua bamum uma escrita especial, que ele reformou quatro vezes durante
sua vida; mas, contrariamente  escrita vai, utilizada geralmente pela maioria
do povo, o conhecimento da escrita bamum permanecia restrito a um pequeno
grupo da corte do sulto. Todavia, Njoya comps um grande volume sobre a
histria e costumes de seu povo nessa escrita, um livro no qual ele continuou
a trabalhar durante muitos anos e que constitui um verdadeiro manancial de
informaes valiosas sobre o passado100.


99   Cf. DALBY, D. A. 1967, p. 1-51.
100 Histoire et coutumes des Bamum, rdigs sous la direction du Sultan Njoya. Trad. por P. Henri MARTIN,
    Paris, 1952. O original  mantido no palcio do sulto em Fumbam.
132                                                                       Metodologia e pr-histria da frica



    Devemos acrescentar os textos em nsibidi101 do Cross River Valley (sudeste
da Nigria), que consistem em inscries em santurios e formas especiais de
linguagem, utilizadas entre os membros de algumas sociedades secretas.
    O material nas lnguas europeias abrange o perodo do sculo XVI at
hoje. Escrito numa dzia de lnguas,  imensamente abundante e est disperso
pelo mundo inteiro em centenas de lugares diferentes, arquivos, bibliotecas
e colees particulares. Essa situao torna sua utilizao pelos historiadores
bastante difcil, especialmente em casos onde no h guias nem catlogos 
disposio. Foi por essa razo que o Conselho Internacional de Arquivos,
sob os auspcios e com o apoio moral e financeiro da UNESCO, comeou a
preparar uma srie de guias para as fontes da histria da frica. O principal
objetivo era satisfazer as necessidades dos estudantes de histria da frica
facilitando o acesso a todo o corpo de fontes existentes. Como a pesquisa
histrica havia estado por muito tempo concentrada num nmero limitado
de bibliotecas de arquivos que mantm registros do perodo colonial, era
importante chamar a ateno tambm para a existncia de um extenso e muito
disperso conjunto de fontes, at agora no exploradas. Os guias so dedicados
inicialmente aos arquivos pblicos e particulares, mas levam igualmente em
considerao o material de interesse histrico conservado em bibliotecas e
museus. A srie deve compreender doze volumes, com informaes sobre
fontes arquivsticas que tratam da frica ao sul do Saara e mantidas nos pases
da Europa ocidental e nos Estados Unidos. At agora os seguintes volumes
j foram publicados:
    Volume I  Repblica Federal da Alemanha (1970); Volume 2  Espanha
(1971); Volume 3  Frana  I (1971); Volume 4  Frana  II (1976); Volume
5  Itlia (1973); Volume 6  Itlia (1974); Volume 8  Escandinvia (1971); e
Volume 9  Holanda (1978). O Volume 7 (Vaticano)  esperado para um futuro
prximo. Os volumes abrangendo a Blgica, o Reino Unido e os Estados Unidos
aparecero separadamente, mas seguiro o mesmo mtodo de apresentao102.
Como foi muito apropriadamente dito por Joseph Ki-Zerbo em sua Introduo
para a srie, "na batalha para a redescoberta do passado africano, o guia das fontes
da histria da frica constitui uma nova arma estratgica e ttica"103.


101 Cf. DAYRELL, 1910-1911 ; MAC-GREGOR, 1909, p. 215, 217, 219.
102 Os volumes dos Estados Unidos e do Reino Unido apresentam listas de documentos relativos a todo o
    continente.
103 Quellen zur Geschichte Afrikas sdlich der Sahara in den Archiven der Bundesrepublik Deutschland (Guio das
    fontes da histria da frica), v. I, Zug, Sua, 1970. Prefcio, p. vii.
As fontes escritas a partir do sculo XV                                                                  133



   Alm desse importante projeto, j h alguns outros guias de fontes, preparados
principalmente por regies ou de acordo com critrios especiais. Entre os mais
completos, constam os cinco guias da histria da frica ocidental, publicados
em 1962-1973, que cobrem os arquivos de Portugal, Itlia, Blgica, Holanda,
Frana e Reino Unido104.
   Mais ambiciosas e de certa forma mais vantajosas so as edies de
documentos arquivsticos in extenso ou como catlogos. At agora esse tipo
de apresentao tem sido usado principalmente para o material em arquivos
portugueses. Sem considerar o trabalho de Paiva Manso no fim do sculo
XIX105, h agora duas importantes colees de documentos de missionrios,
provenientes de arquivos portugueses e alguns outros, um de A. da Silva Rego106,
e outro de A. Brasio107. Alguns anos atrs, foi iniciada uma coleta monumental,
preparada pelos esforos combinados dos arquivos portugueses e do Zimbabwe,
na qual todos os documentos portugueses relativos ao sudeste da frica sero
publicados no original com uma traduo inglesa108.
   H tambm colees restritas no que se refere ao tempo, alcance e objeto.
Essa categoria  representada, por um lado, pelos British Parliamentary Papers e
vrios Livros Azuis e Brancos, principalmente do perodo colonial, e, por outro
lado, por selees recentes mais cientficas109, como o trabalho de J. Cuvelier e
L. Jadin sobre os documentos do Vaticano para a histria do antigo Congo110,
ou a seleo de C. W. Newbury sobre a poltica britnica na frica ocidental
e o estudo documentrio de G. E. Metcalfe sobre as relaes entre a Gr-
-Bretanha e Gana111.  mesma categoria pertence a grande coleo de material
arquivstico sobre a poltica italiana em relao  Etipia e pases vizinhos,
em vias de publicao por C. Giglio112. Muitas outras colees desse tipo em
vrios arquivos europeus tornaram acessveis documentos para alguns aspectos
da histria colonial. Mas seu ponto fraco reside precisamente em seu carter


104 CARSON, P. 1962; RYDER, A. F. C. 1965; GRAY, R. e CHAMBERS, D. 1965; CARSON, P. 1968.
105 MANSO, P. 1877.
106 SILVA REGO, A. da. 1949-1958.
107 BRASIO, A. 1952.
108 The Historical Documents of East and Central Africa, Lisboa-Salisbury, a partir de 1965. Compreender
    aproximadamente 20 volumes.
109 Guides to Materials for West African History in European Archives, publicados pela Universidade de Londres
    na Athlone Press, a partir de 1962. Cf. nota 104.
110 CUVELIER, J. e JADIN, L. 1954.
111 NEWBURY, C. W. 1965; METCALFE, G. E. 1964.
112 GIGLIO, C. L'Italia in Africa, Serie Storica, v. I, 1958.
134                                                               Metodologia e pr-histria da frica




figura 6.2 Fac-smile do manuscrito vai intitulado "An Early Vai Manuscript" (por Svende E. Holsoe,
publicado pelo International African Institute).
As fontes escritas a partir do sculo XV                                                         135



seletivo, porque cada compilador segue, ao escolher o material, regras prprias,
subjetivas, enquanto o pesquisador que examina uma questo necessita de todas
as informaes e de uma documentao completa.
    Em cada Estado independente da frica existe agora arquivos governamentais
que tambm mantm material herdado da administrao colonial anterior. Apesar
de alguns pases terem publicado guias ou catlogos, a maioria dos arquivos na
frica ainda est em processo de classificao sistemtica e descrio 113. A
publicao de uma srie de guias de todos os arquivos africanos pblicos e
particulares, como os que esto sendo publicados para os arquivos da Europa, ,
no momento atual, uma necessidade urgente.
    Os arquivos governamentais da frica, comparados aos das antigas
metrpoles, tm suas vantagens e tambm seus inconvenientes. Com algumas
excees, a manuteno de registros detalhados s teve incio na frica, na
dcada de 1880, e h muitas lacunas nesse material, que devem ser compensadas
por outras fontes, sendo as mais importantes os registros dos missionrios e
comerciantes e os documentos particulares, e, evidentemente, os arquivos em
capitais europeias.
    Por outro lado, as vantagens dos arquivos criados na frica sobre os das antigas
capitais metropolitanas so numerosas: a diferena marcante reside no fato de
guardarem materiais e registros que tm relao mais direta com a situao local,
enquanto os arquivos coloniais da Europa contm, principalmente, documentos
sobre a poltica do colonizador. Os arquivos africanos geralmente conservam
registros do perodo pr-colonial, como relatrios dos primeiros exploradores,
informaes colhidas por comerciantes, funcionrios pblicos e missionrios
no interior, relatrios que no eram considerados dignos de ser enviados para a
Europa, mas que so de extrema importncia para a histria local. Conservam,
ainda, um nmero muito maior de documentos produzidos por africanos que
os arquivos da Europa. Em geral, apesar da quantidade de material duplicado
em arquivos da Europa e da frica, qualquer pesquisador que trabalhe somente
com fontes de antigos arquivos metropolitanos tender a escrever uma histria
dos interesses europeus na frica e no a histria dos africanos. Por outro lado,
a utilizao exclusiva dos arquivos mantidos na frica no pode fornecer um
quadro completo, j que muitos registros e documentos esto faltando ou so
incompletos.




113 Para um estudo da situao s vsperas da independncia. v. P. D. CURTIN, 1960, p. 129-47.
136                                                                     Metodologia e pr-histria da frica



    Para concluir, devemos mencionar alguns outros tipos de documentos,
da mesma categoria. Inicialmente trataremos dos mapas e outros materiais
cartogrficos. Embora, a partir do sculo XVI, o nmero de mapas impressos
da frica tenha aumentado a cada ano, muitos ainda se mantm em forma de
manuscritos, em vrios arquivos e bibliotecas da Europa, alguns magnificamente
decorados e coloridos. Nesses mapas, podemos encontrar frequentemente nomes
de localidades que hoje no existem mais ou que so conhecidas por outras
denominaes, mas que so mencionados em outras fontes, orais ou escritas. Por
exemplo, muitos povos Bantu orientais tm tradies que falam da migrao
de uma rea chamada Shungwaya; atualmente no se conhece nenhuma
localidade com esse nome, mas em alguns dos mapas antigos, por exemplo, o
de van Linschotten (1596) ou o de William H. J. Blaeu ( 1662) e outros mais,
Shungwaya aparece com vrias grafias, primeiro como cidade, mais tarde como
regio no distante da costa. Os mapas antigos fornecem tambm dados sobre
a distribuio de grupos tnicos, sobre as fronteiras dos Estados e provncias,
sobre os vrios nomes dos rios, montanhas e outros aspectos topogrficos.
Em resumo, oferecem um material toponmico muito til, que por sua vez
fornecem valiosas informaes histricas. Um exemplo prtico de como utilizar
o material cartogrfico com propsitos histricos foi demonstrado por W. G.
L. Randles em sua SouthEast Africa in the Sixteenth Century114. A importncia
desse material j foi reconhecida, e o historiador tem  sua disposio a grande
obra de Yusuf Kamel, Monumenta Cartographica Africae et Aegypti, que contm
tambm muitos textos narrativos no original e em traduo, mas interrompe-se,
cronologicamente, precisamente no sculo XVI115. Devemos, portanto, endossar
o apelo de Joseph Ki-Zerbo de publicao de uma coletnea de todos os mapas
antigos da frica em um atlas .com textos comentados116. Um primeiro passo
nesse sentido foi dado com a recente publicao, em Leipzig, de quase cem
mapas, mas sem comentrios suficientes e reproduzindo apenas material j
impresso117.
    Outra categoria de material encontrado nas fontes escritas so os dados
lingusticas. J que se reservou um captulo especial neste volume para o estudo
da lingustica como cincia histrica associada, deixaremos de lado as questes
metodolgicas e restringiremos nossa discusso a indicaes sobre o tipo de fontes


114 RANDLES, W. G. L. 1958.
115 Cairo, 1926-1951.
116 Cf. nota 103 acima.
117 Afrika auf Karten des 1218. Jahrhunderts (Mapas da frica do sculo XII ao XVIII). Leipzig, 1968.
As fontes escritas a partir do sculo XV                                                                 137



em que se podem encontrar dados lingusticos. A partir dos primeiros contatos com
a frica, os viajantes europeus passaram a acrescentar, como atitude de bom-tom,
s suas narrativas de viagens e outros relatrios, listas mais ou menos longas de
palavras nas lnguas locais. Os mais antigos vocabulrios datam do sculo XV, e, at
o sculo XIX, raramente encontramos um livro sobre a frica sem esse suplemento,
s vezes at acompanhado por uma breve gramtica. Embora a ortografia quase
nunca seja sistemtica, no  difcil identificar as palavras e lnguas. A publicao
mais notvel desse tipo  a grande coletnea publicada por Koelle, de vocabulrios
de 160 lnguas aproximadamente118. Curtin, Vansina e Hair119 demonstraram que
o valor da obra  mais que lingustico. Especialmente favorecido nesse aspecto 
o antigo Reino do Congo: trabalhos que tratam do Kicongo tm sido publicados
desde o sculo XVII  uma gramtica de Brusciotto (1659) e um dicionrio de
de Gheel (morto em 1652)120. Alm dessas obras impressas, existem outras em
vrias bibliotecas e arquivos (Vaticano, British Museum, Besanon, etc.). Seu valor
documental para os historiadores  maior que o das listas de palavras, pois so mais
completas, permitindo um estudo diacrnico da nomenclatura social e cultural121.
    Fontes escritas, narrativas e arquivsticas, nas lnguas africanas, orientais
ou europias, representam um conjunto imensamente rico de material para a
histria da frica. Embora abundantes, os documentos de todo tipo, registros,
livros e relatrios conhecidos constituem, muito provavelmente, apenas um
fragmento do material existente. Dentro e fora da frica devem existir inmeros
lugares que ainda no foram explorados do ponto de vista de fontes possveis da
histria daquele continente. Essas regies inexploradas constituem verdadeiros
"espaos em branco" no mapa do nosso conhecimento das fontes da histria
africana. Quanto mais cedo eles desaparecerem, mais rico ser o quadro que
podemos traar do passado africano.




118 KOELLE, S. W. 1854, reed. GRAZ, 1963.
119 CURTIN, P. D. e VANSINA, J.1964; HAIR, P. E. H. 1965.
120 Regulae quaedam pro difficillimi Congenius idiomatis faciliori captu ad Grammatica normam, redactae A. F.
    Hyacintho Brusciotto, Roma, 1659; WING, J. van, e PENDERS, C. Le plus ancien dictionnaire Bantu.
    Vocabularium P. Georgii Gelensis, Louvain, 1928.
121 A gramtica de Brusciotto foi estudada com esses objetivos por D. A. OLDEROGGE, no seu instrutivo
    artigo "Sistema rodstva Bakongo v. XVII" (Sistema de parentesco Bakongo no sculo XVII), in:
    Afrikanskiy etnograficheskiy sbornik III, Moscou, 1959.
A tradio oral e sua metodologia                                         139



                                    CAPTULO 7


           A tradio oral e sua metodologia
                                      J. Vansina




    As civilizaes africanas, no Saara e ao sul do deserto, eram em grande parte
civilizaes da palavra falada, mesmo onde existia a escrita; como na frica
ocidental a partir do sculo XVI, pois muito poucas pessoas sabiam escrever,
ficando a escrita muitas vezes relegada a um plano secundrio em relao s
preocupaes essenciais da sociedade. Seria um erro reduzir a civilizao da
palavra falada simplesmente a uma negativa, "ausncia do escrever", e perpetuar
o desdm inato dos letrados pelos iletrados, que encontramos em tantos ditados,
como no provrbio chins: "A tinta mais fraca  prefervel  mais forte palavra".
Isso demonstraria uma total ignorncia da natureza dessas civilizaes orais.
Como disse um estudante iniciado em uma tradio esotrica: "O poder da
palavra  terrvel. Ela nos une, e a revelao do segredo nos destri" (atravs da
destruio da identidade da sociedade, pois a palavra destri o segredo comum).


    A civilizao oral
   Um estudioso que trabalha com tradies orais deve compenetrar-se
da atitude de uma civilizao oral em relao ao discurso, atitude essa,
totalmente diferente da de uma civilizao onde a escrita registrou todas
as mensagens importantes. Uma sociedade oral reconhece a fala no apenas
como um meio de comunicao diria, mas tambm como um meio de
140                                                    Metodologia e pr-histria da frica



preservao da sabedoria dos ancestrais, venerada no que poderamos chamar
elocues-chave, isto , a tradio oral. A tradio pode ser definida, de fato,
como um testemunho transmitido verbalmente de uma gerao para outra.
Quase em toda parte, a palavra tem um poder misterioso, pois palavras
criam coisas. Isso, pelo menos,  o que prevalece na maioria das civilizaes
africanas. Os Dogon sem dvida expressaram esse nominalismo da forma
mais evidente; nos rituais constatamos em toda parte que o nome  a coisa,
e que "dizer"  "fazer".
    A oralidade  uma atitude diante da realidade e no a ausncia de uma
habilidade. As tradies desconcertam o historiador contemporneo  imerso
em to grande nmero de evidncias escritas, vendo-se obrigado, por isso, a
desenvolver tcnicas de leitura rpida  pelo simples fato de bastar  compreenso
a repetio dos mesmos dados em diversas mensagens. As tradies requerem um
retorno contnuo  fonte. Fu Kiau, do Zaire, diz, com razo que  ingenuidade ler
um texto oral uma ou duas vezes e supor que j o compreendemos. Ele deve ser
escutado, decorado, digerido internamente, como um poema, e cuidadosamente
examinado para que se possam apreender seus muitos significados  ao menos
no caso de se tratar de uma elocuo importante. O historiador deve, portanto,
aprender a trabalhar mais lentamente, refletir, para embrenhar -se numa
representao coletiva, j que o corpus da tradio  a memria coletiva de uma
sociedade que se explica a si mesma. Muitos estudiosos africanos, como Amadou
Hampt-Ba ou Boubou Hama muito eloquentemente tm expressado esse
mesmo-raciocnio. O historiador deve iniciar-se, primeiramente, nos modos de
pensar da sociedade oral, antes de interpretar suas tradies.


      A natureza da tradio oral
    A tradio oral foi definida como um testemunho transmitido oralmente de uma
gerao a outra. Suas caractersticas particulares so o verbalismo e sua maneira
de transmisso, na qual difere das fontes escritas. Devido  sua complexidade,
no  fcil encontrar uma definio para tradio oral que d conta de todos
os seus aspectos. Um documento escrito  um objeto: um manuscrito. Mas um
documento oral pode ser definido de diversas maneiras, pois um indivduo pode
interromper seu testemunho, corrigir-se, recomear, etc. Uma definio um
pouco arbitrria de um testemunho poderia, portanto, ser: todas as declaraes
feitas por uma pessoa sobre uma mesma sequncia de acontecimentos passados,
contanto que a pessoa no tenha adquirido novas informaes entre as diversas
A tradio oral e sua metodologia                                             141



declaraes. Porque, nesse ltimo caso, a transmisso seria alterada e estaramos
diante de uma nova tradio.
    Algumas pessoas, em particular especialistas como os griots, conhecem
tradies relativas a toda uma srie de diferentes eventos. Houve casos de uma
pessoa recitar duas tradies diferentes para relatar o mesmo processo histrico.
Informantes de Ruanda "relataram duas verses de uma tradio sobre os Tutsi
e os Hutu: uma, segundo a qual, o primeiro Tutsi caiu do cu e encontrou o
Hutu na terra; e outra, segundo a qual Tutsi e Hutu eram irmos. Duas tradies
completamente diferentes, um mesmo informante e um mesmo assunto!  por
isso que se inclui "uma mesma sequncia de acontecimentos" na definio de um
testemunho. Enfim, todos conhecem o caso do informante local que conta uma
histria compsita, elaborada a partir das diferentes tradies que ele conhece.
    Uma tradio  uma mensagem transmitida de uma gerao para a seguinte.
Mas nem toda informao verbal  uma tradio. Inicialmente, distinguimos o
testemunho ocular, que  de grande valor, por se tratar de uma "imediata", no
transmitida, de modo que os riscos de distoro do contedo so mnimos. Alis,
toda tradio oral legtima deveria, na realidade, fundar-se no relato de um
testemunho ocular. O boato deve ser excludo, pois, embora certamente transmita
uma mensagem,  resultado, por definio, do ouvir dizer. Ao fim, ele se torna
to distorcido que s pode ter valor como expresso da reao popular diante
de um determinado acontecimento, podendo, no entanto, tambm dar origem
a uma tradio, quando  repetido por geraes posteriores. Resta, por fim, a
tradio propriamente dita, que transmite evidncias para as geraes futuras.
    A origem das tradies pode, portanto, repousar num testemunho ocular,
num boato ou numa nova criao baseada em diferentes textos orais existentes,
combinados e adaptados para criar uma nova mensagem. Mas somemte as
tradies baseadas em narrativas de testemunhos oculares so realmente vlidas,
o que os historiadores do Isl compreenderam muito bem. Desenvolveram uma
complicada tcnica para determinar o valor dos diferentes Hadiths, ou tradies
que se pretendiam palavras do Profeta, recolhidas por seus companheiros. Com
o tempo, o nmero de Hadiths tornou-se muito grande, e foi necessrio eliminar
aqueles para os quais a cadeia de informantes (Isnad) que ligava o erudito que
as havia registrado por escrito a um dos companheiros do Profeta no podia
ser estabelecida. Para cada ligao, o cronista islmico determinava critrios de
probabilidade e credibilidade idnticos aos empregados na crtica histrica atual.
Poderia a testemunha intermediria conhecer a tradio? Poderia compreend-
-la? Era seu interesse distorc-la? Poderia t-la transmitido? E, se fosse o caso,
quando, como e onde?
142                                                       Metodologia e pr-histria da frica



    Notaremos que a definio de tradies apresentada aqui no implica
nenhuma limitao, a no ser o verbalismo e a transmisso oral. Inclui,
portanto, no apenas depoimentos como as crnicas orais de um reino
ou as genealogias de uma sociedade segmentria, que conscientemente
pretenderam descrever acontecimentos passados, mas tambm toda uma
literatura oral que fornecer detalhes sobre o passado, muito valiosos por
se tratar de testemunhos inconscientes, e, alm do mais, fonte importante
para a histria das ideias, dos valores e da habilidade oral.
    As tradies so tambm obras literrias e deveriam ser estudadas como
tal, assim como  necessrio estudar o meio social que as cria e transmite
e a viso de mundo que sustenta o contedo de qualquer expresso de
uma determinada cultura.  por isso que nas sees seguintes trataremos
respectivamente da crtica literria e da questo do ambiente social e
cultural, antes de passarmos ao problema cronolgico e  avaliao geral
das tradies.


      A tradio como obra literria
    Numa sociedade oral, a maioria das obras literrias so tradies, e todas
as tradies conscientes so elocues orais. Como em todas elocues, a
forma e os critrios literrios influenciam o contedo da mensagem. Essa
 a principal razo das tradies serem colocadas no quadro geral de um
estudo de estruturas literrias e serem avaliadas criticamente como tal.
    Um primeiro problema  o da forma da mensagem. H quatro formas bsicas,
resultantes de uma combinao prtica de dois conjuntos de princpios. Em alguns
casos, as palavras so decoradas, em outros, a escolha  entregue ao artista. Em alguns
casos, uma srie de regras formais especiais so sobrepostas  gramtica da lngua
comum, em outros, no existe tal sistema de convenes.

      Formas fundamentais das tradies orais
                                                    contedo

                                      fixo           livre (escolha de palavras)
            estabelecida             poema                     epopeia
 forma
            livre                   frmula                    narrativa
A tradio oral e sua metodologia                                           143



    O termo "poema"  apenas um rtulo para todo o material decorado e dotado
de uma estrutura especfica, incluindo canes. O termo "frmula"  um rtulo
que frequentem ente inclui provrbios, charadas, oraes, genealogias, isto ,
tudo que  decorado, mas que no est sujeito a regras de composio, a no
ser s da gramtica corrente. Em ambos os casos, as tradies compreendem
no s a mensagem, mas tambm as prprias palavras que lhe servem de
veculo. Teoricamente, portanto, um arqutipo original pode ser reconstrudo,
exatamente como no caso das fontes escritas. Podem-se construir argumentos
histricos sobre as palavras e no apenas sobre o sentido geral da mensagem.
Todavia, acontece muitas vezes com as frmulas, e menos com os poemas, ser
impossvel reconstruir arqutipos devido ao grande nmero de interpolaes.
Por exemplo, quando se reconhece que o lema de um cl  o produto de uma
srie de emprstimos de outros lemas, sem que se possa identificar aquilo que
constitua o enunciado original e especfico. Pode-se muito bem compreender
por que as frmulas se prestam to facilmente  interpolao. Na realidade, no
existe nenhuma regra formal que impea esse processo.
    As fontes fixas so, em princpio, as mais valiosas, pois sua transmisso
 mais precisa. Na prtica, raras so as que tm o propsito consciente de
transmitir informaes histricas. Alm disso,  nesse caso que encontramos
arcasmos por vezes inexplicados. Nas lnguas bantu, seu significado pode ser
descoberto, pois  grande a probabilidade de uma lngua vizinha ter conservado
uma palavra com a mesma raiz que o arcasmo em questo. Em outros casos,
devemos nos conformar com o comentrio do informante, que pode repetir
um comentrio tradicional ou... invent-lo. Infelizmente, esse tipo de registro
oral vem carregado de aluses poticas, imagens ocultas, jogo de palavras com
mltiplos significados. No s  impossvel compreender qualquer coisa dessa
elocuo "hermtica" sem um comentrio, mas tambm, muitas vezes, s o autor
conhece todos os aspectos do seu significado. Mas ele no transmite tudo no
comentrio explicativo, de qualidade varivel, que acompanha a transmisso do
poema. Essa peculiaridade  bastante comum, especialmente no que se refere aos
poemas ou canes panegricos da frica meridional (Tsuana, Sotho), oriental
(a regio lacustre), central (Luba, Congo) ou ocidental (Ijo).
    A denominao "epopeia" significa que o artista pode escolher suas prprias
palavras dentro de um conjunto estabelecido de regras formais, como as rimas,
os padres tonais, o nmero de slabas, etc. Esse caso especfico no deve ser
confundido com as peas literrias longas, de estilo heroico, como as narrativas
de Sundiata, Mwindo (Zaire) e muitas outras. No gnero de que tratamos,
a tradio inclui a mensagem e a estrutura formal, nada mais. Muitas vezes,
144                                                       Metodologia e pr-histria da frica



entretanto, encontramos versos caractersticos, que servem para preencher
espao ou que simplesmente lembram ao artista o quadro ou a estrutura formal.
Alguns desses versos provavelmente datam da criao da epopeia. Tais "epopeias"
existem na frica? Acreditamos que sim e que algumas formas poticas, de
Ruanda especialmente, assim como as canes-fbulas dos Fang (Camares-
-Gabo), pertencem a essa categoria. Devemos notar que no se pode reconstruir
um verdadeiro arqutipo para esses poemas picos porque a escolha das palavras
 deixada ao artista. Todavia,  preciso salientar que os requisitos da forma so
tais que, provavelmente, todas as verses de uma "epopeia" baseiam-se num
nico original, o que frequentemente  demonstrado pelo estudo das variantes.
    A ltima categoria  a das "narrativas", que compreendem a maioria das
mensagens histricas conscientes. Nesse caso, a liberdade deixada ao artista
permite numerosas combinaes, muitas remodelaes, reajustes dos episdios,
ampliao das descries, desenvolvimentos, etc. Torna-se, ento, difcil reconstruir
um arqutipo. O artista  completamente livre, mas somente do ponto de vista
literrio: o seu meio social pode, s vezes, impor-lhe uma fidelidade rgida s fontes.
Apesar dessas dificuldades,  possvel descobrir a origem hbrida de uma tradio,
pela coleta de todas as suas variantes, inclusive das que no so consideradas
histricas, e recorrendo-se s variantes originrias dos povos vizinhos. Assim,
pode-se, por vezes, passar imperceptivelmente do mundo da histria para o pas
das maravilhas; por outro lado, eliminam-se as verses orais que no so baseadas
em narrativas de testemunho ocular. Essa abordagem crtica  essencial.
    Toda literatura oral tem sua prpria diviso em gneros literrios. O
historiador no s tentar apreender o significado desses gneros para a cultura
que est estudando, mas tambm colher ao menos uma amostra representativa
de cada um, pois em todos eles pode-se esperar encontrar informaes histricas,
alm do que, as tradies que o interessam particularmente so mais fceis de
se compreender quando analisadas no contexto geral. J a prpria classificao
interna fornece indicaes valiosas. Assim, podemos descobrir se os transmissores
de uma obra literria fazem distino, por exemplo, entre as narrativas histricas
e as de outros tipos.
    Os gneros literrios tambm esto sujeitos a convenes literrias, cujo
conhecimento  fundamental para se compreender o verdadeiro sentido da
obra. A questo nesse caso no  mais de regras formais, mas de escolha de
termos, expresses, prefixos pouco usuais, vrios tipos de licena potica. Uma
ateno maior deve ser dada s palavras ou expresses que possuem mltiplas
reverberaes. Alm disso, os termos-chave, intimamente ligados  estrutura
A tradio oral e sua metodologia                                              145



social,  concepo do mundo, e praticamente intraduzveis, exigem que se faa
uma interpretao  luz do contexto literrio no qual aparecem.
     impossvel coligir tudo. O historiador v-se obrigado, portanto, a levar em
considerao requisitos prticos e dever se dar por satisfeito uma vez obtida
uma amostra representativa de cada gnero literrio.
    Somente atravs da catalogao dos vrios tipos de narrativa pertencentes ao
grupo tnico em estudo, ou a outros grupos,  possvel discernir no s imagens
ou expresses favoritas, mas tambm os episdios estereotipados, como nas
narrativas que se poderia classificar como "lendas migratrias" (Wandersagen).
Por exemplo, uma narrativa luba das margens do lago Tanganica conta como um
chefe livrou-se de outro, convidando-o a sentar-se num tapete sob o qual havia
sido cavado um poo contendo estacas com pontas afiadas. O chefe sentou-
-se e morreu. O mesmo quadro pode ser encontrado dos grandes lagos at o
oceano, e tambm entre os Peul do Liptako (Alto Volta), os Haussa (Nigria)
e os Mossi de Yatenga (Alto Volta). A importncia desses episdios-clichs 
bvia. Infelizmente, no possumos nenhum livro de referncias til que trate
deles, embora H. Baumann mencione muitos temas-clichs que ocorrem em
narrativas sobre as origens de diversos povos1. J  tempo de se estabelecerem
catlogos prticos para a pesquisa desses esteretipos. Os chamados ndices de
motivos populares (Folk Motiv Index) so de difcil manuseio, e confusos, pois
se baseiam em caractersticas de menor importncia, escolhidas arbitrariamente,
enquanto, nas narrativas africanas, o episdio representa uma unidade natural
em um catlogo.
    Uma vez encontrado um clich desse tipo, no  correto rejeitar toda a
tradio, ou mesmo a parte que contm essa sequncia de eventos, como
destituda de valor. Devemos, sim, explicar por que o clich foi utilizado. No caso
mencionado, ele simplesmente explica que um chefe elimina outro e acrescenta
uma descrio de como isso foi feito, que  fictcia mas agrada aos ouvintes.
Com mais frequncia, perceberemos que esse tipo de clich constri explicaes
e comentrios para dados que podem ser perfeitamente legtimos.
    A crtica literria levar em considerao no apenas os significados literal e
pretendido de uma tradio, mas tambm as restries impostas, para a expresso
da mensagem, por requisitos formais e estilsticos. Avaliar o efeito da distoro
esttica, muito frequente. Afinal, mesmo as mensagens do passado no devem ser
enfadonhas demais!  neste ponto que a observao das representaes sociais


1    BAUMANN, H. 1936.
146                                                       Metodologia e pr-histria da frica



relativas  tradio  de fundamental importncia. Dizemos representao em
lugar de reproduo, porque na maioria dos casos est em jogo um elemento
esttico. Se os critrios estticos prevalecerem sobre a fidelidade da reproduo,
ocorrer uma forte distoro esttica, refletindo o gosto do pblico e a arte da
pessoa que transmite a tradio. Mesmo em outros casos, encontramos arranjos
de textos que chegam a vestir as tradies de contedo histrico especfico com o
uniforme dos padres artsticos correntes. Por exemplo, nas narrativas, uma srie
de episdios que levam a um clmax formam a trama principal, enquanto outros
constituem repeties paralelas sofisticadas e outros, ainda, representam apenas
transies de uma etapa da narrativa para outra. Como regra geral, pode-se admitir
que, quanto mais uma narrativa se conforma ao modelo-padro de excelncia e
quanto mais  admirada pelo pblico, mais  distorcida. Numa srie de variantes,
pode-se, s vezes, discernir a variante correta pelo fato de ir contra esses padres,
assim como uma variante que contradiz a funo social de uma tradio tem mais
probabilidade de ser verdadeira que as outras. No devemos esquecer, entretanto,
que nem todos os artistas da palavra so excelentes. H os de pouco talento, e suas
variantes sero sempre sofrveis. Mas a atitude do pblico, como o cenrio de uma
representao, no  exclusivamente um fato artstico.  acima de tudo um fato
social, e isso nos obriga a considerar a tradio em seu meio social.


      Contexto social da tradio
    Tudo que uma sociedade considera importante para o perfeito funcionamento
de suas instituies, para uma correta compreenso dos vrios status sociais
e seus respectivos papis, para os direitos e obrigaes de cada um, tudo 
cuidadosamente transmitido. Numa sociedade oral isso  feito pela tradio,
enquanto numa sociedade que adota a escrita, somente as memrias menos
importantes so deixadas  tradio.  esse fato que levou durante muito tempo
os historiadores, que vinham de sociedades letradas, a acreditar erroneamente
que as tradies eram um tipo de conto de fadas, cano de ninar ou brincadeira
de criana.
    Toda instituio social, e tambm todo grupo social, tem uma identidade
prpria que traz consigo, um passado inscrito nas representaes coletivas de
uma tradio, que o explica e o justifica. Por isso, toda tradio ter sua "superfcie
social", utilizando a expresso empregada por H. Moniot. Sem superfcie social, a
tradio no seria mais transmitida e, sem funo, perderia a razo de existncia
e seria abandonada pela instituio que a sustenta.
A tradio oral e sua metodologia                                               147



    Poderamos ser tentados a seguir alguns estudiosos que acreditavam poder
dizer a priori qual a natureza ou perfil do corpus de tradies histricas de uma
determinada sociedade, a partir da classificao das coletividades em tipos
como "Estados", "sociedades sem Estado", etc. Embora seja verdade que as
diversas sociedades africanas possam ser, grosso modo, classificadas de acordo
com tais modelos,  fcil demonstrar que essas tipologias podem se estender ao
infinito, pois cada sociedade  diferente, e os critrios utilizados so arbitrrios
e limitados. No existem dois Estados idnticos ou mesmo semelhantes nos
detalhes. H imensas diferenas entre as linhas-mestras da organizao das
sociedades Massai (Qunia- Tanznia), Embu (Qunia), Meru (Qunia) e Galla
(Qunia- Etipia), embora todas elas possam ser classificadas como sociedades
baseadas em classes etrias e estejam situadas na mesma regio da frica. Se
se desejasse examinar um caso de uma sociedade dita simples, sem Estado,
composta de pequenos grupos estruturados por mltiplas linhagens, poder-
-se-ia pensar que os Gouro (Costa do Marfim) constitussem bom exemplo.
Esperando encontrar um perfil de tradies contendo somente histrias de
linhagens e genealogias  e realmente o encontramos , deparamo-nos tambm
com uma histria esotrica transmitida por uma sociedade secreta. Tomemos
o caso dos Tonga do Zmbia: encontramos novamente a histria da linhagem,
mas tambm histrias de centros rituais animados pelos fazedores de chuva.
No h uma nica sociedade desse tipo que no apresente uma instituio
importante "inesperada". Entre os Estados, o caso extremo , certamente, o do
reino dos Bateke (Tio), em que a tradio real no remonta a mais do que duas
geraes, embora os reinos devam ter tradies muito antigas. Podemos ir mais
longe no tempo coligindo as tradies dos smbolos mgicos dos nobres do que
seguindo as tradies relativas ao smbolo real! Generalizaes apressadas sobre
o valor das tradies seriam absolutamente despropositadas. O perfil de um
determinado corpus de tradies s pode ser determinado a posteriori.
     evidente que as funes preenchidas pelas tradies tendem a distorc-
-las.  impossvel estabelecer uma lista completa dessas funes, em parte
porque uma tradio pode assumir diversas funes e pode desempenhar um
papel mais ou menos preciso ou difuso em relao a elas. Mas principalmente
porque a palavra "funo"  por si s confusa.  utilizada com frequncia para
descrever tudo o que serve para fortalecer ou manter a instituio da qual
depende. Como a relao no  tangvel, a imaginao pode produzir uma
lista infinita de funes "a preencher", no sendo possvel nenhuma escolha.
Entretanto, no  difcil distinguir certos propsitos precisos, manifestos ou
latentes, assumidos por algumas tradies. H, por exemplo, as "cartas mticas",
148                                                       Metodologia e pr-histria da frica



as histrias das dinastias, genealogias, listas de reis, que podem ser consideradas
como verdadeiras constituies no-escritas. Podemos ampliar essa categoria
pela incluso de todas as tradies que tratam dos assuntos pblicos legais,
por exemplo, as que mantm os direitos pblicos sobre a propriedade. Trata-
-se, geralmente, de tradies oficiais, uma vez que aspiram a uma legitimidade
universal para a sociedade. As tradies particulares, associadas a grupos ou
instituies incorporados a outros grupos, no sero to bem conservadas, pois
tm menor importncia, embora, em geral, estejam mais prximas da verdade
que as demais tradies. Todavia, convm destacar que as tradies particulares
so oficiais para o grupo que as transmite. Assim, uma histria de famlia 
particular em comparao  histria de todo um Estado, e o que ela diz sobre
o Estado est menos sujeito a controle do Estado que uma tradio pblica
oficial. Mas dentro da prpria famlia, a tradio particular torna-se oficial.
Em tudo o que diz respeito  famlia, ela deve, portanto, ser tratada como tal.
Compreende-se, assim, por que  to importante utilizar histrias familiares ou
locais para esclarecer questes de histria poltica geral. Seu testemunho est
menos sujeito a distoro e pode oferecer uma verificao efetiva das asseres
feitas pelas tradies oficiais. Por outro lado, como dizem respeito somente a
subgrupos, a profundidade e o cuidado com que so transmitidas so, de modo
geral, pouco satisfatrios, como atestam as inmeras variantes.
    Entre outras funes comuns, podemos mencionar sucintamente a religiosa e a
litrgica (como realizar um ritual), as funes jurdicas particulares (precedentes),
as estticas, didticas e histricas, a funo do comentrio de um registro oral
esotrico e a que os antroplogos chamam de funo mtica. As funes e o
gnero literrio considerados em conjunto podem constituir para o historiador
uma tipologia vlida, que lhe permitir fazer uma avaliao geral das provveis
distores que suas fontes podem ter sofrido, fornecendo-lhe indicaes relativas
 transmisso. Para tomar apenas os tipos que so obtidos por esse processo de
seleo, podemos distinguir os nomes, os ttulos, os slogans ou lemas, frmulas
rituais, frmulas didticas (provrbios), listas de topnimos, de antropnimos,
genealogias, etc. Do ponto de vista da forma bsica, podemos classificar todos
esses casos como "frmulas". Poemas histricos, panegricos, litrgicos ou
cerimoniais, religiosos, pessoais (lricos e outros), canes de todos os tipos
(canes de ninar, de trabalho, caa e canoagem, etc.) so "poemas", tambm
do mesmo ponto de vista. A "epopeia" como forma bsica  representada por
certos poemas que no correspondem ao que o termo normalmente conota. Por
ltimo, a "narrativa" inclui a narrativa geral, histrica ou outras, narrativas locais,
familiares, picas, etiolgicas, estticas e memrias pessoais. Devemos tambm
A tradio oral e sua metodologia                                               149



incluir aqui precedentes legais que raramente so transmitidos pela tradio oral,
comentrios sobre registros orais e as notas ocasionais, que so essencialmente
respostas curtas a perguntas do tipo: "Como comeamos a cultivar milho?", "De
onde veio a mscara de dana?", etc.
    Dessa lista pode-se imediatamente observar o que pode ser a ao deformadora
de uma instituio em cada um desses tipos. Mas ainda  preciso demonstrar
que essa ao realmente ocorreu ou que a probabilidade de distoro  muito
grande. Geralmente,  possvel mostrar que uma tradio  vlida porque no
sofreu as distores esperadas. Por exemplo, um povo diz que  "mais novo"
que outro, uma crnica real admite uma derrota, uma frmula particular que
deveria explicar a geografia fsica e humana de um pas no se conforma mais 
realidade. Em todos esses casos a anlise comprova a validade da tradio, pois
esta resistiu ao processo nivelador.
    Em seu trabalho sobre o fenmeno da escrita (capacidade de ler e
escrever), Goody e Watt afirmam que uma sociedade oral tende, constante e
automaticamente,  homeostase, que apaga da memria coletiva  da a expresso
"amnsia estrutural"  qualquer contradio entre a tradio e sua superfcie
social. Mas os casos mencionados acima mostram que essa homeostase  s
parcial. No se pode negar, portanto, o valor histrico das tradies unicamente
por desempenharem certas funes. Segue-se, ainda, que cada tradio deve ser
submetida a estrita crtica sociolgica. No mesmo trabalho, esses autores afirmam
que a cultura de uma sociedade verbal  homogeneizada, isto , que o contedo,
em termos de conhecimento, do crebro de cada adulto  aproximadamente
o mesmo. Isso no  totalmente verdadeiro. Especialistas artesos, polticos,
legistas e religiosos sabem muitas coisas que seus contemporneos do mesmo
grupo tnico desconhecem. Cada grupo tnico tem seus pensadores. Entre os
Kuba (Zaire), por exemplo, encontramos trs homens que, com base num mesmo
sistema de smbolos, haviam estabelecido trs filosofias diferentes, e supomos
que o mesmo se d entre os Dogon. Quanto s tradies, observamos que em
muitos grupos h tradies esotricas secretas, que so privilgio de um grupo
restrito, e tradies exotricas pblicas. Por exemplo, a famlia real ashanti sabia
a histria secreta de sua origem, enquanto o grande pblico conhecia somente a
verso oficial. Em Ruanda, somente os especialistas biiru conheciam os rituais da
realeza, e, mesmo assim, eles s os conheciam na sua totalidade quando estavam
todos juntos, j que cada grupo de biiru tinha conhecimento apenas de uma parte
deles. Em quase todos os rituais de entronizao na frica encontramos prticas
e tradies secretas. Isso significaria que a tradio esotrica  necessariamente
mais acurada que a tradio exotrica? Depende do contexto. Afinal, as tradies
150                                                                     Metodologia e pr-histria da frica



esotricas tambm podem ser distorcidas por razes imperativas, que sero
ainda mais imperativas se o colgio que possui o segredo foi um grupo-chave da
sociedade. Devemos ressaltar que, empiricamente, conhecemos at agora muito
poucas tradies esotricas, e porque a antiga ordem em que tm suas razes no
desapareceu por completo. As que conhecemos provm de sociedades que tm
sofrido importantes transformaes, e muitas tradies sem dvida desaparecero
sem deixar registro. Todavia, a partir de fragmentos que possumos, podemos
afirmar que certas tradies ogboni da nao Ioruba tm sido to distorcidas que
no mais constituem mensagens vlidas no que diz respeito s origens do ogboni,
enquanto as tradies biiru, por exemplo, parecem ter maior validade. Isso se
deve no ao carter esotrico, mas ao propsito dessas tradies: as primeiras
legitimam um poder forte detido por um pequeno grupo de homens, enquanto
as segundas so apenas a memorizao de um ritual prtico.
    Cada tradio tem sua prpria superfcie social. Para encontrar as tradies e
analisar a qualidade de sua transmisso, o historiador deve, portanto, conhecer,
o mais detalhadamente possvel, o tipo de sociedade que est estudando. Deve
examinar todas as suas instituies para isolar as tradies, e tambm esmiuar
todos os gneros literrios para obter informaes histricas.  o grupo dirigente
de uma sociedade que retm a posse das tradies oficiais, e sua transmisso
 geralmente realizada por especialistas, que utilizam meios mnemotcnicos
(geralmente canes) para reter os textos. s vezes h o controle de colegas
em ensaios privados ou na representao pblica associada a uma cerimnia
importante. Os especialistas, entretanto, nem sempre esto ligados ao poder. 
o caso dos genealogistas, dos tamborileiros de chefes ou de reis, dos guardas de
tmulos2 e dos pregadores de religies nacionais. Mas h tambm especialistas
em outros nveis. Entre os Xhosa (frica do Sul), h mulheres especializadas
na arte de representar histrias engraadas, ntsomi. H tambm outros que
sabem faz-la, mas no se especializam nisso. Estes geralmente tomam parte
em espetculos populares. Alguns celebrantes de ritos religiosos tambm so
especialistas em tradies orais: os guardas dos mhondoro shona (Zimbabwe)
conhecem a histria dos espritos confiados  sua guarda. Alguns, como os
griots, so trovadores que renem tradies em todos os nveis e representam os
textos convencionados, diante de uma audincia apropriada, em certas ocasies
 casamento, morte, festa na residncia de um chefe, etc.  raro no haver
especializao, mesmo no nvel da histria da terra ou da famlia. Sempre h

2     Em alguns pases, essas pessoas fazem parte da classe governante;  o caso, por exemplo, do Bendnaba
      (chefe dos tambores) dos Mossi.
A tradio oral e sua metodologia                                              151



indivduos socialmente superiores (os abashinga ntabe do Burundi para questes
de terra, por exemplo) ou de maior aptido encarregados da memorizao e
transmisso das tradies. Enfim, uma ltima categoria de pessoas bem-
-informadas (para as quais dificilmente podemos aplicar o termo especialista)
 constituda por indivduos que vivem perto de lugares histricos importantes.
Nesse caso, o fato de se viver exatamente no local, por exemplo, onde uma
batalha foi travada, atua como meio mnemotcnico no registro da tradio.
    Um exame da "superfcie social" torna possvel, portanto, descobrir tradies
existentes, coloc-las em seu contexto, achar especialistas responsveis por elas e
estudar as transmisses. Esse exame tambm torna possvel descobrir indicaes
valiosas sobre a frequncia e a forma das prprias representaes. A frequncia
 um indicador da fidelidade da transmisso. Entre os Dogon (Mali), o ritual
do Sigi  transmitido somente uma vez a cada sessenta anos aproximadamente.
Isso favorece o esquecimento; so muito raros os que j viram dois Sigi e
apreenderam o suficiente na primeira representao para serem capazes de
dirigir a segunda. Somente as pessoas com 75 anos, pelo menos, podem faz-
-lo. Podemos supor que o contedo do Sigi e a informao fornecida variaro
mais radicalmente que uma forma de tradio como a de um festival no sul da
Nigria que  repetido todo ano. Mas, por outro lado, uma frequncia elevada
de representaes no significa necessariamente uma fidelidade acentuada na
transmisso. Isso vai depender da sociedade em questo. Se a sociedade necessita
de uma fidelidade estrita, a frequncia ajudar a mant-la.  o caso das frmulas
mgicas, como, por exemplo, certas frmulas para exorcizar a bruxaria. Explica-
-se, assim, por que algumas frmulas mboon (Zaire) para fazer parar a chuva
situam-se num contexto geogrfico to arcaico que nenhum dos elementos
mencionados pode ser encontrado na regio Mboon atual. Por outro lado, se
a sociedade no atribui nenhuma importncia  fidelidade da transmisso, a
grande frequncia da representao altera a transmisso mais rapidamente do
que uma frequncia menor. Temos, por exemplo, o caso das canes  moda e
especialmente das narrativas populares mais apreciadas. Tudo isso pode e, de
fato, deve ser verificado pelo estudo das variantes coletadas. Seu nmero  um
reflexo direto da fidelidade da transmisso.
    Ao que parece, as alteraes tendem invariavelmente a aumentar a homeostase
entre a instituio e a tradio que a acompanha; nesse ponto Goody e Watt
tm certa razo. Se as variantes existem e mostram uma tendncia bem definida,
podemos deduzir que as menos conformistas em relao aos objetivos e funes
da instituio so as mais vlidas. Alm disso,  possvel, por vezes, mostrar
que uma tradio no  vlida, seja em caso de ausncia de variantes, quando a
152                                                     Metodologia e pr-histria da frica



tradio tornou-se um clich do tipo: "Viemos todos de X", X correspondendo
perfeitamente s necessidades da sociedade; seja quando, como na narrativa
popular, as variantes so to divergentes que  quase impossvel reconhecer o
que constitui uma tradio e a separa das outras. Nesse caso, torna-se evidente
que a maioria das verses so elaboraes mais ou menos recentes, que tm
por base outras narrativas populares. Nesses dois casos extremos, entretanto, 
preciso poder demonstrar que a ausncia de variantes realmente corresponde
a uma forte motivao da sociedade, assim como a proliferao de variantes
corresponde a consideraes estticas ou a uma necessidade de divertimento
que suplanta qualquer outra considerao. Ou, ento, deve-se poder demonstrar
que os postulados inconscientes da civilizao homogeneizaram a tradio de
maneira tal que esta se tornou um clich sem variantes.  precisamente essa
influncia da civilizao que deve ser examinada agora, feita a crtica sociolgica.


      Estrutura mental da tradio
    Por estrutura mental entendemos as representaes coletivas inconscientes
de uma civilizao, que influenciam todas as suas formas de expresso e ao
mesmo tempo constituem sua concepo do mundo. Essa estrutura mental
varia de uma sociedade para outra. A nvel superficial,  relativamente fcil
descobrir parte dessa estrutura, atravs da aplicao de tcnicas clssicas da
crtica literria ao contedo de todo o corpus de tradies e da comparao
desse corpus com outras manifestaes, sobretudo as simblicas, da civilizao.
A tradio sempre idealiza; especialmente no caso de poemas e narrativas. Ela
cria esteretipos populares. Toda histria tende a tornar-se paradigmtica e,
consequentemente, mtica, seja o seu contedo "verdadeiro" ou no. Assim,
encontramos modelos de comportamentos ideais e de valores. Nas tradies de
reis, os personagens tornam-se estereotipados, como num western, e, portanto,
facilmente identificveis. Um rei  o "mgico", um outro governante  o "justo",
outra pessoa  o "guerreiro". Mas isso distorce a informao; algumas guerras,
por exemplo, so atribudas ao rei guerreiro, quando as campanhas foram de
fato conduzidas por outrem. Alm disso, todos os reis possuem, em comum,
caractersticas que refletem uma noo idealizada da realeza. Tambm no 
difcil encontrar esteretipos de diferentes personagens, especialmente de lderes,
em outras sociedades.  o caso do "heri cultural", frequentemente encontrado,
que transforma o caos numa sociedade bem ordenada. A noo estereotipada de
caos , no caso, a descrio de um mundo literalmente s avessas. Encontramos
A tradio oral e sua metodologia                                                153



tambm mais de um esteretipo do heri fundador. Entre os Igala (Nigria),
alguns fundadores so caadores, outros so descendentes de reis. Os primeiros
representam um status adquirido, os ltimos, um status hereditrio (atribudo).
Na tentativa de explicar por que h dois tipos de status, sugeriu-se que o primeiro
esteretipo oculta a ascenso ao poder de novos grupos e que os dois esteretipos
refletem duas situaes histricas bastante diferentes.
    Uma explicao verdadeiramente satisfatria deveria, entretanto, revelar o
sistema completo de valores e ideais relacionados a status e papis sociais, que
constituem a prpria base de toda ao social e de todo sistema global. Isso s
foi possvel recentemente, quando McGaffey descobriu que os Kongo (Zaire,
Repblica Popular do Congo) possuem um sistema estereotipado simples de
quatro status ideais  feiticeiro, adivinho, chefe, profeta  que so complementares.
 fcil descobrir um valor geral positivo ou negativo: a apreciao da generosidade,
a rejeio da inveja como sinal de feitiaria, ou o papel do destino  so todos
valores imediatamente observveis nas tradies do golfo de Benin e da regio
interlacustre. Mas os valores so descobertos um por um e no como sistema
coerente que compreende todas as representaes coletivas, pois valores e
ideais descrevem somente as normas para um comportamento ideal ou por
vezes cinicamente realista, que devem guiar o comportamento real e os papis
esperados de cada um. Os papis esto relacionados s posies sociais, e estas
s instituies, e o conjunto constitui a sociedade. Teoricamente, portanto, 
preciso "desmontar" uma sociedade para encontrar seus modelos de ao, seus
ideais e valores. Em geral, o historiador faz isso inconscientemente e de modo
superficial. Evita as armadilhas evidentes, mas involuntariamente tende a adotar
as premissas impostas pelo sistema como um todo. No consegue separar suas
fontes do meio que as envolve. Falamos por experincia prpria, aps ter passado
dezoito anos tentando detectar relaes desse tipo na distoro das tradies de
origem kuba (Zaire).
    Entre as representaes coletivas que mais influenciam a tradio, notaremos
sobretudo uma srie de categorias de base que precedem a experincia dos
sentidos. So as do tempo, do espao, da verdade histrica, da causalidade. H
outras de menor importncia como, por exemplo, a diviso do espectro em cores.
Todo povo divide o tempo em unidades, baseando-se em atividades humanas
ligadas  ecologia ou em atividades sociais peridicas (tempo estrutural). As
duas formas de tempo so utilizadas em toda parte. O dia  separado da noite; 
dividido em partes que correspondem ao trabalho ou refeies, e as atividades so
relacionadas com a altura do sol, a voz de certos animais (para dividir as horas da
noite), etc. Os meses (lunares), as estaes e o ano so geralmente definidos pelo
154                                                   Metodologia e pr-histria da frica



ambiente e as atividades que dele dependem, mas, alm disso, deve-se cont-los
em unidades de tempo estrutural. Mesmo nesse caso, a semana  determinada
por um ritmo social, como, por exemplo, a periodicidade dos mercados, que
tambm  associada, em muitos casos, a uma periodicidade religiosa.
    Perodos mais longos que o ano so contados pela iniciao a um culto,
a um grupo de idade, por reinos ou geraes. A histria das famlias pode
ser estabelecida com base nos nascimentos, que constituem um calendrio
biolgico. Fazem-se referncias a acontecimentos excepcionais, como grandes
fomes, grandes deflagraes de doena animal, ou epidemias, cometas, pragas de
gafanhotos, mas esse calendrio de catstrofes  forosamente vago e irregular.
 primeira vista, esse tipo de computao parece ser de pouca utilidade para
a cronologia, enquanto os acontecimentos recorrentes parecem possibilitar a
converso da cronologia relativa em cronologia absoluta, uma vez conhecida
a frequncia das genealogias, grupos de idade, reinos, etc. Voltaremos a esse
assunto posteriormente.
    A profundidade temporal mxima alcanada pela memria social depende
diretamente da instituio que est ligada  tradio. Cada instituio tem
sua prpria profundidade temporal. A histria da famlia no remonta  um
passado muito distante porque esta conta apenas trs geraes, e porque, de
modo geral, h pouco interesse em lembrar acontecimentos anteriores. Portanto,
as instituies que englobam maior nmero de pessoas se prestam melhor a nos
fazer mergulhar mais fundo no tempo. Isso se verifica para o cl, a linhagem
mxima de descendncia, o grupo de idade do tipo massai e a realeza. Na savana
sudanesa, as tradies dos reinos e imprios de Tecrur, Gana e Mali, retomadas
por autores rabes e sudaneses, remontam ao sculo XI. s vezes, entretanto,
todas as instituies so limitadas pela mesma concepo da profundidade do
tempo como, por exemplo, entre os Bateke (Repblica Popular do Congo), onde
tudo  remetido  gerao do pai ou do av. Tudo, inclusive a histria da famlia
real,  dividido entre par e mpar, o mpar pertencendo ao tempo dos "pais", e
o par, ao dos "avs".
    Esse exemplo mostra que a noo da forma do tempo  muito importante. Na
regio interlacustre, h casos em que o tempo  visto como um ciclo. Mas, como
os ciclos se sucedem, o conceito vai dar numa espiral. Numa outra perspectiva,
para as mesmas sociedades, distinguem-se eras, principalmente a era do caos e
a era histrica. Para outras, como entre os Bateke, o tempo no  linear: oscila
entre geraes alternadas. As consequncias sobre o modo como se apresentam
as tradies so evidentes.
A tradio oral e sua metodologia                                                 155



    J no  to bvio que a noo de espao seja de interesse nesse contexto. Mas
h uma tendncia geral a situar a origem de um povo num lugar ou direo de
prestgio: direo "sagrada" ou "profana" de acordo com o pensamento de que o
homem evolui do sagrado para o profano ou vice-versa. Cada povo imps um
sistema de direes  sua geografia. So geralmente os rios que do o eixo das
direes cardinais. A maioria das sociedades ento fixa a direo de suas aldeias,
s vezes de seus campos (Kukuya, Repblica Popular do Congo), segundo
esse sistema de eixos, que utilizam tambm para orientar seus tmulos. As
consequncias so s vezes inesperadas. Um espao ordenado segundo um nico
eixo que faz parte do relevo muda com a disposio relativa dos elementos do
relevo. Aqui, a jusante  a oeste, ali, a norte; aqui, ir em direo ao cume  ir para
leste, ali, para oeste. No s observamos que as migraes podem vir de direes
privilegiadas, como  o caso dos Kuba (Zaire) ou dos Kaguru (Tanznia), e que
a narrativa correspondente  mais uma cosmologia que uma histria, como
tambm chegamos a encontrar variaes nos pontos de origem dependendo
dos acidentes do relevo geogrfico. Somente as sociedades que se baseiam nos
movimentos do sol para determinar o eixo do espao podem dar informao
exata a respeito dos movimentos migratrios gerais; esses povos infelizmente
so uma minoria, exceto talvez na frica ocidental, onde a maioria refere-se ao
leste como seu lugar de origem.
    A noo de causa est implcita em toda tradio oral. Geralmente, 
apresentada na forma de causa imediata e separada para cada fenmeno. Cada
coisa tem uma origem, que se situa diretamente no incio dos tempos. Pode-se
compreender melhor o que  a causalidade examinando-se as causas atribudas ao
mal. Muito frequentemente elas tm relao direta com a feitiaria, os ancestrais,
etc., e a relao  imediata. Resulta desse tipo de causalidade que a mudana 
percebida sobretudo em alguns campos claramente definidos, como a guerra,
sucesso real, etc., em que os esteretipos intervm. Para terminar, salientamos
que esse esboo da noo de causa  muito sumrio e deve ser complementado
por noes de causa mais complexas mas paralelas a estas e que afetam somente
instituies sociais menores.
    Quanto  verdade histrica, est sempre estreitamente ligada  fidelidade do
registro oral transmitido. Assim, ela pode ser ou o consenso dos governantes
(Idoma, Nigria), ou a constatao de que a tradio est em conformidade com
o que disse a gerao anterior.
    As categorias cognitivas combinam-se e unem-se a expresses simblicas
de valor, para produzir um registro que os antroplogos qualificam de "mito".
As tradies mais sujeitas a uma reestruturao mtica so as que descrevem
156                                                   Metodologia e pr-histria da frica



a origem e, consequentemente, a essncia, a razo de ser de um povo. Assim,
um grande nmero de complexas narrativas kuba, que tratam da origem desse
povo e descrevem migraes em canoas, pde finalmente ser explicado com a
descoberta de um conceito latente de migrao: para o povo Kuba, a migrao
se faz em canoas, da jusante (sagrado) para o montante (profano). Da mesma
forma se explicaram nomes de migraes e de regies de origem apresentados
em termos de cosmogonia. Na narrativa kuba a correlao no estava clara, mas
em muitos outros grupos tnicos, aparece explicitamente.  assim que muitos
etnlogos, seguindo infelizmente o exemplo de Beidelman, estruturalistas ou
socilogos funcionalistas terminaram por negar qualquer valor s tradies
narrativas porque, dizem eles, so a expresso das estruturas cognitivas do
mundo, que sustentam todo o pensamento a priori, como categorias imperativas.
O mesmo julgamento deveria ento ser aplicado ao texto que voc est lendo
ou ao do prprio Beidelman... Obviamente, esses antroplogos exageram. Alm
disso, muitas de suas interpretaes parecem hipotticas. O historiador deve
lembrar que, para cada caso particular,  preciso especificar as razes que se
tem para rejeitar ou questionar uma tradio. S se pode rejeitar uma tradio
quando a probabilidade de uma criao de significado puramente simblico 
realmente forte e se possa provar. Pois, em geral, as tradies refletem tanto
um "mito", no sentido antropolgico do termo, como informaes histricas.
Nessas circunstncias, os manuais de histria so textos de mitologia, j que
todo esteretipo que se origina de um sistema de valores e interesses  no s
uma mensagem mtica, mas tambm um cdigo secreto histrico  espera de
decifrao.


      A cronologia
    Sem cronologia, no h histria, pois no se pode distinguir o que precede do
que sucede. A tradio oral sempre apresenta uma cronologia relativa, expressa
em listas ou em geraes. Em geral, essa cronologia permite situar todo o
conjunto de tradies da regio em estudo no quadro da genealogia ou da lista
de reis ou de grupos de idade que abrange a mais ampla rea geogrfica, mas no
permite estabelecer a sequncia relativa aos acontecimentos exteriores quela
regio particular. Grandes movimentos histricos e mesmo certas evolues
locais passam despercebidos ou restam duvidosos, porque a unidade disponvel
para a cronologia  geograficamente muito restrita. A genealogia familiar 
vlida apenas para determinada famlia e para a aldeia ou aldeias que ela habita.
A tradio oral e sua metodologia                                              157



A cronologia dos Embu (Qunia) , por exemplo,  baseada em grupos de idade
que cobrem apenas uma diminuta rea territorial, na qual os jovens so iniciados
ao mesmo tempo. As cronologias relativas devem, portanto, ser associadas e, se
possvel, convertidas em cronologias absolutas. Mas antes h um outro problema
a ser resolvido: o de se assegurar que as informaes utilizadas correspondem a
uma realidade no distorcida pelo tempo.
    Torna-se cada vez mais claro que a cronologia oral est sujeita a processos
de distoro concomitantes e que agem em sentidos opostos: s vezes encurtam
e s vezes prolongam a verdadeira durao dos acontecimentos passados. H
tambm uma tendncia a regularizar as genealogias, as sucesses e a sequncia
de grupos de idade, para conform-las s normas ideais da sociedade no momento.
Do contrrio, os dados forneceriam precedentes para litgios de todo tipo. O
processo homeosttico  bastante real. Em certos casos especiais, como em
Ruanda, por exemplo, a tarefa de gerir a tradio recai sobre um complexo
grupo de especialistas, cujas afirmaes tm sido corroboradas por escavaes
arqueolgicas.
    Etnlogos mostraram que as sociedades chamadas segmentrias tendem a
eliminar ancestrais "inteis", isto , os que no deixaram descendentes que ainda
vivam e constituam um grupo separado. Isso explica por que a profundidade
genealgica de cada grupo numa determinada sociedade tende a permanecer
constante. Somente os ancestrais "teis" so utilizados para explicar o presente.
Isso leva, por vezes, a uma grande condensao da profundidade genealgica.
Alm do mais, acidentes demogrficos s vezes reduzem um ramo de descendentes
a um nmero to pequeno, em comparao com outros ramos descendentes dos
irmos e irms do fundador do primeiro ramo, que este no pode mais existir
paralelamente aos grandes grupos vizinhos, sendo ento absorvido por um deles.
A genealogia ser reajustada, e o fundador do grupo pequeno substitudo pelo do
grupo maior (que o absorve). A genealogia , assim, simplificada. A identidade
de um grupo tnico em geral  expressa por um nico ancestral colocado na
origem de uma genealogia.  o "primeiro homem", um heri fundador, etc.
Ser o pai ou a me do primeiro ancestral "til". Desse modo, a lacuna entre
a origem e a histria consciente fica escamoteada. A operao de todo esse
processo infelizmente levou, muitas vezes, a uma situao em que  praticamente
impossvel remontar, com segurana, a mais do que umas poucas geraes.
    Acreditava-se que muitas sociedades africanas, e especialmente as monarquias,
tivessem escapado a esse processo. No havia razo para que a lista de sucesso dos
reis estivesse incorreta, que sua genealogia fosse duvidosa, exceto que, algumas
vezes, era falsificada quando uma dinastia substitua outra e se apoderava da
158                                                     Metodologia e pr-histria da frica



genealogia da precedente a fim de se legitimar. O nmero de reis e geraes
continuava aparentemente correto. Estudos recentes, mais detalhados, mostram
que essa posio no se justifica inteiramente. Os processos de condensao,
alongamento e regularizao podem afetar as tradies dinsticas tanto quanto
as outras. Em listas de reis, por exemplo, os nomes de usurpadores, isto , dos que
so considerados usurpadores naquele momento, ou em qualquer poca aps seu
reinado, so s vezes omitidos, assim como os de muitos reis que no passaram
por todas as cerimnias de iniciao que, em geral, so muito longas. O reinado
de um rei que abdica e em seguida retorna ao poder  s vezes contado como
um nico governo. Tudo isso encurta o processo histrico.
    Onde a sucesso  patrilinear e primogenitiva, como na regio interlacustre,
a tendncia  regularizao dos fatos resultou num surpreendente nmero de
sucesses regulares  isto , o filho sucedendo ao pai , que ultrapassa de muito a
mdia, e mesmo os recordes observados em outras partes do mundo. Esse processo
de regularizao produziu uma genealogia tpica, retilnea, desde os mais antigos
tempos at o sculo XIX aproximadamente, quando se tornou arborescente. O
resultado  o alongamento da dinastia pelo aumento do nmero de geraes,
uma vez que os colaterais so apresentados como pais e filhos. A confuso
entre homnimos e entre nome de reino ou ttulo e nome pessoal, assim como
outros detalhes desse tipo, pode estender ou encurtar a lista. Como, durante os
tempos coloniais, especialmente em regies sob administrao indireta, era forte
a presso para alongar as dinastias (pois as sociedades europeias  como muitas
africanas  tm um grande respeito pela antiguidade), empregaram-se todos
os meios possveis. mesmo ambguos, com aquela finalidade. Todos os nomes
foram, ento, utilizados; ciclos de nomes reais foram desdobrados, se necessrio,
ou agrupados; podaram-se os ramos colaterais a fim de alongar-se o tronco.
    Por ltimo, e sempre no caso dos reinos, encontram-se comumente lacunas
entre o heri fundador, que pertence  cosmogonia, e o primeiro rei histrico
"til". Somente uma investigao muito cuidadosa pode determinar se nesses
casos particulares os processos descritos realmente ocorreram. A esse respeito,
a presena de irregularidades na sucesso e nas genealogias  a melhor garantia
de autenticidade, pois denota uma resistncia ao nivelamento homeosttico.
    Sociedades de classes de idade ainda no foram submetidas a esse tipo de
exame sistemtico. Alguns casos mostram que os processos de regularizao
intervm para organizar os ciclos ou para reduzir a confuso produzida pelos
homnimos. Mas os diferentes tipos de sucesso de classes de idade ainda tm
que ser estudados. No podemos generalizar, exceto para dizer que o problema
A tradio oral e sua metodologia                                             159



suscitado  anlogo ao das genealogias, porque tambm aqui a gerao  a
unidade.
    Um estudo estatstico completo, que forneceu grande parte das informaes
acima mencionadas, constatou que a durao mdia de uma gerao dinstica
est entre 26 e 32 anos. A amostra era principalmente patrilinear, mas as
dinastias matrilineares no se agrupam, por exemplo, no segmento inferior da
distribuio estatstica, e a informao, portanto, seria vlida para elas tambm.
A durao mdia dos reinados varia tanto com o sistema de sucesso que
nenhuma informao genrica de valor pode ser fornecida. Mesmo no caso de
tipos idnticos de sucesso, so encontradas divergncias considerveis entre
diferentes dinastias.
    Com base nas informaes acima expostas, pode-se converter uma cronologia
relativa de geraes em cronologia absoluta, a menos que a distoro genealgica
seja tal que torne o exerccio intil. Primeiramente, calcula-se a mdia entre
a primeira referncia cronolgica absoluta fornecida por uma data escrita e
o presente e projeta-se essa mdia no passado caso ela se situe entre 26 e 32
anos. No entanto, mdias so apenas mdias. Sua probabilidade aumenta com
o nmero de geraes envolvidas, e o clculo s fornece datas razoveis para os
incios de sequncias ou, quando muito, uma vez por sculo. Qualquer preciso
maior cria um erro. De todo modo, datas absolutas calculadas dessa maneira
devem ser precedidas por uma sigla para indicar o fato. Assim, T 1635 para
a fundao do Reino Kuba indicaria que a data foi calculada com base em
genealogias e listas de reis.
    O mesmo procedimento pode ser aplicado para determinar a durao mdia
de um reinado. Mostrou-se por que essa mdia  menos vlida que a mdia das
geraes. Uma das razes  que, ao se projetar a mdia no passado, pressupe-
-se que no houve mudana nos sistemas de sucesso. Ora, estes podem ter
mudado ao longo dos anos. Certamente sofreram mudanas desde a fundao
da dinastia, porque fundar  inovar, e as sucesses sem dvida levaram algum
tempo para se normalizarem. Alm disso, devemos considerar as mudanas que
podem ter ocorrido na esperana de vida. J que a margem de erro  maior, ser
particularmente til dispor de datas absolutas, determinadas por documentos
escritos ou por outros meios que remontem a um passado longnquo.
    Todavia, continuando no campo da cronologia relativa,  possvel tentar
coordenar diferentes sequncias vizinhas, separadas e relacionadas, pelo estudo
dos sincronismos. Uma batalha entre dois reis citados fornece um sincronismo.
Torna possvel harmonizar as duas cronologias relativas em questo, e combin-
-las em uma. Demonstrou-se empiricamente que sincronismos entre mais
160                                                   Metodologia e pr-histria da frica



de trs unidades isoladas no mais so vlidos. Pode-se mostrar que A e B
viveram na mesma poca, ou que A e C viveram na mesma poca, porque ambos
conheceram B. Portanto, A = B = C, mas no podemos ir alm disso. O fato dos
encontros de A e C com B poderem ter ocorrido em qualquer poca durante
a vida ativa de B explica por que A = C  o limite. Estudos sobre a cronologia
do antigo Oriente Mdio provaram empiricamente esse ponto. No entanto,
utilizando prudentemente os sincronismos, podemos reconstruir campos nicos
razoavelmente grandes com uma cronologia relativa comum.
    Aps o exame dos dados genealgicos, pode-se obter uma data absoluta se
a tradio mencionar um eclipse do sol. Se h mais de uma data possvel para
o eclipse, deve-se mostrar qual  a mais provvel. Podemos proceder do mesmo
modo com outros fenmenos astronmicos ou climticos extraordinrios que
tenham causado catstrofes. A certeza  menor nesse caso do que no dos eclipses
solares, porque h, por exemplo, mais fomes na frica oriental que eclipses do
sol. Com exceo dos eclipses solares, outras informaes desse tipo so teis
principalmente para os ltimos dois sculos, ainda que poucos povos tenham
preservado a memria de eclipses muito mais antigos.


      Avaliao das tradies orais
    Uma vez submetidas a minuciosa crtica, literria e sociolgica, podemos
atribuir s fontes um grau de probabilidade. Essa apreciao no pode ser
quantificada, mas no , por isso, menos real. A veracidade de uma tradio ser
mais facilmente constatada se a informao que contm puder ser comparada com
a informao fornecida por outras tradies independentes ou por outras fontes.
Duas fontes independentes concordantes transformam uma probabilidade em
algo mais prximo da certeza. Mas deve-se comprovar a independncia das
fontes. Infelizmente, contudo, tem-se constatado uma tendncia muito grande
em acreditar na pureza e estanquidade inequvocas da transmisso de um grupo
tnico para outro. Na prtica, caravanas de comerciantes, como as dos Imbangala
de Angola, ou talvez as dos Diula e dos Haussa, podem ter levado consigo
fragmentos de histria, que foram incorporados  histria local por encontrar
terreno apropriado. No incio do perodo colonial estabeleceram-se vnculos
entre representantes de diferentes grupos, que trocaram informaes a respeito
de suas tradies. Esse  notadamente o caso nas regies sob administrao
indireta, onde interesses de ordem prtica encorajavam especialmente os reinos a
produzirem suas histrias. Alm disso, todas essas histrias foram influenciadas
A tradio oral e sua metodologia                                             161



pelos primeiros modelos escritos por africanos, como o livro de Johnson sobre
o Reino Oyo (Nigria) ou o de Kaggwa (Uganda) para Buganda. Deu-se uma
contaminao geral de todas as histrias tardiamente colocadas em forma
escrita no pas Ioruba e na regio interlacustre de fala inglesa, com tentativas
de sincronizao visando forar as listas dinsticas a se igualarem, em extenso,
s dos modelos. Esses dois exemplos mostram o quanto se deve ser prudente
ao afirmar que as tradies so realmente independentes. Deve-se pesquisar os
arquivos, estudar os contatos pr-coloniais e ponderar tudo cuidadosamente,
antes de se fazer qualquer julgamento.
    A comparao com dados escritos ou arqueolgicos pode fornecer a
confirmao de independncia desejada. Mas, ainda neste caso,  preciso
que a independncia seja comprovada. O fato de autctones atriburem
tradicionalmente um stio visvel aos primeiros habitantes do pas, devido 
presena no local de traos de ocupao humana muito diferentes dos deixados
pelos habitantes atuais, no significa que se possa automaticamente fazer a
mesma atribuio. As fontes no so independentes pois o stio  atribudo a
essas populaes por um processo lgico e apriorstico!  um caso de iconatrofia.
Essa constatao d origem a interessantes especulaes, especialmente no que
diz respeito aos chamados vestgios de Tellem do pas Dogon (Mali) assim como
aos stios Sirikwa (Qunia), para citar somente dois exemplos bem conhecidos.
Contudo, os casos famosos dos stios de Kumbi Saleh (Mauritnia) e do lago
Kisale (Zaire) mostram que a arqueologia pode, s vezes, fornecer provas
surpreendentes da validade de uma tradio oral.
    Geralmente, estabelecer uma concordncia entre fonte oral e escrita fica
difcil porque tratam de coisas diferentes. Um estrangeiro que escreve sobre
um pas habitualmente se restringe a fatos econmicos e polticos, muitas vezes
ainda mal compreendidos. A fonte oral voltada para o interior menciona os
estrangeiros apenas de passagem; quando o faz. Assim sendo, em muitos casos as
duas fontes no tm nada em comum, ainda que se refiram ao mesmo perodo.
Casos de concordncia, cronolgica principalmente, so encontrados em locais
onde os estrangeiros se estabeleceram por tempo suficientemente longo para se
interessarem pela poltica local e entend-la. Tem-se um exemplo disso no vale
do Senegal a partir do sculo XVIII.
    Em caso de contradio entre fontes orais, deve-se escolher a mais provvel.
A prtica, muito difundida, de tentar encontrar um acordo no faz sentido.
Uma contradio flagrante entre uma fonte oral e uma fonte arqueolgica se
resolve em favor da ltima, se esta for um dado imediato, isto , se a fonte
for um objeto e no uma inferncia, pois neste caso a probabilidade da fonte
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oral pode ser maior. Um conflito entre uma fonte escrita e uma oral se resolve
exatamente como se se tratasse de duas fontes orais. Devemos ter em mente
que a informao quantitativa escrita, de modo geral,  mais digna de confiana,
mas que a informao oral relativa aos motivos  geralmente mais precisa que
a das fontes escritas. Por fim, cabe ao historiador tentar estabelecer o que 
mais provvel. Num caso extremo, se dispomos de apenas uma fonte oral, cujas
provveis deformaes pudemos demonstrar, devemos interpret-la tendo em
conta as deformaes e utiliz-la.
    Enfim, acontece frequentemente de o historiador no se sentir satisfeito com
as informaes orais de que dispe. Pode registrar o seu descrdito em relao 
validade das informaes, mas, na falta de algo melhor,  obrigado a utiliz-las,
enquanto outras fontes no forem descobertas.


      Coletnea e publicao
    Conclui-se de tudo que foi dito acima que todos os elementos que permitam
aplicar a crtica histrica s tradies devem ser reunidos em campo. Isso
implica num bom conhecimento da cultura, sociedade e lngua ou lnguas
envolvidas. O historiador pode adquirir esse conhecimento ou solicitar a ajuda
de especialistas. Mas, mesmo nesse caso, ele deve realmente absorver todas
as informaes oferecidas pelo etnlogo, pelo linguista e pelo tradutor que o
esto ajudando. Por ltimo,  preciso adotar uma atitude sistemtica diante
das fontes, das quais devem ser recolhidas todas as variantes. Tudo isso implica
numa longa permanncia em campo, que ser tanto mais demorada quanto
menor for a familiaridade do historiador com a cultura em questo. Devemos
destacar que o conhecimento instintivo de algum que estuda a histria de
sua prpria sociedade no  suficiente. A reflexo sociolgica  indispensvel.
O historiador deve redescobrir sua prpria cultura. A experincia lingustica
mostrou que, s vezes, mesmo sendo um nativo do pas, o historiador no
compreende facilmente certos registros, como os poemas panegricos, ou
encontra dificuldade porque as pessoas falam um dialeto diferente do seu.
Alm do mais,  aconselhvel que ao menos parte das transcries feitas em
seu dialeto materno seja examinada por um linguista, para se assegurar que a
transcrio comporta todos os sinais necessrios  compreenso da narrativa,
incluindo-se a, por exemplo, os tons.
    A coleta das tradies requer, portanto, muito tempo, pacincia e reflexo.
Depois de um perodo inicial de experincia,  preciso estabelecer um plano
A tradio oral e sua metodologia                                              163



racional de trabalho, que leve em considerao as caractersticas particulares de
cada caso. De qualquer forma, devemos visitar os stios associados aos processos
histricos em estudo. s vezes, ser necessrio utilizar uma amostragem de fontes
populares, mas uma amostra no pode ser utilizada casualmente. Devemos estudar,
numa rea restrita, quais as regras que determinam o nascimento de variantes
e estabelecer, a partir delas, os princpios da amostragem a serem adotados.
Coletar uma vasta quantidade de material de forma indiscriminada no pode
produzir o mesmo resultado, ainda que se possa trabalhar mais rapidamente. O
pesquisador deve ter cuidado ao estudar a transmisso.  cada vez mais comum
encontrar informantes que adquiriram seu conhecimento a partir de trabalhos
publicados sobre a histria da regio: livros escolares, jornais ou publicaes
cientficas; assim como podem t-lo adquirido em conferncias transmitidas
pelo rdio ou pela televiso. O problema acentuar-se-, inevitavelmente, com a
ampliao da pesquisa.
    Hoje em dia percebe-se que existe uma contaminao mais sutil. Alguns
manuscritos, s vezes muito velhos, e especialmente relatrios dos primeiros
tempos da administrao colonial foram tomados pela tradio como verdades
"ancestrais". Fontes arquivsticas devem, portanto, ser cuidadosamente
examinadas, assim como a possvel influncia de trabalhos cientficos, livros
escolares, transmisses de rdio, etc. Pois, se o fato  verificado em campo, pode-
-se frequentemente corrigir esses dados insidiosos buscando-se outras verses e
explicando-se aos informantes que o livro ou o rdio no esto necessriamente
certos no que diz respeito quele assunto. Mas, uma vez longe do campo, ser
tarde demais.
     preciso estruturar a pesquisa de acordo com uma ntida tomada de
conscincia histrica. No  possvel recolher "todas as tradies"; tentar faz-lo
s nos levaria a uma massa confusa de informaes.  necessrio primeiramente
saber quais os problemas histricos que se quer estudar e ento procurar as
fontes correspondentes. Ao eleger um objeto de estudo, o pesquisador deve,
evidentemente, ter interiorizado a cultura em questo. Ele pode, ento, como
acontece frequentemente, voltar seu interesse para a histria poltica. Mas pode
tambm optar por questes da histria social, econmica, religiosa, cultural ou
artstica, etc. Para cada caso, a estratgia utilizada na coleta da tradio ser
diferente. A maior deficincia das pesquisas que se fazem atualmente  a falta
de conscincia histrica. H uma forte tendncia em se deixar guiar pelo que
se encontra.
    Falta de pacincia  outro perigo. Reputa-se, por vezes, necessrio dar conta
o mais depressa possvel de uma grande parte do trabalho. Nessas circunstncias,
164                                                    Metodologia e pr-histria da frica



as fontes coletadas so difceis de se avaliar; apresentam-se discrepantes e
incompletas; faltam variantes; h pouca informao sobre a transformao
de uma fonte, sua representao, sua transmisso. O trabalho  malfeito.
Uma consequncia particularmente nefasta  a impresso criada entre outros
pesquisadores de que essa "rea" j foi estudada, o que diminui a probabilidade de
se fazer uma pesquisa melhor no futuro. No se deve esquecer que as tradies
orais desaparecem, embora felizmente com menos rapidez do que se costuma
pensar. A urgncia da tarefa no  razo para atamanc-la. Pode-se replicar,
como tem ocorrido, que o que advogamos aqui  utopia, perfeccionismo, coisa
impossvel. Contudo,  o nico modo de se fazer um bom trabalho com os meios
disponveis num determinado lapso de tempo. No h atalhos. Se acreditamos
que, em alguns casos, todo esse trabalho produz somente uma safra muito pobre
para a histria, no percebemos que contribui para enriquecer, ao mesmo tempo,
o conhecimento geral da lngua, da literatura, do pensamento coletivo e das
estruturas sociais da civilizao estudada.
    A menos que seja publicado, o trabalho no estar completo, por no
se encontrar disponvel para a comunidade dos estudiosos. Deve-se ter em
vista pelo menos uma classificao das fontes investigadas, com introduo,
notas e ndice, que constitua um arquivo aberto a todos. Muitas vezes, o
trabalho  combinado com a publicao de um estudo baseado, em parte
ou completamente, nesse corpus. Nenhum editor publicaria todo o material,
variantes inclusive, e a interpretao dos dados. Alm disso, uma sntese no
comporta uma vasta massa de documentos em bruto. Assim, cada trabalho
dever explicar como as tradies foram coletadas e fornecer uma breve lista
de fontes e informantes, que possibilitar ao leitor formar uma opinio sobre a
qualidade da coleta e compreender por que o autor escolheu uma determinada
fonte em vez de outra. Pela mesma razo, cada fonte oral deve ser citada
separadamente no trabalho. O trabalho que diz "A tradio conta que..." faz
uma generalizao perigosa.
    Resta um tipo especializado de publicao: as edies de textos. Neste caso,
seguimos as mesmas normas utilizadas na publicao de manuscritos. Na prtica,
isso geralmente conduz a uma colaborao entre vrios especialistas. Nem todo
pesquisador , ao mesmo tempo, historiador, linguista e etnlogo. De fato, as
melhores edies de textos disponveis at agora so quase todas trabalhos
interdisciplinares de colaboradores, dos quais ao menos um  linguista. A edio
de textos  uma tarefa rdua e ingrata, o que explica por que h to poucos
publicados. Entretanto, seu nmero vem aumentando, graas  colaborao de
especialistas em literatura oral africana.
A tradio oral e sua metodologia                                             165



    Concluso
    Atualmente a coleta de tradies orais est se processando em todos os pases
africanos. A massa de dados recolhidos refere-se principalmente ao sculo XIX e
 somente uma das fontes para a reconstruo histrica, sendo a outra principal
fonte para esse perodo os documentos histricos. H cinco ou seis trabalhos,
a cada ano, apresentando estudos baseados quase inteiramente em tradies.
Tipologicamente, eles tratam, sobretudo, da histria poltica e da histria dos
reinos, e, no que diz respeito  geografia, esto concentrados principalmente na
frica oriental, central e equatorial, onde as tradies, frequentemente, so as
nicas fontes. As cronologias remontam raramente alm de 1700; se anteriores
a essa data, tornam-se duvidosas. Entretanto, o conhecimento cada vez mais
aprofundado da natureza das tradies permite avaliar melhor as que foram
recolhidas em pocas anteriores. Assim, a explorao das tradies registradas
por Cavazzi no sculo XVII s se tornou possvel aps o estudo em campo
realizado em 1970!
    Alm das tradies recentes, existe um vasto corpo de informaes literrias,
como as narrativas picas, e de dados cosmognicos, que podem ocultar
informaes histricas s vezes relativas a pocas bastante remotas. A epopeia
de Sundiata  um exemplo. A tradio, por si mesma, no permite estabelecer
datas. Por exemplo, a memria deformada relativa a certos stios histricos na
regio interlacustre conservou uma lembrana que data dos primeiros sculos, ou
mesmo de antes da Era Crist. Mas a fonte oral nada diz quanto  data. Somente
a arqueologia foi capaz de solucionar o problema. Assim tambm as tradies
de Cavazzi, s quais acabamos de nos referir, parecem conter um sedimento
histrico que  do maior interesse para o passado dos povos de Angola. H
referncias sucintas a dinastias que se sucederam, a formas de governo que se
seguiram; em resumo, sumarizam, para a regio do Alto Cuango, mudanas
sociopolticas que podem datar de vrios sculos ou at de um milnio antes de
1500. Mas no h nenhuma data como ponto de referncia para essa perspectiva.
    Existe uma ltima armadilha a ser notada. Muito frequentemente a coleta
de tradies ainda parece superficial, e sua interpretao muito literal, muito
"colada"  cultura em questo. Esse fenmeno vem reforar a imagem de uma
frica cuja histria consiste apenas em origens e migraes, o que, sabemos, no
 verdade. Mas devemos admitir que essa  a imagem refletida pelas tradies
que procuram estabelecer uma "identidade". A superficialidade da interpretao
e a coleta pouco sistemtica de material, alm do mais, do margem  maioria
166                                                     Metodologia e pr-histria da frica



das crticas dirigidas contra a utilizao das tradies orais, especialmente entre
os etnlogos.
   A experincia prtica provou que o valor maior das tradies reside em
sua explicao das mudanas histricas no interior de uma civilizao. Isso 
to verdadeiro que, como se pode comprovar em quase toda a parte, apesar da
abundncia de fontes escritas relativas ao perodo colonial, temos de recorrer
constantemente aos testemunhos oculares ou  tradio para complet-las, a
fim de tornar inteligvel a evoluo do povo. Mas constatamos tambm que as
tradies so geralmente enganadoras no que diz respeito  cronologia, e aos
dados quantitativos. Alm disso, qualquer mudana inconsciente, porque lenta
demais  uma mutao associada a uma ideologia religiosa, por exemplo  escapa
 memria da sociedade. Podemos encontrar apenas indicaes fragmentrias de
mudanas nos registros que no tratam explicitamente da histria e, ainda assim,
atravs de um complicado exerccio de interpretao. Isso mostra que a tradio
oral no  uma panaceia para todos os males. Mas na prtica, ela se revela uma
fonte de primeira ordem para os ltimos sculos. Para um perodo anterior, seu
papel se reduz, tornando-se mais uma cincia auxiliar da arqueologia. Em relao
s fontes lingusticas e etnogrficas, ainda no foi suficientemente explorada,
embora em princpio esses trs tipos de fontes devessem, em conjunto, trazer
importante contribuio ao nosso conhecimento da frica antiga, assim como
faz a arqueologia.
   As tradies tm comprovado seu valor insubstituvel. No  mais necessrio
convencer os estudiosos de que as tradies podem ser fontes teis de informao.
Todo historiador est ciente disso. O que devemos fazer agora  melhorar nossas
tcnicas de modo a extrair das fontes toda a sua riqueza potencial. Essa  a tarefa
que nos espera.
A tradio viva                                                                               167



                                      CAPTULO 8


                                 A tradio viva
                                         A. Hampat B




        "A escrita  uma coisa, e o saber, outra. A escrita  a fotografia do saber, mas no
    o saber em si. O saber  uma luz que existe no homem. A herana de tudo aquilo
    que nossos ancestrais vieram a conhecer e que se encontra latente em tudo o que nos
    transmitiram, assim como o baob j existe em potencial em sua semente".
                                                                                    Tierno Bokar1

    Quando falamos de tradio em relao  histria africana, referimo-nos 
tradio oral, e nenhuma tentativa de penetrar a histria e o esprito dos povos
africanos ter validade a menos que se apie nessa herana de conhecimentos
de toda espcie, pacientemente transmitidos de boca a ouvido, de mestre a
discpulo, ao longo dos sculos. Essa herana ainda no se perdeu e reside na
memria da ltima gerao de grandes depositrios, de quem se pode dizer so
a memria viva da frica.
    Entre as naes modernas, onde a escrita tem precedncia sobre a oralidade,
onde o livro constitui o principal veculo da herana cultural, durante muito
tempo julgou-se que povos sem escrita eram povos sem cultura. Felizmente,
esse conceito infundado comeou a desmoronar aps as duas ltimas guerras,

1    Tierno Bokar Salif, falecido em 1940, passou toda a sua vida em Bandiagara (Mali). Grande Mestre da
     ordem muulmana de Tijaniyya, foi igualmente tradicionalista em assuntos africanos. Cf. HAMPAT
     B, A. e CARDAIRE, M. 1957.
168                                                     Metodologia e pr-histria da frica



graas ao notvel trabalho realizado por alguns dos grandes etnlogos do mundo
inteiro. Hoje, a ao inovadora e corajosa da UNESCO levanta ainda um pouco
mais o vu que cobre os tesouros do conhecimento transmitidos pela tradio
oral, tesouros que pertencem ao patrimnio cultural de toda a humanidade.
    Para alguns estudiosos, o problema todo se resume em saber se  possvel
conceder  oralidade a mesma confiana que se concede  escrita quando se
trata do testemunho de fatos passados. No meu entender, no  esta a maneira
correta de se colocar o problema. O testemunho, seja escrito ou oral, no fim no
 mais que testemunho humano, e vale o que vale o homem.
    No faz a oralidade nascer a escrita, tanto no decorrer dos sculos como no
prprio indivduo? Os primeiros arquivos ou bibliotecas do mundo foram o
crebro dos homens. Antes de colocar seus pensamentos no papel, o escritor ou
o estudioso mantm um dilogo secreto consigo mesmo. Antes de escrever um
relato, o homem recorda os fatos tal como lhe foram narrados ou, no caso de
experincia prpria, tal como ele mesmo os narra.
    Nada prova a priori que a escrita resulta em um relato da realidade mais
fidedigno do que o testemunho oral transmitido de gerao a gerao. As
crnicas das guerras modernas servem para mostrar que, como se diz (na frica),
cada partido ou nao "enxerga o meio-dia da porta de sua casa"  atravs do
prisma das paixes, da mentalidade particular, dos interesses ou, ainda; da avidez
em justificar um ponto de vista. Alm disso, os prprios documentos escritos
nem sempre se mantiveram livres de falsificaes ou alteraes, intencionais
ou no, ao passarem sucessivamente pelas mos dos copistas  fenmeno que
originou, entre outras, as controvrsias sobre as "Sagradas Escrituras".
    O que se encontra por detrs do testemunho, portanto,  o prprio valor do
homem que faz o testemunho, o valor da cadeia de transmisso da qual ele faz parte,
a fidedignidade das memrias individual e coletiva e o valor atribudo  verdade em
uma determinada sociedade. Em suma: a ligao entre o homem e a palavra.
    E, pois, nas sociedades orais que no apenas a funo da memria  mais
desenvolvida, mas tambm a ligao entre o homem e a Palavra  mais forte.
L onde no existe a escrita, o homem est ligado  palavra que profere. Est
comprometido por ela. Ele  a palavra, e a palavra encerra um testemunho daquilo
que ele . A prpria coeso da sociedade repousa no valor e no respeito pela
palavra. Em compensao, ao mesmo tempo que se difunde, vemos que a escrita
pouca a pouco vai substituindo a palavra falada, tornando-se a nica prova e o
nico recurso; vemos a assinatura tornar-se o nico compromisso reconhecido,
enquanto. o laa sagrado e profundo que unia o homem  palavra desaparece
progressivamente para dar lugar a ttulos universitrios convencionais.
A tradio viva                                                                 169



    Nas tradies africanas  pela menos nas que conheo e que dizem respeita
a toda a regio de savana ao sul do Saara , a palavra falada se empossava, alm
de um valor moral fundamental, de um carter sagrado vinculado  sua origem
divina e s foras ocultas nela depositadas. Agente mgico por excelncia, grande
vetor de "foras etreas", no era utilizada sem prudncia.
    Inmeros fatores  religiosas, mgicos ou sociais  concorrem, por conseguinte,
para preservar a fidelidade da transmisso oral. Pareceu-nos indispensvel fazer
ao leitor uma breve explanao sobre esses fatores, a fim de melhor situar a
tradio oral africana em seu contexto e esclarec-la, por assim dizer, a partir
do seu interior.
    Se formulssemos a seguinte pergunta a um verdadeiro tradicionalista*
africano: "O que  tradio oral?", por certo ele se sentiria muito embaraado.
Talvez respondesse simplesmente, aps longo silncio: " o conhecimento total".
    O que, pois, abrange a expresso "tradio oral"? Que realidades veicula,
que conhecimentos transmite, que cincias ensina e quem so os transmissores?
    Contrariamente ao que alguns possam pensar, a tradio oral africana, com
efeito, no se limita a histrias e lendas, ou mesmo a relatos mitolgicos ou
histricos, e os griots esto longe de ser seus nicos guardies e transmissores
qualificados.
    A tradio oral  a grande escala da vida, e dela recupera e relaciona todos
os aspectos. Pode parecer catica queles que no lhe descortinam o segredo e
desconcertar a mentalidade cartesiana acostumada a separar tudo em categorias
bem definidas. Dentro da tradio oral, na verdade, o espiritual e o material no
esto dissociados. Ao passar do esotrico para o exotrico, a tradio oral consegue
colocar-se ao alcance dos homens, falar-lhes de acordo com o entendimento humano,
revelar-se de acordo com as aptides humanas. Ela  ao mesmo tempo religio,
conhecimento, cincia natural, iniciao  arte, histria, divertimento e recreao,
uma vez que todo pormenor sempre nos permite remontar  Unidade primordial.
    Fundada na iniciao e na experincia, a tradio oral conduz o homem 
sua totalidade e, em virtude disso, pode-se dizer que contribuiu para criar um
tipo de homem particular, para esculpir a alma africana.
    Uma vez que se liga ao comportamento cotidiano da homem e da comunidade,
a "cultura" africana no , portanto, algo abstrato que possa ser isolado da vida.
Ela envolve uma viso particular do mundo, ou, melhor dizendo, uma presena
particular no mundo  um mundo concebido como um Todo onde todas as
coisas se religam e interagem.
    A tradio oral baseia-se em uma certa concepo da homem, do seu lugar e
do seu papel no seio do universo. Para situ-la melhor na contexto global, antes
170                                                           Metodologia e pr-histria da frica



de estud-la em seus vrias aspectos devemos, portanto, retomar ao prprio
mistrio da criao do homem e da instaurao primordial da Palavra: o mistrio
tal como ela o revela e do qual emana.


      A origem divina da Palavra
   Como no posso discorrer com autenticidade sobre quaisquer tradies que
no tenha vivido ou estudado pessoalmente  em particular as relativas aos pases
da floresta  tirarei os exemplos em que me apio das tradies da savana ao sul
da Saara (que antigamente era chamada de Bafur e que constitua as regies de
savana da antiga frica ocidental francesa).
   A tradio bambara do Komo2 ensina que a Palavra, Kuma,  uma fora
fundamental que emana do prprio Ser Supremo, Maa Ngala, criador de todas
as coisas. Ela  o instrumento da criao: "Aquilo que Maa Ngala diz, !",
proclama o chantre do deus Komo.
   O mito da criao do universo e do homem, ensinado pelo mestre iniciador do
Komo (que  sempre um ferreiro) aos jovens circuncidados, revela-nos que quando
Maa Ngala sentiu falta de um interlocutor, criou o Primeiro Homem: Maa.
   Antigamente a histria da gnese costumava ser ensinada durante os 63 dias
de retiro imposto aos circuncidados aos 21 anos de idade; em seguida, passavam
mais 21 anos estudando-a cada vez mais profundamente.
   Na orla do bosque sagrado, onde Komo vivia, o primeiro circuncidado
entoava ritmadamente as seguintes palavras:
         "Maa Ngala! Maa Ngala!
         Quem  Maa Ngala?
         Onde est Maa Ngala?"
      O chantre do Komo respondia:
         "Maa Ngala  a Fora infinita.
         Ningum pode situ-lo no tempo e no espao.
         Ele  Dombali (Incognoscvel)
         Dambali (Incriado  Infinito)".
      Ento, aps a iniciao, comeava a narrao da gnese primordial:
         "No havia nada, seno um Ser.


2     Uma das grandes escolas de iniciao do Mande (Mali).
A tradio viva                                                                      171



         Este Ser era um Vazio vivo,
         a incubar potencialmente as existncias possveis.
         O Tempo infinito era a moradia desse Ser-Um.
         O Ser-Um chamou-se de Maa Ngala.
         Ento ele criou `Fan',
         Um Ovo maravilhoso com nove divises
         No qual introduziu os nove estados fundamentais da existncia.
         Quando o Ovo primordial chocou, dele nasceram vinte seres fabulosos que
         constituram a totalidade do universo, a soma total das foras existentes do
         conhecimento possvel.
         Mas, ai!, nenhuma dessas vinte primeiras criaturas revelou-se apta a tornar-se o
         interlocutor (kumanyon) que Maa Ngala havia desejado para si.
         Assim, ele tomou de uma parcela de cada uma dessas vinte criaturas existentes
         e misturou-as; ento, insuflando na mistura uma centelha de seu prprio hlito
         gneo, criou um novo Ser, o Homem, a quem deu uma parte de seu prprio
         nome: Maa. E assim esse novo ser, atravs de seu nome e da centelha divina nele
         introduzida, continha algo do prprio Maa Ngala".
    Sntese de tudo o que existe, receptculo por excelncia da Fora suprema e
confluncia de todas as foras existentes, Maa, o Homem, recebeu de herana
uma parte do poder criador divino, o dom da Mente e da Palavra.
    Maa Ngala ensinou a Maa, seu interlocutor, as leis segundo as quais todos
os elementos do cosmo foram formados e continuam a existir. Ele o intitulou
guardio do Universo e o encarregou de zelar pela conservao da Harmonia
universal. Por isso  penoso ser Maa.
    Iniciado por seu criador, mais tarde Maa transmitiu a seus descendentes tudo
o que havia aprendido, e esse foi o incio da grande cadeia de transmisso oral
iniciatria da qual a ordem do Komo (como as ordens do Nama, do Kore, etc.,
no Mali) diz-se continuadora.
    Tendo Maa Ngala criado seu interlocutor, Maa, falava com ele e, ao mesmo
tempo, dotava-o da capacidade de responder. Teve incio o dilogo entre Maa
Ngala, criador de todas as coisas, e Maa, simbiose de todas as coisas.
    Como provinham de Maa Ngala para o homem, as palavras eram divinas
porque ainda no haviam entrado em contato com a materialidade. Aps o
contato com a corporeidade, perderam um pouco de sua divindade, mas se
carregaram de sacralidade. Assim, sacralizada pela Palavra divina, por sua vez a
corporeidade emitiu vibraes sagradas que estabeleceram a comunicao com
Maa Ngala.
172                                                   Metodologia e pr-histria da frica



   A tradio africana, portanto, concebe a fala como um dom de Deus.
Ela  ao mesmo tempo divina no sentido descendente e sagrada no sentido
ascendente.


      A fala humana como poder de criao
    Maa Ngala, como se ensina, depositou em Maa as trs potencialidades do
poder, do querer e do saber, contidas nos vinte elementos dos quais ele foi
composto. Mas todas essas foras, das quais  herdeiro, permanecem silenciadas
dentro dele. Ficam em estado de repouso at o instante em que a fala venha
coloc-las em movimento. Vivificadas pela Palavra divina, essas foras comeam
a vibrar. Numa primeira fase, tornam-se pensamento; numa segunda, som; e,
numa terceira, fala. A fala , portanto, considerada como a materializao, ou a
exteriorizao, das vibraes das foras.
    Assinalemos, entretanto, que, neste nvel, os termos "falar" e "escutar"
referem-se a realidades muito mais amplas do que as que normalmente lhes
atribumos. De fato, diz-se que: "Quando Maa Ngala fala, pode-se ver, ouvir,
cheirar, saborear e tocar a sua fala". Trata-se de uma percepo total, de um
conhecimento no qual o ser se envolve na totalidade.
    Do mesmo modo, sendo a fala a exteriorizao das vibraes das foras,
toda manifestao de uma s fora, seja qual for a forma que assuma, deve ser
considerada como sua fala.  por isso que no universo tudo fala: tudo  fala que
ganhou corpo e forma.
    Em fulfulde, a palavra que designa "fala" (haala) deriva da raiz verbal hal,
cuja ideia  "dar fora" e, por extenso, "materializar". A tradio peul ensina
que Gueno, o Ser Supremo, conferiu fora a Kiikala, o primeiro homem, falando
com ele. "Foi a conversa com Deus que fez Kiikala forte", dizem os Silatigui (ou
mestres iniciados peul).
    Se a fala  fora,  porque ela cria uma ligao de vaivm (yaawarta, em
fulfulde) que gera movimento e ritmo, e, portanto, vida e ao. Este movimento
de vaivm  simbolizado pelos ps do tecelo que sobem e descem, como
veremos adiante ao falarmos sobre os ofcios tradicionais. (Com efeito, o
simbolismo do ofcio do tecelo baseia-se inteiramente na fala criativa em
ao).
     imagem da fala de Maa Ngala, da qual  um eco, a fala humana coloca
em movimento foras latentes, que so ativadas e suscitadas por ela  como um
homem que se levanta e se volta ao ouvir seu nome.
A tradio viva                                                               173



   A fala pode criar a paz, assim como pode destru-la.  como o fogo. Uma
nica palavra imprudente pode desencadear uma guerra, do mesmo modo
que um graveto em chamas pode provocar um grande incndio. Diz o adgio
malins: "O que  que coloca uma coisa nas devidas condies (ou seja, a arranja,
a dispe favoravelmente)? A fala. O que  que estraga uma coisa? A fala. O que
 que mantm uma coisa em seu estado? A fala".
   A tradio, pois, confere a Kuma, a Palavra, no s um poder criador, mas
tambm a dupla funo de conservar e destruir. Por essa razo a fala, por
excelncia,  o grande agente ativo da magia africana.


    A fala, agente ativo da magia
    Deve-se ter em mente que, de maneira geral, todas as tradies africanas
postulam uma viso religiosa do mundo. O universo visvel  concebido e sentido
como o sinal, a concretizao ou o envoltrio de um universo invisvel e vivo,
constitudo de foras em perptuo movimento. No interior dessa vasta unidade
csmica, tudo se liga, tudo  solidrio, e o comportamento do homem em relao
a si mesmo e em relao ao mundo que o cerca (mundo mineral, vegetal, animal
e a sociedade humana) ser objeto de uma regulamentao ritual muito precisa
cuja forma pode variar segundo as etnias ou regies.
    A violao das leis sagradas causaria uma perturbao no equilbrio das foras
que se manifestaria em distrbios de diversos tipos. Por isso a ao mgica,
ou seja, a manipulao das foras, geralmente almejava restaurar o equilbrio
perturbado e restabelecer a harmonia, da qual o Homem, como vimos, havia
sido designado guardio por seu Criador.
    Na Europa, a palavra "magia"  sempre tomada no mau sentido, enquanto
que na frica designa unicamente o controle das foras, em si uma coisa neutra
que pode se tornar benfica ou malfica conforme a direo que se lhe d. Como
se diz: "Nem a magia nem o destino so maus em si. A utilizao que deles
fazemos os torna bons ou maus".
    A magia boa, a dos iniciados e dos "mestres do conhecimento", visa purificar
os homens, os animais e os objetos a fim de repor as foras em ordem. E aqui
 decisiva a fora da fala.
    Assim como a fala divina de Maa Ngala animou as foras csmicas que
dormiam, estticas, em Maa, assim tambm a fala humana anima, coloca em
movimento e suscita as foras que esto estticas nas coisas. Mas para que a fala
produza um efeito total, as palavras devem ser entoadas ritmicamente, porque o
174                                                       Metodologia e pr-histria da frica



movimento precisa de ritmo, estando ele prprio fundamentado no segredo dos
nmeros. A fala deve reproduzir o vaivm que  a essncia do ritmo.
   Nas canes rituais e nas frmulas encantatrias, a fala , portanto, a
materializao da cadncia. E se  considerada como tendo o poder de agir sobre
os espritos,  porque sua harmonia cria movimentos, movimentos que geram
foras, foras que agem sobre os espritos que so, por sua vez, as potncias da
ao.
   Na tradio africana, a fala, que tira do sagrado o seu poder criador e
operativo, encontra-se em relao direta com a conservao ou com a ruptura
da harmonia no homem e no mundo que o cerca.
   Por esse motivo a maior parte das sociedades orais tradicionais considera a
mentira uma verdadeira lepra moral. Na frica tradicional, aquele que falta 
palavra mata sua pessoa civil, religiosa e oculta. Ele se separa de si mesmo e da
sociedade. Seria prefervel que morresse, tanto para si prprio como para os seus.
   O chantre do Komo Dibi de Kulikoro, no Mali, cantou em um de seus
poemas rituais:
        "A fala  divinamente exata,
        convm ser exato para com ela".
        "A lngua que falsifica a palavra
        vicia o sangue daquele que mente."
    O sangue simboliza aqui a fora vital interior, cuja harmonia  perturbada pela
mentira. "Aquele que corrompe sua palavra, corrompe a si prprio", diz o adgio.
Quando algum pensa uma coisa e diz outra, separa-se de si mesmo. Rompe a
unidade sagrada, reflexo da unidade csmica, criando desarmonia dentro e ao redor
de si.
    Agora podemos compreender melhor em que contexto mgico-religioso e social
se situa o respeito pela palavra nas sociedades de tradio oral, especialmente quando
se trata de transmitir as palavras herdadas de ancestrais ou de pessoas idosas. O que a
frica tradicional mais preza  a herana ancestral. O apego religioso ao patrimnio
transmitido exprime-se em frases como: "Aprendi com meu Mestre", "Aprendi com
meu pai", "Foi o que suguei no seio de minha me".


      Os tradicionalistas
  Os grandes depositrios da herana oral so os chamados "tradicionalistas".
Memria viva da frica, eles so suas melhores testemunhas. Quem so esses mestres?
A tradio viva                                                                175



    Em bambara, chamam -nos de Doma ou Soma, os "Conhecedores", ou
Donikeba, "fazedores de conhecimento"; em fulani, segundo a regio, de
Silatigui, Gando ou Tchiorinke, palavras que possuem o mesmo sentido de
"Conhecedor". Podem ser Mestres iniciados (e iniciadores) de um ramo
tradicional especfico (iniciaes do ferreiro, do tecelo, do caador, do
pescador, etc.) ou possuir o conhecimento total da tradio em todos os
seus aspectos. Assim, existem Domas que conhecem a cincia dos ferreiros,
dos pastores, dos teceles, assim como das grandes escolas de iniciao da
savana  por exemplo, no Mali, o Komo, o Kore, o Nama, o Do, o Diarrawara,
o Nya, o Nyaworole, etc.
    Mas no nos iludamos: a tradio africana no corta a vida em fatias e
raramente o "Conhecedor"  um "especialista". Na maioria das vezes,  um
"generalizador". Por exemplo, um mesmo velho conhecer no apenas a cincia
das plantas (as propriedades boas ou ms de cada planta), mas tambm a "cincia
das terras" (as propriedades agrcolas ou medicinais dos diferentes tipos de solo),
a "cincia das guas", astronomia, cosmogonia, psicologia, etc. Trata-se de uma
cincia da vida cujos conhecimentos sempre podem favorecer uma utilizao
prtica. E quando falamos de cincias "iniciatrias" ou "ocultas", termos que
podem confundir o leitor racionalista, trata-se sempre, para a frica tradicional,
de uma cincia eminentemente prtica que consiste em saber como entrar em
relao apropriada com as foras que sustentam o mundo visvel e que podem
ser colocadas a servio da vida.
    Guardio dos segredos da Gnese csmica e das cincias da vida, o
tradicionalista, geralmente dotado de uma memria prodigiosa, normalmente
tambm  o arquivista de fatos passados transmitidos pela tradio, ou de fatos
contemporneos.
    Uma histria que se quer essencialmente africana dever necessariamente,
portanto, apoiar-se no testemunho insubstituvel de africanos qualificados. "No
se pode pentear uma pessoa quando ela est ausente", diz o adgio.
    Os grandes Doma, os de conhecimento total, eram conhecidos e venerados, e
as pessoas vinham de longe para recorrer ao seu conhecimento e  sua sabedoria.
    Ardo Dembo, que me iniciou nas coisas fulani, era um Doma peul (um
Silatigui). Hoje  falecido. Ali Essa, outro Silatigui peul, ainda vive.
    Danfo Sine, que frequentava a casa de meu pai, na minha infncia, era um
Doma quase universal. No somente era um grande Mestre iniciado do Komo,
mas tambm possua todos os outros conhecimentos de seu tempo histricos,
iniciatrios ou relativos s cincias da natureza. Era conhecido por todos na
176                                                     Metodologia e pr-histria da frica



regio que se estende de Sikasso a Bamako, isto , os antigos reinos de Kenedugu
e de Beledugu.
    Seu irmo mais jovem, Latif, que havia experimentado as mesmas iniciaes,
era tambm um grande Doma. Alm do mais, tinha a vantagem de ler e escrever
rabe e de ter prestado o servio militar (nas foras francesas) no Chade, o que
lhe permitira coletar grande quantidade de conhecimentos na savana chadiana,
que se revelaram anlogos aos ensinados no Mali.
    Iwa, pertencente  casta dos griots,  um dos maiores tradicionalistas do
Mande vivos no Mali, assim como Banzoumana, o grande msico cego.
    Neste ponto  preciso esclarecer que um griot no  necessariamente um
tradicionalista "conhecedor", mas que pode tornar-se um, se for essa sua vocao.
No poder, entretanto, ter acesso  iniciao do Komo, da qual os griots so
excludos3.
    De maneira geral, os tradicionalistas foram postos de parte, seno perseguidos,
pelo poder colonial que, naturalmente, procurava extirpar as tradies locais a
fim de implantar suas prprias ideias, pois, como se diz, "No se semeia nem em
campo plantado nem em terra alqueivada". Por essa razo, a iniciao geralmente
buscava refgio na mata e deixava as grandes cidades, chamadas de Tubabudugu,
"cidades de brancos" (ou seja, dos colonizadores).
    No entanto, nos diversos pases da savana africana que formam o antigo
Bafur  e, sem dvida, outras partes tambm  ainda existem "Conhecedores"
que continuam a transmitir a herana sagrada queles que aceitam aprender e
ouvir e que se mostram dignos de receber os ensinamentos por sua pacincia e
discreo, regras bsicas exigidas pelos deuses.
    Dentro de 10 ou 15 anos, os ltimos grandes Doma, os ltimos ancios
herdeiros dos vrios ramos da Tradio provavelmente tero desaparecido.
Se no nos apressarmos em reunir seus testemunhos e ensinamentos, todo o
patrimnio cultural e espiritual de um povo cair no esquecimento juntamente
com eles, e uma gerao jovem sem razes ficar abandonada  prpria sorte.


      Autenticidade da transmisso
   Mais do que todos os outros homens, os tradicionalistas-doma, grandes
ou pequenos, obrigam-se a respeitar a verdade. Para eles, a mentira no 



3     A respeito dos griots, ver mais adiante.
A tradio viva                                                                                          177



simplesmente um defeito moral, mas uma interdio ritual cuja violao lhes
impossibilitaria o preenchimento de sua funo.
    Um mentiroso no poderia ser um iniciador, nem um "Mestre da faca", e
muito menos um Doma. Se, excepcionalmente, acontecesse de um tradicionalista-
doma revelar-se um mentiroso, jamais voltaria a receber a confiana de algum
em qualquer domnio e sua funo desapareceria imediatamente.
    De modo geral, a tradio africana abomina a mentira. Diz-se: "Cuida-te
para no te separares de ti mesmo.  melhor que o mundo fique separado de ti
do que tu separado de ti mesmo". Mas a interdio ritual da mentira afeta, de
modo particular, todos os "oficiantes" (ou sacrificadores ou mestres da faca, etc.)4
de todos os graus, a comear pelo pai de famlia que  o sacrificador ou o oficiante
de sua famlia, passando pelo ferreiro, pelo tecelo ou pelo arteso tradicional 
sendo a prtica de um ofcio uma atividade sagrada, como veremos adiante. A
proibio atinge todos os que, tendo de exercer uma responsabilidade mgico-
-religiosa e de realizar os atos rituais, so, de algum modo, os intermedirios entre
os mortais comuns e as foras tutelares; no topo esto o oficiante sagrado do pas
(por exemplo, o Hogon, entre os Dogon) e, eventualmente, o rei.
    Essa interdio ritual existe, de meu conhecimento, em todas as tradies
da savana africana.
    A proibio da mentira deve-se ao fato de que se um oficiante mentisse,
estaria corrompendo os atos rituais. No mais preencheria o conjunto das
condies rituais necessrias  realizao do ato sagrado, sendo a principal
estar ele prprio em harmonia antes de manipular as foras da vida. No nos
esqueamos de que todos os sistemas mgico-religiosos africanos tendem a
preservar ou restabelecer o equilbrio das foras, do qual depende a harmonia
do mundo material e espiritual.
    Mais do que todos os outros, os Doma sujeitam-se a esta obrigao, pois,
enquanto Mestres iniciados, so os grandes detentores da Palavra, principal agente
ativo da vida humana e dos espritos. So os herdeiros das palavras sagradas e
encantatrias transmitidas pela cadeia de ancestrais, palavras que podem remontar
s primeiras vibraes sagradas emitidas por Maa, o primeiro homem.
    Se o tradicionalista-doma  detentor da Palavra, os demais homens so os
depositrios do palavrrio...
    Citarei o caso de um Mestre da faca dogon, do pas de Pignari (departamento
de Bandiagara) que conheci na juventude e que, certa vez, foi forado a mentir

4    Nem todas as cerimnias rituais incluam necessariamente o sacrifcio de um animal. O "sacrifcio" podia
     consistir em uma oferenda de paino, leite ou algum outro produto natural.
178                                                                     Metodologia e pr-histria da frica



a fim de salvar a vida de uma mulher procurada que ele havia escondido em sua
casa. Aps o incidente, renunciou espontaneamente ao cargo, supondo que j
no mais preenchia as condies rituais para assumi-lo lidimamente.
    Quando se trata de questes religiosas e sagradas, os grandes mestres
tradicionais no temem a opinio desfavorvel das massas e, se acaso cometem
um engano, admitem o erro publicamente, sem desculpas calculadas ou evasivas.
Para eles, reconhecer quaisquer faltas que tenham cometido  uma obrigao,
pois significa purificar-se da profanao.
    Se o tradicionalista ou "Conhecedor"  to respeitado na frica,  porque ele
se respeita a si prprio. Disciplinado interiormente, uma vez que jamais deve
mentir,  um homem "bem equilibrado", mestre das foras que nele habitam. Ao
seu redor as coisas se ordenam e as perturbaes se aquietam.
    Independentemente da interdio da mentira, ele pratica a disciplina da
palavra e no a utiliza imprudentemente. Pois se a fala, como vimos,  considerada
uma exteriorizao das vibraes de foras interiores, inversamente, a fora
interior nasce da interiorizao da fala.
    A partir dessa ptica, pode-se compreender melhor a importncia que a
educao tradicional africana atribui ao autocontrole. Falar pouco  sinal de boa
educao e de nobreza. Muito cedo, o jovem aprende a dominar a manifestao
de suas emoes ou de seu sofrimento, aprende a conter as foras que nele
existem,  semelhana do Maa primordial que continha dentro de si, submissas
e ordenadas, todas as foras do Cosmo.
    Dir-se- de um "Conhecedor" respeitado ou de um homem que  mestre
de si mesmo: " um Maa!" (ou um Neddo, em fulfulde), quer dizer, um homem
completo.
    No se deve confundir os tradicionalistas-doma, que sabem ensinar enquanto
divertem e se colocam ao alcance da audincia, com os trovadores, contadores
de histria e animadores pblicos, que em geral pertencem  casta dos Dieli
(griots) ou dos Woloso ("cativos de casa")5. Para estes, a disciplina da verdade no
existe; e, como veremos adiante, a tradio lhes concede o direito de travesti-la
ou de embelezar os fatos, mesmo que grosseiramente, contanto que consigam
divertir ou interessar o pblico. "O griot", como se diz, "pode ter duas lnguas".
    Ao contrrio, nenhum africano de formao tradicionalista sequer sonharia
em colocar em dvida a veracidade da fala de um tradicionalista-doma,


5     Os Woloso (literalmente "os nascidos na casa"), ou "cativos de casa", eram empregados ou famlias de
      empregados ligados h geraes a uma mesma famlia. A tradio concedia-lhes liberdade total de ao
      e expresso bem como considerveis direitos materiais sobre os bens de seus senhores.
A tradio viva                      179




figura 8.1 Msico tukulor
tocando o "ardin" (Kayes, Mali, n.
AO-292).
Figura 8.2 Cantor Mvet
(Documentation Franaise).
180                                                                      Metodologia e pr-histria da frica



especialmente quando se trata da transmisso dos conhecimentos herdados da
cadeia dos ancestrais.
   Antes de falar, o Doma, por deferncia, dirige-se s almas dos antepassados
para pedir-lhes que venham assisti-lo, a fim de evitar que a lngua troque as
palavras ou que ocorra um lapso de memria, que o levaria a alguma omisso.
   Danfo Sine, o grande Doma bambara que conheci na infncia em Bougouni
e que era o Chantre do Komo, antes de iniciar uma histria ou lio costumava
dizer:
         "Oh, Alma de meu Mestre Tiemablem Samak!
         Oh, Almas dos velhos ferreiros e dos velhos teceles,
         Primeiros ancestrais iniciadores vindos do Leste!
         Oh, Jigi, grande carneiro que por primeiro soprou
         Na trombeta do Komo,
         Vindo sobre o Jeliba (Nger)!
         Acercai-vos e escutai-me.
         Em concordncia com vossos dizeres
         Vou contar aos meus ouvintes
         Como as coisas aconteceram,
         Desde vs, no passado, at ns, no presente,
         Para que as palavras sejam preciosamente guardadas
         E fielmente transmitidas
         Aos homens de amanh
         Que sero nossos filhos
         E os filhos de nossos filhos.
         Segurai firme,  ancestrais, as rdeas de minha lngua!
         Guiai o brotar das minhas palavras
         A fim de que possam seguir e respeitar
         Sua ordem natural".
   Em seguida, acrescentava:
   "Eu, Danjo Sine, do cl de Samake (elefante), vou contar tal como o aprendi,
na presena de minhas duas testemunhas Makoro e Manifin"6.
   "Os dois como eu conhecem a trama7. Eles sero a um tempo meus fiscais
e meu apoio."

6     Makoro e Manifin eram seus dois condiscpulos.
7     Uma narrativa tradicional possui sempre uma trama ou base imutvel que no deve jamais ser modificada,
      mas a partir da qual pode-se acrescentar desenvolvimentos ou embelezamentos, segundo a inspirao ou
      a ateno dos ouvintes.
A tradio viva                                                              181



    Se o contador de histrias cometesse um erro ou esquecesse algo, sua
testemunha o interromperia: "Homem! Presta ateno quando abres a boca!"
Ao que ele responderia: "Desculpe, foi minha lngua fogosa que me traiu".
    Um tradicionalista-doma que no  ferreiro de nascena, mas que conhece as
cincias relacionadas  forja, por exemplo, dir, antes de falar sobre ela: "Devo
isto a fulano, que deve a beltrano, etc.". Ele render homenagem ao ancestral
dos ferreiros, curvando-se em sinal de devoo, com a ponta do cotovelo direito
apoiada no cho e o antebrao erguido.
    O Doma tambm pode citar seu mestre e dizer: "Rendo homenagem a todos
os intermedirios at Nunfayri..."8, sem ser obrigado a citar todos os nomes.
    Existe sempre referncia  cadeia da qual o prprio Doma  apenas um elo.
    Em todos os ramos do conhecimento tradicional, a cadeia de transmisso se
reveste de uma importncia primordial. No existindo transmisso regular, no
existe "magia", mas somente conversa ou histrias. A fala , ento, inoperante.
A palavra transmitida pela cadeia deve veicular, depois da transmisso original,
uma fora que a torna operante e sacramental.
    Esta noo de "respeito pela cadeia" ou de "respeito pela transmisso"
determina, em geral, no africano no aculturado a tendncia a relatar uma
histria reproduzindo a mesma forma em que a ouviu, ajudado pela memria
prodigiosa dos iletrados. Se algum o contradiz, ele simplesmente responder:
"Fulano me ensinou assim!", sempre citando a fonte.
    Alm do valor moral prprio dos tradicionalistas-doma e de sua adeso a uma
"cadeia de transmisso", uma garantia suplementar de autenticidade  fornecida
pelo controle permanente de seus pares ou dos ancios que os rodeiam, que velam
zelosamente pela autenticidade daquilo que transmitem e que os corrigem no
menor erro, como vimos no caso de Danfo Sine.
    No curso de suas excurses rituais pelo mato, o chantre do Komo pode
acrescentar as prprias meditaes ou inspiraes s palavras tradicionais que
herdou da "cadeia" e que canta para seus companheiros. Suas palavras, novos
elos, vm, ento, enriquecer as palavras dos predecessores. Mas ele previne:
"Isto  o que estou acrescentando, isto  o que estou dizendo. No sou infalvel,
posso estar errado. Se estou, no se esqueam de que, como vocs, vivo de um
punhado de paino, de uns goles de gua e de alguns sopros de ar. O homem
no  infalvel!".




8    Ancestral dos ferreiros.
182                                                           Metodologia e pr-histria da frica



    Os iniciados e os nefitos que o acompanham aprendem essas novas palavras,
de modo que todos os cantos do Komo so conhecidos e conservados na
memria.
    O grau de evoluo do adepto do Komo no  medido pela quantidade de
palavras aprendidas, mas pela conformidade de sua vida a essas palavras. Se um
homem sabe apenas dez ou quinze palavras do Komo, e, as vive, ento ele se
torna um valoroso adepto do Komo dentro da associao. Para ser chantre
do Komo, portanto Mestre iniciado,  necessrio conhecer todas as palavras
herdadas, e viv-las.
    A educao tradicional, sobretudo quando diz respeito aos conhecimentos
relativos a uma iniciao, liga-se  experincia e se integra  vida. Por esse motivo
o pesquisador europeu ou africano que deseja aproximar-se dos fatos religiosos
africanos est fadado a deter-se nos limites do assunto, a menos que aceite
viver a iniciao correspondente e suas regras, o que pressupe, no mnimo, um
conhecimento da lngua. Pois existem coisas que no "se explicam", mas que se
experimentam e se vivem.
    Lembro-me de que em 1928, quando servia em Tougan, um jovem etnlogo
chegara ao pas para fazer um estudo sobre a galinha sacrifical por ocasio da
circunciso. O comandante francs apresentou-se ao chefe de canto indgena
e pediu que tudo fosse feito para satisfazer ao etnlogo, insistindo para que "lhe
contassem tudo". Por sua vez, o chefe de canto reuniu os principais cidados e
exps-lhes os fatos, repetindo as palavras do comandante.
    O decano da assembleia, que era o Mestre da faca local, e, portanto, o responsvel
pelas cerimnias de circunciso e da iniciao correspondente, perguntou-lhe:
         -- "Ele quer que lhe contemos tudo?"
         -- "Sim"  respondeu o chefe de canto.
         -- "Mas ele veio para ser circuncidado?"
         -- "No, veio buscar informaes".
      O decano voltou o rosto para o outro lado e disse:
          -- "Como podemos contar-lhe tudo se ele no quer ser circuncidado? Voc bem
      sabe, chefe, que isso no  possvel. Ele ter de levar a vida dos circuncidados para
      que possamos ensinar-lhe todas as lies".
          -- "Uma vez que por fora somos obrigados a satisfaz-lo"  replicou o chefe do
      canto , "cabe a voc encontrar uma sada para essa dificuldade".
          -- "Muito bem!"  disse o velho. -- "Ns nos desembaraaremos dele sem que
      ele perceba, `pondo-o na palha'".
A tradio viva                                                               183



    A frmula "pr na palha", que consiste em enganar uma pessoa com alguma
histria improvisada quando no se pode dizer a verdade, foi inventada a
partir do momento em que o poder colonial passou a enviar seus agentes ou
representantes com o propsito de fazer pesquisas etnolgicas sem aceitar viver
sob as condies exigidas. Muitos etnlogos foram vtimas inconscientes desta
ttica... Quantos no pensavam ter compreendido completamente determinada
realidade quando, sem viv-la, no poderiam verdadeiramente t-la conhecido.
    Alm do ensino esotrico ministrado nas grandes escolas de iniciao 
por exemplo, o Komo ou as demais j mencionadas , a educao tradicional
comea, em verdade, no seio de cada famlia, onde o pai, a me ou as pessoas
mais idosas so ao mesmo tempo mestres e educadores e constituem a primeira
clula dos tradicionalistas. So eles que ministram as primeiras lies da vida,
no somente atravs da experincia, mas tambm por meio de histrias, fbulas,
lendas, mximas, adgios, etc. Os provrbios so as missivas legadas  posteridade
pelos ancestrais. Existe uma infinidade deles.
    Certos jogos infantis foram elaborados pelos iniciados com o fim de difundir,
ao longo dos sculos, certos conhecimentos esotricos "cifrados". Citemos,
por exemplo, o jogo do Banangolo, no Mali, baseado em um sistema numeral
relacionado com os 266 siqiba, ou signos, que correspondem aos atributos de
Deus.
    Por outro lado, o ensinamento no  sistemtico, mas ligado s circunstncias
da vida. Este modo de proceder pode parecer catico, mas, em verdade,  prtico
e muito vivo. A lio dada na ocasio de certo acontecimento ou experincia fica
profundamente gravada na memria da criana.
    Ao fazer uma caminhada pela mata, encontrar um formigueiro dar ao velho
mestre a oportunidade de ministrar conhecimentos diversos, de acordo com
a natureza dos ouvintes. Ou falar sobre o prprio animal, sobre as leis que
governam sua vida e a "classe de seres" a que pertence, ou dar uma lio de
moral s crianas, mostrando-lhes como a vida em comunidade depende da
solidariedade e do esquecimento de si mesmo, ou ainda poder falar sobre
conhecimentos mais elevados, se sentir que seus ouvintes podero compreend-
-lo. Assim, qualquer incidente da vida, qualquer acontecimento trivial pode
sempre dar ocasio a mltiplos desenvolvimentos, pode induzir  narrao de um
mito, de uma histria ou de uma lenda. Qualquer fenmeno observado permite
remontar s foras de onde se originou e evocar os mistrios da unidade da Vida,
que  inteiramente animada pela Se, a Fora sagrada primordial, ela mesma um
aspecto do Deus Criador.
184                                                            Metodologia e pr-histria da frica



    Na frica, tudo  "Histria". A grande Histria da vida compreende a
Histria das Terras e das guas (geografia), a Histria dos vegetais (botnica
e farmacopeia), a Histria dos "Filhos do seio da Terra" (mineralogia, metais),
a Histria dos astros (astronomia, astrologia), a Histria das guas, e assim por
diante.
    Na tradio da savana, particularmente nas tradies bambara e peul, o
conjunto das manifestaes da vida na terra divide-se em trs categorias ou
"classes de seres", cada uma delas subdividida em trs grupos:
             Na parte inferior da escala, os seres inanimados, os chamados seres "mudos",
              cuja linguagem  considerada oculta, uma vez que  incompreensvel ou
              inaudvel para o comum dos mortais. Essa classe de seres inclui tudo o
              que se encontra na superfcie da terra (areia, gua, etc.) ou que habita o seu
              interior (minerais, metais, etc.). Dentre os inanimados mudos, encontramos
              os inanimados slidos, lquidos e gasosos (literalmente, "fumegantes").
             No grau mdio, os "animados imveis", seres vivos que no se deslocam. Essa
               a classe dos vegetais, que podem se estender ou se desdobrar, no espao,
              mas cujo p no pode mover-se. Dentre os animados imveis, encontramos
              as plantas rasteiras, as trepadeiras e as verticais, estas ltimas constituindo
              a classe superior.
             Finalmente, os "animados mveis", que compreendem todos os animais,
              inclusive o homem. Os animados mveis incluem os animais terrestres (com
              e sem ossos), os animais aquticos e os animais voadores.
   Tudo o que existe pode, portanto, ser includo em uma dessas categorias9.
   De todas as "Histrias", a maior e mais significativa  a do prprio Homem,
simbiose de todas as "Histrias", uma vez que, segundo o mito, foi feito com
uma parcela de tudo o que existiu antes dele. Todos os reinos da vida (mineral,
vegetal e animal) encontram-se nele, conjugados a foras mltiplas e a faculdades
superiores. Os ensinamentos referentes ao homem baseiam-se em mitos da
cosmogonia, determinando seu lugar e papel no universo e revelando qual
deve ser sua relao com O mundo dos vivos e dos mortos. Explica-se tanto o
simbolismo de seu corpo quanto a complexidade de seu psiquismo: "As pessoas
da pessoa so numerosas no interior da pessoa", dizem as tradies bambara
e peul. Ensina-se qual deve ser seu comportamento frente  natureza, como
respeitar-lhe o equilbrio e no perturbar as foras que a animam, das quais no
 mais que o aspecto visvel A iniciao o far descobrir a sua prpria relao

9     Cf. HAMPAT B, A. 1972, p. 23 e segs.
A tradio viva                                                               185



com o mundo das foras e pouco a pouco o conduzir ao autodomnio, sendo a
finalidade ltima tornar-se, tal como Maa, um "homem completo", interlocutor
de Maa Ngala e guardio do mundo vivo.


    Os ofcios tradicionais
    Os ofcios artesanais tradicionais so os grandes vetores da tradio oral.
    Na sociedade tradicional africana, as atividades humanas possuam
frequentemente um carter sagrado ou oculto, principalmente as atividades
que consistiam em agir sobre a matria e transform-la, uma vez que tudo 
considerado vivo.
    Toda funo artesanal estava ligada a um conhecimento esotrico transmitido
de gerao a gerao e que tinha sua origem em uma revelao inicial. A obra
do arteso era sagrada porque "imitava" a obra de Maa Ngala e completava
sua criao. A tradio bambara ensina, de fato, que a criao ainda no est
acabada e que Maa Ngala, ao criar nossa terra, deixou as coisas inacabadas para
que Maa, seu interlocutor, as completasse ou modificasse, visando conduzir a
natureza  perfeio. A atividade artesanal, em sua operao, deveria "repetir" o
mistrio da criao. Portanto, ela "focalizava" uma fora oculta da qual no se
podia aproximar sem respeitar certas condies rituais.
    Os artesos tradicionais acompanham o trabalho com cantos rituais ou
palavras rtmicas sacramentais, e seus prprios gestos so considerados uma
linguagem. De fato, os gestos de cada ofcio reproduzem, no simbolismo que lhe
 prprio, o mistrio da criao primeira, que, como foi mostrado anteriormente,
ligava-se ao poder da Palavra. Diz-se que:
         "O ferreiro forja a Palavra,
         O tecelo a tece,
         O sapateiro amacia-a curtindo-a".
   Tomemos o exemplo do tecelo, cujo ofcio vincula-se ao simbolismo da
Palavra criadora que se distribui no tempo e no espao.
   O tecelo de casta (um maabo, entre os Peul)  o depositrio dos segredos
das 33 peas que compem a base fundamental do tear, cada uma delas com
um significado. A armao, por exemplo, constitui-se de oito peas principais:
quatro verticais, que simbolizam no s os quatro elementos-me (terra, gua,
ar e fogo), mas tambm os quatro pontos cardeais, e quatro transversais, que
simbolizam os quatro pontos colaterais. O tecelo, situado no meio, representa
186                                                        Metodologia e pr-histria da frica



o Homem primordial, Maa, no centro das oito direes do espao. Com sua
presena, obtm-se nove elementos que lembram os nove estados fundamentais
da existncia, as nove classes de seres, as nove aberturas do corpo (portas das
foras da vida), as nove categorias de homens entre os Peul, etc.
   Antes de dar incio ao trabalho, o tecelo deve tocar cada pea do tear
pronunciando palavras ou ladainhas correspondentes s foras da vida que elas
encarnam.
   O vaivm dos ps, que sobem e descem para acionar os pedais, lembra o
ritmo original da Palavra criadora, ligado ao dualismo de todas as coisas e  lei
dos ciclos. Como se os ps dissessem o seguinte:
         "Fonyonko! Fonyonko! Dualismo! Dualismo!
         Quando um sobe, o outro desce.
         A morte do rei e a coroao do prncipe,
         A morte do av e o nascimento do neto,
         Brigas de divrcio misturadas ao barulho de uma festa de casamento...".
      De sua parte, diz a naveta:
         "Eu sou a barca do Destino.
         Passo por entre os recifes dos fios da trama
         Que representam a Vida.
         Passo do lado direito para o lado esquerdo,
         Desenrolando meu intestino (o fio)
         Para contribuir  construo.
         E de novo passo do lado esquerdo para o lado direito,
         Desenrolando meu intestino.
         A vida  eterno vaivm,
         Permanente doao de si".
   A tira de tecido que se acumula e se enrola em um basto que repousa sobre
o ventre do tecelo representa o passado, enquanto o rolo do fio a ser tecido
simboliza o mistrio do amanh, o desconhecido devir. O tecelo sempre dir:
" amanh! No me reserve uma surpresa desagradvel!".
   No total, o trabalho do tecelo representa oito movimentos de vaivm
(movimentos dos ps, dos braos, da naveta e o cruzamento rtmico dos fios do
tecido) que correspondem s oito peas da armao do tear e s oito patas da
aranha mtica que ensinou sua cincia ao ancestral dos teceles.
   Os gestos do tecelo, ao acionar o tear, representam o ato da criao e as
palavras que lhe acompanham os gestos so o prprio canto da Vida.
A tradio viva                                                                                         187



    Quanto ao ferreiro tradicional, ele  o depositrio do segredo das
transmutaes. Por excelncia,  o "Mestre do Fogo". Sua origem  mtica, e, na
tradio bambara, chamam-no de "Primeiro Filho da Terra". Suas habilidades
remontam a Maa, o primeiro homem, a quem o criador Maa Ngala ensinou,
entre outros, os segredos da "forjadura". Por isso a forja  chamada de Fan, o
mesmo nome do Ovo primordial, de onde surgiu todo o universo e que foi a
primeira forja sagrada.
    Os elementos da forja esto ligados a um simbolismo sexual, sendo esta a
expresso, ou o reflexo, de um processo csmico de criao. Desse modo, os
dois foles redondos, acionados pelo assistente do ferreiro, so comparados aos
testculos masculinos. O ar com que so enchidos  a substncia da vida enviada,
atravs de uma espcie de tubo, que representa o falo, para a fornalha da forja,
que representa a matriz onde age o fogo transformador.
    O ferreiro tradicional s pode entrar na forja aps um banho ritual de
purificao preparado com o cozimento de certas folhas, cascas ou razes de
rvores, escolhidas em funo do dia. Com efeito, as plantas (como os minerais
e os animais) dividem-se em sete classes, que correspondem aos dias da semana
e esto ligadas pela lei de "correspondncia analgica".10 Em seguida, o ferreiro
se veste de modo especial, uma vez que no pode entrar na forja vestido com
roupa comum.
    Todos os dias pela manh, purifica a forja com defumaes especiais feitas
com plantas que ele conhece.
    Terminadas essas operaes, lavado de todos os contatos com o exterior, o
ferreiro encontra-se em estado sacramental. Voltou a ser puro e assemelha-se
agora ao ferreiro primordial. S ento,  semelhana de Maa Ngala, pode ele
"criar", modificando e moldando a matria. (Em fulfulde, ferreiro traduz-se por
baylo, palavra que literalmente significa "transformador").
    Antes de comear o trabalho, invoca os quatro elementos-me da criao,
(terra, gua, ar e fogo), que esto obrigatoriamente representados na forja: existe
sempre um receptculo com gua, o fogo da fornalha, o ar enviado pelos foles e
um montculo de terra ao lado da forja.
    Durante o trabalho, o ferreiro pronuncia palavras especiais  medida que vai
tocando cada ferramenta. Ao tomar a bigorna, que simboliza a receptividade
feminina, diz: "No sou Maa Ngala, mas o representante de Maa Ngala. Ele 



10   A respeito da lei de correspondncia analgica, v. HAMPAT B, A. Aspects de la civilisation africaine,
     Prsence africaine, Paris, 1972, p. 120 e segs.
188                                                    Metodologia e pr-histria da frica



quem cria, no eu". Em seguida, apanha um pouco de gua, ou um ovo, oferece-a
 bigorna e diz: "Eis teu dote".
    Pega o martelo, que simboliza o falo, e aplica alguns golpes na bigorna para
"sensibiliz-la". Estabelecida a comunicao, ele pode comear a trabalhar.
    O aprendiz no deve fazer perguntas. Deve apenas observar com ateno
e soprar. Esta  a fase "muda" do aprendizado.  medida que vai avanando
na assimilao do conhecimento, o aprendiz sopra em ritmos cada vez mais
complexos, cada um deles possuindo um significado. No decorrer da fase oral do
aprendizado, o Mestre transmitir gradualmente todos os seus conhecimentos
ao discpulo, treinando-o e corrigindo-o at que adquira a mestria. Aps uma
"cerimnia de liberao", o novo ferreiro poder deixar o mestre e instalar a sua
prpria forja. Comumente, o ferreiro envia os prprios filhos para outro ferreiro
a fim de iniciarem seu aprendizado. Como diz o adgio: "As esposas e os filhos
do Mestre no so seus melhores discpulos".
    Assim, o arteso tradicional, imitando Maa Ngala, "repetindo" com seus
gestos a criao primordial, realizava no um "trabalho" no sentido puramente
econmico da palavra, mas uma funo sagrada que empregava as foras
fundamentais da vida e em que se aplicava todo o seu ser. Na intimidade da
oficina ou da forja, participava do mistrio renovado da criao eterna.
    Os conhecimentos do ferreiro devem abranger um vasto setor da vida.
Renomado ocultista, a mestria dos segredos do fogo e do ferro faz dele a nica
pessoa habilitada a praticar a circunciso, e, como vimos, o grande "Mestre da
faca" na iniciao do Komo  invariavelmente um ferreiro. No apenas sabe
tudo o que diz respeito aos metais, como tambm conhece perfeitamente a
classificao das plantas e suas propriedades.
    O ferreiro de alto-forno, que ao mesmo tempo extrai e funde o mineral, 
o mais avanado em conhecimentos.  cincia de ferreiro fundidor, acrescenta
o conhecimento perfeito dos "Filhos do seio da Terra" (mineralogia) e dos
segredos das plantas e da mata. De fato, ele conhece as espcies de vegetais
que cobrem a terra que contm determinado metal e detecta um veio de ouro
simplesmente examinando as plantas e os seixos. Conhece as encantaes da
terra e as encantaes das plantas. Uma vez que se considera a natureza como
viva e animada pelas foras, todo ato que a perturba deve ser acompanhado de
um "comportamento ritual" destinado a preservar e salvaguardar o equilbrio
sagrado, pois tudo se liga, tudo repercute em tudo, toda ao faz vibrar as foras
da vida e desperta uma cadeia de consequncias cujos efeitos so sentidos pelo
homem.
A tradio viva                                                                 189



    A relao do homem tradicional com o mundo era, portanto, uma relao
viva de participao e no uma relao de pura utilizao.  compreensvel que,
nesta viso global do universo, o papel do profano seja mnimo.
    No antigo pas Bale, por exemplo, o ouro, que a terra oferecia em abundncia,
era considerado metal divino e no chegou a ser explorado exaustivamente.
Empregavam-no sobretudo na confeco de objetos reais ou cultuais, mas
igualmente o utilizavam como moeda de cmbio e objeto de presente. Sua
extrao era livre a todos, mas a ningum era permitida a apropriao de pepitas
que ultrapassassem certo tamanho; toda pepita com peso superior ao padro
era devolvida ao deus e se destinava a aumentar o "ouro real", depsito sagrado
do qual os prprios reis no tinham o direito de usufruir. Certos tesouros reais
foram desta maneira transmitidos intactos at a ocupao europeia. A terra,
acreditava-se, pertencia a Deus, e ao homem cabia o direito de "usufruir" dela,
mas no o de possu-la.
    Voltando ao arteso tradicional, ele  o exemplo perfeito de como o
conhecimento pode se incorporar no somente aos gestos e aes, mas tambm
 totalidade da vida, uma vez que deve respeitar um conjunto de proibies
e obrigaes ligadas  sua atividade, que constitui um verdadeiro cdigo de
comportamento em relao  natureza e aos semelhantes.
    Existe, desse modo, o que se chama de "Costume dos ferreiros" (numusira
ou numuya, em bambara), "Costume dos agricultores", "Costume dos teceles",
e assim por diante, e, no plano tnico, o que se chama de "Costume dos Peul"
(Lawol fulfulde), verdadeiros cdigos morais, sociais e jurdicos peculiares a cada
grupo, transmitidos e observados fielmente pela tradio oral.
    Pode-se dizer que o ofcio, ou a atividade tradicional, esculpe o ser do homem.
Toda a diferena entre a educao moderna e a tradio oral encontra-se a.
Aquilo que se aprende na escola ocidental, por mais til que seja, nem sempre
 vivido, enquanto o conhecimento herdado da tradio oral encarna-se na
totalidade do ser. Os instrumentos ou as ferramentas de um ofcio materializam
as Palavras sagradas; o contato do aprendiz com o ofcio o obriga a viver a
Palavra a cada gesto.
    Por essa razo a tradio oral, tomada no seu todo, no se resume  transmisso
de narrativas ou de determinados conhecimentos. Ela  geradora e formadora de
um tipo particular de homem. Pode-se afirmar que existe a civilizao dos ferreiros,
a civilizao dos teceles, a civilizao dos pastores, etc.
    Limitei-me aqui a examinar os exemplos particularmente tpicos dos ferreiros
e dos teceles, mas, de um modo geral, toda atividade tradicional constitui uma
190                                                     Metodologia e pr-histria da frica



grande escola iniciatria ou mgico-religiosa, uma via de acesso  Unidade, da
qual, para os iniciados,  um reflexo ou uma expresso peculiar.
    Geralmente, a fim de conservar restritos  linhagem os conhecimentos
secretos e os poderes mgicos deles decorrentes, todo grupo devia observar
proibies sexuais rigorosas em relao a pessoas estranhas ao grupo e praticar
a endogamia. A endogamia, portanto, no se deve  ideia de intocabilidade,
mas ao desejo de manter dentro do grupo os segredos rituais. Assim, podemos
perceber como esses grupos, rigorosamente especializados e harmonizados com
as "funes sagradas", gradualmente chegaram  noo de "casta", tal como existe
atualmente na frica da savana. "A guerra e o nobre fazem o escravo"  diz o
adgio , "mas  Deus quem faz o arteso (o nyamakala)."
    A noo de castas superiores ou inferiores, por conseguinte, no se baseia
em uma realidade sociolgica tradicional. Ela surgiu com o decorrer do tempo,
apenas em determinados lugares, provavelmente como consequncia da apario
de alguns imprios onde a funo de guerreiro, reservada aos nobres, lhes conferia
uma espcie de supremacia. No passado distante, a noo de nobreza era sem
dvida diferente, e o poder espiritual tinha precedncia sobre o poder temporal.
Naquele tempo, eram os Silatigui (mestres iniciados peul), e no os Ardo (chefes,
reis) que governavam as comunidades peul.
    Contrariamente ao que alguns escreveram ou supuseram, o ferreiro  muito
mais temido do que desprezado na frica. "Primeiro filho da Terra", mestre do
Fogo e manipulador de foras misteriosas,  temido, acima de tudo, pelo seu
poder.
    De qualquer maneira, a tradio sempre atribuiu aos nobres a obrigao
de garantir a conservao das "castas" ou classes de nyamakala (em bambara;
nyeenyo, pl. nyeeybe, em fulani). Tais classes gozam da prerrogativa de obter
mercadorias (ou dinheiro) no como retribuio de um trabalho, mas como o
reclamo de um privilgio que o nobre no podia recusar.
    Na tradio do Mande, cujo centro se acha no Mali, mas que cobre mais
ou menos todo o territrio do antigo Bafur (isto , a antiga frica ocidental
francesa, com exceo das zonas de floresta e da parte oriental da Nigria), as
"castas", ou nyamakala compreendem:
          os ferreiros (numu em bambara, baylo em fulfulde);
          os teceles (maabo em bambara e em fulfulde);
          os trabalhadores da madeira (tanto o lenhador como o marceneiro; saki em
           bambara, labbo em fulfulde);
          os trabalhadores do couro (garanke em bambara, sakke em fulfulde);
A tradio viva                                                                              191



                 os animadores pblicos (dieli em bambara; em fulfulde, eles so designados
                  pelo nome geral de nyamakala ou membro de uma casta, isto , nyeeybe).
                  Mais conhecidos pelo nome francs de griot.
   Embora no exista noo de "superioridade" propriamente dita, as quatro
classes de nyamakala-artesos tm precedncia sobre os griots, pois demandam
iniciao e conhecimentos especiais. O ferreiro est no topo da hierarquia,
seguido pelo tecelo, pois seu ofcio implica o mais alto grau de iniciao. Ambos
podem escolher indistintamente esposas de uma ou de outra casta, pois as
mulheres so oleiras tradicionais, tendo, portanto, a mesma iniciao feminina.
   Na classificao do Mande, os nyamakalaartesos dividem-se em grupos
de trs:
   Existem trs tipos de ferreiro (numu em bambara, baylo em fulfulde):
                 o ferreiro de mina (ou de alto-forno), que extrai os minrios e funde metal. Os
                  grandes iniciados entre eles podem, igualmente, trabalhar na forja;
                 o ferreiro do ferro negro, que trabalha na forja mas no extrai minrios;
                 o ferreiro dos metais preciosos, ou joalheiro, que geralmente  corteso e,
                  como tal, instala-se nos ptios externos dos palcios de um chefe ou nobre.
    Existem trs tipos de teceles (maabo):
                 o tecelo de l, que possui o maior grau de iniciao. Os motivos dos
                  cobertores so sempre simblicos e esto associados aos mistrios dos
                  nmeros e da cosmogonia. Todo desenho tem um nome;
                 o tecelo de kerka, que tece imensos cobertores, mosquiteiros e cortinas de
                  algodo que podem ter at 6 m de comprimento com uma infinita variedade
                  de motivos. Cheguei a examinar uma dessas cortinas com 165 motivos.
                  Cada motivo recebe um nome e tem um significado. O prprio nome  um
                  smbolo que representa vrias realidades;
                 o tecelo comum, que confecciona faixas simples de tecido branco e que no
                  passa por uma grande iniciao.
   s vezes ocorre de a tecelagem comum ser feita por nobres. Assim, alguns
Bambara confeccionam faixas de tecido branco sem serem teceles de casta. Como
no so iniciados, porm, no podem tecer nem kerka, nem l, nem mosquiteiros.
   Existem trs tipos de carpinteiros (saki em bambara, labbo em fulfulde):
                 aquele que faz almofarizes, piles e estatuetas sagradas. O almofariz, onde
                  os remdios sagrados so triturados,  um objeto ritual feito apenas com
                  determinados tipos de madeira. Como na ferraria, a carpintaria simboliza
192                                                       Metodologia e pr-histria da frica



           as duas foras fundamentais: o almofariz representa, como a bigorna,
           o plo feminino, enquanto o pilo representa, como o martelo, o plo
           masculino. As estatuetas sagradas so executadas sob o comando de um
           iniciadodoma, que as "carrega" de energia sagrada prevendo algum uso
           particular. Alm do ritual de "carregamento", a escolha e o corte da madeira
           tambm devem ser realizados sob condies especiais, cujo segredo s o
           lenhador conhece.
          O prprio arteso corta a madeira de que precisa. Portanto,  tambm um
          lenhador e sua iniciao est ligada ao conhecimento dos segredos das plantas
          e da mata. Sendo a rvore considerada viva e habitada por outros espritos
          vivos, no pode ser derrubada ou cortada sem determinadas precaues
          rituais conhecidas pelo lenhador;
          aquele que faz utenslios ou mveis domsticos de madeira;
          aquele que fabrica pirogas, devendo ser iniciado tambm nos segredos da
           gua.
   No Mali, os Somono, que se tornaram pescadores sem pertencer  etnia Bozo,
tambm comearam a fabricar pirogas. So eles que podemos ver trabalhando
s margens do Nger entre Kulikoro e Mopti.
   Existem trs tipos de trabalhadores do couro (garanke em bambara, sakke
em fulfulde):
          os que fazem sapatos;
          os que fazem arreios, rdeas, etc.;
          os seleiros ou correeiros.
    O trabalho do couro tambm envolve uma iniciao, e os garanke geralmente
tm a reputao de feiticeiros.
    Os caadores, os pescadores e os agricultores no correspondem a castas, mas
sim a etnias. Suas atividades esto entre as mais antigas da sociedade humana:
a "colheita" (agricultura) e a "caa" (que compreende "duas caas", uma na terra
e outra na gua) representam tambm grandes escolas de iniciao, pois no h
quem se aproxime imprudentemente das foras sagradas da Terra-Me e dos
poderes da mata, onde vivem os animais. A exemplo do ferreiro de alto-forno, o
caador, de modo geral, conhece todas as "encantaes da mata" e deve dominar
a fundo a cincia do mundo animal.
    Os curandeiros (que curam por meio de plantas ou pelo "dom da fala")
podem pertencer a qualquer classe ou grupo tnico. Normalmente eles so
Doma.
A tradio viva                                                                            193



    Cada povo possui como herana dons particulares, transmitidos de gerao
a gerao atravs da iniciao. Assim, os Dogon do Mali tm a reputao de
conhecer o segredo da lepra, que sabem curar muito rapidamente sem deixar
uma nica marca, e o segredo da cura da tuberculose. Alm disso, so excelentes
"restauradores", pois conseguem recolocar os ossos quebrados, mesmo em caso
de fraturas graves.


    Os animadores pblicos ou "griots"("dieli" em bambara)
    Se as cincias ocultas e esotricas so privilgio dos "mestres da faca" e
dos chantres dos deuses, a msica, a poesia lrica e os contos que animam as
recreaes populares, e normalmente tambm a histria, so privilgios dos
griots, espcie de trovadores ou menestris que percorrem o pas ou esto ligados
a uma famlia.
    Sempre se sups  erroneamente  que os griots fossem os nicos
"tradicionalistas" possveis. Mas quem so eles?
    Classificam-se em trs categorias:
                 os griots msicos, que tocam qualquer instrumento (monocrdio, guitarra,
                  cora, tant, etc.). Normalmente so excelentes cantores, preservadores,
                  transmissores da msica antiga e, alm disso, compositores.
                 os griots "embaixadores" e cortesos, responsveis pela mediao entre as
                  grandes famlias em caso de desavenas. Esto sempre ligados a uma famlia
                  nobre ou real, s vezes a uma nica pessoa.
                 os griots genealogistas, historiadores ou poetas (ou os trs ao mesmo tempo),
                  que em geral so igualmente contadores de histria e grandes viajantes, no
                  necessariamente ligados a uma famlia.
    A tradio lhes confere um status social especial. Com efeito, contrariamente
aos Horon (nobres), tm o direito de ser cnicos e gozam de grande liberdade de
falar. Podem manifestar-se  vontade, at mesmo impudentemente e, s vezes,
chegam a troar das coisas mais srias e sagradas sem que isso acarrete graves
consequncias. No tm compromisso algum que os obrigue a ser discretos ou
a guardar respeito absoluto para com a verdade. Podem s vezes contar mentiras
descaradas e ningum os tomar no sentido prprio. "Isso  o que o dieli diz!
No  a verdade verdadeira, mas a aceitamos assim". Essa mxima mostra muito
bem de que modo a tradio aceita as invenes dos dieli, sem se deixar enganar,
pois, como se diz, eles tm a "boca rasgada".
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figura 8.3 Tocador de Valiha. O instrumento  de
madeira com cordas de ao (Foto Museu do Homem).
Figura 8.4 "Griot hutu" imitando o "mwami" cado
(Foto B. Nantet).
A tradio viva                                                                  195



    Em toda a tradio do Bafur, o nobre ou o chefe no s  proibido de tocar
msica em reunies pblicas, mas tambm deve ser moderado na expresso e
na fala. "Muita conversa no convm a um Horon", diz o provrbio. Assim, os
griots ligados s famlias acabam por desempenhar naturalmente o papel de
mediadores, ou mesmo de embaixadores, caso surjam problemas de menor ou
maior importncia. Eles so "a lngua" de seu mestre.
    Quando ligados a uma famlia ou pessoa, geralmente ficam encarregados de
alguma misso corriqueira e particularmente das negociaes matrimoniais. Para
dar um exemplo, um jovem nobre no se dirigir diretamente a uma jovem para
dizer-lhe de seu amor. Far do griot o porta-voz que entrar em contato com a moa
ou com sua griote para falar dos sentimentos de seu mestre e louvar-lhe os mritos.
    Uma vez que a sociedade africana est fundamentalmente baseada no dilogo
entre os indivduos e na comunicao entre comunidades ou grupos tnicos,
os griots so os agentes ativos e naturais nessas conversaes. Autorizados a
ter "duas lnguas na boca", se necessrio podem se desdizer sem que causem
ressentimentos. Isso jamais seria possvel para um nobre, a quem no se permite
voltar atrs com a palavra ou mudar de deciso. Um griot chega at mesmo a
arcar com a responsabilidade de um erro que no cometeu a fim de remediar
uma situao ou de salvar a reputao dos nobres.
     aos velhos sbios da comunidade, em suas audincias secretas, que cabe o
difcil dever de "olhar as coisas pela janela certa"; mas cabe aos griots cumprir
aquilo que os sbios decidiram e ordenaram.
    Treinados para colher e fornecer informaes, eles so os grandes portadores
de notcias, mas igualmente, muitas vezes, grandes difamadores.
    O nome dieli em bambara significa sangue. De fato, tal como o sangue, eles
circulam pelo corpo da sociedade, que podem curar ou deixar doente, conforme
atenuem ou avivem os conflitos atravs das palavras e das canes.
     necessrio acrescentar, entretanto, que se trata aqui apenas de caractersticas
gerais e que nem todos os griots so necessariamente desavergonhados ou cnicos.
Pelo contrrio, entre eles existem aqueles que so chamados de dielifaama, ou
seja, "griots-reis". De maneira nenhuma estes so inferiores aos nobres no que se
refere a coragem, moralidade, virtudes e sabedoria, e jamais abusam dos direitos
que lhes foram concedidos por costume.
    Os griots foram importante agente ativo do comrcio e da cultura humana.
    Em geral dotados de considervel inteligncia, desempenhavam um papel de
grande importncia na sociedade tradicional do Bafur devido  sua influncia
sobre os nobres e os chefes. Ainda hoje, em toda oportunidade, estimulam e
suscitam o orgulho do cl dos nobres com suas canes, normalmente para
196                                                                     Metodologia e pr-histria da frica



ganhar presentes, mas muitas vezes para tambm encoraj-los a enfrentar
alguma situao difcil.
    Durante a noite de viglia que precede o rito da circunciso, por exemplo,
eles encorajam a criana ou o jovem a mostrar-se digno de seus antepassados
permanecendo impassvel. Entre os Peul, canta-se o seguinte: "teu pai11, Fulano,
que morreu no campo de batalha, engoliu o `mingau do ferro incandescente'
(as balas) sem piscar. Espero que amanh tu no sintas medo da ponta da faca
do ferreiro". Na cerimnia do basto, ou Soro, entre os Peul Bororo do Nger,
as canes do griot animam o jovem que deve provar sua coragem e pacincia
mantendo um sorriso e sem tremer as plpebras, enquanto recebe fortes golpes
de basto no peito.
    Os griots tomaram parte em todas as batalhas da histria, ao lado de seus
mestres, cuja coragem estimulavam relembrando-lhes a genealogia e os grandes
feitos dos antepassados. Para o africano, a invocao do nome de famlia  de
grande poder. Ademais,  pela repetio do nome da linhagem que se sada e
se louva um africano.
    A influncia exercida pelos dieli, ao longo da histria, adquiria a qualificao
de boa ou m, conforme suas palavras incitavam o orgulho dos lderes e os
impeliam a excessos ou, como era o caso mais frequente, chamavam-nos ao
respeito de seus deveres tradicionais.
    Como se v, os griots participam efetivamente da histria dos grandes
imprios africanos do Bafur, e o papel desempenhado por eles merece um estudo
em profundidade.
    O segredo do poder da influncia dos Dieli sobre os Horon (nobres) reside
no conhecimento que tm da genealogia e da histria das famlias. Alguns
deles chegaram a fazer desse conhecimento uma verdadeira especializao. Os
griots dessa categoria raramente pertencem a uma famlia e viajam pelo pas em
busca de informaes histricas cada vez mais extensas. Desse modo, certamente
adquirem uma capacidade quase mgica de provocar o entusiasmo de um nobre
ao declamar para ele a prpria genealogia, os objetos herldicos e a histria
familiar, e, consequentemente, de receber dele valiosos presentes. Um nobre 
capaz de se despojar de tudo o que traz consigo e possui dentro de casa para
presentear a um griot que conseguiu lhe mover os sentimentos. Aonde quer que
vo, estes griots genealogistas tm a sobrevivncia largamente assegurada.



11    "Teu pai", em linguagem africana, pode muito bem designar um tio, um av ou um antepassado. Significa
      toda a linha paterna, inclusive as colaterais.
A tradio viva                                                                                         197



    No se deve pensar, entretanto, que se trata de uma "retribuio". A ideia
de remunerao pelo trabalho realizado  contrria  noo tradicional de
direito dos nyamakala sobre as classes nobres12. Qualquer que seja sua fortuna,
os nobres, mesmo os mais pobres, so tradicionalmente obrigados a oferecer
presentes aos dieli ou a qualquer nyamakala ou woloso13  mesmo quando o dieli
 infinitamente mais rico do que o nobre. De um modo geral,  a casta dos Dieli
a que mais reclama presentes. Quaisquer que sejam seus ganhos, porm, o dieli
sempre  pobre, pois gasta tudo o que tem, contando com os nobres para seu
sustento. "O!" canta o dieli solicitante, "a mo de um nobre no est grudada ao
seu pescoo com avareza; ela est sempre pronta a buscar em seu bolso algo para
dar quele que pede". E, se por acaso isso no ocorrer,  melhor que o nobre se
precavenha contra os problemas que ter com o "homem da boca rasgada", cujas
"duas lnguas" podem arruinar negcios e reputaes!
    Do ponto de vista econmico, portanto, a casta dos Dieli, como todas as classes
de nyamakala e de woloso,  dependente da sociedade, especialmente das classes
nobres. A progressiva transformao das condies econmicas e dos costumes
alterou, at certo ponto, esta situao, e antigos nobres ou griots passaram a aceitar
funes remuneradas. Mas o costume no morreu, e as pessoas ainda se arrunam
por ocasio de festas de batismo ou casamento para darem presentes aos griots que
vm animar as festas com suas canes. Alguns governos modernos tentaram pr
fim a esse costume, mas, que se saiba, ainda no conseguiram.
    Os dieli, sendo nyamakala, devem em princpio casar-se dentro das classes
de nyamakala.
     fcil ver como os griots genealogistas, especializados em histrias de famlias
e geralmente dotados de memria prodigiosa, tornaram-se naturalmente, por
assim dizer, os arquivistas da sociedade africana e, ocasionalmente, grandes
historiadores. Mas  importante lembrarmos que eles no so os nicos a
possuir tal conhecimento. Os griots historiadores, a rigor, podem ser chamados
de "tradicionalistas", mas com a ressalva de que se trata de um ramo puramente
histrico da tradio, a qual possui muitos outros ramos.
    O fato de ter nascido dieli no faz do homem necessariamente um historiador,
embora o incline para essa direo, e muito menos que se torne um sbio em


12   "Nobre"  uma traduo bastante aproximativa de Horon. Em verdade, Horon  toda pessoa que no
     pertence nem  classe dos nyamakala nem  classe dos jon ("cativos"), sendo esta ltima constituda por
     descendentes de prisioneiros de guerra. O Horon tem por dever assegurar a defesa da comunidade, dar
     sua vida por ela, assim como garantir a conservao das outras classes.
13 Sobre Woloso, "cativo de casa", cf. n. 5.
198                                                     Metodologia e pr-histria da frica



assuntos tradicionais, um "Conhecedor". De um modo geral, a casta dos Dieli  a
que mais se distancia dos domnios iniciatrios, que requerem silncio, discreo
e controle da fala.
    A possibilidade de se tornarem "Conhecedores" est ao alcance deles, tanto
quanto ao de qualquer outro indivduo. Assim como um tradicionalistadoma
(o "Conhecedor" tradicional no verdadeiro sentido do termo) pode vir a ser
ao mesmo tempo um grande genealogista e historiador, um griot, como todo
membro de qualquer categoria social, pode tornar-se um tradicionalista-doma se
suas aptides o permitirem e se ele tiver passado pelas iniciaes correspondentes
(com exceo, no entanto, da iniciao do Komo, que lhe  proibida).
    No desenvolvimento deste estudo, mencionamos o exemplo de dois griots
"Conhecedores" que atualmente vivem no Mali: Iwa e Banzoumana, sendo que
este ltimo  ao mesmo tempo grande msico, historiador e tradicionalista-doma.
    O griot que  tambm tradicionalista-doma constitui uma fonte de informaes
de absoluta confiana, pois sua qualidade de iniciado lhe confere um alto valor
moral e o sujeita  proibio da mentira. Torna-se um outro homem.  ele o
"griotrei" do qual falamos anteriormente, a quem as pessoas consultam por sua
sabedoria e seu conhecimento, e que, embora capaz de divertir, jamais abusa de
seus direitos consuetudinrios.
    Quando um griot conta uma histria, geralmente lhe perguntam: " uma
histria de dieli ou uma histria de doma?" Se for uma histria de dieli, costuma-se
dizer: "Isso  o que o dieli diz!", e ento se pode esperar alguns embelezamentos
da verdade, com a inteno de destacar o papel desta ou daquela famlia 
embelezamentos que no seriam feitos por um tradicionalistadoma, que se
interessa, acima de tudo, pela transmisso fiel.
     necessrio fazer uma distino: quando estamos na presena de um griot
historiador, convm sabermos se se trata de um griot comum ou de um griot
doma. Ainda assim deve-se admitir que a base dos fatos raramente  alterada;
serve de trampolim  inspirao potica ou panegrica, que, se no chega a
falsific-la, pelo menos a "ornamenta".
    Um mal-entendido que ainda tem sequela em alguns dicionrios franceses
deve ser esclarecido. Os franceses tomavam os dieli, a quem chamavam de "griots",
por feiticeiros (sorcier), o que no corresponde  realidade. Pode acontecer de um
griot ser kortetigui, "lanador de m sorte", assim como pode acontecer de um
griot ser doma, "conhecedor tradicional", no porque nasceu griot, mas porque
foi iniciado e adquiriu sua proficincia, boa ou ruim, na escola de um mestre
do ofcio.
A tradio viva                                                                                  199



    O mal-entendido provavelmente advm da ambivalncia do termo francs
"griot", que pode designar o conjunto dos nyamakala (que incluem os dieli) e,
mais frequentemente, apenas a casta dos Dieli.
    A tradio declara que os nyamakala so todos subaa, termo que designa um
homem versado em conhecimentos ocultos a que s tm acesso os iniciados,
uma espcie de "ocultista". A tradio exclui desta designao os dieli, que no
seguem uma via iniciatria prpria. Portanto, os nyamakala-artesos so subaa.
Dentre estes, encontra-se o garanke, trabalhador do couro, que possui a reputao
de ser um subaga, feiticeiro no mau sentido do termo.
    Quanto a mim, sou propenso a acreditar que os primeiros intrpretes europeus
confundiram os dois termos subaa e subaga (semelhantes na pronncia) e que a
ambivalncia do termo "griot" fez o resto.
    Uma vez que a tradio declara que "todos os nyamakala so subaa (ocultistas)",
os intrpretes devem ter entendido "todos os nyamakala so subaga (feiticeiros)",
o que, devido ao duplo uso, coletivo ou particular, da palavra "griot", tornou-se
"todos os `griots' so feiticeiros". Da o mal-entendido.
    Seja como for, a importncia do dieli no se encontra nos poderes de bruxaria
que ele possa ter, mas em sua arte de manejar a fala, que, alis, tambm  uma
forma de magia.
    Antes de deixarmos os griots, assinalemos algumas excees que podem causar
confuso. Por vezes, alguns teceles deixam de exercer seu ofcio tradicional
para se tornarem tocadores de guitarra. Os Peul chamam-nos de Bammbaado,
literalmente "aquele que  carregado nas costas", porque suas despesas so
sempre pagas por outrem ou pela comunidade. Os Bammbaado, que so sempre
contadores de histrias, tambm podem ser poetas, genealogistas e historiadores.
    Alguns lenhadores tambm podem trocar suas ferramentas por uma guitarra
e se tornar excelentes msicos e genealogistas. Bokar Ilo e Idriss Ngada, que,
pelo que sei, se encontravam entre os grandes genealogistas do Alto Volta, eram
lenhadores que se tornaram msicos. Mas trata-se aqui de excees.
    Do mesmo modo, alguns nobres desacreditados podem se tornar animadores
pblicos, mas no msicos14, e so chamados de Tiapourta (em bambara e em
fulfulde). Assim, so mais impudentes e cnicos do que o mais impudente dos
griots, e ningum leva a srio seus comentrios. Pedem presentes aos griots com
tal insistncia que estes ltimos chegam a fugir ao ver um Tiapourta ...



14   Cabe lembrar que os Horou (nobres), peul ou bambara, jamais tocam msica, pelo menos em pblico.
     Os Tiapourta conservaram, em geral, esse costume.
200                                                    Metodologia e pr-histria da frica



    Se a msica , em geral, a grande especialidade dos dieli, existe tambm uma
msica ritual, tocada por iniciados, que acompanha as cerimnias ou as danas
rituais. Os instrumentos dessa msica sagrada so, portanto, verdadeiros objetos
de culto, que tornam possvel a comunicao com as foras invisveis. Por serem
instrumentos de corda, sopro ou percusso, encontram-se em conexo com os
elementos: terra, ar e gua.
    A msica prpria para "encantar" os espritos do fogo  apangio da associao
dos comedores de fogo, que so chamados de Kursikolonin ou Donngasoro.


      Como tornarse um tradicionalista
   Na frica do Bafur, como j foi dito, qualquer um podia tornar -se
tradicionalistadoma, isto , "Conhecedor", em uma ou mais matrias tradicionais.
O conhecimento estava  disposio de todos (sendo a iniciao onipresente
sob uma forma ou outra) e sua aquisio dependia simplesmente das aptides
individuais.
   O conhecimento era to valorizado, que tinha precedncia sobre tudo e
conferia nobreza. O conhecedor, em qualquer rea, podia sentar-se no Conselho
dos Ancios encarregado da administrao da comunidade, a despeito de sua
categoria social  horon, nyamakala ou woloso. "O conhecimento no distingue
raa nem `porta paterna' (o cl). Ele enobrece o homem", diz o provrbio.
   A educao africana no tinha a sistemtica do ensino europeu, sendo
dispensada durante toda a vida. A prpria vida era educao. No Bafur, at os
42 anos, um homem devia estar na escola da vida e no tinha "direito a palavra"
em assembleias, a no ser excepcionalmente. Seu dever era ficar "ouvindo" e
aprofundar o conhecimento que veio recebendo desde sua iniciao, aos 21
anos. A partir dos 42 anos, supunha-se que j tivesse assimilado e aprofundado
os ensinamentos recebidos desde a infncia. Adquiria o direito a palavra nas
assembleias e tornava-se, por sua vez, um mestre, para devolver  sociedade
aquilo que dela havia recebido. Mas isso no o impedia de continuar aprendendo
com os mais velhos, se assim o desejasse, e de lhes pedir conselhos. Um homem
idoso encontrava sempre outro mais velho ou mais sbio do que ele, a quem
pudesse solicitar uma informao adicional ou uma opinio. "Todos os dias",
costuma-se dizer, "o ouvido ouve aquilo que ainda no ouviu". Assim, a educao
podia durar a vida inteira.
   Aps aprender o ofcio e seguir a iniciao correspondente, o jovem nyamakala
 arteso, pronto para voar com suas prprias asas, ia geralmente de cidade em
A tradio viva                                                               201



cidade, a fim de aumentar seus conhecimentos aprendendo com novos mestres.
"Aquele que no viajou, nada viu", diz-se. Assim, ele ia de oficina em oficina,
percorrendo, o mais extensamente possvel, o pas. Os homens das montanhas
desciam s plancies, os das plancies subiam s montanhas, os do Beledugu
vinham ao Mande, e assim por diante.
    Com o propsito de logo se fazer reconhecer, o jovem ferreiro, em viagem,
trazia sempre o fole a tiracolo; o lenhador, o machado ou a enx; o tecelo
carregava s costas o tear desmontado, mas mantinha a naveta ou o carretel bem
 mostra, nos ombros; o trabalhador do couro levava seus pequenos potes de
tinta. Quando o jovem chegava a uma cidade grande, onde os artesos viviam
em corporaes agrupadas por ofcio, era automaticamente conduzido ao local
dos trabalhadores do couro ou dos teceles, etc.
    No curso das viagens e investigaes, a extenso do aprendizado dependia da
destreza, da memria e, sobretudo, do carter do jovem. Se era corts, simptico
e servial, os velhos lhe contavam segredos que no contariam a outros, pois se
diz: "O segredo do velho no se compra com dinheiro, mas com boas maneiras".
    Quanto ao jovem horon, passava a infncia na corte do pai e na cidade, onde
assistia a todas as reunies, ouvia as histrias que se contavam e retinha tudo
o que podia. Nas sesses noturnas de sua "associao de idade", cada criana
contava as histrias que havia escutado, fossem elas de carter histrico ou
iniciatrio  neste ltimo caso, sem compreender bem todas as implicaes.
A partir dos sete anos, automaticamente fazia parte da sociedade de iniciao
de sua cidade e comeava a receber os ensinamentos, que, como j explicamos,
abrangiam todos os aspectos da vida.
    Quando um velho conta uma histria iniciatria em uma assembleia,
desenvolve-lhe o simbolismo de acordo com a natureza e capacidade de
compreenso de seu auditrio. Ele pode fazer dela simples histria infantil
com fundamento moral educativo ou uma fecunda lio sobre os mistrios da
natureza humana e da relao do homem com os mundos invisveis. Cada um
retm e compreende conforme sua capacidade.
    O mesmo ocorre com os relatos histricos que do vida s reunies, narrativas
em que os grandes feitos dos antepassados, ou dos heris do pas, so evocados
nos mnimos detalhes. Um estranho de passagem contar histrias de terras
distantes. A criana estar imersa em um ambiente cultural particular, do qual
se impregnar segundo a capacidade de sua memria. Seus dias so marcados
por histrias, contos, fbulas, provrbios e mximas.
    Via de regra, o jovem horon no viaja para o exterior, uma vez que est
preparado para a defesa do seu pas. Trabalha com o pai, que pode ser agricultor,
202                                                    Metodologia e pr-histria da frica



alfaiate ou exercer qualquer outra atividade reservada  classe dos horon. Se o
jovem  Peul, muda-se de acampamento com os pais, aprende muito cedo a
cuidar sozinho do rebanho em plena mata, tanto durante o dia quanto  noite,
e recebe a iniciao peul relativa ao simbolismo do gado.
    De modo geral, uma pessoa no se torna tradicionalista-doma permanecendo
em sua cidade. Um curandeiro que deseja aprofundar seus conhecimentos tem
de viajar para conhecer as diferentes espcies de plantas e se instruir com outros
"Conhecedores" do assunto.
    O homem que viaja descobre e vive outras iniciaes, registra diferenas e
semelhanas, alarga o campo de sua compreenso. Onde quer que v, toma parte
em reunies, ouve relatos histricos, demora-se com um transmissor de tradio
especializado em iniciao ou em genealogia, entrando, desse modo, em contato
com a histria e as tradies dos pases por onde passa.
    Pode-se dizer que o homem que se tornou tradicionalista-doma foi um
pesquisador e um indagador durante toda a vida e jamais deixar de s-lo.
    O africano da savana costumava viajar muito. O resultado era a troca e
a circulao de conhecimentos.  por esse motivo que a memria histrica
coletiva, na frica, raramente se limita a um nico territrio. Ao contrrio,
est ligada a linhas de famlia ou a grupos tnicos que migraram pelo
continente.
    Muitas caravanas abriam caminho pela regio servindo-se de uma rede de
rotas especiais, protegidas tradicionalmente por deuses e reis e nas quais se
estava livre de pilhagens e ataques. De outro modo, arriscavam-se ou a um
ataque ou  violao involuntria, por desconhecimento, de algum tabu local e
a pagar caro pelas consequncias. Quando da chegada a um pas desconhecido,
os viajantes iam "confiar sua cabea" a algum homem de posio que dali
em diante se tornava seu garante, pois "tocar o `estrangeiro'  tocar o prprio
anfitrio".
    O grande genealogista  sempre um grande viajante. Enquanto um griot pode
contentar-se em conhecera genealogia da famlia a que est ligado, o verdadeiro
genealogista  seja griot ou no , a fim de aumentar seus conhecimentos, dever
necessariamente viajar pelo pas para se informar sobre as principais ramificaes
de um grupo tnico, e depois viajar para o exterior para traar a histria dos
ramos que emigraram.
    Assim, Molom Gaolo, o maior genealogista peul que tive o privilgio de
conhecer, conhecia a genealogia de todos os Peul do Senegal. Quando a idade
avanada no mais lhe permitiu que viajasse para o exterior, ele enviou o filho
Mamadou Molom para continuar o levantamento junto s famlias peul que
A tradio viva                                                               203



haviam migrado pelo Sudo (Mali) com al-Hadjdj'Umar. Na poca em que
conheci Molom Gaolo, ele havia conseguido compilar e fixar a histria passada
de quase quarenta geraes.
    Ele tinha como hbito ir a todos os batizados ou funerais das principais
famlias, a fim de registrar as circunstncias dos nascimentos e mortes, que
acrescentava ao rol j guardado em sua memria fabulosa. Era capaz, tambm,
de declamar para qualquer Peul importante: "Voc  o filho de Fulano, nascido
de Beltrano, descendente de Sicrano, ramo de Fulano. .. que morreram em tal
lugar, por tal causa, e que foram enterrados em tal local", e assim por diante.
"Fulano foi batizado em tal dia, a tal hora, pelo marabu tal e tal..." Logicamente
toda essa informao era, e ainda , transmitida oralmente e registrada apenas
na memria do genealogista. No se pode fazer ideia do que a memria de um
"iletrado" pode guardar. Um relato ouvido uma vez fica gravado como em uma
matriz e pode, ento, ser reproduzido intacto, da primeira  ltima palavra,
quando a memria o solicitar.
    Moiam Gaolo, parece-me, faleceu por volta de 1968, aos 105 anos.
    Seu filho, Mamadou Gaolo, agora com 50 anos, vive no Mali, onde continua
o trabalho do pai, pelo mesmo mtodo, exclusivamente oral, sendo tambm ele
iletrado.
    Wahab Gaolo, contemporneo de Mamadou Gaolo, e ainda vivo, realizou
um levantamento das etnias de lngua fulfulde (povos Peul e Tukulor) no Chade,
Camares, Repblica Centro-Africana e at no Zaire, para informar-se sobre a
genealogia e a histria das famlias que emigraram para aqueles pases.
    Os Gaolo no so dieli, mas uma etnia de lngua fulfulde semelhante 
classe dos nyamakala e que desfruta das mesmas prerrogativas. Muito mais
oradores e declamadores que msicos (salvo suas mulheres, que cantam com
o acompanhamento de instrumentos rudimentares), podem ser contadores de
histrias e animadores, existindo, entre eles, muitos genealogistas.
    Entre os Marka (etnia mande), os genealogistas tm o nome de "Guessere".
    Dizer genealogista  dizer historiador, pois um bom genealogista conhece a
histria, as proezas e os gestos de todas as personagens que cita ou, pelo menos,
das principais. Essa cincia se encontra na prpria base da histria da frica,
pois o interesse pela histria est ligado no  cronologia, mas  genealogia, no
sentido de se poder estabelecer as linhas de desenvolvimento de uma famlia,
cl ou etnia no tempo e no espao.
    Assim, todo africano tem um pouco de genealogista e  capaz de remontar
a um passado distante em sua prpria linhagem. Do contrrio, estaria como
que privado de sua "carteira de identidade". No antigo Mali, no havia quem
204                                                     Metodologia e pr-histria da frica



no conhecesse pelo menos 10 ou 12 geraes de antepassados. Dentre todos
os velhos tukulor que vieram para Macina com al-Hadjdj'Umar no havia um
que no soubesse sua genealogia no Futa Senegal (seu pas de origem) e seu
parentesco com as famlias que l permaneceram. Foram eles que Mamadou
Molom, filho de Molom Gaolo, consultou quando veio ao Mali para dar
prosseguimento  pesquisa de seu pai.
   A genealogia , desse modo, ao mesmo tempo sentimento de identidade,
meio de exaltar a glria da famlia e recurso em caso de litgio. Um conflito por
um pedao de terra, por exemplo, poderia ser resolvido por um genealogista,
que indicaria qual ancestral havia limpado e cultivado a terra, para quem a havia
dado, sob que condies, etc.
   Ainda hoje encontramos entre a populao muitos conhecedores de
genealogia e histria que no pertencem nem  classe dos dieli nem  dos gaolo.
Temos a uma importante fonte de informaes para a histria da frica, pelo
menos ainda por um certo tempo. Cada patriarca  um genealogista para seu
prprio cl, e os dieli e gaolo vm frequentemente lhes pedir informaes com o
propsito de complementar seus conhecimentos. De modo geral, todo velho na
frica  sempre um "Conhecedor" em algum assunto histrico ou tradicional.
   O conhecimento genealgico no , portanto, exclusividade dos griots e gaolo,
mas so eles os nicos especialistas em declamar genealogias perante os nobres
para obter presentes.


      Influncia do Isl
    As peculiaridades da memria africana e as modalidades de sua transmisso
oral no foram afetadas pela islamizao, que atingiu grande parte dos pases
da savana ou do antigo Bafur. De fato, por onde se espalhou, o Isl no adaptou
a tradio africana a seu modo de pensar, mas, pelo contrrio, adaptou-se 
tradio africana quando  como normalmente ocorria  esta no violava seus
princpios fundamentais. A simbiose assim originada foi to grande, que por
vezes torna-se difcil distinguir o que pertence a uma ou a outra tradio.
    A grande famlia rabe-berbere dos Kunta islamizou a regio bem antes do
sculo XI. Logo que aprenderam o rabe, os autctones passaram a se utilizar
de suas tradies ancestrais para transmitir e explicar o Isl.
    Grandes escolas islmicas puramente orais ensinavam a religio nas lnguas
vernculas (exceto o Coro e os textos que fazem parte da orao cannica). Podemos
mencionar, entre muitas outras, a escola oral de Djelgodji (chamada Kabe), a escola
A tradio viva                                                                                            205



de Barani, a de Amadou Fodia em Farimak (distrito de Niafounk, no Mali), a
de Mohammed Abdoulaye Souadou em Dilli (distrito de Nara, no Mali) e a do
xeque Usman dan Fodio na Nigria e no Nger, onde todo o ensino era ministrado
em fulfulde. Mais prximas de ns estavam a Zauia de Tierno Bokar Salif, em
Bandiagara, e a escola do xeque Salah, o grande marabu dogon, ainda vivo.
    Das crianas que saam das escolas cornicas a maioria era capaz de recitar
de cor o Coro inteiro, em rabe e no salmo desejado, sem entender o sentido
do texto, o que demonstra a capacidade da memria africana.
    Em todas essas escolas os princpios bsicos da tradio africana no eram
repudiados, mas, ao contrrio, utilizados e explicados  luz da revelao cornica.
Tierno Bokar, tradicionalista em assuntos africanos e islmicos, tornou-se
famoso pela intensa aplicao deste mtodo educacional.
    Independentemente de uma viso sagrada comum do universo e de uma mesma
concepo do homem e da famlia, encontramos, nas duas tradies, a mesma
preocupao em citar as fontes (isnad, em rabe) e nunca modificar as palavras
do mestre, o mesmo respeito pela cadeia de transmisso iniciatria (silsila, ou
"cadeia", em rabe) e o mesmo sistema de caminhos iniciatrios (no Isl, as grandes
congregaes Sufi ou Tariga, plural turuq, cuja cadeia remonta ao prprio Profeta),
que tornam possvel aprofundar, atravs da experincia, aquilo que se conhece pela f.
    s categorias de "Conhecedores" tradicionais j existentes vieram juntar-se
as dos marabus (letrados em rabe ou em jurisprudncia islmica) e dos grandes
xeques Sufi, embora as estruturas da sociedade (castas e ofcios tradicionais)
fossem preservadas, inclusive nos meios mais islamizados, e continuassem a
veicular suas iniciaes particulares. O conhecimento de assuntos islmicos
constitua uma nova fonte de enobrecimento. Assim, Alfa Ali, falecido em 1958,
gaolo de nascimento, foi a maior autoridade em assuntos islmicos no distrito
de Bandiagara, assim como seus antepassados e seu filho15.


     Histria de uma coleta
   Para dar uma ilustrao prtica de como narrativas histricas, entre outras,
vivem e so preservadas com extrema fidelidade na memria coletiva de uma
sociedade de tradio oral, contarei de que maneira consegui reunir, unicamente


15   De modo geral, a islamizao, vinda do norte e do leste, afetou mais particularmente os pases da savana,
     enquanto que a cristianizao, vinda por mar, tocou mais as regies de floresta da costa. No podemos falar
     do encontro entre a tradio e o cristianismo por no possuirmos nenhuma informao sobre o assunto.
206                                                     Metodologia e pr-histria da frica



a partir da tradio oral, os elementos que me permitiram escrever a Histria do
Imprio Peul de Macina no Sculo XVIII16.
    Pertencendo  famlia de Tidjani, chefe da provncia, tive, desde a infncia,
condies ideais para ouvir e reter. A casa de Tidjani, meu pai, em Bandiagara,
estava sempre cheia de gente. Noite e dia havia grandes reunies onde todos
falavam sobre uma grande variedade de assuntos tradicionais. Estando a famlia
de meu pai muito envolvida nos acontecimentos da poca, os relatos eram
normalmente sobre histria, e cada pessoa narrava um episdio bem conhecido
de alguma batalha ou de outro acontecimento memorvel. Sempre presente
nessas reunies, eu no perdia uma palavra sequer, e minha memria, como cera
virgem, gravava tudo.
    Foi l que, ainda criana, conheci Koullel, o grande contador de histrias,
genealogista e historiador de lngua fulfulde. Eu o seguia por toda parte e aprendia
muitos contos e narrativas que orgulhosamente recontava aos camaradas de meu
grupo de idade, a ponto de me apelidarem "Amkoullel", que significa "pequeno
Koullel".
    Circunstncias alheias  minha vontade levaram-me a viajar, seguindo minha
famlia, por diversos pases onde pude sempre estar em contato com grandes
tradicionalistas. Assim, quando meu pai se viu obrigado a fixar residncia em
Bougouni, para onde Koullel nos havia acompanhado, travei conhecimento
com o grande doma bambara, Danfo Sine, e, em seguida, com seu irmo mais
novo, Latif.
    Mais tarde, em Bamaco e em Kati, a corte de meu pai foi praticamente
reconstituda, e tradicionalistas chegavam de todos os pases para se reunir
em sua casa, sabendo que l encontrariam outros "Conhecedores" em cuja
companhia poderiam avaliar ou mesmo alargar seus prprios conhecimentos,
pois sempre se encontra algum mais sbio.
    Foi ali que comecei a aprender muitas coisas referentes  histria do
Imprio peul de Macina, tanto na verso macinanke (isto , a verso do povo
originrio de Macina, partidrios da famlia de Sheikou Amadou), como
na verso dos Tukulor, seus antagonistas, e ainda na verso de outras etnias
(Bambara, Soninke, Songhai, etc.) que haviam presenciado ou participado dos
acontecimentos.
    Tendo, assim, adquirido uma formao bsica bastante slida, decidi coletar
informaes sistematicamente. Meu mtodo consistia em gravar, primeiramente,


16    HAMPAT B, A. e DAGET, J. 1962.
A tradio viva                                                               207



todas as narrativas, sem me preocupar com sua veracidade ou com uma possvel
exagerao. Em seguida, comparava as narrativas dos Macinanke com as dos
Tukulor ou com as de outras etnias envolvidas. Dessa maneira, sempre se pode
encontrar, em qualquer regio, etnias cujas narrativas permitam controlar as
declaraes dos principais interessados.
    Foi um trabalho de flego. A coleta de informaes exigiu-me mais de 15
anos de trabalho e de jornadas que me levavam do Futa Djalon (Guin) a Kano
(Nigria), a fim de retraar as rotas que Sheikou Amadou e al-Hadjdj'Umar
haviam percorrido em todas as suas viagens. Desse modo, registrei as narrativas
de pelo menos mil informantes. No final, mantive apenas os relatos concordantes,
os que eram conformes tanto s tradies macinanke e tukulor, como tambm
s das demais etnias envolvidas (cujas fontes citei no livro).
    Constatei que, no conjunto, meus mil informantes haviam respeitado a
verdade dos fatos. A trama da narrativa era sempre a mesma. As diferenas,
que se encontravam apenas em detalhes sem importncia, deviam-se  qualidade
da memria ou da verve peculiar do narrador. Dependendo do grupo tnico a
que pertencia, podia tender a minimizar certos revezes ou a tentar encontrar
alguma justificativa para eles, mas no mudava os dados bsicos. Sob a influncia
do acompanhamento musical, o contador de histrias podia deixar-se levar pelo
entusiasmo, mas a linha geral permanecia a mesma: os lugares, as batalhas, as
vitrias e as derrotas, as conferncias e dilogos mantidos, os propsitos dos
personagens principiais, etc.
    Essa experincia provou-me que a tradio oral era perfeitamente vlida do
ponto de vista cientfico.  possvel comparar as verses de diferentes etnias,
como fiz, a ttulo de controle, mas a prpria sociedade exerce um autocontrole
permanente. Com efeito, nenhum narrador poderia permitir-se mudar os fatos,
pois  sua volta haveria sempre companheiros ou ancios que imediatamente
apontariam o erro, fazendo-lhe a sria acusao de mentiroso.
    O Professor Montet certa vez referiu-se a mim como tendo relatado, no
Imprio Peul de Macina, narrativas que seu pai havia coletado 50 anos antes, das
quais nenhuma palavra tinha sido alterada. Isso d uma ideia da fidelidade com
que os dados so preservados na tradio oral!


    Caractersticas da memria africana
   Entre todos os povos do mundo, constatou-se que os que no escreviam
possuam uma memria mais desenvolvida.
208                                                                         Metodologia e pr-histria da frica



    Demos o exemplo dos genealogistas que conseguem reter uma inacreditvel
quantidade de elementos, mas poderamos mencionar tambm o caso de certos
comerciantes iletrados (ainda conheo muitos deles) que dirigem negcios
envolvendo por vezes dezenas de milhes de francos, e emprestam dinheiro a
muitas pessoas no curso das suas viagens, guardando de memria a mais precisa
contabilidade de todos esses movimentos de mercadorias e dinheiro, sem uma
nica nota escrita e sem cometer o menor engano.
    O dado a ser retido fica imediatamente inscrito na memria do tradicionalista,
como em cera virgem, e l permanece sempre disponvel, em sua totalidade17.
    Uma das peculiaridades da memria africana  reconstituir o acontecimento
ou a narrativa registrada em sua totalidade, tal como um filme que se desenrola
do princpio ao fim, e faz-lo no presente. No se trata de recordar, mas de trazer
ao presente um evento passado do qual todos participam, o narrador e a sua
audincia. A reside toda a arte do contador de histrias. Ningum  contador
de histrias a menos que possa relatar um fato tal como aconteceu realmente,
de modo que seus ouvintes, assim como ele prprio, tornem-se testemunhas
vivas e ativas desse fato. Ora, todo africano , at certo ponto, um contador de
histrias. Quando um estranho chega a uma cidade, faz sua saudao dizendo:
"Sou vosso estrangeiro". Ao que lhe respondem: "Esta casa est aberta para
ti. Entra em paz". E em seguida: "D-nos notcias". Ele passa, ento, a relatar
toda sua histria, desde quando deixou sua casa, o que viu e ouviu, o que lhe
aconteceu, etc., e isso de tal modo que seus ouvintes o acompanham em suas
viagens e com ele as revivem.  por esse motivo que o tempo verbal da narrativa
 sempre o presente.
    De maneira geral, a memria africana registra toda a cena: o cenrio, os
personagens, suas palavras, at mesmo os mnimos detalhes das roupas. Nos
relatos de guerra dos Tukulor, sabemos qual bubu bordado o grande heri
Oumarei Samba Dondo estava usando em determinada batalha, quem era seu
palafreneiro e o que lhe aconteceu, qual era o nome de seu cavalo e o que lhe
sucedeu, etc. Todos esses detalhes animam a narrativa, contribuindo para dar
vida  cena.

17    Esse fenmeno poderia estar relacionado com o fato de as faculdades sensoriais do homem serem mais
      desenvolvidas onde h necessidade de se fazer grande uso delas e se atrofiarem em meio  vida moderna. O
      caador africano tradicional, por exemplo, pode ouvir e identificar determinados sons a vrios quilmetros
      de distncia. Sua viso  particularmente acurada. Alguns tm a capacidade de "sentir" a gua, como
      verdadeiros adivinhos. Os tuaregue do deserto possuem um senso de direo que, est prximo do
      miraculoso. E como esses h dezenas de exemplos. O homem moderno, imerso na multiplicidade de
      rudos e informaes, v suas faculdades se atrofiarem progressivamente. Est cientificamente provado
      que os habitantes das grandes cidades perdem cada vez mais sua capacidade auditiva.
A tradio viva                                                              209



    Por essa razo o tradicionalista no consegue "resumir" seno dificilmente.
Resumir uma cena equivale, para ele, a escamote-la. Ora, por tradio, ele no
tem o direito de fazer isso. Todo detalhe possui sua importncia para a verdade
do quadro. Ou narra o acontecimento em sua integridade ou no o narra. Se lhe
for solicitado resumir uma passagem ele responder: "Se no tens tempo para
ouvir-me, contarei um outro dia".
    Do mesmo modo, o tradicionalista no tem receio de se repetir. Ningum
se cansa de ouvi-lo contar a mesma histria, com as mesmas palavras, como
talvez j tenha contado inmeras vezes. A cada vez, o filme inteiro se desenrola
novamente. E o evento est l, restitudo. O passado se torna presente. A vida
no se resume jamais. Pode-se, quando muito, reduzir uma histria para as
crianas, resumindo certas passagens, mas ento no se a tomar por verdade.
Em se tratando de adultos, o fato deve ser narrado na ntegra ou calado.
    Esta peculiaridade da memria africana tradicional ligada a um contexto de
tradio oral  em si uma garantia de autenticidade.
    Quanto  memria dos tradicionalistas, em especial a dos tradicionalistas
doma ou "Conhecedores", que abrange vastas reas do conhecimento tradicional,
constitui uma verdadeira biblioteca onde os arquivos no esto "classificados",
mas totalmente inventariados.
    Tudo isso pode parecer catico para um esprito moderno, mas para
os tradicionalistas, se existe caos,   maneira das molculas de gua que se
misturam no mar para formar um todo vivo. Nesse mar, eles se movimentam
com a facilidade de um peixe.
    As fichas imateriais do catlogo da tradio oral so mximas, provrbios,
contos, lendas, mitos, etc., que constituem quer um esboo a ser desenvolvido,
quer um ponto de partida para narrativas didticas antigas ou improvisadas.
Os contos, por exemplo, e especialmente os de iniciao, possuem uma trama
bsica invarivel,  qual, no entanto, o narrador pode acrescentar floreados,
desenvolvimentos ou ensinamentos adequados  compreenso de seus ouvintes.
O mesmo ocorre com os mitos, que so conhecimentos condensados em uma
forma sinttica que o iniciado pode sempre desenvolver ou aprofundar para
seus alunos.
    Convm considerar com ateno o contedo dos mitos e no "catalog-
-los" muito rapidamente. Podem encobrir realidades de ordens muito diversas e
mesmo, por vezes, ser entendidos em vrios nveis simultaneamente.
    Enquanto alguns mitos se referem a conhecimentos esotricos e "ocultam" o
conhecimento ao mesmo tempo que o transmitem atravs dos sculos, outros
podem ter alguma relao com acontecimentos reais. Tomemos o exemplo de
210                                                    Metodologia e pr-histria da frica



Thianaba, a serpente mtica peul, cuja lenda narra as aventuras e a migrao pela
savana africana, a partir do oceano Atlntico. Por volta de 1921, o engenheiro
Belime, encarregado de construir a barragem de Sansanding, teve a curiosidade
de seguir passo a passo as indicaes geogrficas da lenda, que ele havia
aprendido com Hammadi Djenngoudo, grande "Conhecedor" peul. Para sua
surpresa, descobriu o traado do antigo leito do rio Nger.


      Concluso
    Para a frica, a poca atual  de complexidade e de dependncia. Os diferentes
mundos, as diferentes mentalidades e os diferentes perodos sobrepem-se,
interferindo uns nos outros, s vezes se influenciando mutuamente, nem sempre
se compreendendo. Na frica o sculo XX encontra-se lado a lado com a Idade
Mdia, o Ocidente com o Oriente, o cartesianismo, modo particular de "pensar"
o mundo, com o "animismo", modo particular de viv-lo e experiment-lo na
totalidade do ser.
    Os jovens lderes "modernos" governam, com mentalidades e sistemas de lei,
ou ideologias, diretamente herdados de modelos estrangeiros, povos e realidades
sujeitos a outras leis e com outras mentalidades. Para exemplificar, na maioria
dos territrios da antiga frica ocidental francesa, o cdigo legal elaborado logo
aps a independncia, por nossos jovens juristas, recm-sados das universidades
francesas, est pura e simplesmente calcado no Cdigo Napolenico. O
resultado  que a populao, at ento governada segundo costumes sagrados
que, herdados de ancestrais, asseguravam a coeso social, no compreende por
que est sendo julgada e condenada em nome de um "costume" que no  o seu,
que no conhece e que no corresponde s realidades profundas do pas.
    O drama todo do que chamarei de "frica de base"  o de ser frequentemente
governada por uma minoria intelectual que no a compreende mais, atravs de
princpios incompatveis com a sua realidade.
    Para a nova "inteligentsia" africana, formada em disciplinas universitrias
europeias, a Tradio muitas vezes deixou de viver. So "histrias de velhos"!
No entanto,  preciso dizer que, de um tempo para c, uma importante parcela
da juventude culta vem sentindo cada vez mais a necessidade de se voltar s
tradies ancestrais e de resgatar seus valores fundamentais, a fim de reencontrar
suas prprias razes e o segredo de sua identidade profunda.
    Por contraste, no interior da "frica de base", que em geral fica longe das
grandes cidades  ilhotas do Ocidente , a tradio continuou viva e, como j o
A tradio viva                                                               211



disse antes, grande nmero de seus representantes ou depositrios ainda pode
ser encontrado. Mas por quanto tempo?
    O grande problema da frica tradicional , em verdade, o da ruptura da
transmisso.
    Nas antigas colnias francesas, a primeira grande ruptura veio com a guerra
de 1914, quando a maioria dos jovens se alistou para ir combater na Frana,
de onde muitos nunca retornaram. Estes jovens deixaram o pas na idade em
que deveriam estar passando pelas grandes iniciaes e aprofundando seus
conhecimentos sob a direo dos mais velhos.
    O fato de que era obrigatrio para homens importantes enviarem seus filhos
a "escolas de brancos", de modo a separ-los da tradio, favoreceu igualmente
esse processo. A maior preocupao do poder colonial era, compreensivelmente,
remover as tradies autctones tanto quanto possvel para implantar no lugar
suas prprias concepes. As escolas, seculares ou religiosas, constituram os
instrumentos essenciais desta ceifada.
    A educao "moderna" recebida por nossos jovens aps o fim da ltima
guerra concluiu o processo e criou um verdadeiro fenmeno de aculturao.
    A iniciao, fugindo dos grandes centros urbanos, buscou refgio na
floresta, onde, devido  atrao das grandes cidades e ao surgimento de novas
necessidades, os "ancios" encontram cada vez menos "ouvidos dceis" a quem
possam transmitir seus ensinamentos, pois, segundo uma expresso consagrada,
o ensino s pode se dar "de boca perfumada a ouvido dcil e limpo" (ou seja,
inteiramente receptivo).
    Estamos hoje, portanto, em tudo o que concerne  tradio oral, diante da
ltima gerao dos grandes depositrios. Justamente por esse motivo o trabalho de
coleta deve ser intensificado durante os prximos 10 ou 15 anos, aps os quais
os ltimos grandes monumentos vivos da cultura africana tero desaparecido
e, junto com eles, os tesouros insubstituveis de uma educao peculiar, ao
mesmo tempo material, psicolgica e espiritual, fundamentada no sentimento
de unidade da vida e cujas fontes se perdem na noite dos tempos.
    Para que o trabalho de coleta seja bem-sucedido, o pesquisador dever se
armar de muita pacincia, lembrando que deve ter "o corao de uma pomba,
a pele de um crocodilo e o estmago de uma avestruz". "O corao de uma
pomba" para nunca se zangar nem se inflamar, mesmo se lhe disserem coisas
desagradveis. Se algum se recusa a responder sua pergunta, intil insistir; vale
mais instalar-se em outro ramo. Uma disputa aqui ter repercusses em outra
parte, enquanto uma sada discreta far com que seja lembrado e, muitas vezes,
chamado de volta. "A pele de um crocodilo", para conseguir se deitar em qualquer
212                                                  Metodologia e pr-histria da frica



lugar, sobre qualquer coisa, sem fazer cerimnias. Por ltimo, "o estmago de
uma avestruz", para conseguir comer de tudo sem adoecer ou enjoar-se.
    A condio mais importante de todas, porm,  saber renunciar ao hbito
de julgar tudo segundo critrios pessoais. Para descobrir um novo mundo, 
preciso saber esquecer seu prprio mundo, do contrrio o pesquisador estar
simplesmente transportando seu mundo consigo ao invs de manter-se " escuta".
    Atravs da boca de Tierno Bokar, o sbio de Bandiagara, a frica dos velhos
iniciados avisa o jovem pesquisador:
      "Se queres saber quem sou,
      Se queres que te ensine o que sei,
      Deixa um pouco de ser o que tu s
      E esquece o que sabes".
A Arqueologia da frica e suas tcnicas  Processos de datao           213



                                         CAPTULO 9


    A Arqueologia da frica e suas tcnicas 
             Processos de datao
                                               Z. Iskander




    Ao descobrir um artefato, o arquelogo geralmente comea a estud-lo
atravs de meios puramente arqueolgicos, como o registro da camada em
que foi encontrado, a leitura do texto que o acompanha, a descrio de sua
forma, o clculo de suas dimenses, etc. Os dados assim obtidos so estudados
estratigrfica, filolgica e tipologicamente, podendo resultar da importantes
informaes no que diz respeito  idade, s origens, etc. do artefato. Na maioria
dos casos, entretanto, o arquelogo no consegue encontrar os dados capazes
de fornecer uma resposta s suas perguntas ou ajud-lo a chegar a concluses
satisfatrias. Quando isso acontece, ele tem de submeter sua descoberta a outras
disciplinas, para completar a investigao. Essa investigao, por sua vez, deve
trazer-lhe informaes sobre o material de que  feito o objeto, sua origem,
tcnica de fabricao, idade, o uso a que se destinava, etc. Deve-se enfatizar,
no entanto, que essas pesquisas complementares constituem apenas um novo
ngulo sob o qual o arquelogo vai enfocar o problema; os dados cientficos e as
consideraes de ordem estilstica, filolgica e estratigrfica devem formar um
todo inseparvel1.




1    HALL, E. T. 1970, p. 135-41.
214                                                          Metodologia e pr-histria da frica



   A superviso de stios arqueolgicos enterrados,  exceo das escavaes,
a conservao dos vestgios e monumentos descobertos so outros campos nos
quais as tcnicas cientficas podem auxiliar a Arqueologia.
   Os mtodos cientficos utilizados pela Arqueologia tm o mrito de ser
universais. Podem ser aplicados tanto na frica como na Europa, sia ou
Amrica, embora a maneira de aplic-los possa variar de um lugar para outro.
O assunto  muito vasto; por isso, trataremos os temas seguintes de maneira
ampla, sem entrar em muitos detalhes de laboratrio:
               Tcnicas analticas usadas em arqueometria
               Objetivos da pesquisa e da anlise arqueomtricas
               Tcnicas de datao
               Tcnicas usadas na prospeco arqueolgica
               Tcnicas de conservao


      Tcnicas analticas usadas em arqueometria
   As tcnicas de anlise tm-se desenvolvido tanto, que s vezes  difcil decidir
qual delas utilizar no exame de determinada amostra, para obter a informao
desejada. Os pargrafos seguintes procuram abordar todos os aspectos do problema.

      Escolha do mtodo de anlise
    As amostras arqueolgicas so excepcionalmente valiosas por duas razes:
por um lado, a quantidade de material disponvel  em geral to pequena que mal
e mal se presta a uma anlise completa e, no caso de ser totalmente usada, talvez
no possa ser substituda. Por outro lado, pelo menos uma parte da amostra deve
ser guardada para futuras referncias ou exposies. Portanto, deve-se ter muito
cuidado nas anlises arqueomtricas, a fim de obter o maior nmero possvel
de informaes. Os critrios que determinam a escolha do mtodo de anlise a
ser adotado podem ser resumidos como segue2.

      Importncia da amostragem disponvel
   Se a quantidade do material disponvel  suficientemente grande, procede-se,
de preferncia,  anlise qumica em meio aquoso, para determinar a porcentagem


2     HALL, E. T. op. cit.
A Arqueologia da frica e suas tcnicas  Processos de datao                  215



dos principais elementos constituintes. A anlise de absoro atmica pode ser
aplicada para determinar as porcentagens de metais alcalinos tais como o sdio, o
potssio e o ltio. Entretanto, para elementos e compostos imponderveis (traos),
as anlises por meio de fluorescncia ou difrao de raios X so preferveis, embora
seus resultados comportem uma margem de erro de 10 a 20%.
    Se a quantidade de amostras disponveis  mnima e vrios elementos devem
ser detectados, convm recorrer  espectrofotometria ou  difrao de raios X.
Quando o arquelogo no puder fornecer um espcime completo, por menor que
seja, o material pode ser analisado por emisso espectromtrica ou fluorescncia
de raios X, contanto que o tamanho e a forma do objeto permitam a utilizao
desse tipo de aparelhagem.

    Tipo de material analisvel
   Existe uma grande variedade de materiais arqueolgicos. Alguns deles,
como alimentos, unguentos, resinas, leos e ceras, so total ou parcialmente
orgnicos. Outros, como metais, pigmentos, cermicas, vidro e gesso,
so inorgnicos. Os materiais orgnicos so geralmente submetidos a
combusto, saponificao, dissoluo, radiao infravermelha, anlise
trmica e cromatogrfica. Os materiais inorgnicos so submetidos s
anlises normais em meio aquoso,  espectrometria,  fluorescncia de raios
X,  difrao de raios X ou  ativao por nutrons, conforme o tipo de
informao procurada.

    Tipo de informao procurada
   Para economizar tempo e dinheiro, deve-se proceder  anlise de acordo
com um programa bem planejado, em cooperao com o arquelogo, para se
obterem respostas a questes especficas. Por exemplo, o cobre e o bronze
antigos se parecem superficialmente. Somente o estanho permite que se
estabeleam diferenas entre esses metais: submete-se um pequeno pedao
da amostra a uma soluo concentrada de cido ntrico; o precipitado
esbranquiado de cido metastnico que se forma  a seguir diludo em
gua destilada. Esse teste simples est ao alcance de qualquer arquelogo.
Minerais de chumbo eram utilizados antigamente no Egito para vitrificar
peas de cermica. Desse modo, apenas o teste para detectar a presena
de chumbo j  suficiente para determinar aproximadamente a data de
fabricao de um objeto vitrificado.
216                                                              Metodologia e pr-histria da frica



      Apresentao dos resultados
    Os arquelogos que vo estudar os resultados da investigao cientfica
e us-los em seus relatrios e concluses raramente so cientistas. Convm,
portanto, que os resultados lhes sejam apresentados de maneira acessvel. Assim,
por exemplo, em vez de utilizar submltiplos do grama, numa amostra de 100
gramas,  bem mais til apresentar todos os resultados em porcentagens, de
forma que sejam universalmente compreendidos. Alm disso, tal procedimento
facilita a comparao dos resultados entre diferentes laboratrios.

      Mtodos de exame e de anlise
   luz destas consideraes, podemos enumerar as tcnicas de anlise mais
importantes usadas em arqueometria.

      Exame microscpico
   Um exame com uma simples lente de aumento (10X ou 20X) geralmente 
muito til para obter uma primeira impresso de um artefato ou de uma amostra
antiga. Melhor ainda  uma lente binocular com ampliao de 7X, 10X ou 20X
e um amplo campo entre a objetiva e o plano focal. Este dispositivo permite a
observao de cavidades profundas, que uma lupa normal no poderia atingir.
   Dados mais precisos so obtidos com a ajuda de um microscpio composto,
com ampliao de 100, 200, 400 e 1250X e imerso em leo. O exame
microscpico pode ser aplicado com os seguintes objetivos:
             identificao: na maior parte dos casos,  possvel identificar uma amostra
              (em estado puro ou composta de elementos heterogneos) estudando
              microscopicamente a textura ou as particularidades cristalinas de seus
              componentes;
             anlise qualitativa: as tcnicas atuais possibilitam a precipitao, a dissoluo,
              a observao da evoluo gasosa e outros processos que podem ser aplicados
              em uma parte minscula da amostra3. Por exemplo, se um fragmento de
              amostra for colocado numa lmina de vidro e umedecido, ocorrer ou no
              sua dissoluo. Se a essa soluo for adicionada uma gota de nitrato de prata
              e surgir, no cido ntrico, um precipitado esbranquiado, insolvel, pode-se
              deduzir a presena de um nion de cloreto;



3     EWING, G. W. 1954, p. 411.
A Arqueologia da frica e suas tcnicas  Processos de datao       217




figura 9.1 Microfotografia de uma seco da fateixa de cobre
pertencente ao barco de Quops em Gizeh.
Figura 9.2 Radiografia frontal do peito da Rainha Nedjemet, da 21a
dinastia. Museu do Cairo.
218                                                             Metodologia e pr-histria da frica



              anlise quantitativa: os mtodos microscpicos so particularmente valiosos
               na anlise quantitativa de combinaes heterogneas complexas, dificilmente
               analisveis pelos mtodos qumicos comuns4. Entre outros resultados,
               permitem a determinao do nmero e do tamanho dos componentes. Se
               a densidade de cada componente  conhecida, as porcentagens volumtricas
               dos componentes da mistura podem ser convertidas em porcentagens
               ponderveis5.


      Radiografia
    A radiografia  muito til no exame de obras de arte, pois permite, por
exemplo, detectar a presena de corpos estranhos no interior de uma mmia
ainda enfaixada ou incrustaes decorativas escondidas sob camadas de blsamo,
etc. Tais informaes ajudam a determinar a tcnica a ser adotada para retirar as
bandagens das mmias; so muito valiosas tambm nos trabalhos de conservao
de objetos de metal, alm de serem muito teis durante os estudos cientficos
e arqueolgicos. No museu do Cairo, por exemplo, a radiografia de mmias
reais revelou que mesmo aquelas das quais j se haviam retirado as bandagens
ainda continham joias que haviam escapado  deteco, por se encontrarem sob
espessas camadas de resina6.

      Determinao do peso especfico
   Na Antiguidade, o ouro geralmente continha prata ou cobre. Os objetos de
ouro so to preciosos que, na maioria dos casos, nenhum fragmento, por menor
que seja, pode ser retirado para anlise. Diante disso, Caley pensou em aplicar
o mtodo de determinao do peso especfico, que no traz nenhum risco de
deteriorao e permite que se descubra a porcentagem de ouro dos artefatos7.
Este mtodo  muito fcil e baseia-se no princpio de Arquimedes. Se o peso
do objeto ao ar livre  de W g e na gua  de X g,

seu peso especfico ser igual a        W .
                                       WX




4     CHAMOT, E. M. e MASON, C. W. 1938, p. 431.
5     KOLTHOFF, I. M., SANDELL, E. B., MEEHAN, E. J. e BRUCKENSTEIN, S. 1969.
6     HALPERN, J. W., HARRIS, J. E. e BARNES, C. 1971. p. 18.
7     CALEY, E. R. 1949, p. 73-82.
A Arqueologia da frica e suas tcnicas  Processos de datao                                   219



   Como o peso especfico do ouro (19,3)  quase o dobro do da prata (10,5)
ou do cobre (8,9), a presena de pequenas quantidades de prata ou cobre pode
ser facilmente detectada. Supondo que o objeto no contenha platina, que o
componente de ligao (prata ou cobre) seja conhecido e que no tenha ocorrido
nenhuma contrao durante a fuso, a margem de erro previsvel no clculo do
teor de ouro  da ordem de 1%.

     Anlise qumica normal em meio aquoso
    Esta tcnica  indispensvel, em Arqueologia, para o estudo do material
de que  feito um artefato, bem como para a escolha da melhor maneira de
conserv-lo.  usada nas anlises qualitativas e quantitativas de argamassas,
gesso, vestgios corrodos de artefatos metlicos, restos de comida, cosmticos,
resduos de blsamos e produtos anlogos, etc.
    A descrio das tcnicas utilizadas em tais anlises no  do mbito deste
captulo, pois so familiares a todos os qumicos que trabalham no campo da
Arqueologia; alm disso, so descritas com detalhes em manuais de qumica
analtica, como por exemplo o de Kolthoff e seus co-autores8, relativamente
s matrias inorgnicas, e nos trabalhos de Iskander9 e Stross10, relativamente
s matrias orgnicas e inorgnicas. "Objetos de ferro descobertos em Niani
(Guin), datando do sculo XIII ao sculo XV, foram submetidos a uma anlise
qumica, que revelou conterem cobre, fsforo, nquel, tungstnio, titnio e
molibdnio, impurezas provavelmente presentes nos minrios utilizados"11.

     Espectrofotometria
    Esta tcnica tem sido utilizada na anlise de vestgios antigos, tais como
bronze, cermica, argamassa, pigmentos, etc.
    Vrios fatores tornam a espectrofotometria particularmente vantajosa em
relao a outros mtodos de anlise desses vestgios: apresenta sensibilidade
adequada; permite detectar altas propores (at 20%) da maioria dos elementos;
alm disso, todos os elementos presentes na amostra podem ser gravados em


8    KOLTHOFF, I. M., SANDELL, E. B., MEEHAN, E. J. e BRUCKENSTEIN, S. 1969.
9    FARAG, N. e ISKANDER, Z. 1971, p. 111-15; ISKANDER, Z., p. 59-71, Le monastre de Phoebammon
     duns la Thebaide, v. III, ed. BACHATLY, Cairo, Socit d'Archeologie Copte, 1961; ISKANDER, Z. e
     SHAHEEN, A. E. 1964, p. 197-208; ZAKI, A. e ISKANDER, Z. 1942, p. 295-313.
10   STROSS, F. H. e O'DONNALL, A. E. 1972, p. 1-16.
11   MUZUE, A. e NOSEK, E. 1974, p. 96.
220                                                        Metodologia e pr-histria da frica



linhas espectrais numa chapa fotogrfica durante uma nica exposio, o que
proporciona um registro permanente para posteriores consultas. Uma nova
variante da espectrofotometria  o Laser Milliprobe Spectometer12. "A anlise
espectrogrfica de todos os `bronzes' naturalistas de Ife (Nigria) mostrou que
eles no so de bronze, mas de lato"13.

      Anlise por absoro atmica
   Este mtodo  perfeitamente adequado para amostras de matria inorgnica
(metais, cimentos, soldas, vidro, esmaltes, sais, etc.). Em arqueometria, seu
emprego apresenta as seguintes vantagens: elevado grau de exatido (margem
de erro de 1%) com amostras de 5 a 10 mg; possibilidade de deteco, em uma
mesma amostra, de elementos mais importantes, elementos menos importantes
ou simplesmente traos; enfim,  uma tcnica de uso corrente. Ela facilita muito
tambm as comparaes entre os resultados de diferentes laboratrios, e as
causas eventuais de erros experimentais so mais facilmente controlveis14.

      Fluorescncia de raios X
    A excitao de um espcime por meio de raios X  um mtodo de anlise muito
til. Seu princpio  o seguinte: quando um tomo  bombardeado com raios de
alta frequncia, um eltron  removido de uma rbita interior do tomo e a lacuna
assim criada ser preenchida por um eltron proveniente de uma rbita externa. A
variao de energia entre os nveis externo e interno provm de raios secundrios
ou fluorescentes, caractersticos dos elementos que compem o espcime.15
    Como a fora de penetrao dos raios X  limitada, esta tcnica s pode ser
utilizada na superfcie dos objetos, sendo por isso aplicada apenas na anlise
de vestgios inorgnicos, tais como o vidro, a faiana e a cermica vitrificada, a
obsidiana e a maior parte das rochas. Entretanto, os objetos metlicos antigos
sofreram a ao do tempo, ou os metais menos nobres que continham afloraram
 superfcie. Desta maneira, uma anlise restrita  superfcie desses objetos
atravs do mtodo da fluorescncia de raios X pode oferecer resultados diferentes
daqueles obtidos por uma anlise do objeto inteiro.16

12    HALL, E. T. 1970, p. 135-41.
13    WILLET, F. 1964, p. 81-83.
14    WERNER, A. E. A. 1970, p. 179-85.
15    KOLTHOFF, I. M., SANDELL, E. B., MEEHAN, E. J. e BRUCKENSTEIN, S. 1969.
16    HALL, E. T. 1970, p. 135-41.
A Arqueologia da frica e suas tcnicas  Processos de datao               221



     Anlise por ativao de nutrons
    Nesta tcnica, um grupo de amostras e de produtos qumicos standard 
colocado em um reator nuclear e submetido  irradiao por nutrons lentos
(ou trmicos). Alguns dos istopos resultantes tero vida suficiente para emitir
raios gama. Como cada radioistopo emite raios gama com comprimentos de
onda caractersticos, a anlise desses comprimentos de onda possibilita tanto
a identificao dos elementos presentes no espcime como a determinao
de sua concentrao, quer se trate de elementos importantes, quer de simples
traos.
   Os nutrons e os raios gama tm poder de penetrao muito maior que os
raios X, permitindo assim que a anlise atinja maior espessura em determinada
amostra. Desse modo, o afloramento de cobre  superfcie dos metais pode ser
ignorado.17
    Ao realizar esse tipo de anlise, deve-se tomar o cuidado para que, se o
espcime tiver de retomar ao museu, a radioatividade residual baixe a um nvel
inofensivo em um lapso de tempo razovel. A ttulo de exemplo, o istopo da
prata radioativa tem meia-vida de 225 dias; logo, se um objeto de prata receber
uma dose muito forte de radiao, no poder ser devolvido ao museu por
centenas de anos.18 Nesses casos, uma minscula poro do objeto  retirada
atravs da frico com um pequeno disco de quartzo rugoso. Este quartzo sofre
ento irradiao no reator e  analisado, do modo habitual, para a deteco de
prata, ouro, cobre, antimnio e arsnico.
   Esta tcnica foi recentemente aplicada, em pesquisas arqueolgicas realizadas
na frica, no estudo de contas de vidro, que foram submetidas a duas ativaes
de nutrons. O primeiro bombardeamento durou pouco tempo, procedendo-
-se logo aps  procura de istopos de vida curta nas contas. J o segundo foi
intenso e contnuo, durando oito horas. As amostras foram, ento, deixadas de
lado por alguns dias e depois submetidas  anlise, que procurou por istopos
de vida mdia. A seguir, foram guardadas novamente e mais tarde testadas em
busca de istopos de vida longa.19
    Um estudo de diversas aplicaes desta tcnica em Arqueologia foi publicado
por Sayre e Meyers.20


17   Loc. cit.
18   Loc. cit.
19   DAVISON, C. C. 1973, p. 73 e 74.
20   SAYRE, E. V. e MEYERS, P. 1971, p. 115-50.
222                                                     Metodologia e pr-histria da frica



      Objetivos da anlise arqueomtrica
   Os principais objetivos da investigao cientfica e da anlise em arqueometria
so os seguintes:

      Identificao rigorosa dos objetos
    essencial que a identificao dos vestgios arqueolgicos seja efetuada
escrupulosamente, para que o arquelogo possa descrev-los com exatido nas
publicaes especializa das e nos guias de museus. A identificao precisa da
substncia dos artefatos tambm  muito importante, pois  do conhecimento
da verdadeira natureza das substncias examinadas que depende o alcance
das observaes correspondentes. Infelizmente, os erros de identificao so
frequentes nas publicaes arqueolgicas mais antigas e j causaram muita
confuso. O cobre  s vezes confundido com o bronze, embora a descoberta
e o uso do bronze impliquem certa evoluo cultural. O bronze, por sua vez,
 confundido com o lato e isso pode acarretar uma falsa concluso quanto
 idade do objeto, j que as primeiras produes de lato remontam mais ou
menos  metade do primeiro sculo antes de nossa era, enquanto o bronze j
era conhecido e utilizado uns vinte sculos antes.21
   Como a maior parte dos erros de identificao provm de apreciaes visuais
incorretas, convm enfatizar que, para evitar qualquer risco de interpretao
errnea, a identificao do material arqueolgico deve basear -se na anlise
qumica ou por difrao de raios X.

      Traduo de palavras antigas desconhecidas
   s vezes, uma identificao correta permite traduzir palavras desconhecidas.
Por exemplo, em Saqqara, Egito, foram descobertos dois recipientes de cermica na
sepultura do rei Hor-Aha (Primeira Dinastia, aproximadamente -3100). Em cada
um deles figuravam hierglifos correspondentes  palavra seret, cujo sentido era
ignorado. A anlise qumica revelou que os dois vasos continham queijo; concluiu-
-se ento que seret significava queijo.22 Outro exemplo  a palavra bekhen, escrita
em hierglifos em algumas esttuas de pedra. Como a rocha em que as esttuas
foram esculpidas havia sido anteriormente identificada como grauvaca (xisto) e


21    CALEY, E. R. 1948, p. 1-8.
22    ZAKI, A. e ISKANDER, Z. 1942, p. 295-313.
A Arqueologia da frica e suas tcnicas  Processos de datao                      223



que a palavra aparecia em textos relacionados com Uadi-el-Hammamat, concluiu-
-se que, provavelmente, bekhen significava o xisto de Uadi-el-Hammamat.23

     Deteco da origem dos vestgios arqueolgicos
    A presena em determinado stio arqueolgico de numerosos espcimes cuja
substncia  de origem estrangeira, parece ser uma indicao clara de que esse
material foi importado atravs de troca ou comrcio. Uma vez localizada a fonte
dessa substncia, torna-se fcil estabelecer o caminho seguido por ela. Sabe-se,
por exemplo, que a obsidiana no existe no Egito; entretanto, era utilizada nessa
regio desde a poca pr-dinstica (antes de -3100).
    A obsidiana de alguns objetos dessa poca foi examinada e comparada
com a proveniente de pases vizinhos. Como suas caractersticas eram muito
semelhantes s da obsidiana da Etipia, concluiu-se que fora importada dessa
regio e que os dois pases mantinham relaes comerciais h muito tempo.24
    Na cermica, a identificao de traos por meio da ativao de nutrons
ou fluorescncia de raios X permite o estudo de rotas comerciais locais e
internacionais.25 Vestgios de impurezas em minrios e artefatos de bronze
tambm podem ajudar a relacionar os artefatos ao tipo de material de que
foram feitos.26
    A deteco de nquel em um artefato antigo de ferro permite descobrir se o
ferro provm de um meteorito ou se foi manufaturado, j que o ferro de origem
meteortica sempre contm de 4 a 20% de nquel.
    Recorrendo a uma emisso espectroscpica, o autor examinou o famoso
punhal de Tutankhamon e constatou que o ferro de sua lmina continha uma
quantidade razovel de nquel, o que provou a origem meteortica do ferro.

     Investigao do uso anterior dos objetos examinados
    s vezes,  difcil saber com que finalidade determinado objeto era utilizado.
A esse respeito, a anlise qumica pode ser de grande utilidade. Em 1956, por
exemplo, foi descoberta, na tumba de Neferwptah (aproximadamente -1800),
em Faium (Egito), uma grande jarra de alabastro contendo 2,5 kg de uma
estranha substncia. A anlise qumica revelou que se tratava de um composto de

23   LUCAS, A. 1962, p. 416, 419-20.
24   Loc. cit.
25   PERLMAN, I. e ISARO, F. 1969, p. 21-52.
26   FIELDS, P. R., MILSTED, J., HENRICKSEN, E. e RAMETTE, R. W. 1971, p. 131-43.
224                                                                       Metodologia e pr-histria da frica



48,25% de galena (sulfeto de chumbo natural) e 51,6% de resina, na proporo
1:1, aproximadamente. Como essa composio jamais tinha sido encontrada
antes, a razo pela qual estava na tumba era completamente obscura. Entretanto,
o exame das prescries mdicas do papiro Ebers permitiu descobrir, sob o
n. 402, "um novo (remdio) para remover manchas brancas que apareceram
nos dois olhos: kohl preto (galena) e khet'wa (resina) finamente pulverizados
e aplicados nos dois olhos". A partir desse texto e da composio qumica do
material encontrado na jarra, concluiu-se que Neferwptah provavelmente sofria
de leucoma em um dos olhos ou em ambos. Por isso, forneceram-lhe uma grande
quantidade desse medicamento para uso na vida futura.27

      Pesquisa das antigas tcnicas de fabricao
   O exame metalogrfico de objetos de metal fornece informaes sobre as
tcnicas utilizadas pelos povos antigos em suas artes e indstrias qumicas. Os
exemplos seguintes so significativos a esse respeito.

         Fabricao do azul do Egito
   Amostras deste pigmento azul foram submetidas a exames qumicos,
microscpicos e  difrao por raios X. Chegou -se a reproduzir,
experimentalmente, uma "frita"28 azul anloga. Esses estudos revelaram que o
azul do Egito era feito, na Antiguidade, aquecendo, a 840oC, uma mistura de
areia ou quartzo pulverizado, calcrio igualmente pulverizado, malaquita e sal
comum ou carbonato de sdio.29

         Exame microscpico de objetos de metal
   O exame metalogrfico de objetos de metal pode indicar se eles foram fundidos
ou batidos, ou se as duas tcnicas foram empregadas. O exame metalogrfico de
uma fateixa de cobre que pertenceu ao barco de Quops, descoberta em 1954,
atrs da grande pirmide de Gizeh, demonstrou que havia dendritos no metal;
conclui-se, portanto, que o objeto tinha sido batido.30


27    FARAG, N. e ISKANDER, Z. 1971, p. 111-15.
28    Frita (fr. frite): expresso em desuso que designa a mistura de areia e soda, submetida a uma semifuso
      na fabricao do vidro, da cermica, etc. (N. T. Fr.).
29    LUCAS, A. 1962, p. 416, 419-20.
30    ISKANDER. Z. 1960, p. 29-61. 1a parte.
A Arqueologia da frica e suas tcnicas  Processos de datao                                                225



         Exame de resduos de embalsamamento
    O exame de resduos de materiais para embalsamamento, descobertos em
Saqqara, Luxor e Mataria (Egito), mostrou que continham pequena proporo
de sabo de cidos graxos slidos, resultantes da saponificao das gorduras do
corpo, sob a ao do carbonato de sdio, durante a mumificao. A partir disso,
concluiu-se que os materiais usados serviam para preencher temporariamente
as cavidades do corpo, antes que este fosse desidratado, at se tornar uma massa
de natro,31 no leito de mumificao.32

     Cadinhos de "frita"
   Pesquisas empreendidas em Uadi el-Natrum, nas runas de uma vidraria,
mostraram que o vidro foi fabricado no Egito durante o perodo romano. Essa
indstria passou por duas etapas.
   Durante a primeira etapa, obtinha-se a frita de vidro num cadinho especial
(cadinho de frita)33, misturando slica pura (quartzo), bicarbonato de clcio,
natro ou cinza vegetal, ou ambos, e aquecendo a mistura a uma temperatura
inferior a 1100oC. A argila desse cadinho continha grande proporo de
areia e palha cortada em pedacinhos. Tal mistura, quando cozida, produzia
uma cermica altamente porosa, qualidade essa procurada pelos vidreiros da
Antiguidade, porque permitia soltar facilmente o bloco de frita quebrando o
cadinho. Este, portanto, era usado s uma vez.
   Na segunda fase, os vidreiros obtinham um vidro de boa qualidade e de
cores variadas. Os blocos de frita eram pulverizados at se tornarem um fino
p homogneo; eram, ento, divididos em pequenas pores. A cada uma delas
adicionavam-se certos xidos corantes, agentes opacificantes ou descolorantes e
reaquecia-se tudo at a fuso completa, a fim de obter o tipo de vidro necessrio.34

     Testes de autenticidade
    Durante muito tempo, os critrios histrico e esttico eram o nico mtodo
utilizado para a determinao da autenticidade. Nos ltimos anos, o progresso



31   Natro: carbonato de sdio cristalizado.
32   ISKANDER, Z. e SHAHEEN, A. E. 1964, p. 197-208.
33   Frita (fr. fritage): vitrificao preparatria destinada a eliminar os elementos volteis (N. T. Fr.).
34   SALEH, S. A., GEORGE, A. W. e HELMI, F. M. 1972, p. 143-70.
226                                                     Metodologia e pr-histria da frica



da pesquisa cientfica possibilitou um julgamento mais seguro da autenticidade
de um objeto. Os mtodos mais eficientes so os seguintes:

      Exame com raios ultravioleta
    Esta tcnica  til principalmente no exame do marfim e do mrmore. Sob
a luz ultravioleta, os diferentes tipos de mrmore emitem fluorescncia em
diferentes cores e a superfcie dos mrmores antigos projeta uma cor caracterstica
muito diferente da cor apresentada pelas pedras mais recentes. Do mesmo modo,
alteraes ou retoques em objetos de mrmore ou marfim antigos, bem como
em pinturas, invisveis  luz comum, podem ser notados distintamente quando
o objeto  examinado sob luz ultravioleta. A luz infravermelha e os raios X
tambm so muito teis na deteco de falsificaes.35

      Exame da corroso superficial
    Em geral, os metais antigos so corrodos lentamente e, com o tempo, a
corroso provoca o surgimento de uma pelcula homognea. Nas falsificaes
de objetos de metal, geralmente  aplicada uma pelcula artificial  superfcie
do objeto, o que lhe confere uma aparncia antiga. Mas essa pelcula no adere
muito bem e pode ser removida com sol ventes, tais como gua, lcool etlico,
acetona ou piridina. Alm disso, nos objetos de cobre e de bronze, essa crosta
artificial compe-se geralmente de uma s camada, distinguindo-se da que se
formou naturalmente. Esta  sempre composta de pelo menos duas camadas: a
interior, de xido de cobre vermelho, e a exterior, verde de carbonato, sulfato ou
cloreto do mesmo metal.  muito difcil reproduzir essa disposio, a ponto de
enganar um experiente qumico de museu arqueolgico.

      Anlise do material do objeto
   Um notvel exemplo da validade deste teste  fornecido pela anlise do
gro da antiga faiana egpcia. Enquanto o gro da antiga faiana egpcia
autntica  composto de quartzo vitrificado, o das falsificaes modernas 
geralmente constitudo de caulim, argila ou porcelana; a identificao , deste
modo, bastante rpida e segura. Outro exemplo: como as tcnicas metalrgicas
antigas no envolviam processos de refinamento adequados, os metais da
Antiguidade contm certas impurezas, tais como arsnico, nquel, mangans, etc.

35    CAI.EV. F. R. 1948, p. 1-8.
A Arqueologia da frica e suas tcnicas  Processos de datao   227




figura 9.3 Bloco de vitrificao
mostrando a superfcie superior
plana, as paredes laterais e uma parte
do cadinho ainda aderente ao lado
direito.
Figura 9.4 Base de uma das
colunas de arenito do templo de
Buhen. Nota-se o esboroamento
da camada superficial devido 
eflorescncia.
228                                                    Metodologia e pr-histria da frica



Portanto, basta retirar uma pequena amostra do objeto e submet-la  ativao
por nutrons ou fluorescncia de raios X: a ausncia de vestgios de impurezas
indicar que o objeto  provavelmente falso.

      Identificao de pigmentos e corantes na pintura
    Os pigmentos utilizados em um quadro podem ser identificados com
razovel preciso atravs de tcnicas microqumicas. Se o pigmento foi criado
recentemente, a idade do quadro pode ser contestada. Como exemplo, citemos o
exame feito por Young de um retrato em perfil atribudo a um pintor do sculo
XV. A pigmentao azul do quadro se originava do azul-ultramarino, descoberto
e usado como pigmento a partir do sculo XIX. Quanto ao pigmento branco,
tratava-se de xido de titnio, s utilizado na pintura depois de 1920. Provou-se,
portanto, que o quadro era falso.36

      Exame da ptina e do polimento superficiais
    A maior parte das rochas adquire, com o tempo, uma ptina na sua superfcie:
o verniz do deserto. Este fenmeno se deve ao afloramento progressivo de sais de
ferro e mangans  superfcie, onde se oxidam e formam uma espcie de epiderme
ou ptina. Essa ptina passa a fazer parte da prpria rocha, confundindo-se com
a sua superfcie. No  fcil remov-la, seja com gua ou solvente neutro, seja
atravs de raspagem. Em consequncia,  possvel distinguir uma superfcie
autenticamente antiga de outra recente, mesmo dotada de ptina artificial.
    Alm da ptina formada naturalmente, as marcas de entalhe e polimento
antigos so outro meio de provar autenticidade. Essas marcas ainda aparecem
como linhas de interseco irregular sob a ptina superficial da pedra ou do
metal. Elas podem ser facilmente distinguidas das linhas paralelas regulares
provenientes de um polimento recente, j que os povos antigos no usavam
nem limas speras para esculpir, nem limas finas ou lixas de esmeril para polir.

      Teste da termoluminescncia da cermica
   A cermica, assim como o solo em que foi enterrada, contm uma
porcentagem muito pequena de elementos radioativos. A radiao desses
elementos causa, ao longo de milhares de anos, um acmulo de eltrons no
corpo da cermica. Elevando-a a uma temperatura acima de 500oC, os eltrons

36    YOUNG, W. J. 1958, p. 18-19.
A Arqueologia da frica e suas tcnicas  Processos de datao                 229



acumulados emitem uma termoluminescncia que varia de acordo com a idade
da cermica. Esta tcnica permite aos conservadores de museus uma apreciao
segura da autenticidade de um objeto de cermica. A amostra necessria pode
ser conseguida fazendo um pequeno furo no objeto. O p obtido  aquecido
a mais de 500oC no escuro. Se houver luminescncia, a cermica  genuna; se
no, trata-se de falsificao.37


     Tcnicas de datao
   A cincia dispe de vrias tcnicas para determinar a idade de materiais
antigos. As principais so as seguintes:

     Datao aproximativa pela anlise arqueomtrica
   A anlise de espcimes pertencentes ao mesmo grupo de materiais (gesso,
vidro, faiana, metais e pigmentos), mas que remontam a pocas diferentes,
pode fornecer resultados passveis de serem utilizados como pistas para a
determinao da idade aproximada de outros objetos. Os exemplos seguintes
confirmam essa ideia.

     Datao atravs da anlise de contas de vidro na frica ocidental
    As contas dicroicas akori, que parecem azuis  luz refletida e verdes  luz
transmitida, foram submetidas  anlise por fluorescncia de raios X, que permite
classific-las em dois grupos, A e B. As contas do grupo A so mais pobres em
chumbo (menos de 0,05%) e em arsnico (menos de 0,05%) que as do grupo
B, nas quais a taxa de chumbo  de mais ou menos 27 % e a de arsnico de 2%.
A diferena em relao ao mangans  menor (grupo A: 0,3  0,1% e grupo B:
aproximadamente 0,05%). Outros elementos detectados: ferro, cobalto, zinco,
rubdio, estrncio, estanho, antimnio e brio, em relao aos quais no foi notada
nenhuma diferena significativa entre um grupo e outro. As contas do grupo A
so encontradas na frica ocidental, em stios insulares relativamente antigos (430
a 1290 da Era Crist), enquanto as do grupo B s aparecem em contextos mais
recentes. A descoberta dessas contas em um tmulo ou em determinado estrato
permite determinar com certa preciso a idade de um ou de outro38.

37   AITKEN, M. J. 1970, p. 77-88.
38   DAVISON, C. C., GIAUQUE, R. D. e CLARK, J. D. 1971, p. 645-49.
230                                                      Metodologia e pr-histria da frica



      Datao de pinturas rupestres pela anlise
      de aglutinantes albuminosos
     possvel avaliar a idade das pinturas determinando o nmero de aminocidos
de seus aglutinantes albuminosos aps hidrlise. Esse mtodo foi usado para
calcular a idade de 133 pinturas rupestres do sudoeste da frica, com margem
de erro de 20%. A Dama Branca (The White Lady) de Brandberg tem de 1200
a 1800 anos. As pinturas de Limpopo tm de 100 a 800 anos e as amostras de
Drakensberg, de 60 a 800 anos. O nmero de aminocidos idnticos diminui,
com a idade da pintura, de 10 (nos aglutinantes com 5 a 10 anos de idade) para
1 (substncias com 1200 a 1800 anos de idade).39

      Datao atravs da anlise de argamassas
   A anlise dos diferentes tipos de argamassa utilizados no Egito mostrou que a
argamassa de cal no aparece antes de Ptolomeu I (323-285 antes da Era Crist).40
Qualquer monumento cujos tijolos ou pedras foram ligados com argamassa de cal
pertence, portanto, a um perodo posterior a 323 antes da Era Crist.

      Datao por radiocarbono
         Princpio bsico
    Ao serem atingidos pelos raios csmicos, os tomos do ar das camadas superiores
da atmosfera desintegram-se em fragmentos minsculos, dentre os quais encontram-
-se os nutrons. Os nutrons produzidos bombardeiam o tomo que existe em
maior abundncia no ar, o nitrognio de massa 14, e o convertem em carbono de
peso atmico 14. O carbono 14 assim formado  radioativo; combina-se com o
oxignio do ar para formar 14CO2 e se mistura com o dixido de carbono comum,
que contm principalmente tomos de carbono de massas 12 (99 %) e 13 (1%).
Esse carbono 14 penetra nas plantas juntamente com os istopos 12CO2 e 13CO2
formando seus tecidos pelo processo de fotossntese. Como os animais se alimentam
de plantas, "todo o mundo animal e vegetal deve ser ligeiramente radioativo, devido 
presena de uma proporo mnima de carbono 14 (aproximadamente um tomo de
carbono 14 para um trilho de tomos de carbono comum). O dixido de carbono
atmosfrico entra tambm na composio dos oceanos sob a forma de carbonato


39    DENNINGER, E. 1971, p. 80-84.
40    LUCAS. A. 1962, p. 416, 419-20.
A Arqueologia da frica e suas tcnicas  Processos de datao                                      231



dissolvido. Portanto,  provvel que a gua do mar tambm seja levemente radioativa,
assim como todas as conchas e depsitos que contm".41
    No momento da morte, supe-se que a matria orgnica antiga tenha
apresentado a mesma radioatividade que a matria orgnica viva atualmente.
Mas, depois da morte, ocorre o isolamento, ou seja, toda aquisio ou troca
de radiocarbono  interrompida e o carbono 14 comea a se degradar ou,
como disse o professor Libby, "o relgio do radiocarbono comea a andar".42
Se a radioatividade de uma amostra antiga  medida e comparada  de uma
amostra moderna,  possvel, considerando-se o tempo de vida do carbono 1443,
calcular a idade do espcime antigo a partir da equao relativa ao declnio da
radioatividade.

         Materiais adequados  datao radioativa
   Os materiais apropriados para essa tcnica so os de natureza orgnica
(madeira, carvo, ossos, couro, tecidos, vegetais, alimentos, conchas, etc.),
mas os melhores so os derivados de plantas que crescem anualmente, como
junco, cereais, grama ou linho. Uma vez recolhidas, as amostras no devem ser
submetidas a nenhum tratamento qumico; alm disso, devem ser colocadas em
recipientes de vidro ou embalagens de nilon, a fim de evitar qualquer contato
com outros materiais orgnicos. O processo se desenvolve em quatro etapas:
purificao da amostra, combusto, purificao do dixido de carbono obtido e,
finalmente, contagem das partculas emitidas.

     Resultados e perspectivas
   Para testar a preciso desse mtodo, foi feito um estudo comparativo entre
amostras datadas com exatido, do ponto de vista histrico, e dataes efetuadas com
carbono radioativo.44 Como o mtodo histrico mais antigo e mais conhecido  a
cronologia do Egito, decidiu-se, em mbito internacional, medir o carbono radioativo
de um grande nmero de amostras egpcias datadas com preciso arqueolgica,
pertencentes ao perodo que vai da primeira dinastia (aproximadamente -3100)


41   AITKEN, M. J. 1961, p. X e 181.
42   LIBBY, W. F. 1970, p. 1-10.
43   O perodo ou longevidade do carbono 14 (durao da desintegrao de metade do corpo radioativo) foi
     avaliado em 5568 anos ou, mais precisamente, em 5730  40 anos.
44   BERGER, R. 1970, p. 23-26; EOWAROS, L E. S. 1970, p. 11-19; MICHAEL, H. N. e RALPH, E.
     K. 1970, p. 109-20; RALPH, E. K., MICHAEL, H. N. e HAN, M. G. 1973, p. 1-20.
232                                                            Metodologia e pr-histria da frica



 trigsima dinastia (-378 a -341). Diversos laboratrios procederam  datao
ao mesmo tempo, usando no s meias-vidas correspondentes a 5568 anos, mas
tambm o novo valor de 5730  40 anos, que permite maior preciso. Os resultados
obtidos por esses testes mostraram que a datao operada atravs da meia-vida
de 5730 anos corresponde  cronologia histrica at o tempo do rei Senusret
(ou Sesstris), ou seja, aproximadamente -1800, mas a datao das amostras
anteriores suscitou numerosas controvrsias. Entretanto, a aplicao do mtodo de
correo de Stuvier-Suess s amostras anteriores a -1800 permite a obteno de
resultados correspondentes  cronologia arqueolgica dentro de 50 a 100 anos, no
mximo.45 A ttulo de exemplo: bambus retirados da mastaba (sepultura) de Qaa,
primeira dinastia, em Saqqara, foram datados no laboratrio de pesquisas do British
Museum. A data obtida com carbono 14, depois da correo,  de -2450 65,
aproximando-se bastante de sua data histrica, ou seja, 2900 antes da Era Crist.46
    Imagina-se, atualmente, que as causas dos principais desvios sejam a
diminuio do campo magntico da Terra47 e as variaes de intensidade do
vento solar, que tornam oblquos os raios csmicos.48 Alm disso, a meia-vida
real do carbono radioativo ainda no est inteiramente estabelecida. Algumas
outras causas esto sendo estudadas e muitos laboratrios trabalham nesse
sentido.
    Se houvesse resposta para todas essas questes, seria possvel datar com
maior preciso vestgios anteriores a 1800 antes da Era Crist. Mas, at que isso
acontea, os clculos convencionais de radiocarbono para vestgios orgnicos
dessa poca devem ser submetidos  correo indicada acima.

      Datao com potssioargnio
   A limitao da datao por carbono 14 em aproximadamente -70000 anos cria
uma grande lacuna na cronologia da evoluo biolgica e geolgica, prolongando-
-se dessa data at aproximadamente -10 milhes de anos. Para um perodo to,
antigo, seria possvel aplicar mtodos geolgicos radioativos baseados nos ndices
de transformao de substncias, como, por exemplo, na transformao do urnio
235 em chumbo 207, que tem meia-vida de 710 milhes de anos, ou do rubdio


45    BERGER, R. 1970, p. 23-36; MICHAEL, H. N. e RALPH, E. K. 1970, p. 109-20; RALPH, E. K.,
      MICHAEL, H. N. e HAN, M. G. 1973, p. 1-20; STUVIER, M. e SUESS, H. E. 1966, p. 534-40.
46    EOWARDS, I. E. S. 1970, p. 11-18.
47    BUCHA, V. 1970, p. 47-55.
48    LEWIN, S. Z. 1968, p. 41-50.
A Arqueologia da frica e suas tcnicas  Processos de datao                        233



87 em estrncio 87, que tem meia-vida de 13900 milhes de anos. Essa lacuna
pode ser preenchida, at um certo ponto, pela aplicao da tcnica de datao
com potssio-argnio.49 De fato, esse mtodo  usado particularmente na datao
de idades geolgicas muito remotas. No entanto, utilizando grandes amostras de
uma substncia de textura relativamente fina (mas no inferior a 100 micra) e que
contenha pouco argnio atmosfrico,  possvel aplic-lo a perodos mais recentes,
o que permitiria controlar os resultados obtidos graas ao carbono 14.50

     Princpio bsico
    O potssio, tal como  encontrado na natureza, contm 93,2% de potssio 39,
6,8% de potssio 41 e 0,0118% de potssio 40. No momento da formao da Terra, a
taxa de potssio 40 era de mais ou menos 0,2%, mas ele se deteriorou em grande parte,
resultando em dois derivados: o clcio 40 e o argnio 40. Mas como tem meia-vida
muito longa (1330 milhes de anos), o potssio 40 ainda se encontra presente,
numa taxa de 0,0118%. Em cada 100 tomos de potssio 40 que se degradam,
89 se transformam em clcio 40 pelo desaparecimento das radiaes beta; onze
se transformam em argnio 40 pela captura de partculas beta. O argnio 
um gs que se encontra retido entre os gros do minrio51.
    A datao com argnio-potssio  muito aplicada pelas razes seguintes:
              O potssio presente na crosta terrestre representa 2,8% em peso, sendo um
               de seus elementos mais abundantes. Alm disso, est presente em quase
               todos os corpos.
              A meia-vida do potssio  suficientemente longa para permitir a formao de
               argnio 40 em certos minerais, ao longo de perodos interessantes do ponto
               de vista geolgico. Calculando a concentrao do argnio 40 radioativo e o
               contedo total de potssio de um mineral,  possvel determinar a idade do
               mineral, por meio de uma equao relativa  degradao da radioatividade.52


     Problemas a serem resolvidos pela datao com potssioargnio
   A datao com potssio-argnio foi aplicada recentemente no clculo da
constante de primeira ordem in situ, para a racemizao do cido asprtico nos


49   AITKEN, M. J. 1961.
50   GENTNER, W. e LIPPOLT, H. J. 1963, p. 72-84.
51   Loc. cit.; HAMILTON, E. I. 1965, p. 47-79.
52   GENTNER, W. e LIPPOLT, H. J. 1963, p. 72-84.
234                                                           Metodologia e pr-histria da frica



ossos antigos. Uma vez aferida num stio, a reao de racemizao pode ser utilizada
para datar outros ossos do depsito. As idades calculadas a partir desse mtodo
correspondem com exatido s idades obtidas pela datao com radiocarbono.
Esses resultados provam que a reao de racemizao  um instrumento
cronolgico importante para a datao dos ossos muito antigos ou muito pequenos
para serem datados com radiocarbono. Para exemplificar a aplicao dessa tcnica
na datao dos fsseis humanos, uma parte do homem da Rodsia originrio de
Broken Hill (Zmbia) foi analisada e datada provisoriamente em 110000 anos
aproximadamente.53 A datao com potssio-argnio dos perodos do Plioceno
e Pleistoceno dever permitir o levantamento de uma cronologia definitiva da
origem do homem, da coincidncia da idade dos fsseis em diversos pontos do
globo, da origem dos tektites e outros problemas geolgicos especiais.
    A datao com potssio-argnio foi usada para determinar, em Olduvai, a
idade das camadas de basalto e das camadas de tufo que as revestiam, a fim de
estabelecer a idade exata dos restos do Zinjanthropus, encontrados no fundo
da primeira camada de tufo, na Bed I. Curtis e Evernden concluram que esses
basaltos tm, pelo menos, quatro milhes de anos de idade; entretanto, no
se prestariam a uma datao precisa, em consequncia de alteraes qumicas
visveis nas partes finas de todos os basaltos datados de Olduvai, exceto os que
esto associados  antiga indstria de pebble tools. A opinio de Gentner e de
Lippolt sobre os diferentes resultados obtidos  a seguinte: "Como no existem
outras incompatibilidades entre as datas dos basaltos e do tufo que os recobre,
parece possvel que a idade do Zinianthropus seja de dois milhes de anos".54

      Datao arqueomagntica
      Para dar uma ideia simplificada dessa tcnica, convm abordar os seguintes itens:

      Paleomagnetismo
   Trata-se do magnetismo remanescente nos vestgios arqueolgicos. Seu
estudo baseia-se no fato de que o campo magntico da Terra sofre mudanas
contnuas de direo e de intensidade. Observaes feitas a partir dos ltimos
cinquenta anos indicam que o campo magntico se desloca para oeste numa




53    BADA, J. L., SCHROEDER, R. A., PROTSCH, R. e BERGER, R. 1974, p. 121.
54    GENTNER. W. e LIPPOLT, H. J. 1963.
A Arqueologia da frica e suas tcnicas  Processos de datao            235



mdia de 0,2o de longitude por ano.55 Pesquisas arqueomagnticas baseadas no
clculo da magnetizao remanescente em cermicas arqueolgicas e em rochas
mostraram que a intensidade magntica da Terra, durante os ltimos 8500 anos,
atingiu seu grau mximo entre os anos 400 e 100 antes da Era Crist quando o
campo alcanou 1,6 vezes sua intensidade atual, e o mnimo por volta de 4000
anos antes da Era Crist, quando o campo diminuiu para 0,6 vezes em relao
 intensidade de hoje.56 Esses efeitos ou variaes de direo e intensidade
so chamados de "variao secular". De natureza regional, a variao secular
constitui a base da datao magntica, uma vez que as variaes do campo
magntico terrestre deixam seu trao na cermica endurecida sob a forma de
magnetismo termo-remanescente (t.r.m.).

     Aplicao do t.r.m.  datao arqueolgica
    Antes de iniciar a datao magntica da argila cozida que permaneceu in
situ depois do cozimento, torna-se necessrio determinar o comportamento do
campo geomagntico atravs de mensuraes efetuadas nas estruturas geolgicas
de idade conhecida, dentro da regio escolhida para a aplicao do mtodo. Os
resultados so assinalados numa curva que mostra a variao secular naquela
regio, durante um longo perodo de tempo. O conhecimento da direo do
campo magntico registrado em argila cozida de idade desconhecida, nessa
mesma regio, possibilita que sua data de cozimento seja determinada atravs
da comparao com a curva de variao secular.
    Os espcimes mais adequados  datao magntica so as argilas cozidas
provenientes de fornos, foges e fornalhas que permaneceram em seus lugares
de origem at hoje. Como ainda no existe um magnetmetro porttil para
facilitar o clculo in situ da direo do campo geomagntico, as amostras
devem ser removidas para medio em laboratrio.  essencial que em cada
amostra figure a marca de sua orientao original, que servir como ponto de
referncia na determinao de seu magnetismo remanescente. Na prtica, a
operao consiste em cobrir o objeto com gesso de Paris, cuidando para que
a superfcie superior desse molde seja horizontal e que indique a direo do
Norte geogrfico, antes que a amostra seja destacada. Desse modo,  possvel
determinar simultaneamente a antiga declinao (D) e o antigo ngulo de



55   AITKEN. M. J. 1961; COOK, R. M. 1963, p. 59-71.
56   RUCHA. V. 1970, p. 47-55; BUCHA, V. 1971, p. 57-117.
236                                                                Metodologia e pr-histria da frica



inclinao (I).57 Para compensar anomalias, seis ou mais amostras devem ser
utilizadas, de preferncia retiradas de diferentes partes da estrutura, levando-se
em conta uma certa simetria.58
    Resultados arqueomagnticos relativos  declinao e  inclinao foram
obtidos para a Inglaterra, a Frana, o Japo, a Islndia e a Rssia. Pelas informaes
de que dispomos, o mtodo ainda no foi testado na frica. Entretanto, como
tem progredido muito nos ltimos anos, espera-se que ele possa ser logo aplicado
para datao na Arqueologia da frica.

      Datao por termoluminescncia
    A termoluminescncia  a emisso de luz produzida por uma substncia
altamente aquecida. Difere totalmente da incandescncia (obtida aquecendo ao
rubro um corpo slido) e resulta de uma liberao da energia acumulada em
forma de nutrons aprisionados no material aquecido.

      Origem
    Toda cermica ou porcelana contm pequenas propores de componentes
radioativos (alguns milionsimos de urnio e trio e alguns centsimos de
potssio). Alm disso, o solo prximo ao lugar em que foram descobertas as
cermicas pode conter impurezas radioativas; por outro lado, raios csmicos
podem ter penetrado o solo, emitindo radiaes que bombardearam as matrias
cristalinas da cermica, como o quartzo. A ionizao resultante produz
eltrons que podem ser aprisionados dentro da estrutura cristalina. Essas
"armadilhas de eltrons" so metastveis e, quando uma amostra de cermica
 aquecida, desaparecem, liberando o excesso de energia em forma de ftons.
A intensidade dessa luz  termoluminescncia  est diretamente relacionada
 idade da pea. Depende tambm da natureza particular dos elementos que
geram a termoluminescncia presentes na amostra e nas proximidades do local
em que foi encontrada.59 Medindo a quantidade de urnio e potssio contidos
no fragmento e no solo vizinho, pode-se calcular a intensidade da radiao
recebida anualmente pelo fragmento. Em princpio, a idade  diretamente
calculada atravs da relao60:

57    AITKEN, M. J. 1970, p. 77-88.
58    COOK, R. M. 1963, p. 59-71.
59    AITKEN, M. J. 1970, p. 77-88; HALL, E. T. 1970, p. 135-41.
60    AITKEN, M. J. 1970, p. 77-88.
A Arqueologia da frica e suas tcnicas  Processos de datao               237



     Idade = intensidade de radiao acumulada
                intensidade anual de radiao

     Preciso dos resultados e perspectivas
    Atualmente, a preciso dos resultados  de mais ou menos 10%, um pouco
inferior, portanto,  preciso obtida com a datao por radiocarbono. A causa
dessa diferena pode ser atribuda s incertezas que surgiram, principalmente
quanto s circunstncias em que o objeto foi enterrado e quanto ao grau de
umidade do solo adjacente, do qual depende a intensidade de radioistopos do
fragmento. Espera-se que pesquisas posteriores resolvam tais dificuldades, mas,
por razes de ordem prtica,  difcil que os resultados atinjam uma margem de
preciso maior que 5%, aproximadamente.61
    Entretanto, apesar de no apresentar uma exatido total, essa tcnica  mais
vantajosa que a datao com radiocarbono, j que a cermica  muito mais
abundante nos stios arqueolgicos do que as matrias orgnicas; alm disso,
trata-se de datar o cozimento da cermica, enquanto a datao com radiocarbono
de uma amostra de madeira ou carvo tende a situar o corte da rvore e no a
data de sua utilizao ulterior.
    No Egito, essa tcnica ter uma finalidade muito importante. At o
momento, as culturas neolticas e pr-dinsticas no Egito tm sido datadas
conforme o tipo de cermica que as caracteriza, de acordo com o Sequence
Dating System, inventado por Flinders Petrie.62 Agora, graas  datao
por termoluminescncia, ser possvel determinar a poca exata em que se
desenvolveram essas culturas.


     Tcnicas utilizadas na prospeco arqueolgica
   O objetivo bsico do emprego de tcnicas cientficas na prospeco do solo
 a descoberta de informaes sobre stios arqueolgicos enterrados, a fim de
preparar ou substituir as escavaes. Isso pode economizar tempo; esforos
e despesas. A pesquisa arqueolgica atravs dos mtodos cientficos inclui as
seguintes tcnicas:



61   Loc. cit.
62   PETRIE, W. M. F. 1901.
238                                                     Metodologia e pr-histria da frica



      Fotografia area
    usada sobretudo no levantamento de determinada estrutura, segundo seu
traado geomtrico. Tem duas utilizaes principais: primeiramente, permite
uma viso mais distante e portanto mais clara dos pontos onde os vestgios
que afloram  superfcie parecem juntar-se para formar um desenho mais
significativo.63 O estudo das fotografias areas possibilita, assim, a definio das
reas que devem ser exploradas, tendo em vista obter uma ideia de conjunto de
todo o complexo arqueolgico. No Egito, esse mtodo foi aplicado no estudo
dos templos de Karnak, em Luxor; a rea do stio onde esto os templos  de
aproximadamente 150 hectares.
   Outra vantagem consiste em revelar a existncia de vestgios arqueolgicos
recobertos por terras cultivadas, graas s marcas da vegetao. Essas marcas
resultam das diferentes condies de umidade do solo. A vegetao que recobre
um muro de pedra enterrado se distingue levemente por uma linha mais clara;
sobre uma vala encoberta, ela  mais rica, tendo aparncia mais escura. A
configurao geomtrica dessas marcas permite o reconhecimento e a escavao
de runas enterradas.64

      Anlise do solo
   Vestgios de antigas cidades e de cemitrios podem ser localizados atravs
da anlise do solo. Como o fosfato de clcio  o constituinte principal do
esqueleto e dos diferentes detritos deixados pelo homem, sua porcentagem ser
naturalmente mais elevada nas reas antigamente habitadas ou que serviam de
cemitrio. Portanto, os limites dessas zonas arqueolgicas podem ser definidos
graas  medio da taxa de fosfato em amostras de solo retiradas da rea em
intervalos regulares.

      Anlise do plen
   A polinizao das plantas com flor deve-se geralmente  ao dos pssaros,
dos insetos ou do vento. As flores polinizadas pelo vento produzem grandes
quantidades de gros de plen, cuja maior parte cai no solo sem ser fertilizada.
Esses gros geralmente se decompem; mas se acontece de carem em solo
apropriado (como turfeiras ou barro), podem fossilizar-se e ser facilmente


63    LININGTON, R. E. 1970, p. 89-108.
64    AITKEN, M. J. 1961.
A Arqueologia da frica e suas tcnicas  Processos de datao                 239



examinados ao microscpio. A identificao e a enumerao dos vrios tipos de
plen presentes numa amostra podem fornecer informaes sobre o ambiente
ecolgico no qual restos humanos e artefatos esto situados; o conhecimento desse
ambiente ecolgico pode, por sua vez, indicar o tipo de vida que predominava
na poca.
   Entretanto, a anlise do plen s  til como tcnica de datao se as amostras
puderem ser relacionadas a uma cronologia baseada num mtodo de datao
direta, como o do radiocarbono.
   Para maiores detalhes dessa tcnica podem ser consultados Faegri e Iversen65
e Dimbleby66.

     Estudo da resistividade eltrica
    Esta  a primeira tcnica geofsica adaptada  Arqueologia. Consiste em
aplicar uma carga eltrica ao solo e medir a resistncia do fluxo da corrente
eltrica. A resistncia depende da natureza do solo, da quantidade de gua retida
nos seus poros e da quantidade de sais solveis. Rochas duras e compactas, como
as de granito e diorito, apresentam alta resistividade se comparadas ao solo
argiloso. Portanto, o estudo da resistividade deve ser aplicado principalmente na
deteco de estruturas de pedra enterradas em solo lamacento ou de estruturas
escavadas na rocha e recobertas de terra.67
    O sistema normalmente adotado por esse mtodo consiste em introduzir
quatro sondas de metal no solo, fazer passar a corrente entre as duas sondas
exteriores e medir a resistividade entre as outras duas. O valor da resistncia 
uma mdia aproximada para o material que se encontra sob as sondas interiores,
at uma profundidade de aproximadamente uma vez e meia a distncia entre
elas, contanto que esse material seja razoavelmente uniforme.68
    Normalmente, quase todas as aplicaes do estudo da resistividade consistem
em traar linhas de medida conservando o mesmo esquema de conexo e as
mesmas distncias, a fim de determinar as mudanas nos valores de resistividade.
Frequentemente essas linhas so combinadas para formar, em seu conjunto, uma
grade retangular de valores; a localizao de estruturas enterradas  indicada
pelas partes que fornecem valores anormais.


65   FAEGRI, K. e IVERSEN, J. 1950.
66   DIMBLEBY. G. W. 1963, p. 139-49.
67   AITKEN, M. J. 1961.
68   LININGTON, R. E. 1970, p. 89-108.
240                                                    Metodologia e pr-histria da frica



   Essa tcnica foi parcialmente substituda pela prospeco magntica, em
funo de algumas desvantagens que apresenta, principalmente a lentido do
exame e o fato de que os resultados podem ser afetados por efeitos climticos a
longo prazo; alm disso, a interpretao dos resultados tende a ser difcil, com
exceo dos casos mais simples.69

      Exame magntico
    , atualmente, a tcnica mais comum em prospeco arqueolgica. Consiste
em medir a intensidade do campo magntico terrestre nos pontos situados acima
da superfcie do stio que se vai prospectar. As variaes dessas medidas podem
revelar a presena de estruturas arqueolgicas. Atravs dessa tcnica,  possvel
detectar restos enterrados de ferro, estruturas de terra cozida, como fornos,
por exemplo, poos cavados na rocha e aterrados, ou ainda estruturas de pedra
enterradas em solo argiloso.
    Os objetos de ferro enterrados provocam variaes muito grandes, enquanto que
para o restante dos materiais essas variaes so muito fracas. Consequentemente,
a tcnica do exame magntico no tem nenhuma utilidade a menos que o
instrumento de deteco seja suficientemente sensvel para detectar variaes
muito pequenas; alm disso, deve ser rpido e de fcil manejo.70 O Archaeological
Research Laboratory, da Universidade de Oxford, desenvolveu com xito um
magnetmetro de prton que satisfaz todas essas exigncias.71 Compe-se de duas
partes: a garrafa de deteco e o contador. A garrafa de deteco  montada sobre
um trip de madeira e transportada por um operador de um ponto a outro da rea
a ser estudada. Outro operador controla o contador e registra as medidas na forma
de um plano. A interpretao desse plano identificar a situao e os esboos das
estruturas arqueolgicas contidas no solo.72 Outros tipos de magnetmetros tm
sido aperfeioados, como o magnetmetro diferencial de prtons, o "fluxgate
gradiometer",73 o magnetmetro de csio, o magnetmetro de bombeamento de
ressonncia eletrnica.74 Cada um deles apresenta certas vantagens, mas o aparelho
mais til em quase todos os casos  o magnetmetro diferencial de prtons.


69    Loc. cit .
70    AITKEN, M. J. 1963, p. 555-68.
71    AITKEN, M. J. 1961.
72    Loc. cit.
73    HALL, E. T. 1965, p. 112.
74    SCHOLLAR, I. 1970, p. 103-19.
A Arqueologia da frica e suas tcnicas  Processos de datao                 241



   O mtodo magntico  bem mais vantajoso que o da resistividade, pois  mais
simples e rpido e seus resultados so mais fceis de interpretar.75

     Sondagem das pirmides do Egito atravs de raios csmicos
    Os raios csmicos consistem em uma corrente de partculas eletricamente
carregadas, conhecidas como "mesons-" ou "muons". Esses raios alcanam a Terra
com igual intensidade a partir de todos os pontos do cu. Cada metro quadrado 
atingido por aproximadamente 10000 muons por segundo, qualquer que seja sua
direo. Os raios csmicos tm um poder de penetrao extremamente grande,
muito superior  dos raios X, e sua velocidade  quase igual  velocidade da luz.
    A sondagem com auxlio desses raios se baseia no fato de que os "muons"
perdem energia ao atravessarem a matria. A perda de energia (ou absoro de
"muons")  proporcional  densidade e espessura da matria que atravessam. A
intensidade ou a quantidade de raios csmicos que penetra pode ser calculada
por um aparelho conhecido como "cmara de fascas". No caso das pirmides,
o aparelho  colocado no interior de uma cmara subterrnea. Os "muons"
que atravessarem um espao vazio (uma cmara, uma passagem desconhecida)
sofrero menor reduo de velocidade que os que atravessarem a rocha slida;
assim, os raios csmicos que passarem atravs do espao vazio tero maior
intensidade, fenmeno que ser registrado pela cmara de fascas. Com duas
cmaras de fascas orientadas horizontalmente e distantes uma da outra cerca
de 30 cm no sentido vertical, torna-se possvel no apenas detectar qualquer
cmara secreta, mas tambm localiz-la no espao de alguns metros. Assim, a
escavao ser orientada para a direo indicada pelos raios.
    A sondagem foi feita pela primeira vez na Pirmide do rei Qufren, da quarta
dinastia (-2600). As informaes foram analisadas atravs de um computador e os
resultados anunciados no dia 30 de abril de 1969, indicando dois fatos importantes:
primeiramente, a cmara morturia do rei no se situa exatamente no centro da
base da pirmide, mas alguns metros para o norte. Tal descoberta coincide com
os resultados obtidos atravs do estudo magntico, provando assim a validade
dessa tcnica na sondagem de pirmides. Constatou-se tambm que a tera parte
superior da pirmide no contm cmaras nem corredores desconhecidos.
    Repetiu-se a experincia com outro aparelho, projetado para sondar a
pirmide inteira. A anlise das informaes registradas indicou que a pirmide
no contm nenhuma cmara ou corredor desconhecido, o que confirmou as
previses arqueolgicas.

75   LININGTON, R. E. 1970, p. 89-108.
242                                                           Metodologia e pr-histria da frica



      Tcnicas de conservao
    O objetivo deste trabalho no  a descrio dos mtodos tcnicos utilizados
na conservao de artefatos feitos de diversos materiais, como cermica, faiana,
vidro, marfim, osso, madeira, couro, papiro, tecidos, metais, etc. Sua variedade 
tal que excederia o espao reservado a este captulo. Vrios livros76 e peridicos
especializados tratam do assunto, particularmente Studies in Conservation, rgo
do International Institute for Conservation of Historic and Artistic Works, de Londres.
    Entretanto, os mais srios problemas de conservao na frica esto relacionados
 fragilidade dos materiais e  violenta deteriorao dos monumentos de pedra.

      Fragilidade dos materiais
    Devido ao excessivo calor e  aridez de numerosos pases africanos, os artefatos
feitos de material orgnico (pergaminho, papiro, couro, madeira, marfim, etc.)
tornaram-se extremamente frgeis. Esses materiais devem ser manuseados com
o mximo cuidado, para no correrem o risco de se desfazer em minsculos
fragmentos. Antes de mais nada,  preciso embrulh-los em panos midos,
conservando-os por algum tempo em lugar fechado e mido, ou trat-los com
vapor num recipiente apropriado, para restaurar, total ou parcialmente, sua
maleabilidade. Ento podem ser desenrolados ou desdobrados sem risco de
fragmentao.
    Aps terem readquirido sua maleabilidade, convm que esses artefatos
sejam exibidos ou conservados em museus ou depsitos com ar condicionado, a
uma temperatura de 17 2oC e umidade relativa de 60 a 65%, a fim de no se
tornarem novamente quebradios.

      A violenta deteriorao dos monumentos de pedra
      Este grave problema merece ser estudado detalhadamente:

      Principais causas de deteriorao
      Os principais agentes de deteriorao dos monumentos de pedra na frica so:
            migrao dos sais: em presena de gua ou de umidade, os sais solveis emigram,
             por capilaridade, do solo salino para a pedra dos monumentos. Num clima


76    ORGAN, R. M. 1968; PLENDERLEITH, H. J. 1962; PAYDDOKE, E. 1963; SAVAGE, G. 1967.
A Arqueologia da frica e suas tcnicas  Processos de datao                            243



               rido, esses sais passam do interior da pedra  superfcie exterior sob a forma
               de solues aquosas; podem cristalizar-se na prpria superfcie, provocando
               sua desintegrao, ou sob a superfcie, fazendo com que se rompa. Esses
               efeitos so mais pronunciados na base de paredes ou colunas, onde a pedra
               entra em contato com o solo salino, como pode ser observado em algumas
               colunas do templo de Buhen, no Sudo;
              intempries: na frica, a pedra  muito afetada pelas excessivas variaes de
               temperatura e umidade, que provocam a ruptura dos elementos superficiais
               da maioria das rochas.
   Em muitos lugares, principalmente nas regies costeiras, os dois fatores de
degradao agem conjuntamente e provocam sria deteriorao dos monumentos,
como se pode notar nos templos romanos de Leptis Magna e Sabratha, na Lbia.

     Tratamento das superfcies e sua ineficcia
    Numerosas tentativas de consolidar as superfcies de pedra foram efetuadas,
atravs do tratamento com produtos orgnicos de conservao ou silicatos
inorgnicos. Mas esses tratamentos revelaram-se no apenas ineficazes como
tambm nocivos, pois aceleram a deteriorao e as fraturas da pedra. O fracasso
dessas tentativas foi enfatizado no simpsio internacional sobre a conservao
de monumentos de pedra, onde se admitiu que o problema ainda est longe de
ser resolvido e que  necessrio abord-lo com o mximo cuidado.

     Esforos internacionais para resolver o problema
   As dificuldades inerentes ao problema e sua gravidade levaram o ICOM, o
ICOMOS e o Centro Internacional para a Conservao a formar, em 1967, um
comit de dez especialistas para estudar a questo. Estudos foram levados a efeito
e muitos relatrios apresentados. O comit continuou suas atividades at o fim de
1975, no intuito de propor uma srie de testes-padro que permitissem avaliar o
grau de deteriorao da pedra e a eventual eficcia dos tratamentos de conservao.

     Uma nova esperana
   O Professor Lewin desenvolveu um novo mtodo destinado a consolidar a
superfcie do mrmore e da pedra calcria.77 Consiste em um tratamento das


77   LEWIN, S. Z. 1968, p. 41-50.
244                                                         Metodologia e pr-histria da frica



partes deterioradas com uma soluo fortemente concentrada de hidrxido de
brio (aproximadamente 20%),  qual  adicionada certa quantidade de ureia
(aproximadamente 10%) e de glicerol (aproximadamente 15 %). Quimicamente
falando, o mtodo baseia-se na substituio dos ons de clcio da pedra deteriorada
por ons de brio. Depois do tratamento, a pedra apresenta um endurecimento
evidente e oferece maior resistncia  ao dos fatores de degradao. O
carbonato de brio assim formado incorpora-se  pedra (sem constituir um
revestimento superficial com propriedades distintas das do interior). Espera-se
que, com esse mtodo, as superfcies tratadas no se pulverizem e que protejam
as camadas subjacentes contra o ataque das intempries.
    O tratamento foi utilizado em julho de 1973 para reforar o pescoo da esttua
da Esfinge de Gizeh, em rocha calcria, que estava em vias de desintegrao. At
agora, o resultado tem sido satisfatrio, mas  necessrio manter o pescoo da
esfinge em observao ainda por uns dez anos, pelo menos, antes de consagrar
definitivamente esta tcnica de proteo e conservao de rochas calcrias.

      Paliativos
   Por mais confiana que depositemos na tcnica de Lewin, o problema da
conservao dos monumentos de pedra por tratamento qumico ainda no
est resolvido. Certas medidas de ordem mecnica ainda so recomendadas
para garantir sua proteo contra os fatores de degradao. Podemos destacar
algumas delas:
            Nenhum produto que possa vedar os poros da pedra deve ser empregado
             no tratamento das superfcies dos monumentos ao ar livre, diretamente
             expostos aos raios solares. A camada exterior da superfcie correria o risco
             de destacar-se em escamas.
            Convm dessalinizar regularmente o solo sobre o qual foram construdos
             os monumentos. A gua utilizada deve ser retirada por um sistema de
             drenagem adequado.
            Na medida do possvel, os monumentos de pedra devem ser isolados dos
             solos salinos, a fim de impedir que os sais solveis migrem do solo para a
             pedra. Esse isolamento pode ser efetuado com a introduo de uma folha
             de chumbo ou uma espessa camada de betume sob a esttua, o muro ou a
             coluna a ser protegida.
            Quando o monumento contm sais solveis que podem provocar
             eflorescncia ou criptoflorescncia, convm eliminar os sais lavando-os com
A Arqueologia da frica e suas tcnicas  Processos de datao                         245



               gua, e cobrir as partes atingidas com argila arenosa at que a pedra esteja
               completamente livre desses sais.
              Quando o monumento no  muito grande,  possvel transport-lo para um
               museu ou um abrigo, a fim de proteger sua superfcie dos efeitos deletrios
               da ao climtica. Outra soluo consiste em conserv-lo em seu lugar de
               origem e construir sobre ele um abrigo.
              Quando o teto estiver faltando, deve-se reconstru-lo, a fim de proteger as
               pinturas murais ou os baixos-relevos interiores da ao direta da luz solar
               e da chuva; assim, os desgastes causados pelas variaes de temperatura e
               umidade sero, at certo ponto, atenuados.


    Recomendaes relativas s restauraes
   Como um tratamento inadequado dos artefatos ou monumentos pode causar
mais estragos ou at mesmo sua deteriorao completa, julgamos conveniente
mencionar algumas regras de restaurao importantes recomendadas em
conferncias internacionais:
         a)    A ptina dos monumentos antigos no deve, de maneira alguma, ser lavada
               ou retirada para revelar a cor original da pedra. A limpeza das fachadas
               deve limitar-se  retirada da poeira, de modo que a ptina fique intacta,
               pois constitui a caracterstica arqueolgica mais importante do monumento.
         b)    Na restaurao de monumentos antigos, apenas as partes que esto
               desmoronando devem ser reconstrudas em seus lugares de origem. 
               preciso evitar as substituies e as adies, a menos que sejam necessrias
               para sustentar as partes que desmoronam ou para proteger das intempries
               as superfcies antigas.
         c)    Em todos os casos de reconstruo, deve-se intercalar argamassa entre
               as pedras, de modo que seu peso seja igualmente repartido sem acarretar
               deformaes ou fendas.
         d)    A argamassa utilizada para a renovao das paredes deve ser, via de regra,
               idntica  argamassa original, a menos que esta tenha sido gesso. O emprego
               de cimento no  recomendado no caso de construes em rocha sedimentar,
               tais como calcrio ou arenito.
         e)    A melhor argamassa para todos os casos de reconstruo  a de cal, sem
               sal;  razoavelmente malevel e porosa; consequentemente, no impede
               ligeiro deslocamento de pedras devido a mudanas de temperatura. Com
               seu emprego no ocorrem tenses nem fissuras.
246                                                       Metodologia e pr-histria da frica



      f)   Dentre os mtodos que permitem distinguir as superfcies das pedras
           adicionadas, os seguintes merecem ser mencionados:
          o novo paramento pode estar ligeiramente recuado em relao  obra
           original;
          no  proibido utilizar materiais diferentes, mas deve-se respeitar as
           dimenses dos blocos originais;
          pode-se tambm usar o mesmo tipo de material, mas nesse caso a forma
           e as dimenses dos blocos podem ser diferentes da forma e das dimenses
           dos elementos originais;
          as fileiras de pedras e todas as juntas podem ser alinhadas sobre as da obra
           original, mas os novos blocos devem ser moldados num aglomerado de
           pedras de tamanhos irregulares;
          marcas de identificao contendo a data da restaurao podero ser gravadas
           em todas as pedras novas;
          a superfcie das pedras novas pode ser completamente diferente da superfcie
           das antigas. Basta trat-la com um instrumento pontiagudo ou grav-
           -la profundamente com um buril para que adquira um certo desenho
           geomtrico, feito, de preferncia, com linhas paralelas ou secantes.
Histria e lingustica                                                   247



                              CAPTULO 10


                              PARTE I
                         Histria e lingustica
                                     P. Diagne




                            Aada koy demnga woni (fulfulde)
                            Lammii ay dekkal demb (wolof )
                             a fala que d forma ao passado.


    O negro africano estabelece uma ligao entre histria e lngua. Essa
viso  comum ao bantu, ao ioruba e ao mandinga. Mas no  a que reside a
originalidade. Na verdade, o rabe ou o grego anteriores a Tucdides concordaro
em afirmar, com os Fulbe, que "a narrativa  o lugar onde se encontra o passado":
Hanki koy daarol awratee.
    O que favorece a ligao entre histria e linguagem na tradio dos povos
da frica negra  a concepo que esta em geral conservou dos dois fenmenos.
Tal concepo identifica, espontaneamente, pensamento e linguagem e encara a
histria no como uma cincia, mas como um saber, uma arte de viver.
    A histria visa ao conhecimento do passado. A lingustica  a cincia da
linguagem e da fala. A narrativa e a obra histrica so contedos e formas
de pensamento. A lngua , em si mesma, o lugar desse pensamento, o seu
suporte.
    Evidentemente, a lingustica e a histria tm cada uma o seu domnio, seu
objeto prprio e seus mtodos. No obstante, as duas cincias interagem, pelo
menos em dois aspectos. Primeiramente, a lngua como sistema e instrumento
248                                                    Metodologia e pr-histria da frica



de comunicao  um fenmeno histrico. Ela tem a sua prpria histria.
Em segundo lugar, como alicerce do pensamento e, portanto, do passado e
do conhecimento deste, ela  o lugar e a fonte privilegiada do documento
histrico. Assim, a lingustica, entendida aqui em seu sentido mais amplo,
abrange um campo de pesquisa que fornece  histria pelo menos dois tipos
de dados: por um lado, uma informao propriamente lingustica; por outro,
um documento que se poderia chamar supralingustico. Graas aos fatos de
pensamento, aos elementos conceptuais utilizados numa lngua e aos textos
orais e escritos, ela permite que se leia a histria dos homens e de suas
civilizaes.
   Estando a problemtica assim definida, fica mais fcil perceber a rea comum
ao historiador e ao linguista que trabalham com a frica.


      Cincias lingusticas e histria
    Todas as cincias que tm por objeto a lngua e o pensamento podem
contribuir para a pesquisa histrica. Algumas, porm, apresentam uma conexo
mais direta com a histria. Essa  uma tradio muito bem estabelecida, embora
possa ser contestada  luz de uma reflexo mais profunda.
    Assim,  comum dizer que o estudo do parentesco das lnguas situa-se no
ponto de encontro entre a lingustica e a histria, mais do que na anlise da
evoluo do material fornecido pelos textos escritos ou orais e pelos vocbulos
de um idioma. Mas os dois tipos de pesquisa se referem a fatos de lngua ou
pensamento e, portanto, de histria.
    A esse respeito, a historiografia europeia sugeriu uma separao entre cincia
histrica propriamente dita e histria literria ou histria das ideias. Mas essa
distino s se justifica em determinados contextos.
    Os Bakongo de civilizao bantu, os Ibo de Benin ou os Susu de cultura
sudanesa deixaram poucos textos (ou mesmo nenhum) que correspondem s
normas de uma cincia histrica moderna. Em contrapartida, produziram, como
fonte de informao, uma abundante literatura oral com gneros distintos de
modo relativamente ntido e obras que hoje seramos tentados a classificar como
contos, novelas, narrativas, crnicas de epopeias histricas, lendas, mitos, obras
filosficas ou cosmognicas, reflexes tcnicas, religiosas ou sagradas. Nelas se
mesclam o verdadeiramente vivido e a fico, o evento que pode ser datado e o
mito puramente imaginrio.
Histria e lingustica                                                          249



    A reconstruo da histria dos Bakongo, dos Ibo ou dos Susu passa pela
anlise crtica dessas literaturas e tradies orais. Tambm no pode negligenciar
a anlise dos seus discursos, tcnicas e conhecimentos, a decifrao das linguagens,
dos conceitos e do vocabulrio que tais grupos utilizaram e que continuam a
revelar a histria de cada um deles.
    As cincias e os mtodos aos quais nos referimos aqui, como suscetveis
de esclarecerem o historiador da frica, no esgotam a lista. Talvez isso no
seja um mal, do ponto de vista da clareza. Fixando limites razoveis para suas
pesquisas, o especialista em linguagem poder aprofundar melhor determinados
setores. Assim, tendo em vista a dimenso lingustica de suas investigaes,
deixa a outros pesquisadores, historiadores das ideias, especialistas em cincias,
economia ou literatura o cuidado desses setores.

    Cincia classificatria e a histria dos povos africanos
    Classificar as lnguas j  revelar o parentesco e a histria dos povos que as
falam. Podem-se distinguir diversos tipos de classificao:

    Classificao gentica
   Estabelece o parentesco e os vnculos de filiao no interior de uma famlia
lingustica. Em consequncia, ajuda a restabelecer, ao menos em parte, a unidade
histrica de povos e culturas que utilizam lnguas da mesma origem.

    Classificao tipolgica
    Reagrupa as lnguas que apresentam semelhanas ou afinidades evidentes
em suas estruturas e sistemas.
    Lnguas de origem idntica ou totalmente diferente podem utilizar os
mesmos modos de formao lexical, nominal, verbal ou pronominal, ainda que
sejam muito distantes umas das outras do ponto de vista gentico, histrico ou
geogrfico.
    A tendncia a utilizar a mesma forma nominal e verbal  encontrada tanto
em wolof como em ingls:
    liggeey, trabalhar; liggeey bi, o trabalho
    to work, trabalhar; the work, o trabalho
   No entanto, apesar dessa semelhana tipolgica, os dois idiomas esto
gentica e geograficamente muito afastados um do outro. Pode acontecer,
250                                                     Metodologia e pr-histria da frica



por outro lado, de as lnguas pertencerem  mesma famlia e serem de tipos
diferentes. Seu parentesco  estabelecido a partir de um vocabulrio comum
convincente, mesmo que tenham evoludo em bases estruturais divergentes. s
vezes, devido ao emprstimo e ao abandono de vocabulrio, a diferena pode
aparecer mesmo no plano do lxico. As classificaes elaboradas para as lnguas
africanas no agrupam, por exemplo, certos elementos das famlias chdica
e senegals-guineense. Contudo, a considerao dos sistemas fonolgicos, da
morfologia e da estrutura sinttica impe o reagrupamento tipolgico de pelo
menos a maior parte dessas lnguas.

      Classificao geogrfica
    Reflete sobretudo uma tendncia instintiva para comparar e reagrupar lnguas
que coexistem numa rea. Quase sempre  resultado de informao insuficiente.
    As classificaes propostas para a frica so muito frequentemente
geogrficas em setores essenciais. Por esse motivo, elas deixam de lado alguns
fenmenos como a migrao e a imbricao dos povos. Koelle, M. Delafosse, D.
Westermann e J. Greenberg fazem referncia principalmente a denominaes e
agrupamentos topolgicos e geogrficos. Eles estabelecem categorias tais como
"oeste-atlntico", "nger-congo", "senegals-guineense", "ngerochdico", etc.
    Uma classificao rigorosa das lnguas africanas requer procedimentos que
demonstrem que as formas, o vocabulrio e as estruturas lingusticas propostas
como elementos de comparao so no apenas representativos, mas fazem parte
do patrimnio original das lnguas comparadas. A semelhana no deve ser,
portanto, resultado de emprstimos ou de contatos antigos ou recentes.
    Sabemos que, por motivos histricos, o rabe e as lnguas semitas, como
tambm o francs, o portugus, o africner e o ingls depositaram, por vrios
sculos e mesmo alguns milnios, uma quantidade considervel de vocabulrio
em muitas lnguas africanas. Algumas variantes do kiswahili, que  uma lngua
bantu, contm mais de 60% de emprstimos lexicais do rabe. Da a concluir 
por paixo religiosa ou falta de precauo cientfica  que o kiswahili pertence ao
grupo semito-rabe, h apenas um passo. Algumas vezes, chegou-se realmente
a essa concluso.
    Com o tempo, as formas originalmente comuns a mais de uma lngua podem
ter sofrido transformaes de ordem fontica, morfolgica ou estrutural. Essa
evoluo, que obedece a certas leis,  um fenmeno conhecido e analisvel.
O significado dessas formas, o significado das palavras que fazem parte do
vocabulrio a ser comparado, pode ter variado dentro dos limites de um campo
Histria e lingustica                                                         251



semntico passvel de ser mais ou menos apreendido. Em sua forma moderna,
por exemplo, o wolof mostra um emudecimento da vogal final depois de uma
consoante dupla: Bopp ou fatt em vez de Boppa ou fatta, como ainda dizem os
gambianos e os Lebu. A forma neds do egpcio antigo transforrriou-se em neddo
em fulfulde moderno e nit em wolof. O bantu diz mutumuntu; o haussa, mutu;
o mandinga, mixi ou moxo; o fon, gbeto; o mina, agbeto, etc. A palavra egpcia
kemit j significou "queimado" ou "preto". Hoje significa cinzas, queimaduras, etc.

    A reconstruo de uma lngua
    A reconstruo histrica de uma lngua
    Como tcnica de redescoberta do vocabulrio e do patrimnio estrutural
comum, a reconstruo histrica de uma lngua leva em conta as mudanas
descritas acima. Como procedimento, permite retraar a histria de uma lngua
ou de uma famlia lingustica, ajudando a estabelecer a protolinguagem original e
a datar os perodos de separao dos diversos ramos. Nesse sentido, a reconstruo
constitui uma ajuda valiosa para a cincia classificatria propriamente dita.
    Vrios critrios e tcnicas so utilizados para reconstruir uma lngua e
reinventar seus dados originais. A correspondncia de sons desempenha papel
primordial na reconstruo de uma protolinguagem ou no estabelecimento de
um parentesco. Quando se diz, por exemplo, que o p se torna f numa variante
e que noutra o u se transforma em o,  possvel, fazendo Fa = Pa, Lu = Lo,
reconstruir o sistema fontico e as formas originais.

    Reconstruo fonolgica
    Esta tcnica  uma etapa para a reconstruo do repertrio lxico e
do vocabulrio original. Os fonemas no so os nicos elementos a mudar:
a morfologia e as estruturas tambm evoluem. A funo sujeito em latim 
marcada por um fonema chamado nominativo; nas lnguas de origem latina ou
de influncia latina, essa funo  determinada principalmente pela sintaxe de
posio: Homo vidit = vidit homo = o homem viu.
    No estabelecimento das protolnguas (protobantu, protochdico, etc.),
sempre se faz referncia ao vocabulrio, ao repertrio lexical comum. Podem-se
assim estabelecer "porcentagens" de palavras comuns, elaborando quadros de
"contagem lexical" ou lexical count. A classificao de J. H. Greenberg1 recorre

1    GREENBERG, J. H. 1963.
252                                                    Metodologia e pr-histria da frica



frequentemente a essa tcnica. Em seu trabalho sobre o grupo oeste-atlntico,
D. Sapir tambm a utiliza2. Ele indica que o seereer e o pulaar, colocados no
mesmo grupo, tm 37% de palavras em comum; o baga koba e o temne, 79%; o
temne e o seereer, apenas 5%; o basari e o safeen, tambm 5%.
    Esses idiomas so todos agrupados na mesma famlia, mas o vocabulrio
comum (que pode ser abundantemente emprestado) no  suficiente para negar
ou afirmar uma relao histrica. Tem-se recorrido tambm  similaridade
de "traos tipolgicos" ou  identidade de estrutura (comparao dos sistemas
pronominal, verbal ou nominal, etc.).
    O componente tipolgico, associado aos dados fornecidos pela anlise lexical e
fonolgica, possibilita atingir resultados que se tornam tanto mais comprobatrios
quanto forem consideradas a histria e as influncias. A reconstruo tambm
visa a datar a poca em que essa herana comum foi dividida no interior de
uma protolngua e depois empregada por lnguas aparentadas e que estavam
diferenciando-se progressivamente. Alm disso, preocupa-se em identificar a
natureza da lngua primitiva que deu origem aos vrios falares que podem ser
ligados a uma mesma protolngua.

      Reconstruo e datao
    Permitem determinar a idade dos materiais lxicos e estruturais coligidos
durante o estudo das lnguas, com o objetivo de, por comparao, precisar
com maior ou menor certeza o nvel em que se situa o parentesco lingustico.
Portanto, essas tcnicas oferecem pontos de referncia precisos  histria da
separao dos povos que pertenciam ao mesmo universo cultural e lingustico.
Ao mesmo tempo, iluminam de forma abrangente a histria das etnias e das
civilizaes multinacionais e multitnicas.
    No contexto de uma pesquisa sobre uma poca recente e a propsito
de lnguas escritas, o esforo  relativamente menor. Em contrapartida, a
raridade dos documentos posteriores ao IV milnio antes da Era Crist
geralmente dificulta a tarefa. Nesse caso, entretanto, trata-se de elucidar
a histria de perodos decisivos de mutao lingustica. Os processos de
mudana do vocabulrio ou das estruturas examinados com esse propsito
so, como veremos mais tarde, muito lentos e difceis de determinar. Para
atenuar essa escassez de informao,  necessrio recorrer a tcnicas mais
ou menos eficientes.


2     SAPIR, D. 1973.
Histria e lingustica                                                        253



    A glotocronologia
    Essa tcnica, que foi aplicada na frica,  uma das mais recentes no campo
dos estudos lingusticas. Seu princpio bsico  a datao da evoluo lexical de
uma lngua, tomando como referncia o ritmo das mudanas no vocabulrio:
vocabulrio cultural (conceitos filosficos, tcnicos, etc.) e vocabulrio bsico
(nomes das partes do corpo humano, nmeros de um a cinco, vocbulos que
designam os fenmenos naturais, etc.). A glotocronologia visa, portanto, a
dar informaes sobre a idade, as etapas e o estado de evoluo dos termos
e das formas do lxico. A evoluo do vocabulrio fundamental ou bsico 
relativamente lenta nas sociedades antigas, pelo menos quando no h mudanas
sbitas causadas por acontecimentos decisivos. Particularmente na frica negra,
graas aos trabalhos de Delafosse, foi possvel formar uma ideia desse ritmo de
evoluo, atravs do levantamento de palavras registradas por escrito desde o
sculo XI. O trabalho de Delafosse trata do vocabulrio das lnguas sudanesas,
recolhido nos textos rabes. Esses termos no sofreram quase nenhuma mudana
depois de um milnio de histria. Mas os defensores do mtodo vo ainda
mais longe: a evoluo do vocabulrio bsico no s seria lenta, mas tambm
constante em todas as lnguas. Tal  a opinio de E. Swadesh, que tentou aplicar
essa teoria a lnguas africanas. Em alguns casos precisos, os testes efetuados
parecem ser comprobatrios.
    A glotocronologia postula um ritmo de transformao dos elementos do
vocabulrio bsico, que pode ser medido em porcentagem. A taxa de reteno
do vocabulrio estaria entre 81 2 e 85 0,4% por um perodo de 1000 anos.
Baseando-se nisso, a glotocronologia chegou a algumas concluses, reunidas na
clebre frmula:

                                   t = log c
                                     1,4 log r
onde t representa a durao, e a porcentagem de termos comuns s lnguas
comparadas e r a taxa de reteno.
    Diante dos resultados obtidos, pode-se considerar a glotocronologia como
uma medida temporal vlida, uma espcie de relgio histrico? As descobertas
ficam aqum das expectativas por uma razo simples: num contexto de imbricao
lingustica e de interferncia de lxicos cuja extenso  mal conhecida e sem
documentos precisos, escritos ou no, no  fcil, no estado atual das pesquisas,
seriar os dados e distinguir, por exemplo, entre mudanas normais e mudanas
causadas por emprstimo, mesmo no lxico bsico.
254                                                                   Metodologia e pr-histria da frica



   No entanto, uma cincia classificatria que empregasse todas essas tcnicas
forneceria a chave da relao tnica e lingustica.


      Classificaes lingusticas e parentescos etnoculturais
    Apesar de alguns trabalhos notveis, o problema do parentesco lingustico e
tnico est longe de ser resolvido na frica. Em muitas reas, a intuio de que
existe essa relao ainda sobrepuja a prova estabelecida cientificamente.
    A ideia e a noo de uma comunidade bantu reunindo a grande maioria dos
povos da frica central e meridional nasceram no sculo XIX com os trabalhos
de W. Bleek. Numa obra clebre publicada em 1862, ele estabeleceu o parentesco
das lnguas e das variantes dialetais faladas numa rea muito vasta, habitada
por numerosos grupos tnicos, usando falares com maior ou menor grau de
intercompreenso. Evidentemente, o parentesco de lngua e de cultura  muito
mais perceptvel  primeira vista para as etnias que vivem lado a lado.  o que
ocorre com os Bantu.
    Em alguns casos, a distncia no espao e no tempo cria problemas. Os Fulbe
so um bom exemplo. Da bacia do Senegal  bacia do Nilo, eles constituem
comunidades frequentemente isoladas, em meio a reas habitadas por etnias s
vezes muito diferentes.
    Os Duala do Camares falam uma lngua bantu; na prtica, o duala pode
ser considerado uma variante desse grupo, da mesma natureza que o lingala, tal
como os falares de Mbandaka ou Kinshasa, apesar da distncia e do isolamento
relativo que existem entre os Duala e as comunidades que falam estes dois
ltimos idiomas.
    O egpcio faranico, que era falado h 5000 anos, apresenta semelhanas
espantosas com o haussa, o wolof ou o songhai.3
    Ocorrem ainda fenmenos de imbricao. Grandes lnguas de unificao
continuam, por motivos diversos (polticos, econmicos, culturais, etc.), a servir
de suporte  integrao de etnias diferentes. Elas apagam, por meio da presso
social e do peso histrico, os falares e as culturas, dos quais restam frequentem
ente apenas alguns vestgios.
    O lingala, o haussa, o kiswahili, o ioruba, o twi, o ibo, o bambarajula, o
fulfulde, o rabe ou o wolof so falados por milhes, talvez at por dezenas


3     A esse respeito, podemos citar os trabalhos da Srta. HOMBURGER, os captulos deste livro escritos
      pelos professores GREENBERG e OBENGA e o relatrio do Simpsio do Cairo (volume II).
Histria e lingustica                                                           255



de milhes de pessoas de origens diferentes. Como veculos de comunicao,
ultrapassaram largamente seu contexto tnico e geogrfico original, para se
tornarem lnguas de civilizao comuns a povos inicialmente muito diferentes.
    Os Peul e os Seereer constituem, no Senegal, a imensa maioria dos falantes
de wolof. O wolof era originariamente a lngua de uma etnia lebu, cujos traos
foram encontrados na fronteira entre o Senegal e a Mauritnia. Hoje em dia,
os Lebu constituem apenas uma pequena minoria, confinada na pennsula do
Cabo Verde. No entanto, com a urbanizao do Senegal, a cultura e a lngua
wolof esto fazendo muitas lnguas e dialetos desaparecerem sob nossos olhos: o
seereer, o lebu, o fulfulde, o diula, o noon, etc. Esses idiomas, porm, pertencentes
a povos diversos, desempenharam h apenas alguns sculos importante papel
na histria da regio.
    Esta evoluo  geral. O kiswahili, falado por dezenas de milhes de pessoas
de fala bantu, nasceu de uma variante zanzibarita usada inicialmente em algumas
aldeias. Expandiu-se depois com muita facilidade por uma rea lingustica bantu
relativamente homognea, para constituir hoje, juntamente com o lingala, o
principal veculo de comunicao na frica central e meridional. Cinquenta
ou sessenta milhes de pessoas falam uma dessas duas lnguas, ou uma variante
prxima, nos seguintes pases: Zaire, Repblica Popular do Congo, Repblica
Centro-Africana, Uganda, Tanznia, Qunia, Zmbia, Malavi, frica do Sul,
Sudo e Etipia.
    O pensamento africano tradicional tem-se mostrado com frequncia bastante
consciente, no s dessa imbricao, mas tambm do papel explicativo que o
fenmeno lingustico pode representar na elucidao da histria. Nas tradies
africanas, h numerosas anedotas sobre o parentesco entre as lnguas ou sobre
a origem mais ou menos mtica de sua diferenciao. Frequentemente trata-
-se de observaes justas.  o caso das aproximaes que os Peul e os Seereer
fazem, afirmando quase intuitivamente seu parentesco tnico e lingustico. Os
Mandinga, os Bantu, os Akan e os Peul, que. se apresentam como falantes da
mesma lngua, tm s vezes, enquanto grupos e subgrupos, a intuio de formar
uma grande famlia comum. Na maior parte dos casos, contudo, o parentesco
afirmado nasce apenas da necessidade de integrar a histria de uma comunidade
que "deve" aparecer de um modo ou de outro no universo de uma certa etnia,
ou ainda de coexistir com ela. Para a coerncia de uma saga tradicional, 
indispensvel que os grupos que hoje povoam um habitat comum tenham
ligaes verdadeiras ou mticas uns com os outros.
    No entanto, o saber lingustico tradicional das sociedades africanas no
fornece indicaes precisas que permitam evocar a existncia de uma cincia
256                                                                   Metodologia e pr-histria da frica



antiga ou de uma reflexo sistemtica sobre tais parentescos, ao contrrio do
que se pode notar em outras reas, como, por exemplo, na cincia etimolgica,
na prpria anlise da lngua, ou ainda nos fenmenos lexicais. O mestre da
palavra e da eloquncia peul, bantu ou wolof possui em geral um interesse muito
consciente e uma boa informao sobre a origem das palavras. O historiador
de Cayor, por exemplo, ter prazer em descobrir as palavras emprestadas ou
decompor um vocbulo para revelar sua origem: Barjal, diz o guardio da
tradio de Cayor, vem de Baar e Jall. E explica ao mesmo tempo a contrao
formal sofrida pelos componentes do termo, o contexto e o sentido da palavra.
Em um artigo de A. Tall 4, h alguns exemplos desse tipo de trabalho, feito por
etimologistas tradicionais entre os Mossi e os Gurmanche.
    O incio da cincia classificatria em lingustica ocorre com S. Koelle, Bleek
e a pesquisa europeia. Esta inaugura-a no sculo XIX com os trabalhos dos
comparatistas indo-europeus de quem os pesquisadores da lingustica africana
foram discpulos.
    W. H. Bleek5 foi um dos primeiros que se props a estabelecer o parentesco
das lnguas bantu, precedendo nessa rea autores como Meinhof ou H. Johnston.
A contribuio de Delafosse6 s lnguas africanas do oeste  bem conhecida. O
mesmo pode ser dito sobre os trabalhos de C. R. Lepsius7, A. N. Tucker8 e G. W.
Murray9 para as lnguas nilticas e de Basset para as lnguas berberes. O estudo
do egpcio antigo, essencial  pesquisa negro-africana, o das lnguas semticas ou
indo-europeias da frica do Norte e at mesmo o de lnguas pnicas e greco-
-latinas tiveram tambm notvel valor.
    Como enfatiza J. H. Greenberg10, autor da classificao das lnguas africanas
mais recente e atualmente mais discutida, os trabalhos modernos de maior
interesse para o continente como um todo so os de Drexel11 e Meinhof12. Mas



4     Cf. Tradition Orale. Centre Rgional de Documentation pour la Tradition Orale de Niamey, 1972.
5     BLEEK, W. H. I. 1862-1869.
6     DELAFOSSE, M. In: MEILLET, A. e COHEN. 1924; HOMBURGER, L. 1941. Dentre os autores
      que propuseram classificaes, devemos citar A. WERNER, 1925 e 1930.
7     LEPSIUS, C. R. 1888.
8     TUCKER, A. N. 1940.
9     MURRAY, G. W. v. 44.
10    GREENBERG, J. H. 1957. Principalmente a anlise crtica feita em "Nilotic hamitic-semito-hamitic".
      In: Africa, 1958 e tambm The Languages of Africa, The Hague, 1963.
11 Cf. GREENBERG, J. H.
12    MEINHOF, C. 1904, 1906, 1912 e 1932.
Histria e lingustica                                                        257



estes no so os primeiros nem os nicos. Koelle13, a partir de 1854, e Migeod14,
em 1911, propuseram mtodos e modos de classificao, enquanto Bauman e
Westermann15 apresentaram, em 1940, um sistema interessante sobre o mesmo
tema.
   Entretanto, esses trabalhos continuam discutveis e discutidos por muitas
razes. A primeira  que a lingustica da frica no escapou  ideologia
etnocentrista. Sob esse aspecto, as crticas recentes do prprio J. H. Greenberg
concordam perfeitamente com as que Cheikh Anta Diop exprimia h 20 anos,
em Nations Ngres et Cultures, e que T. Obenga retomou, acrescentando-lhes
novas informaes em sua conferncia no Festival de Lagos, em 1977. A segunda
razo  de ordem puramente cientfica. Quase todos os linguistas consideram
prematuras as tentativas de classificao. No so tomadas as precaues
metodolgicas indispensveis e ainda no se reuniu material devidamente
analisado e preparado para uma comparao gentica ou mesmo tipolgica das
lnguas africanas.

     Insuficincia dos trabalhos
    At mesmo a simples enumerao das lnguas africanas encontra obstculos,
j que o levantamento desses idiomas ainda no atingiu resultados muito precisos.
Estima-se que existam no continente de 1300 a 1500 idiomas classificados como
lnguas. As monografias existentes sobre tais falares resumem-se s vezes 
coleta de uma vintena de palavras mais ou menos bem transcritas. A ausncia
de uma anlise profunda da estrutura, do lxico e da possvel intercompreenso
 um fato corrente no estudo da imensa maioria dos falares africanos. Assim,
as classificaes propostas periodicamente tornam-se caducas muito depressa.
Diversos falares classificados como "lnguas" so apenas variantes dialetais de um
mesmo idioma. A partir de testemunhos vagos, que apiam concluses de autores
ou informantes desavisados, as variantes foram rapidamente classificadas no
apenas como lnguas diferentes, mas como elementos de famlias diferentes. E
como afirmar que o bambara  uma lngua diferente do mandinga de Casamance
ou que o ioruba de Benin  diferente do de Ife. Em ambos os casos, trata-se
de variantes. Meinhof tornou-se conhecido pelos erros dessa gravidade que
cometeu no estudo das lnguas de Kordofan.


13   KOELLE, S. W. 1854.
14   MIGEOD, F. W. 1911.
15   BAUMAN. H. e WESTERMANN, D. 1962.
258                                                            Metodologia e pr-histria da frica



     certo que alguns progressos se verificaram recentemente. Contudo, no
existe contexto favorvel a um trabalho de sntese rigoroso. De fato, no  possvel
classificar lnguas que ainda no foram identificadas com exatido e analisadas
precisamente. Alguns exemplos concretos ilustram a amplido das controvrsias
e o grau das incertezas. Os dois primeiros referem-se aos falares da fronteira
geogrfica atual entre a famlia camito-semtica e a famlia negro-africana. O
terceiro refere-se ao grupo "oeste-atlntico", ou ainda "senegals-guineense".
    Dos trabalhos de C. Meinhof (1912)16, M. Delafosse (1924)17, C. Meek
(1931)18, J. Lukas (1936)19 e M. Cohen (1947)20 aos de J. H. Greenberg, em
1948, ou de A. Tucker e A. Bryan, em 196621, e s crticas recentes de T.
Obenga22, no h perfeita concordncia sobre os dados nem sobre o mtodo, os
componentes dos grupos ou a gnese e a natureza das relaes entre os falares.
O contato e sobretudo a geografia realmente unem, de modo indiscutvel, as
lnguas faladas do Nilo  bacia do Chade. A coexistncia milenar do negro-
-africano e do semtico abriga a um fundo comum de emprstimo mtuo
considervel. Essas contribuies recprocas dificultam a separao entre os
dados originais e a aquisio exterior.
    O problema  saber em que medida o vocabulrio prprio do egpcio antigo,
do haussa, do copta, do baguirmiano, do sara e das lnguas chdicas, que pode
ser encontrado no berbere e nas lnguas semticas tais como o rabe e o amrico,
atesta parentesco entre tais idiomas ou simples influncia de uns sobre outros.
    As informaes sobre o egpcio antigo remontam a 4000 anos e sobre o semtico
a 2500 anos. O chdico, o berbere e o cuxita, analisados no mesmo contexto, s
fornecem informaes consistentes nos sculos XIX e XX da Era Crist.
    Em 1947, M. Cohen publica seu Essai Comparatif sur le Vocabulaire et la
Phontique du ChamitoSmitique, em que compara o egpcio, o berbere, o semtico,
o cuxita e o haussa, que evoca esporadicamente. Desde 1949, Leslau23 e Hintze24
questionam as concluses de Cohen e at mesmo seus mtodos. J. H. Greenberg,


16    MEINHOF, C. 1912.
17    DELAFOSSE, M. 1924.
18    MEEK, C. 1931.
19    LUKAS, L. 1936.
20    COHEN, M. 1947; GREENBERG, J. H. 1948. "Hamito-Semitic. SJA 6.47.63.
21    TUCKER, A. e BRYAN, A. 1966.
22    OBENGA, T. 1977. Comunicao no Festival de Lagos
23    LESLAU, W. 1949.
24    HINTZE, F. 1951.
Histria e lingustica                                                         259



considerando que  contestado o prprio princpio de um domnio "camito-
-semtico", aumenta os componentes do grupo, sugerindo um quinto elemento
distinto, o chdico. Ele d ao grupo todo o nome de "camtico" e, depois, de "afro-
-asitico". Essas concluses so objeto de controvrsia a partir de sua publicao.
Polotsky25 pe em dvida que, no estgio atual, seja possvel afirmar a existncia
de cinco ramificaes. Note-se que Greenberg repete, embora de modo no
convincente, a tese predominantemente geogrfica a respeito do chdico e de
suas ligaes contida em Languages of the World. Basta consultar as classificaes
divergentes de Greenberg, Tucker e Bryan, constantemente questionadas at pelos
prprios autores, para ter uma ideia do carter provisrio das concluses.
    Os trabalhos recentes j do consistncia  noo de uma realidade chdica,
cujas fronteiras se mostram bem mais distantes que as margens do lago. Newman
e Ma26, em 1966, e Illie Svity27, em 1967, aprofundaram o conhecimento do
protochadiano. Os trabalhos de Y. P. Caprille28 limitaram sua extenso ao
prprio Chade. Com base em observaes sistemticas, pode-se sugerir um
lao gentico entre o grupo sara, o grupo chadiano e vrias lnguas classificadas
como oeste-atlnticas (seereer, pulaar, wolof, safeen, etc.)29. Em si mesmas, essas
contribuies lanam dvidas sobre todos os esforos de classificao, destaca
C. T. Hodge num excelente artigo30.
    O principal problema, a natureza das relaes entre as lnguas da fronteira
negro-africana e indo-europeia, ainda no est resolvido. O peso dos trabalhos
que assimilam o mundo cultural africano ao semtico permanece como problema.
     verdade que a questo da identidade e dos componentes do negro-africano
continua a existir. Ela  enfatizada no simpsio sobre Le Peuplement de l' Egypte
Ancienne, organizado pela Unesco em 1974, no Cairo. Nessa ocasio, S. Sauneron
lembrava, para ilustrar tais incertezas, que "a lngua egpcia, por exemplo, no
pode ser isolada de seu contexto africano e que o semtico no pode explicar
seu nascimento".
    O cuxita  outro exemplo que ilustra a atual incerteza da pesquisa e das
classificaes. Greenberg, Tucker e Bryan e o sovitico Dolgopoljskij propem
atualmente trs classificaes diversas, se no contraditrias, para o mesmo


25   POLOTSKY, H. 1964.
26   NEWMAN, P. e MA, R. "Comparative Chadic". JWAL 5.2.18.25.
27 SVITYE, Illie. The History of Chadi Consonantism. Cf. HODGE, C. 1968.
28 CAPRILLE, Y. P. 1972.
29   Cf. DIAGNE, P. 1976.
30   HODGE, C. T. 1968.
260                                                       Metodologia e pr-histria da frica



complexo de lnguas chamado cuxita (somali, galla, sidamo, mbugu, etc.). A
classificao de Dolgopoljskij articula-se sobre uma reconstruo de ordem
fonolgica a partir de exemplos limitados. Ele compara, particularmente, as
labiais (p, b, f ) e as dentais (t, d) das lnguas que analisa e classifica numa dezena
de subgrupos, enquanto seus colegas identificam de trs a cinco.
    J. H. Greenberg, por sua vez, negligencia os dados fonolgicos, morfolgicos
e gramaticais, concentrando-se principalmente na comparao do vocabulrio.
Mas aqui os emprstimos representam um papel considervel. A classificao
de A. Tucker e A. Bryan, que fazem crticas ao mtodo de Greenberg, baseia-se
numa comparao do sistema pronominal e da estrutura verbal. Eles prprios
consideram "ambguos" alguns dos idiomas que reagrupam e enfatizam que seu
esforo tem o carter de pura tentativa.
    Pode-se constatar que as concluses adiantadas aqui valem principalmente
por seu aspecto provisrio.
    Reencontramos as mesmas dificuldades no que diz respeito s lnguas
geograficamente delimitadas pelo oeste atlntico, localizadas na costa que vai do
sul da Mauritnia  Serra Leoa. Em 1854, Koelle as classifica em seu Polyglotta
Africana sob a rubrica "oeste-atlntico" e baseia sua identificao nas mudanas
de prefixos ou na inflexo inicial ou final que apresentam. Esse  um trao tpico
do bantu, mas no  suficiente para definir um grupo.
    De resto, Koelle vai considerar mais tarde o conjunto dessas lnguas como
"no classificadas". M. Delafosse em 192431 e D. Westermann em 1928 afirmam
que se trata de um grupo gentico. Em 1963, Greenberg32 adota o mesmo ponto
de vista, considerando-as o grupo mais ocidental da famlia nger-congo.
    No mesmo ano, contudo, Wilson33 e D. A. Dalby34, embora notando as
semelhanas tipolgicas no interior do conjunto, negam qualquer possibilidade
de o encarar como um grupo lingustico homogneo e aparentado. Em detalhes
de morfologia, sintaxe e vocabulrio, escreve Wilson, o grupo oeste-atlntico
ou senegals-guineense est longe de representar uma unidade. De fato, os
trabalhos recentes publicados em 1974 por D. Sapir35 mostram que no h
mais de 5 a 10% de vocabulrio comum entre a grande maioria dessas lnguas,
parecendo ser a geografia o nico fator que as unifica na maior parte dos casos,


31    DELAFOSSE, M. 1924.
32    GREENBERG, J. H. 1963.
33    WILSON, W. 1966.
34    DALBY, D. A. 1965.
35    SAPIR, D. 1974.
Histria e lingustica                                                                                    261



como foi dito antes. O processo de migrao misturou aqui, como na rea nilo-
-chdica, povos de origens diferentes; o parentesco entre eles  estabelecido
talvez depressa demais, na ausncia de informaes mais precisas que esclaream
a histria e o historiador.
     nesse plano, alis, que so amplos os atuais limites da lingustica como
instrumento de investigao histrica. O pesquisador se confronta aqui com
o duplo obstculo mencionado acima. A pesquisa no atingiu seus objetivos
porque se conserva parcial e embrionria. Alm disso, seus resultados provisrios
so frequentemente inexplorveis porque falsificados pela ideologia e por
perspectivas deformantes.

     A ideologia deformante
    A histria  por excelncia o lugar da ideologia. Os primeiros trabalhos sobre
as lnguas e o passado da frica coincidiram com a expanso colonial europeia.
Assim, foram fortemente marcados pelas vises hegemonistas da poca.
    O discurso etnocentrista exprime a preocupao instintiva de julgar valores
de civilizaes com referncia a si mesmo. Ele levou  apropriao dos fatos
de civilizao mais marcantes para legitimar-se como pensamento e poder
dominantes no mundo. As teses sobre a primazia do indo-europeu, do ariano
ou do branco civilizadores testemunham um excesso cujos ecos profundos so
encontrados ainda hoje em muitas obras de histria e de lingustica da frica36.
     por isso que o Egito foi por muito tempo colocado entre parnteses com
relao ao resto do continente. Com base em especulaes feitas ao acaso,
continua-se s vezes a atribuir-lhe menos idade, em benefcio da Mesopotmia
ou de outros centros supostamente indo-europeus ou semitas. Frequentemente,
foram procurados imaginrios iniciadores da arte do Benin. Montou-se uma
teoria "camtica"37, pea por pea, com a finalidade de explicar, atravs de
influncias externas, qualquer fenmeno cultural positivo na frica negra.



36   Ver adiante J. H. GREENBERG sobre essa questo.
37   As palavras "camita" e "camtico" foram largamente utilizadas no mundo ocidental durante vrios sculos,
     tanto no vocabulrio erudito como no cotidiano. Procedem de leituras deformantes e tendenciosas
     da Bblia, das quais se originou o mito da maldio dos descendentes negros de C. Esses termos
     adquiriram uma significao aparentemente menos negativa (pelo menos sem conotao religiosa)
     graas  pesquisa de linguistas e etnlogos no sculo XIX, mas nem por isso deixaram de funcionar
     como critrio de discriminao entre certos negros considerados superiores e os outros. Em todo caso, o
     comit cientfico internacional estimula os estudos crticos em andamento, que tratam dos usos histricos
     desse vocabulrio que s deve ser utilizado com reservas expressas.
262                                                          Metodologia e pr-histria da frica



   Procurando promover uma metodologia rigorosa e cientfica, J. H. Greenberg
 cuja contribuio, embora discutvel em parte, ainda continua nova e importante
 torna-se algumas vezes eco desse impacto negativo da ideologia etnocentrista.
   Seligman, Meinhof e, depois deles, autores importantes como Delafosse,
Bauman, Westermann ou Mller, desenvolvem argumentos de uma fragilidade
cientfica consternadora, pois baseiam-se em preconceitos do tipo que Meinhof
exprime na seguinte frmula: "No curso da histria, repete-se constantemente o
fato de que os povos camitas tm subjugado e governado os povos de pele negra".
   Essas constataes fundamentam a prudncia com que deve ser utilizado
o material que os trabalhos lingusticos oferecem aos historiadores ou aos
especialistas das cincias humanas em geral.
   Segundo Greenberg,
      "o emprego vago do termo camita como categoria lingustica e sua utilizao na
      classificao das raas para designar um tipo considerado fundamentalmente cauca-
      side, conduziram a uma teoria racial. Ela v, na maioria das populaes originrias
      da frica negra, o resultado de uma mistura entre camitas e negros".
   Assim, a denominao de "povos de lngua nilo-camtica refere-se  obra
de C. G. Seligman, Races of Africa. "Esses povos so considerados racialmente
meio-camitas." Os Bantu constituiriam tambm uma outra variedade de negros
camitizados. E isso, comenta ainda Greenberg:
      "Tomando por base as especulaes de Meinhof, para as quais, alis, ele nunca
      forneceu a menor prova, pela simples razo de que no h prova possvel para que o
      bantu, como diz Seligman, seja uma lngua mista e o homem bantu, por assim dizer,
      descendente de pai camita e me negra".
    De fato, conclui J. H. Greenberg, essa ideologia falseia totalmente, ainda
hoje, a elaborao de uma cincia lingustica capaz de esclarecer as verdadeiras
relaes entre lnguas e civilizaes na frica.
    A migrao dos povos africanos no sentido leste-oeste e norte-sul tornou
confuso o quadro tnico, racial e lingustico do continente. Isso  indicado, como
se pode ver em muitos trabalhos, pelos nomes de pessoas e lugares e pelos fatos
de lingustica pura relativos ao prprio vocabulrio essencial. As lnguas do
Senegal, como o wolof, o diula, o fulfulde ou o seereer, atestam semelhanas mais
profundas com as lnguas bantu da frica do Sul, da Tanznia, de Camares e
do Zaire do que com as lnguas da famlia mandinga no interior das quais so
geograficamente inseridas. O lxico, a estrutura e mesmo os princpios da escrita
egpcia antiga, como veremos mais tarde, esto mais prximos da realidade
Histria e lingustica                                                               263



de lnguas como o wolof e o haussa ou da tradio grfica daomeana que das
estruturas lingusticas semticas ou indo-europeias s quais so anexadas sem
critrio.
    A antiga lngua egpcia, o haussa, as lnguas dos pastores ruandenses, dos
abissnios, dos Peul e dos nbios so naturalizadas semitas ou indo-europeias
sobre bases de evidente fragilidade ou a partir de uma metodologia e de uma
escolha de critrios muito pouco convincentes.
    Os Peul talvez sejam mestios, do mesmo modo que os Baluba, os Susu, os
Songhai e muitos povos negros que mantiveram, em seu habitat antigo ou atual,
contatos com populaes brancas. Essa hiptese de mestiagem, contudo,  hoje
bastante questionada a partir de descobertas recentes a respeito dos processos
de mutao da pigmentao.
    Por sua fonologia, seu lxico e sua estrutura, o fulfulde apresenta semelhanas
com o seereer, mais do que com qualquer outra lngua conhecida, a tal ponto que
os prprios Seereer e Peul sugerem haver entre eles um parentesco no apenas
lingustico mas tambm tnico. Isso no impediu pesquisadores como F. Mller,
W. Jeffreys, Meinhof, Delafosse e Westermann de tentar estabelecer uma origem
branca para os Peul, afirmando que o fulfulde  protocamtico38. W. Taylor chega
mesmo a escrever: "Pela riqueza de seu vocabulrio, a sonoridade de sua dico
e as delicadas nuances de significao que  capaz de expressar, o peul no pode
pertencer  famlia negra sudanesa". Todas essas observaes nos mostram at
que ponto est generalizada a confuso entre categorias to diferentes como a
lngua, o modo de vida e a "raa", sem contar o conceito de etnia, que  utilizado,
conforme o caso, com referncia a uma ou vrias dessas categorias.
    Como nota J. H. Greenberg, a relao simplista estabelecida entre gado
grosso, conquista e lngua camtica se mostra falsa em todo o continente africano.
Escreve ele:
     "No Sudo ocidental,  uma ironia constatar que os agricultores de lnguas camticas
     esto submetidos  autoridade dos pastores peul que falam uma lngua sudanesa
     ocidental (ou nger-congo). Teria sido outra ironia, se segussemos os clichs
     estabelecidos, constatar a antiguidade e a permanncia das hegemonias mandinga
     ou wolof, de famlia lingustica sudanesa, sobre povos to rapidamente assimilados
     ao `camtico' como os assim chamados Peul pr-camticos ou os Berberes".
   Nenhuma das classificaes estabelecidas no plano continental ou regional
oferece, at agora, garantias cientficas inquestionveis. O etnocentrismo tem

38   GREENBERG, J. H. Op. cit.
264                                                    Metodologia e pr-histria da frica



contribudo bastante para distorcer a anlise do material. Em muitos casos, s
nos restam conjecturas, peties de princpio e abordagens superficiais.
    H um certo nmero de condies necessrias para o estudo das lnguas
africanas de acordo com princpios estritamente cientficos que ajudem a
esclarecer a histria dos povos e civilizaes do continente. Em primeiro lugar,
esse trabalho deve estar livre das obsesses de um pr-julgamento a partir do
semita ou do indo-europeu, ou seja, a partir do passado histrico do homem
europeu. Alm disso, para estabelecer o parentesco entre as lnguas africanas,
ser necessrio fazer referncia ao material lingustico antigo e no aos dados
geogrficos atuais, s influncias antigas ou tardias, aos esquemas explicativos
escolhidos a priori ou aos traos lingusticos marginais em relao aos fatos
dominantes dos sistemas.


      Cincias auxiliares
      A anlise aculturalista
    A anlise aculturalista ou "topolgica"39, na terminologia inglesa, releva uma
cincia que tem por objeto o estudo da origem e dos processos de difuso
dos traos culturais (ideias, tcnicas, etc.). Os pesquisadores alemes foram os
primeiros a aplicar esse mtodo na prtica, com o estudo dos "ciclos culturais"
de Frobenius, Westermann-Baumann, etc.
    Esses estudos muitas vezes tomaram por objeto a difuso das tcnicas e
produes agrcolas, os mtodos pastoris, a inveno e a difuso das tcnicas de
trabalho com o ferro e outros metais, o uso do cavalo e a elaborao de noes
ontolgicas, do panteo dos deuses ou das formas artsticas.
    Entretanto, a topologia muitas vezes foi alm de seu domnio. Particularmente,
introduziu muitos erros no mbito da cincia classificatria. Com efeito, vrios
autores incautos pensaram poder inferir um parentesco lingustico a partir de
uma simples constatao de traos culturais, quando esses fatos geralmente se
devem a fenmenos de emprstimo, contato ou convergncia.

      A cincia onomstica
   Onomstica  a cincia dos nomes de lugares (topnimos), de pessoas
(antropnimos) ou de cursos de gua (hidrnimos).

39    GUTHRIE, M. 1969.
Histria e lingustica                                                         265



   A onomstica est intimamente relacionada ao lxico das lnguas. As
comunidades tnicas que se tm mantido relativamente homogneas por um
perodo de tempo, assim como os grupos etnolingusticos mais heterogneos mas
que falam um idioma comum, criam seus nomes principalmente em referncia
s realidades de suas lnguas. Eles povoam o universo territorial e geogrfico
que lhes serviu ou serve de habitat com nomes que constroem nas mesmas
perspectivas. Assim, seguindo a pista dos nomes de pessoas, identificam-se ao
mesmo tempo os elementos tnicos que constituem uma comunidade. Em geral,
os Seereer so chamados Jonn, Juuf, Seen, etc.; os Peul, Sow, Jallo, Ba, Ka, etc.;
os Mandinga, Keita, Tour, Jara, etc. Os Berberes e os Bantu tm famlias de
nomes que lhes so prprios.
   A antroponmia desempenha um papel importante no estudo da histria
das etnias e das comunidades polticas ou culturais. O estudo dos nomes em
uso entre os Tuculero do Senegal mostra, por exemplo, que estamos diante de
uma comunidade etnolingustica bastante heterognea. Entretanto, do ponto
de vista cultural, esse grupo de fala fulfulde que se fixou no Senegal, ao longo
do rio, na fronteira entre o Mali e a Mauritnia,  muito homogneo. Da um
sentimento "nacional" bem desenvolvido. De fato, a comunidade forjou-se a
partir de elementos peul (cuja lngua se imps), mandinga, seereer, lebu-wolof
e berberes.
   A toponmia e a hidronmia constituem tambm cincias indispensveis ao
estudo das migraes dos povos. A partir dos nomes de cidades desaparecidas ou
que ainda existem, podem-se elaborar mapas precisos mostrando os movimentos
dos Mandinga, cujas cidades tm nomes que foram compostos a partir de Dugu.
Da mesma maneira, pode-se estabelecer o mapa toponmico dos habitat antigos
ou atuais dos Peul, que usam o termo Saare para nomear seus povoados, dos
Wolof, que usam o termo Kr, dos rabe-berberes, que utilizam o termo Daaru,
dos Haussa, e assim por diante.

    Antropologia semntica
   A antropologia semntica ou etnolingustica constitui uma nova abordagem
que tenta revelar a cultura do homem atravs de sua lngua. Baseia-se numa
anlise global do conjunto de dados fornecidos pela lngua de uma etnia ou
de uma comunidade heterognea que tem um falar comum, para evidenciar ao
mesmo tempo sua cultura, seu pensamento e sua histria.
   O mtodo vai alm da mera coleta de tradies e literaturas escritas ou orais.
Implica o recurso a uma reconstruo da totalidade das ideias que uma lngua
266                                                                        Metodologia e pr-histria da frica



traz consigo e que no depende necessariamente de uma obra ou de um discurso
sistemtico. Nesse plano, a pesquisa opera nos nveis infra e supralingustico.
Decifra, a partir do vocabulrio e da diviso do pensamento, os processos de
formalizao, conceptualizao e estruturao de uma lngua, as diferentes
formas de conhecimento dentro das quais se cristalizam a viso de mundo e
a histria prpria  comunidade que pratica um certo falar. A etnolingustica
acaba por revelar sistemas: concepo metafsica, tica, ontologia, esttica, lgica,
religio, tcnicas, etc.
    Assim, a literatura escrita ou oral sobre o passado dos Haussa, com seus
documentos religiosos, fbulas e prticas jurdicas, mdicas, metalrgicas e
educacionais, fornece indicaes no apenas sobre a evoluo do contedo do
pensamento dos Haussa mas tambm sobre sua histria e sua cultura.
    Nas civilizaes predominantemente orais, em que os textos de referncia
so raros, a interpretao diacrnica baseada na comparao de textos de pocas
diferentes praticamente no existe. A lingustica torna-se, ento, um meio
privilegiado de redescobrir o patrimnio intelectual, uma escala para retroceder
no tempo.
    As culturas de expresso oral localizadas pela antropologia semntica
apresentam no apenas obras a serem coletadas e registradas, mas tambm
autores e as respectivas reas de especializao. Toda cultura africana oral
ou escrita  deixou, como a dos Wolof, seu filsofo, como Ndaamal Gosaas,
seu politiclogo, como Saa Basi ou Koco Barma, seu mestre da palavra e da
eloquncia, seu mestre da epopeia ou do conto, como Ibn Mbeng40, mas tambm
seus inventores de tcnicas em matria de farmacopeia, medicina, agricultura
ou astronomia41. Esses trabalhos e seus autores constituem excelentes fontes de
anlise do dinamismo evolutivo da cultura numa sociedade sob suas diversas
formas.
    A ontologia bantu pode ser decifrada e at mesmo interpretada e
sistematizada por referncia aos vocbulos bantu sobre o estar no mundo, a
partir do trabalho de elaborao e conceptualizao que, atravs das palavras
e enunciados do bantu, d forma s concepes que essa lngua tem acerca de
tais fenmenos.


40    Todos clebres personagens histricos da cultura wolof.
41    As obras de S. JOHNSTON sobre os Ioruba, de TEMPELS sobre os Bantu, de M. GRIAULE
      sobre os Dogon, de TRAORE sobre medicina africana, de M. GUTHRIE sobre a metalurgia, etc.,
      constituem, com os "clssicos literrios registrados" importantes contribuies  antropologia semntica.
      Cf. DIAGNE, P. 1972.
Histria e lingustica                                                        267



   Como a lngua  o lugar de cristalizao de todos os instrumentos mentais ou
materiais construdos pelas geraes sucessivas, pode-se dizer que a experincia
histrica de um povo est depositada em camadas consecutivas no prprio
tecido da lngua.

     Suporte do documento e do pensamento histrico
   A importncia da tradio oral na histria da frica  hoje aceita por todos.
Chega-se mesmo a solicitar a presena de griots tradicionalistas nos congressos.
H sugestes para que lhes sejam criadas cadeiras nas universidades e mesmo
para que eles se incumbam da pesquisa e do ensino de histria.
   De modo geral, a primazia da fala sobre a escrita  ainda hoje uma realidade
em culturas tradicionais com predominncia rural, tanto na frica como em
outros lugares.
   A oralidade como meio de elaborar e fixar os produtos do pensamento
tem suas prprias tcnicas. Embora as formas de pensamento escritas ou orais
abranjam a mesma rea, os meios e os mtodos de sua concepo e transmisso
nem sempre so os mesmos42.
   Devemos notar simplesmente que o pensamento escrito, ou seja, a literatura
no sentido etimolgico, ao se fixar tende, com mais facilidade, a cristalizar-se
sob uma forma permanente. Desse modo, rompe com uma tradio verbal que
oferece um campo mais vasto  inveno e  criao de mitos. No nvel da
linguagem, a palavra falada tem tambm um potencial maior de dialetizao
porque h menos controle de seu desenvolvimento. Uma lngua de expresso
predominantemente oral permanece mais popular, mais sensvel s distores
impostas pela prtica no plano de sua estrutura, dos sons que utiliza e at mesmo
das formas que toma de emprstimo.
   Uma lngua literria, ao contrrio,  mais trabalhada no sentido da
unificao. Alis, apresenta maior dimenso visual e integra, como elementos
expressivos, dados grficos que lhe conferem certa especificidade: ortografia
em ruptura com a fonologia, pontuao, etc. J a linguagem oral utiliza mais
o elemento sonoro. Transmite significao atravs da cadncia, dos ritmos, das
assonncias ou dissonncias, das evidncias do discurso. A importncia do papel
desempenhado pela memria, para suprir a ausncia de um suporte grfico,
tambm afeta o carter da oralidade em suas formas de expresso. Chega mesmo
a ser imprescindvel, com as tcnicas de memorizao, uma cincia especfica


42   Cf. DIAGNE, P. 1972.
268                                                                        Metodologia e pr-histria da frica



para a reteno de textos. Assim, o documento escrito e a tradio oral passam
a ser complementares, conjugando suas respectivas qualidades43. Alm disso, os
relatos orais, uma vez transcritos, tornam-se textos literrios44.

      Tradio grfica  as escritas africanas
    A inveno da escrita atende a necessidades cuja natureza e origem, conforme
os contextos, nem sempre se soube evidenciar. A escrita, instrumento do
comrcio e da administrao, sustenta normalmente as civilizaes urbanas;
mas as motivaes iniciais podem variar notavelmente. Na frica, tanto na
poca dos faras como durante o reinado dos soberanos do Daom ou dos
Mansa Mandinga, o uso da escrita atendeu principalmente a necessidades de
ordem no material. A escrita egpcia, a dos baixos-relevos daomeanos e ainda
os ideogramas bambara ou dogon tiveram, em seu contexto original, uma dupla
funo: primeiramente, materializar o pensamento e, atravs disso, realizar uma
ao de carter religioso ou sagrado. A escrita egpcia, inventada segundo a
lenda pelo deus Thot, ficou por muito tempo confinada sobretudo nos templos,
nas mos dos sacerdotes; encerrava segredos e servia como instrumento de ao
para um pensamento percebido como substncia agente e materializvel em
forma de verbo ou de grafia. A segunda grande funo atribuda  escrita nas
civilizaes africanas coincide com a necessidade de perpetuao histrica. A
escrita egpcia, como a dos palcios de Abomey,  uma glorificao de soberanos
e de povos preocupados em deixar atrs de si a lembrana de seus grandes feitos.
Os Bambara ou os Dogon, ao inscreverem seus signos ideogrficos nas muralhas
de Bandiagara, visam ao mesmo objetivo.
    Entre a Rcade do rei Gll, machado de cerimnia que traz em si uma
mensagem, e a Palette de Narmer, h mais do que simples afinidades. No apenas
o esprito  o mesmo, mas tambm os princpios e as tcnicas de escrita45.
    A escrita egpcia  atribuda ao deus Thot, que tambm  o inventor da magia
e das cincias, a exemplo do deus com cabea de chacal dos Dogon, ele prprio
depositrio do verbo, do conhecimento e da fala eficaz.


43    Cf. DIAGNE, P. Op. cit.
44    Cf. as numerosas publicaes a esse respeito: trabalhos de A. HAMPAT B, A. Ibrahim SOW,
      MUFUTA, E. de DAMPIERRE, K. MOEENE, F. LACROIX, M. GRIAULE, G. DIETERLEN,
      WHITLEY, E. NORRIS, L. KESTELOOT, D. T. NIANE, M. DIABATE, J. MBITI, etc. Estes
      autores publicaram obras clssicas sobre o assunto nas colees de Oxford, Julliard, Gallimard, no Centro
      de Niamey, etc.
45    GLL. M. 1974.
Histria e lingustica                                                         269



   Os raros especialistas que se debruaram, frequentemente com notvel
mincia, sobre os sistemas de escrita originrios da frica, em geral no se
interessaram pelo vnculo aparentemente bvio e tecnicamente demonstrvel
entre os hierglifos e as escritas mais conhecidas na frica negra. O hierglifo
egpcio permaneceu fundamentalmente pictogrfico em sua funo original
de instrumento dos templos e, como seu homlogo daomeano, faz referncia
 imagem tanto quanto possvel. Trata-se de uma escrita voluntariamente
realista, preocupada em materializar os seres, os objetos e as ideias, o que faz da
maneira mais concreta e substancial, em parte para restituir-lhes ou conservar
suas qualidades naturais.
   No  por acaso que a deformao da escrita pictogrfica pelo uso do cursivo,
que altera e desfigura os elementos representados, s  permitida fora dos
templos. A escrita hiertica, usada sobretudo com finalidades laicas (ao contrrio
do que sugere a etimologia grega da palavra), e o demtico "popular", ainda mais
simplificado em seu traado, so as grafias no-sagradas e utilitrias. No esprito
do sacerdote egpcio, o hierglifo encerra "um poder mgico de evocao", como
to bem demonstra M. Cohen. Em sua opinio, isso explica o fato de "que
as representaes de seres nefastos so evitadas ou mutiladas". Aqui, estamos
diante de uma concepo ontolgica que se enraza e mergulha profundamente
na tradio negro-africana. Por milhares de anos, essa tradio no foi capaz de
dessacralizar  como o fizeram os indo-europeus, particularmente os gregos  o
pensamento e seus suportes orais e grficos. Os Bambara, os Ioruba, os Nsibidi
e os sacerdotes dogon tm uma viso idntica dos sistemas grficos que utilizam
em seus templos ou em suas sesses de adivinhao.
   A unidade das grafias inventadas na frica no reside apenas nos pressupostos
ideolgicos que conferem a esses sistemas suas funes e sua natureza, mas
tambm na prpria tcnica de transcrio. Encontra-se, na histria das
escritas africanas, uma referncia constante a trs tcnicas de fixao grfica
do pensamento: o recurso  imagem do ser ou do objeto, copiada atravs de
pictogramas; o recurso ao smbolo para representar uma realidade atravs de
ideogramas, que so signos sem relao imediata de semelhana fsica com a
noo que simbolizam; finalmente, o uso do fonograma para representar todos
os homfonos, ou seja, todas as realidades designadas pelo mesmo som ou grupo
de sons;  o princpio da escrita pictofonogrfica.
   A comparao entre a Palette de Narmer e as Rcades de Gll ou de
Dakodonu  reveladora. Elas transcrevem o discurso segundo os mesmos
princpios. Na Palette de Narmer, temos a imagem de um rei. Ele segura pelos
cabelos um inimigo vencido e o golpeia, enquanto o exrcito derrotado foge, sob
270                                                     Metodologia e pr-histria da frica



os ps do gigantesco fara. Os pictogramas so claros e eloquentes. Os outros
signos so ideogramas. Distingue-se um "ta" oval simbolizando a terra. Em
cima, h um grupo de signos e um quadrado para emoldurar o nome do fara,
Horus. Um peixe e um pssaro formam o nome "fara". Essas duas imagens so
pictofonogramas.
    A Rcade de Gezo mostra o soberano do Daom sob a forma de um bfalo
(assim como o fara  simbolizado por um falco) que mostra os dentes,
significando o terror que semeia entre seus inimigos. Trata-se, neste caso, de
uma aproximao simblica. Mas h outros mais importantes.
    A Rcade do rei Dakodonu ou Dokodunu, mais antiga (1625-1650) e descrita
por Le Hriss, mostra com mais clareza ainda o princpio do "hierglifo"
daomeano. O texto da lmina do machado pode ser lido da seguinte maneira:
h um smbolo pictogrfico que representa um slex, "da", e embaixo o desenho
da terra, "ko", com um furo no meio, "donon". Esses signos so pictogramas,
utilizados aqui como pictofonogramas. Juntando-os, como no caso do nome
do fara na Palette de Narmer, pode-se ler o nome do rei daomeano, Dakodonu.
A escrita daomeana assemelha-se aos hierglifos faranicos em seus prprios
princpios e em seu esprito, revelando as trs tcnicas usadas pela grafia egpcia:
a imagem pictogrfica, o smbolo ideogrfico e o signo pictofonogrfico46.
    Num notvel artigo de sntese o sovitico Dmitri A. Olderogge aponta,
como j o tinha feito Cheikh Anta Diop, o fato de que o sistema hieroglfico
sobreviveu na frica negra at uma poca tardia.
    Em sua Description Historique des Trois Royaumes du Congo, du Matamba et
de l'Angola, publicada em 1687, Gavassi de Motocculuo afirma que a escrita
hieroglfica era utilizada nessas regies.
    Em 1896 foi descoberta uma inscrio hieroglfica nos rochedos de Tete,
em Moambique, ao longo do rio Zambeze, cujo texto foi publicado na poca.
Cheikh Anta Diop nota, em outro trabalho, o uso de uma grafia pictogrfica
tardia no Baol, onde recentemente foram descobertos traados hieroglficos em
baobs muito antigos. Os Vai da Libria utilizaram, durante muito tempo, uma
escrita pictogrfica em tiras de casca de rvores.
    A escrita merotica, que nasceu na periferia meridional do Egito antigo,
d continuao  escrita faranica, na qual se inspirava, a menos que a tenha
originado ou que partilhe com ela a mesma origem.




46    Ver captulo 4.
Histria e lingustica                                           271




figura 10.1     Estela do rei serpente (Foto Museu do Louvre).
272                                      Metodologia e pr-histria da frica




Figura 10.2 Rcade representando uma
cabaa, smbolo de poder (Foto Nubia).
Figura 10.3 Rcade       dedicada    a
Dakodonu (Foto Nubia).
Figura 10.4 Leo semeando o terror
(Foto M. A. Gll, Nubia) .
Histria e lingustica                                                                     273



          Pictogramas egpcios                              Pictogramas nsibidi34
 (por volta de 4000 antes da Era Crist)
                                                              DAYRELL107, homem cor-
  A27                    homem correndo com um
                                                              rendo com um brao estendido.
                         brao estendido; inw = men-
                         sageiro.                             MACGREGOR (p. 212),
                                                              um mensageiro.
  F32                    ventre de mamfero; h.t. = ven-
                                                              DAYRELL127, smbolo que
                         tre, corpo.
  I1                                                          contm um peixe.
  I14                    lagarto; s 3 = numeroso, rico.       TALBOT51, lagarto.
                         verme ou serpente (h f w);           MACGREGOR (p. 212),
  N3                     verme (d d f t).                     serpente.
  N11                    sol brilhando; wbn: aparecer.        DAYRELL 104 , serpente
                                                              muito longa; uruk  ikot, cobra
                         lua crescente; i h = lua             em Efik e shaw, em Uyanga.
                                                              TALBOT35, sol brilhando:
   * Quanto aos signos nsibidi, cf. principalmente: J. K.     utinn, sol em Efik e duawng,
     MACGREGOR. Op. cit. p. 215, 217 e 219: os sig-
     nos so numerados de 1 a 98; E. DAYRELL. Op.             em Uyanga.
     cit., pranchas LXVLXVII: ao todo, 363 signos; P.        TALBOT34, lua crescente;
     A. TALBOT. Op. cit. Apndice G: "Nsibidi signs", p.      ebi = lua, em Uyanga.
     448-61: 77 signos e 8 textos.

Figura 10.5 Pictogramas egpcios e nsibidi (extrado
de L'Afrique dans l'Antiquit: a nota 34 remete a J.
K. MACGREGOR, 1909; E. DAYRELL, 1911;
TALBOT, 1923).
Figura 10.6 Palette de Narmer (extrado de C. A.
DIOP, 1955).
274                                                                   Metodologia e pr-histria da frica




      As escritas bagam e guro (nenhum registro disponvel), a escrita "sagrada"
       ioruba e a escrita gola (ambas indecifradas) so excludas deste quadro.

Figura 10.7   Amostras de vrias escritas africanas antigas (extrado de D. DALBY. 1970, p. 110-11).
Histria e lingustica                                                                                  275




Figura 10.8 Primeira pgina do principal captulo do Alcoro em vai (extrado de L'Afrique dans l'Antiquit,
OBENGA, T. Prsence Africaine. 1973).
276                                                                       Metodologia e pr-histria da frica




Figura 10.9 Sistema grfico vai (extrado de L'Afrique dans l'Antiquit, OBENGA, T. Prsence Africaine, 1973).
Histria e lingustica   277
278                                                       Metodologia e pr-histria da frica




                                                   Signo                 Signo
      Palavra Mum              Significao     coletado em           coletado em
                                               1900 (Clapot)        1907 (Ghring)

           P                  Noz de cola


         Fom                            rei


         Ntab                           casa


         Nyad                           boi


Figura 10.10 Sistema grfico mum
(extrado de L'Afrique dans l 'Antiquit,          = pwen ou pourin, as pessoas.
OBENGA, T. Prsence Africaine. 1973).
                                                   = ngou ou ngwm, pas.
Figura 10.11    Sistema pictogrfico.
Figura 10.12 Sistema ideogrfico e                 = ndya, hoje.
fontico-silbico
                                                   = nsy, a terra.
                                                   = you  yo, comida.
                                                   = po, ns.
                                                   = n, e.
                                                   = gbt, fazer.
                                                   = m, mim.
                                                   = fa, dar.
                                                   = pwam ou mbwm, admirar.


                                                   = slaba ba, de iba, que significa:
                                                     dois.
                                                   = ben, de ben: dana (tipo de ).
                                                   = b, de byt: circuncidar, ou de
                                                     by: segurar.
                                                   = cha, de ncha: peixe.
Histria e lingustica                                                                               279



    Os sistemas de escrita ideogrfica, contudo, parecem ter resistido melhor que
os hierglifos em solo negro-africano ocidental. Na prtica, a grande maioria
dos povos negros da frica est familiarizada com o ideograma, seja atravs das
tcnicas divinatrias, seja pelo uso que delas fizeram os sacerdotes do culto, os
gravadores de obras de arte, etc.
    A geomancia dos Gurmanche  muito elaborada. O tambipwalo (geomante)
desenha signos na areia e os interpreta. Depois administra uma espcie de
"receita", que consiste em signos gravados a faca num pedao de cabaa. Esses
signos abstratos designam os altares, os lugares aos quais  preciso ir para realizar
os sacrifcios, o tipo de animal que deve ser imolado, quantas vezes, e assim por
diante. Trata-se, de fato, de uma "escrita codificada".
    A adivinhao atravs dos signos do Fa tambm apresenta uma riqueza
admirvel. O adivinho joga nozes de palma de uma mo para outra oito vezes
e, de acordo com o nmero de nozes que ficam em sua mo esquerda a cada
vez, faz uma inscrio no solo ou numa bandeja polvilhada com areia. So assim
formados os quadros (h 256 possveis), dos quais os 16 mais importantes so
os du, que constituem os "fios" ou as palavras dos deuses governados por Fa, o
destino. Todos devem cultuar o seu du mas, ao mesmo tempo, ter em conta os de
seus parentes e ancestrais, os de sua regio, e assim por diante. Como existe uma
quantidade enorme de arranjos, os du so combinados num tipo de estratgia
mitolgica que  tambm uma tcnica grafolgica. Pratica-se a adivinhao do
Fa em toda a costa do Benin.
    A coleta dos sistemas ideogrficos47 foi abundante, principalmente nos pases
de savana que mantiveram suas tradies e no foram muito afetados pela
islamizao. No  por acaso que isso ocorre. Os especialistas, dentre os quais F.
W. Migeod foi um dos primeiros a revelarem alguns desses sistemas. A escrita
ideogrfica dogon foi apresentada por M. Griaule e G. Dieterlen, responsveis
pela anlise do sistema bambara e por uma boa sntese das grafias da regio.
A ideografia nsibidi, usada entre os Ibo do sul da Nigria, foi descoberta pelos
europeus no fim do sculo passado. Baseia-se em princpios de transcrio
largamente difundidos em toda a costa da Guin.
    As escritas fonticas48 sistematizam o uso de fonogramas representando
sons simples ou complexos atravs de signos regulares; em nossa opinio, o


47   Cf. BOUAH, Niangoran. "Recherches sur les poids  peser l'or chez les Akan". Tese de doutoramento
     PhD defendida em 1972.
48   D. A. DALBY prope, a esse respeito, uma atualizao interessante em Language and History in Africa,
     Londres, 1970.
280                                                                   Metodologia e pr-histria da frica



aparecimento de tais escritas na frica resulta de uma evoluo tardia. Os
hierglifos do antigo Egito, como os do Daom, representam muitos sons
atravs de signos. Mas os sistemas puramente fonticos baseados na palavra, na
slaba ou no fonema simples  transcrio alfabtica  marcam uma nova etapa 49.
    A escrita berbere, usada entre os Tuaregue do Saara e conhecida tambm
pelo nome de tifinar, poderia ter-se desenvolvido sob influncia pnica, pelo
contato com Cartago.
    O sistema de escrita nbio formou-se no sculo X, atravs do contato com
a grafia copta que, por sua vez, nasceu sob a influncia grega. A grafia etope
de Tigrina e de Amhara  derivada da escrita sabeana da Arbia meridional.
    As escritas silbicas e alfabticas da frica ocidental, muito difundidas desde
o fim do sculo XVIlI nas costas da Guin e nas regies sudanesas, podem
ter nascido de uma evoluo interna ou ter tomado sua forma definitiva sob
a influncia mais ou menos distante de uma contribuio externa, de origem
rabe ou europeia50.
    A escrita vai, divulgada na Europa em 1834 graas aos trabalhos do
americano Eric Bates, e aos de Koelle em 1849, desenvolveu-se numa rea onde
foram descobertos traados do sistema hieroglfico. Momolu Masakwa, cnsul
da Libria na Inglaterra no sculo XIX, descreveu os princpios do sistema
hieroglfico usado naquela poca em sua regio51.
    De acordo com os informes de Momolu, para expressar a vitria sobre o
inimigo os Vai desenham, numa casca de rvore que lhes serve de papiro, a silhueta
de um homem correndo com as mos na cabea. Ao lado da imagem do fugitivo
junta-se um ponto, para indicar que se trata de um grande nmero de fugitivos,
de um exrcito derrotado. Nessa utilizao do ponto para denotar o plural, em
lugar dos traos empregados no antigo vale do Nilo, encontramos elementos
da escrita faranica. Assim, os Vai conseguiram alterar seu antigo sistema no
sentido de uma transcrio fontica. Hoje existem modelos anlogos  escrita vai
entre muitos povos da Africa ocidental: Malinke, Mande, Basa, Guerze, Kpele,
Toma, etc. Os Wolof e os Seereer tambm adotaram, recentemente, uma grafia
inspirada nesses princpios.



49    HAU, E. 1959.
50    As grafias sudanesas associam pictogramas (imagens realistas) a ideogramas (signos e significaes
      simblicas). Cf. GRIAULE, M. e DIETERLEN, G. A combinao desses signos permite a transcrio
      e a fixao de um discurso decifrvel pelo iniciado na escrita e no saber que ela contm.
51    Cf. o excelente artigo de sntese de D. OLDEROGGE, "Ecritures mconnues de l'Afrique noire". In:
      Courrier de l'Unesco, maro de 1966.
Histria e lingustica                                                         281



   Ao contrrio do que em geral se acredita, a existncia da escrita  um elemento
permanente na histria e no pensamento africanos, da Palette de Narmer 
Rcade de Gll. A abundncia de sistemas grficos e de evidncias de seu uso
comprova esse fato.
   Por diversas razes, as escritas africanas ps-faranicas seguiram um
curso normal de evoluo. Esse curso simplesmente se adaptou ao contexto
e s exigncias da histria de uma sociedade e de uma economia rurais de
autossuficincia. Os membros dessa sociedade no foram impelidos a consolidar,
em sua poca, suas conquistas materiais ou intelectuais, j que estas no estavam
permanentemente ameaadas. Um bom equilbrio ecolgico, uma proporo
adequada entre recursos e populao assegurou, durante muito tempo,  maior
parte das civilizaes africanas e a seus fatos culturais, o poder de ampliar-
-se e retrair-se formalmente no espao, conservando apenas o essencial: seus
princpios. No plano do equilbrio interno, o risco no era muito grande. Mas
em face do exterior e do acmulo do progresso, essa fragilidade era prejudicial.


    Concluso
   A lingustica  indispensvel  elaborao de uma cincia histrica africana.
Contudo, s chegar a desempenhar tal papel se for empreendido um grande
esforo em sua rea de pesquisa. At agora, sua contribuio foi pequena e,
muitas vezes, bastante insegura no plano cientfico. Pesquisas ainda esto em
andamento. Os mtodos ganharam maior preciso e o campo de investigao
ampliou-se notavelmente. Nesse contexto, podemos esperar que a anlise
das lnguas africanas contribua, num futuro prximo, para elucidar aspectos
importantes da histria do continente.
Teorias relativas s "raas" e histria da frica                                         283



                                           CAPTULO 10


                             PARTE II
                     Teorias relativas s "raas" e
                         histria da frica
                                                    J. KiZerbo




   O conceito de raa  um dos mais difceis de definir cientificamente. Se
admitirmos, como a maioria dos especialistas posteriores a Darwin, que a
espcie humana pertence a um nico tronco1, a teoria das "raas" s pode ser
desenvolvida cientificamente dentro do contexto do evolucionismo.
   Com efeito, a raciao se inscreve no processo geral da evoluo
diversificadora. Como observa J. Ruffie, ela requer duas condies: em primeiro
lugar, o isolamento sexual, frequentemente relativo, que provoca pouco a pouco
uma paisagem gentica e morfolgica singular. A raciao, portanto, baseia-se
num estoque gnico diferente, causado quer por oscilao gentica (o acaso na
transmisso dos genes faz com que um deles se transmita com mais frequncia
que outro, ou, ao contrrio, que seu alelo seja o mais largamente difundido),
quer por seleo natural. Esta conduz a uma diversificao adaptativa, graas 
qual um grupo tende a conservar o equipamento gentico que o adapte melhor
a um certo meio. Na frica, ambos os processos devem ter ocorrido. De fato, a
oscilao gentica, que se exprime ao mximo em pequenos grupos, operou em
etnias restritas, submetidas a um processo social de cissiparidade por ocasio
das disputas de sucesso ou de terras e em virtude das grandes reas virgens
disponveis. Esse processo marcou particularmente o patrimnio gentico das

1    Quanto s teorias policntricas e suas variantes, ver os trabalhos de G. WEIDENREICH, COON e as
     refutaes de ROBERTS.
284                                                   Metodologia e pr-histria da frica



etnias endgamas ou florestais. Quanto  seleo natural, ela teve a oportunidade
de entrar em jogo em ecologias to contrastantes como as do deserto e da floresta
densa, dos altos planaltos e das costas recobertas de mangues. Em resumo, do
ponto de vista biolgico, os homens de uma "raa" tm em comum alguns fatores
genticos que num outro grupo "racial" so substitudos por seus alelos; entre os
mestios, coexistem os dois tipos de genes.
   Como era de esperar, a identificao das "raas" se fez em primeiro lugar a
partir de critrios aparentes, para em seguida ir considerando, pouco a pouco,
realidades mais profundas. Alis, as caractersticas exteriores e os fenmenos
internos no esto absolutamente separados. Se certos genes comandam os
mecanismos hereditrios que determinam cor da pele, por exemplo, esta
tambm est ligada ao meio ambiente. Observou-se uma correlao positiva
entre estatura e temperatura mais elevada do ms mais quente e uma correlao
negativa entre estatura e umidade. Da mesma forma, um nariz fino aquece
melhor o ar num clima mais frio e umidifica o ar seco inspirado.  assim que o
ndice nasal aumenta consideravelmente nas populaes subsaarianas, do deserto
para a floresta, passando pela savana. Embora possuindo o mesmo nmero de
glndulas sudorparas que os brancos os negros transpiram mais, o que mantm
seu corpo e sua pele numa temperatura menos elevada.
   Existem, portanto, diversas etapas na investigao cientfica no que diz
respeito s raas.


      A abordagem morfolgica
   Eickstedt, por exemplo, define as raas como "agrupamentos zoolgicos
naturais de formas pertencentes ao gnero dos homindeos, cujos membros
apresentam o mesmo conjunto tpico de caracteres normais e hereditrios no
nvel morfolgico e no nvel comportamental".
   Desde a cor da pele e a forma dos cabelos ou do sistema piloso, at os
caracteres mtricos e no mtricos, a curvatura femural anterior e as coroas e
os sulcos dos molares, foi construdo um verdadeiro arsenal de observaes e
mensuraes. Deu-se ateno especial ao ndice ceflico, por estar relacionado
 parte da cabea que abriga o crebro.  assim que Dixon estabelece os
diversos tipos em funo de trs ndices combinados de vrios modos: o ndice
ceflico horizontal, o ndice ceflico vertical e o ndice nasal. Contudo, das 27
combinaes possveis, apenas oito (as mais frequentes) foram aceitas como
representativas dos tipos fundamentais, tendo sido as 19 restantes consideradas
Teorias relativas s "raas" e histria da frica                             285



misturas. No entanto, as caractersticas morfolgicas so apenas um reflexo
mais ou menos deformado do estoque gnico; sua conjugao num prottipo
ideal raramente se realiza com perfeio. De fato, trata-se de detalhes evidentes
situados na fronteira homem/meio ambiente, mas que, justamente por isso, so
muito menos inatos que adquiridos.
    Reside a uma das maiores fraquezas da abordagem morfolgica e tipolgica,
na qual as excees acabam por ser mais importantes e mais numerosas que a
regra. Alm disso, no se devem negligenciar as querelas acadmicas sobre as
modalidades de mensurao (como, quando, etc.), que impedem as comparaes
teis. As estatsticas de distncia multivariada e os coeficientes de semelhanas
raciais, as estatsticas de "formato" e de "forma", a distncia generalizada de
Nahala Nobis requerem tratamento por computador. Ora, as raas so entidades
biolgicas reais que devem ser examinadas como um todo e no parte por parte.


     A abordagem demogrfica ou populacional
   Este mtodo vai insistir, de imediato, sobre fatos grupais (reservatrio gnico
ou genoma), mais estveis que a estrutura gentica conjuntural dos indivduos.
De fato, na identificao de uma raa,  mais importante a frequncia das
caractersticas que ela apresenta do que as prprias caractersticas. Como o
mtodo morfolgico est praticamente abandonado2, os elementos serolgicos
ou genticos podem ser submetidos a regras de classificao mais objetivas.
Para Landman, uma raa  "um grupo de seres humanos que (com raras
excees) apresentam entre si mais semelhanas genotpicas e frequentemente
tambm fenotpicas do que com os membros de outros grupos". Alekseiev
desenvolve tambm uma concepo demogrfica das raas com denominaes
puramente geogrficas (norte-europeus, sul-africanos, etc.). Schwidejzky e Boyd
acentuaram a sistemtica gentica: distribuio dos grupos sanguneos A, B e
O, combinaes do fator Rh, gene da secreo salivar, etc.
   O hemotipologista tambm leva em conta a anatomia, mas no nvel da
molcula. No que diz respeito  micromorfologia, descreve as clulas humanas
cuja estrutura imunolgica e cujo equipamento enzimtico so diferenciados,
sendo o tecido sanguneo o material mais prtico para isso. Os marcadores
sanguneos representam um salto histrico qualitativo na identificao cientfica
dos grupos humanos. Suas vantagens em relao aos critrios morfolgicos

2    Cf. WIERCINSKY, 1965.
286                                                   Metodologia e pr-histria da frica



so decisivas. Primeiramente, eles so quase sempre monomtricos, isto , sua
presena depende de um s gene, enquanto o ndice ceflico, por exemplo,  o
produto de um complexo de fatores dificilmente localizveis3.
    Alm disso, enquanto os critrios morfolgicos so traduzidos em nmeros
utilizados para classificaes com fronteiras arbitrrias ou mal definidas, como
por exemplo entre o braquicfalo tpico e o dolicocfalo tpico, os marcadores
sanguneos obedecem  lei do tudo ou nada. Uma pessoa  ou no do grupo
A, tem fator Rh+ ou Rh- e assim por diante. Alm disso, os fatores sanguneos
independem quase inteiramente da presso do meio. O hemtipo  fixado para
sempre, desde a formao do ovo. Eis por que os marcadores sanguneos escapam
ao subjetivismo da tipologia morfolgica. Aqui, o indivduo  identificado por
um conjunto de fatores gnicos, e a populao por uma srie de frequncias
gnicas. A grande preciso desses fatores compensa seu carter parcial em
relao  massa dos genes no conjunto de um genoma. Isso tornou possvel
elaborar um atlas das "raas" tradicionais.
    Trs categorias de fatores sanguneos foram estabelecidas. Algumas, como
o sistema ABO, so encontradas em todas as "raas" tradicionais sem exceo.
Certamente elas preexistiam  hominizao. Outros fatores como os do sistema
Rh so onipresentes, mas com certa predominncia racial. Assim, o cromossomo
r existe principalmente entre os brancos. O cromossomo Ro, conhecido como
"cromossomo africano", tem uma frequncia particularmente alta entre os negros
ao sul do Saara. Trata-se, certamente, de sistemas que datam do momento
em que a humanidade comeava a se propagar em nichos ecolgicos variados.
Outra categoria de sistemas denota uma repartio racial mais marcada, como
os fatores Sutter e Henshaw, encontrados quase que unicamente entre os negros,
e o fator Kell, presente sobretudo entre os brancos. Embora eles nunca sejam
exclusivos, foram qualificados de "marcadores raciais". Enfim, alguns fatores so
geograficamente muito circunscritos como, por exemplo, a hemoglobina C para
as populaes do planalto voltense.
    Embora os fatores sanguneos sejam desprovidos de valor adaptativo, no
escapam inteiramente  ao do meio infeccioso ou parasitrio; este pode exercer
sobre eles uma triagem com valor seletivo, levando, por exemplo,  presena
de hemoglobinas caractersticas. Isso ocorre com relao s hemoglobinoses S,
ligadas  existncia de clulas falciformes ou drepancitos entre as hemcias.
Elas foram detectadas no sangue dos negros da frica e da sia. Perigosa


3     Cf. RUFFIE, J. (?)
Teorias relativas s "raas" e histria da frica                                                      287



apenas no caso dos homozigotos, a hemoglobina S (Hb S)  um elemento de
adaptao  presena de Plasmodium falciparum, responsvel pelo paludismo. O
estudo dos hemtipos em grandes reas permite o traado de curvas isognicas
que mostram a distribuio geogrfica dos fatores sanguneos por todo o mundo.
Associado ao clculo das distncias genticas, ele d uma ideia de como as
populaes se situam umas em relao s outras, enquanto o sentido dos fluxos
gnicos permite reconstituir o processo prvio de sua evoluo.
    Apesar de seus desempenhos excepcionais, contudo, o mtodo hemotipolgico
e populacional encontra dificuldades. Primeiramente, porque seus parmetros
se multiplicam enormemente e j esto apresentando resultados estranhos a
ponto de serem encarados por alguns como aberrantes.  assim que a rvore
filognica das populaes elaborada por L. L. Cavalli-Sforza difere da rvore
antropomtrica. Esta coloca os Pigmeus e os San da frica no mesmo ramo
antropomtrico que os negros da Nova Guin e da Austrlia; na rvore
filognica, esses mesmos Pigmeus e San aproximam-se mais dos franceses e
ingleses e os negros australianos dos japoneses e chineses4. Em outras palavras,
os caracteres antropomtricos so mais afetados pelo clima que os genes, de
modo que as afinidades morfolgicas so mais uma questo de meios similares
que de hereditariedades similares. Os trabalhos de R. C. Lewontin, com base nas
pesquisas dos hemotipologistas, mostram que, no mundo inteiro, mais de 85%
da variabilidade situa-se no interior das naes. Somente 7% da variabilidade
separa as naes que pertencem  mesma raa tradicional e tambm apenas 7%
separam as raas tradicionais. Em resumo, os indivduos do mesmo grupo "racial"
diferem mais uns dos outros que as "raas"...
     por isso que cada vez mais especialistas adotam a posio radical que
consiste em negar a existncia de qualquer raa. Segundo J. Ruffie, nas origens
da humanidade pequenos grupos de indivduos separados em zonas ecolgicas
diversificadas e afastadas, obedecendo a presses seletivas muito fortes  enquanto
os meios tcnicos eram extremamente limitados , puderam se diferenciar a
ponto de dar origem s variantes Homo erectus, Homo neanderthalensis e o mais
antigo Homo sapiens. O bloco facial, que  a parte do corpo mais exposta a
meios ambientes especficos, evoluiu diferentemente; a riqueza de pigmentos
melannicos na pele desenvolveu-se em zona tropical, etc. Mas essa tendncia

4    Citado por J. RUFFIE, 1977, p. 385. Da mesma forma, com base em certos caracteres genticos (o gene
     Fya no sistema de DUFFY, o alelo Ro, etc.), a porcentagem de mescla branca entre os negros americanos
     resultante da mestiagem que se vem operando nos Estados Unidos seria de 25 a 30%. Alguns cientistas
     concluram, a partir disso, que se trata de um novo grupo, precipitadamente batizado como "raa norte-
     -americana de cor".
288                                                                     Metodologia e pr-histria da frica



especializante, rapidamente bloqueada, permaneceu embrionria. Em toda parte,
o homem se adapta culturalmente (roupas, habitat, alimentos, etc.), e no mais
morfologicamente, a seu meio. O homem nascido nos trpicos (clima quente)
evoluiu por muito tempo como australopiteco, Homo habilis e at mesmo Homo
erectus.
      "Foi apenas durante a segunda glaciao que, graas ao controle eficaz do fogo, o Homo
      erectus optou por viver em climas frios. A espcie humana transforma-se de politpica
      em monotpica e esse processo de desraciao parece irreversvel. Hoje, a humanidade
      inteira deve ser considerada como um nico reservatrio de genes intercomunicantes."5
    Em 1952, Livingstone publicava seu famoso artigo "Da no existncia das
raas humanas". Diante da enorme complexidade e, portanto, da inconsistncia
dos critrios adotados para qualificar as raas, ele recomendava a renncia ao
sistema lineano de classificao, sugerindo uma "rvore genealgica". De fato,
nas zonas no isoladas, a frequncia de certos caracteres ou de certos genes
evolui progressivamente em vrias direes e as diferenas entre duas populaes
so proporcionais a seu distanciamento fsico, de acordo com uma espcie de
gradiente geogrfico (cline). Relacionando cada trao distintivo aos fatores de
seleo e adaptao que podem t-lo favorecido, notamos frequncias ligadas,
ao que parece, muito mais a fatores tecnolgicos, culturais e outros, que no
coincidem de maneira nenhuma com o mapa das "raas"6. Dependendo do critrio
adotado (cor da pele, ndice ceflico, ndice nasal, caractersticas genticas e
assim por diante), obtm-se mapas diferentes.  por isso que alguns especialistas
concluem, a partir da, que "toda teoria das raas  insuficiente e mtica". "Os
ltimos progressos da gentica humana so tais hoje em dia que nenhum bilogo
admite a existncia de raas na espcie humana"7. Biologicamente, a cor da pele 
um elemento negligencivel em relao ao conjunto do genoma. De acordo com
Bentley Glass, no h mais de seis pares de genes pelos quais a raa branca difere
da raa negra. Os brancos frequentem ente diferem entre si num grande nmero
de genes, o mesmo acontecendo com os negros.  por isso que a UNESCO,
depois de ter organizado uma conferncia de especialistas internacionais,
declarou: "A raa  menos um fenmeno biolgico do que um mito social".8



5     MAYR, E. citado por RUFFIE, J. p. 115.
6     Cf. MONTAGU. "Le Concept de Race".
7     RUFFIE, J. p. 116.
8     Quatro declaraes sobre a Questo Racial, UNESCO, Paris, 1969.
Teorias relativas s "raas" e histria da frica                                                       289



Isso  to verdadeiro que, na frica do Sul, um japons  considerado como
"branco honorrio" e um chins como "homem de cor".
    Para Hiernaux, a espcie humana parece uma rede de territrios genticos,
de genomas coletivos que constituem populaes mais ou menos semelhantes,
cuja distncia qualitativa  expressa por uma avaliao quantitativa (taxonomia
numrica). As fronteiras desses territrios, definidos a partir do cline, flutuam
com todas as mudanas que afetam os traos aparentes (fentipos) e os dados
serolgicos (gentipos) das coletividades.
    Dessa maneira, qualquer "raa", em conformidade com a brilhante intuio de
Darwin, seria em suma um processo em marcha, dependendo de algum modo da
dinmica dos fluidos; e os povos seriam todos mestios ou estariam em vias de
s-lo. De fato, cada encontro de povos pode ser analisado como uma migrao
gnica e esse fluxo gentico volta a questionar o capital biolgico de ambos.
    Porm, mesmo que essa abordagem fosse mais cientfica, mesmo que esses
territrios genticos mutveis fossem realmente aceitos pelas comunidades em
questo, poderamos dizer que os sentimentos de tipo "racial" seriam suprimidos,
uma vez que conservariam sua base material visvel e tangvel, sob a forma de
traos fenotpicos?
    Desde que os nazistas, a comear por Hitler, e em seguida outros
pseudopensadores afirmaram que o homem mediterrneo representa um nvel
intermedirio entre o ariano, "Prometeu da humanidade", e o negro, que 
"por sua origem um meio-macaco", o mito racial tem permanecido vivo. Os
morfologistas impenitentes continuam a alimentar esse fogo ignbil com alguns
galhos mortos9. Lineu, no sculo XVIII, dividia a espcie humana em seis raas:
americana, europeia, africana, asitica, selvagem e monstruosa. Com certeza, os
racistas se encontram numa ou noutra das duas ltimas categorias.
    De todas essas teses, hipteses e teorias, devemos conservar o carter dinmico
dos fenmenos "raciais", tendo em mente que se trata de um dinamismo lento
e espesso, que se exerce sobre uma enorme quantidade de registros, nos quais a
cor da pele (mesmo que ela seja medida por eletroespectrofotmetro) ou a forma
do nariz constituem apenas um aspecto quase irrisrio. Nessa dinmica, devem
ser levados em conta dois componentes que agem em conjunto: o patrimnio


9    J. RUFFIE cita um dicionrio francs de medicina e biologia que, em 1972, mantm o conceito de
     raa segundo o qual existem trs grupos principais (brancos, negros, amarelos), baseados em critrios
     morfolgicos, anatmicos, sociolgicos... e tambm psicolgicos... No incio do sculo, C. SEIGNOBOS,
     em sua Histoire de la Civilisation, escrevia: "Os homens que povoam a terra... tambm diferem em lngua,
     inteligncia e sentimentos. Essas diferenas permitem dividir os habitantes da terra em vrios grupos
     conhecidos como `raas'".
290                                                                           Metodologia e pr-histria da frica



gentico, que pode ser considerado um gigantesco banco de dados biolgicos em
ao, e o meio ambiente, em sentido amplo, pois comea j no meio fetal.
    As mudanas que resultam da interao desses dois fatores bsicos intervm
seja sob a forma incontrolvel da seleo e da migrao gnica (mestiagem),
seja sob a forma casual da oscilao gentica ou da mutao. Em resumo,  toda
a histria de uma populao que explica sua presente facies "racial", incluindo,
atravs da interpretao das representaes coletivas, as religies, os costumes
alimentares, de vesturio e outros.
    Nesse contexto, o que dizer da situao racial do continente africano? A difcil
conservao dos fsseis humanos devido  umidade e  acidez dos solos dificulta a
anlise histrica sob esse ponto de vista. Contudo, pode-se dizer que, ao contrrio
das teorias europeias que explicam o povoamento da frica pelas migraes vindas
da sia10, as populaes desse continente so em grande parte autctones. Quanto
 cor da pele dos habitantes mais antigos do continente nas latitudes tropicais,
vrios autores pensam que ela deveria ser escura (Brace, 1964), pois a prpria
cor negra  uma adaptao protetora contra os raios nocivos, principalmente os
ultravioleta. A pele clara e os olhos claros dos povos do norte seriam caracteres
secundrios ocasionados por mutao ou por presso seletiva (Cole, 1965).
    Hoje, embora no se possa traar uma fronteira linear, dois grandes grupos
"raciais" so identificveis no continente africano dos dois lados do Saara: no
norte, o grupo rabe-berbere, com patrimnio gentico "mediterrneo" (lbios,
semitas, fencios, assrios, gregos, romanos, turcos, etc.); no sul, o grupo negro.
Convm notar que as mudanas climticas, que s vezes anularam o deserto,
provocaram durante milnios numerosas mesclas populacionais.
    A partir de vrias dezenas de marcadores sanguneos, Nei Masatoshi e A.
R. Roy Coudhury estudaram as diferenas genticas inter e intragrupos em
caucasoides e mongoloides11. Eles definiram coeficientes de correlao, a fim de
estabelecer o perodo aproximado em que esses povos se separaram e constituram
grupos distintos. Ao que tudo indica, o grupo negroide tornou-se autnomo h
120.000 anos, enquanto os mongoloides e caucasoides individualizaram-se h
apenas 55.000 anos. Segundo J. Ruffie, "esse esquema ajusta-se  maior parte dos
dados da hemotipologia fundamental"12. A partir dessa poca, muitas misturas
se realizaram no continente africano.


10    A teoria camtica (SELIGMAN e outro)  que se deve, por um lado,  ignorncia de certos fatos e, por
      outro,  vontade de justificar o sistema colonial   a forma mais racista dessas montagens pseudocientficas.
11    MASATOSHI, N. e ROY COUDHURY, A. R. 1974, p. 26, 421.
12    RUFFIE, J. p. 399.
Teorias relativas s "raas" e histria da frica                                 291



    Tentou-se mesmo visualizar as distncias biolgicas das populaes graas
 tcnica matemtica dos componentes principais. A. Jacquard estudou 27
populaes espalhadas desde a regio do Mediterrneo at o sul do Saara13,
utilizando cinco sistemas sanguneos que compreendiam 18 fatores. Ele
obteve trs grupos principais repartidos em quatro agregados: um ao norte, os
caucasoides, composto de europeus, Regueibat, rabes sauditas e Tuaregue Kel
Kummer; um ao sul, que consistia nos grupos negros de Agads; agregados
intermedirios, incluindo os Peul Bororo, os Tuaregue de Air e de Tassili, os
etopes, etc.; e ainda os Harratin, tradicionalmente considerados negros. Assim,
seria um engano pensar que essa subdiviso confirma a classificao tradicional
em "raas", uma vez que, independentemente do que foi dito acima, a forma
geral da subdiviso resulta da quantidade de informaes considerada; se esta 
muito pequena, todos os pontos podem ser reunidos.
    Alm disso, a respeito do homem subsaariano,  preciso notar que seu nome
original, atribudo por Lineu, era Homo afer (africano). Depois, eles foram
chamados "negros" e, mais tarde, "pretos". O termo "negroide", mais abrangente,
era usado s vezes para designar todas as pessoas que, s margens do continente
ou em outros continentes, se pareciam com os pretos. Hoje, apesar de algumas
notas dissonantes, a grande maioria dos especialistas reconhece a unidade gentica
fundamental dos povos subsaarianos. Segundo Boyd, autor da classificao gentica
das "raas" humanas, existe apenas um grupo negroide que compreende toda a
parte do continente situada ao sul do Saara e tambm a Etipia; esse grupo difere
sensivelmente de todos os demais. Os trabalhos de J. Hiernaux estabeleceram essa
tese com notvel clareza. Sem negar as variantes locais aparentes, ele demonstra,
pela anlise de 5050 distncias entre 101 populaes, a uniformidade dos povos no
hiperespao subsaariano, que engloba tanto os "Sudaneses" quanto os "Bantu"; tanto
os habitantes das regies costeiras quanto os Sahelianos; tanto os "Khoisan" quanto
os Pigmeus, os Nilotas, os Peul e outros "Etipidas". Em compensao, ele mostra a
grande distncia gentica que separa os "negros asiticos" dos negros africanos.
    Mesmo no campo da lingustica, que nada tem a ver com o fato "racial" mas
que foi utilizada em teorias racistas para inventar uma hierarquia das lnguas que
refletisse a pretensa hierarquia das "raas", na qual os "verdadeiros negros" ocupavam
o grau mais baixo da escala, as classificaes evidenciam cada vez mais a unidade
fundamental das lnguas africanas. As variantes somticas podem ser explica das
cientificamente pelas causas das mudanas discutidas acima, especialmente os


13   JACQUARD, A. 1974, p. 11-124.
292                                                      Metodologia e pr-histria da frica



bitipos que ora do origem a agregados de populaes mais compsitas (vale do
Nilo), ora a grupos populacionais isolados, que desenvolvem caractersticas mais
ou menos atpicas (montanhas, florestas, pntanos, etc.). Por fim, a histria explica
outras anomalias atravs das invases e migraes, sobretudo nas zonas perifricas. A
influncia biolgica da pennsula Arbica no chamado "Chifre da frica" tambm se
evidencia nos povos dessa regio, como os Somali, os Galla e os etopes, mas tambm,
com certeza, nos Tubu, Peul, Tukulor, Songhai, Haussa, etc. J tivemos oportunidade
de ver alguns Marka (Alto Volta) com um perfil tipicamente "semita".
    Em suma, a admirvel variedade dos fentipos africanos  sinal de uma evoluo
particularmente longa desse continente. Os fsseis pr-histricos de que dispomos
indicam uma implantao semelhante s encontradas no sul do Saara, numa rea
muito vasta, que vai da frica do Sul at o norte do Saara, tendo a regio sudanesa
representado, ao que parece, o papel de encruzilhada nessa difuso.
    Com certeza, a histria da frica no  uma histria de "raas". Contudo,
para justificar uma certa histria, abusou-se demais do mito pseudocientfico da
superioridade de algumas "raas". Ainda hoje, o mestio  considerado branco
no Brasil e preto nos Estados Unidos da Amrica. A cincia antropolgica, que
j demonstrou amplamente no haver nenhuma relao entre a raa e o grau de
inteligncia, constata que essa conexo s vezes existe entre raa e classe social.
    A preeminncia histrica da cultura sobre a biologia  evidente desde a
apario do Homo no planeta. Quando ir tal evidncia impor-se aos espritos?
Teorias relativas s "raas" e histria da frica                                    293




                                          GLOSSRIO




     Alelo Cada um dos elementos que                Mutao Aparecimento de uma
     forma o par de genes.                          alterao numa caracterstica hereditria
                                                    atravs da modificao de um ou mais
     Migrao gnica Passagem de indivduos         genes.
     reprodutores de sua populao de origem
     a uma populao adotiva (mestiagem).          Oscilao gentica Perturbao do
     A mestiagem, que  considerada pelos          patrimnio gentico num grupo humano
     racistas como uma degenerescncia              reduzido e isolado, resultante de um
     para a raa superior, representa aqui,         acidente que provoca a baixa de frequncia
     ao contrrio, um enriquecimento do             ou o desaparecimento de um alelo.
     fundo comum de genes da humanidade.
     Biologicamente positiva, ela apresenta,        Seleo Reproduo diferencial dos
     no entanto, problemas sociolgicos.            gentipos de uma gerao a outra.


     N.B. Estudos sobre esta questo encomendados pela UNESCO, como parte do
        projeto da Histria Geral da frica:
     HIERNAUX, J. Rapport sur Le Concept de Race. Paris, 1974.
     RIGHTMIRE, G.P. Comments on Race and Population History in Africa. Nova
       Iorque, 1974.
     STROUHAL, E. Problems of Study of Human Races. Praga, 1976.
Migraes e diferenciaes tnicas e lingusticas                       295



                                         CAPTULO 11


                     Migraes e diferenciaes
                       tnicas e lingusticas
                                               D. Olderogge




    Durante muito tempo, os historiadores acreditaram que os povos da frica
no haviam desenvolvido uma histria autnoma, no quadro de uma evoluo
que lhes fosse peculiar. Tudo o que representava uma aquisio cultural parecia
ter sido levado at eles do exterior por vagas migratrias vindas da sia. Essas
teses so encontradas com frequncia nos trabalhos de muitos pesquisadores
europeus do sculo XIX. Elas sero sistematizadas e cristalizadas sob forma de
doutrina por estudiosos alemes, etngrafos e linguistas, nos primeiros decnios
do sculo XIX. Nessa poca, a Alemanha era o principal centro de estudos
africanos. Aps a partilha do continente africano entre potncias imperialistas,
comearam a aparecer em profuso na Inglaterra, Frana e Alemanha trabalhos
que descreviam a vida e os costumes dos povos colonizados. Foi sobretudo na
Alemanha que se reconheceu a importncia de um estudo cientfico das lnguas
africanas. O ano de 1907 viu o estabelecimento, em Hamburgo, do Instituto
Colonial, que depois se tornou um grande centro de pesquisa cientfica, onde
foram elaborados os mais importantes trabalhos tericos da escola alem de
estudos africanos. A Alemanha estava muito avanada nessa rea, em relao
s outras potncias colonizadoras: na Inglaterra, o ensino de lnguas africanas
s se iniciou em 1917, na Escola de Estudos Orientais, enquanto, na Frana,
nessa poca, a Escola de Lnguas Vivas Orientais no mantinha nenhum curso
nessa rea. Foi somente em 1947 que a Escola de Estudos Orientais de Londres
296                                                    Metodologia e pr-histria da frica



passou a se chamar Escola de Estudos Orientais e Africanos. Tambm na Frana,
o ensino sistemtico dessas lnguas s foi introduzido um pouco mais tarde.


      As teorias da escola alem e as descobertas recentes
    A Alemanha ocupava, portanto, um lugar de destaque nos estudos histricos,
etnogrficos e lingusticos africanos, no perodo que precedeu imediatamente
a Primeira Guerra Mundial; os trabalhos publicados na Inglaterra, Frana e
Blgica baseavam-se nas teorias dos estudiosos alemes. Assim, os etngrafos
da Europa ocidental, no incio do sculo XX, permaneceram apegados  ideia
difundida pelos alemes de que os povos da frica nunca tinham tido histria
prpria. Com base nesse ponto de vista, os linguistas formularam a teoria
conhecida como Camtica, segundo a qual o desenvolvimento da civilizao
na frica foi devido  influncia de povos camticos provenientes da sia,
Um estudo dessas ideias mostra uma forte influncia de Hegel, que dividiu
os povos do mundo em dois tipos: povos histricos, que contriburam para
o desenvolvimento da humanidade, e povos no-histricos,que se colocam 
margem do desenvolvimento espiritual universal.
    Segundo Hegel, no h evoluo histrica na frica propriamente dita. Os
destinos da costa setentrional do continente estariam ligados aos da Europa.
Enquanto colnia fencia, Cartago no passava de um apndice da sia, e o
Egito era alheio ao esprito africano. As ideias de Hegel exerceram considervel
influncia em quase toda pesquisa cientfica relativa  frica no sculo XIX; tal
influncia  marcante na obra de H. Schrz, o primeiro pesquisador a tentar um
esboo da histria da frica. Esse autor compara a histria das raas da Europa
 vitalidade de um belo dia de sol, e a das raas da frica a um pesadelo que
logo se esquece, ao acordar.
    Para Hegel, foi na sia que a luz do esprito despertou e que a histria da
humanidade teve seu incio. Os estudiosos europeus tinham por indiscutvel a
ideia de que a sia, bero da humanidade, foi lugar de origem de todos os povos
que invadiram a Europa e a frica. Assim, parecia evidente para o etngrafo ingls
Stow que os mais antigos habitantes da frica  os San  tivessem vindo da sia
em duas vagas migratrias distintas, os San pintores e os San gravadores; esses
dois grupos teriam seguido trajetrias diferentes, cruzando o mar Vermelho pelo
estreito de Bab el-Mandeb. Aps terem atravessado as florestas equatoriais, os
dois grupos reencontraram-se no extremo sul do continente africano. Encontra-
-se nas obras de F. Stuhmann, gegrafo e viajante alemo, a mais completa
Migraes e diferenciaes tnicas e lingusticas                            297



aplicao das teses propostas pela escola germnica, construdas sobre sua base
histrico-cultural e tendo por objeto o processo de povoamento do continente
africano atravs de sucessivas vagas migratrias. De fato, no fim do sculo XIX e
incio do XX, foi lanada uma vigorosa ofensiva contra a doutrina evolucionista,
que constituiu a base terica dos trabalhos de R. Taylor, L. H. Morgan, Lubbock
e outros. A escola de orientao histrico-cultural repudiou a teoria de um
desenvolvimento uniforme e integral da humanidade, apresentando uma teoria
diametralmente oposta, que postulava a existncia de crculos de civilizao
diferenciados, identificveis por critrios intrnsecos derivados principalmente
das culturas materiais. Segundo esses autores, a difuso de aquisies culturais
deveu-se principalmente s migraes. O estudioso alemo Leo Frobenius foi
o primeiro a enunciar essa ideia; depois, Ankermann descreveu a difuso dos
crculos de civilizao atravs da frica. Mas foi Stuhlmann quem elaborou
o quadro mais detalhado do desenvolvimento das culturas africanas. Afirmou
que a populao autctone da frica era constituda de povos de baixa estatura
 os Pigmeus e os San , que virtualmente no possuam quaisquer elementos
culturais. Depois, povos negros de pele escura e cabelos crespos chegaram em
vagas migratrias originrias do sudeste da sia. Espalhando-se por toda a
savana sudanesa, penetraram na floresta equatorial, introduzindo uma agricultura
rudimentar, o cultivo de bananas e de colocsias, o uso de arco e flecha e de
utenslios de madeira e a construo de cabanas circulares ou quadradas. Esses
povos falavam lnguas de tipo isolante. A eles se teriam seguido vagas de proto
camitas, tambm provenientes da sia, mas de regies situadas ao norte das
terras de origem dos negros. Os recm-chegados falavam lnguas aglutinantes
com classes nominais. Teriam ensinado aos povos autctones o uso da enxada
na agricultura, o cultivo do sorgo e de outras gramneas, a criao de gado
corngero de pequeno porte, etc. O cruzamento dos proto-camitas com os
povos negros teria originado os povos bantu. Seguiram-se invases de camitas
de pele clara, que chegaram  frica seja atravs do istmo de Suez seja pelo
estreito de Bab el-Mandeb. Esses povos seriam os ancestrais dos Peul, Masai,
Bari, Galla, Somali e Khoi-Khoi. Teriam introduzido novos elementos culturais,
como o gado corngero de grande porte, a lana, os mltiplos usos do couro, o
escudo, etc. Segundo Stuhlmann, esses camitas de pele clara so originrios das
estepes da sia ocidental. A vaga seguinte seria constituda por povos semitas,
que teriam lanado os fundamentos da civilizao do Egito antigo. Teriam
introduzido o cultivo de cereais, o uso do arado e do bronze. Depois, chegaram
ao Egito os Hicsos e Hebreus, enquanto os Habashat e os Mehri fixavam-se nas
terras altas da Etipia. Por ltimo, vieram os rabes, no sculo VII. Todos esses
298                                                      Metodologia e pr-histria da frica



povos trouxeram para a frica novos elementos de civilizao, absolutamente
desconhecidos das populaes anteriores. O trabalho de Stuhlmann foi publicado
em Hamburgo, em 1910, pouco antes da Primeira Guerra Mundial, mas suas
ideias sobre a construo gradual da civilizao africana por raas estrangeiras
foram retomadas e desenvolvidas, mais tarde, por outros etngrafos: Spannus e
Lushan na Alemanha, Seligman na Inglaterra, Honea na ustria, etc.
    Paralelamente s teorias da escola histrico-cultural, aparece, em lingustica,
um conjunto de teses denominado teoria camtica. O iniciador dessa teoria,
Meinhof, acreditava que os ancestrais dos San eram os autctones mais
antigos da frica. Representando uma raa nitidamente distinta de todas as
outras, falavam lnguas que apresentavam consoantes cliques. J os negros 
considerados autctones nas zonas equatorial e sudanesa  falavam lnguas
isolantes tonais e com radicais monossilbicos. Em seguida, povos camitas
vindos da Arbia chegaram ao Sudo, passando pela frica do Norte. Falando
lnguas flexionadas e dedicando-se  criao de gado, teriam pertencido a uma
cultura muito superior  dos negros. Contudo, parte da invaso camita atingiu
as savanas da frica oriental; a miscigenao dos camitas com a populao
indgena teria dado origem aos povos de lngua bantu.
    Em resumo, esse modelo de evoluo pode ser reduzido a um filme em quatro
sequncias. No incio, as lnguas com cliques, depois, as lnguas isolantes, bastante
rudimentares, faladas pelos negros sudaneses. A mistura destas com as lnguas
camticas produz as lnguas bantu, do tipo aglutinante, mais nobres, portanto.
Finalmente, as lnguas faladas pelos conquistadores camitas introduzem as lnguas
flexionadas, eminentemente superiores. A teoria camtica foi sustentada por muitos
linguistas e difundida da Alemanha para alm da Europa ocidental.
    No perodo entre as duas guerras, contudo, essa teoria deveria desmoronar. O
primeiro golpe veio com a descoberta do Australopithecus, na provncia do Cabo
(frica do Sul), em 1924. Seguiram-se outras descobertas, que prosseguem ainda,
tanto no norte como no sul da frica, e em particular no leste, na Tanznia, no
Qunia e na Etipia. Todos esses documentos demonstram, de maneira cabal,
que o desenvolvimento do homem em toda a sua variedade racial teve lugar,
desde as origens, no interior do continente africano. Assim, a teoria segundo a
qual a frica foi povoada por vagas migratrias provenientes do exterior tornou-
-se insustentvel. Como aponta o clebre antroplogo C. Arambourg, a frica
 o nico continente onde se encontram, numa linha evolutiva ininterrupta,
todos os estgios do desenvolvimento do homem: australopitecos, pitecantropos,
neandertalenses e Homo sapiens sucedem-se, com os respectivos utenslios,
das pocas mais distantes at o Neoltico. Fica assim confirmada a teoria de
Migraes e diferenciaes tnicas e lingusticas                             299



Darwin, que apontava a frica como o lugar de origem do homem. Alm
disso, essas descobertas provaram que seria totalmente errneo negar  frica
um desenvolvimento cultural endgeno. A esse respeito, as pinturas e gravuras
rupestres do Atlas, do sul da frica e do Saara constituem um testemunho
indiscutvel, de grande importncia.
    No h mais sombra de dvida quanto  antiguidade dos vestgios arqueolgicos,
uma vez que a cronologia relativa (baseada na forma e no tratamento dos objetos
e em sua posio estratigrfica)  atualmente complementada pela cronologia
absoluta, baseada em mtodos cronomtricos cientficos, tais como o carbono 14
e o potssio-argnio. O modelo de evoluo cultural dos povos africanos sofreu
profundas transformaes. Por exemplo, descobriu-se que nas latitudes saarianas
e saelianas o Neoltico remonta a uma poca anterior  que se imaginava, o que
vem alterar completamente o quadro do desenvolvimento cultural africano em
relao ao mundo mediterrnico, particularmente o Oriente Prximo.
    Os restos descobertos em Tassili n'Ajjer, assim como em Tadrart-Acacus,
na fronteira entre a Arglia e a Lbia, so bastante conclusivos. O exame das
lareiras e dos fragmentos de cermica a descobertos demonstra que a cermica
j era utilizada desde 8000 anos B.P. Em Acacus, foi encontrado um esqueleto
do tipo negroide com traos de vestimentas de couro. Os materiais examinados
foram datados de 9000 anos B.P. Uma idade anloga foi atribuda aos restos
descobertos no Hoggar, que foram submetidos a anlise em trs laboratrios
diferentes. Conclui-se que o Neoltico de Tassili n' Ajjer e de Ennedi , ao que
parece, anterior ao do Magreb e contemporneo ao da Europa meridional e da
Cirenaica.
    O exame dos restos orgnicos coletados nos campos neolticos da Baixa
Nbia levou a concluses ainda mais significativas. Estima-se que, no ano
-13000 aproximadamente, j se praticava na regio a colheita e a preparao
de gros de cereais selvagens. A anlise por radiocarbono dos vestgios fsseis
encontrados no distrito de Ballana indicou a data de -12050 280. O mesmo
mtodo de exame, aplicado a restos provenientes de Toshk, apresenta a data
de -12550  490. Isso significa que, no vale do Nilo, a vegecultura foi praticada
4 mil anos mais cedo que no Oriente Prximo.
    Segundo uma tradio fortemente arraigada, todo relato da histria da frica
comeava com o Egito. Hoje em dia, entretanto, convm revermos esse hbito. O
egiptlogo americano Breasted deu o nome de "Crescente Frtil" ao conjunto dos
pases formado pelo Egito, a Palestina e a Mesopotmia. De fato, essa zona lembra
um vasto crescente, que propiciou o desenvolvimento da civilizao faranica e
das cidades-Estado de Sumer e Akkad. Ora, todo esse processo tomou impulso s
300                                                   Metodologia e pr-histria da frica



em -5000 ou -6000 aproximadamente, enquanto, muito antes disso, a existncia
de condies climticas adequadas ao desenvolvimento da criao de gado e
da protocultura na rea entre o vale do Indus e o oceano Atlntico favorecia o
surgimento de uma sociedade onde comeam a se delinear as classes e o Estado.
    Assim, o Crescente Frtil representa apenas o desenvolvimento final e o
testemunho de um vasto domnio fervilhante de vida, onde os homens iam aos
poucos se familiarizando com as gramneas selvagens, passando a domestic-las
assim como ao gado de grande porte, ovinos e caprinos. Esse cenrio grandioso
 atestado pelo estudo de pinturas e gravuras rupestres do Saara, pela datao
obtida por radiocarbono, pela anlise de polens fsseis, etc. Pode-se esperar que
alguns esquemas cronolgicos sejam reajustados dependendo da preciso que
se puder obter futuramente. No entanto, desde j, podemos afirmar que a teoria
sobre o povoamento da frica aqui referida est completamente desacreditada.
Deve-se reconhecer o papel da frica como plo de disseminao, no que
se refere tanto aos homens quanto s tcnicas, em um dos mais importantes
perodos da histria humana (Paleoltico Inferior). Em pocas posteriores,
vem-se aparecer correntes migratrias inversas, de volta ao continente africano.


      Problemas antropolgicos e lingusticos
    Em geral, os indicadores antropolgicos fornecem referncias mais estveis
que os fatos da lngua, que sofrem transformaes rpidas, por vezes no espao
de algumas geraes.  o que acontece quando um povo emigra para um novo
meio lingustico, ou, ainda, em caso de invaso, quando os conquistadores e os
autctones falam lnguas diferentes. Assim, observa-se que a populao negra
norte-americana manteve praticamente intacto seu tipo antropolgico original,
sob um clima e num meio geogrfico muito diferentes dos que prevaleciam
em seu continente de origem, enquanto do ponto de vista lingustico e cultural
assemelha-se  populao branca dos Estados Unidos. Os elementos da antiga
civilizao africana subsistem apenas nos domnios cultural e espiritual: msica,
dana e crenas religiosas. Um caso semelhante  o dos Sidi, descendentes dos
africanos que foram transferidos, sculos atrs, da costa leste da frica para
a ndia. No incio do sculo XIX, esses povos ainda conservavam sua prpria
lngua, mas atualmente falam as lnguas dos povos hindus entre os quais vivem
 gujarati, urdu e outras , sendo o tipo fsico o nico indcio de sua origem
africana.
Migraes e diferenciaes tnicas e lingusticas                             301



   Em ambos os casos, os africanos expatriados mudaram de idioma muito
rapidamente, por vezes no decurso de uma ou duas geraes.
   A histria das lnguas faladas pelos autctones da frica do Norte tambm
merece ser citada. Aps a conquista dos pases do Magreb pelos rabes, e
particularmente aps as invases das "tribos" rabes no sculo XI, os povos
da frica do Norte tornaram-se rabes quanto  lngua e  civilizao. Suas
lnguas originais sobrevivem apenas em certas regies do Marrocos, na Kabylia,
no djebel Nefusa e nos osis. De acordo com os antroplogos, as principais
caractersticas do tipo fsico original no sofreram mudanas, o que mostra
que os traos antropolgicos, em seu conjunto, resguardam-se da influncia
do bitopo no organismo, sendo, portanto, mais estveis que os elementos da
lngua e da cultura.
   Pode-se afirmar, com base nos fatos de que dispomos atualmente, que a
distribuio dos tipos "raciais" modernos no continente africano reproduz, em
essncia, o modelo antigo dos grandes grupos antropolgicos denominados,
por vezes precipitadamente, de "raas". Os vrios tipos da "raa" mediterrnica
so representados no norte da frica desde uma era muito longnqua. A
frica oriental foi habitada por povos do tipo etiopoide, como confirmaram
as descobertas dos paleoantroplogos no Qunia, enquanto a parte sul do
continente foi ocupada por grupos San. As florestas tropicais e equatoriais
ocupavam, no passado, uma rea muito maior que a atual; foi ali, provavelmente,
que os Pigmeus apareceram, constituindo um grupo distinto, cujo tipo fsico
desenvolveu-se num meio ambiente de clima extremamente mido e virtual
ausncia de luz.
   A "raa" negra de tipo conhecido como sudans ou "congols" individualizou-
-se para se adaptar s condies das latitudes tropicais, principalmente na frica
ocidental. Poucos restos de esqueletos foram encontrados para identificao
e datao, provavelmente porque a desagregao qumica devida  acidez
dos solos no  favorvel  preservao dos fsseis. Apesar disso, depois das
descobertas feitas em Asselar, esqueletos do tipo negroide de vrias pocas
(s vezes extremamente antigos) foram encontrados no Saara e na Nigria
meridional, fato que sugere ter sido a regio foco original desse tipo humano.
O problema do povoamento inicial do Saara foi objeto de muitas discusses.
Mas fica claro, a partir do estudo das pinturas rupestres, que a populao negra
predominou nessa rea, embora outros tipos possam ser detectados, tais como
os grupos com caractersticas afro-mediterrnicas, tambm habitantes antigos
da regio. No Egito, documentos e inscries em monumentos que remontam
ao Antigo Imprio fazem aluso a povos lbios Tamehu, com pele clara e olhos
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figura 11.1   Mulher haratina de Idls, Arglia (Foto A.A.A., Naud).
Figura 11.2   Marroquino (Foto Hoa-Qui, Richer).
Figura 11.3   Mulher e criana argelinas (Foto A.A.A., Ghant).
Migraes e diferenciaes tnicas e lingusticas                              303



azuis, assim como a povos Tehenu, de pele mais escura. Tambm nas fontes
histricas gregas encontram-se referncias a etopes de pele clara e a etopes de
pele mais escura, no sul. Portanto, a antiga populao da Lbia, ao que parece,
era bastante heterognea. A esse respeito, diz um autor latino que "alguns dos
lbios parecem etopes, outros so originrios da ilha de Creta"1. A composio
tnica da populao do vale do Nilo parece ter sido complexa. O dessecamento
do Saara fez com que os povos da regio procurassem a umidade do vale. Grupos
etiopoides e afro-mediterrnicos misturaram-se a negros do tipo sudans. O
mesmo tipo de miscigenao provavelmente ocorreu, pelas mesmas razes, em
todas as bacias fluviolacustres vizinhas ao deserto: Baixo Senegal, Mdio Nger,
Chade.
    Na medida em que, como j foi mencionado, os perfis antropolgicos
apresentam uma constncia notvel, frequentemente multimilenria, no  errneo
extrapolar para a pr-histria algumas das principais caractersticas do quadro
tnico atual. De qualquer modo, o processo de formao das "raas"  a resultante
de uma interao de mltiplos fatores, que produzem, de maneira gradual, a
diferenciao dos traos herdados, mas tambm transmitem hereditariamente
os traos diferenciados. Estes se individualizaram essencialmente em funo da
adaptao ao meio ambiente: insolao, temperatura, cobertura vegetal, umidade,
etc. Como regra geral, sem dvida enfraquecida por numerosas excees, os
antroplogos supem que o africano da floresta tinha estatura baixa e pele clara,
enquanto o africano da savana e do Sahel seria esguio e de pele escura. Entretanto,
cabe evitar uma viso parcial, j que muitos fatores operam simultaneamente. Por
exemplo, a migrao de grupos com heranas genticas diferentes mobilizava,
imediatamente, duas fontes possveis de mutao: primeiro, a mudana de bitipo,
em seguida, o encontro de grupos diferentes, com a possibilidade de cruzamento.
Quando se observa uma semelhana somtica notvel entre dois grupos tnicos
muito distantes no espao, como entre os Dinka do Alto Nilo e os Wolof do
Senegal, ambos de pele escura e estatura alta, a situao em uma mesma latitude
parece constituir uma explicao suficiente. No entanto, deve-se ter sempre em
mente a combinao dos fatores postos em jogo pelo prprio movimento da
histria2. A esse respeito o caso altamente controverso dos Pigmeus e dos San
merece ser estudado com maiores detalhes.
    No passado, presumia-se existir uma identidade racial entre os Pigmeus da
frica e os da sia meridional. Atualmente essa teoria parece ter sido rejeitada.

1    FOERSTER, R. I. Bd. 1893. v. I, p. 389.
2    Cf. J. HIERNAUX. 1970, vol. I, p. 53 e 55.
304                                              Metodologia e pr-histria da frica




figura 11.4 Voltense (Foto A. A. A. Naud).
Figura 11.5 Mulher sarakole, Mauritnia, grupo
Soninke, da regio do rio (Foto B. Nantet).
Figura 11.6 Chefe nmade de Rkiz, Mauritnia
(Foto B. Nantet).
Migraes e diferenciaes tnicas e lingusticas                                     305



Tudo leva a crer que se trata do resultado de uma adaptao muito antiga de um
certo tipo fsico ao meio ambiente e que esse processo ocorreu durante um longo
perodo de isolamento. Atualmente os Pigmeus podem ser encontrados nas
florestas dos Camares, no Gabo e em algumas regies da Repblica Centro-
-Africana, no Zaire e em Ruanda. Parece certo, porm que no passado ocuparam
uma rea muito maior. Nas tradies orais de certos povos da frica ocidental
faz-se referncia a grupos de anes que viviam na floresta antes da chegada dos
povos de maior estatura.  certo que tambm na Europa ocidental algumas
lendas falam de gnomos ferreiros que habitavam as montanhas. As tradies
africanas, porm, no parecem provir unicamente da imaginao popular, na
medida em que coincidem com certas fontes histricas que indicam a existncia
de Pigmeus em regies onde atualmente eles so encontrados.
    A mais antiga meno aos Pigmeus  encontrada no Egito, em inscries
que datam da sexta dinastia do Antigo Imprio. Nas paredes do tmulo de
Herkhuf3, em Assu, est inscrito o texto de uma carta do fara Ppi II, em que
o jovem rei agradece o monarca por ter-lhe presenteado com um ano chamado
Deng, palavra que  encontrada nas lnguas modernas da Etipia: em amrico
e seus diversos dialetos, e tambm nas lnguas tigrina, galla, kambatta e outras,
nas formas denk, dank, dinki, donku, dinka4. A carta refere que, um sculo antes,
sob a V dinastia, um ano semelhante tinha sido levado ao fara Isesi. Cabe
lembrar, em relao a esses fatos, o relato de um viajante ingls mencionando
a presena de anes doko na Etipia meridional. Pode-se assim deduzir que no
passado existiram anes nas regies atualmente ocupadas pela Repblica do
Sudo e pela Etipia.
    Os pigmeus da floresta equatorial e tropical foram aos poucos cedendo lugar a
novas populaes, constitudas de indivduos de alta estatura que falavam lnguas
bantu. Os pigmeus autctones recuaram progressivamente para as regies mais
remotas das florestas de Ituri e Uele, como testemunha o Nsong-a-Lianja, ciclo
pico dos Mongo sobre o povoamento do vale do Zaire. Outros povos bantu
possuem relatos semelhantes. Assim, pode-se concluir que os grupos isolados de
Pigmeus que subsistem atualmente so os testemunhos de uma populao mais
extensa, que ocupava as florestas tropicais e equatoriais da frica.
    Os San constituem outro grupo muito original do continente africano. So
de pequena estatura, tm a pele amarelada ou acobreada e cabelo em pequenos
tufos. Nos estudos antropolgicos, eles ainda so colocados junto aos Khoi-Khoi,

3    A transliterao correta desse nome  Hrw-hwif- hwif (Herzog, R. 1938, p. 95).
4    LESLAU, W. 1963, p. 57.
306                                             Metodologia e pr-histria da frica




figura 11.7 Mulher peul bororo, Tahoura,
Nger (Foto B. Nantet).
Figura 11.8 Criana tuaregue de Agads, Nger
(Foto B. Nantet).
Figura 11.9 Mulher djerma songhay de
Balayera, Nger (Foto B. Nantet).
Migraes e diferenciaes tnicas e lingusticas                              307



na "raa Khoisan". Trata-se, sem dvida, de uma extrapolao da classificao
lingustica, que rene as lnguas dos San e dos Khoi-Khoi num mesmo grupo,
caracterizado pela presena de consoantes cliques com valor fonmico. O termo
Khoisan, proposto por J. Shapera e adotado em inmeros trabalhos,  uma
combinao de duas palavras khoi-khoi: khoi, que significa "homem", e san,
cuja raiz sa significa "acumular, colher frutos, arrancar razes da terra, capturar
pequenos animais". Trata-se, portanto, da qualificao de um grupo humano
em funo de seu gnero de vida e modo de produo. Mas, de fato, os San e os
Khoi-Khoi tm muito poucas caractersticas em comum; podem-se destacar a
cor clara da pele e a presena de consoantes clique em ambas as lnguas. Deve-
-se lembrar, entretanto, que esta ltima caracterstica no  especfica, sendo
tambm encontrada nas lnguas bantu do sudeste, como o zulu, xhosa, sotho,
swazi, etc.
    O exame das caractersticas antropolgicas desses dois grupos mostra que os
Khoi-Khoi e os San diferem em muitos aspectos: os Khoi-Khoi so nitidamente
mais altos que os San, distinguindo-se tambm pelas caractersticas cranianas5,
disposio dos cabelos e esteatopigia, frequente entre as mulheres, enquanto
a presena do epicanto  especfica dos San. Alm disso, as lnguas khoi-khoi
e san diferem tanto pela estrutura gramatical como pelo vocabulrio. E. O. J.
Westphal, grande especialista no assunto, mostrou que, entre os Khoi-Khoi,
os pronomes, que constituem a parte mais antiga e estvel do discurso, tm
formas particularmente desenvolvidas: distinguem-se dois gneros, trs nmeros
(singular, dual e plural) assim como formas inclusivas e exclusivas, enquanto no
h nada parecido nas lnguas san6. Portanto, no h elementos suficientes para se
classificarem as lnguas san e khoi-khoi em um s grupo. Quanto s culturas desses
povos, diferem em todos os aspectos, como j fora observado pelos primeiros
viajantes que visitaram a frica meridional no sculo XVII, como Peter Kolb.
Os Khoi-Khoi viviam em Kraals, trabalhavam o metal e criavam gado, enquanto
os San eram nmades, vivendo da caa e da coleta. Assim, a antropologia e a
lingustica opem-se  reunio desses dois povos num nico grupo. Cada um
deles teve um desenvolvimento histrico especfico. Os San constituem, com
certeza, os remanescentes do povoamento original do extremo sul do continente
africano. Atualmente, esto confinados s regies inspitas e ridas da Nambia
e do Calaari. Grupos isolados tambm podem ser encontrados em Angola. No
passado, eles habitavam as savanas da frica meridional e oriental at os limites

5    Cf. ALEKSEIEV, K.
6    Cf. WESTPHAL, E. O. J. 1962, p. 30-48.
308                               Metodologia e pr-histria da frica




figura 11.10 Pigmeu twa,
Ruanda (Foto B. Nantet).
Figura 11.11 Grupo San
(Foto F. Balsan, Col. Museu do
Homem).
Figura 11.12 Pigmeu do Congo
(Foto Congo Press, Danday, Col.
Museu do Homem).
Migraes e diferenciaes tnicas e lingusticas                             309



do Qunia, como testemunham a toponmia e a hidronmia dessas regies,
sendo os nomes locais de rios e montanhas emprestados das lnguas san. As
consoantes cliques, caractersticas das lnguas san, foram emprestadas por vrias
lnguas bantu. Finalmente, as pinturas rupestres dos planaltos da frica do
Sul mostram cenas de combate entre os San, de pequena estatura e pele clara,
e guerreiros negros de alta estatura, cuja origem tnica pode ser facilmente
identificada pela forma dos escudos que carregam.
    Os Hadzapi, pequeno grupo tnico que vive nas proximidades do lago Eyasi,
na Tanznia, podem ser considerados testemunhos da extenso dos antigos
povoados San por toda a frica. Embora a lngua dos Hadzapi ainda no tenha
sido estudada em profundidade, h razes para se pensar que esteja prxima das
lnguas san. Por vezes, no intuito de apoiar a tese de que os San j ocuparam
rea muito maior, aponta-se a presena de pedras redondas, furadas no centro,
encontradas na frica oriental. Essas pedras, chamadas kwe pelos San, serviam
para lastrear estacas, com as quais desenterravam razes comestveis. Entretanto,
no se provou que essa tcnica tenha sido difundida pelo grupo San. Assim, por
exemplo, entre os Galla da Etipia meridional e da regio do Harar, utiliza-se
o dongora, longa estaca lastreada com uma pedra em forma de anel, para cavar
a terra. O mesmo dispositivo  usado para tornar mais pesado o pilo com que
se amassa o tabaco.
    De qualquer modo, a mais antiga populao da frica meridional no deve
ser restringida aos Pigmeus nas florestas e aos San nas savanas. Ao lado destes,
outros povos devem ter existido. Descobriu-se em Angola o grupo dos Kwadi,
que, pela lngua e pelo gnero de vida, aproxima-se muito dos San. No incio
do sculo XX, Vedder estudou os Otavi, remanescentes de grupos antigos. Esses
povos tm estatura pequena e vivem da caa e da coleta, distinguindo-se dos
San pela tez muito escura e lbios grossos. Autodenominam-se Nu-khoin, isto
, "homens negros", em oposio aos Khoi-Khoi, a quem chamavam "homens
vermelhos". Seu sistema de numerao, muito original, difere nitidamente do
sistema decimal usado pelos Khoi-Khoi. Grupos como esses, que subsistem
provavelmente em outras regies, ajudam a esclarecer a histria to complexa
do povoamento original das florestas e savanas da frica central e meridional.
Tal complexidade transparece nos planos lexical e fontico das lnguas bantu;
a presena de cliques, por exemplo, sugere contatos intertnicos muito antigos.
Assim, existem discrepncias entre as lnguas bantu, s vezes mesmo no nvel da
estrutura dos radicais, como no caso do grupo Dzing, no noroeste da rea bantu.
Essa anomalia , sem dvida, resultado da influncia de um substrato lingustico
preexistente. Os Pigmeus e os San constituem hoje grupos numericamente
310                                                                     Metodologia e pr-histria da frica



muito pequenos, em relao ao grupo "negro" predominante e mesmo  raa
afro-mediterrnica da frica do Norte.
    Atualmente, o mapa lingustico da frica no coincide com a distribuio dos
tipos "raciais", embora tal concordncia possa ter ocorrido num passado remoto.
Mas durante um longo perodo os antigos grupos tnicos se multiplicaram,
migraram e se cruzaram, no mais havendo coincidncia entre a evoluo
lingustica e o processo de formao dos tipos "raciais". Por processo de formao
de tipos "raciais" entende-se a herana gentica e a gradual adaptao ao meio
ambiente. A no-concordncia entre as distribuies "racial" e lingustica 
patente no caso dos povos do Sudo, zona de confluncia de dois tipos diferentes
de famlias lingusticas.
    A frica do Norte, incluindo a Mauritnia e a Etipia, pertence  vasta rea
das lnguas camito-semticas. Essa denominao no parece pertinente, pois
sugere que as lnguas dessa famlia se dividem em dois grupos, um semtico e
outro camtico. De fato, no sculo XIX, denominavam-se semticas as lnguas
desse grupo faladas no Oriente Prximo, e camticas as lnguas faladas na frica.
Mas o semitlogo francs M. Cohen observou no haver argumentos que
justificassem essa diviso em dois grupos. Atualmente, costuma-se classificar
as lnguas dessa famlia em cinco grupos: semtico, cuchtico, berbere7, egpcio
antigo8 e o grupo lingustico do Chade. Assim, as lnguas dessa grande famlia
lingustica so faladas por diversas "raas" semticas e negras.
    No extremo sul do continente africano, as lnguas san, s quais devem ser
acrescentadas as lnguas kwadi, em Angola, e hadzapi, na Tanznia, parecem
pertencer a um grupo especfico, tendo como caracterstica comum a presena
de c1iques e a estrutura isolante. Talvez fosse mais prudente cham-las lnguas
paleoafricanas, assim como se usa o termo paleoasitico para as lnguas das
regies do extremo nordeste da sia. As lnguas khoi-khoi, cujo sistema
gramatical  diferente, no deveriam ser includas neste grupo. Os Khoi-Khoi so
criadores de gado que sem dvida emigraram do nordeste para o sul da frica,
estabelecendo-se em meio a grupos autctones San. Alguns destes adotaram a
lngua dos Khoi-Khoi, como  o caso dos povos encontrados nos montes Otavi,
e talvez mesmo dos Naron do ncleo central. A hiptese de que o itinerrio
acima indicado corresponda realmente ao da expanso dos Khoi-Khoi atravs
das savanas da frica oriental a partir do Alto Nilo parece confirmada pelo fato


7     De acordo com alguns autores, o berbere faz parte do grupo semtico.
8     De acordo com alguns egiptlogos africanos. o egpcio antigo  uma das lnguas "negro-africanas" (ver
      cap. 1, v. II).
Migraes e diferenciaes tnicas e lingusticas                         311




figura 11.13     Mulheres zulu (Foto A.Robillard, Col. Museu do Homem).
312                                                    Metodologia e pr-histria da frica



de existir na Tanznia, perto do lago Eyasi, o grupo Sandawe, cuja lngua parece
relacionada  dos Khoi-Khoi. A histria dos Khoi-Khoi permanece, contudo,
um dos pontos mais obscuros da evoluo tnica da frica. Segundo Westphal,
os diques das lnguas khoi-khoi teriam sido emprestados s lnguas dos San.
Teoria interessante, mas at agora no provada.
    As savanas da frica oriental foram, sem dvida, a primeira regio do
continente a ser povoada. Hoje so habitadas por negros de lngua bantu, que
foram precedidos pelos grupos San e Khoi-Khoi, cujos remanescentes so os
Sandawe e os Hadzapi. Outros povos da mesma regio falam lnguas cuchticas
ou pertencentes a outros grupos, como, por exemplo, o Iraqw. Todas essas lnguas
so anteriores  expanso das lnguas bantu, algumas das quais apareceram em
pocas relativamente recentes.
    Entre a rea das lnguas camito-semticas do norte e a das lnguas
paleoafricanas do sul, intercala-se o vasto domnio das lnguas chamadas por
M. Delafosse de "negro-africanas", por Meinhof e Westermann de sudanesas
e bantu, enquanto J. Greenberg as coloca nas famlias Congo-Kordofaniana e
nilo-saariana. Em 1963, reconhecendo a unidade dessas lnguas, propus cham-
-las lnguas zindj. Dentro dessa categoria geral, famlias ou grupos lingusticos
poderiam eventualmente ser distinguidos, segundo o resultado das pesquisas.
    A "expresso "lnguas negro-africanas"  insatisfatria. O primeiro termo
parece confundir as noes de raa e lngua. Ora, os habitantes negros das
Amricas e da prpria frica falam lnguas totalmente diferentes. O segundo
termo da expresso  africanas  tambm  inadequado, posto que todas as
lnguas faladas pelos habitantes da frica, inclusive o africner, so lnguas
africanas.
    Alm disso, a diviso das lnguas "negro-africanas" em dois grupos  sudanesas
e bantu  tambm parece errnea, uma vez que os estudos de D. Westermann
demonstraram que as lnguas da frica ocidental tm muitas caractersticas em,
comum com as lnguas bantu do ponto de vista lexical e estrutural. Esse trabalho
preparou o caminho para uma reviso geral da classificao das lnguas africanas,
que a escola lingustica alem lanou de maneira to desastrosa. A classificao
proposta por Greenberg  baseada no mtodo denominado "mass comparison".
Tendo em conta os traos fundamentais do sistema gramatical, baseia-se
principalmente no lxico. Aplicando esse mtodo, Greenberg distinguiu, em
1954, 16 famlias lingusticas na frica, e mais tarde apenas 12. Em 1963, esse
nmero foi reduzido a quatro. Uma queda to rpida no nmero de famlias
lingusticas indica claramente que o mtodo no foi suficientemente elaborado
e que houve pressa excessiva em produzir, a todo custo, uma classificao.
Migraes e diferenciaes tnicas e lingusticas   313




figura 11.14 Mulher peul
(Foto Archives outre-mer).
Figura 11.15 Mulher peul
das proximidades de Garoua-
-Boulay, Camares (Foto Hoa-
Qui).
Figura 11.16 Jovem peul do
Mali (Foto A. A. A. Naud).
314                                                    Metodologia e pr-histria da frica



    Das quatro famlias mantidas por Greenberg, o grupo afro -asitico
corresponde, na verdade,  prpria famlia camito-semitica. Quanto  famlia
dita de lnguas com cliques, mais tarde chamada khoisan, compreende as lnguas
dos povos San e Khoi-Khoi. Como j foi afirmado, essa combinao  errnea.
Alm da famlia nger-congo,  qual Greenberg juntou mais tarde as lnguas do
Kordofan, ele distingue um quarto grupo, formado pelas lnguas nilo-saarianas,
cuja estrutura, porm, at agora foi muito pouco estudada. Em 1972, Edgar
Gregersen, usando o mtodo de Greenberg, chegou  concluso de que todas
as lnguas dessas duas ltimas famlias podiam ser reunidas em uma s famlia
lingustica, para a qual props o nome de congo-saariana. Essa opinio vem de
encontro  minha proposta de reunir todas essas lnguas sob a denominao
de grupo zindj. O grupo  caracterizado pelo uso de tons variantes e classes
nominais, ao contrrio das lnguas camito-semticas ou eritreias, cujos traos
especficos so o acento e o gnero gramatical.  possvel que estudos posteriores
revelem o carter especfico de uma lngua em particular ou grupos de lnguas
dentro da famlia zindj ou congo-saariana, mas esta, por ora, apresenta o mesmo
tipo de coerncia que a famlia indo-europeia, por exemplo.
    Dentro da grande famlia zindj, as lnguas bantu apresentam, sem dvida,
um aspecto de grande homogeneidade, como demonstram os trabalhos de W.
H. I. Bleek, C. Meinhof e M. Guthrie. Dentre os subgrupos identificados por
D. Westermann nos grupos lingusticos sudaneses, o mande , com certeza, o
de identidade mais definida.
    A leste e oeste do grupo mande esto as lnguas que Westermann denominou
oeste-atlnticas ou gur. Contudo, essas lnguas esto longe de apresentar a
mesma homogeneidade que as lnguas mande, de tal forma que os linguistas
britnicos identificaram entre elas um grupo distinto, que denominaram lnguas
mel. De fato, essa regio do extremo oeste africano foi um refgio, onde vagas
sucessivas de pequenos povos se comprimiram, pressionadas pela chegada de
novas populaes. Algumas dessas lnguas ainda conservam traos caractersticos
das lnguas bantu, sendo o caso mais notvel o da lngua bullom. A hiptese
anterior da unidade das lnguas gur foi derrubada pelos trabalhos de Manessy,
autoridade eminente na rea. A presena, nessas lnguas, de classes nominais
formadas de maneiras variadas pelo uso de prefixos, sufixos e mesmo infixos,
reflete a complexidade tnica dessa rea, que serviu de refgio a muitos dos assim
chamados grupos paleonegrticos, que se distribuem pelas reas montanhosas
em todo o Sudo, do Senegal ao Kordofan. So considerados remanescentes
dos mais antigos habitantes autctones do Sudo, o que, todavia, parece pouco
provvel, dada a diversidade lingustica e a variedade de tipos fsicos do mosaico
Migraes e diferenciaes tnicas e lingusticas                             315



de grupos que se acumularam nessas reas inspitas. As crnicas sudanesas
referem-se a alguns desses eventos, demonstrando, assim, que no se trata de
um processo muito antigo. Por isso, a fragmentao dialetal na frica deve ser
ligada, antes de tudo, a causas histricas que impulsionaram vagas ou infiltraes
migratrias.
    Dentre as lnguas do Sudo oriental, que so as menos estudadas, as nilticas
constituem, talvez, um grupo  parte, uma espcie de famlia geneticamente
integrada, que deve ter se desenvolvido durante um longo perodo de isolamento.
    A extrema complexidade da composio tnica e lingustica dos povos do
Sudo oriental  mostrada no notvel trabalho dos linguistas ingleses M. A.
Bryan e A. N. Tucker. Seguindo um mtodo, ao que parece, bastante racional,
utilizaram como critrios certos traos lingusticos caractersticos, opondo as
lnguas T/K e N/K. Dentre os grupos lingusticos dessa grande famlia congo-
-saariana, as lnguas bantu apresentam um parentesco gentico to notvel que
pode ser encarado como um fenmeno relativamente recente. No s linguistas
como tambm historiadores e arquelogos empenharam-se em elucidar a "gnese
dos Bantu". Mas as hipteses diferem. Alguns presumem que a migrao bantu,
partindo do norte, mais precisamente da regio do Camares ou da bacia do
Chade, teria margeado a floresta de modo a contorn-la a leste e, passando pela
frica oriental, ter-se-ia difundido na frica meridional. Outros, como Sir H.
Johnston, acreditam que os Bantu vieram diretamente da regio centro-africana,
atravs da floresta do Zaire. Por fim, alguns estudiosos, de acordo com a teoria
do linguista M. Guthrie, que situa o ncleo lingustico prottipo dos Bantu entre
os Luba e Bemba no Alto Zaire, apontam essa regio como seu lugar de origem.
Avanando ainda mais, chega-se a apresentar os povos de lngua bantu como
uma unidade cultural e biolgica, esquecendo-se que o termo bantu  apenas
uma referncia lingustica. Todavia, alguns arquelogos associam a difuso do
ferro na parte meridional do continente  migrao dos Bantu, que teriam
introduzido uma tecnologia superior. Ora, ao desembarcar na ilha de Fernando
P, no fim do sculo XV, os portugueses encontraram uma populao que falava
bubi, lngua bantu, mas que desconhecia o uso do ferro. Esse erro, que consiste
em confundir lngua e modo de vida ou de produo, j tinha sido cometido pelos
etngrafos, que acumularam no conceito de camita uma unidade de raa, lngua
e civilizao; ora, importa no insistir em se procurar tipos puros na evoluo
histrica. De fato, os povos Bantu diferem grandemente do ponto de vista
antropolgico: cor da pele, altura, dimenses corporais, etc. Assim, os Bantu das
florestas tm caractersticas somticas diferentes dos Bantu que vivem na savana.
Tambm h grandes variaes no tipo de atividade econmica e na organizao
316                                                    Metodologia e pr-histria da frica



social. Alguns grupos Bantu so matrilineares, outros, patrilineares; uns usam
mscaras e mantm sociedades secretas, outros no tm nada semelhante. O
denominador comum  a estrutura lingustica baseada em classes nominais,
tendo sempre os ndices dessas classes uma expresso fontica similar fundada
num sistema verbal nico.
    Nas savanas do Sudo, povos que falavam lnguas com classes nominais em
que as diferenas de tonalidade tinham um papel importante, aparentemente
coexistiram durante longo tempo.  medida que o Saara se dessecava, esses povos
se retiravam para reas mais midas: as montanhas do norte, o vale do Nilo a
leste, e o grande lago paleochadiano ao sul. Esses grupos de caadores e criadores
de gado suplantaram os povos autctones, que foram forados a se retirar para
o sul, penetrando a floresta ou contornando-a pelo leste. Essas migraes no
esto necessariamente relacionadas com o incio da difuso do ferro, mas  certo
que o conhecimento de metalurgia que possuam os povos recm-chegados
conferia-lhes vantagem sobre os autctones. As jazidas de cobre assim como
o trabalho antigo deste metal situam-se na mesma regio que foi identificada
por Guthrie como o ponto focal do domnio bantu, onde as lnguas luba e
bemba apresentam a maior porcentagem de palavras pertencentes ao vocabulrio
"comum a todas as lnguas bantu". O desenvolvimento da manufatura do cobre
impulsionou a posterior expanso da civilizao. Quanto maior a distncia do
ponto focal, menor a pureza do tipo lingustico bantu, pois, na medida dessa
distncia, aumenta a miscigenao dos povos de lngua bantu com povos de
outras lnguas.
    Esse caso especfico nos mostra que os conceitos de lngua, tipo antropolgico
e civilizao nunca devem ser confundidos, mas que, no povoamento gradual
do continente por diferentes grupos humanos, o modo de produo deve ter
frequentemente atuado como vetor principal da expanso lingustica e mesmo
da predominncia de determinadas caractersticas biolgicas.
Classificao das lnguas da frica                                       317



                                      CAPTULO 12


                        PARTE I
           Classificao das lnguas da frica
                                       J. H. Greenberg




   Como qualquer outro conjunto de entidades, as lnguas podem ser classificadas
de infinitas maneiras. Um mtodo particular, porm, comumente chamado de
mtodo de classificao gentica, possui caractersticas singulares e importantes,
de modo que ao empregarmos o termo "classificao" sem outras especificaes
em relao  lngua, estaremos referindo-nos a este tipo de classificao.  o
mtodo em que se basear a minuciosa classificao apresentada nas ltimas
sees deste captulo.


    Natureza e objetivos da classificao das lnguas
    Uma classificao gentica apresenta-se sob a forma de conjuntos de unidades
hierrquicas que possuem a mesma organizao lgica de uma classificao biolgica
em espcies, gneros, famlias, etc., em que os membros do conjunto situado em
um determinado nvel se incluem em conjuntos de um nvel superior. Poder-se-ia
apresent-la tambm sob a forma de uma rvore genealgica. O fato de duas ou mais
lnguas compartilharem de um ancestral imediato numa arvore genealgica significa
serem elas provenientes de dialetos de uma mesma lngua que se diferenciaram pela
evoluo. Tal classificao pode ser ilustrada com o exemplo bastante conhecido do
indo-europeu. Uma vez que ainda no se conseguiu estabelecer que o indo-europeu
tenha pertencido a um grupo mais abrangente, consider-lo-emos o nvel mais alto.
318                                                                       Metodologia e pr-histria da frica



A famlia indo-europeia divide-se em um certo nmero de ramificaes, em que
figuram, entre outros, o germnico, o celta, o eslavo e o indo-iraniano.
    Equivale a dizer que a primeira comunidade lingustica indo-europeia dividiu-
-se em um certo nmero de dialetos: o germnico, o celta, etc. O germnico,
por sua vez, dividiu-se em trs dialetos: o gtico, o germnico ocidental e o
escandinavo. O gtico extinguiu-se, tendo chegado ao nosso conhecimento
atravs de antigos registros, ao passo que o germnico ocidental se diferenciou
em anglo-friso, baixo-alemo e alto-alemo. Atualmente, cada um deles
constitui um grupo de dialetos locais, sendo que alguns servem de base a lnguas
padronizadas, como, por exemplo, o alemo (dialeto alto-alemo), o neerlands
(dialeto baixo-alemo) e o ingls (dialeto anglo-friso).
    A importncia das classificaes realizadas segundo tais princpios reside
principalmente no fato de refletirem a histria real da diferenciao tnica
dentro do domnio da lngua. Alm disso, formam a base necessria  aplicao
dos mtodos da lingustica comparativa, que permite reconstruir grande parte
da histria lingustica de vrios grupos. Por fim, esse conhecimento da histria
lingustica fornece a base necessria para inferncias acerca da histria cultural
no-lingustica dos grupos em questo.


      Histria da classificao das lnguas da frica
    Evidentemente, no seria possvel empreender uma classificao completa das
lnguas da frica sem uma compilao exaustiva de dados empricos relativos a
essas lnguas. Somente no incio do sculo XIX  que se puderam reunir elementos
suficientes para uma primeira tentativa de classificao. Antes disso, porm, j
se tinham feito algumas observaes relevantes para a classificao, com base
em uma compilao de dados cujo incio pode ser fixado no sculo XVII, poca
em que surgem as primeiras gramticas e dicionrios de lnguas africanas1. Para
exemplificar, no incio do sculo XVII Luis Moriano observou que a lngua
malgaxe "assemelhava-se muito ao malaio, o que prova de maneira quase cabal
que os primeiros habitantes vieram dos portos de Malaca"2. Pela mesma poca,


1     Para maiores informaes sobre a histria da lingustica africana, ver C. M. DOKE e D. T. COLE, 1961;
      D. T. COLE. In: T. A. SEBEOK (dir.), 1971, p. 1-29. Encontram-se, por vezes, palavras provenientes
      de lnguas africanas nas obras de autores medievais. Ver, a esse respeito, M. DELAFOSSE, 1912-1914,
      p. 281-88 e C. MEINHOF, 1919-1920, p. 147-52.
2     "Relation du voyage de dcouverte fait  l'le Saint-Laurent dans les annes 1613- 1614...", manuscrito
      portugus publicado em traduo francesa. In: A. e G. GRANDIDIER, 1903-1920, p. 22.
Classificao das lnguas da frica                                                      319



vrios pesquisadores portugueses observaram a semelhana entre as lnguas de
Moambique, na costa oriental da frica, e as de Angola e do Congo, a oeste,
prenunciando assim o conceito de uma famlia de lnguas bantu a abranger a maior
parte do tero meridional do continente. O outro exemplo so as descries do
gueze e do amrico feitas por Hiob Ludolf no sculo XVII, que mostram terem
essas lnguas etopes algum parentesco com o hebraico, o aramaico e o rabe.
    O sculo XVIII pouco contribuiu para o conhecimento das lnguas africanas.
Perto do fim desse perodo, contudo, constatamos que o conceito bsico de
classificao gentica comea a tornar-se mais claro sob a forma de hipteses
especficas a respeito da existncia de certas famlias de lnguas, hipteses estas
que constituram, no sculo XIX, a base do desenvolvimento da lingustica
enquanto cincia histrico-comparativa.
    As obras sobre histria da lingustica comumente citam a afirmao de
William Jones (1786) acerca do parentesco das lnguas indo-europeias como o
fator decisivo para esse desenvolvimento. Tais ideias j pairavam no ar: cinco anos
antes, Marsden enunciara, pelo menos com igual clareza, hiptese semelhante
a propsito das lnguas malaio-polinsias, assim como fizera Gyarmathy em
relao s lnguas fino-gricas.
    Tal evoluo se fez acompanhar de uma verdadeira mania de coletar
materiais comparativos sobre um grande nmero de lnguas. A primeira obra
dessa natureza foi o Glossarium Comparativum Linguarum Totius Orbis, de 1787,
patrocinado por Catarina, a Grande, imperatriz da Rssia; a edio revisada de
1790-1791 inclua dados de trinta lnguas africanas.
    No incio do sculo XIX, assistimos a uma acentuada acelerao na produo
de gramticas e dicionrios de lnguas africanas, assim como na publicao de
listas comparativas de palavras de um considervel nmero dessas lnguas, como
as de Kilham (1828), Norris (1841) e Clarke (1848)3.
    A mais importante dessas listas, tanto pela extenso quanto pelo carter
sistemtico de sua organizao e de sua simbolizao fontica,  sem dvida a
clssica Polyglotta Africana, compilada em Freetown (Serra Leoa) por S. W. Koelle4.
    O acmulo de dados no incio do sculo XIX foi concomitante s primeiras
tentativas de classificao de conjunto, como, por exemplo, as realizaes de Balbi e,
nas sucessivas edies de Inquiry into the Physical History of Mankind, as de Prichard5.


3    KILHAM, H. 1828; NORRIS, E. 1841; CLARKE, I. 1848.
4    KOELLE, S. W. 1963.
5    BALBI, A. 1826. A ltima edio de J. C. PRICHARD foi revista e aumentada por E. NORRIS;
     PRICHARD, J. C. 1855.
320                                                           Metodologia e pr-histria da frica



   Embora diferindo em detalhes, certas concluses geralmente aceitas
emergiram no decorrer da primeira metade do sculo XIX. Algumas foram
comprovadas por pesquisas posteriores, enquanto outras tiveram pelo
menos o mrito de levantar questes que os classificadores vieram a resolver
posteriormente. Os resultados a que se chegou em 1860 podem ser resumidos
da seguinte forma:
              O termo "semtico", introduzido por Schlzer em 1781, j possua
               praticamente a acepo atual6. A existncia de um ramo etope desta famlia,
               incluindo o gueze (etope clssico) e as lnguas modernas, como o amrico
               e o tigrina, estava bem estabelecida.
              J havia sido observada a semelhana e provvel parentesco de algumas
               outras lnguas com o semtico; entre elas se incluam o antigo egpcio, o
               berbere e o cuxita. Estas ltimas so faladas principalmente na Etipia e na
               Somlia. Alguns autores incluram na mesma categoria o haussa da frica
               ocidental. Essas lnguas foram por vezes chamadas de subsemticas. O termo
               "camtico" foi proposto por Renan em 18557.
              Atribui-se a Lichtenstein o mrito de ter sido o primeiro a distinguir
               claramente, entre as lnguas da frica do Sul, as lnguas khoi e san, de um
               lado, e as lnguas bantu de outro8. J se reconhecia claramente na poca a
               existncia deste ltimo grupo de lnguas estreitamente aparentadas, tambm
               chamado famlia cafre ou famlia de lnguas sul-africanas. O termo bantu,
               extrado da palavra que significa "homens" em um grande nmero dessas
               lnguas, foi proposto pela primeira vez por W. H. I. Bleek, que, em 1851,
               estabeleceu as bases do estudo comparativo das lnguas bantu. Trata-se de
               um termo universalmente empregado at hoje.
              Restava ainda um grupo muito extenso, que compreendia a maior parte
               das lnguas faladas no Sudo ocidental e oriental e que no podiam ser
               classificadas dentro dos grupos acima mencionados: as lnguas que no
               eram nem semticas, nem camticas, nem san, nem bantu. Eram chamadas,
               de modo geral, lnguas "negras" e constituam o maior problema dos
               classificadores. Norris, em sua reviso da obra de Prichard em 1855, admitiu
               que elas "escapavam  classificao" e que "os Negros at ento haviam sido




6     SCHLOZER, A. L. Von, parte 8, 1781, p. 161.
7     RENAN, E. 1855, p. 189.
8     LICHTENSTEIN, H. 1811-1812.
Classificao das lnguas da frica                                                            321



                considerados como constituintes de uma raa mais por razes fisiolgicas
                do que filolgicas"9.
               Embora at recentemente todas as classificaes de conjunto das lnguas
                africanas separassem completamente as lnguas bantu das lnguas ditas
                "negras", alguns observadores notaram que muitas das lnguas consideradas
                "negras", principalmente as da frica ocidental, mostravam parentesco com
                o grupo bantu. Ao que parece, o primeiro a atentar para esse fato foi o
                bispo O. E. Vidal em sua introduo  gramtica do ioruba, de Samuel
                Crowther10. Bleek deu uma definio geral ao termo "bantu" estendendo
                sua aplicao  maior parte da frica ocidental at o 13o grau de latitude
                norte, do Senegal ao Nilo superior11. Essa ideia fundamental foi retomada
                por Westermann muito tempo depois sob forma modificada, e, de modo
                mais explcito, por Greenberg, na classificao corrente nos dias de hoje.
               A filiao do malgaxe ao malaio-polinsio e, consequentemente, o seu no-
                -parentesco com as lnguas da frica j haviam sido observados, como
                vimos, no sculo XVII, e eram geralmente aceitos.
    A dcada de 1860 destacou-se pela publicao de duas classificaes
completas que deveriam dominar o campo at quase 1910. A primeira foi a
de Lepsius, que apareceu em duas verses, em 1863 e 188012. A outra foi a de
Friedrich Mller, que tambm teve duas verses, a de 1867 e a de 188413. A
obra de Mller forneceu a base para o importante estudo de R. N. Cust, que
contribuiu para difundir sua obra nos pases de lngua inglesa. O estudo de Cust
 uma fonte extremamente preciosa para a bibliografia da lingustica africana
at aquela poca.
    Tanto Lepsius como Mller excluram de suas classificaes o malgaxe,
considerando-o uma lngua no-africana. Para os demais linguistas, o principal
problema era o das lnguas "negras" e sua posio em relao ao bantu, por
ser este, dentre todos os grupos de lnguas faladas pelos povos negros, o nico
extenso e bem determinado. Tanto na classificao de Mller como na de
Lepsius, as consideraes raciais representaram um papel muito importante,
embora de modo diferente.


9    PRICHARD. J. C. 1855, v. I, p. 427.
10   VIDAL, O. E. In: CROWTHER, S. 1852.
11   BLEEK. W. H. I. 1862-1869, v. I, p. 8.
12   LEPSIUS, C. R. duas edies, 1863 e 1880.
13   MLLER, F. 1867; 1876-1884. Para as lnguas africanas. ver I, 2 (1877) e III, 1 (1884).
322                                                     Metodologia e pr-histria da frica



    Lepsius adotou como base de sua classificao o critrio dos tipos de
classificao do substantivo. Tal enfoque provinha do trabalho anterior de
Bleek (1851)14. Bleek ficara impressionado com o que considerava a diferena
fundamental entre as lnguas bantu, que possuam sistemas complexos de classes
nominais em que o gnero baseado em sexo no desempenhava nenhuma
funo, e as lnguas semticas e camticas, que tinham a distino de gnero
baseada no sexo como princpio de classificao nominal. Aplicando tal critrio,
Bleek classificou o khoi-khoi entre as lnguas camticas por possuir este tipo
de distino de gnero, apesar de se assemelhar s lnguas san em quase todos
os outros aspectos.
    Lepsius, tomando como ponto de partida a ideia geral de Bleek, considerou
que, dentre as lnguas faladas por populaes negras, o bantu  em que a
classificao nominal no se baseia no sexo  era a lngua original, ao passo que
as demais tornaram-se mistas pela influncia das lnguas camticas. Classificou
as lnguas em quatro grupos: 1. bantu; 2. negro misto; 3. camtico; 4. semtico.
No entanto, existem duas categorias fundamentais: a) lnguas bantu e negras
mistas (lnguas com classes nominais); b) lnguas semticas e camticas (lnguas
com distino de gnero). Afinal, haveria a possibilidade de se demonstrar
que estas ltimas tm parentesco com o indo-europeu, que tambm possui
distino de gnero baseada no sexo. De fato, Lepsius agrupava o indo-europeu,
o semtico e o camtico numa mesma famlia, que chamou de "nota", com trs
ramos que representavam os trs filhos de No: Sem, Cam e Jafet. Declara
explicitamente a superioridade das lnguas com distino de gnero: "Parece
indubitvel, no entanto, que os trs grandes ramos das lnguas com distino de
gnero no s tenham sido no passado os depositrios e os rgos do processo
histrico da civilizao humana, mas tambm que neles, e particularmente
no ramo mais jovem, o jaftico, repousa a esperana futura do mundo"15. O
parentesco intelectual das "teorias camticas"  evidente, desde Bleek at as
teorias posteriores de Meinhof, passando pelas de Lepsius.
    Na obra exaustiva de Mller, publicada em 1884, todas as lnguas conhecidas
do mundo so classificadas segundo a hiptese de uma relao fundamental
entre o tipo fsico do falante e a lngua. Suas principais divises so "as lnguas
dos povos de cabelos lisos", "as lnguas dos povos de cabelos crespos", etc. Essa
hiptese o leva, por exemplo, a classificar o khoi-khoi no entre as lnguas
camticas, como faz Lepsius, mas entre as lnguas das raas de cabelos ondulados,

14    BLEEK. W. H. I. 1851.
15    LEPSIUS, C. R. 1880, p. 90.
Classificao das lnguas da frica                                                                      323



juntamente com o papua. A maioria das lnguas "negras" distribuem-se entre as
lnguas negro-africanas e bantu. Sua hiptese sobre essa questo  exatamente
oposta  de Lepsius, uma vez que considera as primeiras como representantes
do tipo original, e as segundas suas derivadas. Para ele, certo nmero de lnguas
faladas por populaes negras pertence a um grupo culturalmente mais avanado
chamado nuba-fula, cujos falantes so fisicamente semelhantes aos mediterrnicos
e aos dravdicos, classificados como populaes de cabelos encaracolados. Nos
trabalhos de Cust, que divulgam as opinies de Mller aos leitores de lngua
inglesa, as lnguas da frica aparecem divididas em seis grupos: 1. semtico; 2.
camtico; 3. nuba-fula; 4. negro; 5. bantu; 6. khoisan.
    As discusses em torno da classificao ficaram suspensas durante algum
tempo, e o interesse dos linguistas concentrou-se na rdua tarefa cientfica de
descrever as lnguas africanas. A obra de Westermann sobre as lnguas sudanesas
(1911) e a de Meinhof sobre as camticas (1912) inauguram o perodo moderno16.
    A primeira dessas obras, cuja tese fundamental foi, ao que parece, inspirada
em Meinhof, introduziu o termo "sudans", que abrangia quase todas as lnguas
da frica no includas nos grupos semtico, camtico (em seu sentido mais
amplo dado por Meinhof ), bantu e san. Portanto, designava essencialmente
todas as lnguas antes chamadas "lnguas negras". Dentro dessa vasta coleo,
Westermann selecionou oito lnguas (sem fornecer, entretanto, a lista completa),
das quais cinco eram do Sudo ocidental e trs do Sudo oriental, e procurou
estabelecer parentesco entre elas atravs de uma srie de etimologias e de formas
ancestrais reconstitudas.
    Meinhof, j clebre por sua obra fundamental sobre o estudo comparativo
do bantu, procurou, em seu livro sobre as lnguas camticas, estender os limites
da famlia camtica para alm dos geralmente aceitos, incluindo lnguas como o
fulfulde, o massai e, seguindo Lepsius, o khoi-khoi, baseando-se essencialmente
no critrio do gnero. A obra deixava transparecer claramente sua convico da
superioridade racial camtica17.
    Do trabalho conjunto de Meinhof e Westermann surgiu uma diviso em
cinco grupos (semtico, camtico, sudans, bantu e san). Essas concluses foram
difundidas nos pases de lngua inglesa por Alice Werner e tornaram-se norma
nos manuais de antropologia e de lingustica18.


16   WESTERMANN, D. 1911; MEINHOF, C. 1912.
17   A hiptese camtica tornou-se a base de uma interpretao cultural e histrica muito desenvolvida. Sobre
     essa questo, ver E. R. SANDER, 1969, p. 521-32.
18   WERNER, A. 1915 e 1930.
324                                                                        Metodologia e pr-histria da frica



    Tal classificao no permaneceu inconteste durante seu perodo de
predominncia (aproximadamente 1910-1950). Embora no figurasse nos
manuais comuns, a crtica mais importante veio do prprio Westermann em
seu relevante trabalho sobre as lnguas sudanesas ocidentais (1927)19. Nesta obra,
ele restringe sua concepo anterior das lnguas sudanesas s lnguas do oeste
da frica e identifica, atravs de minuciosa documentao lxica e gramatical,
um certo nmero de subgrupos distintos no interior do sudans ocidental
(por exemplo, o atlntico ocidental, o kwa e o gur). Mais importante ainda 
o fato de ter assinalado as semelhanas de detalhe entre o sudans ocidental
e o bantu quanto ao vocabulrio e  estrutura gramatical, sem, entretanto,
afirmar seu parentesco de modo explcito. De fato, Sir Henry Johnston, em
sua extensa obra sobre o bantu e o semibantu, tinha considerado muitas
lnguas da frica ocidental como sendo aparentadas ao bantu20. Tais lnguas
eram por ele denominadas "semibantu". Continuou, entretanto, a respeitar o
critrio tipolgico, da classificao do nome, de modo que, se entre duas lnguas
estreitamente relacionadas, uma possusse classes nominais, era considerada
semibantu, enquanto a outra no.
     necessrio ainda mencionar brevemente outras classificaes do perodo entre
1910 e 1950, das quais apenas a de Delafosse alcanou alguma difuso. A classificao
proposta por A. Drexel procurou demonstrar a relao entre as famlias de lnguas
africanas e as culturas, relao esta postulada pela Kulturkreislehre. O africanista
francs M. Delafosse, contrariamente aos pesquisadores alemes da poca, limitou
o camtico ao berbere,21 ao egpcio e ao cuxita e reuniu todas as outras lnguas que
no eram semticas nem khoisan numa grande famlia negro-africana22. Alm de
identificar dezesseis ramficaes no-bantu, muitas das quais fundamentadas em
critrios geogrficos e no puramente lingusticos, Delafosse considerava, ao que
parece, que o bantu deveria estar includo entre as lnguas negro-africanas. Parte
da terminologia de Delafosse  ainda utilizada correntemente entre africanistas de
expresso francesa. Deve-se tambm mencionar Mlle. Homburger que, partindo

19    WESTERMANN, D. 1927.
20    JOHNSTON, S. H. 1919-1922.
21    Nota acrescentada a pedido de um membro do Comit: Esta classificao no  apenas contrria s
      opinies de pesquisadores alemes, mas tambm  verdade cientfica pura. Os linguistas norte-africanos
      apontaram os motivos polticos que levaram a escola colonialista francesa a classificar a lngua berbere
      entre as lnguas camito-semticas. A realidade  que o berbere  uma lngua semtica, e mesmo uma das
      mais antigas lnguas dessa famlia, juntamente com o acadiano e o hebraico. Assim, no  nem camito-
      -semtico nem afro-asitico, como se diz em outras partes deste captulo. Ver, particularmente, em rabe:
      M. El-Fasi: "O berbere, lngua-irm do rabe", Atas da Academia do Cairo, 1971.
22    DELAFOSSE, M. 1924, p. 46560.
Classificao das lnguas da frica                                                                           325



igualmente da noo de unidade lingustica africana, concebida, entretanto, de
modo ainda mais amplo, adotou a teoria de uma fonte egpcia como explicao
dessa unidade e mesmo, sem atentar para a contradio, a de uma derivao
longnqua a partir das lnguas dravdicas da ndia23.
    Entre 1949 e 1950, o autor do presente captulo definiu, em uma srie de
artigos publicados no Southwestern Journal of Anthropology, uma classificao nova
em muitos aspectos, que acabou por obter aceitao geral24. Por seu mtodo,
diferia em vrios pontos das classificaes anteriores. Era estritamente gentica,
no sentido definido na introduo deste captulo. Portanto, considerava probantes
as grandes semelhanas entre grupos de lnguas, que envolviam ao mesmo tempo
som e significado, quer se tratasse de razes (do vocabulrio) quer de formantes
gramaticais. As semelhanas relativas apenas ao som, por exemplo, a presena de
tons, ou as que se referem apenas ao significado, como por exemplo, a existncia
do gnero gramatical sem concordncia das formas fonticas das desinncias,
eram consideradas irrelevantes. Tais caractersticas tipolgicas, como vimos,
desempenhavam um papel importante nas classificaes precedentes. Assim, a
existncia, por exemplo, dos gneros masculino e feminino no era considerada
por si s uma prova de parentesco, pois essa distino de gnero pode aparecer 
e de fato aparece  independentemente em diversas partes do mundo. Por outro
lado, a existncia de um marcador do gnero feminino t em todas as ramificaes
do afro-asitico (camito-semtico) constitui um ndice positivo de parentesco.
Do mesmo modo, a ausncia de distino de gnero por perda da categoria no
constitui em si uma prova negativa. Esses princpios so geralmente aceitos nas
reas onde os mtodos comparativos esto bem estabelecidos como, por exemplo,
no indo-europeu. O persa, o armnio e o hitita, entre outros, no fazem distino
de gnero, o que j no ocorre com a maior parte das demais lnguas da famlia.
    As antigas classificaes, como a de Lepsius, no utilizavam nem citavam
provas concretas para seus agrupamentos. Em sua obra sobre o sudans,
Westermann forneceu etimologias, mas apenas para oito lnguas, tomadas
entre centenas. A nica obra anterior a 1950 a apresentar provas detalhadas
foi o trabalho de Westermann sobre o sudans ocidental, referente apenas a
uma parte da frica. Na classificao do autor do presente captulo, foram
apresentadas etimologias e caractersticas gramaticais comuns especficas


23   HOMBURGER, L. 1941.
24   Para a verso mais recente da classificao de GREENBERG, ver J. H. GREENBERG, 1966 (b). Uma
     bibliografia da literatura onde se discute essa questo  encontrada em D. WINSTON, "Greenberg's
     classification of African languages", African Language Studies. v. 7, 1966. p. 160-70. Para um ponto de vista
     diferente, ver o captulo 11, da autoria do Professor D. OLDEROGGE. Ver tambm Ch. A. DIOP.
326                                                                    Metodologia e pr-histria da frica



para todos os grupos importantes, de acordo com um estudo exaustivo da
literatura.
    As propostas concretas mais importantes, algumas das quais provocaram
acirradas controvrsias entre os especialistas, so as seguintes:
             Admite-se o parentesco do bantu com o sudans ocidental, com base
              nos dados de Westermann. O bantu tornou-se no um ramo distinto
              dessa famlia mais ampla, mas apenas um subgrupo dentro do que
              Westermann denominou subgrupo benue -congo ("semibantu") do
              sudans ocidental. Ademais, muitas outras lnguas, faladas mais a leste
              (ramo adamaua oriental) fazem parte dessa famlia, que recebeu o novo
              nome de nger-congo.
             Dentre as extenses do camtico propostas por Meinhof, somente o
              haussa se conservou. Alm disso, o haussa  apenas um membro de um
              extenso ramo (chdico) do camito-semtico. O semtico a se inclui,
              mas simplesmente como um ramo da mesma classe dos outros. Assim,
              o camtico torna-se somente um nome arbitrrio para os ramos no-
              -semticos da famlia maior, agora chamada de afro-asitica e considerada
              como sendo constituda por cinco ramos: 1. berbere; 2. egpcio antigo; 3.
              semtico; 4. cuxtico; 5. chdico25.
             As lnguas "negras" no includas no grupo nger-congo foram classificadas
              em um outro grande grupo, o nilo-saariano.
             O khoi-khoi foi classificado como uma lngua "san", pertencente ao grupo
              central do khoisan da frica do Sul.
   O resultado global  que as lnguas africanas (excluindo -se o malgaxe)
classificam-se em quatro famlias principais, que, nas sees que se seguem,
sero examinadas individual e pormenorizadamente 26. Nesta exposio
mencionam-se, conforme o caso, propostas recentes para modificar ou estender
a classificao original, bem como as crticas mais fundamentais.




25    LUKAS, I. 1938, p. 286-99; COHEN, M. 1947.
26 Para listas de lnguas mais detalhadas (que no  possvel fornecer aqui devido  limitao de espao),
   ver I. H. GREENBERG, 1966 (b), nos volumes da srie Handbook of African Languages publicado
   pelo International African Institute de Londres e C. F. e F. M. VOEGALIN, lndex of the World's
   Languages, Washington, U. S. Department of the H. E. W., Office of education, bureau of research,
   maio 1973, 6 partes.
Classificao das lnguas da frica                                                                   327



     Lnguas afroasiticas27
    Estas lnguas, tambm chamadas de camito-semticas, cobrem toda a frica
do Norte e quase todo o chifre da frica (Etipia, Somlia); algumas lnguas
do ramo cuxtico estendem-se ao sul at a Tanznia. Ademais, o ramo semtico
inclui lnguas que, atualmente ou em pocas anteriores, abrangiam quase todo
o Oriente Mdio. Em geral considera-se que o afro-asitico compreende cinco
divises quase igualmente diferenciadas: o berbere,28 o egpcio antigo, o semtico,
o cuxtico e o chdico. No entanto, Fleming aventou recentemente que o grupo
de lnguas at agora classificado como cuxtico-ocidental, em que se incluem o
kafa e outras lnguas do sudoeste da Etipia, na verdade constitui um sexto ramo
para o qual se propuseram os nomes "omtico" e "ari-banna".29
    O ramo berbere do afro-asitico apresenta menos diferenciao interna do
que qualquer outro ramo da famlia, com exceo do egpcio. Sua principal
diviso parece estar entre as lnguas de diversos grupos tuaregue do Saara e
o berbere propriamente dito, falado na frica do Norte e na Mauritnia. 
provvel que a lngua extinta dos guanchos das Ilhas Canrias fosse aparentada
ao berbere.  necessrio mencionar ainda a existncia de inscries em Lbio
antigo, que embora no sejam perfeitamente compreensveis, representam
possivelmente uma forma primitiva do berbere.
    Um segundo ramo do afro-asitico, o egpcio, est documentado, em seu
estgio mais primitivo, nas inscries hieroglficas, nos papiros hierticos e,
mais recentemente, nos documentos em escrita demtica. Todas essas escritas
representam a mesma lngua falada. No perodo cristo, essa lngua continuou
a ser falada e desenvolveu extensa literatura escrita em um alfabeto adaptado
do grego. Nesta forma mais tardia, chamada copta, existiam alguns dialetos
literrios, entre os quais o boirico, que ainda sobrevive como lngua litrgica
da igreja copta. Aps a conquista do Egito pelos rabes, a antiga lngua egpcia
foi pouco a pouco perdendo terreno e se extinguiu enquanto lngua falada
provavelmente no sculo XVII.



27   No Simpsio sobre o povoamento do Egito antigo realizado no Cairo, os pesquisadores africanos
     ressaltaram que a classificao do Professor GREENBERG havia negligenciado um dado fundamental:
     o estabelecimento de regras fonticas. A posio desses pesquisadores  tambm a do Professor Tstvan
     Fodor. Estes mesmos pesquisadores levantaram argumentos para provar o parentesco lingustico gentico
     do egpcio e das lnguas africanas modernas.
28 Cf. nota 21 acima.
29   FLEMING, H. C. 1969, p. 3-27.
328                                                      Metodologia e pr-histria da frica



    O ramo semtico do afro-asitico apresenta muito mais diferenciao interna
do que o berbere e o egpcio. Admite-se geralmente que a principal diviso do
semtico seja a existente entre o semtico oriental e o semtico ocidental. O
primeiro  representado apenas pela lngua acadiana de escrita cuneiforme, j
h muito extinta. Possua dois dialetos regionais bsicos, o do sul (babilnio) e
o do norte (assrio). Por sua vez, o semtico ocidental divide-se em semtico do
noroeste e semtico do sudoeste. O primeiro compreende o cananeu (hebraico,
moabita, fencio e, provavelmente, ugartico) e o aramaico. Destas lnguas
apenas sobrevivem o hebraico, ressuscitado como lngua de Israel no decorrer do
sculo passado, e alguns dialetos do aramaico. As formas modernas do aramaico
representam os descendentes do aramaico ocidental, no Anti-Lbano da Sria, e
do aramaico oriental, principalmente no norte do Iraque.
    O semtico do sudoeste tambm possui duas divises, a do norte e a do
sul. O ramo do norte compreende a maior parte dos dialetos da pennsula
rabe e seus descendentes modernos, que dominam uma vasta rea a abranger
a frica do Norte, o Oriente Mdio e partes do Sudo (ou seja, o mundo rabe
propriamente dito). O ramo do sul compreende, por um lado, o rabe do sul, e
por outro, as lnguas semticas da Etipia. O rabe do sul  conhecido em sua
forma primitiva atravs de inscries mineias, sabeias e catabnicas e, em suas
formas contemporneas, do mehri e do shahri, da Arbia do Sul, e do socotri,
lngua da ilha de Socotra, no Oceano ndico.
    As lnguas semticas etopes dividem-se em dois grupos, norte (tigrina, tigre
e gueze ou etope clssico) e sul (amrico, gurague, argoba, gafat e harari).
    O quarto grupo de lnguas afro-asiticas, o cuxtico, compreende um grande
nmero de lnguas que se repartem em cinco ramos bastante diferenciados:
setentrional, central, oriental, meridional e ocidental. O cuxtico setentrional 
formado essencialmente por uma nica lngua, o beja. As lnguas do cuxtico
central so por vezes chamadas lnguas agaw.  provvel que tenham sido faladas
em uma rea contnua, mas seus antigos falantes passaram a adotar, em grande
proporo, as lnguas semticas etopes. Os falasha, ou judeus etopes, falavam
antigamente uma lngua agau. As lnguas do cuxtico central compreendem
um grupo norte (bilim, khamir, qemant) e o awiya, no sul. O cuxtico oriental
compreende as duas lnguas cuxticas com o maior nmero de falantes, o somali
e o gala. As lnguas do cuxtico oriental repartem-se nos seguintes grupos: l.
afar, saho; 2. somali, baiso, rendille, boni; 3. gala, conso, gidole, arbore, warazi,
tsamai, geleba, mogogodo; 4. sidamo, alaba, darassa, hadiya, kambatta, burdji.
O ltimo destes grupos, ou sidamo-burdji, deve provavelmente ser considerado
como um nico ramo em oposio aos outros trs grupos. As lnguas do
Classificao das lnguas da frica                                              329



cuxtico meridional so faladas na Tanznia, abrangendo o burungi, o goroa, o
alawa, o ngomvia (asu), o sanye e o mbugu. Este grupo meridional encontra-
-se linguisticamente mais prximo do cuxtico oriental e pode ser classificado
simplesmente como um subgrupo deste. O mbugu, lngua cuxtica meridional,
sofreu forte influncia do bantu, tanto gramatical como lexical, de modo que
alguns pesquisadores a consideram uma lngua mista.
    As lnguas do cuxtico ocidental so extremamente divergentes das outras
lnguas tradicionalmente consideradas cuxticas. O cuxtico poderia ser dividido
em pelo menos dois grupos, o ocidental e o restante. Como assinalamos
anteriormente, Fleming props que o cuxtico ocidental fosse considerado um
sexto ramo distinto do afro-asitico. As lnguas que o compem podem ser
divididas em dois grupos: o ari-banna (o termo "bako" foi empregado em lugar
de "ari" na literatura antiga) e as demais, que, por sua vez, podem ser agrupadas
da seguinte forma: 1. madji, nao, sheko; 2. djandjero; 3. kaffa, mocha, shinasha,
mao do sul; 4. gimira; 5. grupo ometo ("sidamo ocidental"), que engloba o chara,
o male, o basketo, o complexo welamo, o zaysse e o koyra-gidicho.
    O ltimo ramo do afro-asitico a ser considerado  o chdico. Compreende
o haussa, a lngua mais falada na frica ocidental, e provavelmente outras cem
lnguas, pelo menos, faladas por populaes menos numerosas. De acordo com
Greenberg (1963), as lnguas chdicas dividiam-se em nove subgrupos: 1. a) haussa,
gwandara, b) bede-ngizim, c) i. grupo do warjawa (bauchi do norte), ii. grupo do
barawa (bauchi do sul), d) i. grupo do bolewa, ii. grupo do angas, iii. grupo do ron;
2. grupo kotoko; 3. bata-margi; 4. a) grupo musgoi, b) grupo marakam; 5. gidder;
6. mandara-gamergu; 7. musgu; 8. grupo masa-bana; 9. chdico oriental: a) grupo
somrai, b) grupo gabere, c) grupo sokoro, d) modgel, e) tuburi, f ) grupo mubi.
    Newman e Ma sugeriram que, dentre as subfamlias acima, as de nmero
3 e 6 so particularmente prximas uma da outra, o mesmo ocorrendo com as
subfamlias 1 e 9. Para o primeiro desses pares, propem o nome de biumandara
e para o segundo, de plateau-sahel.30 Estes autores no propem nenhuma
modificao no que concerne aos outros subgrupos.


     NgerKordofaniano
  Esta famlia possui dois ramos bastante desiguais em nmero de falantes e
em extenso geogrfica. O primeiro, nger-congo, compreende grande parte da

30   NEWMAN, P. e MA, R. 1964, p. 218-51.
330                                                                   Metodologia e pr-histria da frica



frica ao sul do Saara, incluindo quase toda a frica Ocidental, partes do Sudo
central e oriental, sendo que seu sub-ramo bantu ocupa a maior parte da frica
central, oriental e meridional. Outro ramo do nger-kordofaniano, o kordofaniano
propriamente dito, confina-se a uma zona limitada da regio do Kordofan no Sudo.
    A diviso fundamental do grupo nger-congo est entre as lnguas mande e
o restante. O mande distingue-se pela ausncia de muitos dos itens lexicais mais
comuns encontrados nas lnguas do nger-congo e pela ausncia de qualquer
trao preciso de classificao nominal, geralmente encontrados no kordofaniano
e no resto do nger-congo. Existem, por certo, muitas lnguas distintas no nger-
-congo que perderam tal sistema. Devido a essa divergncia, Mukarovsky sugeriu
que o mande fosse considerado um ramo do nilo-saariano, a outra grande famlia
de lnguas negras, mas o clebre especialista em lnguas mande, William E.
Welmers, no aceita essa proposio.31
    Hoje admite-se universalmente que a diviso do mande em mande-tan e
mande-fu, proposta por Delafosse32 e baseada na palavra que designa o nmero
dez,  inteiramente desprovida de valor. As lnguas mande podem ser classificadas
do seguinte modo:
    Grupo noroeste: 1. subgrupo norte: susu-yalunka, soninke, kwela-numu, ligbi,
vai-kono, khassonke e maninka-bambara-diula; 2. subgrupo sudoeste: mande-
-bandi, loko, loma, kpelle.
    Grupo sudeste: 1. subgrupo sul: mano, dan, tura, mwa, nwa, gan, guro; 2.
subgrupo oriental: samo, bisa, busa. Uma nica lngua, o sya (bobofing),
no se enquadra nesta lista. Ela  claramente mande, mas talvez deva ser
corisiderada como a primeira ramificao diferenciada desse grupo, de modo
que, geneticamente, representaria um dos dois grupos, sendo o outro mande
propriamente dito.
    As outras lnguas nger-congo so classificadas por Greenberg (1963) em
cinco ramos: 1. oeste-atlntico; 2. gur; 3. kwa; 4. benue-congo; 5. adamaua
oriental. Entretanto, os grupos 2, 3 e 4 so particularmente prximos e formam
uma espcie de ncleo no interior do qual o limite entre o benue-congo e o kwa,
em particular, no est bem definido33.
    O termo "lnguas oeste-atlnticas" foi introduzido por Westermann em
1928 e abrange sensivelmente as mesmas lnguas que o senegals-guneense
de Delafosse e dos pesquisadores franceses que o sucederam. Essas lnguas

31    MUKAROVSKY, H. G. 1966, p. 679-88.
32    DELAFOSSE, M. 1901.
33    Sobre esta questo, ver J. H. GREENBERG. 1963 (c), p. 215-17.
Classificao das lnguas da frica                                                                331



constituem dois grupos claramente delimitados, um norte e um sul. Este
fato, associado  diversidade interna, principalmente do grupo norte, levou
Dalby a sugerir que se abandonasse o conceito de oeste-atlntico e que se
considerasse independente o subgrupo sul, constitudo pelo grupo sudoeste-
-atlntico de Greenberg, com exceo do limba. Para este grupo, ele prope o
termo "mel"34. No entanto, num estudo mais recente, David Sapir, apoiado em
evidncias glotocronolgicas, reafirma a unidade bsica do oeste-atlntico, tal
como foi concebido tradicionalmente, e inclui o limba no ramo sul35. Como
principal inovao, esse estudioso prope que se classifique o bidjago, lngua
das ilhas Bidjago, em um ramo separado, da classe dos ramos norte e sul, o que
corresponde  minha impresso sobre a divergncia desta lngua. Convm notar
que o fulfulde (fula ou fulea), considerado como lngua camtica por Meinhof e
objeto de muita controvrsia, se inclui agora, de comum acordo, no grupo oeste-
-atlntico. A classificao do oeste-atlntico , portanto, a seguinte:
    Ramo norte: 1. a) fula, seereer, b) wolof; 2. grupo noon; 3. dyola, mandjaco,
balante; 4. a) tenda, basari, bedik, konyagi, b) biafada, pajade, c) kobiana, banhum,
d) nalu.
    Ramo sul: 1. sua (kunante); 2. a) temne-baga, b) sherbro-krim, kisi, c) gola;
3. limba.
    Bidjago.
    Outro grupo importante dentro do nger-congo  o gur, tambm chamado
voltense, sobretudo na literatura francesa. As sugestes mais recentes para a
subclassificao do grupo gur so as de Bendor-Samuel, de quem seguimos aqui
as linhas bsicas. Convm observar que a maior parte das lnguas consideradas
gur pertencem a um subgrupo bastante grande que Bendor-Samuel denomina
gur central36; esse subgrupo corresponde ao grupo mossi-grunshi das pesquisas
anteriores. O gur central pode ser dividido em trs subgrupos: 1. more-gurma; 2.
grupo grusi; 3. tamari. Os outros subgrupos do gur so: 1. bargu (bariba); 2. lobiri;
3. bwamu; 4. kulango; 5. kirma-tyurama; 6. win; 7. grupo senufo; 8. seme; 9. dogon.
    Ainda que se admita a existncia de um grupo kwa, distinto do benue-congo
acima mencionado, existem dois subgrupos, o kru no extremo oeste e o ijo no
extremo leste cuja pertinncia ao kwa pode ser considerada duvidosa. Feitas


34   DALBY, D. A. 1965, p. 1-17.
35   Ver SAPIR, D., p. 113-40, na coleo dirigida por SEBEOK. SAPIR, no entanto, faz algumas ressalvas
     a respeito das concluses citadas no texto.
36 Para detalhes sobre os subgrupos, estou seguindo J. T. BENDOR-SAMUEL. In: T. A. SEBEOK, op.
   cit., p. 141-78.
332                                                                  Metodologia e pr-histria da frica



essas ressalvas, os principais subgrupos do kwa so os seguintes, relacionados,
tanto quanto possvel, segundo a direo oeste-leste: 1. lnguas kru; 2. kwa
ocidental, que compreende o ew-f, o akan-guang (atualmente chamado, por
vezes, de volta-camoe), o g-adangme e as lnguas residuais do Toga; 3. ioruba,
igala; 4. grupo nupe; 5. grupo edo; 6. grupo idoma; 7. ibo; 8. ijo. O benue-
-congo  essencialmente o mesmo subgrupo do nger-congo que Westermann
denominou benue-cross ou semibantu, com a incluso do bantu no interior da
subdiviso bantide. Existem quatro divises fundamentais dentro do benue-
-congo: 1. lnguas do planalto; 2. jukunide; 3. rio Cross, cuja principal lngua
 a da comunidade efik-ibibio; 4. bantide, que compreende o bantu, o tiv e um
grande nmero de lnguas menores faladas na rea do curso mdio do Benue.
    Certas lnguas da Nigria, antes consideradas semibantu, no sentido amplo,
so em geral classificadas como bantu atualmente;  o caso dos grupos ekoi e
jarawa. A principal diviso no interior do prprio bantu pode situar-se entre
essas lnguas e o bantu no sentido tradicional. O bantu, neste ltimo sentido,
parece dividir-se em bantu oriental e bantu ocidental. Para uma subdiviso mais
detalhada, emprega-se geralmente a diviso de Guthrie em zonas designadas por
letras, modificadas de maneiras diversas por vrios especialistas37.
    A classificao do grupo bantu, tomado em seu conjunto, como subgrupo
do benue-congo, ele mesmo um ramo da grande famlia nger-congo, constituiu
um dos aspectos mais controvertidos da classificao de Greenberg. Guthrie,
em particular, adotou a tese de que o bantu  geneticamente independente, e as
inmeras semelhanas encontradas entre o bantu e outras lnguas do nger-congo
resultam de influncias bantu sobre um grupo de lnguas fundamentalmente
diferentes. Dessa hiptese, deduziu que o ponto de origem do bantu  o "ncleo"
do Shaba meridional, ao passo que Greenberg o situa no vale mdio do Benue,
na Nigria, porque as lnguas de parentesco mais estreito do subgrupo bantide
do benue-congo so faladas nessa regio38.
    O ltimo grupo do nger-congo  o ramo adamaua oriental. O grupo adamaua
compreende um grande nmero de comunidades lingusticas relativamente
pequenas, dentre as quais pode-se citar como exemplos o tchamba e o mbum.
O ramo "oriental" compreende algumas lnguas de maior importncia como por
exemplo o gbeya, na Repblica Centro-Africana, e o zande39.


37    A respeito desta classificao, ver M. GUTHRIE, 1948.
38    Sobre a controvrsia a respeito do bantu, ver M. GUTHRIE, 1962, p. 273-82; R. OLIVER, 1966, p.
      361-76 e J. H. GREENBERG, 1972, p. 189-216.
39    Uma lista detalhada das lnguas adamaua oriental encontra-se em J. H. GREENBERG, 1966, p. 9.
Classificao das lnguas da frica                                                            333



    Contrariamente  vasta famlia nger-congo, que acabamos de examinar,
o outro ramo do nger-kordofaniano, ou seja, as lnguas kordofanianas
propriamente ditas, no compreende nenhuma lngua de importncia e partilha
as colinas do Kordofan com vrias lnguas da famlia nilo-saariana. Pode ser
dividido em cinco subgrupos bastante diferenciados, dos quais o grupo tumtum
 o que apresenta maior grau de divergncia: 1. koalib; 2. tegali; 3. talodi; 4. katla;
5. tumtum (tambm chamado kadugli-krongo)40.


     Famlia NiloSaariana
    A outra grande famlia de lnguas negro-africanas  a nilo-saariana. De modo geral,
 falada a norte e a leste das lnguas nger-congo e predomina no vale superior do
Nilo e nas pores orientais do Saara e do Sudo. Entretanto, possui um alongamento
ocidental no Songhai, no baixo vale do Nger. Compreende um ramo muito extenso,
o chari-nilo, que engloba a maior parte das lnguas da famlia. As ramificaes do
nilo-saariano so as seguintes (indo de oeste para leste na medida do possvel): 1.
songhai; 2. saariano: a) kanuri-kanembu, b) teda-daza, c) zaghawa, berti; 3. maban;
4. furian; 5. chari-nilo (para maiores detalhes, ver os pargrafos seguintes); 6. coman
(koma, ganza, uduk, gule, gumuz e mao).
    As lnguas chari-nilo compreendem dois grupos principais, o sudans oriental e
o sudans central, bem como duas lnguas isoladas, o berta e o kunama.
    O sudans oriental  o grupo mais importante do nilo-saariano. Contm dez
subgrupos: 1. nbio: a) nbio do Nilo, b) nbio do Kordofan, c) midob, d) birked;
2. grupos murle-didinga; 3. barea; 4. ingassana (tabi); 5. nyima-afitti; 6. temein,
tois-um-danab; 7. grupo merarit; 8. dagu (grupo dajo); 9. niltico, dividido em: a)
niltico ocidental: burum, grupo luo e dinka-nuer; niltico oriental: (i) grupo bari,
(ii) karamojong, teso, turkana, masai; niltico meridional: nandi, suk, tatoga; 10.
nyangiya, teuso (ik)
    A classificao de dois subgrupos do niltico, o oriental e o meridional, foi
motivo de calorosas controvrsias. Meinhof, classificando o masai entre as lnguas
camticas, tinha, ao que parece, a inteno de incluir outras lnguas desses dois
grupos, apesar de sua estreita semelhana com as lnguas aqui classificadas no
grupo niltico ocidental, como o chilluk, o luo e o dinka. A separao de lnguas
to semelhantes como o chilluk e o masai, por exemplo, deve-se principalmente ao


40   Informaes mais detalhadas sobre as lnguas kordofanianas so encontradas em J. H. GREENBERG,
     1966, p. 149.
334                                                                Metodologia e pr-histria da frica



fato de esta ltima possuir distino de gnero. Westermann assumiu uma posio
de compromisso ao chamar de nilo-camticas as lnguas dos nilotas orientais e
meridionais, baseado provavelmente na hiptese de que eram lnguas mistas. Ele
conservou apenas o termo niltico ocidental. Tucker foi inicialmente do mesmo
parecer, mas acabou por reaproximar essas lnguas do niltico, denominando-
-as paranilticas41. H ainda um outro caso recente de divergncia de opinies:
Hohenberger compara o masai ao semtico enquanto Huntingford procura
aparentemente fazer reviver a velha suposio de Meinhof de que essas lnguas
so camticas42.
    O outro grupo importante do chari-nilo  o sudans central. Pode-se dividi-
-lo em seis subgrupos, a saber: l. bongo-bagirmi; 2. kreish; 3. moru-madi; 4.
mangbetu; 5. mangbutu-efe; 6. lendu.


      Famlia Khoisan
    Todas as lnguas khoisan possuem cliques entre as consoantes e a maioria de seus
falantes pertence ao tipo san, fisicamente caracterstico.
    A maior parte das lnguas khoisan  falada na frica do Sul. Entretanto, existem
dois pequenos grupos de populaes, os Hatsa e os Sandawe, situados muito mais ao
norte, na Tanznia, cujas lnguas diferem acentuadamente tanto entre si quanto das
lnguas do grupo da frica do Sul. Desse modo, a famlia divide-se em trs ramos:
1. hatsa; 2. sandawe; 3. khoisan sul-africano. O khoisan sul-africano compreende trs
grupos de lnguas: 1. grupo norte, que engloba as lnguas san do norte, dos Auen e dos
Kung; 2. khoisan central, dividido em dois grupos: a) kiechware, b) naron, khoi-khoi;
3. san do sul, grupo que apresenta a maior diferenciao interna, com um nmero
considervel de lnguas san distintas43.
    Como vimos nos pargrafos que tratam da histria da classificao, alguns
linguistas  Bleek, Lepsius e mais tarde Meinhof  separaram o khoi-khoi do
san e o incluram no camtico. Uma forma modificada dessa teoria  atualmente
sustentada por E. O. J. Westphal44, que divide o grupo aqui denominado khoisan
em duas famlias independentes. Uma delas, sandawe-khoi-khoi, compreende o


41    Ver TUCKER, A. N. e BRYAN, M. A. 1966.
42    Sobre estes desenvolvimentos, ver G. W. B. HUNTlNGFORD, 1956, p. 200-22; J. HOHENBERGER,
      1956, p. 281-87 e J. H. GREENBERG, 1957, p. 364-77.
43    Ver a opinio contrria do Professor D. OLDEROGGE, captulo 11.
44    WESTPHAL, E. O. J. 1966, p. 158-73.
Classificao das lnguas da frica                                                                    335



sandawe e as lnguas do khoisan central. Todas estas lnguas, exceto o kiechware,
fazem distino de gnero. Nada se diz a respeito de um possvel parentesco com o
camito-semtico. A outra famlia, handza-san, compreende o hatsa e as lnguas san
do norte e do sul. Na opinio de Westphal, porm, o parentesco entre o hatsa e as
lnguas san no est completamente definido.
    A lngua malgaxe, que veio a dominar as lnguas de origem africana faladas em
algumas regies da ilha de Madagscar, no se inclui na classificao acima. Jamais se
discutiu sua pertinncia  famlia austronesiana (malaio-polinsia), Seu parente mais
prximo dentro da famlia  provavelmente a lngua maanyan de Borno45. Outra
lngua que no se menciona na classificao  o merotico46, lngua morta escrita em
um alfabeto que adota duas formas, a hieroglfica e a cursiva. Extinguiu-se por volta
do sculo IV da nossa era e  conhecida apenas atravs de vestgios arqueolgicos
encontrados em uma rea que vai aproximadamente de Assu, no sul do Egito,
at Cartum, no Sudo. Apesar de se ter determinado o valor fontico das letras, o
conhecimento do lxico e da gramtica  limitado e impreciso devido  ausncia
de inscries bilngues. Segundo Griffith, autor da primeira teoria a esse respeito,
o merotico corresponderia ao nbio. A hiptese camtica (Meinhof, Zyhlarz) foi
refutada em um importante artigo de Hintze. Mais recentemente, a hiptese nbia
foi retomada de forma desenvolvida, por Trigger, que sugere pertencer ela ao sub-
-ramo sudans oriental do nilo-saariano, o qual, na classificao de Greenberg,
tambm compreende o nbio47.
    Finalmente, faz-se necessrio mencionar as lnguas europeias e indianas, de
importao recente, que, em alguns casos, so faladas atualmente por populaes
nascidas na frica. O ingls, alm de falado na frica do Sul e no Zimbabwe,
 a lngua dos descendentes de negros americanos que fundaram a Libria; 
falado tambm, na forma crioula (krio), em Freetown, Serra Leoa. O africner,
parente prximo do neerlands,  falado na frica do Sul. Existe na frica do
Norte uma importante populao de lnguas francesa, espanhola e italiana. Uma
forma crioula do portugus constitui a primeira lngua de alguns milhares de
falantes da Guin e de outras regies. Finalmente, algumas lnguas originrias
da ndia so utilizadas na frica oriental. Compreendem as lnguas arianas e
dravidianas, sendo a mais importante o gujarati.



45   As provas que sustentam esta hiptese so apresentadas em O. C. DAHL, 1951.
46   Cabe lembrar que no importante simpsio realizado no Cairo em janeiro-fevereiro de 1974 relatou-se
     em que estgio se encontram as pesquisas referentes  decifrao da escrita merotica (ver volume II).
47   Sobre esta questo, ver F. HINTZE, 1955, p. 355-72 e B. G. TRIGGER, KUSH, v. 12, p. 188-94.
336                                                     Metodologia e pr-histria da frica



      Diferentes Etapas da Classificao de Greenberg
      I. (19491950)
      1. Nger-Congo                          9. "Mimi de Nachtigal"
      2. Shongai                              10. "Fur"
      3. Sudans central                      11. Temainiano
      4. Saariano central                     12. Kordofaniano
      5. Sudans oriental                     13. "Koman"
      6. Afro-asitico (camito-semtico)      14. "Berta"
      7. "Clique"                             15. "Kunama"
      8. "Maba"                               16. "Nyangiya"
      II. (1954)
      1. Nger-Congo                          7. Maban (I.8 Maban; I.9 Mimi of
      2. Songhai                                  Nachtigal)
      3. "Macro-sudans" (I.5 sudans         8. "Fur"
          oriental; I.3 sudans central;      9. Temainiano
          I.14 "berta"; I.15 kunama)          10. Kordofaniano
      4. Saariano central                     11. "Koaman"
      5. Afro-asitico                        12. "Nyangiya"
      6. "Clique"

      III. (1963)
      1. Ngero-kordofaniano (II.1 Nger-Congo; II.10 Kordofaniano)
      2. Afro-asitico
      3. Khoisan (cf. II.6 Clique)
      4. Nilo-Saariano (II.2 Songhai; II.4 Saariano (cf. Saariano central); II.7
         Maban; II.8 Fur; II.11 Koman; Chari-Nilo, incluindo II.3 "Macro-
         -sudans", II.9 Temainiano, II.12 Nyangiya)




      Referncias
        I. Southwestern Journal of Anthropology, 1949, 1950.
       II. Southwestern Journal of Anthropology, 1954.
      III. Languages of Africa, 1963.
Mapa lingustico da frica                                                                     337



                                     CAPTULO 12


                           PARTE II
                    Mapa lingustico da frica
                                              D. Dalby




   Embora tenha uma densidade populacional inferior  do mundo tomado
como um todo1, a frica possui um grau de complexidade lingustica mais
elevado do que qualquer outro continente2. Isso explica por que no existe, at o
momento, um mapeamento lingustico detalhado do continente africano, apesar
de to necessrio aos historiadores e outros estudiosos. O mapa etnodemogrfico
da frica estabelecido pela Unio Sovitica  provavelmente o que mais se
aproxima da preciso at esta data3, embora peque por falta de clareza: torna-
-se confuso no tocante a distines lingusticas e tnicas, e sobrecarrega-se de
dados demogrficos e "etnolingusticos"; alm disso, todos os nomes africanos
so transcritos em alfabeto cirlico. Outros mapas do continente, que indicam
mais os grupos tnicos que os lingusticos, so, de modo geral, por demais
simplificados para apresentarem algum valor cientfico4.


1    Ocupando aproximadamente 20% da superfcie terrestre total do globo, a frica representa pouco menos
     de 10% da populao mundial.
2    A Nova Guin (pouco mais de um quarto da superfcie total da frica) possui um grau de complexidade
     lingustica igual  ou at mesmo superior  ao do continente africano, mas em nenhuma outra parte
     do mundo existe uma zona de "fragmentao" lingustica to importante, por sua extenso geogrfica,
     quanto  regio da frica situada ao sul do Saara.
3    NARODNI AFRIKI, Moscou, 1960. V. tb. KARTA NARODOV AFRIKI, Moscou, 1974.
4    Por exemplo, "Tribal map of Africa", in: G. P. MURDOCK, 1959, ou "Map of the tribes and nations of
     modern Africa", de Roy LEWIS e Yvonne FOY publicados pelo TIMES no incio da dcada de 1970.
338                                                      Metodologia e pr-histria da frica




figura 12.1   Mapa diagramtico das lnguas da frica.




    No se pode,  claro, evitar um certo excesso de simplificao ao se tentar
obter uma imagem de conjunto da distribuio das lnguas no continente
africano e das relaes existentes entre elas. Para que um mapa tivesse preciso
Mapa lingustico da frica                                                                                  339



absoluta, seria necessrio que cada habitante do continente africano fosse
representado por um ponto luminoso isolado; esse ponto se moveria, indicando
o deslocamento de cada indivduo no territrio e deveria assumir um dentre dois
mil matizes, conforme a lngua falada pela pessoa num determinado momento.
Dada a impossibilidade material de estabelecer um tal mapa, devemos nos
contentar com um documento que, sem atingir a perfeio, , esperamos, mais
detalhado e mais exato que os atualmente disponveis.
    H dez anos desenvolve-se um trabalho no sentido de se elaborar um mapa
da frica especificamente lingustico (em oposio ao tnico). O presente artigo
volta sua ateno para os aspectos desse trabalho que so relevantes para a
histria da frica5.
    No obstante sua aparncia tcnica, o estudo comparativo das lnguas africanas
tem sido realizado, frequentemente, de maneira demasiado simplista, existe uma
tendncia a admitir que o complexo mapa lingustico da frica de hoje evoluiu
de um antigo mapa muito mais simples, e que as relaes lingusticas podem
ser expressas sob a forma de "rvores genealgicas" que se subdividem segundo
uma hierarquia descendente de nveis ("famlias", "subfamlias", "ramos", etc.).
A crena de que as muitas centenas de lnguas modernas da frica podiam
remontar, em ordem ascendente regular, a algumas "lnguas-me" levou os
especialistas em lingustica comparada a examinarem todas as relaes possveis
das lnguas africanas, inclusive as mais distantes, antes de estabelecerem suas
relaes imediatas sobre uma base slida. Levou-os ainda a considerarem
essencialmente o processo histrico de divergncia entre as lnguas com uma
suposta origem comum, excluindo o processo de convergncia das lnguas no-
-aparentadas ou de reconvergncia das lnguas aparentadas. As lastimveis
consequncias de tal abordagem agravaram-se ainda mais pelo fato de que as
classificaes pseudo-histricas obtidas por esses meios serviram igualmente de
quadro de referncia (no apenas para as lnguas africanas, mas tambm para os
povos africanos) e, por conseguinte, influenciaram indevidamente o pensamento
dos historiadores da frica.



5    LANGUAGE MAP OF AFRICA AND THE ADJACENT ISLANDS, em curso de elaborao
     pela School of Oriental and African Studies (SOAS) e pelo International African Institute (IAI). O
     mapa tem por objetivo mostrar a distribuio atual e as relaes lingusticas das lnguas "maternas" ou
     "primeiras", na escala de 1:5000000; neste mapa figuram igualmente as regies de maior complexidade
     lingustica na escala de 1:2500000 e 1:250000. O IAI procede atualmente (1977)  publicao de uma
     edio provisria, contendo uma lista sistemtica das lnguas africanas (em vista de uma edio definitiva,
     a ser publicada ulteriormente pela Longmans).
340                                                                         Metodologia e pr-histria da frica



     conveniente, pois, antes de mais nada, procurar esclarecer a confuso do
mapa lingustico da frica, reduzindo-o a seus componentes mais simples, a
saber: de um lado, grupos lingusticos que mantenham entre si uma relao
estreita e harmnica e que possuam uma unidade tanto externa quanto interna6
(unidades complexas); de outro, lnguas distintas que no participem de nenhum
desses grupos (unidades simples). Tal procedimento revela uma importante
caracterstica do mapa lingustico que permanecia encoberta pelas classificaes
anteriores: de um total de cerca de 120 unidades complexas e simples de
toda a frica, mais de 100 confinam-se a uma nica zona, que se estende do
litoral senegals, a oeste, at os planaltos da Etipia e da frica oriental, a
leste7. Considerando-se todas as diferentes lnguas do continente africano8,
aproximadamente dois teros so faladas nesta zona, com cerca de 5600 km
de extenso e apenas 1100 km, em mdia, de largura. Essa zona estende-se ao
longo do Saara, podendo ser denominada, por comodidade, zona de fragmentao
subsaariana devido  sua situao geogrfica e complexidade lingustica. Seus
limites podem ser determinados pela geografia fsica e lingustica: grosso modo,
limita-se ao norte com o Saara, a leste com os contrafortes montanhosos,
ao sul com a orla da floresta e a oeste com o litoral atlntico. Do ponto de
vista da geografia fsica, as reas de fragmentao mxima situam-se ao longo
das margens norte-oriental, central e ocidental da zona de fragmentao, na
extremidade meridional do chifre da frica e num bloco que cobre uma grande
parte da frica ocidental. Do ponto de vista das relaes estruturais e lexicais
de conjunto, a rea mais fragmentada situa-se provavelmente no interior e ao
redor da extremidade do chifre da frica, onde as lnguas que representam


6     Se se estabelece uma relao entre as lnguas "A", "B" e "e", pode-se considerar que possuem uma "unidade
      interna". Esse agrupamento, no entanto, no tem sentido, se as lnguas em questo no possurem
      tambm uma "unidade externa", isto , se a relao entre "A" e "B" entre "A" e "e" ou entre "e" e "B"  em
      cada um desses casos mais ntima que entre' uma dessas trs lnguas e qualquer outra que no faa parte
      desse grupo.
7     Entre as restantes, no menos que nove unidades compreendem as lnguas faladas nos limites da zona
      de fragmentao (excluindo-se apenas unidades "no-bantu" do sul da Africa e de Madagscar).
8     No caso de muitos grupos de formas de linguagem mais ou menos estreitamente aparentados, s se
      podem estabelecer distines arbitrrias entre as "lnguas" e os "dialetos" das "lnguas". Se se considera
      os grupos de formas de linguagem mais ou menos inteligveis como "lnguas" distintas, o total na frica
      ser da ordem de 1250. Se se considera cada uma das formas de linguagem como uma lngua em si, onde
      aparece como tal para seus falantes e onde possui nome distinto, o total, ento, aproxima-se de 2050. Se
      este ltimo mtodo fosse aplicado  Europa, deveria-se considerar o sueco, o noruegus e o dinamarqus
      como lnguas distintas, mas, segundo o outro mtodo, seriam consideradas como uma nica lngua. A
      fim de se obter uma "ordem de grandeza" para o nmero de lnguas faladas na frica, prope-se que seja
      tirada a mdia destas duas avaliaes, isto , aproximadamente 1650 lnguas, das quais 1100 (calculadas
      pelo mesmo processo) so faladas no interior da zona de fragmentao.
Mapa lingustico da frica                                                                                341



as quatro "famlias" africanas postuladas por Greenberg so faladas em um
raio que no' ultrapassa 40 km. Nesse caso, e no caso das colinas do Togo, do
planalto de Jos, dos planaltos de Camares, dos montes Nuba e dos planaltos
da Etipia ocidental, parece existir uma correlao entre os pases montanhosos
e a intensa fragmentao lingustica9. Deve-se observar ainda que as relaes
internas de certas unidades complexas, representadas por lnguas pertencentes
ou no  zona de fragmentao, tornam-se cada vez menos ntidas nos pontos
de interpenetrao da zona de fragmentao10.
    A importncia lingustica e histrica da zona de fragmentao ficou
obscurecida pela sobreposio de uma rede de "famlias" e de "subfamlias" de
lnguas postuladas por linguistas europeus e americanos. Dentre elas, as duas
"famlias" mais extensas ultrapassam em interesse e validade as outras duas grandes
"famlias" da classificao de Greenberg, ou at mesmo as vrias "subfamlias"
em que foram tradicionalmente "divididas". Uma vez que a palavra "famlia"
implica uma ordem de descendncia de natureza humana e biolgica, que no
convm ao fenmeno da linguagem, poder-se-ia utilizar o termo "regio de
maior afinidade" para designar adequadamente cada uma dessas duas "famlias",
notadamente por ocuparem reas mais ou menos contguas do continente
africano. A primeira dessas reas, a "regio setentrional de maior afinidade", 
tradicionalmente conhecida como "camito-semtica" e, mais recentemente,
como "afro-asitica" (Greenberg) ou "eritreia" (Tucker). A segunda, ou "regio
meridional de maior afinidade", foi recentemente denominada de "nger-congo"
e de "congo-kordofaniano" (Greenberg) ou de "nigrtica" (Murdock)11. No h
controvrsia sobre a validade global dessas duas regies de maior afinidade,
evidentes para os linguistas europeus desde o sculo XVII12 e, sem dvida, h
muito mais tempo, para os observadores africanos. A relativa importncia dessas
duas regies de maior afinidade se expressa pelo fato de compreenderem mais


9    Como ponto de comparao interessante, cabe notar que existe uma "zona de fragmentao" anloga
     para as lnguas indgenas da Amrica do Norte. Essa zona, essencialmente montanhosa, tem mais de
     3000 km de comprimento e aproximadamente 300 km de largura; estende-se paralelamente  costa do
     Pacfico, do sul do Alasca at a fronteira mexicana, e inclui uma rea de fragmentao mxima ao norte
     da Califrnia (onde representantes de seis dentre oito das principais famlias postuladas para as lnguas
     indgenas norte-americanas situam-se num raio de cerca de 160 km).
10   A saber, lnguas semticas, "cuxtico" do leste e bantu (incluindo-se as lnguas "bantoides").
11   A famlia "congo-kordofaniana" de GREENBERG compreende sua famlia "nger-congo" mais um
     pequeno grupo de lnguas com classes, de parentesco mais distante, no Kordofan. "Nigrtico"  um termo
     de classificao mais antigo retomado em 1959 por MURDOCK.
12 Ver o captulo de GREENBERG, neste volume. GREENBERG tambm ressalta o fato de que a relao
   entre o malgaxe e o malaio j fora observada, da mesma maneira, no sculo XVII.
342                                                                     Metodologia e pr-histria da frica



de 80% das lnguas faladas na frica, sendo que s a rea meridional de maior
afinidade abrange aproximadamente 66% das diferentes lnguas do continente.
Segundo a classificao tradicionalista empregada no atual mapa lingustico, as
lnguas da regio setentrional de maior afinidade dividem-se em um total de 17
unidades complexas e simples (12 das quais situam-se integralmente na zona
de fragmentao) e as lnguas da regio meridional de maior afinidade, em um
total de 58 unidades complexas e simples (57 das quais situam-se integralmente
na zona de fragmentao)13.
    H uma razo importante para no se estabelecerem nveis intermedirios
nas relaes entre as zonas fundamentais de maior afinidade a nvel continental
e as unidades simples ou complexas a nvel relativamente local. Por uma razo
ainda no determinada, esses nveis intermedirios de relao lingustica
so muito mais obscuros e difceis de definir do que os nveis fundamentais
e imediatos. Assim  que a unidade da famlia "oeste-atlntica", "kwa", "gur"
ou "benue-congo", no interior da regio meridional de maior afinidade, ou a
unidade da famlia "cuxtica" ou "chdica", no quadro da regio setentrional de
maior afinidade nunca foram demonstradas de maneira cabal. Embora se tenha
apontado, anos atrs, esta importante falha da classificao tradicional europeia
e americana das lnguas africanas,14 esses nveis intermedirios de classificao
continuam ocupando lugar de destaque na literatura especializada. A sustentao
dessas divises arbitrrias impostas ao mapa lingustico da frica podem, de
certo modo, ser comparadas  histria das divises coloniais arbitrrias impostas
ao mapa poltico do continente.
    Greenberg prestou um grande servio  lingustica africana chamando a
ateno para o uso arbitrrio do termo "camtico" como nvel intermedirio
de classificao15, mas, infelizmente,  o responsvel pela perpetuao do uso
arbitrrio de muitos outros. Vrios desses nveis16, j haviam sido questionados
pelos linguistas, mas o Professor Stewart publicou recentemente uma refutao
ainda mais clara do grupo "benue-congo", a maior das "subfamlias" da
classificao postulada por Greenberg:




13    Dentro da regio meridional de maior afinidade, a nica unidade complexa situada (em grande parte)
      fora da zona de fragmentao  o bantu. Por outro lado, esta unidade complexa compreende quase tantas
      lnguas (cerca de 500) quanto o total das outras 57 unidades dessa regio de maior afinidade.
14    Ver D. DALBY, 1970, p. 147-71 (em particular, 157-61).
15    Ver o artigo de J. GREENBERG, neste volume.
16    Ver D. DALBY, op. cit., p. 160.
Mapa lingustico da frica                                                                                  343



     "Um resultado importante de todo este (recente) trabalho sobre as lnguas do grupo
     `benue-congo' foi colocar em dvida a validade deste grupo enquanto unidade gentica,
     Primeiramente, admitira-se de modo incontestvel que Greenberg estava com a
     razo ao afirmar que muitas inovaes comuns poderiam ter valor de prova, embora
     na realidade mencionasse apenas uma: a palavra que significa `criana'. Williamson
     relata, entretanto, que quando se levam em considerao correspondncias fonticas
     regulares, observa-se que tal particularidade no se limita s lnguas benue-congo
     e, assim, no constitui prova convincente; acrescenta que, em todo o volume I de
     BenueCongo Comparative Wordlist no existe um nico exemplo que constitua uma
     prova convincente..."17.
    Quando Stewart nos aponta as dvidas antigas acerca da unidade externa
do grupo benue-congo, no se pode deixar de imaginar por que os especialistas
da lingustica comparada relutaram tanto em abandon-lo em seus sistemas de
classificao. Infelizmente, parece ter-se perdido toda a lio prtica do benue-
-congo e  ao invs de abandonar este e outros nveis no comprovados de
classificao intermediria  Stewart prefere perpetuar o esquema de Greenberg,
amalgamando "benue-congo" com "kwa" e "gur" (estes, dois conceitos igualmente
arbitrrios) para formar uma outra subdiviso, tambm arbitrria, do "nger-
-congo", conhecido agora como "volta-congo18". Sem dvida, teremos de esperar
pelo resultado de outros trabalhos de lingustica comparada antes que o "volta-
-congo" de Stewart se amplie ainda mais, de modo a incluir todo o "nger-congo"
ou a regio setentrional de maior afinidade, nico nvel fundamental de unidade
externa e interna que permanece claro e inconteste.
    Os historiadores deveriam notar que a "grande aceitao" da classificao
standard de Greenberg repousa principalmente, com respeito ao nger-congo,
em sua prpria aceitao dos "Gruppen" de Westermann ou "subfamlias" das
lnguas da frica ocidental. Como j foi ressaltado, Westermann no estabeleceu
a unidade externa de seus "Gruppen"19, enquanto sua unidade interna demonstra
apenas pertencerem as lnguas que os constituem  regio setentrional de maior
afinidade.



17   J. M. STEWART, 1976, p. 6.
18   Ironicamente, constata-se que o mande  a nica "subfamlia" intermediria da famlia "nger-congo" de
     Greenberg que se apresenta clara e incontestvel. A nitidez dessa diviso reflete o fato de ser ela a nica
     de suas "subfamlias" putativas cuja pertinncia fundamental  famlia "nger-congo" no pode ser posta
     em dvida.
19   D. DALBY, op. cit.
344                                                     Metodologia e pr-histria da frica



    Embora os historiadores no devam aceitar sem reservas as classificaes
existentes das lnguas africanas, no seria demais ressaltar a importncia do
mapa lingustico da frica enquanto fonte de informaes sobre a pr-histria
do continente. Obras de maior profundidade ainda esto por vir e aguarda-
-se uma nova gerao de historiadores das lnguas que sejam, eles prprios,
falantes de lnguas africanas. Estaro estes habilitados a consolidar os trabalhos
preliminares imprescindveis  realizao de uma comparao exata e minuciosa
de lnguas prximas e estreitamente aparentadas. A partir da, ento, ser possvel
voltar-se para uma interpretao mais estratgica do mapa lingustico da frica
como um todo. Embora possua um grau de complexidade lingustica maior do
que qualquer outro continente, a frica se notabiliza pelo fato de que dois teros
de suas lnguas pertencem a uma s rea de maior afinidade e de que esses dois
teros, compostos de modos diferentes, confinam-se  zona de fragmentao
subsaariana. A frica de lngua bantu  a nica regio do continente a ter
constitudo objeto de discusses importantes a respeito da interpretao pr-
-histrica de dados lingusticos. A chave para a interpretao pr-histrica
desses dados, em escala continental, ser uma melhor compreenso, de nossa
parte, das relaes lingusticas no interior da zona de fragmentao. Entretanto,
a extenso da tarefa no poderia ser subestimada.
Geografia histrica: aspectos fsicos                                       345



                                        CAPTULO 13


                               Geografia histrica:
                                aspectos fsicos
                                          S. Diarra




     difcil, sem dvida, separar a histria africana de seu cenrio geogrfico. No
entanto, seria intil apoiar-se em reflexes deterministas para compreender, em
toda a sua complexidade, as relaes estabelecidas entre as sociedades africanas
e seu respectivo meio ambiente. Cada comunidade, de fato, reagiu de maneira
peculiar em relao ao meio. Assim, as tentativas mais ou menos bem sucedidas de
ordenao do espao testemunham, aqui e ali, o grau de organizao dos homens
e a eficcia de suas tcnicas de explorao dos recursos locais. Para uma frica em
mudana, porm,  importante examinar determinadas particularidades geogrficas
capazes de elucidar os principais acontecimentos que marcaram a longa perspectiva
geo-histrica do continente. Com respeito a este ponto, as caractersticas da
arquitetura da frica como um todo, sua extraordinria zonalidade climtica
e a originalidade de seus meios naturais constituem heranas que impediram
ou facilitaram a atividade humana, sem jamais determinar seu desenvolvimento.
Decididamente, nada  simples nas relaes ntimas entre a natureza africana e
os homens que a ocupam, exploram, ordenam e transformam de acordo com sua
organizao poltica, recursos tcnicos e interesses econmicos.


    Caractersticas da arquitetura do continente africano
   Admite-se, em geral, que a frica pertence a um continente muito antigo
que, antes de se desunir e se deslocar vagarosamente, compreendia a Amrica,
346                                                     Metodologia e pr-histria da frica



o sul da sia e a Austrlia. Este continente, Gonduana, seria a manifestao
dos primeiros esforos orognicos da crosta terrestre que deram origem a
grandes cordilheiras, orientadas geralmente na direo sudoeste-nordeste. Estes
dobramentos, fortemente desgastados por longa denudao, foram reduzidos a
peneplanos, cujos maiores exemplares so encontrados na frica.

      Originalidade geolgica da frica
    A originalidade do continente africano  atestada, primeiramente, pela
extenso excepcional do embasamento pr-cambriano, que ocupa a maior
parte da superfcie. Ora na forma de afloramentos, que cobrem um tero do
continente, ora coberto por uma camada de espessura varivel de sedimentos
ou de material vulcnico, este embasamento compreende rochas metamrficas
(xisto, quartzito, gnaisse) e rochas cristalinas (granito) muito antigas e de grande
rigidez. Com exceo do sistema alpino do Magreb e das dobras hercinianas
do Cabo e do sul do Atlas, o conjunto da frica e Madagscar formam
uma plataforma antiga e estvel, constituda por um escudo que no sofreu
dobramentos apreciveis desde o Pr-Cambriano. Sobre o pedestal, arrasado
por uma longa eroso, depositaram-se em discordncia formaes sedimentares
dispostas em camadas suborizontais de idades variadas, desde o comeo do
perodo Primrio at o Quaternrio. Essas sries sedimentares, compostas de
material grosseiro e geralmente arenoso, so de natureza mais continental que
marinha, pois as transgresses marinhas s recobriram o pedestal temporria e
parcialmente. Na frica ocidental os arenitos primrios formam uma aurola
no interior dos afloramentos da plataforma pr-cambriana. Na frica austral,
grandes depsitos permotrissicos continentais constituem o sistema do Karroo,
no qual as sries de arenitos atingem 7000 metros de espessura. Ao norte do
continente, particularmente no Saara oriental e na Nbia, os arenitos jurssicos
e cretceos so "continentais intercalados". No perodo Secundrio, porm, as
sries marinhas acumularam-se do Jurssico ao Eoceno nas regies costeiras e
nas bacias interiores. Podem ser observadas nos golfos do Senegal-Mauritnia,
Benin, Gabo e Angola, na bacia do Chade e nas plancies costeiras da frica
oriental, da Somlia a Moambique. A partir do Eoceno, os depsitos fluviais e
elicos do "continental terminal" acumularam-se nas grandes bacias interiores da
frica. Todas estas sries de camadas, que repousam sobre o rgido embasamento,
no foram afetadas pelos dobramentos, mas sim por deformaes de grande
raio de curvatura que ocorreram desde o Primrio at uma era mais recente.
Os soerguimentos em molhe e afundamentos de grande amplitude explicam
Geografia histrica: aspectos fsicos                        347




figura 13.1     frica fsica (segundo J. Ki-Zerbo, 1978).
348                                                   Metodologia e pr-histria da frica



a estrutura em dobras e bacias, to comum na frica. No perodo Tercirio,
durante o paroxismo da orognese alpina, movimentos verticais mais violentos
provocaram grandes fraturas na frica oriental. Estas fraturas formam grandes
fendas submeridianas emolduradas por falhas, os rift valleys. Por vezes, fazem-
-se acompanhar de derramamentos vulcnicos que do origem s mais slidas
elevaes, como o Monte Kilimandjaro, coroado por uma geleira que culmina
a 6000 m. A oeste as fraturas so menos importantes, mas a existente no fundo
do golfo da Guin manifestou uma intensa atividade vulcnica, cujo imponente
testemunho  o monte Camares (4070 m).

      Influncias paleoclimticas
    O continente africano foi afetado por longas fases de eroso consecutivas
aos movimentos orogenticos, aparentemente bastante lentos em todas as
eras geolgicas. Assim, as fases de estabilizao fizeram -se acompanhar por
retomadas de eroso, o que resultou na formao de vastas superfcies aplainadas,
Nesse processo de evoluo das formas do relevo, o fator mais importante foram
as variaes climticas, das quais as mais notveis ocorreram no Quaternrio.
A alternncia de climas midos e semi-ridos traduziu-se por fases de
alterao das rochas e de eroso linear ou em lenol. Desse modo, as reas
baixas foram preenchidas e as rochas duras tornaram-se salientes, formando
com frequncia elevaes isoladas que emergem abruptamente das superfcies
aplainadas. Esses inselbergues so muito comuns nas regies ao sul do Saara.
No Quaternrio, as mudanas climticas e variaes no nvel do mar foram
acompanhadas de importantes ajustamentos no dispositivo estratificado do
modelado africano produzido por ciclos sucessivos de desnudao e acumulao
durante os perodos anteriores. Os paleoclimas so responsveis pela existncia
do Saara, onde a presena de numerosos vestgios lticos e de fsseis de uma
fauna do tipo equatorial prova que em tempos remotos houve um clima mido
favorvel  fixao do homem. Mas, durante o Quaternrio, a extenso das
zonas climticas atuais, tanto para o norte quanto para o sul, foi consequncia
do aumento ou diminuio das chuvas. Dessa forma, os perodos pluviais
aumentaram consideravelmente a proporo da superfcie total do continente
favorvel  vida humana. Os perodos ridos, por outro lado, favoreceram a
extenso de superfcies desrticas para alm de seus limites atuais, tornando o
Saara um hiato climtico entre o Mediterrneo e o mundo tropical. No entanto
esse deserto, que cobre aproximadamente um tero do continente e se estende
por cerca de 15o de latitude, nunca constituiu uma barreira absoluta entre o
Geografia histrica: aspectos fsicos                                          349



norte e o sul. Habitado por nmades,  cruzado por rotas de caravanas h
sculos. Embora no tenha impedido a comunicao entre a frica tropical e
o Mediterrneo, desde a Antiguidade at a poca moderna, o Saara agiu como
um filtro, limitando a penetrao de influncias mediterrneas, especialmente
no domnio da agricultura, da arquitetura e do artesanato. Desse modo, o maior
deserto do mundo desempenhou um papel capital no isolamento geogrfico de
uma grande parte da frica.

    A natureza macia do continente africano
    O vigor e a nitidez das caractersticas fsicas da frica distinguem-na de
todos os outros continentes. A natureza macia desse continente e seu relevo
pesado so resultado de uma longa histria geolgica. Basta observar um mapa
para perceber que a frica, com seus 30 milhes de quilmetros quadrados,
estende-se por quase 72o de latitude de Ras ben-Sakka (3721' N, perto de
Bizerta) ao cabo das Agulhas (3451' S). Cerca de 8000 km separam essas duas
extremidades do continente, enquanto que, no sentido longitudinal, conta-se
7500 km entre o Cabo Verde e o cabo Guardafui. A maior parte do continente
fica acima do Equador, visto que o bloco setentrional cobre os dois teros do
continente que se estreita no hemisfrio sul. O carter macio da frica 
realado pela ausncia de recortes profundos na costa, presentes, por exemplo,
na Europa e na Amrica Central. Alm disso, as ilhas no constituem uma
parte significativa do continente, cuja forma esculpida  fortemente acentuada
pela simplicidade do contorno e pelo fraco desenvolvimento da plataforma
continental. Um rebaixamento do nvel do mar pouco afetaria a configurao da
frica, pois a curva batimtrica de 1000 m geralmente fica prxima da costa. O
continente parece ainda mais macio devido ao pesado relevo, frequentemente
representado por planaltos cujas bordas se erguem para formar dobras costeiras
que os complexos fluviais atravessam com dificuldade. Apesar de possuir poucas
cordilheiras de dobramento, a frica se caracteriza pela considervel altitude
mdia de 660 m, decorrente das presses orognicas marcadas no Plioceno
por fraturas e elevaes do embasamento. A aparente simplicidade do relevo
encobre apreciveis diferenas regionais. O Magreb, por exemplo, tem uma
marcante individualidade, assemelhando-se ao mundo europeu por suas
cordilheiras e seu relevo compartimentado. Podem-se distinguir dois grandes
conjuntos montanhosos: as cordilheiras do Tell e do Rif ao norte, e o Atlas ao
sul. Essas cordilheiras esto dispostas em faixas alongadas de oeste a leste, entre
o Mediterrneo e o Saara.
350                                                   Metodologia e pr-histria da frica



   Uma outra famlia de relevos  encontrada na imensa regio que compreende
a frica do nordeste, a frica ocidental e a bacia do Zaire. A predominam as
plancies, bacias e baixos planaltos, circundados por dobras montanhosas. As
maiores bacias dessa rea, o corao do continente, so as do Nger, Chade,
Zaire e Bahr el-Ghazal.
   Por fim, a frica ocidental e austral representa o domnio das terras altas
do continente, onde so comuns as altitudes superiores a 1500 m. Os planaltos
do sul so circundados por uma dobra marginal: o grande escarpamento, que
domina o litoral com uma parede rochosa que chega a atingir 3000 m de altura.
Mas a originalidade da frica oriental reside na imponncia de suas elevaes,
causadas pelos movimentos tectnicos do Tercirio. O pedestal violentamente
erguido sofreu profundos cortes de falhas e fraturas. Ao mesmo tempo, foi
afetado por uma intensa atividade vulcnica. O topo do macio abissnio, que
consiste de um grande molhe ao qual se sobrepem quase 2000 m de lava, eleva-
-se a mais de 4000 m. Os rift valleys estendem-se por 4000 km desde o mar
Vermelho at Moambique. Os rift valleys, que tiveram um papel importante
no movimento e fixao dos povos, abrigam uma srie de lagos, incluindo o
Niassa, o Tanganica, o Kivu, o Eduardo, o Mobutu (antigo Alberto), o Vitria
e o Turkana (Rodolfo). So circundados por gigantescas montanhas vulcnicas,
sendo as mais conhecidas os montes Qunia e Kilimandjaro.

      O isolamento geogrfico
    Devido  sua natureza macia e seu relevo pesado, a frica ficou isolada at
uma poca recente. Com exceo da frica do Norte, voltada para o mundo
mediterrneo, o continente permaneceu por sculos fora das principais rotas
de comrcio.  certo que esse isolamento nunca foi completo; mas exerceu
grande influncia sobre muitas sociedades que se desenvolveram no isolamento
geogrfico. Separada do Velho Mundo aps a deriva dos continentes, a frica
apresenta, no entanto, um ponto de contato com a sia: o istmo de Suez, que
foi o corredor de passagem privilegiado das grandes migraes pr-histricas.
A maior parte da linha costeira africana  banhada por dois oceanos,
utilizados de maneira desigual at os tempos modernos. O Atlntico no foi
frequentado at o sculo XV, quando tiveram incio as grandes expedies
martimas europeias. Antes dessa poca, as tcnicas de navegao a vela no
permitiam que navegadores rabes, por exemplo, viajassem para alm das
costas do Saara, dada a impossibilidade de velejarem contra os alsios que
sopravam permanentemente em direo ao sul. O oceano ndico, ao contrrio,
Geografia histrica: aspectos fsicos                                        351



sempre favoreceu o contato entre a frica oriental e o sul da sia. Os veleiros
rabes e indianos foram capazes de empreender expedies rumo  frica e
retomar aos portos de origem, graas ao regime de alternncia das mones
do oceano ndico. As intensas relaes estabelecidas entre a frica oriental e
o mundo do oceano ndico limitaram-se  costa, pois aos povos navegadores
da sia interessava mais fazer comrcio do que colonizar o interior. Em suma,
a influncia das civilizaes martimas de outros continentes no penetrou em
profundidade no interior da frica tropical, que em grande parte permaneceu
afastada do Velho Mundo.
    Tradicionalmente, o carter inspito das costas africanas tem sido apontado
como fator para o isolamento do continente. A reduzida presena de recortes
na costa priva de abrigos o litoral, frequentemente baixo e arenoso. As costas
rochosas, raras na frica ocidental, aparecem com frequncia no Magreb, no
Egito, ao longo do mar Vermelho e na extremidade meridional da frica do
Sul. Na frica ocidental, as costas do sul do Senegal  Guin e as costas do
Gabo e Camares tm como caracterstica as rias. Trata-se de vastos esturios
que resultaram da submerso de antigos vales fluviais, mas a maior parte deles
apresenta considerveis depsitos de vasa. Em algumas costas baixas, invadidas
pelas mars, aparecem mangues, especialmente na regio dos "rivires du sud"
at a Serra Leoa, no delta do Nger e ao longo do litoral do Gabo. Em outras
partes, cordes litorneos orlam o continente, por vezes isolando lagoas, como
as do golfo da Guin. Finalmente, h os recifes de coral, que se estendem ao
longo das margens africanas do mar Vermelho, do canal de Moambique e da
costa oriental de Madagscar. A hostilidade do litoral africano foi atribuda,
em grande parte,  rebentao das vagas em rolos violentos e regulares, que
dificultam o acesso a certas regies costeiras do continente. H, entretanto,
um certo exagero em torno dessa hostilidade: as costas mediterrneas no
impediram que a frica do Norte participasse, durante longos sculos, de
intercmbios com o exterior. A ausncia de portos naturais tambm  utilizada
como justificativa para o isolamento da frica negra at pocas recentes.
Entretanto, basta inventariar os locais favorveis  navegao para se constatar
a riqueza do litoral africano neste aspecto, tanto na costa do Atlntico como
na do ndico. De resto, os obstculos citados nunca foram intransponveis, pois
as influncias asiticas e, mais tarde, europeias marcaram fortemente os povos
da frica, cujo isolamento foi apenas relativo. Os fatores humanos sem dvida
explicariam melhor o fraco interesse das populaes litorneas africanas pelas
grandes expedies martimas.
352                                                     Metodologia e pr-histria da frica



      A zonalidade climtica da frica
   As condies de vida na frica dependem principalmente dos fatores
climticos. A simetria e a grande extenso do continente em ambos os lados do
Equador, sua natureza macia e seu relevo relativamente uniforme se combinam
para conferir ao clima uma zonalidade inigualvel em outras partes do mundo.
Uma notvel originalidade do continente africano  a sucesso de faixas
climticas ordenadas paralelamente ao Equador. Em ambos os hemisfrios,
os regimes pluviomtricos africanos diminuem progressivamente em direo
s altas latitudes. Por possuir a maior parte do territrio na zona intertropical,
a frica  o continente mais uniformemente quente do mundo. Este calor se
faz acompanhar de seca, crescente em direo aos trpicos, ou de umidade,
geralmente mais elevada nas baixas latitudes.

      Fatores csmicos
    Neste continente intertropical por excelncia, as diferenciaes climticas
dependem muito mais das chuvas que das temperaturas, que na maior parte
das regies so elevadas em todas as estaes. De qualquer modo, os regimes
pluviomtricos e trmicos esto, em primeiro lugar, ligados aos fatores csmicos,
isto ,  latitude e ao movimento aparente do sol. O sol atinge o znite duas vezes
por ano em todas as regies intertropicais, mas somente uma vez nos trpicos de
Cncer e Capricrnio, respectivamente a 21 de junho, data do solstcio de vero,
e 21 de dezembro, data do solstcio de inverno no hemisfrio norte. Atinge o
znite duas vezes ao ano no Equador, no equincio de primavera (21 de maro)
e no equincio de outono (21 de setembro). Em seu movimento aparente, o sol
nunca desce muito abaixo do horizonte. Por essa razo, as temperaturas so altas
durante todo o ano na zona intertropical. Nas regies prximas ao Equador,
onde a posio aparente do sol oscila em torno do znite, observa-se uma
ausncia de estao trmica, pois h poucas variaes sazonais de temperatura.
As amplitudes anuais so da ordem de 3o a 4o.  medida que nos aproximamos
dos trpicos do norte e do sul, porm, observamos um crescente contraste de
temperaturas. No Saara registram-se fortes amplitudes  da ordem de 15o 
entre as temperaturas mdias de janeiro e julho. As extremidades setentrional
e meridional do continente, que pertencem s zonas temperadas, apresentam
regimes trmicos contrastados, pois as fortes amplitudes anuais resultam da
oposio entre os invernos frios e os veres quentes. Alm disso, as variaes
diurnas podem ser to elevadas na regio do Mediterrneo quanto na zona
Geografia histrica: aspectos fsicos                                          353



intertropical. Resumindo, os fatores csmicos determinam dois tipos principais
de regimes trmicos: regular nas latitudes equatoriais e progressivamente
contrastado  medida que nos aproximamos dos trpicos.

    Mecanismo pluviomtrico
    A explicao para as variaes sazonais do clima africano est na existncia
de grandes centros de atividade atmosfrica que pem em movimento massas de
ar do tipo tropical e equatorial, martimas ou continentais. H dois anticiclones
tropicais  ou centros de alta presso  permanentes sobre o Atlntico, um no
hemisfrio norte (anticiclone dos Aores) e outro no hemisfrio sul (anticiclone
de Santa Helena). Existem outras duas clulas anticiclnicas, uma sobre o Saara,
outra sobre o Calaari. Esses anticiclones continentais, de carter sazonal, s
desempenham papel importante durante o inverno boreal ou austral. No vero,
eles se enfraquecem e so varridos para as extremidades do continente. Os
centros de atividade atmosfrica compreendem, por fim, uma zona de baixas
presses centrada no Equador trmico, oscilando de 5o de latitude sul em janeiro
a 11o de latitude norte em julho. Os anticiclones emitem os alsios  que varrem
a rea intertropical  em direo  zona equatorial de baixa presso dos ventos
de superfcie. Do anticiclone dos Aores partem ventos frescos e constantes  os
alsios atlnticos, de direo nordeste  que afetam somente uma estreita faixa
da costa do Saara at o Cabo Verde. O anticiclone de altitude do Saara  a fonte
dos ventos de nordeste, os alsios continentais, secos e relativamente frescos, mas
aquecidos  medida que se movem em direo ao sul. Trata-se do harmat, de
direo leste, abrasador e seco, que sopra com grande regularidade sobre todo
o Sahel, do Chade ao Senegal.  acompanhado por turbilhes ascendentes que
carregam areia ou poeira, originando nvoa seca. No hemisfrio sul, durante o
inverno austral, manifestam-se tambm ventos relativamente secos e quentes em
algumas partes da bacia do Zaire. Mas sobretudo nesta estao, que corresponde
ao vero boreal, as baixas presses continentais centradas no sul do Saara atraem
os alsios martimos provenientes do anticiclone de Santa Helena; estes se
desviam para nordeste aps cruzar o Equador.  a mono da Guin, que sopra
sob o harmat, afastando-o para o norte e elevando-o. O encontro dessas massas
de ar de direo, temperatura e umidade diferentes  a zona de convergncia
intertropical ou frente intertropical, que determina as estaes chuvosas.
    Durante o vero boreal (maio-setembro) a frente intertropical, de direo
leste-oeste, desloca-se entre 10o e 20o de latitude norte. O alsio vindo do sul
carrega, ento, massas de ar midas para a costa da Guin, dando incio  estao
354                                                     Metodologia e pr-histria da frica



chuvosa. No inverno, a zona de convergncia forma-se no golfo da Guin,
abordando o continente pela costa de Camares e cortando a metade sul do
continente, para atravessar o canal de Moambique e o noroeste de Madagscar.
Ao norte do Equador, reinam os ventos continentais muito secos na frica
ocidental. Ao sul do Equador, a convergncia do alsio continental austral e das
massas de ar do alsio martimo proveniente do norte do oceano ndico provoca
precipitaes.
    O mecanismo geral do clima pode ser modificado por fatores geogrficos,
tais como as correntes marinhas, o relevo e a orientao da costa. As correntes
frias constantes da fachada atlntica da frica atuam simetricamente em ambos
os lados do Equador. Ao norte, a corrente das Canrias, movida pelos ventos
do anticiclone dos Aores, segue a costa desde Gibraltar at Dacar, trazendo
baixas temperaturas e neblina. Perto dos 15o de latitude, a corrente das Canrias
volta-se para oeste. Sua rplica no hemisfrio sul  a corrente de Bengala, posta
em movimento pelos ventos do anticiclone de Santa Helena e acompanhada de
temperaturas baixas e densos nevoeiros ao longo das costas do sudoeste africano,
antes de seguir para oeste na altura do cabo Frio. Assim se explicam os desertos
costeiros da Mauritnia e da Nambia. Entre as duas correntes frias da fachada
atlntica insinua-se a contracorrente equatorial da Guin, que desloca massas
de gua quente de oeste para leste, aumentando a umidade e a instabilidade
atmosfricas e, consequentemente, a possibilidade de chuva ao longo da costa,
de Conakry a Libreville.
    A circulao das correntes marinhas na fachada do oceano ndico manifesta-
-se de forma diferente. As guas equatoriais, impelidas em direo ao continente
pelos ventos de sudeste provenientes do anticiclone centrado no leste de
Madagscar, formam a corrente quente de Moambique, que se dirige para o
sul e tem como prolongamento a corrente das Agulhas. Traz umidade para a
costa sudeste da frica. Ao norte do Equador, as correntes marinhas se invertem
com a mudana de direo dos ventos. Assim, no vero, uma corrente quente de
direo nordeste passa ao longo da costa da Somlia. No inverno, essa mesma
costa  banhada por uma corrente fria proveniente da Arbia que se move em
direo ao Equador.
    O relevo da frica, no obstante sua relativa uniformidade, exerce influncia
sobre o clima, uma vez que ope as elevaes litorneas  verdadeiras telas a
impedir o acesso das massas de ar midas  s bacias centrais, planaltos interiores
e vales de abatimento tectnico, onde prevalecem graus variados de aridez.
    A disposio do litoral em relao  direo dos ventos portadores de chuva
tambm constitui um fator de diferenciao climtica. As reas diretamente
Geografia histrica: aspectos fsicos                                          355



expostas  mono de sudoeste, especialmente quando montanhosas, apresentam o
mais alto ndice pluviomtrico da frica ocidental (aproximadamente 5000 mm na
Repblica da Guin). Na frica austral e em Madagscar, as costas perpendiculares 
direo dos alsios martimos recebem fortes precipitaes. J os setores costeiros
paralelos  direo dos ventos e sem relevo marcante, como no Benin e na
Somlia, recebem menos chuva.
    Na frica, os ritmos climticos sazonais so determinados principalmente
pela pluviosidade. O volume das precipitaes decresce gradualmente do Equador
aos trpicos, e os desertos de Saara e Calaari recebem menos de 250 mm de
chuva por ano. Essa diminuio dos totais pluviomtricos  acompanhada de
modificaes nos ritmos sazonais das precipitaes, que apresentam maior
contraste  medida que se vai para o norte. Nas regies prximas ao Equador,
portanto submetidas  influncia permanente das baixas presses, as chuvas
manifestam-se durante o ano inteiro, embora diminuindo sensivelmente nos
solstcios. Em direo ao norte e ao sul, as chuvas se concentram em um nico
perodo, que corresponde ao vero de cada hemisfrio. Assim, uma estao
chuvosa se ope a uma estao seca, que se torna mais longa  medida que nos
aproximamos dos trpicos. Mas as duas extremidades do continente, o Magreb
e a provncia do Cabo, apresentam uma originalidade marcada pelas chuvas
de estao fria. Essas regies tm um ndice pluviomtrico mdio, distribudo
irregularmente no espao.

    Zonas climticas
   As variaes dos regimes pluviomtricos, tanto nos totais anuais quanto na
distribuio sazonal, orientam a diviso da frica em grandes zonas climticas.

    Climas equatoriais
    Caracterizam as regies centrais que, em ambos os lados do Equador,
deparam com duas passagens equinociais da frente intertropical, s quais so
ligadas fortes precipitaes. Desde o sul de Camares  bacia do Zaire, ocorrem
chuvas abundantes durante o ano todo. O ar fica saturado de vapor de gua
em todas as estaes. O total pluviomtrico anual geralmente ultrapassa os
2000 mm. Nessa atmosfera mida, observa-se uma fraca variao mensal de
temperatura; a mdia anual  de 25oC.
    A leste, nas regies equatoriais sob influncia climtica do oceano ndico,
encontramos os mesmos ritmos pluviomtricos, mas com um total anual inferior
a 1500 mm. As variaes anuais da temperatura apresentam-se mais acentuadas
356                                                              Metodologia e pr-histria da frica



do que as da fachada atlntica da zona equatorial. As amplitudes diurnas so
mais altas nas regies que pertencem climaticamente ao mundo ndico.

      Climas tropicais
   Manifestam-se na vasta rea influenciada pelos deslocamentos da frente
intertropical, ao norte e ao sul da zona equatorial. O noroeste da frica, entre
os 4o de latitude e o Trpico de Cncer, possui uma gama variada de climas,
desde as duas passagens equinociais ao sul  passagem solsticial nica ao norte.
No litoral do golfo da Guin, o clima  subequatorial ou guineense, sem estao
seca, mas apresentando uma pluviosidade mais acentuada quando das duas
passagens do sol pelo znite. O efeito orogrfico da barreira costeira provoca a
condensao de uma forte umidade trazida pela mono do sudoeste. A faixa
costeira, desde a Repblica da Guin at a Libria, recebe mais de 2000 mm
de precipitaes anuais.
   A regio do Sudo, localizada mais ao norte, apresenta vrios aspectos de
clima intertropical. Distingue-se uma variedade seca que anuncia o deserto.
Em latitudes mais altas, as duas estaes, a mida e a seca, alternam-se na zona
intertropical. Entre os dois extremos  fortes chuvas equatoriais e a aridez do
Trpico de Cncer  encontramos as seguintes gradaes:
         a)   A primeira subzona caracteriza-se por apresentar ndices pluviomtricos
              anuais entre 1500 e 2000 mm e precipitaes que duram mais de seis meses.
              As amplitudes trmicas anuais aumentam em relao s da zona equatorial.
         b)   A subzona central  mais seca, pois as precipitaes ocorrem somente de
              trs a seis meses por ano, totalizando de 600 a 1500 mm. As amplitudes
              trmicas mostram sensvel aumento.
         c)   A subzona setentrional, conhecida como Sahel na frica ocidental, recebe menos
              de 600 mm de precipitaes, que ocorrem durante menos de trs meses. As
              chuvas so cada vez mais irregulares e as variaes de temperatura so crescentes.
         d)   Ao sul do Equador, distingue-se a mesma distribuio latitudinal das variedades
              climticas tropicais. Observam-se, porm, gradaes mais ntidas, por ser a frica
              austral menos macia e devido  importncia das altas elevaes que dominam as
              plancies costeiras banhadas pelo oceano ndico. A convergncia do ar martimo
              equatorial do noroeste e do ar martimo tropical do leste provoca chuvas
              abundantes nas costas de Moambique e na fachada oriental de Madagscar.
              A costa atlntica, ao contrrio,  seca devido  presena da corrente quente de
              Benguela, responsvel pela existncia do deserto da Nambia.
Geografia histrica: aspectos fsicos                                        357



    Climas desrticos
   Os climas desrticos caracterizam as regies situadas de ambos os lados
dos trpicos. O ndice pluviomtrico  inferior a 250 mm e as precipitaes
bastante irregulares. O Saara, o maior deserto quente do mundo, recebe no
total menos de 100 mm de chuva por ano. Entretanto, observam-se gradaes
devidas  oscilao do anticiclone do Saara que, entre os solstcios, sobe para
o Mediterrneo ou desce para baixas latitudes. No primeiro caso, facilita a
penetrao de infiltraes da mono, enquanto no segundo favorece incurses
de ar polar. Tais oscilaes permitem distinguir o Saara setentrional, com
chuvas mediterrneas na estao seca, do Saara central, onde praticamente
no ocorrem precipitaes, e do Saara meridional, com chuvas tropicais na
estao quente.
   Situado no Trpico de Capricrnio, o deserto do Calaari  mais aberto que
o Saara s influncias ocenicas do sudoeste, pois o estreitamento do continente
atenua a influncia da clula anticiclnica sobre o clima. Dessa forma, h maior
umidade e menores amplitudes trmicas.

    Climas mediterrneos
    Os climas mediterrneos do Magreb e da extremidade meridional da frica
tm por peculiaridade a diviso do ano em duas estaes, uma fresca e chuvosa e
outra quente e seca. A regio mediterrnea, submetida ao regime dos ventos da
zona temperada, caracteriza-se pela passagem, no inverno, de ciclones ocenicos
carregados de umidade. Por vezes, ocorrem invases de ar polar, que ocasionam
frio intenso acompanhado de geada e neve, em particular nas cordilheiras do
Magreb. A aridez e o calor do vero originam-se da influncia dos ventos que
sopram dos desertos vizinhos: o Saara no hemisfrio norte e o Calaari no
hemisfrio sul.


    Meios bioclimticos africanos
   Na frica, mais do que em qualquer outra parte do mundo, a vida humana
se organizou em contextos naturais que se revelam, antes de tudo, meios
bioclimticos. O clima e o relevo combinam seus efeitos para determinar as
grandes regies, individualizadas pela hidrologia, caractersticas pedolgicas e
botnicas.
358                                                   Metodologia e pr-histria da frica



      O escoamento das guas continentais
   A diversidade climtica reflete-se na hidrografia. Na frica, porm, o
escoamento das guas para os oceanos exerce uma funo muito menos
importante do que aquela que um julgamento precipitado poderia sugerir. Mais
da metade da superfcie do continente compe-se de regies de drenagem arrica
ou endorrica. Alm disso, os sistemas fluviais encontram obstculos no seu
percurso. De fato, seus contornos so formados por trechos de fraca declividade
unidos abruptamente por rpidos, quedas d'gua e cataratas. Assim, grande parte
das guas que eles drenam sofre infiltrao permanente e, sobretudo, intensa
evaporao, resultante da estagnao nas bacias, fossas e depresses do pedestal.

      Organizao das redes hidrogrficas
    As vastas reas do continente onde as chuvas so escassas ou inexistentes
no possuem cursos d'gua permanentes. Mas a rea seca mediterrnea recebe
algumas chuvas violentas que originam lenis de escoamento que por vezes
se acumulam em uedes. Estes terminam por esvaziar-se devido  evaporao
e infiltrao das guas. Nas regies de ndice pluviomtrico satisfatrio, em
clima tropical ou equatorial, os grandes rios e seus principais afluentes formam
redes organizadas que coletam parte da gua das bacias, assegurando-lhes o
sangramento em condies frequentem ente difceis. De fato, as bacias em que se
formou a maioria dos rios africanos apresentam soleiras perifricas desfavorveis
a um bom escoamento para o mar. Assim, as guas continentais escoam-se
atravs das dobras costeiras por vales estreitos e profundos, que apresentam
frequentes rupturas de declive no curso inferior de alguns dos principais rios. O
Zaire possui trinta e dois rpidos entre Stanley Pool e o esturio. O Zambeze
salta 110 m nas cataratas de Vitria, antes de mergulhar na Garganta de Kariba
e atravessar vrias cataratas baslticas. A jusante de Cartum, o Nilo passa por
seis rpidos, denominados cataratas, antes de chegar ao Mediterrneo. Todos os
demais grandes rios  Nger, Senegal, Orange, Limpopo  tm perfil em forma
de escada, principalmente nos cursos inferiores.  fcil entender, desde logo, as
dificuldades de navegao nos rios da frica, que tm a aparncia de medocres
canais de comunicao. Entretanto, foram eles que permitiram, no passado,
contatos proveitosos entre os diferentes povos do continente.
    Entre as grandes redes hidrogrficas, observam-se confusas redes de crregos,
lagoas e pntanos, desordenados e sem drenagem regular para o exterior. Trata-
-se, por vezes, de guas estagnadas, ou de escoadouros das guas provenientes
Geografia histrica: aspectos fsicos                                         359



do transbordamento dos rios adjacentes, ou ainda, ao contrrio, de afluentes
desses cursos d'gua. Estes se formaram, ao longo das eras geolgicas, nas
bacias de subsidncia, no fundo das quais as guas continentais carregadas de
aluvio acumularam-se em lagos. A drenagem tornou-se possvel pela ao
de movimentos tectnicos que afetaram o embasamento. Assim, os imensos
lagos interiores escoaram suas guas atravs dos vales de abatimento tectnico
ou das falhas. Fenmenos de captura resultantes do fraturamento do pedestal
ou da evoluo morfolgica contriburam, sem dvida, para a organizao das
redes hidrogrficas. O endorresmo ainda se manifesta, entretanto, nas bacias
do Chade e Okovango, ocupadas por lagos rasos e pntanos que adquirem
dimenses impressionantes ao receber a contribuio sazonal dos lenis de
escoamento superficial. Outras bacias de subsidncia, embora providas de
sada para o mar, apresentam uma tendncia anloga ao endorresmo. Assim
se formaram os pntanos de Macina ou "delta interior do Nger", os do Bahr
el-Ghazal no Sudo e os da bacia do Zaire.

    Regimes dos rios africanos
    Por toda a frica, os ritmos pluviomtricos regulam os regimes hidrolgicos,
o que equivale a dizer que as variaes sazonais dos dbitos fluviais esto
diretamente ligadas ao regime anual de precipitaes. Os cursos d'gua das
regies equatoriais so regulares e caudalosos o ano inteiro. No entanto,
apresentam dois perodos de cheia, correspondentes s chuvas equinociais.
    Na zona tropical, um perodo de cheia correspondente  estao das chuvas,
isto , ao solstcio de vero,  seguido por um perodo de pronunciada estiagem
durante a estao seca. O regime , portanto, bastante contrastado. Ademais,
h um intervalo entre o perodo de precipitaes e a subida das guas, devido
ao lento escoamento das mesmas sobre superfcies de declividade geralmente
fraca. Nas regies subridas, o escoamento intermitente dos uedes manifesta-
-se quando das raras chuvas violentas, que provocam cheias repentinas mas de
curta durao, visto que as guas se perdem rio abaixo. Na zona mediterrnea,
as fortes chuvas e a presena de relevos montanhosos transformam os rios em
torrentes. Esses rios tm regimes bastante irregulares, caracterizados por cheias
no inverno e estiagem acentuada no vero. Nesta zona climtica, muitos cursos
d'gua so uedes de escoamento intermitente.
    Os grandes rios africanos, com redes que se estendem sobre vrias zonas
climticas, escapam aos esquemas simples anteriormente mencionados.
360                                                   Metodologia e pr-histria da frica



Caracterizam-se por regimes complexos variveis, ou seja, por variaes sazonais
de dbito que se modificam de montante a jusante.

      Os grandes rios africanos
   Na frica, uns poucos rios de grande porte, que se colocam entre os mais
importantes do mundo, drenam imensas bacias, quase todas situadas na zona
intertropical. Os regimes desses rios esto ligados s condies de alimentao
pluvial das vertentes de suas bacias.
   O Zaire  o exemplo mais tpico de rio equatorial com duas mximas
equinociais. Sua rede estende-se por quase 4 milhes de quilmetros quadrados,
entre 12o S e 9o N. Assim, por intermdio do Kasai e do Lualaba, ele cruza
regies austrais com mxima pluvial nos solstcios. Seu principal afluente do
hemisfrio norte , ao contrrio, alimentado pelas chuvas do solstcio boreal,
enquanto uma grande parte de seu curso se estende por regies com duas
mximas pluviais equinociais, A combinao de diferentes intumescncias gera,
em Kinshasa, um regime hidrolgico com duas mximas (em maro e em julho).
O Zaire  um rio abundante e regular, cujo dbito mdio anual de 40.000 m3/s
s  superado pelo do Amazonas.
   O Nilo, que atravs de seu brao de origem, o Kagera, tem suas cabeceiras
em Ruanda e Burundi, recebe guas equatoriais que se espalham pelos pntanos
do Bahr el-Ghazal. Aps atravessar o lago Vitria,  reforado pelos afluentes
tropicais provenientes das montanhas da Etipia. O Nilo Azul e o Atbara, que
tm um regime de mxima solsticial, permitem que o Nilo atravesse uma imensa
rea desrtica antes de alcanar o Mediterrneo. Apesar de sua grande extenso,
sem igual na frica (6700 km), o Nilo  pouco volumoso, possuindo um dbito
mdio anual inferior a 3000 m3/s. Porm tem sido, desde a Antiguidade, um
dos rios mais teis do mundo.
   O Nger, cuja bacia se estende de 5 N a 16 N, possui um regime mais
complexo. Ele descreve uma extensa curva, de traado bastante original. Nasce
na faixa montanhosa do Atlntico e dirige-se para o Saara, orientando-se,
depois, para o golfo da Guin, onde desgua por um vasto delta. Assim, os cursos
superior e inferior atravessam regies meridionais de clima tropical mido. O
curso mdio demora-se em um "delta interior" de clima saheliano e curva-
-se com dificuldade na regio subdesrtica de Tombuctu, antes de receber um
volume de gua cada vez maior em direo  jusante. A estao chuvosa traz
duas cheias simultneas, uma no curso superior e outra no curso inferior. Mas a
primeira, que se manifesta at o Nger, declina gradualmente em consequncia
Geografia histrica: aspectos fsicos                                        361



da evaporao e da infiltrao na zona tropical seca. A segunda, visvel desde o
norte do Benin, continua a jusante devido s chuvas locais de mxima solsticial.
O Nger recebe, no curso inferior, o Benue, seu principal afluente.

    Solos africanos
    A distribuio geogrfica dos solos segue um zoneamento estreitamente
vinculado ao clima. As vrias formaes pedolgicas resultam principalmente
da ao da gua e da temperatura nas rochas locais. Nas regies tropicais, as
chuvas quentes, abundantes e cidas lavam as rochas, dissolvendo os minerais
bsicos e carregando-os para as camadas inferiores do solo. Nas baixas latitudes
muito midas, at 10o ao norte e ao sul do Equador, a decomposio qumica
das rochas resulta na formao de solos ferralticos. Trata-se geralmente de
argilas mveis avermelhadas, de vrios metros de espessura. Originam-se da
transformao da rocha-me em elementos coloidais, incluindo o caulim, a
hematita e a slica (cerca de 30% do total). Embora protegidos da eroso pela
cobertura florestal, os solos ferralticos contm pouca matria orgnica e hmus.
    Nas regies sudanesas com estao seca definida, formam-se solos tropicais
ferruginosos menos profundos que os anteriores, ricos em xidos de ferro,
possuindo superfcie arenosa e interior argiloso. Pouco estveis, so sensveis
 eroso pluvial e elea. Sua estrutura se deteriora muito rapidamente na
superfcie se a cobertura vegetal estiver ausente. Esses solos frequentemente
sofrem laterizao na frica ocidental, onde o processo de lixiviao, que
ocorre durante a estao chuvosa, alterna-se com um intenso dessecamento
na estao seca, especialmente quando sopra o harmat. Em algumas regies
situadas ao norte da faixa costeira do golfo da Guin, h antigas superfcies
desnudadas pela eroso, cujos solos apresentam carapaas ou couraas
denominadas bow. Tais formaes pedolgicas caracterizam-se por um forte
acmulo de xido de ferro e alumnio seguido de endurecimento nos nveis
menos profundos. Mas um bom nmero desses bow antigos data do Tercirio.
Suas superfcies laterticas afloraram em consequncia da eroso dos nveis
mveis superiores. O valor agronmico desses solos , em toda parte, muito
limitado. Solos semelhantes so encontrados em Madagscar nos tampoketsa
do noroeste de Antananarivo. Mais ao norte, no hemisfrio boreal, formaram-
-se, sob um clima de estaes contrastantes e sob uma cobertura herbcea,
solos pardos, estruturados, de grande valor agronmico. Apesar de sensveis 
lixiviao, permitiram o desenvolvimento de culturas agrrias associadas aos
grandes imprios sudaneses da poca pr-colonial.
362                                                                     Metodologia e pr-histria da frica



    Ao sul do Equador, nos pases banhados pelo Zambeze, formaram-se sob a
cobertura da floresta seca solos ligeiramente lixiviados, semelhantes a formaes
podzlicas.
    Ao norte e ao sul, nas regies subridas vizinhas ao Saara e ao Calaari,
encontram-se solos castanhos de estepe, que correspondem a areias dunares
mais ou menos fixas, ou a formaes argilo-arenosas nas depresses. Leves e
soltos, so adequados para o plantio, mas sua regenerao requer a prtica de
longos alqueives de arbustos ou herbceas. Nas regies ridas onde predominam
as formas de eroso mecnica, as fortes variaes de temperatura favorecem a
fragmentao das rochas, que sofrem igualmente a ao violenta do vento e das
raras chuvas, estas responsveis pelo escoamento em lenol do material detrtico.
Observam-se, nessas regies, areias estreis constituindo ergs, cascalheiras ou
regs que cobrem grandes extenses e crostas argilosas nas plancies. Excetuando-
-se os osis, os desertos no oferecem solo utilizvel para o plantio.
    No meio ambiente mediterrneo, a ao da gua e das estaes contrastadas
ocasionam uma menor alterao qumica das rochas, em relao ao fenmeno
de decomposio observado na regio tropical mida. Os solos assemelham-se
aos dos trpicos secos, apresentando colorao vermelha, cinza ou castanha. Em
geral so ricos em sais. Alguns deles, como os solos estpicos, ricos em calcrio,
introduzem o meio temperado. Outros, formados de crostas de calcrio ou gipso,
so bastante caractersticos da zona mediterrnea.

      Regies biogeogrficas
  Fatores climticos e pedolgicos respondem pela diversidade das condies
mesolgicas nas quais se constituem as paisagens botnicas.

      Florestas densas pluviais
   A paisagem botnica mais imponente localiza-se no centro do continente,
entre 5o N e 5o S. A vegetao caracterstica  a floresta densa, mida e alta,
que se divide em diversos estratos sucessivos. Lianas e epfitas acentuam a
obscuridade causada pela superposio das folhagens sempre verdes. Existem,
porm, gradaes;  o caso dos cerrados pantanosos sobre potopoto1 ou das
clareiras que anunciam a passagem para formas caractersticas de climas
mais secos. A extrema diversificao das espcies da floresta pluvial, bem


1     Solo lamacento de alguns centmetros de profundidade constitudo essencialmente de argila.
Geografia histrica: aspectos fsicos                                         363



como sua distribuio espacial anrquica, tornam difcil sua explorao. O
calor e a umidade constantes, aliados  exuberncia da vegetao, favorecem
a multiplicao de microrganismos, vermes e insetos. Trata-se de um meio
geralmente hostil ao homem, que, apesar de silencioso,  habitado por uma
grande variedade de animais, tais como o hipoptamo, o elefante, o porco-
-selvagem e a pantera. Mas so os pssaros, rpteis e mamferos arborcolas
que encontram maior facilidade de locomoo e reproduo, apesar de fatores
adversos como a abundncia de parasitas. Fora da zona equatorial, a grande
floresta fluvial pode existir em terras altas expostas por muito tempo aos ventos
carregados de umidade, de que  exemplo a vertente oriental dos planaltos de
Madagscar.

    Savanas e florestas abertas
   A zona da floresta ombrfila limita-se com a floresta seca de folhas caducas,
caracterstica das regies onde as chuvas se concentram nos solstcios. Aparece,
na maioria dos casos, como uma formao aberta em que a populao arbrea
cobre apenas parcialmente uma vegetao arbustiva e herbcea. Quando sofre
depredao humana, d lugar a paisagens herbceas caractersticas de regies
com estao seca mais definida. Assim, a savana tropical aparece  medida que
nos afastamos das baixas latitudes. Essa vegetao, caracterstica de regies com
estaes contrastadas, apresenta algumas nuances relacionadas s variedades
mais ou menos midas de climas tropicais.
   Na orla da floresta, a savana pr-florestal comporta ainda grandes rvores,
que so, todavia, menos numerosas que os arbustos; a cobertura herbcea
adquire maior importncia. As florestas -galerias acompanham os cursos
d'gua em faixas mais ou menos largas. A floresta-parque justape espaos
arborizados a superfcies com menor cobertura, onde aparecem principalmente
gramneas altas. As savanas herbceas destitudas de rvores resultam, sem
dvida, do desmatamento efetuado pelo homem e da laterizao do solo.
Mais alm da floresta densa, a savana herbcea, constituda de um tapete
contnuo de ervas altas, cede gradualmente lugar  savana arbustiva, onde
com frequncia o solo aparece desnudado entre trechos de cobertura herbcea.
Nos diferentes tipos de savanas, os animais herbvoros encontram condies
favorveis de existncia. Dessa forma, a caa  abundante, e existem condies
propcias  criao de gado. Nessas terras de fcil desbravamento, o homem
pode igualmente dedicar-se  prtica da agricultura.
364                                                   Metodologia e pr-histria da frica



      Paisagens de estepe
   A estepe caracteriza as regies que apresentam uma longa estao seca.
Compe-se de tufos de gramneas e arbustos espinhosos, principalmente
accias. Essa formao aberta  encontrada nas regies setentrionais da frica
ocidental e oriental e, mais esporadicamente, na frica do Sul, no deserto de
Calaari e no sudoeste de Madagscar. A vegetao subdesrtica, constituda por
uma estepe progressivamente empobrecida,  encontrada nas regies de ndice
pluviomtrico inferior a 200 mm.

      Formaes vegetais mediterrneas
   As extremidades do continente africano apresentam estepes arbustivas
ou graminosas nas regies mais secas. Nas regies mais midas, porm,
principalmente nas cordilheiras do Magreb, aparecem florestas secas de carvalhos,
sobreiros, pinheiros e cedros. So formaes vegetais pereniflias que dominam
uma vegetao rasteira arbustiva.


      Concluso
    A frica aparece como um velho continente que, desde pocas remotas,
foi ocupado por povos que cedo desenvolveram esplndidas civilizaes. A
geografia africana, tanto em seus aspectos estruturais como em seus meios
naturais, mostra traos vigorosos herdados de um longo passado geolgico.
O espao africano  mais macio e continental do que qualquer outro. Vastas
regies no corao do continente, a uma distncia de mais de 1500 km do
mar, permaneceram durante muito tempo  margem das grandes correntes
de circulao, o que explica a importncia das depresses meridianas, como o
Rift Valley da frica oriental, para a fixao do homem desde a Pr-Histria.
O isolamento geogrfico acentuou-se nas proximidades dos trpicos devido s
variaes climticas do Tercirio e do Quaternrio. Durante milhares de anos, o
Saara mido foi um dos maiores centros de povoamento do mundo. Mais tarde,
os perodos secos contriburam para a formao de imensos desertos como o
Saara e o Calaari. Os intercmbios de todo tipo entre as diversas civilizaes do
continente foram, por conseguinte, prejudicados, mas no interrompidos. Dessa
forma, o clima constitui um fator essencial para a compreenso do passado
africano. Ademais, os ritmos pluviomtricos e os meios bioclimticos exercem
uma influncia efetiva na vida do homem atual. As sociedades africanas tiraram
Geografia histrica: aspectos fsicos                                        365



proveito da complementaridade das zonas climticas para estabelecer entre si
as correntes de intercmbio mais antigas e vigorosas. Finalmente, a histria da
frica foi particularmente influenciada pela riqueza mineral, que constitui um
dos principais fatores da atrao que o continente sempre exerceu sobre os povos
conquistadores. Assim, o ouro da Nbia e de Kush foi explorado pelas dinastias
do antigo Egito. Mais tarde, o ouro da frica tropical, principalmente da regio
sudanesa e do Zimbabwe, tornou-se fonte de prosperidade das sociedades do
norte da frica e do Oriente Prximo e suporte dos grandes imprios africanos
do sul do Saara. Em tempos remotos, o ferro foi objeto de troca entre a floresta
e as regies tropicais da frica. As salinas da orla do Saara tiveram um papel
importante nas relaes entre os Estados negros do Sudo e dos povos rabe-
-berberes do norte da frica. Mais recentemente, a riqueza mineral da frica
tem sido explorada pelas potncias coloniais. Atualmente , em grande parte,
exportada como matria-prima.
Geografia histrica: aspectos econmicos                                     367



                                       CAPTULO 14


                            Geografia histrica:
                            aspectos econmicos
                                           A. Mabogunje




   Segundo Gilbert, "o verdadeiro objetivo da geografia histrica  a reconstruo da
geografia regional do passado".1 Num volume como este, tal definio deveria levar-
-nos a apresentar uma geografia regional da pr-histria africana, com nfase nos
aspectos econmicos. Tal propsito implicaria, sem dvida, em um exame completo
das condies fsicas e humanas vigentes num passado remoto, o que inevitavelmente
acabaria por invadir o objeto de estudo de alguns tantos outros captulos deste
volume. Assim sendo, o presente captulo tratar fundamentalmente de considerar os
recursos naturais bsicos em termos da forma como foram descobertos e utilizados
na frica desde a Pr-Histria. Tal enfoque, alm de revelar a vasta gama de riquezas
naturais do continente como as conhecemos na atualidade, procurar destacar
aquelas que foram consideradas como tais num passado remoto, os lugares onde
foram descobertas, a maneira como foram utilizadas e em que medida facilitaram
ou frearam o controle do homem sobre extensas reas do continente.


    Os minrios e o desenvolvimento da tecnologia humana
   Os minerais talvez constituam o mais significativo dos recursos naturais
que permitiram ao homem o controle de seu meio ambiente. Os minrios so

1    GILBERT, E. W. 1932, p. 132.
368                                                   Metodologia e pr-histria da frica



o material-chave do universo. Seu processo de formao  extremamente lento,
podendo estender-se por milhes de anos. Comparada  ocupao da Terra
pelo homem, a qual talvez remonte a trs milhes de anos, a escala temporal
geolgica  bastante longa, abrangendo mais de cinco bilhes de anos.
    Vastas zonas da frica repousam sobre massas rochosas classificadas entre
as mais antigas do planeta. As rochas cristalinas antigas, consideradas como
o "pedestal" rochoso do continente, recobrem pelo menos um tero de sua
superfcie. Compreendem sobretudo granitos e rochas metamrficas, como
os xistos e os gnaisses. Algumas so altamente mineralizadas. Entre as mais
importantes dessas formaes, convm destacar as da zona cuprfera do Shaba
(Zaire), cuja extenso ultrapassa 300 km. Esta zona contm no s as maiores
jazidas de cobre do mundo, como tambm algumas das mais ricas jazidas de
rdio e cobalto. No Transvaal (frica do Sul), o complexo gneo do Bushveld,
com uma superfcie de 6000 km2, e o Great Dike, que atravessa o Transvaal
numa extenso de 500 km at o Zimbabwe, so igualmente abundantes em
minrios, como a platina, o cromo e o amianto. A zona diamantfera africana no
tem correspondente no resto do mundo.  na frica do Sul que atinge sua maior
concentrao, embora haja outras jazidas na Tanznia, em Angola e no Zaire. A
frica do Sul, Gana e o Zaire possuem minas de ouro; o estanho  encontrado
no Zaire e na Nigria. Ressaltemos tambm a presena de importantes jazidas
de minrio de ferro na frica ocidental, como as da Libria, da Guin e de
Serra Leoa. Somente a Guin possui mais da metade das reservas mundiais de
bauxita, minrio de alumnio.
    O antigo embasamento da frica sofreu inmeras fraturas vulcnicas,
que remontam alm do Pr-Cambriano. Essas fraturas provocaram intruses
granticas portadoras de ouro e estanho, bem como imbricaes de rochas bsicas
e ultrabsicas. Produziram igualmente rochas eruptivas ou efusivas, em grande
parte de formao mais recente, que, alm de desagregar-se para formar solos
ricos e frteis, tambm produziram minrios e rochas de grande importncia na
histria do continente, como o basalto de obsidiana do Qunia.
    O resto da frica, ou seja, cerca de dois teros do continente, apresenta
antigas rochas sedimentares que remontam ao Pr-Cretceo. Devido  sua
idade, estas rochas tambm contm inmeros depsitos minerais. Ao longo
da margem norte do continente, por exemplo, numa rea que se estende do
Marrocos  Tunsia, atravessando a Arglia, encontra-se o grande cinturo dos
fosfatos associados s jazidas de ferro, extremamente ricas. Importantes jazidas
de minrio de ferro de origem sedimentar podem ser encontradas, ainda, na
regio de Karoo, na frica do Sul, e nas Damara, na Nambia. Em contrapartida,
Geografia histrica: aspectos econmicos                                      369



excetuando-se. umas poucas ocorrncias no High Veld da frica do Sul e no
Wankie Field do Zimbabwe, o carvo praticamente inexiste no continente. Como
que para compensar essa deficincia, as rochas sedimentares mais recentes do
Ps-Cretceo encerram, no Saara e no litoral da frica ocidental, vastos lenis
de petrleo e gs natural.
    Esta riqueza mineral contribuiu em grande parte para sustentar a organizao
e a explorao humanas durante um longo perodo da histria. Supe-se, por
exemplo, que o controle do comrcio do ouro entre o oeste e o norte da frica
atravs do deserto foi, durante o perodo medieval, uma das principais razes
do surgimento e da queda de imprios e reinos no Sudo ocidental.  certo
que, a partir do ltimo milnio, o comrcio do ouro e do minrio de ferro
atraiu os rabes  frica oriental. Por outro lado, inicialmente seduzidos pelas
riquezas minerais da Amrica Latina, os europeus, no decorrer dos ltimos
sculos, concentraram-se na frica, transformando-a em reservatrio colonial
de minrios brutos para alimentar o crescimento das indstrias europeias.
    Todavia, durante o perodo pr-histrico, os minrios de importncia
capital para o progresso tecnolgico do homem eram de tipo mais modesto,
e sua distribuio mais difusa. Os mais importantes so os minrios lticos, de
estrutura homognea e grande dureza, oferecendo excelentes possibilidades de
fisso.2 Distinguem-se, nessa categoria, as rochas gneas vitrosas encontradas nas
regies vulcnicas da frica oriental, particularmente nos arredores do Gregory
Rift Valley. Estas rochas foram a base da indstria paleoltica capsiense do
Qunia, que produziu longas lminas e diversos utenslios microlticos.
    Outro material de boa qualidade so as formas siliciosas, como o quartzito,
e as rochas de textura fina endurecidas, como o slex, os xistos e os tufos. No
Zimbabwe, a indstria mesoltica bambata consumiu grandes quantidades de
calcednia, enquanto o slex e a slica do Eoceno eram utilizados no planalto da
Tunsia e no Egito, para onde se supe tenham sido importados. O quartzito,
dentre todos o mais difundido na frica, sobretudo na forma de seixos presentes
nos cursos d'gua, foi a base das indstrias acheulenses do Paleoltico. Em certos
lugares, como no curso mdio do Orange, na frica do Sul, os xistos endurecidos
foram utilizados com a mesma finalidade que o quartzito.
    So, no entanto, inferiores as propriedades lticas dos anfibolitos de textura
fina, conhecidos pelo nome de greenstones, e das rochas gneas profundas ou
intermedirias, como o basalto, o dolerito e o diorito  todas oferecendo material


2    ROSENFELD, A. 1965, p. 138.
370                                                    Metodologia e pr-histria da frica



apropriado para a fabricao de machados e enxs. Estas rochas serviam tambm
para a confeco de armas, como as pedras de arremesso, e de pontas de flecha.
De todas as rochas gneas de grande consumo, talvez o basalto tenha sido a mais
utilizada na manufatura de recipientes de pedra, embora praticamente todas as
variedades de rochas disponveis tenham sido empregadas com esta finalidade.
Os granitos, o diorito e o porfirito, rochas gneas, foram utilizados localmente e
de forma intensiva. Tambm eram conhecidas as rochas de menor dureza, como
as calcrias; no Egito, por exemplo, chegaram a ser utilizadas rochas como a
esteatita e a serpentina. Alm do mais, a argila constituiu, em toda a frica, a
base da indstria da cermica, amplamente difundida e altamente diversificada,
remontando ao Mesoltico.
    A importncia dos minerais no desenvolvimento da tecnologia humana
durante a pr-histria vai alm da simples fabricao de ferramentas, armas e
recipientes: abrange tambm a construo de moradias, onde o barro substitua
o gesso. Edifcios pblicos importantes, monumentos como as pirmides do
Egito exigiram grandes quantidades de rochas granticas duras ou de quartzito.
Os minerais forneceram os pigmentos para as pinturas rupestres, algumas das
quais, no Saara e na frica austral, conservaram-se admiravelmente at nossos
dias. Os pigmentos eram obtidos atravs da triturao de diferentes tipos de
rochas, como a hematita, o mangans e o caulim, misturando-se o resultante
com elementos gordurosos ou resinosos.
    Mas foi certamente o ferro o minrio de maior importncia para o
desenvolvimento da frica no fim da era pr-histrica. A tecnologia moderna,
devido a sua mecanizao complexa e aos pesados investimentos econmicos que
acarreta, torna necessria a explorao de jazidas relativamente ricas em minrios
e em geral prximas umas das outras. Mas a situao na pr-histria era menos
restritiva. O laterito, ou crosta ferruginosa, recobre vastas zonas nas savanas
herbosas da frica e tambm reveste grande variedade de rochas. nos antigos
plats peneplanizados. Algumas variedades so to ricas que constituram a
base das primeiras atividades da metalurgia do ferro. To logo foi descoberta,
a tcnica expandiu-se com rapidez de ponta a ponta do continente, marcando
forte contraste com o cobre e o estanho, que, por se concentrarem em reas
muito restritas, no permitiram a ampla difuso da cultura do bronze na frica, 
exceo de algumas comunidades pr-histricas que faziam uso do cobre, como
os habitantes do planalto do nordeste da Etipia e os grupos Luba e Shaba.
Deve-se, porm, salientar a existncia de uma idade do cobre na Mauritnia,
pelo menos cinco sculos antes da Era Crist.
Geografia histrica: aspectos econmicos                                      371



    Os recursos vegetais e o crescimento populacional
    Graas a seus recursos vegetais, o continente africano pde suprir as
necessidades de uma populao cuja densidade no cessou de aumentar. Como
j ressaltamos, a frica , antes de tudo, um continente de pradarias. Uma
grande variedade de ervas vivazes cobre mais de 50% de sua superfcie total;
em seguida vem o deserto, com cerca de 30%; depois a floresta, com menos
de 20%. No plano da ocupao humana, essa diversidade de meios ambientes
foi importante na medida em que eles asseguravam a subsistncia da caa,
forneciam frutas ou razes comestveis, bem como materiais para a fabricao
de utenslios, vestimentas, abrigos, e, finalmente, ofereciam cultgenos passveis
de aclimatao e transformao em culturas agrcolas.
    A zona das pradarias , por essncia, a reserva da caa africana, com sua
grande variedade de antlopes, gazelas, girafas, zebras, lees, bfalos, bbalos,
elefantes, rinocerontes, hipoptamos, sem contar a caa de pequeno porte.
Assim, como salientou Clark, no  de surpreender que encontremos alguns
dos mais antigos stios de ocupao humana ao longo dos cursos d'gua ou
dos grandes rios,  beira dos lagos ou do mar, numa paisagem que, hoje,  a
pradaria, a savana, o Sahel semidesrtico ou o deserto.3 A floresta era, em geral,
despovoada. Com o tempo, porm, o crescimento populacional bem como o
grande desenvolvimento das tcnicas incitaram o homem a ocupar todo tipo de
regio: do litoral aos altos planaltos montanhosos; do que  hoje deserto rido
s profundezas da floresta densa.
    Convm lembrar, no entanto, que as atuais zonas de vegetao no
correspondem necessariamente  situao existente nos tempos pr-histricos.
Diversos ciclos de grandes variaes climticas marcaram o Saara, que, durante o
Quaternrio Inferior, foi mais mido e apresentou uma vegetao de tipo savana,
que fornecia alimento para animais como o boi, o porco selvagem (Phacochoerus),
o antlope e o hipoptamo. Acredita-se que, por sua vez, a floresta equatorial
tenha, simultaneamente, atravessado perodos mais ridos.
    Ao mesmo tempo em que se beneficiava das riquezas animais oferecidas
pelas diferentes zonas de vegetao, o homem explorava essas mesmas reas
para abastecer-se de frutas e razes comestveis. A presena de florestas-galerias
ao longo dos cursos d'gua nas regies de pradarias, permitia ao homem do
Acheulense a coleta de frutas, sementes e nozes das florestas e das savanas.


3    CLARK, J. D. 1970, p. 93-94.
372                                                   Metodologia e pr-histria da frica



Segundo Clark, muitos frutos selvagens, nozes e plantas da savana, acessveis no
norte da Zmbia aos Nachikufu do Paleoltico Superior  tais como os frutos
do mubuyu e do musuku , so ainda hoje coletados regularmente e consumidos
pelos povos de lngua bantu.4 Quando o crescimento populacional atingiu uma
tal proporo que todos os tipos de meio ambiente foram virtualmente ocupados,
a gama de produtos adequados ao consumo do homem deve ter aumentado
consideravelmente. Acredita -se, por exemplo, que a grande importncia
atribuda a certos cereais pelas comunidades que viviam da coleta no vale do
Nilo antecipou o plantio intencional de gros e conduziu  era da expanso
agrcola, de efeito decisivo na ocupao humana da frica.
    Alm da caa e da coleta, as riquezas vegetais tinham uma importncia
capital no que concerne  proviso de utenslios,  indumentria e  moradia. Na
extremidade sul do lago Tanganica, nas proximidades de Kalambo Falls, foram
descobertos utenslios de madeira em timo estado de conservao. Trata-se
de alguns instrumentos curtos, afiados numa ou nas duas extremidades, e de
bastes talhados de forma oblqua, provavelmente utilizados como p, todos
remontando ao Paleoltico Inferior. Embora utenslios de madeira raramente
tenham se conservado em outros lugares, parece que sua utilizao era comum.
Na floresta equatorial, o complexo industrial lupembiense do Paleoltico reflete
nos seus bifaces nucleiformes toda a importncia da tcnica da madeira. Da
mesma forma, a presena, na savana herbosa da Zmbia e do Malavi, de diversos
tipos de raspadores pesados entre os instrumentos lticos-nachikufuenses do
Paleoltico Superior pressupe o uso constante da madeira e de seus sucedneos
na confeco de muitas espcies de cercas, estacas e armadilhas de caa.
    Nos locais em que a caa de grande porte era insuficiente para garantir
o suprimento de peles  nas regies arborizadas, por exemplo  usava -se a
casca das rvores como vestimenta.  provvel que os machados cortantes e
encabados, como os encontrados nos arredores dos rochedos do Mwela, no
norte da Zmbia, tenham servido para extrair a casca das rvores e prepar-
-las para a confeco de roupas, recipientes e cordas. A partir do Mesoltico,
principalmente, os produtos vegetais passaram a ser utilizados na construo de
abrigos, que substituam a habitao nas cavernas. Assim, com galhos de rvores,
colmo e palha tranada, construiu-se o corta-vento mesoltico, cujas runas
encontradas em Gwisho Springs datam de meados do III milnio antes da Era
Crist. No Neoltico, especialmente nas zonas onde havia sido descoberta a


4     CLARK, J. D. 1970, p. 178.
Geografia histrica: aspectos econmicos                                      373



agricultura, multiplicaram-se e difundiram-se abrigos feitos de matrias vegetais
e, s vezes, de barro e vegetais. Constituem, sem dvida, o marco inicial do
domnio cultural do homem sobre a paisagem.
    Mas, se a presena de moradias to simples assinalou os primrdios da
ocupao efetiva da superfcie do globo pelo homem, foi a aptido para escolher
e domesticar novas plantas dentre as espcies selvagens que o cercavam que
consagrou, finalmente, a sua superioridade. As condies que permitiram ao
homem criar novas espcies cultivveis (os cultgenos) a partir de suas variedades
selvagens constituem ainda um tema controvertido para os cientistas. A
contribuio da frica para este importante evento, os enigmas que o cercam,
so tambm objeto de polmica. No atual estgio de nossos conhecimentos, de
modo geral se admite que essa participao foi menos notvel que a da sia.
Empreendidas aps a redao da obra monumental do botnico russo Vavilov
 que se recusou a admitir a existncia, na frica, de outro centro de seleo
digno deste nome que no as terras altas da Etipia  pesquisas mais recentes
passaram a apresentar uma perspectiva melhor orientada no que diz respeito 
contribuio endgena da frica para o desenvolvimento das culturas agrcolas.5
Nesse aspecto,  incontestvel que, a savana foi sensivelmente mais importante
que a floresta. Foi na savana que, entre o IV e o II milnio antes da Era Crist,
selecionou-se grande nmero de variedades indgenas apropriadas ao cultivo;
Grande nmero de cultgenos constituram o "complexo da agricultura com
sementes", caracterizado pela semeadura como preparao ao cultivo.6
    Em contrapartida, algumas aclimataes empreendidas na floresta faziam
parte do complexo das vegeculturas que implicam, enquanto fase precedente
ao cultivo, o preparo de brotos, mudas, rizomas ou tubrculos. A aclimatao
mais importante nessa regio foi a do inhame (Dioscorea spp), do qual inmeras
espcies so atualmente cultivadas. Outra planta domesticada na mesma regio
foi a palmeira-do-azeite ou dendezeiro (Elaeis guineensis).
    Apesar do nmero restrito de culturas aclimatadas, a descoberta da
agricultura implicou uma nova e fecunda relao entre o homem e o seu bitopo.
Significou sobretudo uma certa receptividade s inovaes, como a difuso de
cultgenos provenientes de outros horizontes. A frica deve  sia e  Amrica
do Sul bom nmero dessas novas culturas. No quadro das riquezas vegetais
naturais, o estabelecimento de uma preferncia por um nmero limitado de
plantas, indgenas ou estrangeiras, significou que o homem no s era capaz de

5    VAVILOV, N. L. 1935. Ver Cap. 27.
6    PORTERES, R. 1962, p. 195-210. Ver Cap. 27.
374                                                    Metodologia e pr-histria da frica



extrair sua subsistncia do meio natural, como tambm se punha a caminho de
modificaes biolgicas maiores. A necessidade de arrotear terras para implantar
novas culturas e de eliminar outras plantas que pudessem disputar com elas
os elementos nutritivos do solo acarretou em toda a frica mudanas radicais
no carter da vegetao. O fogo talvez tenha sido o elemento mais poderoso
utilizado com aquela finalidade. Os testemunhos de sua utilizao pelo homem
africano remontam  fase mais recente do Paleoltico Inferior; permitiram
concluir que o homem j o empregava comum ente na frica h 60.000 anos.
Entretanto parece que, a princpio, ele o utilizou apenas para sua proteo,
para a confeco de utenslios; talvez mesmo nas caadas, incendiando o mato
para desalojar a caa. Com a descoberta do cultivo, era natural que o homem
usasse o fogo tambm para eliminar a vegetao nociva. Esta luta travada pelo
fogo contra a vegetao e em benefcio do cultivo afetou de maneiras diversas
as plantas herbceas e as rvores. Na savana, especialmente durante a estao
seca, a erva queimava at o nvel do solo, mas as razes, enterradas, impediam
sua destruio. As rvores, ao contrrio, quando protegidas por cascas espessas,
morriam ou tornavam-se disformes e retorcidas.
    A introduo do fogo no ambiente natural acarretou, assim, uma transformao
considervel na paisagem, provocada pelo homem ao longo dos tempos. Como
consequncia das queimadas frequentes, que acabavam por destruir as espcies
vulnerveis da floresta densa, criavam-se novas condies, favorveis  expanso
progressiva das pradarias. Na frica ocidental, este processo mostrou-se
suficientemente dinmico para estabelecer uma zona de "savana derivada", ou
antrpica, que se estende do sul at 6o de latitude norte.7 Na savana propriamente
dita, constata-se que, sob o impacto de duas queimadas anuais, o carter da
vegetao modifica-se segundo as caractersticas menores da paisagem, passando
de pradaria, nas plancies, a uma savana arborizada nos terrenos mais rochosos.
De fato, a preservao dessas matas residuais em terrenos rochosos levou a se
pensar que, em uma grande parte do que hoje  a pradaria, a vegetao principal
deva ter sido a floresta.8
    De qualquer forma, as pradarias africanas proporcionaram ao homem do
passado considerveis fontes de recursos: no s eram mais fceis de arrotear,
como tambm permitiam fcil locomoo. A facilidade de locomoo foi fator
decisivo para o povoamento da frica que , por excelncia, o continente das
grandes migraes humanas, algumas das quais puderam ser reconstitudas

7     MORGAN. W. B. e PUGH, J. C. 1969, p. 210.
8     EYRE, S. R. 1963.
Geografia histrica: aspectos econmicos                                                    375



graas a testemunhos arqueolgicos, etnolgicos, lingusticos e histricos. Esses
grandes movimentos de populao foram importantes dada a rapidez de difuso
de ideias novas e principalmente de tcnicas e instrumentos. A propagao foi
por vezes to rpida que as pesquisas para identificar os stios de origem de uma
determinada inovao quase sempre enfrentam grandes dificuldades.
    A mobilidade do homem sempre foi um fator vital na organizao das
populaes em entidades polticas. Dessa maneira, as savanas africanas tiveram
influncia benfica, proporcionando as condies preliminares  criao dos
Estados. Dotados de meios de coero, esses Estados procuraram dominar outros
grupos que dispunham de organizao ou equipamentos militares inferiores
aos seus. Uma vez vencidos, tais grupos deixavam-se assimilar ou refugiavam-
-se em redutos menos acessveis ou hospitaleiros. Em resumo, o corolrio do
surgimento dos Estados na zona das savanas foi a disperso dos grupos mais
fracos, menos organizados, para ambientes hostis: zonas montanhosas ngremes,
desertos, florestas densas.
    V-se, portanto, que as riquezas vegetais desempenharam um papel
preponderante na evoluo histrica do homem na frica. Alm de prov-lo
com abundantes reservas de frutas e tubrculos, permitiram a criao de culturas
que, cuidadas e protegidas, proporcionaram-lhe novos e mais ricos meios de
subsistncia. O incremento dos recursos alimentares facilitou o crescimento
regular da populao africana. Segundo Carr Saunders, at 1650, o continente
s perdia para a sia em termos de populao. Seus 100 milhes de habitantes
representavam mais de 20% do total mundial.9 Um dos fatores importantes
do crescimento populacional foi tambm a maior segurana oferecida pelas
entidades sociopolticas melhor organizadas. Dada sua expanso mais acentuada
na zona das savanas, torna-se fcil entender por que,  poca, eram estas as regies
proporcionalmente mais povoadas do continente. Esta proporo ir modificar-
-se aos poucos a partir do sculo XVI, especialmente na frica ocidental, com
o trfico de escravos e a colonizao estrangeira.


    Recursos animais e diversidade cultural
   A distribuio das riquezas animais est estreitamente relacionada com a das
riquezas vegetais. A frica sempre foi considerada um continente particularmente


9    CARR SAUNDERS, A. M. 1964. Atualmente, a populao da frica representa apenas cerca de 10%
     do total mundial.
376                                                     Metodologia e pr-histria da frica



rico em mamferos. De fato, afirma-se que, excluindo o morcego, existem 38
famlias de mamferos africanos.
    A distribuio desses animais no continente evoluiu no tempo e no espao.
Vestgios fsseis indicam que todas as regies da frica, em determinado
momento, foram povoadas por grandes espcies selvagens. A regio mediterrnea
da frica do Norte abrigou animais como o leo e o elefante, vrios dos quais
acredita-se tenham sido afugentados pelas grandes secas do Pleistoceno. A
maior parte dos que restaram foi vtima, no decorrer dos dois ltimos milnios,
de um apresamento desmesurado;  o caso, por exemplo, do fornecimento de
animais aos anfiteatros romanos. Mais recentemente, em meados do sculo XIX,
as tropas francesas do duque de Aumale descobriram grandes quantidades de
animais selvagens, inclusive lees, por onde quer que passassem na Arglia, das
rochas ngremes do Constantino s plancies de Oran.
    O prprio deserto ainda conserva uma srie de espcimes da fauna selvagem:
gazelas dorca e dama, o dax, o rix com chifres em cimitarra, o rix algazel, etc.
Sabe-se que no decorrer de perodos mais midos, muito remotos, essas riquezas
foram incomparavelmente superiores, incluindo animais como o hipoptamo, a
girafa, o bfalo gigante, hoje extinto, e antlopes de porte maior.
    So as savanas africanas, no entanto, o verdadeiro reduto da maior parte
da caa de grande porte.10 Nas savanas do oeste, leste, centro e sul da frica,
encontram-se animais carnvoros, como, por exemplo, o leo, o leopardo, o gato-
-tigre africano e a hiena. Ali vivem tambm o bbalo, o topi, a gazela, o facoquero,
o antlope ruo, a zebra, a girafa e a avestruz.  habitat natural do elefante, do
bfalo, do rinoceronte-negro, do alce-de-Derby e do alce-do-Cabo, do cefalofo,
do cob singsing e do cob-dos-juncais. A extenso do territrio ocupado por
cada espcie modificou-se ao longo dos sculos. Todos esses animais sofreram,
por parte do homem, grandes devastaes. Na luta pela sobrevivncia, certas
espcies cederam lugar a outras,  medida que se modificavam as condies do
meio ambiente. Assim, pode-se, por exemplo, atribuir a ausncia do rinoceronte-
-branco entre o Zambeze e o alto Nilo Branco s modificaes do clima e da
vegetao durante o Pleistoceno, as quais beneficiaram o rinoceronte-negro,
mais agressivo.
    Embora a maior parte da caa selvagem se encontre na floresta da frica
tropical, essa regio , em seu conjunto, menos favorecida no plano das riquezas
animais. Entre os mais notveis habitantes da floresta, encontram-se o bush


10    SOMMER, F. 1953, p. 64. Ver Cap. 20.
Geografia histrica: aspectos econmicos                                               377



pig, ou porco-do-mato, o javali-gigante, o bongo, os grandes macacos, como o
chimpanz e o gorila, bem como o ocapi. Nesse caso tambm, as modificaes
do meio afetaram a extenso de territrios anteriores. Os vazios constatados nos
povoamentos de bongos devem-se ao estreitamento do que outrora devia ser
uma floresta densa cobrindo toda a frica equatorial.
    A abundncia de recursos animais foi sem dvida bastante til ao homem
durante o longo perodo em que se dedicou basicamente  caa. As reservas
pareciam a tal ponto inesgotveis, que algumas comunidades africanas at hoje
no ultrapassaram esse estgio de desenvolvimento.
    Os peixes representam outra categoria importante de recursos animais, sendo
igualmente "caados" desde o Mesoltico. No s os cursos d'gua, mas tambm
os lagos de gua doce  Rodolfo, Nakuru e Eduardo na frica oriental e central,
Chade na frica ocidental  atraram os primeiros grupos de homens por sua
piscosidade.11 Entre os rios, o Nilo teve, evidentemente, uma importncia especial.
s suas margens foram encontrados vestgios de comunidades que utilizavam
arpes e anzis feitos de osso e que tambm caavam e consumiam hipoptamos
e crocodilos. Observa-se ainda hoje, em toda a frica, o uso de simples canoas
esculpidas em troncos de rvore para a pesca nas guas do interior. Algumas
poucas comunidades de pescadores chegaram a construir canoas relativamente
grandes para se aventurar na pesca no litoral martimo. Em nenhum lugar, at
poca recente, a evoluo tcnica foi suficiente para permitir a explorao dos
abundantes recursos dos oceanos que rodeiam o continente.
    A extraordinria riqueza e variedade da fauna terrestre forneceu uma enorme
reserva potencial de animais domsticos. Contudo a domesticao de animais
na frica restringiu-se praticamente ao jumento, ao gato,  galinha-d'angola,
ao carneiro e ao boi.12 Essa modesta performance deve-se  influncia, durante o
Neoltico, de mtodos mais antigos e eficazes experimentados na sia. Foi nesse
perodo que o continente se iniciou no pastoreio. Segundo Clark:
     "Os primeiros pastores `neolticos' apareceram no Saara no decorrer do V milnio
     antes da Era Crist, ou talvez ainda mais cedo. Conduziam rebanhos de gado de
     chifres longos ou curtos, cabras e carneiros. E assim prosseguiram at que a crescente
     dessecao do Saara de l os expulsasse".
  O pastoreio, todavia, no se desenvolveu de maneira uniforme em todos os
meios do continente. Enquanto a maior parte das comunidades logrou dominar

11   Cf. PUTTON. Ver Cap. 20.
12   CLARK. J. D. 1970, p. 204.
378                                                      Metodologia e pr-histria da frica



as variedades menores de gado, apenas uma minoria conseguiu domesticar as
maiores, como foi o caso dos Tuareg do Saara, dos Peul da savana da frica
ocidental, e dos Massai das pradarias da frica oriental, que continuaram ligados
 vida pastoril, renunciando a qualquer tentativa de combinar este modo de vida
com o agrcola. Seguindo incessantemente seus rebanhos em busca de gua e
pastagens, essas comunidades mantm at hoje uma vida nmade na sua mais
pura forma. Alguns grupos Bantu da frica oriental conseguiram, entretanto,
associar a criao de gado  prtica agrcola, em proveito de ambas as atividades.
    Pode-se apontar como um dos elementos que detiveram o desenvolvimento
do pastoreio na frica a proliferao de outras espcies animais, que exerceram
influncia particularmente negativa sobre a expanso das riquezas do continente.
O primeiro caso a se mencionar  o da mosca ts-ts. Grande e bastante mvel,
 ela o principal  no o nico  transmissor da tripanossomase, infeco que
provoca no homem a doena do sono e que  mortal para os animais.
    A mosca ts-ts  encontrada atualmente numa faixa que atravessa a frica
entre 14o N e 14o S, com exceo apenas dos territrios com altitude superior a
1000 m, relativamente frios, e das regies de vegetao rasa, onde a estao seca
 demasiado quente e rida para permitir a reproduo da mosca.
    A presena da ts-ts na frica data de pocas muito remotas. Impresses
fossilizadas desse inseto encontradas na Amrica do Norte em camadas do
Mioceno permitiram concluir que sua propagao foi bem maior nos tempos
pr-histricos.13 Seu desaparecimento de certas regies da frica ou de outras
partes do mundo pode ter-se devido a uma combinao de mudanas climticas,
barreiras naturais e glaciao.  provvel que, mesmo na frica, as alternncias
climticas do Pleistoceno tenham exercido influncia considervel no s sobre
a distribuio das diferentes espcies de ts-ts como tambm sobre seu grau
de nocividade.
    As regies infestadas por essas moscas constituram uma barreira muito eficaz
ao desenvolvimento da criao. Os pastores depressa devem ter compreendido
que seus rebanhos corriam grandes riscos ao atravessar as zonas infestadas.
Assim, descida dos rebanhos para o sul, a partir da frica do Norte, ficou
condicionada  existncia de corredores livres de moscas, tanto naturais quanto
criados por comunidades agrcolas organizadas e suficientemente densas. Um
bom exemplo desses ltimos  dado pela migrao, h cerca de nove sculos, de




13    COCKERELL, T. D. A. 1907; 1909; 1919, p. 301-11.
Geografia histrica: aspectos econmicos                                                                379



pastores-criadores que formaram, graas  fuso com outros povos, a sociedade
dos Tutsi e Hutu de Ruanda e do Burundi atuais.
    Sem dvida, a histria da frica teria sido diferente se o continente no
tivesse conhecido a ts-ts. Uma vez que a presena dessa mosca impossibilitava
a utilizao do gado de grande porte pelas comunidades agrcolas, esses animais
nunca foram empregados para trao. Tampouco se criaram condies para a
descoberta da roda, de fundamental importncia. Por outro lado, a facilidade de
deslocamento de certos povos, propiciada pela presena do gado de montaria,
no deixou de incit-los  agresso e, eventualmente, ao domnio poltico sobre
povos sedentrios.14
    O mosquito transmissor da malria e o gafanhoto representam tambm
fatores zoolgicos adversos. Dentre as muitas espcies de mosquitos capazes de
transmitir os diferentes tipos de parasitas da malria, algumas so mais atradas
pelo sangue humano que outras. O mosquito transmissor mais frequente na frica
 o Anopheles gambiae, de difcil erradicao pois, alimentando-se tambm do
sangue animal, consegue sobreviver mesmo quando temporariamente impedido
de atacar o homem. O mosquito em geral procria em guas estagnadas, sendo
mais incidente nas imediaes de pntanos e rios. Sua reproduo cresce com o
aumento das chuvas, e as altas temperaturas estimulam tanto o desenvolvimento
de suas larvas quanto o ciclo do plasmdio no inseto adulto. J as temperaturas
mais frias dos locais de maior altitude reduzem sua virulncia. Assim, a malria
endmica tende a desaparecer em altitudes acima de 1000 metros, ainda que
sua transmisso possa persistir.
    No se sabe ao certo desde quando esse mosquito  parte integrante do meio
humano na frica. A grande porcentagem de clulas de Golgi encontradas em
muitas populaes africanas parece indicar uma longa e estreita relao entre
essas clulas e a evoluo da populao na frica. Tal peculiaridade certamente
se deve ao impacto multissecular da seleo, que favoreceu a sobrevivncia dessas
populaes em condies de infeco hiperendmica da malria.
    Na medida em que tornou bem menores as chances de sobrevivncia de
grupos humanos no-adaptados, o mosquito da malria tambm desempenhou
papel importante na histria do continente. At o sculo XX, ele efetivamente
desencorajou os europeus na tentativa de se instalarem sob o clima quente e
mido da frica ocidental, resguardando, assim, a regio dos problemas inter-
-raciais que abalaram a histria das terras altas da frica do norte, do leste, do
centro e do sul, vtimas da colonizao.


14   Ver a esse respeito o papel da cavalaria na formao dos Estados, sobretudo ao norte do equador.
380                                                       Metodologia e pr-histria da frica



    Os gafanhotos fazem parte das pragas tradicionais da frica. So insetos
grandes, que normalmente vivem solitrios ou em pequenos grupos. So
encontrados nas zonas de transio das vegetaes, s margens do deserto ou da
savana herbosa e da floresta. Ao sul do Saara encontram-se trs tipos principais: o
gafanhoto vermelho, o gafanhoto migrador africano e o gafanhoto do deserto. Os
trs requerem dois tipos diferentes de habitat: solo desrtico para depositar os ovos
e paisagem verde para alimentar-se. Quando, por motivos diversos, seu terreno de
alimentao se restringe demasiadamente, esses insetos se agrupam em enormes
enxames e invadem zonas prximas ou distantes. Exemplos de tais invases
em passado muito remoto no so facilmente identificveis, embora o Antigo
Testamento faa referncia ao gafanhoto como uma das pragas que afligiram
o Egito ao tempo de Moiss. A partir do sculo XIX, os registros de invases
tornam-se mais abundantes. Sabe-se que a frica central sofreu sucessivos ataques
de gafanhotos entre 1847 e 1854, 1892 e 1910 e, mais recentemente, entre 1930
e 1944. Para as populaes agrcolas sedentrias, as depredaes causadas pelas
nuvens de gafanhotos, sobretudo quando ocorrem logo antes da colheita, podem
significar uma passagem brutal da abundncia  fome. Quando, no passado,
condies climticas adversas, como a seca, por exemplo, coincidiam com essas
invases, sobrevinham grandes transtornos polticos e sociais.


      As reservas de gua e a mobilidade humana
    No se deve subestimar a importncia das reservas de gua na evoluo
da histria da frica. Se h reas do continente com os mais altos ndices
pluviomtricos do mundo, outras h que apresentam os ndices mais baixos. As
imensides do Saara e do Calaari so o testemunho irrefutvel da implacvel
aridez de grandes pores da frica. Mas, alm dos desertos, a vasta zona das
savanas recebe precipitaes apenas satisfatrias, o que torna a vida humana,
nessas regies, em grande parte, dependente das caprichosas flutuaes dos
ventos portadores de chuva. O fato no seria to alarmante se fosse possvel
recorrer a outras fontes de gua, como rios, lagos e lenis freticos.
    Em extensas reas do continente, todavia, e em especial nas regies
relativamente quentes das terras baixas, os vales fluviais esto infestados de insetos
nocivos, tornando-se imprprios ao estabelecimento do homem. Alm do mais, o
regime dos rios acompanha de perto o das chuvas, sendo de pouca ajuda durante
os perodos de precipitaes insuficientes ou de prolongada estiagem, quando
secam at mesmo os leitos dos rios. Excetuando-se o vale do Nilo, a tecnologia
Geografia histrica: aspectos econmicos                                      381



tradicional no conhecia meios de armazenar gua para as pocas de seca. O
pequeno desenvolvimento tecnolgico impedia tambm o aproveitamento das
guas subterrneas localizadas alm de certa profundidade, mesmo em reas de
bacias artesianas, por exemplo, onde as estruturas geolgicas favorecem a reteno
de grandes reservas. O embasamento rochoso de grande parte do continente reduz
a capacidade de armazenamento de gua em lenis abundantes, tornando os
habitats humanos exclusivamente dependentes das precipitaes anuais.
   A escassez de gua resultante das condies de seca rigorosa sempre foi uma
das caractersticas da vida africana: A histria climtica do Pleistoceno mostra
que nas vrias regies do continente houve provavelmente um regime cclico de
longos perodos de precipitaes mais ou menos intensas. De qualquer forma,
a seca representa uma presso do meio ambiente sobre os grupos humanos;
ela os fora a reagir. Quase sempre essas reaes se traduzem pela procura
de zonas mais irrigadas para estabelecimento definitivo ou temporrio. Tais
movimentos migratrios podem ser pacficos, porm muito frequentemente
tendem  agressividade, o que vai depender do modo como esto organizados
e como so dirigidos. A histria de muitas comunidades africanas registra suas
migraes ou as incurses que sofreram por parte de grupos migratrios mais
poderosos, que as submeteram, obrigando-as a uma reorganizao social.
   Nas regies em que existe gua em quantidade suficiente, pluvial ou
subterrnea, em que a agricultura pde desenvolver-se, uma populao organizada
cresce segundo um processo de evoluo social progressiva no rduo caminho
do domnio da natureza. As safras amadurecem, ricas e variadas, chegando
o ritmo de sua maturao a determinar o ritmo da vida social. A poca da
colheita adquire especial importncia, e so institudos rituais para santificar
o inexplicvel evento, atribudo a alguma fora natural benigna. A ascenso na
escala social dessa populao organizada depende de alguns fatores, sendo um
dos principais a abundncia dos recursos alimentares, que permitir a diviso
do trabalho no seio da comunidade, favorecendo a emergncia de grupos
especializados em determinadas atividades. Essa evoluo depende no s das
reservas de gua como tambm da fertilidade dos solos.


    Os recursos do solo e a evoluo social das comunidades
   As caractersticas geolgicas de extensas regies da frica so, em grande
parte, determinantes da qualidade dos solos. Dada a variedade de rochas do
embasamento, o carter dos solos que se formaram sobre elementos anlogos 
382                                                      Metodologia e pr-histria da frica



tambm extremamente varivel. No entanto, sua fertilidade , frequentemente,
medocre. Essas rochas apresentam, em geral, reservas suficientes da maioria dos
elementos minerais necessrios  alimentao das plantas, mas sua variabilidade
implica mudanas abruptas dessas condies em curto raio geogrfico. Os solos
formados sobre rochas sedimentares tendem a manter maior uniformidade em
grandes reas; todavia, nada tm em comum com as extensas regies de solos
altamente produtivos, como o tchernoziom dos trigais da Ucrnia e das pradarias
da Amrica do Norte.
    A interao de caractersticas do solo e fatores climticos determinou a
fertilidade da terra e sua capacidade de suprir, por longo perodo, as neces
sidades de uma populao densa. Nas regies midas, por exemplo, a iluso
de fertilidade provocada pelo crescimento luxuriante da vegetao dissimula a
natureza frgil do solo. Uma vez removida a vegetao natural, as substncias
orgnicas do solo rapidamente se desintegram sob o efeito de uma intensa ao
bacteriana estimulada por temperaturas geralmente elevadas. Em pouco tempo,
a fertilidade decresce, o produto das colheitas diminui, e a populao humana 
forada a procurar novos stios.
    Nas regies submidas, por outro lado, a fertilidade do solo  muito maior.
No entanto, as variaes peridicas de umidade favorecem a formao de
grandes crostas de laterito, imprprias para o cultivo. A presena dessas crostas
acarreta a disseminao de solos moderadamente frteis, cujas possibilidades de
alimentar densas populaes humanas so bastante reduzidas. Tais condies so
caractersticas dos solos encontrados na frica ocidental, ao norte da zona da
floresta, e nos planaltos da frica central, s margens da bacia do Zaire. Nas terras
semi-ridas, sujeitas a precipitaes moderadas, tambm so encontradas essas
mesmas crostas ferruginosas, embora mais disseminadas. Consequentemente,
os solos castanhos arenosos dessa regio so mais frteis e produzem safras
razoveis em anos de pluviosidade satisfatria. O solo do deserto, que aparece
mais ao norte,  superficial e de perfil pouco desenvolvido, carecendo de matrias
orgnicas.
    Uma das caractersticas marcantes da geografia da frica reside, portanto, na
pequena extenso dos solos realmente frteis e em sua extrema disseminao.
Compreendem eles os solos argilosos profundos, derivados do basalto e de
outras rochas vulcnicas do Pleistoceno e de pocas mais recentes, encontrados
principalmente em regies da frica oriental. Na floresta densa, apresentam
superficialmente uma colorao chocolate, sendo de cor vermelha nos nveis
inferiores. Igualmente frteis so os ricos solos aluviais, derivados dos mesmos
tipos de rochas e encontrados nas plancies de inundao de rios como o Nilo.
Geografia histrica: aspectos econmicos                                        383



Possibilitando abundantes colheitas, esses dois tipos de terreno favoreceram o
crescimento de densas populaes humanas. Quando tal concentrao conduziu
a um alto grau de organizao social e de controle do meio ambiente  como
ocorreu no vale do Nilo durante o Neoltico Pr-Dinstico  reuniram-se as
condies para uma acelerao do progresso. Isso implicou, no caso citado,
o desenvolvimento de uma civilizao urbana, a diferenciao de classes, um
artesanato refinado, uma arquitetura monumental e, finalmente, o uso da escrita.
Foi o resultado no s de relaes cada vez mais regulares com a Mesopotmia
mas tambm da possibilidade de manter uma populao densa, composta de
vrios grupos sociais, graas  prosperidade de uma agricultura, que, para a
poca, deve ter sido impressionante.
    Condies semelhantes estabeleceram-se, mais tarde, em outras regies da
frica; por exemplo, na curva do Nger, quando da criao do imprio de Gana,
no incio do perodo "medieval". Mas, apesar de outras reas apresentarem solos
relativamente frteis, vastas extenses do continente, em particular as plancies de
altitude, que h milhes de anos vm sofrendo os efeitos da lixiviao, possuem
solos de pequena espessura que carecem de nutrientes, sendo ainda hoje de
limitado interesse para a agricultura. Nessas regies, foi unicamente atravs da
alternao de culturas que o homem conseguiu sobreviver desde o Neoltico.
Esse tipo de economia representa evidente desperdcio no que concerne ao
uso do solo, tendo sido obstculo  formao de comunidades relativamente
densas. A distribuio esparsa da populao em extensas reas do continente,
bem como os efeitos dessa disperso na evoluo social devem ser considerados
como um fator nefasto na histria da frica.  indiscutvel que a fertilidade
de qualquer regio depende tanto de suas caractersticas prprias quanto da
eficcia da explorao do solo. Tambm  certo que, em outras regies do mundo,
sociedades que hoje atingiram um alto nvel de evoluo social atravessaram
fases em que sua economia dependeu, igualmente, de culturas acidentais. Na
frica, a explorao racional do solo  de fundamental importncia para a
evoluo social. Determinante no passado, ela indica o caminho a seguir para
encetar seriamente o ciclo de um progresso decisivo.


    Concluso
   A geografia histrica da frica  sobretudo no que diz respeito aos aspectos
econmicos  apresenta a imagem de um continente com o qual a natureza
se mostrou de uma benevolncia extrema, ao menos superficialmente. Esse
384                                                     Metodologia e pr-histria da frica



carter aparente da magnanimidade da natureza, to bem ilustrado pela frgil
exuberncia da floresta tropical, constituiu uma espcie de armadilha para os
povos do continente. Encontrando condies fceis de sobrevivncia, certas
comunidades ignoraram os imperativos prementes da evoluo social. Sem
dvida, aqui e ali, apareceram alguns homens ou grupos que procuraram
estimular seus semelhantes ao progresso. Suas exortaes, entretanto, muitas
vezes ficaram sem resposta. Mais que qualquer outro fator, a interveno
estrangeira teve, certamente, um efeito sinistro sobre o desenvolvimento geral
do continente no decorrer da longa e implacvel histria do comrcio escravo.
Mas o fato de uma tal interveno ter sido possvel no constituiria j uma severa
advertncia aos riscos a que est exposto todo grupo humano que deixa de zelar
continuamente pela constituio de organizaes sociais cada vez mais coesas,
extensas, complexas e fortes, que possibilitem fazer frente a eventuais desafios?
    A histria da frica de nada nos servir se no salientar esse fato. A geografia
contempornea da frica revela um continente ainda rico em recursos naturais,
como na Pr-Histria. Seu passado colonial recente contribuiu, no entanto, para
criar uma situao em que grande parte dessa riqueza foi largamente explorada
e exportada como matria-prima para atender  demanda de outras sociedades.
Alm disso, a explorao desses recursos, por exigir avanada tecnologia, s
se faz possvel com a condio de que os povos africanos se organizem em
grandes comunidades integradas, de forma a constituir bases slidas para um
real desenvolvimento.
    A histria de duas dcadas de independncia poltica deixa uma impresso
ambgua: ao que parece, ainda est longe de ser compreendida a necessidade de
se edificar tais complexos para fazer frente a outras comunidades similares, cada
vez mais numerosas.
    O propsito deste esboo de uma geografia histrica e econmica do
continente africano, se  que se pode defini-lo,  o de lembrar que a natureza no
determina nem o destino de um povo nem sua trajetria. No coage; no mximo,
influencia. Os povos, bem como os indivduos, sempre foram e continuaro
sendo os arquitetos de seu prprio destino.
Geografia histrica: aspectos econmicos                                                             385




figura 14.1    Os recursos minerais da frica (mapa extrado de "l'Afrique", coleo A. Journaux, Hatier,
1976).
Os mtodos interdisciplinares utilizados nesta obra                          387



                                        CAPTULO 15


                 Os mtodos interdisciplinares
                    utilizados nesta obra
                                               J. KiZerbo




    A interdisciplinaridade
    A interdisciplinaridade na pesquisa histrica  um tema em voga. Mas sua
aplicao torna-se difcil, quer pela disparidade das metodologias prprias
de cada disciplina, quer pela influncia dos hbitos particularistas em que se
acham enquistados os prprios pesquisadores, zelosos de manter uma espcie de
soberania territorial epistemolgica. Essa tendncia  especializao j se faz sentir
na prpria apresentao dos resultados da pesquisa, que continua a distinguir
na vida de um povo, em captulos bem isolados, a vida econmica, a sociedade,
a cultura, etc. Quando, porventura, se tenta uma abordagem interdisciplinar,
frequentem ente ela se faz em termos de fagocitose. Nessa guerra por primazia
e hegemonia, a histria ocupa uma posio ambgua. De fato, ela  essencial a
todas as disciplinas. Mas, como no dispe do vocabulrio especfico mais ou
menos esotrico que para as outras cincias funciona como uma fortificao
em que se entrincheiram os especialistas, aparece como disciplina-cmpito,
arriscando pagar com a legitimidade sua onipresena.
    Disciplina-orquestra, a histria dispunha, tradicionalmente, de um maestro 
o documento escrito. Mas a histria da frica, ao sul do Saara principalmente,
caracteriza-se pela relativa pobreza de fontes escritas, sobretudo antes do sculo
XVI e, mais ainda, antes do sculo VII da Era Crist. Ora, "quem no tem
388                                                                       Metodologia e pr-histria da frica



me mama na av"1, diz um provrbio africano. Na ausncia de fontes escritas,
a histria da frica deve coligar todas as fontes disponveis para reconstituir
o passado. E a carncia pode, afinal, transformar-se quase num fator positivo,
na medida em que permite fugir ao peso esmagador da escrita, que por vezes
acarreta uma depreciao implcita das outras fontes. Por outro lado, a pesquisa
histrica e das cincias humanas na frica sofreu, por longo tempo, de dois
males contraditrios. Em primeiro lugar, a deformao historicista, que leva a
considerar o fluxo do processo social como um rosrio cujas contas so eventos
datados; em segundo lugar, a obsesso de reconstituir um calendrio que torne
inteligvel a evoluo dos povos, e a indiferena por tudo mais (economia,
estruturas sociais, culturas).
    Da essa histria linear, genealgica, fatual, em suma, esqueltica, pois que
desprovida da prpria carne da vida. Um outro desvio, ainda mais pernicioso,
oriundo talvez, em parte, do preconceito de primitivismo aplicado  realidade
africana por um evolucionismo sumrio, analisa estruturas atemporais, abolindo
a profundidade histrica, sem a qual, no entanto, as referidas estruturas perdem
seu significado tanto objetivo quanto subjetivo.  o que acontece com certos
pesquisadores a quem as disciplinas enchem de auto-suficincia: esses linguistas
alrgicos a toda e qualquer interferncia cultural e esses etnlogos funcionalistas
que recusam toda dimenso histrica. Felizmente, essas "muralhas da China"
disciplinares vo desmoronando progressivamente. J. Desmond Clark escreveu:
      "A constatao de que arquelogos, linguistas, antroplogos culturais ou etngrafos
      se defrontam, a maior parte do tempo, com os mesmos problemas e de que a melhor
      forma de solucion-los  a equipe interdisciplinar,  hoje um dos fatores mais
      animadores e estimulantes dos estudos africanos".2
   A pseudo-histria marcada pelo fascnio exclusivo da cronologia, bem como
a miragem da anlise estrutural puramente esttica e formal vo aos poucos
desaparecendo, conforme atestam as escolas que introduzem a diacronia e o
conflito em seus mtodos analticos, integrando, como Calame-Griaule e Houis,
fato cultural e fato lingustico, ou abandonando, como Balandier, a abordagem
imvel dos "socilogos" em favor de uma abordagem dinamista, que adota como
instrumentos de anlise o movimento e a comparao. No  a contradio parte


1     A lactao parece ser um processo reflexo. Todavia, a farmacopeia africana dispunha de receitas para
      ativ-lo.
2     CLARK, J. D. "African prehistory; opportunities for collaboration between archaeologists, ethnographers
      and linguists." In: CASS, F. Language and History in Africa. 1970.
Os mtodos interdisciplinares utilizados nesta obra                            389



integrante da realidade? O que est claro  que nenhuma disciplina se beneficia
com uma abordagem individual da realidade densa e emaranhada do mundo
africano. Seria como querer partir o n grdio a golpes de sabre.  o caso dos
pesquisadores que pensam encontrar o princpio de explicao fundamental
de uma determinada sociedade africana num nico elemento: por exemplo, na
anlise estrutural do parentesco ou no sistema de representaes, crenas, mitos
e smbolos considerados como que dotados de uma autonomia e de uma lgica
prpria, independente, por exemplo, das relaes de produo.3 Ao passo que,
em se tratando do parentesco, sua anlise revela, na frica, sistemas menos
"puros", mais complexos que na Austrlia; por exemplo, estruturas que, admite
Lvi-Strauss, so igualmente condicionadas por outros elementos (econmicos
e polticos) alm do simples mecanismo das regras de parentesco.
    A histria africana, menos que qualquer outra disciplina, no pode acomodar-
-se ao gueto. Nem mesmo para estabelecer aquilo que, no entanto, parece pertencer
justamente ao monoplio da histria: a cronologia. Com frequncia, a soluo
de um problema de cronologia s pode ser corretamente alcanada com a ajuda
combinada de quatro fontes distintas de informaes: os documentos escritos,
a arqueologia, a lingustica e a tradio oral. O historiador, reconstituindo a
estrada do tempo, assemelha-se mais a um automobilista, que, para avaliar as
distncias, dispe de vrios instrumentos: o velocmetro de seu carro, seu relgio,
os marcos de quilometragem e, eventualmente, o testemunho de um autctone.
Essa conivncia necessria revela-se um fator favorvel para garantir a restituio
clara e integral da imagem do passado, o que no ocorreria de modo perfeito se
se recorresse a uma nica fonte. A descrio de Kumbi Saleh feita por al-Bakri
no Routier permaneceria lacunar se os arquelogos no tivessem exumado e
explicado as runas, ainda mais eloquentes que o cronista rabe. Ressaltemos
que, tambm nesse caso, a tradio oral marcou presena, pois foi graas a ela
que se descobriu o stio de Kumbi Saleh. Nestas condies, poder-se-ia falar
de fontes nobres e fontes vulgares, classificando-as numa escala discriminatria
em cujo topo estivessem os documentos escritos e, no ltimo escalo, a tradio
oral? Ao que parece, no. O valor de uma fonte no  uma realidade em si; varia
de acordo com o objeto especfico da pesquisa empreendida. Assim, para cada
caso concreto, existe no feixe dos testemunhos disponveis uma fonte axial, a
fonte-mestra, que pode diferir segundo o tema. Para a pr-histria africana e
para as sociedades de pigmeus, os documentos escritos no constituem, por


3    Cf. GRIAULE, M. e DIETERLEN, G. 1965.
390                                                    Metodologia e pr-histria da frica



definio, a melhor fonte, pois no existem. Conforme o momento e a regio
da frica, a panplia de provas histricas  comandada por essa ou aquela fonte
axial, desempenhando as demais um papel auxiliar e adventcio. Dependendo
do tema  uma desconhecida tribo Getula ou o reino de Jugurta, os Kirdi do
norte de Camares ou os Ashanti de Gana, os Kabye do norte do Togo ou o
imprio de Gao retratado por Ta'Rikh al-Fattash  a fonte-mestra no ser a
mesma. Somente aps a concluso da pesquisa  que se a reconhecer. Pois, se
 a fonte que condiciona o resultado,  este que a justifica. Se tal for verdade,
pode-se antecipar, sem risco de erro, que, em se tratando da histria da frica,
a interdisciplinaridade, longe de ser um luxo,  um dos dados fundamentais do
mtodo. De fato, no existe outra alternativa.


      A complementaridade das fontes
   As fontes da histria da frica so nitidamente complementares, tanto que
cada uma delas, isolada, apresenta-se com frequncia mutilada, transmitindo
apenas uma imagem imprecisa do real, que s a interveno de outras fontes
pode ajudar a definir.
   Isolada, a arqueologia corre o risco de tornar-se uma descrio rida, uma
atestao quase fnebre pronunciada impudentemente com base em pequena
amostragem. E, se a nica forma de corroborar ou invalidar as hipteses
formuladas fosse aguardar o resultado de outras escavaes, o ritmo das
descobertas tornar-se-ia intoleravelmente lento. Recolocada, ao contrrio, no
contexto multiforme de vida que ela pretende exumar, a arqueologia presta
eminentes servios s outras disciplinas ao mesmo tempo que delas se beneficia.
Com efeito, a explicao de seus achados encontra-se frequentemente fora dela
mesma. No Zimbabwe, por exemplo, foram as minas de ouro e a sua defesa,
bem como a religio, que deram significado  maior parte das subestruturas e
superestruturas. Alhures, o contedo das tumbas e a posio dos mortos nos
mausolus s encontram explicao nas crenas dos povos e na sua representao
do alm. Em contrapartida, quando, no norte de Gana, escavaes desvendam
um plano arquitetnico semelhante aos do Sudo saheliano, a arqueologia
levanta ou resolve um interessante problema de influncia cultural.
   O mesmo se d com relao  arte africana, que, para iluminar a histria,
deve ser por ela iluminada. Com efeito, a arte, sobretudo a arte pr-histrica, 
condicionada por uma multiplicidade de fatores, desde a geologia at as religies,
mitos, cosmogonias, passando pelas estruturas scio-polticas e a sede de poder
Os mtodos interdisciplinares utilizados nesta obra                                                   391



dos reis. Nessas condies, a esttica  intimamente governada pela tica e, ao
mesmo tempo, servida por ela. Por outro lado, a arte muitas vezes apresenta-se
como um conservatrio, um museu de antropologia cultural e mesmo fsica
devido aos ritos, escarificaes, penteados, costumes e cenrios que reproduz.
    Mas a compreenso da arte em si, enquanto tcnica inspirada, no pode
ocorrer fora da histria. A estilstica  frequentemente explicada pela organizao
social. No Benin, por exemplo, os mesmos artistas (egbesanewa) esculpem a
madeira e o marfim, enquanto outros trabalham a terracota e o bronze. 
evidente que a passagem de um material para outro explica em grande parte
a feitura dos objetos em marfim ou bronze assim como a forma e a decorao
das cermicas pr-histricas s se explicavam por sua, inveno a partir de
cestos de palha tranada. Que dizer ento das mscaras, em cuja confeco os
africanos manifestaram uma imaginao sem limites? As mscaras bobo, por
exemplo, sobretudo as trs principais  kele (mscara de antepassado), kimi
(cabea de marabu) e tiebele (crnio de bfalo) , so verdadeiras personalidades
reconhecidas na aldeia, que, alm de representarem testemunhos da histria, dela
participam ativamente.4 Que dizer dos cauris  j mencionados por Ibn Battuta
em 1352, na corte do Mali , cujo fim primeiro era monetrio, mas que tambm
serviam de adorno quando artisticamente dispostos, tendo, ainda, um valor
especial nos compromissos sociais e cerimnias religiosas? A arte, nesse caso,
encontra-se imersa num complexo que lhe d significado e que ela, por sua vez,
vivifica. Empreender a histria de certas sociedades africanas sem compreender
a linguagem mltipla dos cauris e das mscaras  como entrar numa sala de
arquivo sendo analfabeto: a "leitura" de sua evoluo seria necessariamente
truncada.
    O mesmo ocorre com a tradio oral, assunto amplamente discutido, alis. A
tradio oral  a histria vivida, transportada pela memria coletiva com todas as
suas contingncias e singeleza mas tambm com toda a sua fora e vigor. Existe
na tradio, como na lngua de Esopo, o melhor e o pior. Por certo a tradio oral
frequentemente ignora fatores econmicos e sociais, mas ainda assim se presta
a detectar outras fontes, em geral mais pertinentes, como os manuscritos e os


4    "A grande mscara dos orculos ou `esprito de Deus'  o Go G, guardado por um sacerdote supremo
     chamado Gonola. A grande mscara tem uma participao importante no sistema poltico dessas
     sociedades, extenso prtica do culto dos antepassados, funcionando muito secretamente  noite.
     Por ocasio das sesses do Poro, a grande mscara  previamente levada ao bosque sagrado, coberta
     por um pano branco. O Gonola atua como chefe e sacerdote, dispensador da verdade insuflada pelos
     antepassados. O Go G  tambm um legislador, pois suas decises so apregoadas na aldeia e tm fora
     de Lei". HOUIS, M. In: tudes guinennes, 1951; HARLEY, G. W. 1950.
392                                                                         Metodologia e pr-histria da frica



stios arqueolgicos. Por esse motivo, recomenda-se a coleta das tradies locais
antes de empreender qualquer programa de escavaes. A tradio oral ajuda
tambm a corrigir os erros de interpretao oriundos de um enfoque puramente
externo. Alm do mais, permite limitar o nmero de hipteses e reduzir o leque
de opes.5 Porm, caso existam verses mltiplas de uma mesma tradio, ser
a consulta a uma outra fonte  por exemplo, o mapa das zonas afetadas por
determinado eclipse  que permitir decidir por uma delas. Ligados  tradio, os
tambores constituem um dos grandes livros vivos da frica. Alguns so orculos;
outros, estaes de transmisso; outros, gritos de guerra que fazem brotar o
herosmo; outros, ainda, cronistas que registram as etapas da vida coletiva. Sua
linguagem , fundamentalmente, uma mensagem repleta de histria. A esse
respeito, estabeleceu-se uma distino entre a etnomusicologia interna ou
tcnica e a etnomusicologia externa, ou seja, ligada  trama social e cultural.6
As grandes epopeias ou crnicas so frequentemente cantadas por grupos sociais
organizados para esse fim, e de um modo peculiar  frica, no quadro de uma
participao ativa. Pois a msica nunca  recebida passivamente:  executada
por todo o grupo. Trata-se de uma celebrao coletiva onde a trilogia canto-
-dana-msica nos convida a uma interpretao sinttica, em que a lingustica,
a histria, a botnica, a psicologia social, a psicologia, a fisiologia, a psicanlise,
a religio, etc., tm todas algo a dizer. Sem esperar muito da musicocronologia,
o estudo comparativo dos instrumentos e da substncia musical por intermdio
de medidas aritmticas tratadas pela anlise estatstica pode dar resultados
convincentes quanto  difuso e ao desenvolvimento cultural. O universo musical
africano extingue-se diante da invaso de msicas de qualidade geralmente mais
pobre, porm introduzidas por sistemas econmicos mais ricos. O prprio tant,
que fez a histria, no ser em breve um objeto da histria?
    A lingustica, por seu turno,  cada vez mais uma companheira  jovem,
fiel e fecunda  da histria, pois as lnguas so um museu vivo em que se
preserva a tradio, e, para extrair-lhes a "essncia real",  necessrio possuir a


5     Devemos evidentemente situar a tradio oral no seu contexto. Num interessante quadro metodolgico
      de anlise de contos e lendas, alguns estudiosos estabeleceram, em sete colunas, os dados internos
      (semntica, retrica) e os dados externos ao conto, dos quais uns esto vinculados a um contexto cultural
      e civilizacional, ao passo-que os outros esto fora desse contexto. Cf. "Littrature orale arabo-berbre".
      4o Bulletin de Liaison, 1970. Centre d'tudes maghrbines, Muse de l'Homme, Paris.
6     Com esse procedimento, o pesquisador pode atingir setores mais especficos: as relaes entre a msica
      e a linguagem; os smbolos sociais e filosficos ligados  msica; a relao dos ritmos com os fenmenos
      de possesso; as relaes entre a msica e o meio ambiente ecolgico e econmico; as relaes entre
      as diversas msicas de diferentes etnias". AROM, Simha e CONSTANT, Denis. In: MARTIN, D. e
      YANNOPOULOS, T. Guide de recherches l'Afrique noire. Armand-Colin, Paris, 1973.
Os mtodos interdisciplinares utilizados nesta obra                           393



cincia da linguagem. Toda lngua  no s uma criao mental como tambm
um fenmeno social. Seu vocabulrio, por exemplo,  o reflexo das realidades
forjadas pela histria de cada povo. , por outro lado, a lngua, a palavra, que
instila um sistema de conceitos e normas de comportamento na mentalidade
e nas motivaes dos povos. Certos conceitos de uma lngua so difceis
de expressar de forma idntica em outra, relacionada a um contexto global
diferente.  o caso do conceito de sanakuya (em mande) e rakire (em more),
aproximadamente traduzido por "parentesco de brincadeira" e que desempenha
um papel histrico de grande importncia na regio sudano-saheliana.  o
caso, tambm, do conceito de dyatigui (em mande), que est longe de coincidir
com a simples noo de "hospedeiro"; ou do conceito de tengsoba, traduzido
literalmente por "chefe da terra", embora sem uma exata correspondncia
semntica. A crtica lingustica  constantemente solicitada pelo historiador, de
par com outras fontes. A cronologia e a origem das runas circulares da regio de
Lobi, por exemplo, so o resultado de um conjunto de provas que se eliminam
e se reforam mutuamente: rejeio da hiptese de uma origem portuguesa
baseada num texto de Barros, contradita pelo traado da estrada supostamente
utilizada e pelo exame do revestimento de reboco, cujo estado de conservao
no justifica um horizonte temporal muito remoto; denominao wil e birifor
dessas runas  kol na wo  significando "estbulos das vacas dos estrangeiros";
identificao desses estrangeiros na pessoa dos Kulango, atravs do estilo das
cermicas encontradas nas runas; por fim, estimativa cronolgica ligada s
tradies de migrao dos povos da regio. Nesse caso especfico, percebe-se
concretamente o papel decisivo da lingustica na tentativa de interpretao de
um determinado acontecimento histrico.7
    Mas seria uma aberrao grosseira assimilar o fenmeno lingustico, que
 cultural, ao tribalismo ou ao fato biolgico da raa. A lngua dos cavaleiros
Dagomba, invasores das terras da bacia do Volta no sculo XIV, talvez tenha
cado em desuso, sendo substituda pela lngua das mulheres Kusase que eles
desposaram no local e que se tornaram mes de seus filhos. Este  um exemplo
de contaminao lingustica que teria ocorrido  como por vezes acontece  s
custas dos que detinham o poder poltico. A etno-histria, reduzida ao presente
etnogrfico quase inerte dos funcionalistas, tambm no  uma verdadeira histria
e no poderia desempenhar papel positivo nesta conjugao das fontes, em que
cada uma constitui no um elemento esttico mas uma varivel transportada


7    Cf. PARENKO, P. e HERBERT, R. P. J. 1962.
394                                                      Metodologia e pr-histria da frica



pelo fluxo do processo histrico. Alis, a etno-histria funcionalista negligencia
frequentem ente as culturas materiais e aquele movimento geral de produtos
no qual Leroi-Gourhan detectava a matriz das civilizaes. O par mercantil
transaariano sal por ouro do Sudo, e o par cativos por fuzis que o substituiu alguns
sculos mais tarde no constituem as bases mais importantes da edificao de
reinos e imprios no oeste africano?
    Nessas condies, uma sociologia dinamista representa tambm um dos
meios essenciais para o exerccio da crtica histrica africana. Com efeito, no
se trata de transferir sem discernimento os instrumentos de anlise de uma
determinada trama scio-poltica para outra, seja no tempo, seja no espao,
pois haveria o risco de se criar novos problemas ao invs de solucionar os j
existentes. No clculo da durao mdia dos reinados, por exemplo, no se pode
simplesmente extrapolar para o passado a durao mdia estabelecida para um
perodo contemporneo conhecido, pois a estabilidade ou instabilidade poltica e
social no so necessariamente as mesmas. Da mesma forma, a sucesso colateral
(de irmo para irmo) do reino Mossi do Yatenga no poderia apresentar mdias
idnticas s do reino de Uagadugu, onde a sucesso se fazia preferencialmente
em linha direta (de pai para filho). No caso de Uagadugu, a durao mdia dos
reinados tenderia a ser mais longa, e o nmero de geraes, mais elevado. Ainda
que fatores religiosos possam tambm ser considerados. Porm, se analisarmos
as dinastias dos reis dos Gan (Gan-Massa), sistematicamente eleitos entre os
homens maduros mais jovens, a mdia de durao dos reinados ser ainda mais
elevada. Em outras palavras, a determinao do horizonte cronolgico no pode
ser feita independentemente do conhecimento da sociologia poltica de um
determinado pas. Mas o prprio conceito de estabilidade no  um "modelo"
prtporter invarivel para todos os perodos e todos os pases. A estabilidade
pode ser apenas aparente, ou adquirida a um "preo" social bastante elevado.
Na Etipia e no reino de Uagadugu, a eliminao ou degredo dos candidatos
desafortunados e dos colaterais garantia uma certa estabilidade, porm s
custas de severas perdas humanas, que a histria deve considerar em termos de
instabilidade para explicar com pertinncia a evoluo desses pases.
    Recorrer-se- tambm s cincias naturais ou exatas para apreender ou afinar
a imagem do passado da frica, a comear pelo computador para o tratamento
de certos dados numricos; os processos tcnicos, fsicos, qumicos e bioqumicos
de datao, de anlise dos metais, das plantas e dos gneros alimentcios, do
gado e de seu pedigree; a epidemiologia e o estudo das catstrofes naturais,
vinculado  climatologia. No  gratuitamente que, nas tradies africanas,
atribui-se tanta importncia aos perodos de grandes fomes, que, assim como
Os mtodos interdisciplinares utilizados nesta obra                             395



as guerras, so usadas como referncias cronolgicas. O papel da violncia na
evoluo da frica foi, sem dvida, comparvel ao que se verificou na histria
de outros continentes; todavia, se por um lado o baixo nvel de desenvolvimento
tecnolgico reduziu-lhe o impacto absoluto, por outro, o impacto relativo viu-se
aumentado, pois o menor avano de um povo em relao a outro nesse mbito
revestia-se de grande importncia. No foi a diferena de armamento fator
determinante na instaurao da hegemonia dos assrios no Egito, dos primeiros
dinastas de Gana, e de Chaka, o Zulu? A estatstica tambm dever contribuir
de modo substancial, dando uma consistncia quantificada a realidades que, sem
isso, seriam deformadas, mesmo qualitativamente, j que, a partir de um certo
estgio, pode-se falar de um "salto" qualitativo na natureza dos fenmenos. As
estruturas de dois povos, um com dez mil e outro com dez milhes de pessoas,
no podem ser da mesma natureza. Em se tratando de invases, de exrcitos
africanos do sculo XIV, a armadilha do anacronismo consiste em imaginar essas
mobilizaes atravs do crivo conceptual do sculo XX. A referncia estatstica,
mesmo na forma de estimativas aproximadas, ajudar a colocar as coisas numa
escala de grandeza natural, mais compatvel com o desenvolvimento real dos
acontecimentos.
    Alis, o estudo das guerras africanas s pode contribuir de forma relevante
para a histria da frica se relacionado  religio,  qual est intimamente ligado,
por ser a arte da guerra, em parte, um exerccio de magia. Para convencer-se, basta
olhar a vestimenta de combate de al-Boury N'Diaye, repleta de amuletos. Esse
costume ainda era adotado pelos atiradores africanos nas duas guerras mundiais.
Quanto  antropologia fsica, pode, tambm, contribuir para a construo de
uma histria autntica. Os mitos racistas, como a teoria "camtica", baseados em
frgeis aparncias, infestaram durante muito tempo esse setor da pesquisa, o qual
s poder ser saneado graas ao mtodo interdisciplinar, que associa vrias provas
para chegar  verdade. As pinturas rupestres pr-histricas j podem indicar o
caminho de algumas identificaes, embora no se deva confundir modo de vida
(tal como  retratado nas rochas) com raa. Todavia, no esqueamos que certas
deformaes do esqueleto, como a elongao craniana praticada pelos Mangbetu,
esto relacionadas ao modo de vida e  cultura. Por outro lado, se a anlise
serolgica pode ajudar a esclarecer certas confuses, ela tambm revela que at
os grupos sanguneos podem adaptar-se ao meio, o que denota a influncia
decisiva do bitopo sobre a raa. Esta ltima s poder ser entendida, portanto,
se recolocada  como quase tudo o que diz respeito  histria  entre a natureza
e a cultura, passando pela biologia. A natureza africana teve grande influncia
na histria.  por isso que, sem cair num determinismo mecnico qualquer,
396                                                                       Metodologia e pr-histria da frica



jamais se devem perder de vista as condies geogrficas.8 A especificidade das
culturas e da evoluo pr-histrica da frica central, como salienta de Bayle des
Hermens, s pode ser compreendida se se pensar na presena opaca da floresta,
que nos lembra a influncia do espao sobre o tempo.9 Como falar dos primeiros
habitantes do vale do Nilo sem recorrer  geomorfologia e  paleoclimatologia?10


      Como?
    Como vimos, so mltiplas as associaes e conjugaes de disciplinas
que se impem ao historiador da frica. Mas como organizar essa frente
unida de disciplinas to heterogneas na luta pela conquista da antiga face da
frica? Pode-se conceber uma associao de esforos extremamente lassa, que
consistiria simplesmente em fixar algumas intenes comuns, deixando que
cada um avanasse de acordo com a problemtica de sua prpria disciplina,
reencontrando-se todos na linha de chegada para uma confrontao dos
resultados. Essa estratgia no parece satisfatria, pois deixa subsistirem todos
os handicaps de cada disciplina, sem tirar proveito, se no de todas as virtudes
de cada uma delas, ao menos dos benefcios decorrentes da ntima associao
de seus procedimentos. A uma interdisciplinaridade por justaposio, deve-se
preferir uma interdisciplinaridade por enxerto de abordagens e disciplinas. A
estratgia geral da pesquisa, bem como as etapas tticas, devem ser estabelecidas
em conjunto. Aps ter definido, de comum acordo e  medida que forem
surgindo, as interrogaes essenciais, passa-se a dividi-las em grupos, segundo
requeiram a interveno desta ou daquela disciplina. Em prazos determinados
ou a pedido de uma das instncias envolvidas na pesquisa, devem -se fazer
ajustes ou combinaes, espcie de briefings, que recolocaro os problemas em
termos diferentes, renovados com a progresso das diligncias comuns. Em tal
circunstncia, os ns ou pontos de estrangulamento detectados quando dos
acertos sero objeto de programas de emergncia e da concentrao intensiva
dos esforos.


8     "A natureza prope e o homem dispe", escreveu Vidal de La BLACHE; mas, como foi sugerido por Pe.
      Teilhard de Chardin: "No ser a histria, vista de cima, o mais recente captulo da histria natural?".
9     Cf. H. LEFEBVRE, 1974, obra vigorosa em que o autor discute a teoria unitria do espao (fsico, mental
      e social).
10    Testes qumicos com o clcio, o fosfato, os plens e as protenas podem ajudar a reconstituir os hbitos
      alimentares que, por sua vez, do indicaes sobre a demografia e o perodo de ocupao de um stio.
      Os palinologistas esto se empenhando em constituir um banco de plens africanos.
Os mtodos interdisciplinares utilizados nesta obra                           397



    Essa associao permanente, essa pesquisa coletiva, deve dispor de um
"mestre-de-obras" para o conjunto do trabalho ou do programa. No entanto,
podem-se designar lderes diferentes para suas diversas fases, conforme
determinado momento da investigao requeira preferencialmente um linguista,
outro, um socilogo, etc. Uma tal estratgia interdisciplinar dever promover o
enriquecimento mtuo do enfoque de cada disciplina e apurar sua apreenso do
tema comum da pesquisa. Ela permite frear rapidamente a progresso s cegas
em situaes de impasse e abrir o maior nmero possvel de caminhos fecundos
e atalhos. Esse tipo de pesquisa colegial, que levaria historiadores, antroplogos
culturais, especialistas da arte, botnicos, a visitarem os stios junto com os
arquelogos, revela-se como uma rede gigante, capaz de recolher tanto em
extenso quanto em profundidade a substncia da realidade histrica global. Isso
pressupe que os institutos de estudos africanos, que j so numerosos, possam
adaptar suas estruturas a esse tipo de ao. Pressupe, sobretudo, a instaurao
de uma nova mentalidade entre os prprios pesquisadores.
    Na verdade, qual  o objetivo desse exerccio?  restituir aos africanos uma
viso e uma conscincia de seu passado, que no pode ser uma fotocpia da vida
passada, mas deve, um pouco como na caverna de Plato, reproduzir cenas que
outrora foram reais. A vida  essencialmente integrao e coerncia, adeso de
foras distintas a um projeto comum. A morte , por definio, desagregao,
incoerncia. A vida individual ou coletiva no  unilinear nem unidimensional;
 um tecido denso e compacto. Por vezes, o romance histrico empreende com
sucesso (em condies certamente mais fceis) este projeto raramente realizado
por historiadores: a ressurreio do passado. Professores de histria, economia,
sociologia, etc. poderiam encontrar matria para um estudo conjunto nesses
afrescos vivos que so As vinhas da ira, de Steinbeck; A condio humana, de
Malraux; e Tchaka, de T. Mofolo.
    Sem cair no romance, devemos objetivar a recuperao dessa densidade,
pois, no caso, a vida real foi ainda mais palpitante que o romance. A realidade
ultrapassa a fico. Todo movimento histrico depende do conjunto de todos
os aspectos da realidade social. E a reconstituio histrica que deixasse de
considerar todos esses aspectos seria, se no uma anti-histria, no mnimo uma
outra histria: uma viso facciosa posto que parcial. Evidentemente podemos
nos concentrar num ponto especfico do quadro histrico para ampli-lo, desde
que no nos esqueamos de que est situado no quadro, sem o qual, mesmo
enquanto ponto, no pode ser perfeitamente compreendido. Essa observao 
ainda mais pertinente em se tratando do conjunto do quadro. Os fatos histricos
importantes, como a expanso mande no oeste da frica, so resultantes de
398                                                                        Metodologia e pr-histria da frica



um encontro, de uma conjugao de foras: a tecnologia, o equipamento
material, o comrcio, as vantagens da lngua, a pertinncia da organizao
poltica, o impulso do sentimento religioso, etc. Privilegiar de forma abusiva,
como frequentemente acontece, a causa motriz antes de tentar retratar, em sua
profuso vital, a interveno de todas as causas,  erigir um edifcio conceptual
ao invs de procurar reeditar mentalmente o passado. O apanhado global da
histria a partir de muitas fontes torna-se ainda mais imperativo em se tratando
de sociedades onde a vida  mais integrada, menos dicotmica que nos pases
onde j se consumou a diviso em classes antagnicas. Na frica, talvez com
excessiva facilidade, fez-se uma distino entre as sociedades com Estado e
as sociedades sem Estado, definindo-se evidentemente este ltimo termo em
funo das normas da experincia coletiva do estudioso.11 Esquece-se, talvez,
que mesmo em um imprio como o Mali, a falta de estradas transitveis e de
administrao burocrtica, bem como a opo deliberada dos dirigentes em
favor da descentralizao ditada pelos fatos, fizeram com que a vida real da
maioria da populao se desenrolasse fora do "Estado", em vilarejos dotados
de uma autonomia milenar e que no estavam ligados ao centro, nem por um
vnculo material concretizado por um feudo, nem pela realidade fsica das auto-
-estradas ou das vias frreas, nem pela material idade das folhas de impostos e
de decretos de ministrios ou prefeituras. Ignorar tudo isso  condenar-se ao
enfoque simplista que consiste no estabelecimento de listas de reis e prncipes a
respeito dos quais conhecemos apenas um ou dois grandes feitos num reinado de
quinze ou vinte anos, que consagramos como marcos indiscutveis da vida real
dos povos. A imensa maioria dos povos africanos vivia em sociedades totais, se
no totalitrias, onde tudo estava interligado, desde a confeco de utenslios at
os ritos agrrios, passando pelo cerimonial do amor e da morte. No tocante a
isso, a sociedade regida pelo "animismo" no  menos integrada que a sociedade
governada pelo isl. Sob vrios aspectos, no se tratava de uma sociedade laica.
E consider-la como tal  desprezar uma parte importante da realidade. Em
suma, nesses pases tambm existe centralizao, diferente, porm, da que vigora
no Estado moderno,12 onde  o preo  e o antdoto  da diviso extremada do
trabalho social. Por exemplo, entre os Senufo (Poro), os Lobi (Dyoro) e os Diula,
a iniciao desempenhava um papel central em torno do qual se organizava toda


11    AQUET, J. J. 1961. O autor utiliza alternadamente a anlise econmica, sociolgica e poltica para tentar
      definir um modelo aplicvel  sociedade soga.
12    O episdio do povo do Bure, narrado por Ibn Battuta, o prova nitidamente: aps uma fracassada tentativa
      de assimilao, o imperador do Mali acabou por reconhecer-lhe a autonomia cultural.
Os mtodos interdisciplinares utilizados nesta obra                          399



a vida da coletividade. Da mesma forma, verdadeiras federaes de aldeias foram
erigidas em torno de um altar ou de um culto comum, como na regio de Samo
(Alto Volta) e em Ibo.
    Os pases africanos onde as foras produtivas permaneceram num nvel
muito baixo, gozam, por outro lado, de uma atividade cultural intensa. Enquanto
a dependncia da natureza era quase total, toda vestimenta era adorno. Todo
instrumento ou utenslio era trabalhado artisticamente, e at mesmo as
escarificaes corporais em profundidade ou em relevo tinham a dupla funo
de afirmar uma identidade tnica e manifestar uma inteno esttica. Verifica-
-se o mesmo fenmeno com relao s moedas de ferro (guinze) utilizadas
pelos Loma (Toma); Kissi, Konianke, Mande, Kuranko da Guin, de Serra
Leoa e da Libria. Os guinze eram ao mesmo tempo moedas, protetores das
moradias e dos campos, asilos dos espritos dos defuntos e antepassados, e seria
errneo reduzi-los a uma nica dimenso. Essas sociedades totais requerem
manifestamente uma histria integral  sua imagem. Assim sendo, a melhor
forma de retrat-las  o trabalho interdisciplinar. Como exemplo, temos a obra
conjunta de D. Tait, antroplogo, e de J. Fage, historiador, sobre os Konkomba.
Citemos ainda o enfoque sinttico de J. Berque da histria social de uma
aldeia egpcia.13 Alm disso, o mtodo global ir requerer uma abordagem que
considere todos os fatores externos, assim como os elementos domsticos. Exige
que se transcendam as fronteiras da frica de modo a integrar as contribuies
asiticas, europeias, indonsias e americanas  personalidade histrica africana.
Evidentemente, no na forma de um expansionismo sumrio, pois mesmo
havendo interveno externa, esta  orientada pelas foras internas j em ao.
Como diz a mxima escolstica: Quidquid recipitur, ad modum recipientis recipitur
(Tudo o que  recebido o  na medida e de acordo com o formato do recipiente).
 por esse motivo que o arroz asitico foi cultivado onde j existia o oryza
aborgene africano, e a mandioca, onde existia o inhame. A cultura africana  um
sofisticado complexo de fatores. No poderia reduzir-se  soma numrica desses
fatores, pois eles no so meros produtos de mercearia que se alinha e se conta.
A cultura africana  tudo aquilo que assume e transcende qualitativamente os
elementos constituintes. E o ideal da histria da frica  apoiar-se em todos
esses elementos para retratar a prpria cultura no seu desenvolvimento dinmico.
Em outras palavras, o mtodo interdisciplinar deveria finalmente conduzir a um
projeto transdisciplinar.


13   BERQUE, J. 1957.
Quadro cronolgico das fases pluviais e glaciais da frica               401



                                         CAPTULO 16


                  Quadro cronolgico das fases
                   pluviais e glaciais da frica
                            PARTE I
                                                 I. R. Said




     nosso objetivo aqui apresentar uma exposio geral de algumas das
mudanas ocorridas nos aspectos fsicos do continente africano durante o
Pleistoceno e o Holoceno. Durante esse perodo de cerca de 2 milhes de
anos, os climas e os ambientes da Terra sofreram mudanas considerveis. Uma
srie de eventos climticos marcantes ocorridos durante essa poca submeteu
as latitudes setentrionais do globo, em quatro ocasies sucessivas, a avanos
e recuos de geleiras (denominados Gnz, Mindel, Riss e Wrm nos Alpes).
Formaram-se os vales e os terraos fluviais, estabeleceram-se as atuais linhas da
costa e ocorreram grandes mudanas na fauna e na flora do globo. As formas
proto-humanas diferenciaram-se dos primatas ancestrais no incio do Holoceno,
e os mais antigos utenslios identificveis so encontrados nos horizontes do
Pleistoceno Superior. Em grande parte, o desenvolvimento da cultura, a partir
do surgimento do homem enquanto mamfero que se utiliza de instrumentos,
parece ter sido profundamente influenciado pelos fatores ecolgicos que
caracterizaram os sucessivos estgios do Pleistoceno.
    Firmou-se na Europa a ideia segundo a qual, em vrios episdios do
Pleistoceno, os glaciares foram bem mais extensos do que na poca presente,
tornando-se logo evidente que esses episdios europeus de deteriorao climtica
no tinham carter meramente local. Os trabalhos realizados na frica, por
exemplo, revelaram que o continente sofreu mudanas climticas de dimenses
significativas durante o Holoceno. Embora esses eventos ainda no tenham sido
402                                                     Metodologia e pr-histria da frica



correlacionados de modo conclusivo aos que ocorreram na parte setentrional do
globo, esto em grande parte ligados a estes ltimos de uma forma que ainda
est por ser interpretada.
    Durante a ltima dcada, ampliaram-se consideravelmente as perspectivas de
se estabelecer uma escala de tempo para o final do Cenozoico e do Pleistoceno.
Os programas de perfurao em mar profundo tm fornecido informaes
extremamente valiosas sobre uma sequncia de sedimentos mais ou menos
contnua que registra os eventos da ltima parte da histria da Terra. Estudos
multidisciplinares detalhados dos testemunhos obtidos nesses programas,
progressos na geofsica, e especialmente nos estudos de paleomagnetismo, bem
como o aperfeioamento das tcnicas de medidas radiomtricas, tm contribudo
para a elaborao de uma escala de tempo razoavelmente bem fundamentada
para a ltima parte da histria da Terra. H muito por ser feito neste campo,
visto que ainda no foi possvel estabelecer uma correlao definitiva entre os
eventos de diferentes reas. No entanto, a cronologia da ltima parte da histria
da Terra est entre as mais bem fundamentadas, embora seja ainda questo
bastante controversa a demarcao dos limites do Pleistoceno, em virtude da
grande confuso gerada ao se procurar classificar os estratos-tipo clssicos do
Plioceno e do Pleistoceno na sequncia estabelecida a partir do fundo do mar.
Apresentamos a seguir a classificao que ser utilizada no presente captulo.
    A escala de tempo geomagntica dos ltimos 5 milhes de anos (M.A)
mostra que o campo magntico da Terra passou alternadamente da posio
normal  reversa. Essas diferentes pocas foram interrompidas por eventos
menores marcados por uma inverso. As pocas so, da mais recente para a mais
antiga: Brunhes (0,69 M.A at o presente), Matuyama (2,43-0,69 M.A), Gauss
(3,22-2,43 M.A.), e Gilbert (5,4-3,32 M.A). O intervalo magntico Gilbert-
-Gauss caracterizou-se por uma grande deteriorao climtica, observvel em
muitas regies do globo (sobre esse assunto, ver Hays et alii, 1969). Este episdio
frio corresponde ao incio da glaciao de Nebraska (registrada no golfo do
Mxico), ao surgimento de depsitos glaciais no Atlntico norte e  fauna
continental do Villafranchiano mdio. De acordo com alguns autores, para
os quais o incio da primeira deteriorao climtica constitui o limite entre o
Plioceno e Pleistoceno, este evento marcaria o comeo do Pleistoceno. Contudo,
a adoo desse limite estaria em desacordo com o limite definido pelo Congresso
de 1955 da Associao Internacional de Pesquisa do Quaternrio (INQUA), de
vez que implicaria que os conjuntos faunianos da seo clssica de Castellarquato,
na Itlia, deveriam ser excludas do Plioceno.  prefervel, pois, fixar-se o limite
em -1,85 M.A., correspondendo ao incio do Calabriano e ao evento magntico
Quadro cronolgico das fases pluviais e glaciais da frica                    403



de Olduvai da poca Matuyama. Pesquisas recentes mostraram que esse foi um
perodo antes de aquecimento que de resfriamento. Nas latitudes temperadas, as
primeiras grandes glaciaes do Pleistoceno ocorreram. em torno de -500000 no
intervalo Brunhes-Matuyama. Esta glaciao pode corresponder  Gnz alpina.
O Pleistoceno, portanto, pode ser dividido em duas partes, representando a mais
recente o perodo glacial, e a mais antiga um Pleistoceno pr-glacial. A glaciao
alpina de Riss ocorreu em 120-130000 B.P. aproximadamente, ao passo que a
de Wrm comeou em 80000 B.P. Esta ltima glaciao  talvez a mais bem
datada e estudada. Ela continuou at o Holoceno, que foi fixado em 10000 B.P.
aproximadamente.
   Como dissemos,  objetivo deste captulo estudar as mudanas fsicas mais
notveis ocorridas no continente africano em resposta s variaes climticas do
Pleistoceno. Um continente to grande como a frica compreende uma srie
de ambientes distintos, que responderam de diferentes maneiras e em graus
variados s grandes mudanas paleoclimticas do Pleistoceno. Procuraremos,
portanto, estudar essas mudanas no quadro das principais regies climticas
atuais do continente. Essas regies podem ser classificadas em duas categorias:
zonas equatorial e subequatorial; e zonas tropical e subtropical.


    Zonas equatorial e subequatorial
    A zona equatorial cobre atualmente a regio da bacia do Zaire, no oeste da
frica, caracterizada por ventos pouco variveis, ligeiras diferenas sazonais
de temperatura e umidade, tornados e tempestades frequentes. Esta zona 
atualmente coberta por florestas equatoriais. A zona subequatorial abrange a
maior parte da regio mdia da frica, caracterizando-se pela presena de massas
de ar de tipo equatorial no vero e de tipo tropical no inverno. O inverno  seco
e ligeiramente mais fresco que o vero. A maior parte desta zona compreende
reas com umidade abundante que sustenta uma vegetao de savana tropical.
As bordas setentrional e meridional, entretanto, apresentam atualmente uma
vegetao de estepe tropical.
    As variaes de pluviosidade nessas zonas durante o Pleistoceno permitem
subdividir esta poca em uma sucesso de pluviais e interpluviais. Os pluviais
conhecidos como Kagueriano, Kamasiano, Kanjeriano e Gambliano so
considerados como correspondentes s quatro glaciaes mais importantes do
hemisfrio norte, embora esta correlao no tenha sido comprovada. Foram
identificados dois subpluviais no Holoceno: Makaliano e Nakuriano.
404                                                    Metodologia e pr-histria da frica



   Os pluviais so evidenciados por um maior acmulo de sedimentos lacustres
ou por uma elevao das linhas de margem deixadas em vrias bacias fechadas
como resultado da expanso dos lagos. Os interpluviais caracterizam -se por
uma intensificao da atividade elica, durante a qual as areias transportadas
pelo vento foram depositadas ou redistribudas muito mais ao sul do limite
meridional atual das dunas mveis, e que corresponde a mudanas radicais
na vegetao. Vrios cumes vulcnicos localizados nessas zonas apresentam
caractersticas glaciais em altitudes inferiores  linha de neve atual, indicando
a existncia de climas mais frios em tempos passados. Nas sees seguintes do
presente captulo, encontram-se alguns exemplos dessas mudanas ocorridas na
frica equatorial e subequatorial.

      Bacias lacustres da frica oriental
    A frica oriental, notadamente por suas bacias lacustres, constitui uma rea
tpica dos pluviais e interpluviais propostos para descrever a evoluo da frica
subequatorial. Os lagos da frica oriental situam-se no sistema do rift africano.
Os que preenchem os fundos do ramo oriental do rift, com exceo do lago
Vitria, no possuem sadas e esto localizados em climas muito mais secos.
Por outro lado, os principais lagos do ramo ocidental esto preenchidos at o
nvel de transbordamento.
    Fica claro, desde o incio, que os vestgios de nveis lacustres mais elevados
em uma zona altamente sismoativa como o leste da frica deve conduzir 
formulao de hipteses, mas no permite que se tirem concluses. Nesta
regio extremamente instvel, deve ser levada em considerao a possibilidade
de deslocamento tectnico das linhas de margem, de modificao dos nveis de
transbordamento dos lagos e oscilao das bacias lacustres. Por esta razo caiu
em desuso o conceito de pluviais do Pleistoceno inferior ao mdio (Cooke,
1958; Flint, 1959; Zeuner, 1950). Estudos recentes das bacias lacustres da
frica oriental tm restringido o uso desta evidncia climatoestratigrfica ao
pluvial Gambliano, em que so registrados, em certos locais, sedimentos que no
sofreram deformaes tectnicas.
    Contudo, grande nmero de evidncias geolgicas provam de maneira cabal
que os limites das principais florestas equatoriais variaram consideravelmente
no passado. As grandes florestas das bacias de drenagem do oeste constituram
um importante fator no condicionamento da vida humana durante o perodo
para o qual se dispe de registros arqueolgicos. O famoso stio da garganta de
Olduvai, no norte da Tanznia, inclui em sua base uma fauna de vertebrados
Quadro cronolgico das fases pluviais e glaciais da frica                     405



otimamente preservada, que data seguramente do Pleistoceno inferior. As
correlaes climticas indicam um perodo de alta pluviosidade (Kagueriano ou
Olduvai I). Acima encontram-se duas formaes que indicam, respectivamente,
um intervalo mais seco seguido de um perodo de pluviosidade relativamente
intensa. Existe, nesta localidade, uma sequncia estratigrfica que possui a srie
evolutiva mais completa de machadinhas, das formas mais primitivas s variantes
especializadas mais importantes deste tipo de artefato do Paleoltico Inferior, tal
como  conhecido na Europa e na sia ocidental.
    As evidncias do pluvial Gambliano so constitudas principalmente pelas
praias elevadas e pelos depsitos fossilferos de trs lagos outrora contguos,
situados a noroeste de Nairbi (Nakuru, Elmenteita e Naivasha). O Naivasha
apresenta um nvel de praia elevado, que data de um perodo ligeiramente
anterior ao Paleoltico Superior, indicando que o lago teve uma profundidade
mxima de 200 m e que, provavelmente, escoava suas guas atravs de uma linha
de festo prxima. As pequenas dimenses da concha do lago e o fato de os lagos
modernos no ultrapassarem 10 m de profundidade so dados que permitem
considerar a extenso anterior do lago como uma indicao da ocorrncia de
climas mais midos no passado.
    Em um abrigo sob rocha que domina os lagos atuais de Nakuru e Elmenteita,
um stio bem estratificado com uma verdadeira indstria sistemtica de lminas
foi descoberto por Leakey, na caverna de Gamble, no Qunia. O depsito
inferior  descrito como uma aglomerao de seixos de praia laeustre sobre
o piso rochoso do abrigo, a cerca de 200 m acima do nvel atual do lago. Os
depsitos que contm utenslios situam-se sobre esta aglomerao e consistem
em um depsito mvel de "cinza, poeira, osso e obsidiana". A fauna associada ,
indubitavelmente, do tipo moderno. Segundo Leakey, os depsitos de utenslios
pertencem ao fim de um perodo de alta pluviosidade (o qual ele denomina
Gambliano, segundo o local em questo); este sucede imediatamente ao perodo
a que pertencem os ltimos nveis do Olduvai, que continham utenslios do
Acheulense e restos de uma fauna extinta bastante caracterstica.
    O clssico trabalho de Nilsson (1931, 1940) sobre as bacias lacustres da frica
oriental apresenta um dos estudos mais bem documentados das flutuaes de
seus nveis no passado. Esse autor descreve as linhas de margem elevadas do lago
Tana (nvel da superfcie: 1830 m), fonte do Nilo Azul, e registra cinco linhas de
margem principais at +125 m, com um nvel menos distinto a +148 m. Nilsson
tambm mostra que quatro lagos do Rift Valley (Zway, Abyata, Longana e
Shela) eram interligados e escoaram para o rio Awash durante um certo tempo.
406                                                      Metodologia e pr-histria da frica



    Os registros paleoclimatolgicos do lago Vitria mostram que ele foi pouco
profundo e endorrico por um perodo de durao indeterminada, anterior
a 14.500 B.P., quando prevalecia uma vegetao de savana herbosa. O lago
comeou a se expandir em 12000 B.P. aproximadamente, quando ento apareceu
uma vegetao de floresta nas bordas das suas margens setentrionais. Porm,
por um curto perodo de tempo, em torno de 10000 B.P.,  possvel que o seu
nvel tenha descido a 12 m abaixo do nvel atual. Entre 9500 e 6500 B.P. o
lago Vitria esteve completamente cheio, rodeado por uma floresta perene. O
nvel do lago foi, em parte, influenciado pela inciso de seu escoadouro, porm
os baixos nveis anteriores, bem como a sequncia palinolgica, certamente
independem desse fator.
    Butzer et alii (1972) realizaram um estudo pormenorizado das bacias lacustres
da frica oriental e fornecem dataes por radiocarbono de alguns sedimentos
de suas antigas praias. Os eventos e dataes do Quaternrio Superior dos
lagos Rodolfo, Nakuru, Naivasha e Magadi coincidem em grande parte. O lago
Rodolfo, com uma superfcie atual de 7500 km2,  o maior lago endorrico da
frica. Situado em uma zona de subsidncia a leste do Rift, seu principal afluente
 o rio Orno, que nasce nas terras altas do oeste da Etipia. O trabalho de Butzer
mostra que o litoral, os leitos deltaicos e fluviais associados a esse lago situavam-
-se 60 m acima do nvel atual em 130000 B.P. aproximadamente, e 60-70 m
acima do nvel atual em 13000 B.P. aproximadamente. Entre este ltimo perodo
e 9500 B.P. o lago tornou-se menor que o atual e o clima mais rido. A partir
desta ltima data, o volume do lago cresceu novamente e seu nvel variou entre
60 e 80 m acima do nvel atual at 7500 B.P., quando o lago Rodolfo reduziu-se.
Houve em seguida nveis mais altos em 6000 B.P. aproximadamente, e a partir
de 3000 B.P. o lago reduziu-se at atingir suas dimenses atuais.
    As evidncias de outros lagos da frica oriental, estudados por Butzer et alii,
mostram uma histria semelhante para o Quaternrio Superior.

      Bacias do Chade e do Sudd
   A bacia do Chade merece ateno especial em virtude de sua localizao na
extremidade meridional do Saara e da grande superfcie do mar interior que
ocupou toda a bacia durante o Pleistoceno. O atual lago Chade  um vestgio
desse antigo mar interior (cf. Monod, 1963, e Butzer, 1964). As guas da bacia
provm das savanas da frica central.
   O lago atual situa-se a uma altitude de 280 m, e sua superfcie oscila entre
10000 e 25000 km2; a profundidade mdia varia entre 3 e 7 m, com uma
Quadro cronolgico das fases pluviais e glaciais da frica                   407



profundidade mxima de 11 m. O lago est separado de duas grandes depresses,
Bodl e Djourab, por um divisor de guas de pequena altitude, cortado pelo
vale seco do Bahr el-Ghazal. A mais baixa linha de margem do lago Chade
atual, 4-6 m, permitiria que suas guas transbordassem na depresso de Bodl,
a 500 km de distncia. No seu nvel mais alto, 322 m, o ancestral do Chade
no Pleistoceno deixou linhas de margem bastante ntidas a 40 e 50 m, o que
corresponde a uma rea de 400000 km2. Foram tambm registrados vestgios
mais descontnuos de linhas de margem intermedirias. Grove e Pullan (1963)
mostram que a grande perda por evaporao do lago atual  amplamente
compensada pelo dbito do Logone e do Chari, ao sul. Esses autores calculam
que a evaporao do lago no Pleistoceno deve ter sido seis vezes maior, de sorte
que teria recebido, anualmente, um volume de gua igual a um tero do dbito
anual do Zaire.
    Butzer (1964) afirma com razo que o antigo mar do Chade representa,
portanto, excelente testemunho em favor de uma maior umidade nas latitudes
tropicais submidas. Infelizmente, no foi possvel correlacionar as linhas de
margem das diferentes partes da bacia. A camada de terrenos do Pleistoceno de
600 m de espessura subjacente a algumas partes da bacia mostra a complexidade
e a longa histria deste mar interior. No caso do Nigria, Grove e Pullan (1963)
sugerem que, aps um perodo em que o nvel do lago ultrapassava o nvel atual
de 52 m, durante o Pleistoceno Superior, o clima tornou-Se seco, com formao
de grandes dunas no antigo stio do lago. Ao estabelecimento posterior de
uma nova rede hidrogrfica, seguiu-se um outro perodo mido, tendo o nvel
do lago aumentado de pelo menos 12 m durante o Holoceno. Pode-se dizer,
por conseguinte, que dois movimentos positivos do lago, ainda mal analisados,
parecem ter ocorrido antes de 21000 B.P. Sucedeu-se um longo intervalo de
dessecao e atividade elica at pouco antes de 12000 B.P., quando o lago
reiniciou sua expanso, atingindo um nvel mximo h cerca de 10000 anos B.P.,
com transbordamentos ao menos intermitentes. Este perodo de cheia durou at
4000 B.P. aproximadamente.
    A histria deste mar interior no Pleistoceno Superior e no Holoceno parece,
assim, coincidir, salvo em alguns detalhes, com a das bacias da frica oriental.
    O lago Sudd, no Sudo meridional, representa, na opinio do autor deste
captulo, outro grande mar interior que teve provavelmente uma histria
semelhante  da bacia do Chade. O Sudd  um lago extinto que se supe ter
coberto a regio da bacia superior do Nilo, estendendo-se at o Nilo Branco,
partes do Nilo Azul e do Bahr el-Ghazal. A ideia da existncia deste antigo
lago partiu de engenheiros de irrigao que trabalhavam no Egito (Lombardini,
408                                                    Metodologia e pr-histria da frica



Garstin e Willcocks) e foi elaborada por Lawson (1927) e Ball (1939). Todos
ficaram impressionados com o nivelamento das plancies do Sudo central e
meridional e admitiram que um pequeno aumento no nvel dos Nilos Branco
e Azul poderia inundar extensas reas. O lago Sudd, pelos clculos de Ball,
ocupou uma rea de 230000 km2 (a regio limitada pela curva dos 400 m,
altitude de Shambe). Esta regio  coberta pela formao de Um Ruwaba,
recentemente mapeada, que  constituda de uma longa srie de depsitos
fluviais, deltaicos e lacustres. O ponto culminante dessa formao ultrapassa
500 m, altitude bastante superior  do mais baixo nvel de escoamento do
cume de Sabaluka, ao norte de Cartum (434 m), que se supe ter formado
o limite setentrional do lago. Como observou Said (MS), este cume situa-
-se numa das principais linhas de falha que limitam a borda meridional do
macio da Nbia, ncleo de grande atividade ssmica. Essa altitude, pela razo
exposta e por outras relacionadas  inciso da garganta de Sabaluka por uma
eroso ulterior, no pode ser ti da como representante da altitude do cume
durante o preenchimento do lago. Uma outra complicao provm do efeito
de barragem produzido pelas guas do Nilo Azul ao se precipitar no Nilo
Branco em poca de cheia. Embora a histria do lago Sudd no seja conhecida
em pormenores, sua grande extenso  comprovada pelos 382 m de praia que
margeiam amplas reas do Nilo Branco. Como a bacia do Chade, parece ter
sido muito extenso entre 12000 e 8000 B.P. Ao norte, deve ter chegado a 50
km de largura (Williams, 1966). Depois, o lago reduziu-se e, em torno de
6000 B.P., a pluviosidade anual diminuiu, atingindo cerca de 600 mm nas
proximidades de Cartum, e o nvel do Nilo Branco baixou para 0,5-1 m acima
de seu nvel mdio atual em poca de cheia.

      Fenmenos glaciais
   A antiga glaciao da frica est estreitamente ligada s geleiras atuais, que,
por sua vez, dependem principalmente da distribuio das grandes elevaes.
Com exceo das montanhas do Atlas, todos os picos com geleiras encontram-
-se na frica oriental, a poucos graus do equador. As altitudes variam de
aproximadamente 3900 a 6100 m. Flint (1947, 1959) apresenta um resumo
dos dados importantes referentes a essas regies, afirmando que as nevadas
que alimentavam as geleiras eram, provavelmente, produzidas pela precipitao
orogrfica da umidade das massas de ar martimo que se deslocavam para leste,
provenientes do Atlntico sul e, em menor grau, para oeste, provenientes do
oceano ndico.
Quadro cronolgico das fases pluviais e glaciais da frica                        409



    A altitude do monte Qunia (lat. 010' S; longo 3718' L)  de 5158 m e a
atual linha de neve est a 5100 m; estima-se que a linha de neve no Pleistoceno
tenha descido no mximo a 900 m (Flint, 1959). O monte Kilimandjaro na
Tanznia (lat. 305' S; longo 3722' L) tem uma altitude de 5897 m e parece
situar-se atualmente pouco acima da linha de neve; a linha de neve mais baixa,
no Pleistoceno, esteve acima de 1300 m (Flint, 1959). O monte Elgon, em
Uganda (lat. 1 08' N; longo 3433' L), tem uma altitude de 4315 m e situa-se,
atualmente, bem abaixo da linha de neve, tendo apresentado geleiras durante o
Pleistoceno. O monte Ruwenzori (lat. 024' N; longo 2954' L) tem uma altitude
de 5119 m e sua atual linha de neve situa-se a 4750 m na vertente oeste (Zaire)
e 4575 m na vertente leste (Uganda). As geleiras do Pleistoceno desciam a
2900 m na vertente oeste e a cerca de 2000 m na vertente leste.
    Atualmente no existem geleiras nas terras altas da Etipia, porm os
montes Semien (lat. 1314' N; longo 2825' L) parecem ter apresentado geleiras
durante o Pleistoceno. Nilsson (1940) demonstra a existncia de duas antigas
glaciaes em alguns picos desta cadeia (altitude de aproximadamente 4500
m) com linhas de neve a 3600-4100 m e 4200 m. Um recuo glacial associado
ao Pleistoceno Superior corresponde a uma linha de neve a 4400 m. Nilsson
tambm descreve uma glaciao do Pleistoceno Superior no monte Kaka (lat.
750' N; longo 3924' L), com uma linha de neve a 3700 m. Foram tambm
descritas glaciaes em outros picos vulcnicos da Etipia, que atualmente se situam
bem abaixo da linha de neve: monte Guna (lat. 1143' N; longo 3817' L); Amba
Farit (lat. 10053' N; longo 3850' L) e monte Chillale (lat. 750' N; longo 3910' L).
    H evidncias convincentes de pelo menos duas gIaciaes nas zonas
equatorial e subequatorial da frica, e de um clima consideravelmente mais frio
durante o perodo que corresponde  glaciao de Wrm. Alm dos fenmenos
glaciais observados em alguns picos desta zona, descobriram-se na Etipia vestgios
de solifluxo e de modificao dos solos por congelamento (4200-9300 m). De
acordo com Budel (1958), o limite inferior dos fenmenos de solifluxo durante
o perodo de Wrm alcanou 2700 m. Tambm foram registrados depsitos
glaciofluviais em muitas reas da frica equatorial. Os depsitos do monte
Ruwenzori foram estudados por de Heinzelin (1963), que constatou serem
eles paralelos aos terraos gamblienses do rio Semliki. O Semliki, que une os,
lagos Eduardo e Alberto na fronteira do Zaire com Uganda, possui espessas
camadas de seixos grandes e mdios, areias e terra vermelha agrupadas junto
com os depsitos coluviais. De Heinzelin demonstra que os terraos sangoenses-
-lupembienses so contemporneos dos depsitos glaciofluviais do monte
Ruwenzori.
410                                                    Metodologia e pr-histria da frica



      Zonas tropical e subtropical
    A atual zona tropical da frica possui um regime de ventos provenientes
sobretudo do leste e ntidas variaes sazonais de temperatura. A parte ocidental
desta zona, situada na costa do Atlntico, apresenta alsios estveis, temperatura
amena, alta umidade atmosfrica e baixssima pluviosidade. A parte restante
abrange os grandes desertos do norte e do sul do continente. So regies quentes
e ridas, com uma grande variao diurna de temperatura e um mximo absoluto
de temperatura. A zona subtropical compreende as extremidades setentrional e
meridional do continente e se caracteriza pela presena de massas de ar tropicais
no vero e de massas de ar de tipo temperado no inverno. A temperatura e
a pluviosidade sazonais variam consideravelmente. As regies de clima
mediterrneo apresentam tempo bom e claro no vero, e chuvoso no inverno.

      O Saara
    O Saara representa talvez o elemento mais notvel desta zona. Estendendo-
-se por mais de 5500 km do mar Vermelho ao Atlntico, e tendo de norte a sul,
uma largura mdia superior a 1700 km, cobre quase um quarto da rea total
do continente africano. Em toda essa regio, a pluviosidade, embora muito
desigualmente distribuda,  superior a 100 mm/ano em certos locais e, em
mdia, muito inferior. Consequentemente, no se conhecem rios perenes no
Saara, com exceo do Nilo, que recebe suas guas de fontes situadas fora do
deserto. Os lenis permanentes e efmeros resultantes do escoamento superficial
no tm importncia para a vida humana atual, ao contrrio dos poos e fontes
alimentados por lenis subterrneos.
    O Saara  constitudo por um rgido embasamento de rochas pr-cambrianas
recobertas por sedimentos do Paleozoico ao Cenozoico, os quais permaneceram
estveis durante a maior parte do Fanerozoico. Ocorreram dobramentos e
arqueamentos da crosta somente na cadeia do Atlas, do golfo de Gabes ao
Marrocos, e nas colinas do mar Vermelho, a leste do Nilo. Uma atividade
semelhante  observada em Cirenaica e no subsolo da costa setentrional da
frica. Estes dobramentos pertencem ao sistema alpino de orognese do
Cenozoico Superior e do Quaternrio. A cadeia do mar Vermelho, por outro
lado, est ligada aos movimentos tectnicos e  extenso do grande Rift Valley
africano.
    A mais extensa rea de elevaes  a do macio do Atlas, que apresenta a
maior pluviosidade. Elevaes menores esto presentes em Cirenaica e nos
Quadro cronolgico das fases pluviais e glaciais da frica                  411



macios do Ahaggar e do Tibesti do Saara central. Estes ltimos constituem
duas regies de topografia montanhosa ligadas pela selle basse de Tummo. Essa
regio tem uma altitude mdia de 2000 m, com picos de at 3600 m. A maioria
dos picos  constituda de rochas vulcnicas, formadas durante um longo
perodo de atividade vulcnica que alcanou o Pleistoceno. Encontram-se reas
menores de rochas vulcnicas nos macios de Ar, no sudoeste de Ahaggar, no
Uweinat, que se ergue abruptamente entre o Tibesti e o Nilo, no monte Ater,
etc. Atualmente, esses macios exercem uma influncia insignificante sobre o
clima, mas h muitas evidncias geolgicas de que a regio do Saara, durante
vrios episdios do Pleistoceno, foi bem menos rida que no presente.
    O principal fator de eroso no deserto, tanto atualmente como durante todos
os demais perodos de aridez,  a eroso elica, responsvel pela formao da
grande peneplancie do Saara. As areias grosseiras transportadas pelo vento
acumulam-se em extenses conhecidas por erg ou reg, enquanto que os materiais
mais finos so transportados em altitude na atmosfera, permanecendo em
suspenso parcial por longos perodos de tempo. A superfcie rochosa denudada
resultante dessa eroso  conhecida como Hammada. Ocorrem bacias e depresses
nessas superfcies, que variam de bacias rasas e pequenas a grandes depresses
que atingem, em alguns locais, uma profundidade de 134 m abaixo do nvel do
mar (depresso de Oattara). Essas depresses tornaram-se, nas fases pluviais,
em stios de aluvionamento; ao atingirem o nvel dos lenis subterrneos,
surgiram fontes e iniciou-se uma atividade de sedimentao lacustre. As grandes
depresses situam-se principalmente nas bordas dos escarpamentos, mas so
raramente circundadas por estes. Certamente foram formadas por eroso elica,
j que constituem bacias interiores sem sada.
    H divergncia de opinies quanto  histria geolgica do Saara. Alguns
autores sustentam que foi um deserto durante todo o Fanerozoico e que os
perodos midos representam variaes anormais na histria de uma aridez
contnua. Outros sustentam que a desertificao  um fenmeno recente,
correspondente ao atual sistema de distribuio das massas de ar.
    So irrefutveis as evidncias de que, no passado, o deserto conheceu climas
mais midos. Dentre essas evidncias incluem-se tanto o sistema de distribuio
da fauna quanto certas caractersticas sedimentares que s podem ser explicadas
pela hiptese da existncia de um clima mais mido no passado. Sabe-se que
determinados animais nativos da frica central viveram no deserto, e no
poderiam ter migrado para l a no ser atravs de corredores de vegetao ou
gua. Encontraram-se espcimes do crocodilo da frica central em covas d'gua
no interior de ravinas profundas dos macios de Ahaggar e Tibesti; o mudfish
412                                                       Metodologia e pr-histria da frica



africano foi encontrado no norte at o osis de Biskra, ao sul da Tunsia. As
caractersticas do sistema de drenagem do deserto indicam a ocorrncia, no
passado, de ndices pluviomtricos mais elevados. A oeste de Ahaggar, uma
plancie imensa estende-se a poucas centenas de quilmetros do Atlntico,
declinando suavemente a partir das margens da depresso de El Juf. V-se
claramente que, no passado, tal plancie formava a bacia de evaporao de um
vasto sistema hidrogrfico. So significativas as linhas de drenagem que se
dirigem para o sul a partir das encostas meridionais do Atlas, destacando-se
o uede Saura, com mais de 500 km de extenso. Trata-se de um vale que, no
passado, suportou um volume de gua suficiente para remover as areias elicas
que hoje obstruem seu curso mdio.
    Das colinas do mar Vermelho, alguns uedes alcanam at 300 km, drenando
reas de aproximadamente 50000 km. Um deles, o wadi Jharit, que desemboca
na plancie de Kom Ombo ao norte de Assu,  cercado por delgadas camadas
aluviais de siltitos finos com mais de 100 m de profundidade; Estes foram
certamente depositados por um rio perene de dbito considervel.
    Monod (1963) fez um estudo dos principais trabalhos sobre as divises
c1imatoestratigrficas do Saara. Ele cita o trabalho de Alimen, Chavaillon e
Margat (1959) sobre a clssica bacia do Saura, para a qual foram sugeridos os
seguintes perodos, do mais antigo ao mais recente:
         Pluvial Villafranchiano (= Aidiano): areia, cascalho, conglomerados de cor
          rosa-avermelhado sobre rochas mais antigas.
         Ps-Villafranchiano rido: brechas de talude, loess arenoso etc., recobertos
          por um paleossolo marrom-avermelhado. Utenslios de seixos grosseiramente
          lascados foram observados em um stio na Arglia.
         Primeiro pluvial Mazzeriano (Q/a): conglomerados e areias.
         Ps-Mazzeriano rido: depsitos de argila arenosa, areias elicas, entulho.
         Segundo pluvial Taourirtiano (ou ougartiano I) (Q/b): conglomerados,
          cultura de seixos bem desenvolvida, possivelmente do Acheulense Mdio.
         Ps-Taourirtiano rido: eroso.
         Terceiro pluvial (ou Ougartiano II): seixos de vrias cores e areias ou um
          paleossolo vermelho-castanho.
         Ps-Taourirtiano rido: eroso.
         Quarto pluvial (Q1) sauriano: areias cinza-esverdeadas, materiais detrticos,
          solos fsseis negros  Ateriense.
         Pluvial ps-sauriano: crosta de arenito  Neoltico.
         Fase mida guiriana (Q2a): Neoltico.
Quadro cronolgico das fases pluviais e glaciais da frica                  413



   De acordo com Arambourg (1962), os quatro pluviais principais Mazzeriano,
Ourgartiano I, Ougartiano II e Sauriano  do norte do Saara poderiam
corresponder aos pluviais da frica oriental  Kagueriano (Olduvai I),
Kamasiano, o Kanjeriano e Gambliano. O Guiriano do noroeste da frica
poderia corresponder s fases midas do ps-Gambliano.

    O Nilo
   O Nilo tem de h muito atrado a ateno dos estudiosos, e  vasta
a literatura dedicada a seus vrios aspectos. A pr-histria e a evoluo
geolgica deste rio foram objeto de recentes estudos realizados por Wendorf
(1968), Butzer e Hansen (1968), de Heinzelin (1968), Wendorf e Schild
(MS), Giegengak (1968) e Said. As notas seguintes so o resultado de
um estudo realizado por este ltimo autor, com base no mapeamento de
campo, nos depsitos fluviais e nos sedimentos associados e no exame de
um grande nmero de perfuraes, profundas e rasas, para prospeco de
gua ou petrleo. Pode-se dizer que o Nilo passou por cinco episdios
principais desde a abertura de seu curso no Mioceno Superior. Cada um
destes episdios caracterizou-se por um rio alimentado principalmente por
fontes exteriores ao Egito. Por volta do fim dos quatro primeiros episdios
(o ltimo ainda est em andamento), o rio parece ter diminudo ou deixado
completamente de fluir no Egito. Essas grandes fases de recesso foram
acompanhadas de importantes mudanas fsicas, climticas e hidrolgicas.
Na primeira dessas recesses, o mar parece ter avanado terra adentro,
formando um golfo que ocupou o vale escavado at o sul de Assu. Durante
a segunda recesso, que se iniciou com o Pleistoceno rido e continuou
por mais de 1100000 anos, um clima hiperrido desenvolveu-se no Egito,
transformando-o em um verdadeiro deserto. Durante esse episdio, em que
houve intensa atividade elica, comearam a se formar as grandes depresses
do deserto e foi destruda a vegetao que cobrira o Egito por quase todo
o Plioceno. H evidncias de uma fase pluvial relativamente curta no incio
deste perodo, em que surgiram torrentes efmeras que derivavam suas guas
somente do Egito. Os cinco cursos d'gua que ocuparam o vale do Nilo,
desde sua escavao no Mioceno superior, so chamados: Eo-Nilo (Tmu);
Paleo-Nilo (Tplu); Proto-Nilo (Q 1); Pr-Nilo (Q 2); e Neo-Nilo (Q 3).
   As variaes climticas registradas no Egito podem ser resumidas na seguinte
tabela, da mais antiga para a mais recente:
414                                                   Metodologia e pr-histria da frica



      Pluvial Plioceno
    (Tplu), de 3320000 a 1850000 B.P.
    Os sedimentos do Paleo-Nilo apresentam-se em sua maior parte na forma
de finas camadas de clsticos e argilas, observveis no subsolo do vale e em
afloramentos ao longo das margens dos uedes. As cabeceiras do Paleo-Nilo
encontravam-se no Egito e tambm na frica equatorial e subequatorial.
Presena de considervel cobertura vegetal, desintegrao qumica intensa e
escoamento reduzido. Chuvas provavelmente distribudas de forma regular
durante o ano.

      Fase hiperrida do Pleistoceno Inferior
    (Intervalo Tplu/Q 1), de 1850000 a 700000 B.P.
    O Egito transforma-se em um deserto, o vale do Nilo torna-se sismicamente
ativo e a atividade elica atinge seu mximo. Esta fase  interrompida por um
curto pluvial (Armant), com a formao de camadas de cascalhos alternadas com
camadas de areia selecionada ou de marga encaixadas em uma matriz amarelo-
-avermelhada e recobertas por brecha vermelha cimentada. Nenhum utenslio
foi encontrado nestes depsitos.

      Pluvial Edfon
   (Q 1), de 700000 a 600000 B.P.
   Voltam as condies climticas do Paleo-Nilo; o Proto-Nilo, com fontes
idnticas s de seu predecessor, entra no Egito seguindo um curso paralelo ao do
Nilo moderno e situado a oeste deste. Os sedimentos do rio tomam a forma de
camadas de cascalho de quartzo e quartzito encaixados em uma matriz de solo
vermelho-tijolo. Esses sedimentos provinham de um terreno profundamente
desintegrado e muito lixiviado. No deserto, sedimentos comparveis aos
conglomerados dos uedes so conhecidos sob a forma de canais invertidos. H
registros nestes depsitos de utenslios de tradio chellense.

      Fase rida do PrNilo
   (Q 2), de ?600000 a 125000 B.P.
   Um novo rio entra no Egito, alimentado pelas guas das terras altas da
Etipia. A composio mineral dos sedimentos do Pr-Nilo mostra a presena
do mineral augita (mineral caracterstico dos sedimentos do Nilo moderno
Quadro cronolgico das fases pluviais e glaciais da frica                  415



oriundos das terras altas da Etipia), bem como uma abundncia de epdoto,
o que distingue estes depsitos daqueles do Neo-Nilo e do Nilo moderno.
Assinala-se um pluvial menor durante as fases iniciais deste intervalo.

    Pluvial Abbassia
   De 125000 a 80000 B.P.
   O Pr-Nilo pra de correr no Egito, suas cabeceiras so cortadas pela
elevao do macio da Nbia. Este pluvial caracteriza-se pela presena de
cascalhos polignicos, oriundos das colinas do mar Vermelho, cuja superfcie
foi profundamente desintegrada mas pouco lixiviada. Nestes cascalhos so
encontrados utenslios do Acheulense Superior em grande quantidade.

    Fase rida Abbassia/Makhadma
    De 80000 a ?40000 B.P.
    Eroso.

    Subpluvial Makhadma
   De ?40000 a 27000 B.P.
   Registros de enxurradas, utenslios de tradio sangoense-lupembiense em
vrios declives do leito erodido do Pr-Nilo. No deserto, encontram-se por toda
parte artefatos de tradio musteriense e ateriense.

    Fase rida do NeoNilo
   (Q 3) de 27000 B.P. at o presente.
   Um rio (o Neo-Nilo) com cabeceiras e regime similares aos do Nilo moderno
entra no Egito. O Neo-Nilo passou por fases de recesso que formaram mximos
subpluviais: o subpluvial Deir el-Fakhuri (15000 a 12000 B.P.); subpluvial
Dishna (10000 a 9200 B.P.) e Neoltico (7000 a ?6000 B.P.).
   Pode-se afirmar, portanto, que os sedimentos do vale do Nilo no so muito
diferentes dos registrados no Saara. Generalizando,  possvel relacionar o
pluvial Armant egpcio ao pluvial Villafranchiano do noroeste do Saara, o Edfon
ao Mazzeriano, o Abbassia ao Ougartiano, o Makhadma ao Sauriano, o Deir
el-Fakhuri, o Dishna e o Neoltico ao Guiriano.
   Concluindo, cabe observar que os pluviais africanos tm possivelmente suas
origens nas variaes climticas do globo que, em teoria, corresponderiam s
416                                                 Metodologia e pr-histria da frica



glaciaes da Europa e da Amrica do Norte. Embora tal fato no tenha sido
comprovado,  possvel afirmar que, em geral, o Ougartiano (do noroeste da
frica), o Abbassia (do nordeste da frica) e o Kanjeriano (Olduvai IV) do
leste da frica podem ser correlacionados  glaciao alpina de Riss. Antes
que se possa tirar qualquer concluso definitiva, fazem-se necessrios estudos
suplementares, principalmente no campo das medidas paleomagnticas e
radiomtricas.
Quadro cronolgico das fases pluviais e glaciais da frica               417



                                         CAPTULO 16


                  Quadro cronolgico das fases
                   pluviais e glaciais da frica
                            PARTE II
                                                   H. Faure




    Os ltimos milhes de anos da histria de nosso planeta foram marcados pela
alternncia de profundas modificaes climticas. O fenmeno mais importante,
bem conhecido h mais de um sculo,  sem dvida o extraordinrio avano
e recuo das geleiras nas altas latitudes e altitudes. Este fenmeno  reflexo
dos considerveis resfriamentos que exerceram profunda influncia sobre o
ambiente e a vida dos homindeos. Na frica, a manifestao mais espetacular
das variaes climticas do Quaternrio foi a extenso das reas lacustres em
zonas atualmente ridas, e o desenvolvimento de grandes extenses de dunas
em regies que hoje apresentam um clima mais mido.
    No curso da dcada passada, observou-se um progresso considervel na datao
de eventos climticos ocorridos durante os ltimos 30000 anos, graas ao uso
sistemtico de medidas radiocronolgicas (carbono 14). Para os ltimos milhes
de anos, a cronologia das inverses magnticas, baseada nas medidas radiomtricas
pelo mtodo potssio-argnio, permite a correlao com outras regies onde esses
mtodos so tambm empregados, especialmente as regies ocenicas.
    Antes da utilizao desses mtodos de correlao cronolgica, a estratigrafia
do Quaternrio baseava-se principalmente na sucesso dos eventos climticos,
tida como um quadro cronolgico. Estabeleciam-se as correlaes de uma regio
a outra comparando-se pocas sucessivas caracterizadas por climas semelhantes.
Assim, sugeriu-se, por exemplo, uma correspondncia um tanto arbitrria entre
418                                                                  Metodologia e pr-histria da frica




figura 16.1 Grficos mostrando analogias entre istopos de oxignio (ou variaes de temperatura) e a
intensidade do campo magntico da Terra, em um testemunho de fundo de mar, para os ltimos 450000 anos
(segundo Wollin, Ericson e Wollin, 1974).
Quadro cronolgico das fases pluviais e glaciais da frica                                      419




figura 16.2 Grficos mostrando analogias entre temperaturas indicadas pela microfauna e a inclinao
magntica para os ltimos 2 milhes de anos (segundo Wollin et alii, 1974).
420                                                       Metodologia e pr-histria da frica



os perodos glaciais europeus e as fases pluviais africanas. Esta proposta foi
recusada por vrios autores (Tricart, 1956; Balout, 1952; e outros).
   A resposta a essa questo de correlao mostra-se muito mais complexa na
realidade e somente agora comea a ser divisada, graas, por um lado, a um
melhor conhecimento dos mecanismos de climatologia global e, por outro, 
cronologia climtica detalhada dos ltimos milhares de anos.


      Magnetoestratigrafia e cronologia radiomtrica
    Alm das observaes feitas acima por Rushdi Said,  preciso notar que
frequentemente se confundem as unidades litoestratigrficas, bioestratigrficas e
cronoestratigrficas, de sorte que a falta de preciso nas definies acabou por criar
uma nomenclatura de difcil utilizao em um quadro cronolgico mais rigoroso.
    Assim, determinados elementos do campo magntico, como inclinao ou
intensidade, parecem estar estreitamente relacionados a elementos climticos
(Figs. 1 e 2).


      Glaciaes quaternrias e cronologia
     provvel que, no Quaternrio, pelo menos doze resfriamentos importantes
tenham sido registrados nos depsitos contnuos acumulados no fundo dos oceanos
(ver Fig. 2). Cerca de oito somente foram reconhecidos nos depsitos continentais
do norte da Europa. Os terraos fluviais e os depsitos glaciais da regio alpina so
relacionados a quatro (ou seis) glaciaes clssicas: Gnz, Mindel, Riss, Wrm (e
Donau, Biber), cada uma das quais pode compreender vrios "estdios".
    A natureza descontnua das evidncias continentais torna difcil, e quase sempre
ilusrio, estabelecer correlaes entre os perodos glaciais de regies distantes
quando no esto situadas com confiabilidade numa escala magnetocronolgica
ou radiomtrica. De fato,  imprecisa a cronologia estabelecida para as glaciaes
alpinas. Os termos Gnz, Mindel, Riss, Wrm e Biber tm sido empregados
em diferentes regies para indicar formaes no sincrnicas. Assim, de acordo
com a datao potssio-argnio das rochas vulcnicas intercaladas nos terraos
do Reno, as formaes conhecidas como Mindel I e II teriam 0,3 e 0,26 M.A.,
e os terraos denominados Gnz I e II teriam 0,42-0,34 M.A. Porm o termo
Gnz  por vezes aplicado ao perodo frio que antecede o Cromeriano, que teria,
portanto, uma idade de 0,9 a 1,3 M.A., coincidindo com o perodo frio que
Quadro cronolgico das fases pluviais e glaciais da frica                  421



precede o evento de Jaramillo nos testemunhos submarinos. Segundo a ltima
interpretao, o Donau, o perodo frio anterior, incluiria o evento de Gilsa e
seria equivalente ao Eburoniano.
    Compreende-se, a partir deste exemplo, o quanto  arriscado estender
de uma regio a outra uma cronologia baseada numa sucesso climtica
continental: observando-se o nmero de eventos frios identificados, bem
como a nomenclatura que lhes  arbitrariamente atribuda, verifica-se que as
divergncias tornam precria qualquer correlao das evidncias das glaciaes
alpinas com os resfriamentos sucessivos medidos nos testemunhos ocenicos.
    Um registro completo e contnuo de todos os fenmenos climticos, bem
como das referncias magnetoestratigrficas e radiomtricas, so requisitos
fundamentais para se construir uma escala estratigrfica, ainda que aproximada,
que possibilite uma comparao razovel entre duas regies.
    A inverso magntica Matuyarna-Brunhes (0,69 M.A.) foi identificada no
estgio Cromeriano atravs da palinologia, e o evento de Gilsa (1,79 M.A.) no
Eburoniano (Van Montfrans, 1971).


    Transgresses quaternrias e cronologia
   Cada glaciao causa uma regresso glacioeusttica do mar, que pode atingir
uma centena de metros. Portanto, as transgresses marinhas determinadas
pelo derretimento dos gelos permitem que, nas zonas litorneas, a cronologia
climatoestratigrfica seja vinculada  cronologia dos ciclos marinhos.
   Nas regies onde as formaes marinhas so coralinas (Barbados, Bermudas,
Nova Guin, mar Vermelho), a datao pelos mtodos baseados no desequilbrio
do urnio aplicados  aragonita dos corais permitiu precisar a idade das
transgresses marinhas dos ltimos interglaciais (200000, 120000, 105000,
85000 B.P. aproximadamente). Dentro da margem de erro fsico dos diversos
mtodos de datao radiomtrica, observa-se que estes altos nveis marinhos
correspondem razoavelmente s fases de temperaturas mais elevadas, indicadas
pela microfauna marinha, polens e istopos de oxignio.


    Mecanismo da climatologia global
   O clima no constitui um meio simples de correlao cronolgica. Devido
 complexidade dos fatores a ele relacionados em um momento dado (ou em
422                                                         Metodologia e pr-histria da frica



uma poca que se estenda por sculos ou milnios), est fora de cogitao o uso
de dados que no forem adequadamente datados como critrio estratigrfico
ou cronolgico.
   Os fatos que levam a essas observaes so de duas especies:
          O conhecimento da evoluo climtica global no decorrer de algumas
           dcadas (ou de alguns sculos, com base em dados histricos) mostra
           a complexidade do problema em uma escala global.  necessrio o
           conhecimento da evoluo de todos os fatores: constante solar, circulao
           ocenica, situao das frentes polares, distribuio das temperaturas, chuvas
           (no somente suas mdias, mas sua variabilidade).
          O conhecimento das variaes de determinados fatores climticos
           nos ltimos 25000 anos (fim do Pleistoceno e Holoceno), atravs de
           medidas radiomtricas, mostra-nos, por um lado, a rapidez das mudanas
           significativas para as quais h evidncia confivel e, por outro, a complexidade
           das correlaes em uma escala global. A escala de tempo considerada
           desempenha, ento, um papel importante.
    O sistema climtico, conforme definido pela Academia Nacional de
Cincias, em Washington (1975),  constitudo pelos processos e propriedades
responsveis pelo clima e suas variaes (propriedades trmicas: temperatura
do ar, da gua, do gelo, dos solos; propriedades cinemticas: vento, correntes
ocenicas, movimentos dos gelos, etc.; propriedades aquosas: umidade do ar,
nuvens, lenis de escoamento superficial ou aquferos, gelo, etc.; propriedades
estticas: presso, densidade atmosfrica e ocenica, salinidade, etc.; assim como
os limites geomtricos e as constantes do sistema). Todas as variveis do sistema
so inter-relacionadas pelos processos fsicos que nele ocorrem: precipitao,
evaporao, radiao, transferncia, conveco, turbulncia.
    Os componentes fsicos do sistema climtico so: atmosfera, hidrosfera,
criosfera, litosfera, biosfera. Os processos fsicos responsveis pelo clima podem
ser expressos quantitativamente pelas equaes dinmicas do movimento, a
equao da energia termodinmica e a equao de continuidade de massa e
de gua.
    As variaes climticas tornam-se mais complexas na medida em que aumenta
o nmero de interaes entre os elementos do sistema climtico. Desse modo, as
causas das mudanas climticas so muitas e variadas, especialmente em funo
da escala de tempo utilizada e dos mecanismos de interao (feedback). Os
oceanos desempenham um importante papel nas mudanas climticas, atravs
Quadro cronolgico das fases pluviais e glaciais da frica                  423



dos processos na interface gua-ar, os quais regem as trocas de calor, umidade
e energia.
   Estas consideraes preliminares mostram que a climatoestratigrafia do
Ouaternrio foi uma etapa, uma aproximao necessria, que gradualmente d
lugar  procura de uma compreenso dos mecanismos implicados em situaes
bem determinadas, em diferentes escalas de tempo. Por esta razo, examinaremos
aqui diversos exemplos de resultados recentes relacionados  era presente, ao
Holoceno, ao Pleistoceno e ao Plio-Pleistoceno.


    Climatologia atual e recente na frica
   Na frica, o ritmo anual de alternao de uma estao seca e de uma estao
mida na zona intertropical est ligado ao deslocamento da zona de convergncia
intertropical (C.I.T.).
   No recente resumo de J. Maley (1973) e L. Dorize (1974), a C.I.T. representa
o ponto de encontro da mono (ar mido proveniente das regies equatoriais
ou alsio martimo do hemisfrio sul) e o harmat (ar seco do Saara). A C.I.T.,
orientada aproximadamente na direo oeste-leste, desloca-se do sul para
o norte durante a primavera e nos dois primeiros meses do vero e, depois,
do norte para o sul. Esta oscilao sazonal ocorre entre 4 N e 20-23 N. A
superfcie de descontinuidade entre o ar mido e o ar seco eleva-se lentamente
do norte para o sul. A camada mida da mono constitui, no vero, uma delgada
cunha de ar frio em direo ao norte, causando apenas fracas precipitaes. 
necessrio que o ar mido tenha uma espessura de 1200 a 1500 m para que
ocorram precipitaes considerveis. Estas condies s so encontradas de 200
a 300 km ao sul da linha da C.I.T. (L. Dorize, 1974). A posio da C.I.T. varia
muito, no apenas de estao para estao, mas tambm de dia para dia, em
funo do campo de presso de toda a frica e do oceano Atlntico. Como foi
demonstrado por P. Pedelaborde (1970), o impulso originrio do Atlntico sul,
combinado com a atividade da frente polar meridional, representa a principal
fora de deslocamento da zona de convergncia para o norte. O retraimento da
C.I.T. em direo ao sul (em setembro) seria, pois, devido ao enfraquecimento
do anticiclone do Atlntico sul e  influncia do hemisfrio norte. As raras
intervenes do ar boreal, dessecado aps atravessar o Saara, causam apenas
pequenas chuvas nas regies montanhosas do Saara. Ao contrrio, o ar austral,
aps cruzar o oceano, traz umidade potencial.
424                                                     Metodologia e pr-histria da frica



    A atual crise climtica na zona do Sahel deve-se  permanncia da C.I.T. em
uma posio de 3 a 4 mais austral que sua posio mdia. Por outro lado, durante
a dcada mida de 1950-59, a rea do Saara diminuiu. Como demonstrou J.
Maley (1973), a fase mida coincidiu com uma queda das temperaturas mximas
em seus limites meridionais.
    Ora, quanto mais frio o ar polar, mais fortes so as frentes polares e maior  a
sua extenso em direo ao equador. Nesta relao, Maley (1973) distinguiu dois
mecanismos, o dos perodos glaciais e o evidenciado no tempo atual. No primeiro
caso, a rea de inlandsis do hemisfrio norte aumentou consideravelmente,
enquanto que na Antrtida teria variado pouco. A frente polar norte tinha,
ento, uma influncia preponderante, dirigindo a mono para o sul no vero.
A aridificao deu-se, pois, em conjunto com a expanso glacial. Por ocasio
do aumento das temperaturas no Holoceno, antes de 5000-4000 B.P., o centro
da ao polar enfraqueceu. Durante o vero boreal, a regresso da frente polar
norte favorecia a extenso da mono ao norte do equador, ao passo que a frente
polar sul impelia os anticiclones subtropicais em direo ao equador. Durante o
inverno boreal, a frente polar podia novamente estender sua ao sobre o Saara e
causar chuvas. A ocorrncia de chuvas tanto no vero quanto no inverno poderia
explicar o clima mido que prevaleceu no sul do Saara e a retrao do deserto
durante a primeira metade do Holoceno.
    Nos ltimos 5000 anos, a regresso do inlandsis do rtico reduziu a resistncia
da frente polar norte, ao mesmo tempo que o centro de ao antrtica tambm
teve sua fora diminuda. A diminuio conjunta do impulso da mono e da
influncia do ar polar boreal sobre o Saara explicariam, portanto, a progressiva
aridificao do Saara.
    Estes mecanismos meteoro lgicos podem nos ajudar a entender as mudanas
climticas que ocorreram na frica durante o Quaternrio.


      Cronologia e climas nos ltimos 25000 anos
   Os ltimos 25000 anos do Quaternrio (fim do Pleistoceno e do Holoceno)
constituem um exemplo recente, e hoje bem documentado, de um avano glacial
amplo e da subsequente regresso at o interglacial presente. Durante o mesmo
perodo, as regies intertropicais passaram por uma aridez extrema, seguida de
uma fase mida e de nova aridificao. Esta  a nica flutuao climtica que
pode ser estudada em um perodo de alguns sculos ou milnios, permitindo uma
comparao dos elementos do sistema climtico e de suas variaes em inmeras
Quadro cronolgico das fases pluviais e glaciais da frica                                   425



regies do globo, situadas em quase todas as latitudes. Alm disso, para este perodo,
as indicaes fornecidas por polens, diatomceas e fauna idnticos s espcies atuais,
permitem uma quantificao precisa da magnitude das variaes do meio geogrfico.
Ademais, o nvel mdio dos mares  conhecido o bastante para que se possa ter, a
todo momento, uma ideia do volume geral dos gelos e das relaes isotpicas do
oxignio nos principais reservatrios (oceanos, glaciares). (Cf. Morner, 1975.)
    Na frica saariana, desde os primeiros trabalhos baseados na datao por carbono
14 (Butzer, 1961; Monod, 1963; Faure, 1967 e 1969), os estudos mais recentes que
podem servir de base a uma cronologia detalhada das variaes climticas so os de
M. Servant e S. Servant no Chade e no Nger; e de F. Gasse em Afar. Para o leste
da frica, h os trabalhos dos grupos de Van der Zinderen Bakker e Livingstone, de
Richardson, de Williams, de Wickens, e outros. Suas averiguaes so comparveis
s de muitos trabalhos sobre as regies de altas latitudes, em especial os de Velitchko,
Dreimanis, e outros. A regio do oceano Atlntico  conhecida na sua totalidade
atravs do trabalho do grupo CLIMAP1 e de McIntyre, enquanto o hemisfrio sul
 conhecido pelas publicaes de Van der Hammen, Williams, Bowler et alii.
    Para situar a evoluo do clima da frica nos ltimos 25000 anos em uma
perspectiva global, podem-se distinguir vrias etapas cronolgicas.

    De 25000 a 18000 B.P.
    Altas latitudes
   O perodo de tempo compreendido entre 25000 e 18000 B.P. corresponde
ao fim da extenso mxima das calotas glaciais no hemisfrio norte. Esta ltima
extenso da glaciao de Wrm (= Wisconsin = Weichselien = Valdar) cobriu
de gelo uma rea que representa de 90 a 95% daquela ocupada por todas as
glaciaes anteriores do Ouaternrio (Flint, 1971). Trata-se, pois, de um modelo
de glaciao bastante representativo.
   Nas zonas periglaciais, o permafrost (solo permanentemente congelado)
parece ter sido mais extenso que durante as outras glaciaes (Velitchko, 1973 e
1975). Esta grande extenso de permafrost estaria associada, fora dos continentes,
aos gelos marinhos, bastante extensos nos mares do rtico, que contriburam
para uma reduo da evaporao na interface ar-mar.




1    CLIMAP: Climatic LongRange lnterpretation, Mapping and Prediction da Dcada Internacional de
     Explorao Ocenica (IDOE).
426                                                                   Metodologia e pr-histria da frica




figura 16.3 Mapa das isotermas da gua de superfcie do oceano Atlntico em fevereiro, 18000 B.P.
As isotermas em pontilhado so interpretativas. As grandes massas de gelo continental so delineadas por
contornos hachurados; a banquisa permanente por contornos granulados. A linha de costa glacial  traada
para um nvel do mar inferior em 85 m ao atual (segundo Mc Intyre et alii, 1975).



      Oceanos
   Combinado com a reduo da superfcie livre devido aos gelos marinhos,
o abaixamento do nvel mdio dos oceanos, passando de cerca de -50 a cerca
de -100 m, contribuiu para uma reduo suplementar da rea dos oceanos de
aproximadamente 10%. No fim do perodo em considerao, emergiram quase
todas as plataformas continentais.
   Os pesquisadores do grupo CLIMAP (McIntyre et alii, 1974, 1975; Hays
in CLIMAP, 1974, etc.) estabeleceram mapas das temperaturas das guas de
Quadro cronolgico das fases pluviais e glaciais da frica                                  427




figura 16.4 Mapa mostrando diferenas na temperatura da gua de superfcie entre a poca atual a
17000 B.P. (segundo Mc Intyre et alii, 1975). Figura 16.4: inverno; Figura 16.5: vero.
428                                                       Metodologia e pr-histria da frica



superfcie do oceano Atlntico para a poca do mximo glacial (18000 B.P.) (Fig.
3). Comparados com mapas de situaes atuais (que so as de um interglacial),
estes mapas mostram uma mdia geral das diferenas de temperatura de apenas
2,5 entre o mximo glacial e o interglacial presente. Contudo, a distribuio
das diferenas de temperatura mostra um mximo nas latitudes mdias (de 6
a 10 de diferena) e diferenas muito menores (inferiores a 3) nas latitudes
intertropicais (Figs. 4 e 5). Assim, por exemplo, no ponto 50 N 30 W, a
temperatura de superfcie no inverno foi de 7,3 a 12,7 mais baixa em 18000 (ou
17000) B.P. que atualmente. No vero, a diferena caiu de 1,2 a 6,6 (CLIMAP,
1974).
    Em ambos os hemisfrios, a migrao das guas polares foi o fator dominante
nesta fase glacial. No Atlntico norte, as guas polares desceram at 42 N (a
partir de uma posio prxima  atual; em torno de 60 N), causando um rpido
gradiente das temperaturas ao sul do paralelo 42 N, que foi, portanto, o eixo
provvel dos ventos oeste (westerlies) na poca glacial. Ao sul deste limite, o padro
permanece muito semelhante ao atual, mas observa-se que as isotermas, paralelas
s costas da frica, revelam a existncia de . guas relativamente frias, em especial
no inverno, devido a um considervel upwelling (Gardner, Hays, 1975).
    As frentes polares e o eixo dos ventos oeste deslocaram-se mais de 2000 km
em direo ao equador no Atlntico norte, e somente 600 km no Atlntico sul.
No oceano Pacfico, as frentes polares parecem ter-se deslocado muito pouco nos
perodos glaciais. Isto explicaria a diminuio da penetrao da mono no Saara
(cf. Maley, 1973, p. 7-8) e a aridez da zona do Sahel no fim do perodo glacial.

      frica
   Nas regies do Saara meridional e do Sahel, a evoluo geral do clima
nos ltimos 25000 anos mostra uma tendncia muito semelhante das costas
do Atlntico ao mar Vermelho. Este perodo de tempo compreende o fim de
uma fase mida do Pleistoceno superior (que durou de 30000 a 20000 B.P.
aproximadamente) e o comeo de uma fase rida, que findou ao redor de
12000 B.P.
   O estudo de depsitos lacustres na bacia do Chade mostrou que a relao
entre precipitao e evaporao (P/E) foi suficiente para que existissem extensos
lagos de 40000 at 20000 B.P. aproximadamente (M. Servant, 1973). Durante
os oito milnios seguintes, a zona rida estendeu-se, ultrapassando seus limites
atuais em mais de 400 km em direo ao sul.
Quadro cronolgico das fases pluviais e glaciais da frica                    429



   Esta transio de um episdio lacustre a uma poca muito rida  tambm
observvel nos depsitos dos lagos de Afar, onde F. Gasse mostrou a existncia
de trs fases lacustres no Pleistoceno Superior. Entre 20000 e 17000 B.P.,
o ambiente lacustre degenerou e o leito seco do lago Abb foi ocupado por
gramneas (Gasse, 1975).
   Analisando a literatura mais recente, M. Servant (1973) e F. Gasse (1975)
constatam uma evoluo comparvel em outros lagos do leste da frica em
diversas altitudes e latitudes: trabalhos de Richardson, Kendall, Butzer et alii,
Livingstone, sobre os lagos Rodolfo, Nakuru, Naivasha, Magadi, Alberto, etc.

    De 18000 a 12000 B.P.
    Altas latitudes
   Em regies de alta latitude, este perodo corresponde ao fim do mximo
glacial e  desglaciao. As calotas glaciais que cobriam o leste da Amrica
do Norte e a Escandinvia, e que alcanaram sua maior extenso entre 22000
e 18000 B.P., entraram em fuso imediatamente aps este lapso de tempo. A
calota da cordilheira norte-americana alcanou seu mximo somente em torno
de 14000 B.P. e desapareceu em 10000 B.P. aproximadamente. A desglaciao
generalizada iniciou-se, portanto, em 14000 B.P. aproximadamente. No
hemisfrio sul, por outro lado, a calota glacial continental do leste da Antrtida
parece ter variado pouco, enquanto que a do oeste, cuja base se acha abaixo
do nvel do mar, diminuiu consideravelmente (National Academy of Sciences,
Washington, 1975).

    Oceanos
    As imensas superfcies recobertas por gelo marinho certamente desapareceram
com o rpido aumento do nvel do mar que se seguiu  desglaciao. Este
aumento atingiu em mdia 1,5 m/sculo entre 15000 e 12000 B.P., sendo
que nesta ltima data ocorreu provavelmente a metade, seno os dois teros
do aumento. Ao mesmo tempo, as guas polares do Atlntico retomavam s
latitudes mais setentrionais.

    frica
   A grande aridez do perodo compreendido entre 18000 e 12000 B.P.  o
fenmeno mais bem documentado de todos os que abrangeram grandes reas
430                                                  Metodologia e pr-histria da frica



do continente africano.  bem evidenciado nos grficos que mostram a evoluo
dos nveis lacustres do Nger e do Chade (Servant, 1973), do Afar (Gasse,
1975), do Sudo (Williams, 1975; Wickens, 1975), etc. O desaparecimento
da vegetao permitiu que as dunas avanassem devido  ao dos ventos,
de 400 a 800 km em direo ao equador e sobre as plataformas continentais
emergidas. No h dvida de que o Saara, tendo sua rea ampliada, foi durante
vrios milnios uma barreira muito mais hostil ao homem do que o Saara
atual. Esta aridificao parece ter-se generalizado e h vrios indcios de que
as zonas intertropicais sofreram uma relativa dessecao na frica (de Ploey,
Van der Zinderen Bakker et alii, in Williams, 1975) e na sia, principalmente
na ndia (Singh, 1973).
   Tendo revisto recentemente a literatura referente a esta poca rida,
Williams (1975) demonstrou sua extenso excepcional e aproximadamente
sincrnica.

      Bacia do Mediterrneo
   Embora a evoluo do clima durante a ltima glaciao (cerca de 100000
anos atrs) parea bastante complexa na bacia do Mediterrneo (ver p. 413),
achados palinolgicos (Bonatti, 1966) e pedolgicos (Rohdenburg, 1970)
indicam que, no mximo glacial, o clima foi frio e seco. A zona mediterrnea
era ocupada por uma estepe muito seca entre 16000 e 13000 B.P., e crostas
calcrias desenvolviam-se sobre os solos.

      Hemisfrio sul
   Na Austrlia, o estudo dos polens indica que houve uma queda gradual nas
temperaturas at cerca de 18000 ou 17000 B.P., durante o estabelecimento da
seca e a extenso das dunas sobre a plataforma continental emersa (Bowler
et alii, 1975). A glaciao ocupou a Tasmnia e as Snowy Mountains, ao
passo que os lagos do sul da Austrlia secaram ao redor de 16000 B.P.
Temperaturas mais elevadas, indicadas por um aumento na altitude do limite
climtico (timberline), estabeleceram-se por volta de 15000 B.P., mas o novo
preenchimento dos lagos do sul da Austrlia s teve incio aps 11000 B.P.
(Bowler et alii, 1975).
   Van der Hammen (1975) e Williams (1975) mostraram as analogias que
caracterizam os climas de ambos os hemisfrios durante o ltimo mximo glacial
(18000 B.P. aproximadamente). Uma aridez generalizada persistiu durante
Quadro cronolgico das fases pluviais e glaciais da frica                   431



vrios milnios em todas as regies do globo situadas nas baixas latitudes, com
exceo do sudoeste dos Estados Unidos.

    De 12 000 B.P. at o presente
    Altas latitudes
    Este perodo  caracterizado pelo fim da glaciao e por um notvel aumento
das temperaturas, que culminou entre 7300 e 4500 B.P. (o "timo climtico",
ainda denominado na Europa de perodo "Atlntico"). A calota glacial da
cordilheira fundiu-se muito rapidamente e desapareceu em torno de 10000 B.P.;
a da Escandinvia desapareceu logo em seguida (9000 B.P.). Registram-se
flutuaes ntidas e rpidas a intervalos de cerca de 2500 anos (por exemplo, o
resfriamento do Dryas jovem entre 10800 e 10100 B.P.).
    Quanto  glaciao, o norte da Europa atingiu condies comparveis s
que prevalecem no presente ao redor de 8500 B.P., e a Amrica do Norte, ao
redor de 7000 B.P. (Nat. Acad. Sci., 1975). Nessa poca, reduziu-se igualmente
a calota glacial do oeste da Antrtida.

    Oceanos
   O aumento do nvel do mar, que reflete o estado mdio de fuso de todas
as geleiras da Terra, foi ainda bastante rpido entre 12000 e 7000 B.P. (mais
de 1 m/sculo em mdia, mas com uma considervel desacelerao ou queda
ao redor de 11000 B.P.). Os oceanos parecem ter alcanado um nvel muito
prximo do atual a partir de 6000 B.P., e ter oscilado, desde ento, em torno
desse nvel, com uma amplitude que no excedia alguns metros. A essa tendncia
geral superpern-se flutuaes vinculadas a variaes climticas gerais (Morner,
1973).
   As zonas em que a sedimentao marinha foi razoavelmente rpida, zonas estas
estudadas por Wollin e Ericson, tambm nos permitem acompanhar mudanas
na distribuio dos foraminferos e, em especial, a variao da porcentagem do
sinistrgiro Globorotalia truncatulinoides. De acordo com Morner (1973), os
picos das curvas correspondentes poderiam estar em correlao com os picos
das curvas das mudanas climticas registradas atravs de exames isotpicos
dos gelos da Groenlndia, escalas palinolgicas e flutuaes do nvel do mar.
Contudo, chega-se aqui ao limite de preciso do mtodo de datao radiomtrica
e fazem-se necessrias interpolaes lineares entre as datas, levando-se em
considerao as variaes das taxas de sedimentao. Alm disso, a distoro da
432                                                   Metodologia e pr-histria da frica



escala cronolgica do carbono 14 em relao  escala de tempo exige correes
que dificultam a correlao de fenmenos cujos limites se inscrevem no decurso
de um ou dois sculos apenas.

      frica
   Aps a extrema aridez do perodo que se estende de 16000 a 14000 B.P. e
a partir de 12000 B.P., os lagos das regies saarianas, das costas do Atlntico
ao mar Vermelho; expandiram-se de forma notvel. Em quase todas as regies
baixas so observados depsitos lacustres, frequentemente constitudos de
diatomceas.
   No Nger e no Chade, M. Servant (1973) elaborou uma curva contnua
da relao P/E (Fig. 6) com base em um estudo de diferentes tipos de lagos,
levando em conta seu modo de alimentao e sua situao hidrogeolgica e
geomorfolgica.
   Esta curva climtica ilustra as grandes oscilaes que parecem ter um carter
geral: grande extenso dos lagos ao redor de 8500 B.P., retrao ao redor de
4000 B.P. e flutuaes menores aps 3000 B.P. Estas variaes principais
so igualmente observadas nos diversos lagos do Afar, embora com algumas
nuances devidas a seus modos de alimentao (Gasse, 1975) (Fig. 7). Nota-se
uma analogia manifesta entre a curva do Chade e a curva da umidade da zona
continental siberiana.
   O estudo dos demais lagos africanos mostra uma linha geral de evoluo
muito semelhante. Livingstone e Van der Zinderen Bakker julgam haver um
paralelismo estreito entre a evoluo climtica do leste africano e a da Europa.
   A extenso dos lagos do Saara at 8000 B.P. parece estar relacionada a uma
melhor distribuio das chuvas durante o ano e a uma nebulosidade densa o
suficiente para reduzir a evaporao. M. Servant (1973) acredita que a circulao
atmosfrica de ento tenha sido diferente da atual. A presena de vrios nveis
de diatomceas de clima "frio" leva-o a postular possveis intruses de ar polar
sobre o Saara. O mecanismo climtico atual ter-se-ia estabelecido somente a
partir de 7000 B.P.

      Hemisfrio sul
   Bowler et alii situam em 8000 B.P. (Mt. Wilhem) o desaparecimento das
geleiras no norte da Austrlia e na Nova Guin, em concomitncia com o
aumento das chuvas, que apresenta f1utuaes menores. Entre 8000 e 5000
Quadro cronolgico das fases pluviais e glaciais da frica                                            433




figura 16.6 Evoluo relativa da razo pluviosidade/evaporao nos ltimos 12000 anos na bacia do Chade
(13  18 de lat. N). Esta evoluo foi determinada a partir de um estudo comparativo das variaes dos
nveis de diversos lagos, alimentados principalmente por lenis subterrneos, riachos ou rios (segundo M.
Servant, 1973, p. 40-52).
434                                                                       Metodologia e pr-histria da frica




figura 16.7 Variaes dos nveis lacustres nas bacias do Afar. As curvas relativas aos lagos Abh, Hanl-
-Dobi e Asal, situados no Afar central, esto representadas no mesmo grfico. A do lago Afrera  independente.
Pode-se estabelecer comparao com a curva de oscilao de P/E na bacia do Chade (segundo F. Gasse, 1975).
Quadro cronolgico das fases pluviais e glaciais da frica                    435



B.P., a temperatura mdia teria sido 1 ou 2 mais elevada que a atual. O timo
climtico (Hipsotrmico) teria um valor global; a floresta de zona quente e mida
(rain forest) desfrutou, entre 7000 e 3000 B.P., das condies de desenvolvimento
mais favorveis (desde o interglacial precedente, 60000 anos antes). Da mesma
forma, os lagos do sul da Austrlia, secos em 15000 B.P., comearam a ser
preenchidos em 11000 B.P., atingindo altos nveis em 8000 e 3000 B.P.
    Retrao pouco antes de 7000 B.P., nova expanso em torno de 6500 B.P.:
 provvel que o aumento da temperatura e da umidade nas zonas de baixa
latitude seja um fenmeno geral durante a primeira metade dos ltimos 12000
anos, e que tenha conduzido s condies caractersticas do interglacial presente.

    Cronologia climtica dos ltimos 25000 anos: concluso
    Este perodo nos apresenta um quadro da evoluo climtica quando do
mximo glacial (ao fim de um perodo glacial) e durante uma desglaciao que
levou a um interglacial (o presente).
    Este modelo de meio-ciclo de desglaciao mostra uma aridez generalizada
que se estende por cerca de 5000 anos na frica, caracterizando o fim de uma
glaciao seguida de uma fase mida de durao comparvel, flutuante, mas que
retorna gradualmente a um estgio rido.
    Estas pulsaes climticas podem ser explicadas, numa escala de tempo
de 20000 anos, pelo deslocamento das frentes polares e seus efeitos na frente
intertropical (FIT) e pelos dois tipos extremos de circulao, rpida ou lenta.
     tambm provvel que este modelo seja representativo de outras
situaes comparveis e de mesma escala no Quaternrio, isto , de durao
e amplitude anlogas. Entretanto, cabe no extrapol -lo para todo um
perodo glacial de 100000 anos de durao, ou a fortiori para o conjunto
das glaciaes do Quaternrio, que cobre um perodo de vrios milhes de
anos. Por esta razo, examinaremos agora a cronologia de um perodo glacial
como um todo.


    Cronologia e climas nos ltimos 130000 anos
   Os ltimos 130000 anos (ou Pleistoceno Superior) permitem o estudo de
um modelo climatoestratigrfico na escala de tempo de um perodo glacial
interglacial completo. A cronologia deste perodo ultrapassa de muito o
alcance da datao por radiocarbono, que possibilitou estabelecer uma sucesso
436                                                     Metodologia e pr-histria da frica



relativamente precisa (com a preciso de sculos ou de milnios aproximados)
dos ltimos 25000 anos. Contudo, o intervalo de tempo que corresponde ao
ltimo grande interglacial (eemiense, anterior ao atual) e  ltima grande
glaciao (Wrm = Wisconsin = Weichselien = Valda)  relativamente bem
conhecido, com uma preciso cronolgica da ordem de 10 ou 20% para o
perodo mais remoto.
    De fato, nos oceanos e bacias sedimentares obtm-se dados cronolgicos
adicionais pela extrapolao das velocidades de depsito conhecidas e pela
aplicao dos mtodos do desequilbrio do urnio e do potssio-argnio no
limite superior de seu alcance. A interpolao linear entre os pontos datados
de uma sequncia contnua fornece uma cronologia aproximada. Contudo, no
se podem fazer, com suficiente preciso, correlaes de grande distncia entre
eventos que no ultrapassaram alguns milnios. Logo, so principalmente as
tendncias gerais de perodo mdio (10000 anos) que tero melhor definio e
que podero ser comparadas de uma regio a outra.

      Comparao entre regies
      Altas latitudes
   A vegetao do interglacial eemiense indica que, durante as fases mais
quentes desse interglacial (entre cerca de 125000 e 80000 B.P.), a temperatura na
Eursia e na Amrica do Norte era bastante semelhante  do perodo "Atlntico"
(entre 7000 e 5000 B.P.), isto , pouco diferente da atual. Estes dois interglaciais
ocorreram subitamente aps uma queda considervel das temperaturas (ltimo
estgio muito frio do Riss: 135000 B.P., e ltimo estgio muito frio do Wrm:
20000 B.P.).

      Oceanos
   As variaes do nvel dos oceanos registram de maneira bastante clara os
dois mximos glaciais, caindo consideravelmente (-110 m 20 para o segundo
mximo em torno de 20000-18000). Os nveis mais altos alcanados durante
o interglacial eemiense e o presente so comparveis entre si (com um desvio
de 5%). As elevaes do nvel do mar durante os interestadiais (45000 e 30000
B.P.) podem ter alcanado entre 60 e 80% da elevao mxima (o Inchiriense
na Mauritnia, por exemplo). Elas confirmam a fuso de uma massa de gelo
equivalente durante o interestadial.
Quadro cronolgico das fases pluviais e glaciais da frica                      437



    frica
   Como no caso dos oceanos, a repercusso dos fenmenos glaciais
provavelmente atenuou-se na direo das latitudes intertropicais. As diferenas
entre as temperaturas de um estgio glacial e de um estgio interglacial, de 5
a 10o nas mdias latitudes, podem ter sido de 2 a 3o apenas entre os trpicos.
Os efeitos da glaciao na distribuio e quantidade de chuvas constituem o
fenmeno mais facilmente observvel na frica.
   Poucas regies da frica possuem uma cronologia radiomtrica bem
estabelecida para os ltimos 130000 anos. No entanto, atravs de sondagens no
lago Abb, F. Gasse (1975) pde distinguir trs estgios lacustres no Pleistoceno
superior, antes da aridificao de 20000 a 14000 B.P., a saber: o perodo que se
estende de 30000 a 20000 B.P. (clima tropical temperado mido), separado de
uma outra extenso lacustre  ocorrida por volta de 40000 a 30000 B.P.  por
uma considervel regresso ao redor de 30000 B.P. O estgio lacustre mais antigo
dataria de 50000 a 60000 B.P. (ou talvez de 60000 a 80000?), correspondendo a
um perodo mais frio acusado pelas diatomceas.
   Uma outra indicao de variao climtica de datao incerta no Pleistoceno
Superior foi obtida por meio de um estudo de polens no vale superior do Awash
(Afar), onde R. Bonnefille (1973, 1974) distinguiu um clima nitidamente mais
mido que o presente, talvez mais frio, caracterizado por uma vegetao estpica
de planalto.

    Bacia do Mediterrneo
   Situada entre as duas zonas geogrficas acima estudadas, a bacia do
Mediterrneo constitui um importante domnio climtico, cuja evoluo parece
complexa. As glaciaes, em particular, no mais podem ser consideradas como
causa nica do estabelecimento de um clima mido na regio.
   Analisando os estudos palinolgicos, micropaleontolgicos e isotpicos
realizados no Mediterrneo oriental, na Grcia e em Israel (Emiliani, 1955;
Vergnaud-Grazzini e Herman-Rosenberg, 1969; Wijmstra, 1969; Van der
Hammen, 1971; Rossignol, 1969; Issard, 1968; Issard e Picard, 1969), Farrand
(1971) chega  concluso de que a queda da temperatura durante a ltima glaciao
pode ter sido de 4o no ar, e de 5 a 10o no mar. Na Grcia, a seca foi mais acentuada
durante o perodo glacial, ao passo que o inverso ocorreu nas costas de Israel.
   Por outro lado, o estudo de microrrestos de mamferos (roedores) (Tchernov,
1968, in Farrand, 1971) parece indicar uma evoluo gradual de condies
438                                                                     Metodologia e pr-histria da frica




figura 16.8 Mapa das localidades fossilferas do Plio-Pleistoceno da frica oriental. Legenda: M, Mursi;
U, Usno; S, Shungura, formaes da bacia inferior do Orno; I, Ileret; KF, Koobi Fora, setores ocidentais do
lago Rodolfo; L, Lothagan; K/E, Kanapoi e Ekora, da bacia hidrogrfica do baixo Kerio; C, Chermeron; CH,
Chesowanja, localidades da bacia do Baringo; K, Kanam, golfo de Kavirondo; P, Peninj, bacia do Natron;
OG, Garganta de Olduvai; LA, Laetolil, plancie de Serengeti. Mapa bsico 1:4000000, Geologia da frica
Oriental (Qunia) (segundo F. Clark Howell, 1972).
Quadro cronolgico das fases pluviais e glaciais da frica                                           439




figura 16.9 Cronologia radiomtrica e paleomagntica do Plioceno/Pleistoceno da frica oriental, do
sudoeste da Europa e do noroeste da Amrica. As importantes sucesses fornecidas pelas medies efetuadas
nas reas de Ileret e Koobi Fora (setor oriental do lago Rodolfo) ainda esto sendo estudadas. As colunas
correspondentes foram deixadas em branco (segundo Clark Howell, 1972).
440                                                  Metodologia e pr-histria da frica



midas para condies ridas durante os 80000 ltimos anos. Ao redor de
20000 B.P., o nvel do lago Lisan (Israel) baixou 190 m em 1000 anos, em
consequncia de um dessecamento (combinado a movimentos tectnicos do
rift do mar Morto) e, como vimos, o fim da extenso mxima do frio wrmiano
corresponde a condies frias e ridas em toda a bacia do Mediterrneo.
    Como na frica, a complexidade da situao geoclimtica da bacia do
Mediterrneo requer ainda estudos muito detalhados, no sentido de precisar
sua evoluo climtica no Wrm.

      Cronologia e climas nos ltimos 130000 anos: concluso
    O ltimo perodo glacial nos apresenta um modelo de ciclo climtico
completo na escala de 100000 anos (interglacial-glacial-interglacial), com
flutuaes interestadiais e estadiais de durao da ordem de 10000 anos.
Na frica, esse perodo se caracterizou por extenses lacustres (de durao
comparvel) separadas por estdios de dessecao.
    No estado atual dos nossos conhecimentos, a datao no  suficientemente
exata para permitir uma correlao confivel entre estdios frios ou quentes e
estdios midos ou secos na frica. Espera-se que as pesquisas em andamento,
baseadas em cortes e sondagens que apresentam uma sucesso contnua de
eventos, permitam responder a esta questo no futuro.


      Cronologia e climas nos ltimos 3500000 anos
   A lenta tendncia ao resfriamento, caracterstica do Quaternrio, comeou h
aproximadamente 55 milhes de anos ("Cenozoic climatic decline") (National
Academy of Sciences, 1975). A calota glacial da Antrtida, que j se formara h
cerca de 25 M.A., expandiu-se consideravelmente h cerca de 10 M.A. e depois,
novamente, h cerca de 5 M.A., quando praticamente atingiu seu volume atual.
A calota do rtico, que se estendeu sobre os continentes prximos do Atlntico
norte, surgiu h cerca de 3 M.A. O primeiro grande resfriamento dos oceanos
teve incio h cerca de 1,8 M.A. (Bandy, in Bishop e Miller, 1972), pouco antes
da base do estgio marinho Calabriano, este quase simultneo ao evento de
Gilsa (1,79 M.A.).
   Na frica, vrias regies (Chade, leste da frica, etc.) revelaram uma rica
fauna de vertebrados, de incio atribuda ao Villafranchiano (entre 3,3 e 1,7
ou 1 M.A.). Certas associaes de mamferos implicam condies muito mais
Quadro cronolgico das fases pluviais e glaciais da frica                                    441



midas que as que caracterizam o ambiente atual dos depsitos. Foram, portanto,
consideradas como caractersticas dos "pluviais" da frica.
   As estratigrafias mais detalhadas, baseadas nas dataes pelo potssio-
-argnio e paleomagnticas, so as dos depsitos do rift leste-africano. Neste
tipo de preenchimento sedimentar,  mais difcil perceber o efeito do clima que
o das atividades tectnicas e vulcnicas e as mudanas topogrficas que elas
acarretam; por esse motivo, os autores atuais tm abandonado a tentativa de
estabelecer uma sucesso climtica detalhada. Por outro lado, a cronoestratigrafia
est bem estabelecida e constitui uma referncia mundial.
   Nos diversos depsitos de vertebrados e homindeos da frica oriental (Figs.
8 e 9), as sucesses sedimentares datadas so as seguintes:
               Omo (Etipia): a formao de Shungura, com cerca de 1000 m de espessura,
                estende-se de 3,2 a 0,8 M.A., a formao de Usno, de 3,1 a 2,7 M.A.
                (segundo de Heinzelin, Brown e Howell, 1971; Coppens, 1972; Bishop e
                Miller, 1972; Howell, 1972; Brown, 1972, 1975). Um estudo de plens da
                formao de Shungura revelou uma importante mudana climtica para
                condies mais secas h aproximadamente 2 M.A., com o desenvolvimento
                de uma savana de gramneas (Bonnefille, 1973, 1974). Esta mudana 
                confirmada pelo estudo da fauna. Poder-se-ia sugerir que fosse comparada
                a um estdio do resfriamento mundial dos oceanos (1,8 M.A.).
               Olduvai (Tanznia): a sucesso das formaes clssicas e sua cronologia 
                a seguinte:

                                                                                 0,032 M.A.
                     Ndutu                                   Beds
                                                                                 0,4 M.A.
                                                             Beds                0,6 M.A.
                     Masen
                                                             Beds IV             0,8 M.A.
                                                             Bed III             1,15 M.A.
                     Kanjeriano inferior
                                                             Bed II              1,7 M.A.
                     Kamasiano inferior                      Bed I               2,1 M.A.
               (segundo Leakey, Cook e Bishop, 1967; Howell, 1972; Hay, 1975).

               East Rudolf (Qunia): a estratigrafia resumida na Fig. 10, estabelecida por
                Brock e Isaac (1974), diz respeito a 325 m de depsitos acumulados em um
                perodo que se estende de cerca de 3,5 a 1,5 M.A. (segundo Bowen, Brock
                e Vondra, 1975).
442                                                                     Metodologia e pr-histria da frica




figura 16.10 Cronologia e ritmo da evoluo das civilizaes durante o Pleistoceno, com relao  evoluo
dos homindeos (W. W. Bischop e J. A. Miller, 1972, p. 381-430, fig. 9; segundo G. L. Isaac). Os principais
horizontes culturais esto relacionados a uma escala de tempo logartmica. As datas ou sries de datas
particularmente bem determinadas esto assinaladas por smbolos em trao grosso.
Quadro cronolgico das fases pluviais e glaciais da frica                                             443




figura 16.11 Tendncias gerais do clima global para o ltimo milho de anos. (a) Mudanas da mdia
quinquenal das temperaturas de superfcie, na regio 0o-80o N durante os ltimos 100 anos (Mitchell, 1963).
(b) ndice do rigor do inverno na Europa oriental durante os ltimos 1000 anos (Lamb, 1969). (c) Tendncias
gerais da temperatura do ar nas latitudes mdias do hemisfrio norte durante os ltimos 15000 anos, com
base na altitude mxima das rvores (La Marche, 1974), nas flutuaes marginais das geleiras alpinas e
continentais (Denton e Karlen, 1973), e nas mudanas dos padres de vegetao registradas pelos espectros
de plen (Van Der Hammen et alii, 1971). (d) Tendncias gerais da temperatura do ar no hemisfrio norte
durante os ltimos 100000 anos, com base nas temperaturas das guas de superfcie nas latitudes mdias, nos
registros de plens e nos registros do nvel dos mares. (e) Variaes no volume global dos gelos durante o
ltimo milho de anos, com base nas mudanas da composio isotpica do plncton fssil nos testemunhos
de fundo do mar V 28-238 (Shackleton e Opdyke, 1973).
444                                                     Metodologia e pr-histria da frica



           Hadar, Afar central (Etipia): finalmente, as formaes de Hadar (Afar
            central), que encerram homindeos e grande quantidade de fsseis, e que
            foram estudadas pela Expedio Internacional de Pesquisa de Afar (IARE),
            teriam aproximadamente 3 M.A., segundo Johanson e Taieb e outros (1974,
            1975).
    Em poucos anos, o trabalho ativamente empreendido nestas regies da
frica oriental possibilitar o estabelecimento de um novo modelo de evoluo
climtica, baseado na sedimentologia e na ecologia vegetal e animal e tendo em
conta a interveno de fatores tectnicos e vulcnicos.
    Outras regies da frica, tais como o Saura (Alimen et al., 1959; Alimen,
1975), o vale do Nilo (Wendorf, 1968; Butzer e Hansen, 1968; de Heinzelin,
1968; Giegengak, 1968; Said, no prelo), o Chade (Coppens, 1965; Servant, 1973)
e a frica do norte, foram objeto de intensos estudos. As variaes climticas
propostas baseiam-se na sucesso de depsitos e escavaes fluviais ou nas
sucesses de faunas de mamferos. Devido  falta de uma datao radiomtrica
ou magnetoestratigrfica, ainda no  possvel correlacionar estas variaes com
as flutuaes glaciais europeias.


      Concluso
    O Cenozoico superior caracteriza-se, nos ltimos 5 milhes de anos, pela
acentuao dos gradientes trmicos do globo, ligada a grandes mudanas
climticas no decorrer do tempo. Esta acentuao provocou, nas altas latitudes,
considerveis variaes de temperatura, responsveis pelos perodos glaciais
e interglaciais. Nas latitudes intertropicais, as flutuaes trmicas foram
relativamente atenuadas, mas as circulaes atmosfricas, perturbadas pelo
fortalecimento ou enfraquecimento das frentes polares, provocaram variaes
considerveis na distribuio e quantidade de chuvas, que contriburam para
mudar profundamente o ambiente das diferentes zonas climticas. Modificando
periodicamente o meio geogrfico e vegetal, cenrio em que vive a fauna e se
desenvolvem os hornindeos, estas variaes climticas estabelecem o ritmo
da histria da evoluo da frica de forma mais discreta que as glaciaes na
Europa.
    O que se deve reter dessa breve anlise do estado atual dos conhecimentos
sobre a cronologia e as mudanas climticas na frica  a necessidade de dar
prosseguimento aos trabalhos de observao e mediao antes de cristalizar
as informaes dispares de que dispomos na rgida estrutura de uma teoria.
Quadro cronolgico das fases pluviais e glaciais da frica                445



Por outro lado, percebe-se a importncia da escala de tempo das diferentes
manifestaes de mudana climtica. Deve-se ter o cuidado de colocar cada
observao e cada fenmeno na escala de tempo adequada. Isto  ilustrado, a
ttulo de concluso, pela Fig. 11, extrada da publicao da National Academy
of Sciences, Washington (1975), em que so apresentados cinco exemplos de
variaes climticas para escalas de tempo que vo de um sculo a milhes de
anos.
A hominizao: problemas gerais                                                                  447



                                     CAPTULO 17


            A hominizao: problemas gerais
                      PARTE I
                                             Y. Coppens




    Os dados paleontolgicos
   O homem  um mamfero, mais exatamente, um mamfero placentrio1.
Pertence  ordem dos Primatas.

    Critrios paleontolgicos
   Os primatas diferenciam-se dos outros mamferos placentrios pelo
desenvolvimento precoce do crebro, pelo aperfeioamento da viso, que se
torna estereoscpica, pela reduo da face, pela substituio das garras por unhas
chatas, e pela oposio do polegar aos outros dedos. Os primatas classificam-
-se em prossmios e smios. O homem pertence a este segundo grupo, que se
caracteriza por um aumento da estatura, pelo deslocamento das rbitas na face
e consequente melhoria da viso, e pela independncia das fossas temporais.
   Uma repentina proliferao de formas ocorre entre esses smios no Oligoceno
Superior, h cerca de 30 milhes de anos, o que leva a supor que a diferenciao
da famlia Hominidae poderia datar dessa poca. Para poder escrever a histria


1   Os mamferos representam a mais evoluda das cinco classes de vertebrados. Os mamferos placentrios
    so os mais evoludos dentre os mamferos; dispem de um novo rgo, a placenta, destinado  respirao
    e nutrio do feto.
448                                                                      Metodologia e pr-histria da frica



desses homindeos, devemos pesquisar, portanto, entre os fsseis de smios
dos ltimos 30 milhes de anos, cujas tendncias evolutivas se orientam para
os traos que caracterizam o gnero Homo, ao qual pertencemos: locomoo
sobre os membros posteriores com as consequentes transformaes dos ps, das
pernas, da bacia, da orientao do crnio, das propores da coluna vertebral;
desenvolvimento da caixa craniana; reduo da face; arredondamento da arcada
dentria; reduo dos caninos; curvatura do palato, etc.
   O Propliopithecus do Oligoceno Superior apresenta alguns discretos sinais
dessas tendncias, o que explica o entusiasmo sem dvida prematuro de certos
autores, em consider-lo como pertencente ao nosso gnero.
   As tendncias observadas no Ramapithecus so mais relevantes: seu crebro
parece ter atingido 400 cm, o tamanho da face  reduzido, a arcada dentria
 arredondada, e os incisivos e caninos, tambm reduzidos, esto implantados
verticalmente. Um outro primata, o Oreopithecus, de quem conhecemos o
esqueleto completo, apresenta essas mesmas caractersticas cranianas e uma bacia
de bpede ocasional. Podemos supor, portanto, que o esqueleto ps-craniano2
do Ramapithecus, que ainda no conhecemos, possa apresentar tambm esses
primeiros indcios de adaptao  postura ereta.
   Por outro lado, as tendncias evolutivas do Australopithecus no deixam
margem a dvidas. Esses bpedes permanentes tm ps humanos, mos
modernas, crebro com ntido aumento de volume, caninos pequenos e face
reduzida. No podemos deixar de consider-los homindeos.
   O gnero Homo, fim da cadeia, distingue-se dos Australopithecus por aumento
da estatura, melhoria na postura ereta, crescimento do volume do crebro, que, a
partir da espcie mais antiga, pode atingir 800 cm, e transformao da dentio
com maior desenvolvimento dos dentes anteriores em relao aos laterais, em
consequncia da mudana do regime alimentar, de vegetariano para onvoro.
   Vemos que o trabalho do paleontlogo  um estudo de anatomia comparativa
e dinmica ao mesmo tempo. Sabendo que a evoluo parte sempre do mais
simples para o mais complexo e do indiferenciado para o especializado, precisa
encontrar fsseis que sejam suficientemente semelhantes mas tambm, levando
em conta a idade geolgica, suficientemente diferentes do homem, cujos
ancestrais ele est procurando.
   Os mais antigos primatas so os prossmios, grupo hoje representado pelos
lmures de Madagscar, os tarsdeos das Filipinas e da Indonsia e pelo pequeno
galago da frica tropical.


2     Esqueleto ps-craniano  o conjunto do esqueleto menos o crnio.
A hominizao: problemas gerais                                                                           449



    A partir do Eoceno3, os smios se dividiram em dois grandes grupos: os
platirrinos4 ou macacos do Novo Mundo, que tm um septo nasal largo e 36
dentes, e os catarrinos ou macacos do Velho Mundo, que tm um septo nasal
estreito e 32 dentes.
    Os catarrinos, por sua vez, dividiram-se em um certo nmero de famlias:
Cercopithecidae, Pongidae, Hominidae, Hylobatidae, Oreopithecidae, Silvapithecidae,
Gigantopithecidae, etc.

    Entre 20 e 40 milhes de anos atrs
    A falta de evidncias torna difcil saber o que se preparava no Eoceno e no
Oligoceno, entre 20 e 40 milhes de anos atrs.
    Entretanto o Faium, jazida muito rica situada a algumas dezenas de
quilmetros ao sul do Cairo, revelou s vrias expedies que ali foram pesquisar
uma incrvel variedade de primatas: o Parapithecus, o Apidium, o Oligopithecus, o
Propliopithecus, o Aeolopithecus, o Aegyptopithecus.
    O Parapithecus e o Apidium tm, como caracterstica interessante trs pr-
-molares, isto , possuem 36 dentes, como os prossmios e os macacos do Novo
Mundo, os platirrinos. Um terceiro gnero, com morfologia semelhante, o
Amphipithecus da Birmnia, completa o grupo. Entretanto muitos outros traos
assemelham esses primatas aos catarrinos, caracterizados por 32 dentes. So,
portanto, ancestrais dos catarrinos, ou protocatarrinos.
    Assim, o nosso primeiro olhar para o passado revela uma espcie de estgio
introdutrio dos pr-homindeos, o protocatarrino com 36 dentes, representado
por aqueles trs tipos, Parapithecus, Amphipithecus e Apidium.
    O Oligopithecus, o Propliopithecus, o Aeolopithecus, o Aegyptopithecus tm dois
pr-molares. So catarrinos propriamente ditos com 32 dentes.
    O Oligopithecus, pequeno primata de 30 cm de altura, tem molares de tipo
primitivo;  considerado ancestral dos cercopitecides e  o mais antigo dos
primatas conhecidos com 32 dentes.
    O Aeolopithecus tem caninos enormes e molares com cspides
independentes; poderia ser o predecessor dos gibes. O Pliopithecus do


3   Lembramos que o tempo geolgico se divide em perodos: Primrio, Secundrio, Tercirio e Quaternrio.
    Os primatas que aparecem no fim do Secundrio, h 70 milhes de anos, desenvolvem-se durante o
    Tercirio e o Quaternrio. O Tercirio se divide em cinco grandes pocas, que so, da mais antiga  mais
    recente: Paleoceno, Eoceno, Oligoceno, Mioceno e Plioceno. O Quaternrio compreende apenas duas
    pocas, o Pleistoceno e o Holoceno.
4   Anexo a este captulo h um glossrio com o significado dos diversos termos cientficos utilizados.
450                                                                 Metodologia e pr-histria da frica




figura 17.1 Reconstituio do meio ambiente do Faium h 40 milhes de anos. Desenhos de Bertoncini-
-Gaillard sob a direo de Yves Coppens (Exposio "Origens do Homem", Museu do Homem, set. 1976-abr.
1978; Foto Y. Coppens. Col. Museu do Homem).
Figura 17.2   Depsitos eocnico e oligocnico do Faium, Egito (Col. Museu do Homem. Foto Elwyn
Simons).
A hominizao: problemas gerais                                                                        451



Mioceno da Europa e o Limnopithecus do Mioceno do Qunia e de Uganda
assemelham-se a ele.
    O Aegyptopithecus tambm tem grandes caninos e pr-molares heteromorfos5.
 o ancestral do Dryopithecus encontrado em todo o Velho Mundo, e
provavelmente tambm dos chimpanzs.
    O Propliopithecus tem caninos mais frgeis e um primeiro pr-molar inferior
com uma cspide proeminente e outra parcialmente desenvolvida, o que se
considera como prenncio da homomorfia dos dois pr-molares inferiores,
caracterstica dos homindeos. Seria esse o ancestral do grupo ou, mais
modestamente, o ancestral comum aos grandes macacos e aos homens, ou j
seria um pongdeo?
    Qualquer que seja a relao de parentesco entre esses primatas, o interessante
do perodo est em mostrar que, h 30 milhes de anos, havia no nordeste da
frica uma grande variedade de pequenos primatas prenunciando todos os
que existem hoje: Cercopithecidae, Pongidae, Hylobatidae e Hominidae. As linhas
fundamentais estavam traadas.

    Entre 10 e 20 milhes de anos atrs
   Outros progressos aconteceram nesse perodo. No Qunia e em Uganda,
L.S.B. Leakey descobriu os restos de um pequeno primata, Kenyapithecus
africanus, que classificou como homindeo. Esse pequeno primata de 20 milhes
de anos tem a arcada dentria arredondada, os dentes laterais6 superiores
divergentes e prognatismo7 fraco; seus incisivos e caninos esto implantados
verticalmente, e as coroas de seus pr-molares e molares so baixas. Muitos
autores, porm, encontraram nele caractersticas dos grandes macacos. No
Qunia, em Fort Ternan, Louis Leakey encontrou tambm o que considera uma
outra espcie do mesmo gnero, Kenyapithecus wickeri, datada de 14 milhes de
anos. Outros autores, baseando-se em outras caractersticas ou interpretando de
modo diferente as caractersticas descritas, classificam ainda esse primata como
Pongidae. Leakey, todavia, apresentou a favor de seu novo candidato argumentos

5   Os pr-molares e os molares tm coroas divididas por sulcos em pequenas protuberncias chamadas
    cspides. Nos grandes macacos (pongdeos), o primeiro pr-molar inferior assemelha-se a um canino,
    apresentando apenas uma cspide. Nos homindeos esse dente se assemelha ao segundo pr -molar,
    tendo duas cspides. No primeiro caso, falamos de heteromorfia dos pr-molares, e, no segundo, de
    homomorfia.
6   Chamamos dentes laterais os pr-molares e os molares.
7   Prognatismo quer dizer "maxilas para a frente". Significa a projeo de toda a face ou da parte da face
    abaixo do nariz.
452                                                    Metodologia e pr-histria da frica



de peso, ou seja, argumentos culturais. No Congresso Pan-Africano de Dacar,
em 1967, exibiu pedras de basalto cujos gumes naturais mostravam traos de uso.
Em 1971, em Adis Abeba, declarou que a maior parte das ossadas de animais
descobertas em associao com o Kenyapithecus wickeri tinha sido quebrada
artificialmente. , sem dvida, impressionante imaginar esse pequeno primata
africano escolhendo pedras pontiagudas ou cortantes para preparar seu alimento.
Teoricamente, pelo menos, isso no  impossvel.
    Desde 1934, conhecemos um outro primata, Ramapithecus puniabicus,
descoberto nas formaes miopliocnicas do norte da ndia e do Paquisto e
que tambm tem de 8 a 14 milhes de anos. Simons de Yale o reexaminou e
associou a ele restos atribudos ao Bramapithecus. O Ramapithecus punjabicus 
um pequeno primata que pesa entre 18 e 36 quilos. Sua face curta, sua mandbula
macia com ramo ascendente vertical, a implantao vertical de seus caninos
em processo de reduo e de seus pequenos incisivos, o nascimento tardio de
seus molares e a homomorfia de seus pr-molares inferiores levaram muitos
autores, mas nem todos, a classific-lo como um homindeo. Simons, inclusive,
associou esse fssil indiano ao Kenyapithecus da frica oriental e a algumas
descobertas isoladas da China e da Europa, como evidncias para se estabelecer
uma rea pr-homnida miocnica abrangendo todo o Velho Mundo. Alis,
ele no estava enganado, pois as pesquisas realizadas nesses trs ltimos anos
levaram  descoberta desse Ramapithecus na Turquia (L. Tekkaya) e na Hungria
(M. Kretzoi), ao mesmo tempo que novos documentos paquistaneses (expedio
D. Pilbeam) forneciam numerosas informaes sobre esse primata.
    Um enorme primata, o Gigantopithecus, foi encontrado na China e na ndia.
Chama-se Gigantopithecus blacki na China e Gigantopithecus bilaspurensis na ndia,
onde sua idade  estimada em alguns milhes de anos. Tem incisivos pequenos e
caninos no muito grandes, mas que no so homnidas; seu primeiro pr-molar
inferior tem duas cspides; seus dentes laterais so grandes, fortes e mostram um
desgaste considervel; sua face  curta e sua mandbula possante tem um ramo
ascendente longo e vertical. Mas, hoje, praticamente todos os autores o rejeitam
como possvel ancestral do homem. Pesquisas realizadas na Grcia sob a direo
de L. de Bonis descobriram um primata de 10 milhes de anos, o Ouranopithecus
macedoniensis, que poderia ser o ancestral do Gigantopithecus.
    Para terminar, relacionaremos um outro primata, o Oreopithecus que,
h 12 milhes de anos, balanava-se nos galhos das florestas da Toscana, e
provavelmente tambm do Qunia, Descoberto em 1872 por Gervais, foi
descrito por um excelente paleontlogo suo, Johannes Hrzeler, que retomou
as escavaes em Grossetto, na Toscana, e teve a sorte de encontrar um esqueleto
A hominizao: problemas gerais                                                                     453



praticamente inteiro de Oreopithecus bambolii. Este tem uma face curta; os ossos
do nariz so salientes em relao ao perfil facial; os incisivos e caninos so
pequenos; o primeiro pr-molar inferior  bicspide; a bacia  a de um bpede,
mas os membros anteriores so extremamente longos. O Oreopithecus talvez
seja um pequeno homindeo; em todo caso,  um primata braquial8, adaptado
 vida nas florestas.
    Kenyapithecus africanus, Kenyapithecus wickeri, Ramapithecus puniabicus,
Gigantopithecus blacki, Gigantopithecus bilaspurensis, Oreopithecus bambolii: o
importante no momento no  saber quem  o ancestral de quem. Alis, vrias
linhagens esto representadas aqui. Mas, com esses quatro gneros do Mioceno e
do Plioceno, vem-nos a imagem de um primata que, vivendo na floresta, parece,
pela primeira vez, ir procurar parte de seu alimento em zonas abertas, em torno
dos lagos e nas margens dos rios. Novos modos de vida vo evidentemente surgir
com essa sada da floresta. E, ao mesmo tempo, vai se caracterizar uma reduo
no tamanho dos dentes anteriores, uma reduo facial e a tendncia do primeiro
pr-molar a duplicar sua cspide inicial, j no mais impedido pelo canino.  o
prenncio da conquista das plancies e, com ela, do bipedismo9.

    Entre 10 e 1 milho de anos atrs
   No Plioceno e no Pleistoceno, entre 10 e 1 milho de anos atrs, encontramo-
-nos na presena de um grupo ao mesmo tempo polimorfo e muito localizado,
os australopitecneos. Um breve histrico de sua descoberta vai-nos permitir,
tambm, delimit-los geograficamente.

    Histrico
    Foi em 1924 que o professor Raymond Dart descreveu e batizou o primeiro
espcime australopitecneo. Tratava-se do crnio de uma criana de cinco a
seis anos, descoberto na brecha de uma caverna de Bechuanalndia (Botsuana)
chamada Taung. A essa descoberta seguiram-se muitas outras, feitas a partir
de 1936 pelos professores R. Broom e J. Robinson, e depois pelos professores
Dart e P. Tobias em quatro cavernas do Transvaal: Sterkfontein, Swartkrans e
Kromdraai, perto de Joanesburgo, e Makapansgat, perto de Potgietersrus.


8   A braquiao  um modo de locomoo arborcola que consiste em se deslocar de galho em galho
    suspenso pelos membros anteriores.
9   O bipedismo  um modo de locomoo terrestre que consiste em se deslocar, em postura ereta, sobre os
    dois membros posteriores.
454                                       Metodologia e pr-histria da frica




figura 17.3   Os dados paleontolgicos.
A hominizao: problemas gerais                                                                    455




figura 17.4 Garganta de Olduvai, Tanznia, escavaes de Louis e Mary Leakey (Foto Y. Coppens. Col.
Museu do Homem).
Figura 17.5 Crnio de Australopithecus africanus. Da direita para a esquerda, perfil de criana (Taung,
Botsuana) e de adulto (Sterkfontein, Transvaal), (Foto Y. Coppens. Col. Museu do Homem).
456                                                   Metodologia e pr-histria da frica



    Em 1939, o professor alemo L. Kohl Larsen descobriu em Garusi ou
Laetolil, a nordeste do lago Eyasi, na Tanznia, um maxilar de Australopithecus,
estendendo a rea de distribuio desses homindeos at a frica oriental. Os
trabalhos nesse local foram retomados por Mary Leakey com muito sucesso, pois
ela descobriu uma srie bastante interessante de homindeos fsseis relacionados
provavelmente com os australopitecneos.
    Em seguida, vieram os clebres trabalhos da famlia Leakey na garganta de
Olduvai, na Tanznia. De 1955 para c, os Leakey descobriram aproximadamente
setenta espcimes relacionados a homindeos, alguns notveis.
    Em 1964, R. Leakey e G. Isaac acrescentaram uma terceira jazida aos stios
paleontolgicos da Tanznia ao encontrar uma mandbula de australopiteco
perto do lago Natron. Em seguida, as descobertas deslocaram-se para o norte.
    Em 1967, uma expedio internacional retomou a explorao das jazidas
paleontolgicas na margem ocidental do baixo vale do rio Omo, na Etipia.
Essa expedio era composta por trs equipes: uma francesa, sob a direo dos
professores C. Arambourg e Y. Coppens; uma americana, dirigida pelo Professor
F. Clark Howell; e uma do Qunia, pelo Dr. Leakey e seu filho Richard. Esses
stios paleontolgicos descobertos no incio do sculo por viajantes franceses
haviam sido explorados em 1932-1933 por uma expedio do Museu Nacional
de Histria Natural de Paris, sob a direo de C. Arambourg. No primeiro
ms, a nova expedio teve a sorte de descobrir a primeira mandbula de
australopitecneo desse local. Essa descoberta seria seguida por muitas outras.
Em nove temporadas, as equipes francesa e americana conseguiram um resultado
realmente excepcional: aproximadamente quatrocentos restos de homindeos.
    A equipe do Qunia tinha deixado o Omo em 1968 para ir explorar, sob a
direo de R. Leakey, as margens orientais do lago Turkana, no Qunia. Em dez
temporadas, essa equipe pde encontrar mais de cem fragmentos de homindeos,
alguns muito importantes.
    Nas margens sudoeste do mesmo lago, uma expedio americana de Harvard,
sob a direo de B. Patterson, explorava, na mesma poca, trs pequenas jazidas,
em duas das quais encontram-se restos de homindeos.
    Uma equipe inglesa do Bedford College de Londres, que se propunha
levantar o mapa geolgico da bacia do lago Baringo, no Qunia, descobriu
restos paleoantropolgicos em cinco stios.
    A partir de 1973, uma expedio, sob a direo de Maurice Taieb, Yves
Coppens e Donald C. Johanson, descobriu em Hadar, na regio Afar etope,
em quatro temporadas, mais de trezentos fragmentos paleoantropolgicos em
excepcional estado de conservao, os quais pertenciam a uma ou duas formas
A hominizao: problemas gerais                                                                457




figura 17.6 Garganta de Olduvai, Tanznia, escavaes de Louis e Mary Leakey (Foto Y. Coppens. Col.
Museu do Homem).
Figura 17.7   Stio do Omo, Etipia (Foto Y. Coppens. Col. Museu do Homem).
458                                                                   Metodologia e pr-histria da frica




figura 17.8   Stio do Omo, Etipia (Foto Y. Coppens. Col. Museu do Homem).
Figura 17.9 Crnios de Australopithecus boisei, stio do Omo, Etipia (Expedio Y. Coppens, 1976. Fotos
J. Oster, n. D-77-1497-493 e D-77-1496-493. Col. Museu do Homem).
A hominizao: problemas gerais                                                                 459




figura 17.10 Stio de Afar, Etipia (Expedio M. Taieb, Y. Coppens e D. C. Johanson; Foto M. Taieb,
Col. Museu do Homem).
Figura 17.11 Crnio de Cro-Magnoide de Afalu, Arglia (Foto 1. Oster, n. C.77-60-493. Col. Museu do
Homem, Instituto de Paleontologia Humana).
460                                                    Metodologia e pr-histria da frica



homnidas. Uma segunda expedio ao Afar, derivada da primeira, encontrou
um crnio que pode ser atribudo a um Pithecanthropus.
    Para finalizar, em 1975 e 1976, aps nove anos de pacientes escavaes, Jean
Chavaillon descobriu em Melka Kontur, perto de Adis Abeba, trs interessantes
fragmentos associados s indstrias olduvaienses e acheulenses.
    Esse conjunto de descobertas limita a rea de distribuio do Australopithecus
s regies oriental e meridional da frica.

      Datao
   A mais antiga dessas jazidas  a de N'Goror na bacia do lago Baringo,
no Qunia, que tem de 9 a 12 milhes de anos. Apenas um molar superior
de homindeo de tipo indeterminado foi encontrado, mas, evidentemente,
temos muita esperana em futuras escavaes nesse stio. A coroa do molar
encontrado  baixa como a dos dentes de Ramapithecus, mas a estrutura de suas
cspides se assemelha  dos australopitecneos. Trata-se possivelmente de um
Sivanpithecus. Em uma outra jazida da bacia do lago Baringo, Lukeino, datada
de 6 a 6.500.000 anos, tambm foi encontrado um molar.  um molar inferior
bastante semelhante ao do Australopithecus.
   Em Lothagam, no sudoeste do lago Turkana (Qunia), B. Patterson descobriu
um fragmento de mandbula com um dente cuja morfologia lembra a de um
australopitecneo. A fauna de vertebrados associada a esse fragmento indica uma
idade pliocnica estimada entre 5 e 6 milhes de anos.
   Em dois stios do Qunia, Chemeron, na bacia do lago Baringo, e Kanapoi,
na bacia do lago Turkana, estimados em 4 milhes de anos, foram descobertos,
respectivamente, um osso temporal e um mero homnidas.
   A jazida de Laetolil, na Tanznia, foi estimada em pelo menos 3.500.000
anos; seus homindeos fsseis so espantosamente semelhantes aos encontrados
em Radar, na regio Afar etope, e datam de 2.800.000 a 3.200.000 anos.
   As jazidas do Omo so constitudas de um conjunto sedimentar com mais de
1000 m de profundidade, composto por camadas sucessivas de areias fossilferas,
argilas e depsitos vulcnicos, permitindo dataes absolutas. Assim, a sequncia
de camadas pde ser datada em mais de 4 milhes de anos na base e em menos
de 1 milho no topo. Os restos de homindeos encontram-se a partir da camada
de 3.200.000 anos at o topo, ou seja, de maneira contnua por mais de 2 milhes
de anos.
   As jazidas do leste do lago Turkana, onde foram encontrados restos de
homindeos, abrangem um perodo entre 3 e 1 milho de anos.
A hominizao: problemas gerais                                                                           461




figura 17.12    Canteiro de escavaes em Olduvai (Foto J. Chavaillon. Col. Museu do Homem).
Figura 17.13 Crnios de Australopithecus robustus,  direita, e Australopithecus gracilis,  esquerda (Foto de
J. Robinson. Col. Museu do Homem).
462                                                                      Metodologia e pr-histria da frica



    Atravs da comparao das faunas, as mais antigas cavernas de
australopitecneos da frica do Sul, Makapansgat e Sterkfontein, foram
recentemente datadas de 2,5 a mais de 3 milhes de anos, estimativa essa ainda
muito discutida.
    Na garganta de Olduvai, na Tanznia, encontram-se restos de homindeos e
de suas indstrias, ao longo de 100 m de depsito, datados de 1.800.000 anos
na base.
    Duas outras cavernas com restos de australopitecneos na frica do Sul,
Swartkrans e Kromdraai, talvez sejam contemporneos das camadas mais
antigas de Olduvai ou pouco anteriores (de 2 a 2,5 milhes de anos).
    Por ltimo, em Chesowanja, na bacia do lago Baringo (Qunia), no stio do
lago Natron (Tanznia) e talvez na brecha de Taung (frica do Sul), encontram-
-se sem dvida os mais jovens australopitecneos, pois mal ultrapassam 1 milho
de anos.
    Os australopitecneos, portanto, parecem ter surgido entre aproximadamente
6 e 7 milhes de anos atrs e ter desaparecido h cerca de 1 milho de anos.
    O que foi descoberto nesses depsitos? Vrios homindeos, alguns
contemporneos entre si. Um deles  chamado Australopithecus robustus, ou
Paranthropus, ou Zinjanthropus. Um outro  chamado Australopithecus gracilis, ou
Australopithecus propriamente dito, ou Plesianthropus, ou Paraustralopithecus. Um
terceiro  chamado Homo habilis, ou Australopithecus habilis. Enfim, um quarto
 chamado Homo erectus, Telanthropus ou Meganthropus.

      Os homindeos

          a)   Australopithecus robustus: foi encontrado na frica do Sul em cavernas de
               2-2,5 milhes de anos, no vale do Omo (Etipia), no leste do lago Turkana
               (Qunia), e em Olduvai, com aproximadamente 1.800.000 anos, e em
               Chesowanja, com 1.100.000 anos.  chamado robusto por ser realmente
               mais forte e maior que os outros. A morfologia craniana revela um aparelho
               de mastigao possante: com efeito, seus molares e pr-molares so enormes.
               Apresenta, ainda, mandbula robusta, msculos de mastigao solidamente
               fixados, arcada zigomtica10 vigorosa e uma crista sagital11 impressionante
               para os msculos temporais. A testa  fugidia. A face  longa e chata, e


10    A arcada zigomtica  uma ponte ssea do crnio que une a tmpora  face.
11    A crista sagital  uma expanso ssea que forma, no alto do crnio, uma lmina semelhante  cimeira de
      um capacete.
A hominizao: problemas gerais                                  463




figura 17.14   Homo habilis (Foto Museus Nacionais do Qunia).
464                                                                       Metodologia e pr-histria da frica



               os dentes anteriores pequenos, o que facilita os movimentos laterais de
               triturao. A mandbula tem, consequentemente, um longo ramo ascendente,
               o que incrementa a ao mastigatria dos msculos masseter e pterigoide.
               O corpo  mais macio que o de outras espcies de Australopithecus. Para
               uma altura de 1,55 m, seu peso  estimado entre 35 e 65 kg. A locomoo
               sobre os membros posteriores no era perfeita, pois os fmures tm apfises
               pequenas e colos longos. A capacidade craniana foi estimada em 530 cm
               tanto para os espcimes de Swartkrans como para os de Olduvai. Deve-se
               ressaltar o desenvolvimento do cerebelo, indicando possivelmente um maior
               grau de controle dos movimentos (da mo e da locomoo, por exemplo).
          b)   Australopithecus gracilis: foi descoberto em Makapansgat e Sterkfontein, na
               frica do Sul. Acredita-se ter sido encontrado tambm no Omo e em Afar
               (Etipia), em Garusi ou Laetolil (Tanznia) e em Lothagam (Qunia).
               Estima-se sua altura entre 1 e 1,25 m, e seu peso entre 18 e 31 kg. A
               face  mais proeminente que a do Australopithecus robustus. As arcadas
               supraorbitrias12, moderadamente desenvolvidas, sustentam uma fronte
               relativamente desenvolvida. Os incisivos so espatulados e implantados
               verticalmente; os caninos, pequenos, assemelham-se a incisivos. Os dentes
               laterais so divergentes, formando uma arcada dentria parablica; so
               dentes grossos, com cspides redondas, esmalte espesso e esto gastos
               at a raiz. Ainda que esse australopitecneo tenha tido uma dieta mais
               variada que a do Australopithecus robustus, sua alimentao devia ser tambm
               basicamente vegetariana. A largura da mandbula, a espessura do esmalte,
               o desgaste dos dentes at as gengivas, a face curta e o grande tamanho dos
               pr-molares e dos molares indicam, com efeito, um possante aparelho de
               mastigao. O nascimento tardio dos dentes aliado  espessura do esmalte
               significa adaptao a uma vida, e particularmente a uma adolescncia mais
               longas. A capacidade endocraniana varia de 428 a 485 cm, ou seja, tem
               444 cm em mdia, na forma sul-africana. Seus ossos longos, em particular
               o mero e a omoplata, lembram a braquiao de seus ancestrais; entretanto,
               o Australopithecus gracilis  um bpede permanente.
          c)   Homo habilis: foi descrito em Olduvai (Tanznia), em 1964 e talvez tenha
               sido encontrado igualmente no Omo (Etipia), na margem leste do lago
               Turkana e em Kanapoi (Qunia). Seus dentes laterais mostram dimenses
               menores que as do Australopithecus gracilis da frica do Sul. Esses dentes



12    As arcadas supraorbitrias so as bordas sseas superiores das rbitas que contm os olhos.
A hominizao: problemas gerais                                                                     465




figura 17.15 Os stios de Siwalik no Norte do Paquisto (Expedio D. Pilbeam. Foto H. Thomas. Col.
Museu do Homem).
Figura 17.16    Reconstituio do crnio de Ramapithecus (Foto J. Oster, n. D.78.1043.493. Col. Museu do
Homem).
Figura 17.17 Esqueleto de Oreopithecus bambolii, com 12 milhes de anos, encontrado em Grossetto
(Toscana) por Johannes Hrzeler, em 1958 (Foto J. Oster. Col. Museu do Homem).
466                                                                  Metodologia e pr-histria da frica




figura 17.18 Reconstituio do meio ambiente do Homo erectus de Chu-Ku-Tien (ou Sinantropo), China
(400 mil anos), (Foto Y. Coppens. Col. Museu do Homem, exposio "Origens do Homem", nov. 1976-abr.
1978. Desenho de Bertoncini-Gaillard sob a direo de Y. Coppens).
Figura 17.19 Homo erectus de Chu-Ku-Tien (reconstituio), (Perfil no D75-371-493; e face no 77-61-493.
Fotos J. Oster. Col. Museu do Homem).
A hominizao: problemas gerais                                                                        467



               tm, alis, propores diferentes: so mais alongados e mais estreitos. Com
               base nos parietais, sua capacidade endocraniana foi estimada em 680 cm;
               um crnio encontrado na margem leste do Turkana tem um volume de
               quase 800 cm. Por essas tendncias evolutivas dos dentes e do crebro,
               parece tratar-se de um ser mais prximo de ns que o Australopithecus.
               Entretanto, seu esqueleto ps-craniano aproxima-o do Australopithecus
               gracilis; como no caso deste ltimo, sua clavcula lembra a ancestral idade
               braquial. Sua altura foi estimada entre 1,20 e 1,40 m.
         d)    O Homo erectus: os pesquisadores descobriram o Homo erectus, homindeo
               mais evoludo que todos os anteriores, em Swartkrans, na frica do Sul, com
               2.500.000 anos; em Olduvai, na Tanznia, com 1.500.000 anos; na margem
               leste do lago Turkana, no Qunia, com 1.500.000 anos; em Melka Kontur,
               em Bodo e no Omo, na Etipia, com 500.000-1.500.000 anos.
    Em Swartkrans, Broom e Robinson isolaram algumas ossadas (1949),
atribudas por eles a uma forma mais homnida, o Telanthropus capensis. Em
1957, Robinson teve a ideia de relacionar essa forma aos pitecantropine,
classificando-a como Homo erectus.
    Em 1969, Ron Clarke, Clark Howell e Brain, trabalhando com os espcimes
de Swartkrans, notaram que o crnio do Australopithecus robustus SK 847
ajustava-se perfeitamente ao maxilar do Telanthropus. Essa montagem produz
uma figura interessante, que confirma as suposies de Robinson: acima de um
torus supraorbitalis13 pronunciado, a fronte com curvatura ascendente contrasta
com a ausncia de fronte do Australopithecus robustus. O crnio apresenta grandes
sinus14 frontais; a constrio ps-orbitria15  pouco pronunciada; os ossos do
nariz so proeminentes; a arcada dentria  curta, o que indica uma mandbula
pequena com ramo ascendente curto; a dentio e a estrutura do esqueleto facial
aproximam-no do gnero Homo, mais especificamente do Homo erectus.
    O Homindeo 13 de Olduvai tem uma mandbula menor e uma dentadura
20% mais reduzida que a do Homo habilis; o Homindeo 16 tem uma arcada
supraorbitria proeminente. Leakey e Tobias tendem a classific-los como Homo
erectus. Mas, se esses dois fsseis tm uma classificao incerta, o mesmo no
acontece com o Homindeo 9, que apresenta uma incontestvel calota craniana
de Homo erectus.


13   Quando a borda superior da rbita tem uma expanso ssea em forma de viseira,  chamada torus
     supraorbitalis.
14   Os sinus so cavidades.
15   O crnio se contrai lateralmente, atrs das rbitas.  o que chamamos constrio ps-orbitria.
468                                                   Metodologia e pr-histria da frica



    A leste do lago Turkana, no Qunia, um grande nmero de descobertas
guarda parentesco com essa espcie em evoluo do gnero Homo. Devemos
citar, em particular, a recente descoberta de trs crnios de pocas diferentes,
que ilustram muito bem o desenvolvimento das tendncias evolutivas no seio
dessa espcie.
    Lembremos tambm que uma recente datao do mais antigo espcime
de Pithecanthropus javans  o crnio de criana de Modjokerto  teria dado
1.900.000 anos, mas tratar-se-ia realmente de um Homo erectus?
    Comparaes feitas em Cambridge por Tobias e von Koenigswald entre peas
originais javanesas e tanzanianas permitiram concluir que h uma identidade
morfolgica entre o mais antigo Homo habilis, e o Meganthropus palaeojavanicus
e talvez o Hemianthropus peii da China. Do mesmo modo, concluram que existe
uma identidade morfolgica entre o Homo habilis mais recente (Homindeo 13)
e o Pithecanthropus IV, o Sangiran B e o Telanthropus capensis.

      Indstrias
    Pela primeira vez na histria dos Primatas esses restos se encontram
associados a utenslios fabricados.
    Nas jazidas do Omo, a expedio francesa descobriu, em 1969, alguns
utenslios de pedra e de osso com mais de 2 milhes de anos. No ano seguinte, na
margem leste do lago Turkana, a expedio do Qunia descobriu, numa camada
vulcnica de 2 milhes de anos, uma indstria de pedra e de osso semelhante
aos utenslios do Omo.
    Mais recentemente, as misses americana e francesa conseguiram assinalar
doze camadas arqueolgicas de 2 milhes de anos. Pode-se afirmar que em trs
anos, devido a essas descobertas da bacia pliopleistocnica do lago Turkana, a
idade dos primeiros instrumentos lascados recuou para mais de 2.500.000 anos,
talvez mesmo 3 milhes, ultrapassando em quase 2 milhes de anos a idade das
mais antigas indstrias conhecidas at ento.
    Essa primeira indstria da histria  constituda por uma grande quantidade
de lascas obtidas artificialmente por percusso e utilizadas por causa de seu
gume, de seixos cuja ponta ou gume foi aguado e de ossos ou dentes trabalhados
ou utilizados diretamente, quando sua forma assim o permitia (por exemplo,
caninos de hipoptamos ou de sunos).
    Esses instrumentos podem ser classificados em um certo nmero de tipos;
cada um desses tipos  representado por uma determinada quantidade de
exemplares. Isso significa que sua forma  resultado de uma pesquisa, a aquisio
de uma experincia transmitida de uma gerao a outra, implicando um certo
A hominizao: problemas gerais                                                469



grau de vida social. Em outras palavras, no estamos, h 2.500.000 anos, na
origem dos utenslios, mas provavelmente nos aproximamos dos limites de sua
percepo; antes daquela data, o artefato se confunde com os objetos naturais.
    Em Makapansgat, na frica do Sul, foi descoberta uma indstria de
utenslios feitos de ossos, chifres e dentes  qualificada, por essa razo, de
"osteodontoquertica"  que parece ser tambm muito antiga; isso poder ser
confirmado caso as recentes tentativas de correlaes entre as cavernas sul-
-africanas e as grandes jazidas leste africanas revelarem-se exatas. De qualquer
modo, as constataes que podemos fazer so as mesmas que para a bacia do
lago Turkana: os diversos tipos de utenslios encontram-se reproduzidos em
srie, o que prova que j tm uma histria.
    Em Hadar, H. Roche descobriu recentemente uma indstria de seixos
trabalhados, semelhante  de Olduvai, numa camada que pode ser datada de
2.500.000 anos.
    A partir das camadas mais antigas de Olduvai (1.800.000 anos), os
instrumentos esto em toda parte, abundantes e constantes na forma; os seixos
lascados, particularmente frequentes, tornaram essa indstria conhecida como
Pebble Culture ou Olduvaiense (do topnimo Olduvai). Escavando o nvel
mais antigo de Olduvai, o Dr. Leakey notou, um dia, uma grande acumulao
de calhaus de basalto;  medida que a escavao progredia, ele percebeu que
esses calhaus, longe de estarem espalhados aleatoriamente, ordenavam-se em
pequenos montes, formando um crculo.  possvel que cada um desses montes
servisse para calar uma estaca. Se imaginarmos um crculo de estacas ou de
arcos, e peles ou folhagens estendidas de um a outro, poderemos ser tentados
a ver naqueles montculos os restos de uma construo. Estaramos, ento, na
presena de uma estrutura de habitao de uns 2 milhes de anos!
    Em Melka Kontur, perto de Adis Abeba, Jean Chavaillon descobriu
recentemente, no nvel olduvaiense mais antigo do stio (1.500.000 anos), uma
estrutura bastante semelhante. Exatamente no meio de um solo de ocupao
recoberto de utenslios, ele descobriu uma superfcie circular de 2,50 m de
dimetro desprovida de artefatos, elevada de 30 cm em relao ao resto do solo
e circundada por um sulco de 2 m de comprimento; pequenos montes de calhaus
sugerem, tambm neste caso, a presena de estacas.
    Alguns pretendem que o Australopithecus robustus tenha sido o macho do
Australopithecus gracilis. Outros pensam que o Homo habilis era um Australopithecus
gracilis um pouco mais jovem e mais evoludo que o sul-africano. Outros, ainda,
dizem que o Telanthropus ou Homo erectus de Swartkrans poderia ser classificado
nos limites inferiores de variaes do Australopithecus robustus da mesma jazida;
470                                                       Metodologia e pr-histria da frica



que o Meganthropus javanicus era um Australopithecus, e mesmo que certos
australopitecine (em Olduvai e em Swartkrans) eram pitecantropine. Dessa
aparente confuso surge, todavia, uma tese muito clara. Foi no interior desse grupo
de Australopithecus  de incio limitados ao leste e ao sul da frica, e em seguida
(sob a forma de Australopithecus ou sob forma j mais evoluda) estendendo-se
at a sia ao sul do Himalaia  que apareceram o gnero Homo e o utenslio
fabricado. Este logo se torna a caracterstica distintiva de seu arteso; vrios tipos
de instrumentos so rapidamente criados para finalidades precisas; sua fabricao
 ensinada. Por ltimo, aparecem estruturas de habitao.  a partir desse ponto de
vista que se pode falar de uma origem africana da humanidade.


      Concluso
    O homem aparece, portanto, ao fim de uma longa histria, como um primata
que um dia aperfeioa o utenslio que vem usando j h muito tempo. Utenslios
fabricados e habitaes revelam de sbito um ser racional que prev, aprende e
transmite, constri a primeira sociedade e lhe d sua primeira cultura.
    Atribuiu-se recentemente a idade de 2 milhes de anos a certos restos fsseis
de homindeos de Java. Seixos lascados de vrias jazidas do Sul da Frana foram,
em alguns casos, considerados daquela mesma idade. Mas, no atual estgio dos
nossos conhecimentos, a frica continua vitoriosa pelo nmero e importncia
das descobertas de to remota antiguidade.
    E como se, h 6 ou 7 milhes de anos, nascesse no quadrante sudeste do
continente africano um grupo de homindeos denominados australopitecneos,
e, entre 2,5 e 3 milhes de anos atrs, emergisse desse grupo polimorfo um ser,
ainda Australopithecus ou j Homem, capaz de trabalhar a pedra e o osso, construir
cabanas e viver em pequenos grupos, representando, atravs de todas as suas
manifestaes, a origem propriamente dita da humanidade criadora, do Homo
faber.

      O ltimo milho de anos
    O ltimo milho de anos viu nascer o Homo sapiens e assistiu, durante os
ltimos sculos,  sua alarmante proliferao. Foram necessrios 115 anos para
que a populao mundial passasse de um bilho para 2 bilhes de indivduos,
35 anos para que atingisse os 3 bilhes e mais 15 anos para que chegasse aos 4
bilhes. E a acelerao continua...
A hominizao: problemas gerais                                                 471



                                  CAPTULO 17


            A hominizao: problemas gerais
                     PARTE II
                                       L. Balout




    Os dados arqueolgicos
   Ao tratar do problema da "hominizao" na frica, o procedimento do
pr-historiador  bastante diferente daquele empregado pelo paleontlogo.
Para este ltimo, a hominizao  o desenvolvimento progressivo do crebro
que permite ao homem conceber e criar, aplicando tcnicas cada vez mais
elaboradas, um conjunto de utenslios (na mais ampla acepo do termo) to
diversificado e eficiente que multiplica, ao longo dos milnios, sua ao sobre
o meio ambiente, a ponto de romper, em seu prprio proveito, o equilbrio
biolgico. A evoluo paleontolgica que conduz ao homem no permite
definir facilmente o "limiar" da hominizao; a pedra lascada demonstra que
esse limiar j foi transposto. P. Teilhard de Chardin definiu numa frmula
clebre:
    "O homem fez sua entrada sem alarde. [...] Na verdade, caminhou to silenciosamente
    que, quando comeamos a perceb-lo, denunciado pelos instrumentos de pedra indelveis
    que multiplicam sua presena, ele j cobre [...] todo o Velho Mundo".
    A posio do pr-historiador justifica-se: o verdadeiro missing link (elo
perdido) no  a forma intermediria entre australopitecneos e pitecantropneos,
entre o homem de Neandertal e o Homo sapiens. Est entre as pedras ou os ossos
lascado e esses fsseis. As indstrias pr-histricas, atribudas com absoluta
472                                                   Metodologia e pr-histria da frica



certeza ao Homo sapiens, a partir do Paleoltico Superior, e com uma evidncia
pouco discutvel ao homem de Neandertal no Paleoltico Mdio, s podem
ser relacionadas hipoteticamente aos pitecantropneos e australopitecneos.
Na verdade,  a nica hiptese que se pode formular cientificamente. Mas a
indstria que acompanha os sinantropneos no  a mesma descoberta junto
aos pitecantropneos, e esta  diferente em Java (Pithecanthropus), na Arglia
(Atlanthropus) e na frica oriental. Quanto aos australopitecneos, representam
um grupo heterogneo onde ainda  difcil descobrir os possveis, se no
provveis, autores da Cultura Osteodontoquertica e da Pebble Culture.
    Portanto, se para o paleontlogo existe um "limiar" da hominizao o
"Rubico cerebral", que o Professor Vallois definiu como sendo a capacidade
cerebral de 800 cm , para o pr-historiador existe um "limiar tcnico" que, uma
vez transposto, abre o caminho do progresso at ns. A definio desse limiar
exige a soluo de dois problemas: como e quando. O primeiro problema implica
eliminar todas as causas naturais para poder reconhecer no utenslio a mo do
homem. O segundo implica dispor de esquemas cronolgicos que permitam
datar, com um grau de aproximao aceitvel, as mais remotas evidncias da
indstria humana.
    At o presente momento, somente a frica forneceu respostas para esses
dois problemas.
    Visto que a teoria do monogenismo  universalmente aceita, a frica 
considerada hoje como o bero da humanidade. Esse "bero sobre rodas" 
segundo a definio espirituosa do Abade Breuil , que por muito tempo se
moveu entre os picos do Pamir e as plancies do Eufrates, fixou-se, por enquanto,
na frica oriental. Esse fato teria ocorrido h uns 3 milhes de anos, no mnimo.
Na verdade, o Antigo Testamento (Livro do Gnesis) situa o Paraso terrestre,
o den, numa paisagem de jardins e plantas cultivadas. Deus destinava Ado
 agricultura e  criao de animais, a um gnero de vida "neoltica" numa
regio onde todo um perodo Paleoltico iria pouco a pouco se revelar. Todas as
cronologias tiradas da Santa Escritura situam a criao do homem entre 6484
e 3616 antes da Era Crist. O Oriente Prximo foi, com toda a certeza, um
dos antigos, se no o mais antigo centro de neolitizao; entretanto, alm dessa
particularidade, nada mais existe que nos permita afirmar que foi o Oriente
Prximo o bero da humanidade.
    O homem fez sua entrada em silncio, e so as pedras por ele lascadas
que, muito tempo depois, denunciam sua existncia. A espcie humana "no
modificou nada na Natureza no momento de seu aparecimento [...] ela emerge
fileticamente diante de nossos olhos exatamente como qualquer outra espcie"
A hominizao: problemas gerais                                                    473



(Teilhard de Chardin). A responsabilidade do pr-historiador torna-se, ento,
enorme, pois ao identificar os mais antigos traos perceptveis de indstrias
humanas, ele fornece um elemento de prova que a Paleontologia  incapaz de
dar: "Atravs do utenslio, chegar ao homem. Esta  a finalidade admirvel da
Pr-Histria".
   O pr-historiador da frica deve, antes de tudo, responder a trs perguntas:
        1)    O utenslio , sem sombra de dvida, um critrio de hominizao?
        2)    O utenslio nos permite delimitar o incio da hominizao?
        3)    O utenslio humano, no estado de preservao em que chegou at ns, pode
              ser identificado com toda a segurana?


    O utenslio , sem sombra de dvida, um critrio de hominizao?
    Os dados desse problema so em grande parte de origem africana. Nos
ltimos anos de sua vida, o Abade Breuil, bastante impressionado com o
comportamento de certos animais, confiou-me que perguntava a si mesmo se
o utenslio realmente marcaria a transposio do limiar da hominizao, e se
no deveramos escolher a arte como critrio, o que equivaleria a distinguir um
Homo verdadeiramente sapiens, o pintor de Lascaux, nosso ancestral direto, de
uma srie de seres industriosos faber, que o teriam precedido.
    Como disse sabiamente Madame Tetry, o uso de utenslios que no sejam
rgos do corpo, considerados como "utenslios naturais", no  caracterstica
exclusiva nem do homem, nem mesmo dos primatas. Comprovam esse fato
a vespa amfila e a formiga cortadeira, entre os insetos; o tentilho das ilhas
Galpagos, a gaivota, o abutre, o urubu, o tordo cantor, entre as aves; a lontra-do-
-mar, o castor e muitos outros animais. Na ordem dos primatas, o chimpanz  o
vizinho mais prximo do homem. No seu cotidiano, ele utiliza instrumentos ou
armas para se defender de predadores tais como a serpente. Um reflexo de medo
e de defesa leva-o a recolher e brandir bastes1. Esse comportamento, observado
em jardins zoolgicos, foi tambm notado nas reservas da Tanznia, entre 1964
e 1968. Vivendo em grupos de mais de trinta indivduos, os chimpanzs sabem
escolher os menores gravetos para desenterrar cupins, sabem utilizar bastes
para romper ninhos ou alcanar mel, servir-se de folhas para recolher a gua das
cavidades dos troncos, encabar varas para apanhar bananas. Quanto s pedras,
utilizam-nas para rachar os frutos e, assim como fazem com os bastes, para


1   Current Anthopology, jun. 1967.
474                                                          Metodologia e pr-histria da frica



afugentar os predadores rivais, atirando-as por cima e por baixo do brao. E,
ainda, comunicam-se entre si atravs de sinais sonoros. Observaes semelhantes
foram feitas em relao aos gorilas de Ruanda2.
   Desse modo, para que um utenslio possa ser considerado critrio de
hominizao, no basta o conceito do emprego de um objeto externo aos
"utenslios naturais" do ser vivo. Devemos considerar necessariamente o aspecto
da transformao deliberada, da "preparao" desse instrumento. Essa concepo
do utenslio vai-nos permitir dar uma resposta afirmativa  terceira pergunta,
mas no  segunda.

      O utenslio nos permite delimitar o incio da hominizao?
    Na verdade, o utenslio no nos permite delimitar o incio da hominizao.
Em primeiro lugar porque o que chegou at ns foram apenas ossadas fsseis
e pedras. Sem querer fazer uma comparao etnogrfica absurda, devemos
lembrar que um grupo humano pode perfeitamente obter todos os seus
utenslios exclusivamente do reino vegetal. Como exemplo, so sempre citados
os Menkopis das ilhas Andaman. E, ao mesmo tempo,  to indemonstrvel
quanto plausvel o fato de que a rvore tenha oferecido aos primeiros homindeos
seus primeiros instrumentos na savana arborizada dos planaltos africanos. E,
quanto s ossadas fsseis e aos dentes, R. Dart atribuiu aos australopitecneos do
Transvaal uma indstria baseada em ossos, dentes e chifres, que ele denominou
osteodontoquertica e que ficou por muito tempo sub judice; adiante voltaremos
ao assunto. R. van Riet Lowe distinguiu split e trimmed pebbles na Pebble
Culture. Os primeiros, seixos simplesmente partidos, foram, de modo geral,
postos em dvida. Est claro que, se a pedra que a mo humana apanhou e
atirou no guardou nenhum trao visvel dessa utilizao, mesmo o seixo lascado
pode ser um produto da natureza: as quedas d'gua dos rios e as ressacas do
mar fragmentam as pedras de modo que nada as diferencia das que foram
deliberadamente lascadas pelo homem. A indstria do Kafuense no sobreviveu
a esse teste.
    O texto de Teilhard de Chardin, do qual citei um trecho no incio desta
exposio, apresenta grandes erros e uma grave lacuna:
      "O homem fez sua entrada sem alarde. [...] Na verdade, caminhou to silenciosamente
      que, quando comeamos a perceb-lo, denunciado pelos instrumentos de pedra



2     Nat. Geogr. Soc., Washington, out. 1971.
A hominizao: problemas gerais                                                                       475




figuras 17.20 e 17.21 Detalhe do solo olduvaiense, observam-se vrios objetos, entre os quais, poliedros e
um grande osso de hipoptamo (Fotos de J. Chavaillon. Col. Museu do Homem).
476                                                          Metodologia e pr-histria da frica



      indelveis que multiplicam sua presena, ele j cobre, do Cabo da Boa Esperana a
      Pequim, todo o Velho Mundo. Certamente j fala e vive em grupos. J utiliza o fogo.
      E, afinal de contas, no  exatamente isso que deveramos esperar? Cada vez que uma
      nova forma emerge diante de ns das profundezas da histria, no sabemos que ela
      surge completamente formada e constituindo j uma legio?".
    No entanto, a espcie Homo loquens parece ter surgido somente na poca
dos pitecantropneos; antes destes, pelo menos na frica, no temos nenhuma
indicao vlida da existncia do fogo, erroneamente atribudo ao Australopithecus
prometheus. Por outro lado, os "instrumentos de pedra indelveis" do Olduvaiense
no denunciam, certamente, um comeo. A variedade de suas formas, sua
quantidade e o lasqueamento sistemtico revelam antes um desenvolvimento
que um incio. Foram os pr-historiadores da frica que reivindicaram esse
milho de anos anterior ao Bed I de Olduvai que as recentes descobertas no
Omo e em Koobi Fora lhes tornaram possvel constatar. E isso ainda no nos
satisfaz!

      O utenslio humano pode ser identificado?
    Concluindo do que acima expusemos, devemos nos limitar a resolver o
terceiro problema, que consiste em provar a ao intencional do homem sobre os
"utenslios" mais rudimentares, menos elaborados. S a frica fornece material
suficiente para essa pesquisa, que se concentrar em duas reas: o osso e a pedra.
         a)   A indstria osteodontoquertica. A hiptese formulada em 1949 por R.
              Dart foi reexaminada por Donald L. Wolberg em Current Anthropology
              (fevereiro de 1970). J o Abade Breuil, estudando os ossos encontrados
              com os sinantropneos de Chu-Ku-Tien, tinha formulado a hiptese de que
              uma "Idade do Osso" poderia ter precedido a "Idade da Pedra". Teria havido
              um perodo "Pr-Ltico" anterior ao Paleoltico. Antes das descobertas
              feitas em 1955 (frica do Sul), em 1959-1960 (Olduvai, Tanznia), em
              1969 (Omo, Etipia) e em 1971 (lago Rodolfo, Qunia), no se conhecia
              nenhuma indstria ltica associada s jazidas de australopitecneos. Por
              outro lado, R. Dart tornou-se defensor de uma indstria ssea, baseada em
              ossadas, dentes e chifres, que ele consagrou como Osteodontokeratic Culture.
              Infelizmente, no dispomos de uma boa cronologia, relativa ou absoluta,
              dos australopitecneos da frica meridional, menos favorecida nesse ponto
              que a Etipia, o Qunia e a Tanznia. R. Dart sustentou a existncia de
              uma indstria osteodontoquertica de 1949 a 1960, baseando-se no exame
A hominizao: problemas gerais                                                        477



              das fraturas cranianas de babunos e de australopitecneos, na evidncia
              de seleo de ossadas em Makapansgat (336 meros e 56 fmures, por
              exemplo), e nas vrtebras cervicais (atlas e xis), que representavam 56%
              das vrtebras recolhidas com os crnios de bovdeos. Na sua opinio, as
              ossadas animais das brechas onde foram encontrados australopitecneos
              so montes de refugo, restos da cozinha de um caador -predador que
              tinha ento as mos livres para utilizar armas e instrumentos, pois j se
              locomovia sobre os membros posteriores. Examinando cinquenta crnios
              de babunos e seis de australopitecneos, Dart constatou, em 80% dos casos,
              a existncia de traumatismos causados por golpes de arma, que, em geral,
              foram desfechados frontalmente. Esses traumatismos s vezes so duplos, o
              que indica uma arma com duas cabeas. Em Makapansgat, muitos meros
              de ungulados mostram traos de desgaste anteriores  fossilizao, enquanto
              outros ossos longos esto intactos, o que levou Dart a concluir que "o
              utenslio caracterstico do australopiteco  uma maa de osso, de preferncia
              um mero de ungulado". O caador utilizou tambm mandbulas; fraturas
              por toro (fratura espiralada) nos meros e nos ossos da canela implicam
              tambm a interveno da mo, como Breuil e Teilhard de Chardin j haviam
              sugerido com relao a Chu-Ku-Tien nos loci de sinantropneos. Um chifre
              direito fossilizado de Gazella gracilior enterrado num fmur de antlope,
              onde a calcita o fixou, quer se trate de utenslio encabado, quer tenha sido
              utilizado para partir o fmur, indica uma ao humana, da mesma forma
              que o crnio da hiena com um calcneo de antlope enterrado entre a calota
              e a arcada zigomtica.
                  Teria existido, portanto, um estgio osteodontoquertico, pr -ltico,
              depois paleoltico, seguido da Pebble Culture e das indstrias de bifaces, o
              qual marcaria o incio de uma "cultural implemental activity".
                  Tal hiptese deveria, evidentemente, levantar ardentes discusses em
              torno do tema "caador ou caa" (the hunters or the hunted). Para alguns,
              todos os ossos, inclusive os dos australopitecneos, no passam de restos de
              banquetes de carnvoros. Outros os consideram como restos acumulados em
              covis de hienas, o que no corresponde aos hbitos desse animal. Outros
              ainda os atribuem a porcos-espinhos. Entretanto, dos 7159 fragmentos
              sseos descobertos em Makapansgat antes de 1955, apenas 200 estavam
              rodos. Alm disso, as hienas vivem entre ossadas de outras hienas. Uma
              jazida datada do Riss-Wrm mostrou que, para um total de 130 animais,
              havia 110 hienas, enquanto, em Makapansgat, encontramos apenas 17 para
              433 indivduos. Na brecha de australopitecine foram encontrados 47 dentes
478                                                              Metodologia e pr-histria da frica



                isolados de hienas para um total de 729; na jazida do Riss-Wrm, 1000,
                para um total de 1100.
                    Pouco a pouco, todavia, afirmou-se uma tendncia favorvel  indstria
                osteodontoquertica, sem um juzo prvio do tipo de australopitecneo
                que seria considerado o caador. A coexistncia de uma indstria ltica
                (Sterkfontein, 1955) veio corroborar essa teoria, mas foi a indstria ssea
                de Olduvai, admiravelmente descrita por Mary Leakey3, que trouxe a prova
                definitiva e indiscutvel, abrindo caminho para a indstria semelhante
                atribuda aos pitecantropneos da frica, sia (Chu-Ku-Tien) e Europa
                (Torralba e Ambrona, por exemplo). Encontramos, em toda a pr-histria
                e desde o seu incio, um tipo de indstria ssea paralela  indstria ltica.
                Embora sendo de anlise mais difcil, sabemos que ela existe, e em nenhum
                outro lugar , mais antiga que na frica; contudo, no est provada a
                existncia de um estgio "pr-ltico".
          b)    A indstria ltica. Desde que a hiptese dos "elitos" foi abandonada,
                os seixos lascados da assim chamada Pebble Culture representam a mais
                antiga indstria ltica conhecida. Em 1919, E. J. Wayland, ento diretor do
                Servio Geolgico de Uganda, notou a existncia, nessa regio da frica
                oriental, de seixos lascados semelhantes aos descobertos no Ceilo antes
                de 1914. Em 1920, ele criou os termos Pebble Culture e Kafuense (do rio
                Kafu) e, em 1934, distinguiu quatro estgios evolutivos nessa indstria. Foi
                Wayland tambm quem sugeriu a Louis Leakey, em 1936, a criao do
                termo "Olduvaiense" para designar a evoluda Pebble Culture da garganta de
                Olduvai (Tanznia). Em 1952, van Riet Lowe tentou fazer uma primeira
                classificao tcnica e morfolgica da Pebble Culture. Mas foi da sia que
                veio a definio das foras consideradas essenciais, apresentada por H.
                Movius: o chopper, o choppingtool, o handaxe (1944). Aos poucos, os pr-
                -historiadores de toda a frica (mas nem sempre os da Europa) foram-se
                convencendo: C. Arambourg (Arglia), P. Biberson (Marrocos), H. Hugot,
                H. Alimen, J. Chavaillon (Saara), Mortelmans (Katanga), etc. Classificaes
                morfolgicas baseadas nas tcnicas de lascamento foram propostas por L.
                Ramendo e P. Biberson. Dois fatos foram imediatamente constatados:
                em primeiro lugar, a Pebble Culture j era bastante complexa, com formas
                muito variadas, rgidas e sistemticas para representar o incio das indstrias
                lticas; em segundo lugar, a Pebble Culture continha em potencial todas as
                possibilidades evolutivas que levariam s indstrias clssicas do Paleoltico



3     Olduvai Gorge, t. III.
A hominizao: problemas gerais                  479




figura 17.22 Uma das mais antigas pedras
lascadas do mundo (escavaes J. Chavaillon).
figura 17.23 Uma das primeiras pedras lascadas
do mundo (escavaes J. Chavaillon).
480                                                                Metodologia e pr-histria da frica



              Inferior africano, os bifaces e as achas de mo. Vamos nos deter apenas no
              primeiro ponto.
                  Em razo da complexidade e da difuso da Pebble Culture, os pr-
              -historiadores d frica desejavam uma cronologia mais longa que aquela,
              j de difcil aceitao, que conferia 1 milho de anos ao Quaternrio, sendo
              a datao da indstria olduvaiense pelo mtodo do potssio-argnio (de
              1.850.000 a 1.100.000 anos para a Bed I) reforada pela do choppingtool
              do Omo (entre 2.100.000 e 2.500.000 anos) e em seguida pela datao da
              jazida do lago Turkana (2.600.000 anos). Mas esta ltima indstria, embora
              contenha muitos seixos trabalhados, no pertence em sua totalidade  Pebble
              Culture.  uma indstria de lascas. Em 1972, recolheram-se lascas, talvez
              menos conclusivas, no Omo. Podemos indagar, portanto, se a transformao
              dos seixos em pebbletools no foi precedida pelo uso de lascas destacadas
              de um bloco qualquer de matria-prima. Mas nesse ponto chegamos aos
              limites da possibilidade de atribuio a uma causa no-natural: se os sinais
              de lascamento no so claros (talo-bulbo), se devemos dar nfase aos
              "retoques para utilizao", voltamos ao velho problema dos elitos.
                  Ento, a nica explicao possvel  a interveno de um homindeo.
              Mas at onde devemos ousar? A hiptese mais audaciosa foi levantada por
              L. Leakey, que atribuiu ao Kenyapithecus "bonebashing activities", ou seja,
              sugeriu que ele teria utilizado um pedao de lava (lump of lava), lascado por
              percusso (battered) e marcado (bruised) pelo uso, e um osso longo com uma
              depresso causada por fratura (depressed fracture)4.
   Neste ponto, os problemas das indstrias do osso e da pedra em sua origem
so os mesmos. Nenhuma prova tecnolgica ou morfolgica pode ser obtida. No
h nenhum sinal "clssico" de ao humana. De fato, o nico argumento positivo
 a existncia inexplicvel de lascas junto aos restos do Kenyapithecus. Mas a
eliminao do trabalho da natureza (lusus naturae) no afasta a possibilidade do
uso por um antropoide pr-homnida. O que anteriormente dissemos a respeito
do comportamento dos chimpanzs demonstra a pertinncia dessa hiptese.
   Na opinio dos pr-historiadores da frica, ainda que os instrumentos de
osso e de pedra atestem que h mais de 2.500.000 anos estava em marcha um
processo cerebral de hominizao, no foi nessa poca que ele se iniciou.




4     LEAKEY, L. S. B. "Bone smashing by Late Miocene Hominid", Nature, 1968.
Glossrio                                                                      481




                                   Glossrio




    A                                          mento tpico  um biface mais regular
                                               que o do Abbevilliense, lascado com um
    Abbevilliense. Fcies industrial defi-
                                               percutor mole (madeira ou osso).
    nida por H. Breuil em Abbeville, vale do
    rio Somme, Frana. Caracteriza-se por
                                               Amazonita. Variedade verde de
    bifaces desbastados, em grandes lasca-
                                               microlina.
    mentos, com um percutor duro (pedra).
    Definido na Europa, onde corresponde       Amirense. Ciclo continental mar-
    ao incio do Paleoltico Inferior.         roquino contemporneo do Mindel
                                               europeu.
    Acha de mo (coupdepoing). Instru-
    mento de pedra em forma de amndoa,        Anfaciense. De Anfa, Marrocos. Ter-
    lascado nas duas faces, que devia servir   ceira transgresso marinha quaternria
    para escavar e esfolar. Antiga denomi-     no Marrocos.
    nao do biface.
                                               Ateriense. De Bir el-Ater, Arglia
    Acheulense. De Saint-Acheul, no vale       oriental. Indstria paleoltica da frica
    do Somme.  a principal fcies cultural    do Norte, entre o Musteriense e o Cap-
    do Paleoltico Inferior. Durou da gla-     siense. Compreende pontas e raspa-
    ciao de Mindel ao fim do perodo         dores pedunculados e algumas pontas
    interglacirio. Riss-Wrm. O instru-       foliceas. O Ateriense desenvolveu-se
482                                                       Metodologia e pr-histria da frica



      durante parte do Wum e provavel-          descobertas semelhantes na frica
      mente , em parte, contemporneo do       oriental e meridional.
      Paleoltico Superior da Europa.
                                                B
      Atlantropo. Fssil do grupo dos
                                                Basalto. Rocha vulcnica.
      Arcanthropus, definido por C. Aram-
      bourg na jazida de Ternifine, Arglia.    Biface. Instrumento de pedra lascada
      Os restos so datados do fim do Pleis-    nas duas faces, em forma de amndoa.
      toceno Inferior.                          Inicialmente denominado machado,
                                                em seguida, coupdepoing, parece ter
      Augita. Silicato natural de clcio,       sido utilizado para cortar e, s vezes
      magnsio e ferro. Esse mineral entra      para raspar.  caracterstico do Paleo-
      na composio do basalto.                 ltico Inferior.

      Aurignacense. De Aurignac, alto           C
      Garona, Frana. Indstria pr-histrica
                                                Calabriano. De Calbria.  o mais
      do incio do Paleoltico Superior. Esse
                                                antigo estgio do Quaternrio mari-
      nome, criado por H. Breuil e E. Car-
                                                nho, identificado por M. Gignoux em
      tailhac em 1906, designa as inds-
                                                1910.
      trias situadas cronologicamente entre
      o Musteriense e o Perigordiense.
                                                Calcednia. Variedade fibrosa de
      Caracteriza-se por pontas de zagaia
                                                slica, formada de quartzo e opala.
      feitas de chifre de rena, raspadores
      grossos, lminas longas com contnuos     Calcita. Carbonato de clcio natural
      retoques planos e em forma de esca-       cristalizado, encontrado na greda, no
      mas, alguns buris. Surgem as primeiras    mrmore branco, no alabastro calcrio,
      obras de arte  figuras esquemticas de   etc.
      animais, e sinais sumariamente grava-
      dos em blocos de calcrio. Inicia-se h   Capsiense. De Capsa, nome latino
      aproximadamente 30 mil anos.              de Gafsa, Tunsia meridional. Inds-
                                                tria do fim do Paleoltico africano,
      Australopiteco (lat. australis: meri-     identificada por J. de Morgan. O
      dional; gr. pithekos: macaco). Nome       Capsiense associa a instrumentos tpi-
      de gnero, criado por Dart, em 1924,      cos do Paleoltico Superior numero-
      para designar vrios fsseis da frica    sos micrlitos e pequenos furadores
      do Sul que apresentavam caractersti-     grossos que provavelmente serviam
      cas simiescas mas anunciavam aspec-       para perfurar fragmentos de cascas
      tos humanos. Em seguida, foram feitas     de ovos de avestruz para a confec-
Glossrio                                                                         483



    o de colares. Data de 11 mil anos        D
    aproximadamente.
                                               Diabsio. Rocha da famlia do gabro
    Catarrino. Macaco do Velho Mundo,          e da diorita, geralmente verde.
    com 32 dentes e septo nasal estreito.
                                               Diorita. Rocha de textura granular.
    Cenozoico. Sinnimo para Tercirio
    e Quaternrio; comeou com o               Discoide. Instrumento de pedra em
    Paleoceno h 65 milhes de anos,           forma de disco, do final do Acheulense,
    compreendendo tambm o Eoceno              talhado nas duas faces.
    (-55 milhes de anos), o Oligoceno
    (-45 milhes de anos) , o Mioceno          Dolerito. Rocha da famlia do gabro
    (-25 milhes de anos) , o Plioceno         cujos minerais so visveis a olho nu.
    (-11 milhes de anos), o Pleistoceno
    e o perodo recente.
                                               E
                                               Eneoltico (lat. aeneus: bronze; gr./
    Cercopiteco (gr. kerkos: cauda, e          ithos: pedra). Sinnimo de Calcol-
    pithekos: macaco). Macaco africano
                                               tico. Perodo pr-histrico em que se
    de cauda longa.
                                               comea a utilizar o cobre.
    C h ad a n t ro p o ( h o m e m    do
                                               Eoceno. Segunda poca do Tercirio,
    Chade). Homindeo fssil situado, do
                                               entre -55 milhes e -45 milhes de
    ponto de vista anatmico, entre o Aus
                                               anos.
    tralopithecus e o Pithecanthropus.

    Chellense. De Chelles, Frana. Fcies      Epdoto. Silicato hidratado natural
    do Paleoltico Inferior descrita por G.    de alumnio, clcio e ferro.
    de Mortillet. Antiga denominao do
                                               F
    Abbevilliense.
                                               Fauresmith. Localidade do Estado de
    Clactoniense. De Clacton-on-Sea,           Orange, frica do Sul. Indstria ltica
    Gr-Bretanha. Indstria pr-histrica      que compreende raspadores e pon-
    do Paleoltico Inferior, descrita por H.
                                               tas com retoques unifaciais, bifaces e
    Breuil em 1932. Caracteriza-se por
                                               pequenas machadinhas. Corresponde
    lascas de slex com plano de percusso
                                               ao Paleoltico Mdio da Europa.
    liso e largo. O Clactoniense parece ser
    contemporneo do Acheulense.
                                               G
    Cornalina. Calcednia vermelha.            Galena. Sulfeto natural de chumbo.
484                                                        Metodologia e pr-histria da frica



      Gabliano. Quarto pluvial africano, iden-   atualmente dada s formas modernas ou
      tificado em torno dos lagos Nakuru,        neo-antrpicas, para designar o homem
      Naivacha e Elmenteita, no Qunia.          que alcanou, graas  sua inteligncia,
      Contemporneo da poca glaciria de        um estado de adaptao ao meio que
      Wrm. Esse termo no  mais utilizado.     lhe permite pensar e refletir livremente.

      Gnz. Do nome de um rio da Alema-          Iberomaurusiense. Fcies cultural
      nha. A mais antiga glaciao quatern-     do Paleoltico Final e do Epipaleoltico
      ria alpina.                                do Maghreb, cuja evoluo foi marcada
                                                 pela multiplicao dos instrumentos
      H                                          microlticos e que durou do dcimo ao
                                                 quinto milnio.
      Handaxe. O mesmo que acha de
      mo, machadinha.                           J
      Haruniano. Quarta transgresso             Jadeta. Silicato de alumnio natural
      marinha do Quaternrio do Marrocos         de sdio, com pouco clcio, magnsio
      atlntico.                                 e ferro.

      Hematita. xido de ferro natural.          Jaspe. Calcednia impura, com listras
      Holoceno. O mais recente perodo do        ou manchas, geralmente vermelhas.
      Quaternrio. Comeou h 10 mil anos.
                                                 K
      Hominidae. Famlia zoolgica de            Kafuense. Do rio Kafu, em Uganda.
      primatas superiores representada pelos     Fcies industrial do comeo do Pale-
      homens fsseis e modernos.                 oltico Inferior da frica oriental,
                                                 caracterizada por seixos planos, suma-
      Homo. Nome de gnero dado na               riamente lascados, sem retoques. Sua
      classificao zoolgica ao homem fs-      origem humana  contestada.
      sil e ao contemporneo.
                                                 Kagueriano. Do rio Kaguera, Tanznia.
      Homo habilis. Nome criado por              Primeiro pluvial africano, identificado
      Leakey, Tobias e Napier para designar      por E. J. Wayland em 1934, contempo-
      fsseis com um grau de evoluo anat-     rneo da glaciao de Gnz nos Alpes.
      mica intermedirio entre o dos austra-     Esse termo no  mais empregado.
      lopitecneos e o dos pitecantropneos.
                                                 Kamasiano. De Kamasa, Qunia.
      Homo sapiens (homem racio-                 Segundo pluvial africano, corrente-
      nal). Denominao de C. Lineu (1735)       mente chamado Kamasiano I, con-
Glossrio                                                                         485



    temporneo de Mindel. No  mais          Lupembiense. De Lupemba, Kasai,
    utilizado.                                Zaire. Fcies industrial do fim do Pale-
                                              oltico caracterizada pela associao de
    Kanjeriano. De Kanjera, Qunia.           instrumentos macios (pices e cin-
    Terceiro pluvial africano, identificado   zis) e pontas lanceoladas finamente
    por L. S. B. Leakey. Comumente cha-       retocadas nas duas faces, datando de
    mado Kamasiano II, corresponde nos        aproximadamente 7 mil anos antes da
    Alpes- poca glaciria de Riss. Termo    Era Crist.
    no mais utilizado.
                                              M
    L                                         Maarifiano. Do Maarif, Marrocos.
                                              Segunda transgresso marinha qua-
    Lpis lazli. Pedra azul -celeste
                                              ternria do Marrocos atlntico.
    empregada em mosaicos, cujo p
     usado para obter o pigmento             Machadinha. Instrumento macio
    ultramarino.                              feito com uma lasca e que apresenta
                                              gume afiado resultante do atrito entre
    Laterita (lat. later: tijolo). Solo       duas superfcies. Caracterstico do
    ver melho -vivo        ou   marrom-       Acheulense africano,  encontrado
    -avermelhado, muito rico em xido de      tambm no Paleoltico Inferior e
    ferro e alumnio, formado pela lixivia-   Mdio de algumas jazidas do sul da
    o em climas quentes.                    Frana e da Espanha.

    Levallois (tcnica). De Levallois-        Magosiense. De Magosi, Uganda.
    -Perret, Alto Sena, Frana. Tcnica de    Indstria ltica descoberta por Wayland
    debitar a pedra que permite obter, com    em 1926, situada entre o Gambliano
                                              e o Makaliano. Associa objetos de
    a preparao do ncleo, grandes lascas
                                              aspecto musteriense, ncleos, discoides
    de forma predeterminada.
                                              e pontas, peas lanceoladas com reto-
                                              ques bifaciais e micrlitos geomtricos.
    Levalloisiense. Fcies industrial defi-
    nida por H. Breuil em 1931, caracte-
                                              Makaliano. Do rio Makalia, Qunia.
    rizada por lascas geralmente pouco ou     Fase mida do Quaternrio africano,
    nada retocadas, extradas de ncleos de   contemporneo do primeiro ps-glacirio
    tipo Levallois. No  mais reconhecida    da Europa. No  mais utilizado.
    como fcies genuna.
                                              Malaquita. Carbonato bsico natural
    Lidianita. Xisto endurecido.              de cobre, de cor verde.
486                                                        Metodologia e pr-histria da frica



      Mazzeriano. Primeiro pluvial do            interglacirio. Reconhecida desde
      Saara, equivalente ao Kagueriano.          1865 por E. Lartet, caracteriza -se
                                                 pela abundncia de pontas e raspa-
      Mesoltico (gr. mesos: no meio de, e /     dores obtidos por retoque numa das
      ithos: pedra). Palavra empregada por       faces das lascas.
      muito tempo para designar o con-
      junto de fcies culturais situadas entre   N
      o Paleoltico e o Neoltico. Atual-
                                                 Nakuriano. Fase mida definida no
      mente esto relacionadas a uma fase
                                                 lago Nakuru, Qunia, pelos depsitos da
      Epipaleoltica.
                                                 praia abaixo do nvel dos 102 m. Nessas
                                                 camadas foram descobertas indstrias
      Micoque. Stio pr-histrico situado
                                                 de estilo neoltico que poderiam datar
      ao norte de Les Eyzies, a 25 km a nor-
                                                 de aproximadamente -3000 anos.
      deste de Sarlat. Nele foi encontrada a
      indstria micoquiense (forma muito
                                                 Neandertal. Do nome do vale da
      evoluda do Acheulense, contempor-
                                                 bacia do Dssel, Alemanha, onde
      nea da glaciao de Wrm).
                                                 o primeiro espcime foi descoberto
                                                 pelo Dr. Fuhlrott em 1856. Repre-
      Mindel. Do nome de um rio da
                                                 sentante de um grupo particular do
      Baviera. Segunda glaciao quaternria
                                                 gnero Homo, viveu na Europa ociden-
      alpina. Parece situar-se entre - 300.000
                                                 tal durante o Pleistoceno Superior e
      e - 400.000 anos.
                                                 extinguiu-se bruscamente, sem deixar
      Mioceno (gr. meion: menos, e kainos:       descendentes.
      recente). Ou seja, que contm menos
                                                 Neoltico (gr. neos: novo, e lithos:
      formas recentes que o sistema seguinte.
                                                 pedra). Idade da Pedra com produo
       uma poca do Tercirio entre - 25000
                                                 de alimentos (agricultura e pastoreio).
      e - 10 000 000 de anos.
                                                 Termo criado em 1865 por J. Lubbock.
      Moulouyano. Do vale do Moulouya,
                                                 O
      Marrocos. Termo empregado por
      Biberson. Villafranchiano Mdio do         Obsidiana. Rocha vulcnica vtrea,
      Marrocos.                                  compacta, semelhante ao vidro escuro.

      Musteriense. De Moustier, Dordo-           Olduvaiense. Da garganta de Olduvai,
      nha, Frana. Indstria pr-histrica       Tanznia setentrional. Complexo de ins-
      do Paleoltico Mdio que se expan-         trumentos Iticos antigos (seixos lasca-
      diu na segunda metade do ltimo            dos) descoberto por Katwinkel em 1911,
Glossrio                                                                             487



    onde Leakey identificou onze nveis,         Pebble Culture. Indstria de seixos
    do Olduvaiense I, que corresponde ao         trabalhados, a mais antiga indstria
    Chelense antigo, at o Olduvaiense XI,       ltica conhecida, composta essencial-
    que corresponde ao Acheulense VI, com        mente de seixos com gume feito atra-
    instrumentos levalloisienses.                vs de um ou mais lascamentos.

    Oligoceno. Terceira poca do Terci-
                                                 Pitecantropo (macaco-homem). Fs-
    rio, entre -45.000.000 e -25.000.000
                                                 sil que apresenta ao mesmo tempo
    de anos.
                                                 caractersticas bastante prximas do
    Osteodontoquertica. Indstria pr-          homem moderno para pertencer ao
    -histrica feita com ossos (gr. osteon),     gnero Homo e outras bastante dife-
    dentes (gr. odous, odontos) e chifres (gr.   rentes para caracterizar uma outra
    keras, keratos), encontrada em Makapans-     espcie. O primeiro foi descoberto por
    -gat, na frica do Sul, por R. A. Dart.      E. Dubois em Java, em 1889. Pertence
                                                  espcie Homo erectus.
    Ougartiano I. Segundo pluvial do
    Saara, equivalente ao Kamasiano.             Platirrino. Macaco do Novo Mundo,
                                                 com 36 dentes e septo nasal largo.
    Ougartiano II. Terceiro pluvial do
    Saara, equivalente ao Kanjeriano.
                                                 Plestoceno (gr. pleistos: muito, e kai
                                                 nos: recente). Subdiviso geolgica
    P
                                                 do Quaternrio, compreendendo o
    Paleoltico (gr. paleos: antigo e lithos:    incio e a maior parte desse perodo.
    pedra). Designa a Idade da Pedra sem
                                                 Termo criado por C. Lyell em 1839,
    produo de alimentos. Termo criado
                                                 corresponde ao momento das grandes
    por J. Lubbock em 1865.
                                                 glaciaes quaternrias e precede o
    Paleozoico. Sinnimo de Primrio.            Holoceno, que teve incio 10 mil anos
    Parantropo. Australopiteco robusto des-      antes da Era Crist.
    coberto, em 1948, no Pliopleistoceno de
    Kromdraai (Transvaal)  Zinianthropus        Plesiantropo. Australopithecus graci
     Paraustraiopithecus. Esse tipo arcaico     lis do incio do Pleistoceno, descoberto
    apresenta numerosas caractersticas          no Transvaal em 1936.
    simiesas, mas possui, principalmente
    na sua estrutura dentria, traos que o      Plioceno. poca final do perodo
    situam mais perto do homem que dos           Tercirio. Comeou h -5.500.000
    antropoides.                                 anos e terminou h - 1.800.000 anos.
488                                                       Metodologia e pr-histria da frica



      Pongdeo. Famlia de macacos antro-       S
      poides  qual pertencem o orango-
                                                Sangoense. Stio epnimo em Sango
      tango, o gorila, o gibo e o chimpanz.
                                                Bay, no lago Vitria, em Uganda.
                                                Complexo ltico descoberto por
      Prcambriano. A mais antiga forma-
                                                Wayland em 1920, caracteriza-se por
      o geolgica. Durou da formao do
                                                um instrumental que associa a objetos
      globo terrestre (estimada em 4 bilhes
                                                feitos com lascas obtidas pela tcnica
      de anos) at o perodo Primrio (-500
                                                de Levallois, pices macios, bifaces
      milhes de anos).
                                                e peas lanceoladas. Desenvolveu-se
      Prsoltaniano. Perodo continental        entre o Kamasiano e o Gambliano.
      marroquino correspondente ao fim da
                                                Sauriano. De Saura, uede do Saara
      glaciao de Riss e que vem antes do
                                                argelino. Quarto pluvial do Saara,
      Soltaniano (de Dar es-Soltan).
                                                equivalente ao Gambliano.
      Q
                                                Serpentina. Silicato hidratado de
      Quartzita. Rocha dura, formada            magnsio.
      principalmente de quartzo.
                                                Sinantropo (lat. sinensis; chins; gr.
      R                                         anthropos: homem.). Fssil que apre-
      Ramapiteco. Ramapithecus wickeri:         senta ao mesmo tempo caractersticas
      primata onvoro do Mioceno, possi-        bastante semelhantes s do homem
      velmente ancestral dos homindeos,        moderno para pertencer ao gnero
      datando de 12 a 14 milhes de, anos.      Homo e outras bastante diferentes
      Foi descoberto nas montanhas Siwa-        para caracterizar uma outra espcie.
      lik (Norte da ndia). Outros espcimes    O stio de Chu-Ku-Tien (a sudoeste
      foram encontrados na China, na Tur-       de Pequim) foi explorado de 1921 a
      quia, em Fort Ternan (na frica) e na     1939 pelo Dr. Pei e por M. Black, Pe.
      Europa (Frana, Alemanha, Grcia,         Teilhard de Chardin e F. Weidenreich.
      ustria, Espanha e Hungria).              Pertence  espcie Homo erectus.

      Riss. Do nome de um rio da Baviera.       Solutrense. De Solutr, Sane-et-
      Penltima glaciao quaternria alpina,   -Loire, Frana. Indstria pr-histrica
      que ocorreu entre -200.000 e -120.000     do Paleoltico Superior que se carac-
      anos.                                     teriza por lminas de slex muito finas.
                                                Os instrumentos tpicos devem seu
                                                aspecto a um trabalho de retoques
Glossrio                                                                          489


   rasantes, paralelos, invadindo os dois     pela profuso de pontas de flecha reto-
   lados da pea.                             cadas nas duas faces.

   Stillbayense. De Still Bay, Provncia      Tufo. Rocha vulcnica porosa, leve e
   do Cabo, frica do Sul. Indstria ltica   mole.
   rica em peas lanceoladas com reto-
   ques bifaciais, lembrando as folhas de     V
   louro do Solutrense francs. Contem-       Villafranchiano. De Villafranca
   porneo do Gambliano.                      d'Asti, Piemonte, Itlia. Formao
                                              sedimentria que corresponde  tran-
   T
                                              sio entre os perodos Tercirio e
   Tectita. Vidro natural rico em slica e    Quaternrio.
   em alumnio, de origem provavelmente
   csmica.                                   W
                                              Wiltoniense. Do stio de Wilton,
   Telantropo. Termo genrico dado por
                                              oeste da Provncia do Cabo, frica do
   Broom e Robinson a dois fragmentos
                                              Sul. Indstria Itica que data de apro-
   de mandbula encontrados em 1949
                                              ximadamente 15 mil anos. Compre-
   no stio de Swartkrans, frica do Sul,
                                              ende pequenos raspadores inguiformes;
   e cuja morfologia lembra a de certos
                                              micrlitos em segmento de crculo e
   arcantropianos.
                                              trapezoidais, furadores e peas com bor-
                                              dos denticulados. Fcies tardia, que se
   Tensiftiano. Do uede Tensift, no
                                              prolongou at a introduo do ferro.
   Marrocos ocidental. CicIo continental
   marroquino que corresponde  pri-
                                              Wrm. Do nome de um lago e de
   meira parte do Riss.
                                              um rio da Baviera. A mais recente das
                                              glaciaes alpinas. Comeou h 75 mil
   Tschitoliense. Termo criado para
                                              anos e terminou por volta de 10 mil
   designar um complexo ltico desco-
                                              anos antes da Era Crist.
   berto em Tschitolo, Kasai, Qunia.
   Fcies industrial epipaleoItica que se
                                              X
   caracteriza pela presena constante de
   instrumentos macios mas de dimen-         Xisto. Rocha sedimentria slico-
   ses menores que no Lupembiense, e         -alumnica de aspecto folheado e que
                                              se parte facilmente em lamelas.
Os homens fsseis africanos                                               491



                              CAPTULO 18


                  Os homens fsseis africanos
                                   R. Leakey




    frica, o bero da humanidade
    Charles Darwin foi o primeiro cientista a publicar uma teoria importante
sobre a origem e a evoluo do homem. Foi tambm o primeiro a apontar a
frica como o lugar de origem do homem. Pesquisas realizadas nos ltimos cem
anos vieram em abono da teoria de Darwin, confirmando inmeros aspectos
do seu trabalho pioneiro. Atualmente no mais  possvel considerar a evoluo
como uma simples hiptese terica.
    As provas do desenvolvimento do homem na frica esto ainda incompletas,
mas nesta ltima dcada houve um aumento substancial do nmero de espcimes
fsseis estudados e interpretados. H boas razes para se acreditar que a frica
seja o continente onde os homindeos surgiram pela primeira vez e onde, mais
tarde, desenvolveram a postura ereta e o bipedismo, elementos decisivos  sua
adaptao. Quando e por qual processo o homem foi capaz de realizar essa
adaptao  questo de extremo interesse. O perodo evolutivo  longo, sendo
possvel que muitas de suas fases no estejam representadas por espcimes fsseis,
uma vez que a conservao desses fsseis s se d em condies muito especiais.
    A fossilizao requer condies geolgicas em que a sedimentao seja
rpida e a composio qumica dos solos e das guas de percolao permita
que elementos minerais substituam elementos orgnicos. Os fsseis que desse
492                                                                       Metodologia e pr-histria da frica




figura 18.1   frica: alguns dos stios mais importantes de homindeos.
Os homens fsseis africanos                                                   493



modo se formam ficam enterrados a grande profundidade sob os sedimentos
acumulados, e talvez s venham a ser descobertos pelo homem moderno caso
intervenham fenmenos naturais, como a eroso ou os movimentos tectnicos.
Tais stios so pouco numerosos e se encontram bastante dispersos. Ainda que
se descubram, a cada ano, novas jazidas, grande parte da frica jamais revelar
evidncias fsseis do aparecimento do homem.
   Seria interessante comentar as razes pelas quais certas partes, da frica
so to ricas em testemunhos pr-histricos. A primeira  a diversidade de
habitats. O continente  vasto, estendendo-se acima e abaixo do Equador at
as zonas temperadas do norte e do sul. Esse fato, por si s, implica a variedade
de climas; no entanto, as terras altas da regio equatorial introduzem uma
dimenso suplementar. Essa massa de terra se eleva, a partir da franja litornea,
em uma srie de planaltos, at as cadeias de montanhas e picos, alguns dos
quais cobertos de neves eternas, apesar do clima bastante seco e quente. As
elevaes variadas propiciam uma diversidade de ambientes, pois a temperatura
diminui  medida que aumenta a altitude. Ora, esses fatores sempre existiram
na frica, e, embora alteraes climticas tenham certamente ocorrido, parece
que o continente africano sempre ofereceu um habitat adequado ao homem.
Quando uma determinada rea se tornava muito quente ou fria, era possvel
migrar para ambientes mais apropriados.
   Formulou-se a hiptese de uma correlao entre os perodos glacirios do
hemisfrio Norte e os perodos midos da frica, pois se constatam grandes
variaes nos nveis dos lagos, que cor respondem a variaes pluviomtricas.
Essa questo vem sendo objeto de minuciosos estudos nos ltimos anos. Embora
um avano glacirio deva ter exercido um efeito global sobre a meteorologia, a
correlao automtica entre ambos no se evidencia claramente1. No obstante,
o acmulo de sedimentos nas bacias dos lagos africanos durante o Pleistoceno
concorre para reforar a teoria de que as chuvas foram mais abundantes nesse
perodo.
   Essa sedimentao foi de grande amplitude. Muitos lagos do Pleistoceno
africano eram pequenos e pouco profundos, provavelmente de carter
sazonal, com variaes anuais de nvel  reflexo do clima tropical, com chuvas
abundantes durante apenas alguns meses do ano. Esses lagos eram perfeitas
bacias de captao para os sedimentos que se depositavam anualmente nas suas
margens planas e em torno das embocaduras dos rios que neles desaguavam


1    Ver captulo 16.
494                                                     Metodologia e pr-histria da frica



e que inundavam suas ribanceiras durante o perodo de cheias. Restos de
animais mortos perto das margens dos lagos iam sendo, assim, constantemente
recobertos pela areia ou pela vasa depositada durante as enchentes. Esse
processo durou milhes de anos, sendo detectados vestgios animais em
diferentes nveis das sequncias sedimentares, cuja espessura total chega a
ultrapassar 500 m.
    Com a colmatagem dos lagos e a mudana do regime das chuvas, algumas
bacias secaram enquanto outras foram-se formando. O processo de fossilizao
 lento, mas o Pleistoceno se estende por mais de 3 milhes de anos, perodo
durante o qual restos de animais foram sendo depositados em sedimentos
favorveis  sua conservao.
    A localizao desses restos constitui, evidentemente, um problema capital
para o paleontlogo mas, tambm nesse ponto, certos fatores contriburam para
diminuir as dificuldades na frica, especialmente na frica oriental. Durante o
Pleistoceno, em particular na sua ltima fase, a frica oriental passou por um
perodo de movimentos tectnicos associados a uma ruptura da crosta terrestre,
hoje chamada Rift Valley, Esses movimentos tectnicos originaram falhas e, em
muitos lugares, provocaram a elevao de massas de sedimentos. A eroso que
se seguiu exps as camadas onde se tinham formado fsseis. Por essa razo, a
procura de restos fsseis concentra-se, em geral, em antigas bacias lacustres onde
as formaes sedimentares sofreram falhas e aparecem sob a forma de terras
ridas com ravinamentos.
    Entretanto, h outras possibilidades, como prova a grande quantidade de
restos de homindeos encontrados na frica do Sul. Esses fsseis se formaram
em cavernas calcrias, onde o acmulo de ossadas foi recoberto por uma camada
estalagmtica ou pelo desmoronamento do teto das cavernas. Os ossos foram
levados para essas cavernas por vrios agentes, mais provavelmente por animais
necrfagos ou predadores, como leopardos e hienas. Existem certos indcios de
que as cavernas tenham sido ocupadas por homindeos, os quais tambm seriam,
portanto, responsveis por restos sseos fossilizados. O grande problema desse
tipo de stio reside no fato de praticamente inexistirem critrios de estratigrafia,
sendo assim muito difcil determinar a idade relativa dos fsseis descobertos.
    Em muitas regies da frica no existiram, no Pleistoceno, condies
adequadas  fossilizao de restos animais. Consequentemente, no h razo
para se supor que o homem primitivo no tivesse vivido nessas regies, apesar
da ausncia de vestgios. Novas pesquisas ainda podem revelar novos stios.
    Os instrumentos de pedra so mais comuns que os fsseis sseos, pois que
mais duradouros. A pedra no precisa ser rapidamente coberta por sedimentos
Os homens fsseis africanos                                                   495



para que esteja garantida sua preservao. Dessa forma, os arquelogos puderam
reunir grande nmero de dados sobre a tecnologia primitiva na frica, fornecendo
muitas informaes acerca do aparecimento do homem.
    O homem, ou mais especificamente o gnero Homo, poderia ser considerado
como o nico animal capaz de fabricar instrumentos de pedra; no entanto, nesse
aspecto, como em outros setores da pesquisa relacionada  origem do homem,
as opinies dos especialistas divergem.
    O estudo da origem do homem baseia-se em grande parte numa
abordagem pluridisciplinar, que no se limita ao estudo de ossadas fsseis e
vestgios arqueolgicos; a geologia, a paleontologia, a paleoecologia, a geofsica
e a geoqumica desempenham papel preponderante, e, para os estgios mais
recentes, quando os homindeos comearam a usar instrumentos, a arqueologia
 fundamental. O estudo dos primatas vivos, inclusive o homem,  muitas vezes
til para uma melhor compreenso da pr-histria do nosso planeta.
    Os fsseis da famlia do homem, os homindeos, podem ser considerados
como distintos e separados dos grandes macacos atuais, os pongdeos, desde
o Mioceno, h mais de 14 milhes de anos. As evidncias mais antigas esto
incompletas, e existe uma grande lacuna em nosso conhecimento sobre a
evoluo do homem no perodo que vai de 14 milhes a pouco mais de 3
milhes de anos. Foi durante esse perodo que a diferenciao parece ter -se
efetuado, pois so conhecidas formas diferenciadas de homindeos fsseis a
partir de -5 milhes de anos.
    Os testemunhos fsseis de outros grupos de animais que no o homem
so, em geral, mais bem conhecidos e comportam material mais completo. So
de grande interesse pois permitem tentar a reconstituio do meio ambiente
primitivo dos homindeos durante os primeiros estgios de sua evoluo. J
existem dados sobre vrios perodos importantes em que numerosas espcies
animais sofreram mudanas muito rpidas, em resposta a presses do meio
ambiente.
    Demonstrou-se tambm que o homem passou por diversos estgios antes
de se tornar o bpede com crebro desenvolvido que  hoje. Em certas pocas,
existiram vrios tipos de homens, e cada um poderia representar uma adaptao
especfica. As mudanas ocorridas a partir da forma simiesca do homindeo do
Mioceno devem ser o resultado de algum tipo de especializao ou adaptao, que
nos cabe elucidar. Embora os dados disponveis estejam bastante incompletos,
conhecem-se alguns detalhes dessa complexa evoluo. Examinaremos os fsseis
mais recentes para, a partir deles, chegarmos aos mais antigos.
496                                                     Metodologia e pr-histria da frica



      O homem moderno e o Homo sapiens
    A clssica definio de homem encontrada nos dicionrios est longe de ser
satisfatria: "Ser humano, a raa humana, adulto do sexo masculino, indivduo (do
sexo masculino)". Um dos problemas dessa definio  que o homem moderno
constitui talvez a mais diversificada espcie conhecida, tantas so as diferenas 
comportamentais e fsicas  existentes entre as populaes do mundo, diferenas
essas que devem ser consideradas. Mas apesar das diferenas aparentes, o homem
constitui hoje uma nica espcie, e todos os homens partilham a mesma origem
e a mesma histria na sua evoluo primitiva.  provvel que s nos ltimos
milnios a espcie tenha passado a apresentar variantes superficiais. Possa
essa noo contribuir a que os homens mais rapidamente se conscientizem da
identidade de sua natureza e de seu destino.
    O homem atual, que pertence integralmente  espcie Homo sapiens sapiens,
 capaz de viver em habitats muito diferentes graas ao desenvolvimento
tecnolgico. A vida em cidades superpovoadas contrasta com a dos nmades
pastores de camelos no deserto, e ambas contrastam, por sua vez, com a vida dos
caadores no seio das densas florestas tropicais da frica ocidental. O homem
 capaz de viver longos perodos no fundo do mar, a bordo de submarinos,
e em rbita terrestre, no interior de cpsulas espaciais. A chave explicativa
de todos esses casos  a adaptao pela tecnologia. Os requisitos fisiolgicos
fundamentais so um crebro complexo e volumoso, mos livres de qualquer
funo locomotriz e disponveis para a manipulao, e o bipedismo permanente.
Essas caractersticas podem ser identificadas no tempo, assim como os vestgios
no-perecveis da atividade tcnica do homem. O grau de desenvolvimento do
crebro, a habilidade da manipulao e o bipedismo podem ser considerados os
melhores pontos de referncia de que dispomos para traar o caminho percorrido
pela nossa espcie ao longo do tempo.
    Vrias descobertas importantes atestam a presena do Homo sapiens primitivo
no continente africano h mais de 100 mil anos. Tudo indica que nossa espcie
 to antiga na frica quanto em outras partes do mundo, sendo provvel que
pesquisas futuras possibilitem datar com preciso o mais remoto vestgio, cuja
idade talvez esteja prxima dos 200 mil anos.
    Em 1921, um crnio e alguns fragmentos de esqueleto foram encontrados
em Broken Hill, Zmbia; sendo esse pas a antiga Rodsia do Norte, o espcime
tornou-se conhecido como homem da Rodsia ou Homo sapiens rhodesiensis.
Data aproximadamente de -35000, ao que se cr, e certamente pertence  nossa
espcie. Talvez remonte a uma poca mais remota, porm no foi possvel datar
Os homens fsseis africanos                                                  497



sequer o crnio. Apresenta caractersticas muito semelhantes s do neandertalense
da Europa, tratando-se, com certeza, de um exemplo africano dessa espcie.
Traos ainda mais antigos do Homo sapiens foram descobertos na frica oriental.
    Em 1932, o Dr. L. S. B. Leakey encontrou fragmentos de dois crnios no
stio de Kanjera, no oeste do Qunia. Pareciam estar associados a uma fauna
fssil do fim do Pleistoceno Mdio tardio, o que implicaria uma idade de cerca
de 200 mil anos. Esse stio ainda no foi datado com preciso, fato lamentvel,
visto que os fsseis a encontrados  dois crnios e um fragmento de fmur 
parecem pertencer  espcie Homo sapiens e poderiam constituir as evidncias
mais antigas da espcie, conhecidas at agora na frica.
    Em 1967, foram descobertos restos de dois indivduos em um stio do vale
do Omo, no sudoeste da Etipia. Consistem em um fragmento de crnio, partes
de um esqueleto ps-craniano e a calota de um segundo crnio. Os dois fsseis
provm de camadas com idade estimada em pouco mais de 100 mil anos. O
vale do Omo , provavelmente, mais conhecido por seus fsseis antigos, mas
h uma grande quantidade de depsitos recentes que podem constituir uma
fonte de dados novos sobre os primeiros Homo sapiens da frica. Alm disso,
encontrou-se cermica primitiva em stios da mesma rea, suscetveis, portanto,
de fornecer informaes acerca dos antigos usos da cermica.
    Assim, embora existam poucos espcimes do Homo sapiens primitivo entre
os fsseis, parece razovel supor que essa espcie gozava de ampla difuso tanto
na frica quanto em outras partes do globo.


    O prHomo sapiens
   Existe uma tendncia a se relacionar as espcies fsseis com as espcies
modernas; essa relao, contudo, deve ser entendida em termos muito genricos.
Propomos aqui considerar a origem do Homo sapiens dentro de uma linhagem que
pode remontar a vrios milhes de anos. Em diferentes pocas, provavelmente
existiram nessa linhagem vrios tipos distintos do ponto de vista morfolgico,
devendo a composio gentica do homem moderno refletir, em parte, essa
herana compsita.
   A denominao das espcies fsseis tem causado dificuldades;
frequentemente, o desejo de dar um novo nome a cada espcime descoberto
provoca confuso. A prtica habitual  classificar espcimes semelhantes em uma
mesma espcie; as diferenas menores servem de base para uma diferenciao
da espcie, enquanto as mais importantes distinguem o gnero. No  difcil
498                                                   Metodologia e pr-histria da frica



classificar as espcies animais vivas; um excelente sistema de classificao foi
criado pelo grande naturalista Lineu. O problema dos paleontlogos est em
considerar a evoluo, no tempo, de uma determinada espcie que pode ter
sofrido transformaes bastante rpidas. A expresso "espcie morfolgica" ser
utilizada, aqui, na descrio de fsseis que apresentam caractersticas fsicas
semelhantes. Cabe ressaltar que grande parte da controvrsia relacionada ao
estudo da origem do homem se deve  divergncia de opinies quanto ao uso
da terminologia.
    Pelo menos dois gneros e vrias espcies de homindeos foram identificados
entre os fsseis dos ltimos 3 milhes de anos. Essas formas so bsicas para
compreendermos a origem de nossa espcie. At recentemente, pensava-se
que a evoluo se processara em ritmo uniforme; hoje, porm, acredita-se que
populaes locais de uma determinada espcie podem ter reagido diferentemente
s presses da seleo. Formas "primitivas" podem ser contemporneas de formas
avanadas ou "progressivas". A identificao de caracteres "primitivos" numa
espcie registrada em um longo perodo de tempo  menos difcil que numa
amostra limitada, pois permite identificar tendncias e adaptaes que ajudam
a explicar o processo de sobrevivncia por modificaes progressivas.
    Os restos humanos fsseis da frica, por suas caractersticas, podem ser
unidos em dois grupos principais. Propomos consider-los como linhagens
evolutivas, uma das quais, representada pelo gnero Homo, pode ser seguida at
hoje, sendo que a outra, representada pelo gnero Australopithecus, aparentemente
extinguiu-se h cerca de 1 milho de anos.
     possvel, tambm, considerar as formas primitivas descobertas em depsitos
onde no existem formas mais avanadas, as quais, todavia, so encontradas em
estratos mais antigos. Tal fato poderia ser interpretado como uma regresso,
porm  mais provvel que a continuao de uma espcie progressiva no esteja
representada entre os espcimes disponveis para estudo unicamente por ter
ocupado reas que no se prestavam  sua preservao pela fossilizao.
    Para os objetivos deste captulo, propomos considerar os homindeos
anteriores ao Homo sapiens com base nestas duas linhagens. A forma ancestral
comum a ambas no pode ser facilmente identificada, pois os testemunhos
fsseis so bastante fragmentrios. O mais antigo homindeo da frica provm
de Fort Ternan, no Qunia, onde foram encontrados vrios fragmentos de
maxilar superior, um fragmento de mandbula e alguns dentes. O stio foi datado
de 14 milhes de anos, e seus fsseis provam que nessa poca j havia ocorrido
a diferenciao entre os homindeos e os pongdeos. Portanto a reduo dos
Os homens fsseis africanos     499




figura 18.2 Crnio de Homo
habilis (KNM-ER 1470). Vista
lateral. Koobi Fora, Qunia
(Museus Nacionais do Qunia).
Figura 18.3 Crnio de Homo
erectus (KNM-ER 3733). Vista
lateral. Koobi Fora, Qunia
(Museus Nacionais do Qunia).
500                                                     Metodologia e pr-histria da frica



caninos, trao caracterstico dos homindeos, j se acentuara ligeiramente a partir
dos caracteres propriamente simiescos.
    Os testemunhos fsseis entre 14 milhes e 3.500.000 de anos esto bastante
incompletos. Dispomos apenas de quatro espcimes que podem ser relacionados
a esse perodo, todos provenientes do Qunia: um fragmento de mandbula em
pssimo estado de conservao, encontrado em Kanam pelo Dr. L. S. B. Leakey,
em 1932; um fragmento de mero descoberto em Kanapoi; um fragmento de
mandbula com uma coroa dentria encontrado em Lothagam, e um molar
isolado descoberto em Ngorora. Os trs primeiros espcimes provm de depsitos
datados de 4 milhes a 5.500.000 de anos; quanto ao dente isolado, considera-se
que seja proveniente de depsitos estimados em 9 milhes de anos. Entretanto,
nenhum desses espcimes  bastante significativo, pois so muito fragmentrios.
Atribuiu-se o fragmento de mandbula de Lothagam ao Australopithecus; mas, no
atual estgio de nossos conhecimentos, essa identificao  bastante discutvel,
na opinio de muitos antroplogos.
    A partir do incio do Pleistoceno, h cerca de 4 milhes de anos, at o
aparecimento do Homo sapiens, os dados sobre a evoluo dos homindeos na
frica tornaram-se nitidamente mais substanciais. Em 1973, foram realizados
trabalhos de pesquisa em duas novas jazidas, onde se encontrou grande nmero
de fsseis em camadas datadas de 3 a 4 milhes de anos. Esses stios, Laetolil
(Tanznia) e Hadar (Etipia), merecem comentrio especial, tal a sua importncia
no que diz respeito ao aparecimento do gnero Homo.
    Laetolil est localizado a aproximadamente 50 km da famosa garganta
de Olduvai, nas encostas dos montes Lemagrut, dominando a extremidade
norte do lago Eyasi. Sua idade foi estimada em cerca de 3.500.000 anos, fato
bastante significativo na medida em que se props relacionar os diversos fsseis
de homindeos primitivos l encontrados ao gnero Homo. Trata-se de maxilares,
dentes e um fragmento de membro.
    As jazidas de Hadar, situadas na depresso de Afar, Etipia, tm a mesma
idade, ou talvez sejam um pouco mais recentes. A partir de 1973, descobriu-
-se no local grande quantidade de material, incluindo excelentes espcimes de
esqueleto craniano e ps-craniano, entre os quais se podem distinguir trs tipos
relacionados a Homo habilis, Australopithecus gracilis e Australopithecus robustus.
    Assim, todo esse primeiro perodo praticamente nada revela sobre a origem
do Homo e do Australopithecus. Em compensao, o perodo entre 3 e 1 milho
de anos  relativamente rico em testemunhos fsseis.
    A amostra bastante grande de espcimes encontrados em stios com
menos de 3 milhes de anos indica a existncia de dois gneros distintos de
Os homens fsseis africanos                                                     501



homindeos primitivos, que por vezes ocupavam a mesma rea. Presume-se
que essas duas formas, Homo e Australopithecus, habitassem nichos ecolgicos
diferentes e, embora seu territrio fsico pudesse coincidir, a competio por
comida, ao que parece, no era suficiente para que uma forma exclusse a
outra. Ainda temos muito a aprender sobre a adaptao de cada um desses
homindeos, porm a coexistncia dos dois gneros por um perodo superior
a 1.500.000 de anos  fato comprovado atualmente e atesta a distino entre
os dois.
   Foi o Australopithecus o ancestral do Homo? Essa pergunta geralmente recebe
resposta afirmativa; no entanto, com os novos dados disponveis, no mais 
possvel ter tanta certeza. Alguns especialistas (inclusive o autor) tendem a
pensar que as duas formas tm um ancestral comum, distinto de ambas. Para
estabelecer essa tese,  necessrio examinar os dois gneros do ponto de vista
de suas "adaptaes especficas" e considerar o grau de variao, se houver, em
cada grupo. Para isso,  essencial definir claramente as caractersticas tpicas de
cada um que se mostraram permanentes no tempo.
   Para finalizar, cabe observar que alguns pesquisadores classificam todos
esses fsseis num mesmo gnero, o qual apresentaria uma grande variabilidade
intragenrica e um acentuado dimorfismo sexual.


    O gnero Homo (prsapiens): Homo erectus
    A forma pr-sapiens mais conhecida do gnero Homo  a que foi atribuda
a uma espcie morfolgica bastante diversificada que se expandiu amplamente:
Homo erectus. Essa espcie foi encontrada pela primeira vez no Extremo Oriente
e na China; mais recentemente, foi descoberta na frica do Norte, na frica
oriental e talvez no sul da frica. No h datao absoluta para os espcimes
da sia, embora tenha sido publicada uma data inferida para parte do material,
sugerindo que o Homo erectus ocorre em stios com 1.500.000 a 500 mil anos. A
datao dos stios da frica do Norte e do Sul onde se descobriu o Homo erectus,
foi igualmente inferida, situando-os aparentemente no Pleistoceno Mdio. Os
espcimes da frica oriental provm de stios onde foi possvel fazer dataes
fsico-qumicas, tendo sido datado de aproximadamente 1.600.000 de anos o
mais antigo exemplar de Homo erectus. Essa data to remota poderia indicar uma
origem africana para o Homo erectus, e muitos especialistas so favorveis  ideia
de que todos os testemunhos dessa humanidade descobertos fora do continente
africano seriam provenientes de populaes que teriam emigrado no incio do
502                                                    Metodologia e pr-histria da frica



Pleistoceno. Existem, no entanto, algumas novas datas, extremamente antigas,
para o Homo erectus de lava.
    Atualmente, no dispomos de material em quantidade suficiente para a
realizao de estudos gerais e sintticos. Entretanto, os dados existentes mostram
que essa espcie encontrava-se amplamente distribuda na frica, ocorrendo
tambm na sia e na Europa. Os fragmentos de membros indicam uma postura
ereta, adaptao para a marcha e bipedismo com caractersticas prximas s do
homem moderno. O grau de inteligncia pode ser avaliado, muito precariamente,
estimando-se o volume da caixa craniana. Tomando-se por base o material
conhecido, calcula-se o volume endocraniano entre 750 cm e 1000 cm para
o Homo erectus, enquanto para o Homo sapiens a mdia  significativamente
superior: 1400 cm.
    A tecnologia utilizada pelo Homo erectus pode ser inferida da observao
dos vestgios. O Homo erectus fabricava e usava instrumentos de pedra e vivia de
caa e coleta nas savanas, na frica. Os especialistas so unnimes em relacionar
o biface da indstria acheulense ao Homo erectus; esse tipo de material ltico 
distintivo e aparece em stios da frica, Europa e, em menor escala, da sia. Se
o Homo erectus  o estgio final de desenvolvimento que levou ao Homo sapiens 
fato ainda no comprovado. Portanto,  aconselhvel deixar a questo em aberto,
 espera de novas informaes sobre essa espcie.
    Antes de deixarmos o Homo erectus, apresentaremos rapidamente suas
caractersticas. Os traos mais caractersticos aparecem no crnio: as arcadas
supra-orbitrias proeminentes e espessas, a testa baixa e o formato do occipital.
Os dentes talvez constituam um outro trao distintivo, mas  possvel que outras
espcies morfolgicas da linhagem Homo tenham apresentado morfologia
dentria muito semelhante. O mesmo se diga da mandbula, cuja morfologia 
menos caracterstica do que em geral se supe. Alguns espcimes, que se alega
pertencerem ao Homo erectus e que consistem apenas em dentes e maxilares,
poderiam, na verdade, representar uma espcie morfolgica diferente dentro do
mesmo gnero.


      O gnero Homo (prsapiens): Homo habilis
    Os fsseis atribudos  linhagem Homo, mas anteriores ao Homo erectus,
limitam-se, atualmente,  frica oriental. As formas mais antigas talvez sejam
as de Hadar e Laetolil, que, embora requerendo ainda estudo mais aprofundado,
podem ser tidas como ancestrais de espcies mais recentes. Essa espcie
Os homens fsseis africanos           503




f igura 18.4 Cr nio de
Australopithecus boisei (OH5).
Vista lateral. Garganta de Olduvai,
Tanznia (Museus Nacionais do
Qunia).
Figura 18.5 Mandbula de
Australopithecus boisei (KNM-ER
729). Vista em face oclusiva. Koobi
Fora, Qunia (Museus Nacionais
do Qunia).
504                                                       Metodologia e pr-histria da frica



intermediria  se ela realmente o   poderia ser chamada Homo habilis. Sua
definio baseia-se em espcimes descobertos em Olduvai e, mais recentemente,
em Koobi Fora, na margem leste do lago Turkana.
    As principais caractersticas do Homo habilis seriam crebro relativamente
desenvolvido (podendo a capacidade craniana exceder 750 cm), crnio de ossos
relativamente pouco espessos com abbada alta, constrio ps-orbitria reduzida.
Os incisivos so relativamente grandes, os molares e pr-molares mais reduzidos, e a
mandbula apresenta um contraforte externo. Os elementos do esqueleto ps-craniano
tm caractersticas morfolgicas bastante semelhantes s do homem moderno.
    Os exemplares mais completos de Homo habilis provm de Koobi Fora, onde
foram descobertos vrios crnios, mandbulas e ossos longos. O crnio mais bem
conservado  conhecido como KNM-ER 1470 (Fig. 1).


      O gnero Australopithecus
    O problema da definio de eventuais espcies no gnero Australopithecus
est longe de ser resolvido; porm, penso que h suficientes evidncias na
formao de Koobi Fora para que se possam definir, com certa convico, duas
espcies desse gnero. A mais evidente, Australopithecus boisei,  bem tpica,
apresentando mandbulas macias, molares e pr-molares grandes em relao
aos caninos e incisivos, capacidade craniana inferior a 550 cm3; o dimorfismo
sexual revela-se por caractersticas externas do crnio, tais como cristas sagitais
e occipitais acentuadas nos indivduos do sexo masculino (Figs. 3 e 4). Os
elementos conhecidos do esqueleto ps-craniano  fmur, mero e astrgalo 
so, igualmente, caractersticos.
    Essa espcie distribua-se por ampla rea, tendo sido encontrada em Chesowanja,
Peninj e na garganta de Olduvai, situada na poro meridional do Rift Valley do leste
africano. Entretanto, no se pode afirmar com certeza que o A. boisei constitua uma
espcie; talvez venha a ser classificado como subespcie regional da forma sul-africana
do A. robustus. Novas descobertas podero trazer soluo a esses problemas, que
sempre apresentaro semelhantes sutilezas taxonmicas no campo da paleontologia
dos vertebrados. Portanto, parece prefervel, no momento, mantermos a hiptese da
existncia de duas espcies robustas aparentadas mas geograficamente separadas.
    Os testemunhos da presena de uma forma grcil de Australopithecus no leste da
frica so menos probantes. No entanto, o grau de variao parecer consideravelmente
grande se incluirmos todos os espcimes descobertos numa s espcie.
Os homens fsseis africanos         505




f igura 18.6 Cr nio de
Australopithecus africanus (KNM-
-ER 1813). Vista lateral. Koobi
Fora, Qunia (Museus Nacionais
do Qunia).
Figura 18.7 Mandbula de
Australopithecus africanus (KNM-
-ER 992). Vista em face oclusiva.
Koobi Fora, Qunia (Museus
Nacionais do Qunia).
506                                                       Metodologia e pr-histria da frica



    O melhor exemplar da forma grcil no leste da frica seria o espcime
KNM-ER 1813, encontrado na formao de Koobi Fora (Fig. 5). Diversas
mandbulas e alguns fragmentos do esqueleto ps-craniano poderiam
tambm ser associados a essa forma, no se devendo esquecer a dificuldade de
classificao das mandbulas. Nenhuma tentativa de definio dessas formas
grceis da frica foi proposta at o presente momento; contudo, devem-se
considerar a variabilidade das mandbulas com pr-molares e molares pequenos,
uma capacidade craniana de pelo menos 600 cm e cristas sagitais raramente
presentes ou inexistentes. O esqueleto ps-craniano parece ser comparvel ao do
A. boisei, embora em escala menor, sendo tambm menos robusto. Nas duas espcies,
um dos traos mais caractersticos  a epfise proximal do fmur: o colo  longo,
comprimido de frente para trs; a cabea  pequena e subesfrica. Haveria ainda
outros traos a serem definidos, mas pouco se sabe sobre a variao interna dessas
espcies, e a amostra no oferece possibilidade de concluses.
    No entanto, considero essa espcie muito prxima do A. africanus grcil da frica
do Sul, do qual poderia ser um fcies mais setentrional. Conhecemos o osso ilaco
do A. africanus e do A. robustus da frica do Sul, e pequenas diferenas puderam
ser notadas entre as duas formas. Nenhum espcime remanescente desse osso 
atribuvel ao Australopithecus na frica oriental; entretanto, o Homo est representado
por dois espcimes contemporneos, que mostram diferenas acentuadas entre os
dois gneros. Essas diferenas so maiores do que as que se poderia esperar no interior
de uma nica espcie, ainda que sua rea de distribuio fosse extensa.


      Utenslios e habitaes
    A maior quantidade de restos de utenslios e de stios de habitao provm
do lago Turkana (Qunia) , de Melka Kontur (Etipia) e da garganta de
Olduvai (Tanznia), onde foram feitas inmeras escavaes nos ltimos trinta
anos. A evoluo a partir dos mais rudimentares seixos trabalhados at os
complexos e aperfeioados bifaces est bem documentada nessa rea. Podem-
-se fazer algumas inferncias sobre a organizao social (tamanho do grupo) e
hbitos de caa, com base no material encontrado nesses stios. Em Olduvai,
descobriram-se restos de uma estrutura de pedra  talvez a base de uma cabana
circular  datados muito provavelmente de 1.800.000 anos. Em Melka Kontur,
foi descoberta uma plataforma elevada, tambm circular.
Os homens fsseis africanos                                                      507



    E difcil situar com preciso o incio das habilidades tcnicas dos homindeos;
pode-se, quando muito, sugerir que tenha aparecido durante o Pleistoceno, talvez
como uma resposta adaptativa, chave do processo de diferenciao do gnero Homo.
    Durante o Pleistoceno Inferior, por volta de 1.600.000 anos atrs, apareceram
instrumentos bifaces rudimentares. Sua evoluo a partir do seixo lascado pode ser
acompanhada em Olduvai e  confirmada por descobertas feitas em outros stios do
leste da frica. At recentemente, as mais antigas indstrias lticas encontradas na
Europa eram as de bifaces. Na minha opinio, os dados disponveis poderiam sugerir
uma migrao de grupos humanos que fabricavam bifaces, da frica para a Europa e
sia, no Pleistoceno Antigo ou mesmo um pouco antes. O desenvolvimento ulterior
das indstrias de pedra  bastante complexo, havendo testemunhos em abundncia
em todo o mundo. Ainda no foi provado, mas podemos levantar a hiptese de que
o aparecimento das indstrias ps-acheulenses est ligado  emergncia do Homo
sapiens. Indstrias lticas raramente se encontram associadas a restos de homindeos
primitivos, e muitos stios do Pleistoceno Mdio e Superior apresentam apenas um
ou dois espcimes, com algumas importantes excees, todavia.
    Extraordinrios progressos foram feitos nos ltimos anos no que diz respeito 
descoberta de testemunhos fsseis, e certamente novos dados sero revelados pelas
pesquisas em curso. Dispomos, no momento, de claras evidncias de uma considervel
diversidade morfolgica dos homindeos do Pliopleistoceno na frica, interpretada
como consequncia de uma diferenciao durante Plioceno, seguida de diferentes
tendncias evolutivas, que continuaram at incio do Pleistoceno. A presena
simultnea de pelo menos trs espcies na frica oriental pode ser determinada
com base no material craniano e ps-craniano. Qualquer reexame desta matria deve
incluir a anlise do conjunto dos fsseis descobertos.

Lista dos espcimes de Homo erectus descobertos na frica
Regio           Pas         Stio          Detalhes dos espcimes
Noroeste         Arglia      Ternifine      3 mandbulas e 1 fragmento de crnio
                              Sidi
Noroeste         Marrocos                    2 fragmentos de mandbula
                              Abderrahmane
Noroeste         Marrocos     Rabat          1 fragmento de mandbula e 1 crnio
Noroeste         Marrocos     Temara         Mandbula
                                             Crnio, alguns restos ps-cranianos
Leste            Tanznia     Olduvai
                                             e uma possvel mandbula
                 frica                      Um crnio incompleto e alguns
Sul                           Swartkrans
                 do Sul                      fragmentos de mandbula
508                                               Metodologia e pr-histria da frica



      Terminologia
   Os termos "Middle Stone Age, Early Stone Age, Late Stone Age" no
so traduzidos nesta obra, de acordo com a deciso tomada no 8o Congresso
PanAfricano de PrHistria e do Estudo do Quaternrio, realizado em Nairobi
(Qunia); em setembro de 1977, de manter, para a frica ao sul do Saara, a
terminologia inglesa.
Os homens fsseis africanos                                                       509
Perodos e Indstrias da Pr-Histria da frica (quadro de equivalncia elaborado por
H. J. Hugot).
A Pr-Histria da frica Oriental                                        511



                                    CAPTULO 19


           A Pr-Histria da frica Oriental
                                     J. E. G. Sutton




    A pesquisa prhistrica: introduo  metodologia
    Foi na parte oriental da frica que o homem surgiu, h aproximadamente
3 milhes de anos, como um animal de postura ereta fabricante de utenslios.
Por esse motivo, a histria dessa parte do mundo  mais longa do que a de
qualquer outro lugar; a Idade da Pedra, em particular, foi mais extensa que
em outros continentes e em outras regies da frica. Teve incio quando os
primeiros homindeos comearam a fabricar, de maneira regular, utenslios de
pedra reconhecveis enquanto tal, com formas e padres predeterminados. Essa
associao de capacidades fsicas e mentais para fazer utenslios  em outras
palavras, a superao de sua condio biolgica  e a crescente dependncia
dessas habilidades e atividades extrabiolgicas, ou seja, culturais, distinguem o
homem dos outros animais e definem a humanidade. A evoluo do homem para
um estgio de animal terrestre, capaz de sentar-se, de manter-se na postura ereta
e de locomover-se sobre os ps diferentemente dos macacos e outros mamferos
quadrpedes e quadrmanos  facilitou o uso e a fabricao de utenslios por
liberar os braos e as mos para segurar, carregar, agarrar e manipular. Alm
disso, essa evoluo foi necessria para a sobrevivncia e o progresso do homem
no mundo, especialmente na obteno e preparao dos alimentos. Cada nova
gerao tinha de aprender as habilidades culturais e tcnicas e os conhecimentos
512                                                       Metodologia e pr-histria da frica




figura 19.1   A pr-histria na frica Oriental (1974).




acumulados por seus pais.  possvel que os primeiros utenslios feitos pelo
homem continuem desconhecidos, pois, por serem to rudimentares e to
pouco distinguveis de objetos naturais, no podem ser reconhecidos.  tambm
provvel que outros materiais, que se teriam decomposto sem deixar vestgios,
como a madeira, o couro e o osso, fossem usados e trabalhados pelo menos na
A Pr-Histria da frica Oriental                                              513



mesma poca que a pedra. Entretanto, os progressos no emprego desses outros
materiais devem ter sido limitados, at o momento em que o homem tivesse
dominado a tcnica bsica de produzir com regularidade um utenslio cortante,
de gume afiado, batendo e quebrando com preciso uma determinada pedra com
outra pedra ou com um objeto duro apropriado.
   Portanto, a fabricao de utenslios  e a humanidade  podem ter comeado
antes da data sugerida pelos testemunhos abalizados de que dispomos sobre
aqueles importantes desenvolvimentos. Esses testemunhos consistem nos
primeiros utenslios lticos identificveis, marco inicial da Idade da Pedra, assim
chamada por conveno.
   A Idade da Pedra iniciou-se h aproximadamente 3 milhes de anos e
durou at uma fase bem mais recente da histria humana, quando a pedra foi
substituda pelo metal enquanto material bsico para o desenvolvimento de uma
tecnologia, para a fabricao de utenslios e para a produo de gumes afiados. A
transio de uma indstria da pedra (ou ltica) para uma outra, do metal, deu-
-se em pocas ligeiramente diferentes nas diversas partes do mundo. Na sia
ocidental, as tcnicas de trabalhar o cobre comearam a ser utilizadas entre 6 e
9 mil anos atrs. Na frica oriental, o ferro, primeiro e nico metal usado com
regularidade, comeou a ser trabalhado h aproximadamente 2 mil anos.
   Podemos questionar, do ponto de vista histrico, a validade da expresso
"Idade da Pedra", por designar um perodo que cobre os 999 milsimos do
tempo de permanncia do homem na frica oriental, e por enfatizar, ademais,
o aspecto tecnolgico do desenvolvimento humano, em detrimento dos aspectos
econmicos e culturais de carter mais geral. Pode-se argumentar que uma tal
expresso  ampla demais do ponto de vista cronolgico, e por demais restrita
do ponto de vista cultural. Mas  possvel responder a essas objees, e "Idade
da Pedra" continua sendo uma expresso e um conceito vlidos, tendo em
conta certos fatores. Assim, como esse longo perodo s  conhecido atravs
de testemunhos arqueolgicos  ainda assim parciais, porque nada restou seno
pedras  e no atravs da tradio oral ou de documentos escritos, precisaram os
historiadores criar um nome, ou nomes, para design-lo, estud-lo e descrev-lo.
   Por outro lado, a Idade da Pedra no foi um perodo esttico da histria. A
evoluo tecnolgica durante o Paleoltico e o Neoltico  facilmente demonstrada
pela transformao e diversificao dos utenslios de pedra, pela maior eficcia
do instrumental ltico, bem como de seus mtodos de fabricao.  possvel,
portanto, e mesmo necessrio, dividir a Idade da Pedra em perodos e introduzir-
-lhes subdivises complementares cronolgicas e geogrficas. Pode ser fascinante
olhar colees de utenslios de pedra, especialmente se bem selecionados e
514                                                  Metodologia e pr-histria da frica



apresentados com habilidade; porm, se no forem organizadas e compreendidas
em funo de uma cronologia e de um estgio de desenvolvimento, essas colees
tero pouco a dizer. Expresses populares como "vivendo na idade da pedra" e
"homem da idade da pedra" tornam-se igualmente vazias de sentido, quando
baseadas na falsa ideia de que o homem e seu modo de vida permaneceram
estticos naquela poca histrica. Com efeito, o instrumental das populaes da
Idade da Pedra diferia conforme o perodo e a regio, e as prprias populaes
evoluam cultural e fisicamente. A Idade da Pedra foi testemunha de mutaes
e diferenciaes no corpo e no crebro humanos, na economia, na organizao
social e na cultura, a par do desenvolvimento tcnico revelado por testemunhos
arqueolgicos. Convm observar que, se as mudanas em todos os perodos da
Idade da Pedra foram lentas em relao aos padres modernos, nos primeiros
tempos o foram ainda mais. Essas mudanas so tanto mais rpidas quanto mais
nos aproximamos da poca atual. Assim, o perodo mais recente da Idade da
Pedra foi o momento de uma maior especializao e diversificao regionais.
Algumas vezes, caractersticas lentamente desenvolvidas em um determinado
local aparecem sob forma acabada em outra regio  em consequncia de
migraes ou contatos culturais , dando a ideia de que nesta ltima tivesse
ocorrido uma "revoluo". Desse modo, em termos de desenvolvimento, duas
ou trs geraes do fim da Idade da Pedra poderiam equivaler a meio milho
de anos no perodo inicial.
    Constatamos, ento, que o estudo histrico da Idade da Pedra no se limita
s pedras e aos utenslios. Ocasionalmente, o arquelogo tem a sorte de fazer
outras descobertas, sobretudo em stios de habitao do fim da Idade da Pedra
onde se preservaram testemunhos diretos de cozinha e de alimentos, sob a forma
de pedaos de carvo, vestgios de fogueiras e fragmentos de ossos de animais.
Restos orgnicos primitivos so extremamente raros na frica, exceto em alguns
stios onde as condies minerais favorveis provocaram a fossilizao de ossos
antes que estes se decompusessem. Mas mesmo dispondo apenas de pedras,
o arquelogo deve tentar estender suas dedues e interpretaes a domnios
mais amplos.
    Em primeiro lugar, importa no o utenslio descoberto e examinado
isoladamente, mas o conjunto dos utenslios encontrados em um stio  de que
constam diferentes variedades de objetos  quer tenha sido este o local de
habitao de um grupo, um acampamento temporrio de caadores, ou uma
"oficina" onde se fabricavam utenslios.
    Muito mais comuns que os utenslios acabados so as lascas da debitagem e
os ncleos de pedra (respectivamente, fragmentos lascados da massa primitiva
A Pr-Histria da frica Oriental                                                515



durante a fabricao, e restos de lascamento). O estudo desses restos deve ser
feito juntamente com o dos utenslios acabados, pois eles indicam as tcnicas
de fabricao e o nvel de habilidade alcanado. Alm do mais, nem sempre
eram jogados fora; muitas vezes, sobretudo nos primeiros estgios da Idade da
Pedra, vrias dessas lascas, como tivessem bordos cortantes e tamanho e forma
adequados ao manejo fcil, poderiam vir a complementar os utenslios acabados
mais macios, constituindo, assim, parte integrante do instrumental. A coleta
e o estudo que se restringem aos produtos mais elaborados, como os bifaces e
machadinhas, trazem uma viso limitada e bastante distorcida da tecnologia
e das atividades das populaes pr-histricas. Nos perodos mais recentes da
Idade da Pedra, os instrumentos pesados do tipo biface foram substitudos
por outros menores, mais delicados e precisos, produzidos frequentemente de
modo a se fixarem em cabos de madeira ou punhos de osso, aps uma hbil
preparao do ncleo seguida de complicados retoques na lmina ou lasca
extrada. Tambm nesse caso, para anlises e dedues proveitosas,  essencial
dispor de um conjunto to completo quanto possvel de peas acabadas e de
resduos de debitagem.
    A variedade de utenslios de pedra com seus diversos tipos de gumes e
pontas  para cortar, aparar, esfolar, raspar, furar, entalhar, bater, fender e cavar
 permitir (mesmo levando em conta certas dvidas inevitveis quanto s
suas verdadeiras finalidades e usos) determinar a existncia de outros utenslios
feitos com materiais perecveis de origem animal e vegetal, utilizados por uma
comunidade. Por exemplo, as peles de animais, depois de limpas de toda a gordura,
secas e curtidas, poderiam ser cortadas para fabricar cordas e correias. Vrios
instrumentos, armas de madeira e de pedra deveriam tambm ser necessrios
para capturar, matar e retalhar animais. As correias podiam ser combinadas
com instrumentos de pedra, servindo para atar projteis usados na caa, ou para
fixar,com o auxlio de uma resina vegetal, uma lmina de pedra ou uma ponta na
extremidade de uma haste de madeira, a modo de lana ou flecha. Alm dessas
armas,  possvel reconstituir, a partir do estudo dos vestgios lticos do fim da
Idade da Pedra, utenslios compsitos comuns, que consistiam de pequenas
lascas e lamelas de pedra, minuciosamente trabalhadas, cuidadosamente fixadas
e coladas em punhos e cabos de madeira ou de osso, embora no existam
testemunhos diretos dos elementos de osso e madeira. Contudo, antes mesmo
de serem combinados, os utenslios de pedra e de madeira mais rudimentares
j eram interdependentes. Por exemplo, uma lana de madeira poderia ser
cortada no comprimento exato com uma faca de pedra, mas certamente teria
de ser desbastada e aplainada com um raspador de pedra ou qualquer outro
516                                                    Metodologia e pr-histria da frica



instrumento utilizado para desbastar  talvez mesmo com uma correia de couro
ou de fibra vegetal  antes de estar pronta para o manejo e arremesso. Alm
disso, a preparao da ponta da lana devia requerer instrumentos de pedra
afiados; em seguida, ela seria enrijecida ao fogo, como indicam alguns espcimes
encontrados. No perodo mais recente da Idade da Pedra, o encaixe bem-feito de
uma ponta de pedra em uma lana de madeira dependia de um delicado trabalho
de desbaste e de entalhe executado com instrumentos de preciso.
    Esses so alguns exemplos do que  possvel se obter de um estudo inteligente
e imaginativo do instrumental ltico, para desfazer sua imagem petrificada e
torn-la mais vivo. Seria possvel estabelecer o mesmo tipo de relaes no que
diz respeito aos usos da madeira e das peles na fabricao de tendas e abrigos,
Aqui, como no caso dos utenslios e armas que acabamos de citar, extrapolamos
o ponto de vista tecnolgico restrito para propor uma interpretao econmica e
cultural mais ampla dos espcimes descobertos e reconstituir a vida das diferentes
comunidades de caadores-coletores dos vrios perodos da Idade da Pedra.
    Um ponto importante a ser notado  que durante a Idade da Pedra a maioria
dos utenslios, mesmo os de pedra, no eram armas. Embora a caa tivesse sido
sempre de grande valor como fonte de protenas (exceto nos locais onde havia
peixe em abundncia e se conheciam meios para fisg-las), a coleta de alimentos
vegetais, em particular razes feculentas e tubrculos, era igualmente importante
e assegurava o essencial do regime alimentar. A maior parte dos utenslios era
fabricada para essas atividades, para uso domstico em geral e para trabalhar a
madeira.
    As dificuldades do transporte da gua deviam restringir consideravelmente a
escolha de locais de acampamento. Um acampamento temporrio de um grupo
familiar tinha de estar situado perto de um curso d'gua ou de um lago. Em
um stio desse tipo haveria, naturalmente, vegetao mais abundante e maior
variedade de alimentos, atraindo assim a caa.
    Numa abordagem que combine bom senso e imaginao, o estudo das
tcnicas da Idade da Pedra pode contribuir para a reconstituio das condies
econmicas e culturais da poca. No podemos negar, entretanto, que as
evidncias so escassas, mesmo para o perodo mais recente da Idade da Pedra
na frica oriental, e que as tentativas de uma interpretao mais ampla so
inevitavelmente especulativas.  preciso, certamente, resistir a conjeturas
tericas audaciosas. Todavia, aceita essa colocao, de nada adianta lamentar
a escassez dos restos fsseis disponveis; vale mais estud-los com inteligncia
e imaginao para determinar que fatos e ideias podem ser deduzidos a partir
A Pr-Histria da frica Oriental                                             517



deles. Tal procedimento cria estmulos para novas abordagens e para a busca de
outros documentos.
    A seguir, examinaremos algumas das maneiras possveis de obter informaes
adicionais e chegar a concluses mais interessantes.
    Como j mencionamos, encontram-se ocasionalmente ossadas de animais
fossilizados em certos stios antigos, e restos sseos no fossilizados em stios
recentes, principalmente em abrigos sob rocha. So testemunhos diretos das
variedades de animais que eram caados e consumidos. Por vezes o exame
minucioso dos ossos no sentido de se encontrar marcas de instrumentos e
de fraturas, e mesmo da forma como esto distribudos no local onde foram
encontrados pode indicar como o animal foi abatido e consumido. No entanto,
mesmo essas evidncias diretas podem representar apenas uma parte da histria.
Por exemplo,  possvel que pequenos mamferos, rpteis, pssaros e insetos
tenham sido capturados; no existe, entretanto, nenhum trao deles, seja porque
seus ossos ou partes duras eram frgeis demais para subsistir, seja porque o
caador devorou essas presas to pequenas no local da captura em vez de lev-
-las para o acampamento. O mesmo pode ter ocorrido com o mel, frutas, bagas,
nozes e mesmo ovos de pssaros; consumidos no prprio local, dispensavam
o uso de utenslios de pedra para sua coleta e preparo. Na verdade, restos de
alimentos vegetais pr-histricos so raramente descobertos. No entanto, o
regime alimentar das populaes primitivas de caadores-coletores deve ter
sido relativamente equilibrado; uma reconstituio plausvel deste regime deve
ser igualmente equilibrada, fazendo-se uma avaliao inteligente tanto das
evidncias arqueolgicas quanto dos recursos alimentares que o meio ambiente
local pde oferecer.
    Em certas regies (por exemplo, na regio central da Tanznia), os testemunhos
arqueolgicos do modo de vida dos grupos de caadores-coletores do fim da
Idade da Pedra so notavelmente complementados por pinturas rupestres. Sem
contar a habilidade tcnica, senso artstico e maturidade demonstrados em muitas
dessas pinturas, encontramos dados valiosos sobre os tipos de animais caados
assim como sobre os mtodos de caa com lana, arco e flecha e sobre os diversos
tipos de armadilhas. J outras tcnicas para a obteno de alimentos, como a
de arrancar razes e a de recolher o mel, so mais raramente representadas. A
pintura rupestre concorre para dar maior clareza e ampliar nossa viso da vida
pr-histrica, especialmente porque algumas das atividades representadas podem
ser comparadas com as prticas recentes ou atuais de povos da frica oriental.
    As informaes que essa arte nos fornece tm de ser confrontadas com
o material tcnico de finalidade econmica ou cultural. Uma vez esboado
518                                                    Metodologia e pr-histria da frica



um quadro referencial, podemos levantar questes e fazer conjeturas sobre os
mtodos de caa, de coleta, de preparao de armadilhas; sobre o tamanho do
grupo de caadores e, indo mais alm, sobre a comunidade como um todo,
sua rea territorial e o tipo de organizao social que criou para se manter.
A comprovao dessas conjeturas encontra-se ainda em estgio experimental,
de modo que as respostas s questes levantadas raramente se exprimem com
total segurana. No entanto, foram alcanados indiscutveis progressos, cuja
continuidade depende fundamentalmente de testemunhos arqueolgicos
provenientes de diversos stios. , portanto, necessrio que a coleta desses
testemunhos se opere segundo os mtodos mais sistemticos, mais cuidadosos
e, se possvel, mais sofisticados.
    No so raros, na frica oriental, jazidas em que aparecem indstrias lticas.
Foram descobertas a partir do incio do sculo XX. Aps o trabalho pioneiro
de levantamento realizado pelo Dr. Louis Leakey no Qunia na dcada de
20, um nmero cada vez maior de stios de todos os perodos da pr-histria
foram descobertos na frica oriental; muitos ainda sero certamente revelados.
So, em geral, expostos pela eroso ou por outras perturbaes do terreno.
Utenslios e resduos de preparao so carregados pela gua para ravinas, leitos
de rios ou abrigos sob rocha, ou ento, trazidos  superfcie pelo cultivo da
terra, pela passagem de rebanhos ou por trabalhos de construo. Esses stios
e objetos so descobertos no apenas por arquelogos profissionais, mas  na
maior parte dos casos  por amadores, fazendeiros, estudantes, etc. A descoberta
de um stio, qualquer que seja,  muito importante e deve ser comunicada s
autoridades competentes. Todos os utenslios e outros materiais arqueolgicos
encontrados devem ser guardados em museus, onde estaro disponveis para
estudo e comparao com outras colees locais. O hbito dos arquelogos
estrangeiros de levar suas descobertas para os museus de seu pas de origem
nunca prevaleceu no caso particular da frica oriental e, felizmente, j cessou.
Apesar de algumas colees de material recolhido no incio deste sculo na
frica oriental se encontrarem em museus europeus, a maior parte e, sem dvida,
os mais valiosos restos arqueolgicos esto nos museus nacionais dos pases onde
foram descobertos.
    Uma coleo de superfcie, por si s, nos revela muito pouco, uma vez que
os utenslios e os resduos de preparao foram removidos de seu stio original
e que a prpria coleta , geralmente, seletiva. Porm, mesmo uma pequena
coleo de superfcie poder fornecer-nos alguns indcios: o tipo ou o modo de
fabricao dos utenslios informaro sobre "O perodo ao qual pertencem e sobre
A Pr-Histria da frica Oriental                                             519



sua relao com outros stios conhecidos. Isso ajudar a determinar o interesse
de investigaes e escavaes mais detalhadas e completas.
    As escavaes devem ser planejadas e empreendidas por arquelogos com
experincia no tipo de stio em questo. Todavia, como j dissemos, arquelogos
especializados dependem das informaes locais fornecidas por amadores ou
estudantes. Estes ltimos podem, ainda, auxiliar nas escavaes, iniciando-se,
assim, nesse tipo de trabalho. Somente atravs do emprego de mtodos corretos,
de tcnicas modernas de escavao e de exame dos vestgios, tanto no seu lugar
de origem quanto aps seu registro e remoo,  que o arquelogo ter condies
de coletar, num stio, um mximo de informaes, e de elaborar um quadro,
se no exaustivo, ao menos o mais completo possvel das atividades de que
o local foi palco. Deve-se ressaltar que alguns dos trabalhos de escavao em
stios da Early Stone Age na frica oriental empreendidos nos ltimos anos
contriburam para estabelecer um modelo de pesquisa para outras partes do
mundo, em termos de mtodo, anlise e interpretao.
    Nas escavaes, o interesse do arquelogo no se limita  descoberta de
espcimes isolados; para ele, importa mais a busca do maior nmero possvel de
dados sobre o modo de vida de uma comunidade antiga, atravs da identificao
e do estudo exaustivo da maior parte do "conjunto cultural", e da coleta de
toda informao disponvel sobre o meio ambiente. Esse trabalho pode exigir
mtodos de escavao meticulosos e muito lentos, de vez que todos os objetos
devem ser coletados, e todas as caractersticas do solo de um stio de habitao,
mesmo as pequenas irregularidades da superfcie ou mudanas de cor do
solo, que poderiam ser indcios do uso do fogo ou de alguma outra atividade,
devem ser registradas. Em geral,  necessrio peneirar o solo dos locais onde h
possibilidade ou certeza de existirem pequenos objetos, como lascas de pedra,
fragmentos de ossos e at mesmo sementes vegetais. Essa prtica  muito
frequente em abrigos sob rocha recentes, onde os depsitos tendem a ser mveis
e semelhantes a cinzas. Habitualmente em abrigos sob rocha, e com frequncia
em stios ao ar livre, os materiais no representam apenas uma ocupao, mas
vrias ocupaes sucessivas. Cada uma delas deixou seus restos sobre a camada
de restos da anterior, requerendo, assim, um estudo  parte. Portanto, o escavador
tem de dar uma ateno especial  estratigrafia, pois a interpretao resultaria
lamentavelmente distorcida no caso de um objeto de determinado perodo de
ocupao misturar-se aos de outro perodo.
    Embora a responsabilidade de identificar, registrar e estudar todas as
descobertas caiba ao prprio arquelogo, ele necessita da assistncia de outros
cientistas. Esta pode intervir ulteriormente em laboratrio, por exemplo,
520                                                    Metodologia e pr-histria da frica



para a identificao de ossadas animais. Do mesmo modo, se o arquelogo
encontrar restos vegetais que se preservaram, como sementes, nozes ou pedaos
de madeira carbonizados, precisar envi-los a um especialista em botnica,
aps submet-los a tratamento especial no prprio local. A identificao e o
estudo de amostras desse tipo contribuiro para aumentar as informaes sobre
o regime alimentar e a economia da comunidade, bem como sobre o meio
ambiente daquela poca. Se, por sorte, forem encontrados plens fsseis, um
exame palinolgico pode dar uma ideia da vegetao ento existente e das
mudanas que ela sofreu. Podem tambm ser reveladoras as amostras de solos
que contm microrganismos ou conchas de moluscos, pois estes seres ajudam a
identificar o tipo de vegetao dominante e, em consequncia, o clima da poca.
O estudo da geologia, da geomorfologia e da estrutura dos solos tambm 
til para a tentativa de reconstituio do meio ambiente antigo e dos recursos
que uma comunidade pr-histrica poderia explorar.  bvio que grande parte
dessa investigao, para ser profunda e confivel, deve aproveitar a presena de
diferentes especialistas no stio de escavao, ao menos durante uma parte do
tempo, pois no so apenas as amostras colhidas e levadas para os laboratrios
que contm indcios. As amostras devem ser cuidadosamente selecionadas e
controladas no prprio stio. Grandes modificaes podem ter ocorrido na
paisagem entre o perodo estudado e a poca atual, como consequncia de
alteraes climticas, movimentos geolgicos ou, mais frequentemente ainda,
devido  atividade humana,  sobretudo a agricultura e o desmatamento  em
pocas recentes. A abordagem do passado deve ser feita sempre atravs de um
estudo inteligente do stio no estado em que foi encontrado e de todos os
vestgios, arqueolgicos ou no, que ele contm.
    H diversos outros estudos relacionados  pesquisa arqueolgica que, se no
apresentam evidncias diretas do perodo pr-histrico, podem, indiretamente,
fornecer preciosos esclarecimentos. Em primeiro lugar, temos a pesquisa
antropolgica realizada nas poucas comunidades de caadores-coletores ainda
existentes no mundo, especialmente as da frica. De fato, muitas das consideraes
tecidas acima foram sugeridas explcita ou implicitamente pelo modo de vida
dos atuais caadores-coletores, como os Hadza da Tanznia setentrional e os San
do Calaari, que vm sendo objeto de interesse dos pesquisadores nos ltimos
anos. Os hbitos dos Hadza e dos San fornecem muitas indicaes teis sobre
a viabilidade, organizao e limitaes de um modo de vida baseado na caa
e na coleta; alm disso, sugerem inmeros pontos que teriam, de outra forma,
escapado  ateno dos arquelogos. Todavia, estaramos incorrendo em grave
A Pr-Histria da frica Oriental                                             521



erro se considerssemos essas comunidades como rplicas exatas das sociedades
da Idade da Pedra, ou como simples remanescentes dessa poca.
     bem verdade que o modo de vida de certos grupos modernos de caadores-
-coletores, principalmente dos San do sul da frica, ainda reflete as condies
das populaes da Late Stone Age e pode, portanto, esclarecer alguns problemas
daquele perodo. No contexto da Late Stone Age, por exemplo,  comum
descobrirem-se pedras nas quais foi praticado um orifcio circular. Atualmente,
os San por vezes utilizam pedras perfuradas como lastro para bastes de
madeira apontados que servem para desenterrar razes comestveis; existem
pinturas rupestres na frica do Sul que aparentemente representam essa prtica.
Entretanto, correlaes especficas como essa so raras. A sociedade San sofreu
algumas modificaes por diversos motivos, inclusive pelo contato prximo
ou remoto com povos que utilizavam o ferro e viviam em uma economia
de produo de alimentos. Poucos San continuam a trabalhar a pedra com
regularidade, pois  possvel obter o ferro atravs de troca ou em sucatas, fato
que leva a inevitveis mudanas nos nveis tecnolgico e cultural. Outros
grupos sobreviventes de caadores-coletores misturaram-se mais intimamente
a populaes produtoras de alimentos; outros, ainda, no so verdadeiramente
aborgines; tendo retornado, nos ltimos tempos, a esse modo de vida, subsistem
graas  troca de produtos da floresta com seus vizinhos agricultores e pastores.
Essa dependncia recproca  caracterstica de muitos grupos, conhecidos sob
a denominao de Dorobo, que ainda habitam as terras altas do Qunia e da
Tanznia. Esses exemplos mostram os riscos de se estabelecer paralelos entre
as populaes atuais de caadores-coletores e as da pr-histria recente, riscos
que se multiplicam quando estudamos pocas ainda mais remotas. Apesar disso,
podemos obter informaes valiosas sobre os recursos alimentares do territrio
e a organizao necessria  sua explorao.
    Outra inestimvel fonte de informaes  o estudo da vida e das
sociedades de primatas, particularmente dos atuais parentes mais prximos
do homem, o chimpanz e o gorila, assim como dos babunos. Estes ltimos
no so biologicamente to prximos do homem, mas, do ponto de vista do
comportamento, so de especial interesse para o estudo da sociedade humana.
Mais que os outros primatas, os babunos vivem a maior parte do tempo
em grupos, no solo, sendo relativamente fcil observ-los, Como j foi dito
anteriormente, o homem no descende desses macacos, e no estamos sugerindo
aqui que quaisquer comunidades pr-histricas, nem mesmo as mais antigas,
estivessem significativamente mais prximas deles do que o homem moderno.
Todavia, ao estudar o comportamento bsico dos primatas e os hbitos que
522                                                   Metodologia e pr-histria da frica



o homem herdou de seus ancestrais pr-humanos, e ao tentar compreender
como esses ancestrais imediatos do homem, que no tinham a capacidade ou
o costume de fabricar utenslios, asseguravam sua subsistncia essencialmente
vegetariana, constatamos que h muito a se aproveitar desses estudos de campo,
realizados em sua maioria na frica oriental.
   Como j fizemos notar, a pr-histria foi extremamente longa e, ao fim
desse perodo, as populaes humanas j haviam alcanado grandes progressos,
diferenciando-se bastante de seus ancestrais dos primeiros tempos. Alm disso,
os habitantes da frica oriental na Late Stone Age, alguns dos quais subsistiram
at pocas bem recentes, eram nitidamente africanos. Uns aparentavam-se aos
San, outros foram assimilados s populaes negroides da Idade do Ferro. Por
outro lado, as populaes da Early Stone Age, em especial as do seu estgio
mais antigo, embora bem representadas na frica oriental e, por longo tempo,
s conhecidas nessa regio, foram tambm os ancestrais de toda a humanidade.
Esses primitivos fabricantes de utenslios de pedra, cujas ossadas foram
descobertas nas camadas mais profundas da garganta de Olduvai (norte da
Tanznia) e na regio do lago Turkana (norte do Qunia e sul da Etipia), so
geralmente classificados como Homo, embora diferissem do homem moderno
(Homo sapiens sapiens) tanto no corpo quanto no crebro. A antiga histria da
frica oriental confunde-se, portanto, com a histria da humanidade, fato que
lhe confere uma importncia universal. Por encerrar informaes inestimveis
sobre o homem primitivo, sua cultura e a ecologia dos primatas, a frica oriental
tornou-se merecidamente o centro mundial das pesquisas sobre a vida, o meio
ambiente e a origem do homem.


      Cronologia e classificao
   Enquanto na maior parte da sia, Europa e da frica do Norte a Idade da
Pedra foi dividida convencionalmente em Paleoltico, Mesoltico e Neoltico,
esse sistema foi abandonado pela maioria dos especialistas para a frica ao sul
do Saara. Nessa regio, a "Stone Age"  considerada e estudada em trs grandes
perodos  Early, Middle e Late  que se distinguem em grande parte por
mudanas importantes e caractersticas na tecnologia (que tm, obviamente,
implicaes culturais e econmicas mais amplas). Esses sistemas de classificao
no so duas maneiras de dizer a mesma coisa; tanto do ponto de vista conceptual
quanto do cronolgico, os critrios de classificao so completamente diferentes
(ver Quadro e notas correspondentes).
A Pr-Histria da frica Oriental                                              523




figura 19.2    frica oriental: principais jazidas da Idade da Pedra (1974).
524                                                        Metodologia e pr-histria da frica



      Os trs perodos da frica so datados aproximadamente da seguinte maneira:
         a)   Early Stone Age (ou Old Stone Age): da poca dos primeiros utenslios de
              pedra (isto , h 3 milhes de anos) at por volta de 100 mil anos atrs.
         b)   Middle Stone Age: de aproximadamente 100 mil anos at 15 mil anos atrs.
         c)   Late Stone Age: de 15 mil anos atrs at o incio da Idade do Ferro (que
              ocorreu h 2 mil anos na maioria das regies).
    Devemos enfatizar que essas datas so aproximadas e tm causado
controvrsias. At recentemente, sugeriram-se datas em geral mais tardias para
a transio da Middle Stone Age  Late Stone Age e, em particular, para a
transio da Early Stone Age  Middle Stone Age. Essa atitude conservadora
devia-se, em parte,  raridade de stios e de colees lticas satisfatoriamente
definidos, descritos e datados, aliada ao fato de ter a primeira transio (da
Early para a Middle Stone Age) ocorrido em uma poca cuja data no pode
ser estabelecida com preciso pelo mtodo do radiocarbono. Embora tenham-se
obtido (e sejam frequentemente mencionadas) dataes entre 50 e 60 mil anos,
 provvel que se trate de datas mnimas, e no de datas estritamente exatas.
Na verdade, a cronologia detalhada no s do incio da Middle Stone Age, mas
tambm de toda a ltima parte da Early Stone Age,  ainda bastante incerta.
Novas tcnicas de datao, explicadas em outra parte deste volume, esto sendo
testadas. O mtodo do potssio-argnio, em particular, j ajudou a traar um
quadro cronolgico aproximativo para perodos de mais de meio milho de anos.
No entanto,  sempre necessrio recorrer  datao relativa, deduzida a partir da
estratigrafia arqueolgica ou geolgica e da tipologia.
    Por esses motivos, as datas aqui sugeridas para a diviso da Idade da Pedra
em perodos so mais antigas que as datas encontradas comumente em estudos
anteriores, mas no to radicais quanto alguns estudiosos do assunto gostariam
que fossem. Mesmo a escola "revisionista"  menos radical do que aparenta, pois
as questes que levanta esto relacionadas mais com definies que com datas
reais.
    Alm de se ter em conta que as datas para a diviso da Idade da Pedra em
Early, Middle e Late so imprecisas e controvertidas,  importante no esquecer
que esses perodos no foram estticos e indiferenciados, e que as mudanas de
um para outro no se deram repentinamente. Desenvolvimentos tiveram lugar
tanto no decorrer de cada um dos trs perodos quanto na passagem de um
para outro. Ademais, as transies entre as tecnologias prprias de cada um so
complexas. Por esse motivo, alguns autores falam de perodos "intermedirios".
Entretanto, a tendncia atual  no consider-los como perodos "oficiais" no
A Pr-Histria da frica Oriental                                             525



quadro cronolgico da Idade da Pedra. De qualquer modo, o Second Intermediate,
entre a Middle Stone Age e a Late Stone Age, sempre foi definido de modo
muito pouco satisfatrio. O First Intermediate, que compreende as indstrias
conhecidas como Fauresmithiense e Sangoense,  por vezes considerado como
uma fase final da EarIy Stone Age. Neste estudo, todavia, ns o inclumos na
Middle Stone Age, o que explica a datao mais recuada para o incio desse
ltimo perodo.
    O abandono dos "Intermediates"  mera questo de convenincia e no
significa uma simplificao dos quadros relativos ao desenvolvimento tecnolgico,
cultural e econmico do homem na pr-histria. O que se tem admitido 
exatamente o contrrio. Em primeiro lugar, durante todas as pocas da Idade
da Pedra, diferentes tecnologias puderam ser empregadas simultaneamente,
mesmo no interior de reas restritas. Em certos casos, esses contrastes podem ser
explicados pelas diferenas do meio ambiente. Determinada tradio tecnolgica
poderia surgir em regies florestais ou nas margens dos cursos d'gua, e uma
outra, distinta, poderia aparecer simultaneamente em reas mais secas ou com
vegetao menos densa, onde as fontes de alimento e os mtodos para obt-lo
teriam imposto uma tecnologia e um ajustamento cultural diferentes.1 Contudo,
uma explicao correta nem sempre  to evidente. Por vezes, as atividades de
uma nica comunidade, algumas delas temporrias (caa de animais de pequeno
e grande porte, preparao de armadilhas, coleta de razes e tubrculos, trabalho
da madeira e do couro, etc.), parecem suficientemente variadas para explicar a
presena de diferentes tipos de utenslios de uma mesma poca em determinada
localidade. Por outro lado, pode haver diferenas que indicam divergncias
culturais e especializaes econmicas, muito mais profundas, que se atribuem
presumivelmente a comunidades ou raas distintas  ou, durante a Early Stone
Age, a diferentes espcies de Homo. O assunto  controvertido, mas as descobertas
mais recentes na frica oriental mostram que duas culturas antes consideradas
como dois perodos distintos da Old Stone Age  as indstrias de seixos lascados
(ou Olduvaiense) seguidas por, ou se transformando em indstrias de bifaces
(ou Acheulense)  coexistiram por um longo perodo, que durou pelo menos
meio milho de anos.  difcil justificar essa constatao de maneira satisatria
com a "teoria do modo de atividade". Alguns estudiosos interpretariam essas
duas indstrias como indcios de tradies culturais distintas de dois grupos
separados, vivendo lado a lado e explorando recursos alimentares diferentes.


1    Ver em particular, a exposio sobre a Middle Stone Age, mais adiante.
526                                                     Metodologia e pr-histria da frica



    Ademais, observam-se por vezes justaposies das divises arbitrrias entre
a Early Stone Age, Middle Stone Age e Late Stone Age.  possvel encontrar
utenslios caractersticos da Early Stone Age ou evidncias da utilizao de
tcnicas primitivas de fabricao em um contexto tpico da Middle Stone Age. A
coexistncia de caractersticas inovadoras e conservadoras pode representar uma
mudana gradativa, mas nem sempre  possvel encontrar sinais de transio. Em
alguns stios com sequncia estratigrfica ntida, pode ocorrer o aparecimento de
uma tecnologia nova plenamente desenvolvida, sem nenhum trao de evoluo
local. Esse fato sugere a difuso cultural de uma regio para outra, que pode ser
(embora no necessariamente) resultado da migrao de populaes. As alteraes
climticas, com seus efeitos sobre o meio ambiente, tambm constituram um
estmulo para a adaptao cultural e o avano tecnolgico; neste caso, todavia,
o arquelogo deve se precaver contra interpretaes deterministas simplistas.
    Essa diviso bastante arbitrria da Idade da Pedra  um sistema de referncia
til no estgio atual dos nossos conhecimentos; deve, no entanto, guardar certa
flexibilidade para que possa sofrer constantes modificaes.  possvel que, no
futuro, esse sistema venha a perder sua utilidade, carter que j poder estar
comprometido por uma aplicao muito formal ou muito rgida com finalidades
para as quais ele no foi previsto.
    No Quadro da p. 527 apresentamos um esquema mais detalhado para ilustrar
a maneira pela qual as diversas culturas e as indstrias lticas da Idade da Pedra,
reconhecidas por arquelogos na frica oriental, se enquadram nessa diviso
em trs perodos. Esse quadro se prope a servir de guia para os conhecimentos
atuais e para os principais estudos em curso e no tem a pretenso de ser a
interpretao "correta" nem de permanecer inalterado diante dos resultados de
futuras pesquisas ou do reexame de trabalhos j realizados. Deve ser considerado
simplesmente como um guia, e um guia flexvel. Algumas das "culturas" aqui citadas
(e outras deliberadamente omitidas) foram classificadas separadamente com base
em pesquisas ou descries insuficientes, fundadas na explorao e descrio
completa de um nico stio; portanto, sua validade enquanto unidades culturais
pode ser posta em dvida. Outras tm uma extenso temporal ou geogrfica
enorme. A cultura acheulense da Early Stone Age cobre mais de 1 milho de anos
na frica oriental e estende-se no s pelo continente africano como tambm
por grande parte da Eursia meridional e ocidental. Na primeira fase da Middle
Stone Age, a indstria sangoense espraiou-se de certas regies da frica oriental
e meridional at o extremo oeste do continente. Entre as mais recentes indstrias
representadas na frica oriental, a stillbayense e a wiltoniense foram descritas
pela primeira vez na Provncia do Cabo, na frica do Sul. Alguns especialistas
A Pr-Histria da frica Oriental   527
528                                                   Metodologia e pr-histria da frica



no assunto preferem dar nomes novos e distintos s variantes da frica oriental.
Neste captulo, no entanto, preferimos adotar uma abordagem mais simplificada,
apontando algumas dificuldades evidentes e provveis revises em certos pontos.
Os leitores que o desejarem podem acompanhar os novos progressos e debates
tomando por base as obras citadas em nossa bibliografia  podero, assim, tentar
a aplicao de uma terminologia mais sofisticada.
    Este texto e o Quadro (e as respectivas notas) no esto consagrados 
terminologia em si; isolada, a terminologia perde seu significado, e valoriz-
-la demais seria prejudicar a compreenso. Por outro lado, a Idade da Pedra,
enquanto perodo pr-histrico, s pode ser conhecida, discutida e estudada por
meio de termos e smbolos criados pelos arquelogos. Toda tentativa sria de
compreenso desse perodo e da abundante literatura que lhe  dedicada, quer
o consideremos num todo ou o analisemos em partes, exige o conhecimento
da terminologia empregada pelos diversos autores, por mais inconsistente e
arbitrria que possa ser. Este captulo, portanto, constitui uma tentativa de
introduo  literatura e  compreenso histrica da frica oriental da Idade
da Pedra.

      Notas referentes ao Quadro (p. 527)
    As duas colunas da direita indicam correlaes aproximadas com os perodos
geolgicos e com a diviso cronolgica do Paleoltico aplicada  regio do
Mediterrneo, no norte da frica e na Eursia. Elas foram includas para simples
referncia, especialmente em relao a outros captulos deste volume e outras
publicaes (inclusive obras anteriores sobre a arqueologia na frica oriental),
e no so essenciais para a leitura deste captulo.
    Os termos "Inferior", "Mdio" e "Superior"  dos quais "Inferior" designa a
poca mais antiga  seguem a prtica geolgica normal, baseada em sequncias
estratigrficas. Por isso, na maioria das obras geolgicas, e em muitas obras
arqueolgicas, esses quadros so apresentados em ordem lgica, ou seja, de
baixo para cima. Nosso quadro ordena-se de cima para baixo, de acordo com os
quadros cronolgicos histricos.
    Como est indicado, o termo Paleoltico (ou Antiga Idade da Pedra) no 
equivalente ao Early Stone Age africano. Paleoltico, tal como foi empregado
inicialmente e como ainda  utilizado na Europa, significa "Idade da Pedra
sem produo de alimentos", opondo-se a Neoltico (ou Nova Idade da Pedra),
que designa "Idade da Pedra com produo de alimentos", isto , agricultura
e/ou criao de animais precedendo o uso de metais. Uma interpretao do
A Pr-Histria da frica Oriental                                           529



"Neoltico" ligeiramente diferente por vezes encontrada prefere os indicadores
de uma cultura material avanada, em particular a cermica ou a pedra polida,
ao testemunho especfico de produo de alimentos. Em algumas partes
do mundo, pode-se distinguir um perodo de transio (ou um perodo de
estagnao cultural, segundo alguns autores) denominado Mesoltico, ao qual
nos referiremos, neste captulo, apenas para notar que no tem qualquer relao
com a Middle Stone Age africana  engano muito frequente em obras gerais
sobre a histria da frica.
    Em quase todo o continente africano ao sul do Equador, no encontramos
nenhum perodo equivalente ao Neoltico de outras partes do mundo, pois a
produo de alimentos s se difundiu no incio da Idade do Ferro.2 No entanto,
nas terras altas do Qunia e do norte da Tanznia, h indcios de produo de
alimentos (criao de animais, se no um pouco de agricultura) no fim da Late
Stone Age, entre 2 mil e 3 mil anos atrs. Essa cultura, com sua cermica e
tigelas de pedra,  chamada de "neoltica" por alguns autores.

    Early Stone Age
    Primeira fase
   Os mais antigos utenslios de fabricao humana conhecidos datam de um
perodo entre 2 ou 3 milhes de anos e ao menos 1 milho de anos passados.
Foram descobertos nas margens de antigos lagos ou pntanos prximos ao Rift
Valley no norte da Tanznia, no Qunia e na Etipia. Talvez os mais antigos
utenslios talhados sejam as pequenas lascas de quartzo desbastadas que foram
encontradas em vrios stios do lago Turkana e do vale do Omo na Etipia,
e cuja finalidade ainda  controvertida. Contemporneos ou ligeiramente
posteriores a estas so os seixos lascados, bem mais conhecidos e abundantes.
So seixos do tamanho de um punho e pequenos blocos de pedra que sofreram
desbaste por lascamentos operados com o auxlio de outra pedra para produzir
utenslios cortantes, grosseiros mas eficazes. Enquanto trabalhos mais pesados,
como cortar a pele de um animal, partir ou triturar materiais vegetais rijos,
deviam normalmente exigir o emprego do instrumento principal empunhado
com firmeza, um grande nmero de lascas (em geral, mas erroneamente, descritas
como resduos de preparao), mais finas e portanto mais cortantes, conviriam a
trabalhos mais leves e mais precisos, como a preparao de um animal abatido,


2    Muitos autores discordam dessa opinio.
530                                                                       Metodologia e pr-histria da frica




figura 19.3 Garganta de Olduvai, Tanznia setentrional. A garganta, que se aprofunda a mais de 100 m
na plancie, revela uma sequncia de camadas (a maioria, antigos leitos lacustres). As mais profundas, com
aproximadamente 2 milhes de anos, contm os restos de alguns dos mais antigos homindeos, seus utenslios
(do tipo olduvaiense) e restos de alimento. Nas camadas superiores encontram-se bifaces e outros objetos do
tipo acheulense (segunda fase da Antiga Idade da Pedra), (Foto J. E. G. Sutton).
Figura 19.4   Early Stone Age, primeira fase: utenslios olduvaienses tpicos ("seixos lascados").
A Pr-Histria da frica Oriental                                                                    531



a fabricao de armas de madeira ou o trabalho domstico no acampamento.
Na verdade, estudos mais aprofundados sobre essas indstrias  denominadas
"indstrias do chopper" ou do seixo lascado , particularmente os realizados pela
Dra. Mary Leakey na garganta de Olduvai, onde esses utenslios aparecem
nos nveis mais inferiores, e por J. Chavaillon em Melka Kontur na Etipia,
revelam uma variedade de tipos e uma sofisticao tecnolgica maiores do que
at ento se supunha. Tanto a expresso "seixo lascado" quanto "civilizao do
seixo lascado", esta ltima empregada com frequncia em relao  primeira fase
da Early Stone Age, so inexatas, principalmente porque as pedras escolhidas
para a fabricao dos choppers, das lascas e de outros utenslios nem sempre eram
seixos. Ademais, o osso e, sem dvida, a madeira eram igualmente utilizados. Por
esse motivo, a maioria dos arquelogos prefere chamar essa fase de Olduvaiense,
de Olduvai, no norte da Tanznia, onde esses utenslios foram descobertos e
descritos pela primeira vez. Isso no significa,  evidente, que tenham sido
fabricados inicialmente em Olduvai3.
    At certo tempo atrs, pensava-se que os fabricantes desses utenslios
de seixos lascados eram capazes de caar e abater apenas pequenos animais,
como pssaros, lagartos, tartarugas e daimes, para complementar sua coleta
de frutos, vegetais e insetos. Atualmente h evidncias de que eles abatiam
tambm animais de grande porte. Entre os restos fsseis encontrados ao lado de
utenslios nos stios de acampamento ou perto deles, figuram ossos de elefantes
e grandes antlopes.  possvel que alguns desses animais tenham morrido de
causa natural, ou que tenham sido feridos por acidente ou, ainda, mortos por
lees e outros predadores. Mas  provvel que, j nessa poca remota, alguns
desses animais fossem apanhados em armadilhas ou conduzidos para as margens
de pntanos por grupos de caadores que os matavam com chuos e maas de
madeira e talvez com projteis de pedra.
    Sem dvida, parte da carne era consumida pelos caadores no prprio
local onde o animal fora abatido, mas parte era frequentem ente levada para o
acampamento e dividida com o resto do grupo, inclusive mulheres e crianas.
Os restos que chegaram at nossa poca compreendem ossos de vrias espcies
de animais e diversos instrumentos para cortar, raspar e triturar; eles constituem
uma notvel evidncia do que podia ser um local de habitao no mais primitivo
estgio da humanidade. Alm disso, o estudo da distribuio dos restos sugere
a construo de abrigos; em Olduvai, acredita-se que algumas pedras dispostas

3    O nome do local  de origem masai. Sua forma mais correta seria Oldupai. Encontra-se tambm a grafia
     "oldowaiense", derivada da forma alem do nome Oldoway, que aparece nos primeiros mapas.
532                                                     Metodologia e pr-histria da frica



em crculo tenham servido de base para o vigamento de uma cabana ou de um
abrigo possivelmente coberto com peles. Em Melka Kontur, uma plataforma
artificial parece ter servido ao mesmo propsito.
    Alm dos vrios stios das margens lacustres que se estendem de Olduvai
at o lago Turkana (entre os quais figuram os mais antigos stios conhecidos),
foram descobertas jazidas de seixos lascados desde a frica do Sul at as costas
do Mediterrneo. Datam possivelmente de um estgio mais evoludo que a
fase mais antiga da frica oriental.  provvel que aquele tipo de indstria
tenha-se originado na frica central ou oriental, espalhando-se em seguida
por todo o continente. Em razo de sua datao e, mais ainda, por terem
sido ocasionalmente descobertos na frica oriental junto a ossos humanos,
esses utenslios podem ser atribudos aos mais primitivos homindeos, os
Australopithecine ou, especificamente, ao Homo habilis4, tese ardorosamente
defendida por alguns autores.

      Segunda fase
    O Acheulense ou "civilizao dos bifaces" encontra-se to difundido na frica
quanto o Olduvaiense, e os stios a ele relacionados so muito mais numerosos,
fato que se pode atribuir no s a uma populao maior, como tambm 
crescente produo de utenslios de grandes dimenses, facilmente identificveis.
Ao contrrio do Olduvaiense, o Acheulense estende-se para alm do continente
africano  onde teve incio h mais de 1 milho de anos  at o oeste e o sul da
sia, e pela Europa ocidental e meridional. A tradio acheulense perdurou por
mais de 1 milho de anos at pocas relativamente recentes, isto , no mais que
100 mil anos atrs. Esse perodo foi marcado por mudanas climticas em escala
mundial5, sendo pouco provvel que todas as regies onde foram encontrados
utenslios daquela cultura fossem habitadas permanentemente. Alm disso, a
leste da ndia, so raras ou inexistem verdadeiras indstrias acheulenses, e, ao que
parece, a sia oriental conservou uma tecnologia ltica distinta, mais prxima
do tipo "seixo lascado" evoludo. Esse fato pode representar uma delimitao
cultural importante entre Oriente e Ocidente. As indstrias acheulenses, das
quais o biface  o instrumento mais conhecido, so em geral associadas ao
Homo erectus, uma forma intermediria entre os Australopithecine e o homem



4     Ver captulo 17 deste volume.
5     Ver captulo 16 deste volume.
A Pr-Histria da frica Oriental                                                                           533




figura 19.5 Early Stone Age, segunda fase: instrumentos acheulenses tpicos (vista frontal e lateral). 1. pico;
2. machadinha; 3. biface.
534                                                    Metodologia e pr-histria da frica



moderno. Entretanto, por volta do fim da fase acheulense, a evoluo de Homo
erectus para os primeiros tipos de Homo sapiens j estava em curso.
    A frica foi um dos cenrios da evoluo do Homo erectus, a qual se
fez acompanhar de um desenvolvimento cultural atestado pelas tcnicas
acheulenses de fabricao de utenslios e pelo modo de vida mais eficiente
que possivelmente permitiram. No entanto, as tradies culturais antigas (e
provavelmente os tipos fsicos mais primitivos) mantiveram-se ainda, durante
certo tempo, ao lado das novas tradies. O melhor exemplo desse fato  dado
pelos sucessivos nveis de antigas margens de lagos em Olduvai, lugar onde
utenslios distintos, olduvaienses e acheulenses, foram produzidos e usados
simultaneamente por vrias centenas de milnios, h cerca de 1 milho de anos.
O Acheulense compreende numerosos estgios e variaes, mas, para propsitos
mais genricos, basta-nos a diviso principal entre o Acheulense Antigo, mais
simples e rudimentar, e o Acheulense Evoludo, ao qual pertencem os mais belos
bifaces e machadinhas manufaturados. Existem colees desses instrumentos
enriquecendo o acervo dos museus da frica oriental, sendo que as provenientes
de Isimila (sul das terras altas da Tanznia) classificam-se entre as mais belas
do mundo. Evidentemente, o Acheulense Evoludo comeou a se desenvolver
a partir de certo ponto do Acheulense Antigo, tendo as novas tcnicas, em
consequncia, coexistido durante certo tempo com as antigas tradies.
    No Acheulense, a frica oriental foi apenas uma das muitas regies do Mundo
Antigo habitadas pelo homem, mas a se descobriram stios que forneceram
algumas das mais valiosas informaes sobre a tecnologia e a economia do Homo
erectus e do Homo sapiens primitivo. Alm de Olduvai  com suas incomparveis
sequncias estratigrficas  e de outros depsitos na mesma regio, h os stios
de Olorgesailie e Kariandusi, no Rift Valley do Qunia, e vrias jazidas a leste
do lago Turkana; Nsongesi e outros stios prximos da fronteira entre Uganda e
Tanznia; Isimila e Lukuliro, no sul da Tanznia; e Melka Kontur, na Etipia,
onde vrias fases do Acheulense foram descobertas.
    As denominaes "biface" e "machadinha", usadas para designar os dois tipos
mais caractersticos de instrumentos acheulenses, so evidentemente termos
arqueolgicos convencionais. O biface ou handaxe (acha de mo) no era um
machado, mas, certamente, um instrumento para uso geral, cuja extremidade
pontiaguda e longos bordos afiados poderiam servir para cavar e esfolar,
entre outras coisas. A machadinha (cleaver), com bordo cortante em formato
ligeiramente quadrangular, serviria propriamente para esfolar animais. A diferena
entre a tecnologia olduvaiense e a acheulense , em grande parte, quantitativa:
os conjuntos de utenslios bem como os utenslios isolados acheulenses so
A Pr-Histria da frica Oriental                                                                 535




figura 19.6 Isimila, terras altas da Tanznia meridional. Vista da ravina erodida mostrando as camadas
onde foram encontrados utenslios acheulenses (Foto J. E. G. Sutton).
Figura 19.7 Concentrao de bifaces, machadinhas e outros utenslios acheulenses (a pequena colher de
pedreiro no centro serve como escala), (Foto J. E. G. Sutton).
536                                                    Metodologia e pr-histria da frica



mais facilmente identificados. Alm disso, as tcnicas acheulenses, com um
lascamento mais preciso, regular e sistemtico nas duas faces, executado mais
frequentemente com um percutor de madeira cilndrico ou osso longo de animal
que com um percutor de pedra (como no Olduvaiense), permitiriam a produo
de instrumentos maiores, com bordos cortantes mais longos e de lascas mais
afiadas, utilizadas como facas.
    Durante a Early Stone Age, as populaes consistiam de bandos de caadores-
-coletores que se deslocavam a cada estao, nas savanas e nas regies menos
arborizadas, seguindo a flutuao dos recursos vegetais e animais.  bastante
provvel que esses bandos se dividissem em certas pocas do ano e se reunissem
ao fim da estao seca, formando grupos maiores  beira de lagos ou em qualquer
outro territrio onde houvesse abundncia de recursos. Levantou-se a hiptese
de que as enormes concentraes de utenslios acheulenses finamente executados
encontradas em stios como Isimila e Olorgesailie poderiam ser testemunhos
dessas reunies, verdadeiros jamborees anuais.
    As primeiras evidncias do uso do fogo na frica oriental foram descobertas
em contextos arqueolgicos que continham indstrias do Acheulense Evoludo.
Obras publicadas at recentemente situam essa descoberta h 50 mil anos
aproximadamente, data, sem dvida, bastante parcimoniosa. Na sia oriental
e na Europa existem boas evidncias de que o Homo erectus utilizava o fogo e
cozia h meio milho de anos; embora ainda no se tenha absoluta certeza, 
muito provvel que na frica o fogo fosse conhecido e alimentos cozidos fossem
frequentemente consumidos durante grande parte do Acheulense.

      Middle Stone Age
    As populaes da Middle Stone Age pertenciam  espcie Homo sapiens, mas
talvez pertencessem inicialmente a subespcies do Homo sapiens ligeiramente
diferentes do homem moderno. Entretanto, por volta do fim desse perodo, no
s o homem moderno (Homo sapiens sapiens) j devia ter surgido, como tambm
estariam bastante desenvolvidas, na frica e em outras regies, as caractersticas
fsicas das raas hoje existentes.
    Em termos tecnolgicos, houve progressos significativos na Middle Stone
Age. Abandonou-se a tcnica bsica de fabricao de utenslios de pedra,
segundo a qual extraam-se lascas de um ncleo at que se aproximasse de uma
form-padro com arestas cortantes utilizveis. Tornou-se cada vez maior o
emprego de uma tcnica mais complexa, que consistia na preparao dos ncleos
por lascamentos precisos, para lhes dar a forma e as propores favorveis ao
A Pr-Histria da frica Oriental                                                                    537




figura 19.8 Middle Stone Age e utenslios de transio: o exemplo da direita  uma ponta fina podendo ser
encabada, talvez como ponta de lana.
Figura 19.9 Olorgesailie, no Rift Valley do Qunia. Escavaes em um stio de ocupao acheulense (Foto
J. E. G. Sutton).
538                                                     Metodologia e pr-histria da frica



destacamento de um utenslio acabado. Paralelamente, era utilizada a tcnica de
extrao de lascas ao acaso, que, em seguida, recebiam uma forma por meio de
retoques. Essa tcnica permitiu a produo de utenslios menores, mais finamente
trabalhados, em geral mais delgados que os da Early Stone Age e, portanto, mais
eficientes, e deu ensejo, na segunda fase da Middle Stone Age, a uma inovao
com implicaes de longo alcance  o encaixe de utenslios de pedra lascada em
um cabo de madeira ou de outro material. As pontas foliceas, caractersticas
das indstrias stillbayenses, retocadas por presso com grande preciso, eram
frequentemente fixadas e coladas em uma fenda praticada na extremidade de um
cabo de madeira para formar uma lana. Muitos utenslios domsticos deviam
ser produzidos de maneira semelhante, o que implicava no s o preparo de
gomas de resinas vegetais, mas tambm um trabalho mais complexo de desbaste
e entalhe da madeira, facilitado por um tratamento ao fogo.
    Paralelamente ao avano tecnolgico da Middle Stone Age, verificou-se um
desenvolvimento econmico ou, pelo menos, certas modificaes no processo
de adaptao ao meio. Neste ponto, colocam-se duas questes que se acham
relacionadas entre si. A primeira diz respeito s alteraes climticas6. Suas
particularidades, datao e correlao com os testemunhos arqueolgicos ainda
so pouco conhecidas, e seria arriscado tentar explicar umas atravs de referncias
fceis s outras. Alm do mais, as alteraes climticas  mudanas de climas
mais secos para mais midos e vice-versa, afetando a expanso e o recuo das
florestas, a frequncia e o tamanho dos lagos e rios e, portanto, a distribuio
e a abundncia das diversas fontes de alimento  no tinham nada de novo.
Devemos indagar por que as alteraes climticas no levaram a um avano
econmico e tecnolgico numa fase anterior da Middle Stone Age. No atual
estgio das pesquisas, ainda no  possvel responder satisfatoriamente  questo,
embora se suponha que o crescimento demogrfico tenha forado a procura de
modos mais eficazes e variados de explorao do meio ambiente. Qualquer que
tenha sido a causa, foi isso certamente o que ocorreu na Middle Stone Age.
    Nossa segunda questo refere-se  especializao regional. Os homens
comearam a povoar novos territrios. No mundo inteiro, o Homo sapiens exercia
sua capacidade inata de adaptao, forando os limites dos lugares onde se
estabelecia. Surgiu na frica uma ntida diviso cultural entre os povos das
regies de vegetao rasteira e das savanas com rvores esparsas, e os povos que
penetraram nas regies mais midas, de florestas densas. Entre os primeiros


6     Ver captulo 16 deste volume.
A Pr-Histria da frica Oriental                                              539



desenvolveu-se a tradio da caa de animais de grande porte com lana (sem
que por isso fosse excluda a coleta de alimentos), ao passo que os ltimos se
dedicaram mais  coleta de vegetais e frutos,  pesca e  captura de animais 
beira d'gua, com lanas e, certamente, vrios tipos de armadilhas.
    Durante a primeira fase da Middle Stone Age, essa especializao regional
no foi to acentuada quanto s vezes se supe. Nas terras altas do Qunia, nas
proximidades ou mesmo no interior das florestas, foram coletados utenslios
pertencentes a uma indstria conhecida como Fauresmithiense, semelhante s
indstrias de Gondar e de Garba III, em Melka Kontur. , em muitos aspectos,
um Acheulense Evoludo, apresentando o mesmo tipo bsico de instrumentos
que so, todavia, menores e combinam novas tcnicas de fabricao. Contrastam
com as indstrias sangoenses, mais difundidas, cujos melhores exemplares
na frica oriental foram recolhidos nos arredores do lago Vitria e no Rift
Valley ocidental, no sul de Uganda, em Ruanda e no oeste da Tanznia. As
indstrias sangoenses apresentam tambm uma mistura de instrumentos do tipo
acheulense e novas tcnicas, mas seus traos predominantes so diferentes dos
que distinguem a fcies do Fauresmith. O que primeiro nos chama a ateno
nas sries sangoenses  seu aspecto rudimentar, que no  um sinal de retrocesso
cultural, mas, provavelmente, de uma atividade tecnolgica mais variada. Na
realidade, muitos desses utenslios de aspecto rudimentar seriam utilizados para
fabricar outros utenslios, especialmente os de madeira. Por outro lado, os pices
macios deviam ser teis para cavar razes, que constituam parte da dieta nas
regies arborizadas.
    A indstria sangoense  encontrada na frica oriental j sob forma
desenvolvida, o que leva a crer que sua origem e evoluo a partir de uma
fonte acheulense deva ter ocorrido em alguma outra regio na parte central
ou ocidental do continente.  possvel que ela tenha-se introduzido na parte
ocidental da frica oriental durante um perodo mido, quando os limites
da floresta equatorial se estenderam, fato, no entanto, bastante discutvel. 
provvel que os stios de acampamento se situassem nas zonas arborizadas e nas
margens de rios e lagos e no no interior das grandes florestas. Cabe notar que
a distribuio dos stios sangoenses inventariados na bacia do Zaire mostra que
a penetrao na floresta equatorial foi apenas um pouco maior do que durante
o Acheulense. Entretanto, na segunda fase da. Middle Stone Age, os artesos
da indstria lupembiense (uma forma evoluda e refinada do Sangoense, famosa
pelo trabalho requintado de suas pontas de lana de pedra) pertenciam, mais
nitidamente, ao meio florestal.
540                                      Metodologia e pr-histria da frica




figura 19.10 Late Stone Age: lmina
com bordo de preenso retocado
( direita); segmento de crculo
(no centro); raspador e micrlito (
esquerda), feitos de obsidiana no Rift
Valley do Qunia.
Figura 19.11 Apis Rock (Nasera),
Tanznia setentrional. As escavaes
sob o abrigo, bem visvel,  direita
revelaram uma sucesso de ocupaes
humanas da Idade da Pedra Recente
(Foto J. E. G. Sutton).
A Pr-Histria da frica Oriental                                              541



    O Lupembiense  encontrado tambm nos arredores do lago Vitria, em
outras regies ocidentais da frica oriental e na bacia do Zaire, contrastando
com o Stillbayense das pontas foliceas, presente nas terras altas ao longo do Rift
Valley, no Qunia, e na Etipia, perto do lago Tana (abrigo de Gargora) ou de
Dire Daoua (caverna do Porco-Espinho). Em outras regies, principalmente no
sudeste da Tanznia, predominam diferentes tipos de indstrias da Middle Stone
Age, menos caractersticas ou, antes, no especificadas por falta de informaes
mais amplas. Algumas delas podem ter semelhanas gerais com o Sangoense-
-Lupembiense. Havia, provavelmente, numerosas tradies regionais resultantes,
talvez, de adaptaes ao meio ambiente local e que, uma vez estabelecidas, teriam
mantido muitas de suas caractersticas distintivas, tanto por razes culturais
quanto por presses econmicas e ambientais. Tais fatores culturais regionais
podem ser responsveis pela variabilidade que se far evidente na frica oriental
aps a adoo das inovaes tecnolgicas da Late Stone Age.

    Late Stone Age
   Entre 10 e 20 mil anos atrs, essas tcnicas ainda mais complexas de fabricao
de utenslios de pedra tornaram-se comuns. Ao contrrio da Middle Stone Age,
em que se dava nfase  produo de lascas extradas de ncleos preparados,
a Late Stone Age concentrou-se na produo de lminas pela debitagem, por
percusso direta ou indireta, de fragmentos com bordos paralelos, longos e
delicados. Essas lminas podiam ser em seguida retocadas, tendo em vista uma
variedade de formas e finalidades. Em geral, as peas retocadas eram muito
pequenas (micrlitos), s vezes com menos de 1 cm de comprimento. Uma
forma comum, chamada pelos arquelogos de "segmento de crculo", tem gume
reto e dorso curvo e sem corte. No constituam utenslios acabados, destinando-
-se a serem fixados a cabos de osso e de madeira. O encabamento j se tornara
uma prtica evoluda e comum. Frequentemente, vrios micrlitos eram fixados
em sequncia numa fenda de um cabo de madeira, constituindo, assim, um
"instrumento compsito", como uma faca ou serra. Em regies onde as rochas
eram adequadas  produo de lminas principalmente o slex, ou, melhor ainda,
o vidro vulcnico opaco (obsidiana), encontrados em locais prximos ao Rift
Valley, no norte da Tanznia e no Qunia  podiam ser confeccionados belos
segmentos de crculo, lminas com bordo de preenso retocado, furadores, buris
para entalhar, raspadores e outros utenslios tpicos. Mas em certas regies s
existia quartzo ou pedras de qualidade inferior, menos adequadas ao lascamento.
Com esse tipo de material produziram-se utenslios eficazes que, no entanto, so
542                                                   Metodologia e pr-histria da frica



de aspecto grosseiro e irregular. Por vezes, os arquelogos encontram milhares
de lascas e fragmentos de quartzo em um solo de ocupao da Late Stone Age,
mas s conseguem reconhecer e classificar como utenslios 2 ou 3% deles.
    Com base nessas inovaes tecnolgicas,  possvel reconhecer ou deduzir
um certo nmero de inovaes culturais e econmicas. Foi provavelmente
nessa poca que o arco e a flecha comearam a ser utilizados na caa. Um ou
dois micrlitos podiam ser fixados na extremidade de uma haste de madeira
formando uma ponta; outros, colocados mais embaixo, poderiam servir como
farpas. O preparo de venenos para tais flechas remonta, muito provavelmente, a
essa poca, sendo sugerido, assim como o uso de redes em reas arborizadas, pelas
prticas das populaes de caadores-coletores atuais ou recentes entre as quais
se mantiveram algumas das tradies da Late Stone Age. O osso era certamente
muito utilizado; a descoberta de furadores de pedra e de osso indica que as
peles eram costuradas, para a confeco de vestimentas e abrigos. Contas feitas
de sementes, osso, cascas de ovos de avestruz, e, mais tarde, de pedra, poderiam
ser pregadas nessas vestimentas ou utilizadas na confeco de colares. As ms,
que aparecem em algumas sries da Late Stone Age, eram usadas, entre outras
coisas, para triturar o ocre vermelho, mas  provvel que tivessem igualmente
uma finalidade econmica mais fundamental: moer alimentos vegetais.
    Alguns acampamentos da Late Stone Age localizavam-se em campo aberto,
perto de cursos d'gua ou lagos, e  possvel imaginar a existncia de abrigos ou
choas feitos com estacas, arbustos e talvez cobertos com peles.
    Nessa mesma poca, era comum a ocupao de abrigos sob rocha (s vezes
incorretamente descritos como cavernas). Esses abrigos naturais localizavam-se
sob falsias, ao longo de certos vales, ou sob enormes blocos de granito, onde
quer que houvesse proteo contra a chuva e o vento forte sem que se reduzisse
muito a claridade. Alguns deles situavam-se em locais privilegiados, altos, de
onde se podia observar os movimentos da caa em grande extenso da plancie.
Em tais abrigos, um grupo de caadores poderia pernoitar, ou uma famlia ou
grupo de famlias poderia se instalar durante uma estao. Alguns abrigos foram
habitados de maneira regular ou intermitente por centenas e mesmo milhares
de anos durante a Late Stone Age. Esse fato explica as sucessivas camadas de
restos, geralmente cinzas das fogueiras ossos dos animais consumidos, utenslios
de pedra e resduos de sua fabricao.
    Em uma regio no centro-norte da Tanznia, as paredes rochosas de muitos
desses abrigos foram decoradas, como j dissemos anteriormente, com pinturas
de animais, cenas de caadas e outros desenhos. Embora raramente seja possvel
estabelecer uma ligao entre determinadas pinturas isoladas e certas camadas
A Pr-Histria da frica Oriental                                              543



da sequncia da Late Stone Age encontradas nos abrigos, a existncia de uma
relao mais genrica entre ambas  evidente. Alm disso, a maior parte desses
desenhos pertence provavelmente aos ltimos milnios da Late Stone Age, e
parte deles deve ter sido contempornea do perodo de difuso das comunidades
da Idade do Ferro. Entretanto, a origem dessa arte de caadores  e das crenas
e cosmologias correspondentes  deve ser muito mais remota.
    A existncia de uma antiga tradio comum, remontando a vrios milnios
at o incio da Late Stone Age, talvez at a Middle Stone Age, poderia explicar
as semelhanas gerais entre a arte dos caadores da Tanznia e a dos caadores
do sul da frica. O mesmo acontece com as indstrias lticas dessas duas regies,
as quais, embora no sendo idnticas, tm em comum algumas caractersticas
gerais (descritas frequentemente, por aproximao, como wiltonienses). No sul
da frica, demonstrou-se que certos exemplares recentes de arte rupestre e de
indstrias lticas wiltonienses eram obra dos San, entre os quais alguns grupos
ainda mantm um modo de vida baseado na caa e na coleta. As caractersticas
fsicas "San" e as lnguas Khoisan (com cliques) so distintivas dessas populaes.
Atualmente, na frica oriental, h apenas uma pequena regio onde so faladas
lnguas com diques e  exatamente a regio da arte rupestre, no centro-norte
da Tanznia. As populaes de lnguas Khoisan, alm de apresentarem algumas
caractersticas somticas de possvel origem San, ainda mantm uma tradio
cultural muito forte de caadores-coletores7.
    No se pode considerar esse fato como decorrente de uma migrao San
relativamente recente, vinda do sul da frica. Deve ter havido, em certa poca,
um continuum desses caadores-coletores, do norte da Tanznia ao Cabo da Boa
Esperana, que foi interrompido pela expanso, nos ltimos trs milnios, de
povos de lnguas, culturas e economias diferentes, de vida pastoril e agrcola. As
origens desse continuum cultural das savanas do leste e do sul da frica datam
certamente da Late Stone Age, talvez da fase stillbayense da Middle Stone Age.
Entretanto, devemos deixar em aberto a questo da antiguidade dessas origens
at que se possa reconhecer e entender melhor, nos seus entremeios, a segunda
fase da Middle Stone Age e a transio para a Late Stone Age, representadas
pelas indstrias erroneamente definidas como magosienses. Observa-se, na
Etipia, que o Magosiense sucede diretamente o Stillbayense em vrios stios,
sendo testemunho, em relao a este ltimo, de uma grande diversificao.




7    Ver captulo 11 deste volume.
544                                                 Metodologia e pr-histria da frica



   A suposta existncia de uma longa tradio entre as culturas de savana
da Late Stone Age poderia explicar algumas variaes regionais includas na
categoria geral do Wiltoniense. Era tendncia dos arquelogos, no passado,
incluir nessa categoria quase todas as indstrias em que abundasse o elemento
microltico, tanto do leste quanto do sul da frica.  possvel que algumas
dessas indstrias nas reas setentrionais da frica oriental tenham pouca
ou nenhuma relao com as populaes San do sul. Alm disso, na parte
ocidental da frica oriental, poder-se-ia encontrar uma tradio distinta,
ligada  bacia do Zaire, onde floresceram as indstrias do Tshitoliense,
derivadas do Sangoense-Lupembiense, indstrias das florestas e das regies
arborizadas da Middle Stone Age. Mas essa ligao no  muito evidente,
exceto em Ruanda.
   Uma regio, no entanto, contrasta nitidamente com as demais. Trata-se
das terras altas e do Rift Valley do Qunia. Algumas indstrias da Late Stone
Age que apresentam traos em comum com as indstrias wiltonienses podem
ser encontradas nessa rea, alm de outras em que utenslios fabricados com
lminas longas predominam sobre os micrlitos. Essas indstrias, denominadas
Capsiense do Qunia, utilizavam a obsidiana local, datando de um perodo
entre -10000 e -5000. A melhor srie  a que foi recolhida pelo Dr. Leakey
em Gamble's Cave, perto de Nakuru, na dcada de 20. Indstrias relacionadas
a essa ou derivadas dela continuaram a existir at o fim da Idade da Pedra.
O Capsiense do Qunia tem analogia com uma tradio de lminas mais
antiga que se difundiu por grande parte do nordeste da frica e da regio
do Mediterrneo. Mas a comparao entre as indstrias lticas no  a nica
considerao importante. Devemos notar que o Capsiense do Qunia e seus
artesos representam o ramo sul -oriental da civilizao negra fundada na
explorao de recursos aquticos, que se estendeu pela frica numa faixa
ao sul do Saara e acima do vale do Nilo, at a frica oriental. A ocupao
dessa rea parece ter ocorrido durante um perodo mido temporrio, em
que os nveis dos lagos eram elevados, e os rios, caudalosos. O apogeu dessa
civilizao ocorreu em torno do stimo milnio antes da Era Crist. As
populaes ribeirinhas apanhavam peixes e animais aquticos com lanas e
arpes de osso caractersticos, feitos com instrumentos de pedra. Estes podem
ser encontrados no lago Eduardo (Rift Valley ocidental), no lago Rodolfo e
nas antigas margens do lago Nakuru. J era conhecida a fabricao de cestos
e da cermica, representando esta ltima uma das mais antigas evidncias do
uso do cozimento da cermica no mundo. Todas essas caractersticas indicam
uma sociedade sedentria, cujo habitat principal se situava  beira da gua.
A Pr-Histria da frica Oriental                                             545



    O Neoltico
    H alguns anos, por falta de provas arqueolgicas, acreditava-se que a criao
de animais e sobretudo a agricultura se tivessem desenvolvido muito pouco na
frica oriental antes do primeiro milnio, com exceo dos stios ao longo do
vale do Nilo, ligados ao Neoltico de Cartum.  ainda especulativa a afirmao
de que grupos de pescadores parcialmente sedentrios, vivendo  beira dos
grandes lagos e rios a partir do stimo e do sexto milnios, deram origem 
criao de animais e talvez  agricultura, sendo essa mudana no seu modo de
vida causada, por um lado, pelas presses ambientais (a repentina acelerao do
processo de desertificao do Saara no incio do terceiro milnio) e, por outro,
pela sua avanada tecnologia (j conheciam at a cermica). Pode-se supor,
entretanto, que esses povos foram receptivos s tcnicas de produo coletiva de
alimentos, em particular a domesticao de animais e vegetais, que vo difundir
por toda a regio a partir do terceiro milnio, atenuando, assim, o impacto da
mudana climtica sobre os recursos naturais.
    O stio mais conhecido desse perodo  Esh Shaheinab (Sudo), situado em
um antigo terrao pouco ao norte da confluncia do Nilo Azul e do Nilo Branco.
Alm de uma indstria ltica de micrlitos geomtricos, A. J. Arkell encontrou
arpes perfurados na base e anzis feitos de conchas (que atestam a existncia da
pesca como atividade permanente), enxs de riolito, goivas, pequenos machados
de osso polido, cermica decorada com pontos e linhas onduladas. Os restos
sseos incluem espcies selvagens, em grande parte peixes, mas tambm cabras
e ocasionalmente carneiros. Data da segunda metade do quarto milnio. No
stio de Kadero, prximo a Esh Shaheinab e apresentando material semelhante,
nove dcimos dos restos sseos coletados pertencem a espcies domesticadas,
inclusive da famlia Bovidae.
    Em Agordat, na provncia de Eritreia (Etipia), foram descobertos vestgios
de quatro stios de habitao semipermanente. Embora o estudo desse stio
tenha-se limitado s camadas superficiais, foram encontrados machados, maas
de pedra polida, discos e braceletes de pedra, cermica decorada (em relevo ou
por inciso) com motivos em ziguezague, contas, ornamentos para os lbios
e colares. A descoberta de ms, de almofarizes e de uma estatueta de pedra
representando um bovdeo semelhante aos da espcie criada pelas populaes
do Grupo C (populaes centradas na Nbia e a oeste desta) sugere a existncia
de uma economia pastoril e agrcola, embora no seja suficiente para prov-
-la. No abrigo de Godebra, prximo de Axum e datado do terceiro milnio,
foram descobertos gros de milho-mido da variedade Eleusine coracana, junto
546                                                     Metodologia e pr-histria da frica



a uma indstria de micrlitos geomtricos e cermica. Na Etipia, ainda no se
descobriu nenhum vestgio do antigo cultivo do teff (Eragrostis tef )  ainda o
cereal bsico, de alto valor nutritivo, para muitos grupos tnicos do norte do pas
 nem da banana-da-abissnia (Ensete edule), mais cultivada no sul, e tampouco
do trigo e da cevada.
    Embora ainda no haja provas da existncia de uma agricultura no Qunia, h
muitos vestgios de atividades pastoris em todo o Rift Valley, at a Tanznia, e nas
terras altas. So encontrados em locais de sepultamento (Njoro River Cave, perto
de Nakuru, e Keringet Cave, perto de Molo, ambos stios de cremao; Ngoron-
-goro Crater, no norte da Tanznia, sepultura sob um cairn onde o esqueleto
se encontra em posio fletida) contendo abundante material arqueolgico,
principalmente ms e piles; aparecem tambm em stios de habitao, como
Crescent Island, perto do lago Naivasha, e Narosura, no sul do Qunia. Em
Narosura, 95% da fauna identificada consiste em animais domsticos, dos quais
57% so cabras e carneiros, e 39%, bovdeos. Um estudo dos ossos revelou que
animais maiores eram abatidos quando velhos, enquanto cabras e carneiros
eram mortos bem mais jovens. Deduziu-se que o gado era criado antes para
o consumo do leite  e talvez do sangue, como entre os atuais Masai  que da
carne. Tambm em Narosura a presena de ms e piles constitui apenas uma
prova indireta da existncia de algum tipo de agricultura.
    No que se refere  frica oriental, a introduo da criao de animais e da
agricultura  frequentemente ligadas em uma economia mista  foi apresentada
muitas vezes como o resultado de duas influncias, uma proveniente do sul
do Saara atual, estendendo-se at o Sudo, e a outra proveniente do Egito,
estendendo-se at a Nbia (Cartum).  possvel que o processo de neolitizao
tenha chegado s terras altas da Etipia, e da tenha sido levado para o sul por
povos de lngua cuxtica, em migraes de pequena escala. Entretanto, como
em geral acontece, a passagem para uma economia de produo foi gradativa.
As descobertas arqueolgicas mostram que o substrato existente continuou a
exercer um importante papel tanto no plano tecnolgico quanto no econmico.
A caa ea pesca foram mantidas; no houve ruptura na continuidade da
cultura material dos pequenos grupos de pescadores, que se tinham tornado
parcialmente sedentrios muito antes do terceiro milnio, nem mesmo na
cultura dos caadores-coletores, que desconheciam o uso da cermica (Capsiense
do Qunia-Elmenteitiense). Embora at o momento poucas sejam as evidncias
do desenvolvimento da agricultura, sabemos que ela existia, e que a criao de
carneiros, de cabras e, depois, de bovdeos desenvolveu-se rapidamente a partir
do terceiro milnio, principalmente durante o segundo milnio. Quando se
A Pr-Histria da frica Oriental                                             547



iniciou a Idade do Ferro, os povos da frica oriental provavelmente j tinham
ultrapassado o estdio pr-agrcola.

    A tradio dos pescadores da frica central e oriental
    H 8-10 mil anos, o clima da frica era muito mido, de modo que os
lagos eram maiores e mais numerosos, os pntanos, mais extensos, os rios, mais
longos e caudalosos e os cursos d'gua temporrios, mais regulares. Nessas
condies, um modo de vida bastante caracterstico, intimamente ligado aos
cursos d'gua, s terras por eles banhadas e suas fontes de alimento, e marcado
por avanadas tcnicas de pesca e de construo de embarcaes difundiu-se
por todo o continente, da costa atlntica at a bacia do Nilo, numa larga faixa
de territrio situada entre um Saara extremamente reduzido e uma floresta
equatorial consideravelmente ampliada. Essa "civilizao aqutica", como
poderamos cham-la, foi encontrada em numerosos stios arqueolgicos nas
terras altas do Saara e na orla sul do deserto, desde o Alto Nger, passando pela
bacia do Chade, at o Nilo Mdio, e desse ponto para o sul, at os vales de
desabamento (rift valleys) da frica oriental e Equador. No Rift ocidental, foi
encontrada em Ishango, na margem congolesa do lago Eduardo; no Rift oriental,
os stios localizam-se ao longo das mais elevadas linhas de margem fsseis dos
lagos Turkana e Nakuru  no primeiro, no fundo da depresso; no segundo, mais
ao sul, na parte montanhosa do Rift Valley. O stio mais importante, localizado
nas proximidades do lago Nakuru, foi denominado Gamble's Cave; trata-se,
na realidade, de um abrigo sob rocha, explorado pelo Dr. L. S. B. Leakey na
dcada de 20. A camada de ocupao mais profunda continha vestgios da
Late Stone Age, atribudos ao Capsiense do Qunia. Entretanto, a presena
de cermica e de uma indstria ssea tpicas, aliada  recente datao dessa
camada (aproximadamente -6000 anos), permitem-nos considerar o Capsiense
do Qunia como a forma local da grande tradio "aqutica" da frica.
    A presena de espinhas de peixes, conchas de moluscos, assim como de
ossadas de mamferos e rpteis aquticos (ratos d'gua e tartarugas, e s vezes
hipoptamos e crocodilos) nesses antigos acampamentos ou habitaes 
beira d'gua sugere importantes dados econmicos. Animais terrestres eram
igualmente caados, e  provvel que as plantas nutritivas de guas correntes
e pntanos fossem sistematicamente colhidas e consumidas. A tecnologia
empregada na obteno e na preparao de alimentos apresentava algumas
caractersticas muito avanadas  pontas de arpo esculpidas em osso (com
instrumentos de pedra) e recipientes de cermica. Os arpes eram fixados com
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fibra na extremidade de lanas de madeira, sendo usados para apanhar peixes
e outros animais aquticos, tanto em embarcaes quanto  beira d'gua. A
cermica, de grandes propores, era frequentem ente decorada com espinhas
de peixe ou conchas, em motivos conhecidos como wavy line e dotted wavy
line. Embora tenha sofrido variaes, a tradio wavy line e dotted wavy line
 caracterstica o suficiente para ser distinguida de outros tipos mais recentes
de cermica dessas regies. Alguns dos padres decorativos, assim como a
forma mais aberta dos recipientes, podem ter sido inspirados pelos cestos, que
provavelmente eram usados para carregar os peixes aps a pesca.
    Nos stios s margens dos lagos da frica oriental, ao longo do Nilo
Mdio e no Saara, o desenvolvimento da "civilizao aqutica" foi datado entre
-8000 e -5000. Seu apogeu e maior expanso ocorreram no stimo milnio.
Os primeiros arpes foram, sem dvida, esculpidos um pouco mais cedo, ao
passo que a descoberta da cermica no deve remontar alm de -6000. Os
recipientes de cermica so os mais antigos da frica e encontram-se entre os
primeiros fabricados no mundo.  quase certo que essa inveno tenha ocorrido
espontaneamente em alguma parte da faixa central do continente africano.
    No existe nenhum indcio de que as populaes ribeirinhas praticassem a
agricultura entre 7 mil e 10 mil anos atrs, na frica oriental ou em qualquer
outro ponto do extenso territrio que ocupavam. No entanto, a prpria
magnitude da expanso dessas populaes e a rapidez com que ocorreu, aliadas
 complexidade tecnolgica desse novo modo de vida, demonstram seu prestgio
e domnio cultural durante todo aquele perodo mido. Considerar essa cultura
como simples variante das culturas baseadas na caa e coleta da Late Stone
Age seria negar suas caractersticas distintivas e suas realizaes.  possvel que
essas populaes no vivessem em comunidades verdadeiramente permanentes,
mas, com fontes de alimento asseguradas pelos grandes lagos e rios e com
uma tecnologia que lhes permitia explorar eficazmente esses recursos, foram
capazes de manter instalaes comunitrias maiores e mais estveis do que
as de quaisquer outras populaes anteriores. Esses fatores propiciaram no
s o crescimento demogrfico, como tambm a criao de um novo ambiente
social e intelectual, caracterizado por um artesanato complexo, indispensvel 
fabricao de embarcaes, arpes, cestos e cermica, e pelo modo de vida mais
evoludo que o uso desses objetos impunha.
    O papel da cermica  particularmente importante, mais do que em geral
supem historiadores e at mesmo arquelogos. Devido  sua fragilidade, a
cermica tem uma utilidade limitada para sociedades nmades, sem bases fixas,
ou seja, para a maior parte das sociedades de caadores-coletores. Mas, para
A Pr-Histria da frica Oriental                                                                 549



as comunidades permanentes, organizadas, a cermica tem um significado
carregado de civilizao, permitindo maior versatilidade com a introduo ou o
aperfeioamento dos modos de preparar e cozinhar os alimentos.
    A morfologia dos povos ribeirinhos da frica ocidental e oriental
provavelmente evoluiu; entretanto, os poucos restos de esqueletos descobertos
indicam que sua origem era basicamente negroide8. Ao que parece, foram
justamente a expanso e o progresso da cultura e da economia "aquticas"
h 9 mil ou 10 mil anos que favoreceram a predominncia de um tipo
definitivamente negroide em toda a regio do Sudo at o Mdio e o Alto
Nilo e a parte setentrional da frica oriental. Esse fato provavelmente est
associado  expanso geogrfica e  subsequente disperso e diferenciao da
grande famlia (ou phylum) lingustica que Greenberg chamou de nilo-saariana,
e que atualmente se encontra bastante fragmentada na regio que vai do Alto
Nger at a Tanznia central. Para um phylum to amplamente difundido, tal
fragmentao  indcio de uma antiguidade de vrios milhares de anos, maior
ainda que a de outras famlias lingusticas (Nger-Congo e diversos ramos do
afro-asitico) que penetraram nessa rea da frica central. Entre as reas onde
o nilo-saariano se manteve  inclusive seu ramo oriental, o Chari-Nilo , esto
as regies ricas em lagos, pntanos e rios, nas quais o antigo modo de vida
"aqutico", intimamente associado  lngua nilo-saariana, conseguiu subsistir
por mais tempo, embora tenha sofrido modificaes.
    Essa exposio sobre a grande civilizao dos meios aquticos e as lnguas nilo-
-saarianas levou-nos mais longe do que conviria para o presente captulo e para
este volume. No entanto,  um aspecto muito importante at hoje negligenciado
 da histria dos povos da frica, tendo influenciado consideravelmente as
populaes seguintes, suas culturas e economias, em grande extenso do
continente, inclusive na frica oriental.
    A partir de aproximadamente 5 mil anos antes da Era Crist, os efeitos do
ressecamento geral do clima comearam a ser sentidos. O nvel dos lagos baixou,
e a economia de explorao dos recursos aquticos sofreu um declnio, embora
persistisse por mais algum tempo no Rift Valley do Qunia. Durante o segundo
e o primeiro milnios antes da Era Crist, novas populaes, vindas da Etipia,
chegaram  regio, trazendo gado e provavelmente algumas praticas agrcolas.



8    A afirmao frequentemente encontrada relativa a origem caucasoide das populaes do Capsiense do
     Qunia baseia-se em uma interpretao incorreta dos trabalhos de Leakey em Gamble's Cave e em
     outros stios. Ver J. Afr. Hist. XV, 1974, p. 534.
Pr-Histria da frica austral                                          551



                                 CAPTULO 20


                 Pr-Histria da frica austral
                                   J. D. Clark




    Os primeiros homindeos
    Darwin e Huxley consideravam os trpicos, incluindo talvez o continente
africano, como o habitat original do homem, pois  nessa regio que so
encontrados o chimpanz e o gorila, seus parentes mais prximos entre os
primatas. Assim como o ancestral comum ao homem e aos macacos antropoides,
esses pongdeos so arborcolas; as caractersticas morfolgicas indicam que sua
evoluo deve ter-se completado no decorrer de um longo perodo de adaptao
 vida nas florestas tropicais das reas de montanhas mdias e terras baixas.
O homem, por sua vez, no evoluiu na floresta, mas nas savanas. Na frica
oriental e austral os mais antigos fsseis de homindeos foram encontrados nas
pradarias semi-ridas e nas matas de vegetao decdua. Ali, seus ancestrais
tiveram de enfrentar problemas de sobrevivncia completamente diferentes,
contando com recursos em potencial infinitamente mais variados que aqueles
de que dispunham os antropoides.
    At agora, ainda no se chegou a um acordo sobre a poca em que as famlias
dos homindeos e dos pongdeos se diferenciaram. A partir da interpretao dos
testemunhos paleontolgicos, calculou-se que essa diferenciao ocorreu durante
o Cenozoico Antigo, no decorrer do Mioceno Inferior, h aproximadamente 25
milhes de anos. Por outro lado, trabalhos recentes de bioqumica comparada
552                                                    Metodologia e pr-histria da frica



dos primatas (cromossomos, protenas do srum, hemoglobina e diferenas
imunolgicas entre o homem, os antropoides e os macacos do Velho Mundo)
sugerem que a diferenciao no foi anterior a 10 milhes de anos, talvez nem
mesmo a 4 milhes. Poderamos crer que as evidncias fornecidas pelos prprios
fsseis fossem mais concretas, mas infelizmente no  o que acontece. Se a
cronologia longa estiver correta, o perodo crucial durante o qual os homindeos
j estariam sensivelmente diferenciados da linhagem dos macacos antropoides
Mioceno Recente/Plioceno Antigo (entre -12 e -5 milhes de anos)  forneceu-
-nos at agora pouqussimos fsseis de primatas na frica. S a partir do fim
do Plioceno dispomos novamente de material fssil fragmentrio, e no h a
menor dvida de que entre esses fsseis existem homindeos.
    O fssil Ramapithecus wickeri, do Mioceno Recente, descoberto em Fort
Ternan, na bacia do lago Vitria, tem de 12 a 14 milhes de anos. Infelizmente,
desse fssil existem apenas fragmentos da face e dentes, mas as caractersticas
desse material levam a classificar tal fssil como homindeo. Entretanto, para
termos certeza de que o resto de sua anatomia e seu sistema de locomoo no
diferiam radicalmente daqueles dos homindeos, so necessrios restos menos
fragmentrios e principalmente os ossos do esqueleto ps-craniano. Se esse
espcime j se diferenciara suficientemente ou no como homindeo,  uma
questo que deve, portanto, ficar em suspenso pelo menos por enquanto. O
Ramapithecus ocupava um habitat onde predominavam florestas-galerias, cursos
de gua e savanas, numa poca em que as florestas perenes, que existem hoje
somente ao sul da Grande Escarpa na frica do Sul, eram muito mais extensas
que atualmente. Visto que o Ramapithecus foi descoberto tanto na frica oriental
quanto no noroeste da ndia,  provvel que vivesse tambm nas savanas do sul
da frica.
    Os primeiros indcios inequvocos da presena de homindeos remontam
a cerca de 5 milhes de anos atrs, poca em que os australopithecos ou
"homens-macacos" j tinham surgido na parte oriental do Rift Valley. Esses
australopithecos ocupavam tanto as savanas do sul quanto as da frica oriental.
Acredita-se que os mais antigos fsseis da frica do Sul datem do fim do
Plioceno ou do Pleistoceno Antigo  entre -2,5 e -3 milhes de anos.
    A maior parte do Plioceno caracterizou-se por um clima relativamente
estvel, que facilitou o desenvolvimento e a expanso nas savanas de espcies
biologicamente adaptadas. Esse perodo de relativa estabilidade chegou ao fim
com a diminuio da temperatura no mundo inteiro e com grandes movimentos
tectnicos e fenmenos vulcnicos, em particular em toda a extenso do Rift
Valley. Nessa poca, o sistema de drenagem de inmeras bacias fluviais e lacustres
Pr-Histria da frica austral                                                                           553



africanas tambm sofreu modificaes, muitas vezes considerveis, devido aos
dobramentos tectnicos da crosta terrestre. As baixas temperaturas que marcam
o incio do Pleistoceno foram acompanhadas de uma diminuio do ndice
pluviomtrico e de um ressecamento crescente, de tal modo que a vegetao rida
do Karroo alastrou-se no sul da frica em detrimento das pradarias e florestas.
    Essas mudanas importantes no clima e no meio ambiente impuseram aos
homindeos ajustamentos significativos e uma concomitante diversificao
morfolgica, ditada provavelmente por reaes de adaptao s novas presses
ambientais1.  certo que nessa poca, tendo abandonado a floresta para viver nas
savanas em algum momento do Plioceno ou mesmo antes, a forma ancestral dos
homindeos (quer ela fosse quadrmana ou j parcialmente bpede) havia passado
por uma evoluo gentica relativamente rpida, que lhe permitia adaptar-se a vrios
nichos ecolgicos novos. Eis porque j no Pleistoceno Inferior parece ter havido
no sul da frica pelo menos trs formas de homindeos, muito provavelmente da
mesma espcie, capazes de se reproduzirem por entrecruzamento.
    O primeiro fssil de australopiteco, uma criana, foi encontrado em 1924
em uma brecha colmatada por calcrio numa caverna de Taung, no norte
da provncia do Cabo, na frica do Sul. O primeiro indivduo adulto foi
descoberto em 1936, novamente em antigos depsitos de caverna, na regio de
Krugersdorp, no Transvaal. Desde ento, inmeros fsseis de australopitecos e
de outros homindeos foram descobertos como resultado de trabalhos intensivos
empreendidos por equipes no nvel dos sedimentos depositados pela gua na
depresso do Rift na frica oriental e nas profundas cavernas do planalto
calcrio da frica do Sul, onde as condies so favorveis  preservao de
fsseis dessa poca.
    Alm dessas regies, o nico fssil relacionado aos australopitecos foi
encontrado em Korotoro, na bacia do lago Chade; entretanto, atualmente
esse espcime  considerado mais recente. Assim, embora muitos fsseis de
australopitecos sejam conhecidos hoje, eles provm de um nmero limitado de
localidades  em sua maioria de cavernas da frica do Sul e de stios do Rift
Valley  , pois raramente existem condies favorveis  preservao de ossos


1    No sul da frica, a nica localidade importante onde foram descobertos fsseis desse perodo 
     Langebaanweg, no oeste da provncia do Cabo. Esse stio localiza-se perto do litoral e seu meio ambiente
      ao mesmo tempo terrestre e o de um esturio. Encontra-se a uma fauna abundante e rica em mamferos
     africanos de formas arcaicas, que datam de cerca de 3 a 5 milhes de anos. Embora ainda no tenha sido
     encontrado nenhum trao de homindeo, existem fsseis de primatas;  bem possvel que as pesquisas
     futuras possam revelar restos de homindeos para comparao com outros da mesma poca provenientes
     da frica oriental.
554                                      Metodologia e pr-histria da frica




 Figura 20.1 Localizao dos
 depsitos fauresmithienses ( ) e
 sangoenses ( ) na frica austral
 (Apud CLARK, J. D. The Prehistory
 of Africa. Londres, Thames and
 Hudson, 1970. Fig. 21).
 Figura 20.2 Depsitos de fsseis
 humanos do Pleistoceno Superior
 ( ) e alguns do Ps-Pleistoceno ( )
 na frica austral (Apud CLARK, J.
 D. The Prehistory of Africa. Londres,
 Thames and Hudson, 1970. Fig. 25).
Pr-Histria da frica austral                                                555



fsseis. Em muitas regies africanas, como na regio das densas florestas da
frica ocidental, os solos cidos, a eroso e outros fenmenos impediram a
preservao de fsseis. No entanto, existem boas razes para crer que vrias
formas diferenciadas de homindeos habitavam as savanas tropicais h 2 ou 3
milhes de anos atrs. Na frica oriental, a datao dos fsseis tem-se tornado
cada vez mais precisa graas aos mtodos radiomtricos e  cronologia das
reverses paleomagnticas. At agora, os fsseis da frica do Sul s puderam
ser datados por cronologia relativa, atravs de comparaes paleontolgicas e
geomorfolgicas. As estimativas mais recentes, baseadas no estudo de sunos,
elefantes e hienas, indicam que os mais antigos fsseis do Transvaal tm pelo
menos 2,5 milhes de anos. As brechas das cavernas onde esses fsseis foram
descobertos  a pedreira calcria de Makapan e o stio-tipo de Sterkfontein 
contm algumas espcies de mamferos presentes nos complexos faunsticos da
frica oriental, as quais tm caractersticas morfolgicas semelhantes s dos
fsseis da transio Plio-Pleistoceno.
    Os mais antigos espcimes de australopitecine da frica do Sul apresentam,
em sua maioria, morfologia grcil (A. africanus), com uma mdia de 1,40 m de
altura, postura ereta, os membros inferiores adaptados  locomoo totalmente
bpede e os superiores ao uso de instrumentos. A cabea est centrada no alto
da coluna vertebral, que  sustentada por uma bacia de forma basicamente
humana. A capacidade craniana os aproxima mais do gorila (450 a 550 cm)
que do homem moderno, embora o esqueleto ps-craniano e a dentio revelem
caractersticas essencialmente humanas.
    A face, todavia,  mais simiesca, com prognatismo, malares salientes e arcadas
supra-orbitrias espessas. Os pontos de insero dos msculos da nuca e dos
msculos mastigatrios indicam que estes eram muito possantes.
    Em stios mais recentes, as cavernas de Swartkrans e Kromdraai (e muito
provavelmente tambm Taung, como se acredita hoje), o tipo predominante
 muito mais robusto (A. robustus). Trata-se de indivduos bem mais pesados,
com aproximadamente 68 kg. Os do sexo masculino tm cristas sseas, uma no
alto outra na base do crnio, o que permitia a insero de possantes msculos
mastigatrios e da nuca. Acreditava-se que as formas mais antigas fossem todas
do tipo grcil (A. africanus) e as mais recentes todas robustas (A. robustus).
Estudos antropomtricos recentes, porm, mostram que a diferenciao no
 to clara como se pensava, sabendo-se hoje que ambas as formas podem ser
contemporneas; isso ocorre em pelo menos um dos stios da frica do Sul
(Makapan). Acontece o mesmo no Pleistoceno Inferior da frica oriental; os
fsseis descobertos nessa regio parecem indicar que a diferenciao entre estas
556                                       Metodologia e pr-histria da frica




Figura 20.3 Principais depsitos
de fauna e fsseis humanos do fim do
Plioceno (fauna = ; fsseis humanos = )
ao incio do Pleistoceno ( ; ) na
frica austral (Apud CLARK, J. D. The
Prehistory of Africa. Londres, Thames
and Hudson, 1970. Figs. 9).
Figura 20.4 Localizao dos
principais depsitos acheulenses na
frica austral. Acheulense Inferior = ;
Superior = (Apud CLARK, J. D. The
Prehistory of Africa. Londres, Thames
and Hudson, 1970. Figs. 18).
Pr-Histria da frica austral                                                                       557



duas linhagens, a partir de um ancestral comum mais prximo da forma grcil,
pode ter acontecido h 5 milhes de anos.
    Recentemente, em 1972, na parte nordeste da bacia do lago Turkana, foram
encontrados um crnio (com uma capacidade craniana de aproximadamente 810
cm2), ossos longos e outros fragmentos de ossos cranianos e ps-cranianos, que
datam de um perodo entre -3 e -2,6 milhes de anos. Esses fsseis apresentam
muitas afinidades com o Homo, embora tenham tambm caractersticas que
os relacionam aos australopitecos, em particular na face e na dentio. Em
outros depsitos da frica oriental, principalmente na garganta de Olduvai
(norte da Tanznia), foram descobertos outros fsseis relacionados a esses, com
considervel capacidade craniana e que so classificados como australopitecos
evoludos ou como Homo primitivo (H. habilis). Tais fsseis datam de um perodo
entre -2 e -1,75 milhes de anos2.  muito provvel que uma forma primitiva de
Homo j existisse no sul da frica nessa poca, mas ainda no foram encontrados
fsseis caractersticos. Essa probabilidade  reforada pela descoberta feita em
1975, em Hadar, na parte etope do Rift Valley conhecida como Tringulo de
Afar, de fsseis homindeos com aproximadamente 3 milhes de anos. O Dr.
D. Johanson sugeriu que os doze indivduos descobertos poderiam pertencer a
trs taxa diferentes: um homindeo grcil representado por um esqueleto muito
bem preservado, uma forma robusta semelhante ao A. robustus e uma terceira
forma identificada pelos maxilares superior e inferior, mais prxima do Homo
sapiens. Se esse fato fosse confirmado, poderia concluir-se que a linhagem Homo
j e.stava diferenciada dos australopitecneos h 3 milhes de anos.


    O modo de vida dos primeiros homindeos
    Embora muitos fsseis de homindeos australopitecos tenham sido
encontrados em cavernas da frica do Sul, parece pouco provvel, at mesmo
improvvel, que os stios onde foram descobertos fossem seus locais de habitao.
Pensava-se que os homindeos habitavam as profundas cavernas calcrias do
Transvaal e que os ossos fsseis ali encontrados fossem restos de animais que
eles tinham levado para as grutas para fazerem armas e outros instrumentos. No
entanto,  mais provvel que os produtos dessa "indstria osteodontoquertica",

2    Acredita-se atualmente que o fragmento facial e o palato encontrados em Chesowanja, na bacia do lago
     Baringo, tenham mais de 3 milhes de anos. Como esses fragmentos apresentam algumas caractersticas
     que os ligam ao Homo (espcie indeterminada),  possvel que pertenam a uma poca prxima quela
     em que a linhagem Homo comeou a se diferenciar dos australopitecneos.
558                                                      Metodologia e pr-histria da frica



como  denominada, constituam apenas os restos da alimentao de algum
carnvoro. Estudos cuidadosos dos restos de fauna da jazida de Swartkrans
indicam que o acmulo de fsseis de australopitecos e de outros mamferos nas
grutas pode ter vrias causas, sendo a mais provvel a atividade predatria de
grandes carnvoros, como leopardos ou tigres. Entretanto, ainda no se chegou
a um consenso sobre esse ponto (cf. Captulo 17, segunda parte).
    Como a maioria dos materiais so rapidamente destrudos, exceto em
circunstncias excepcionais, dos primeiros artefatos do homem s sobreviveram
os que so feitos de pedra. No entanto, nas brechas das cavernas da frica do
Sul (Makapan, Sterkfontein) onde foram descobertos os fsseis dos homindeos
mais antigos, no aparece nenhum artefato ltico reconhecido como tal, embora
tenham sido encontrados utenslios de pedra em trs stios de homindeos na
frica oriental, que datam de -2,5 milhes de anos ou mais. Na frica oriental,
os stios de habitao localizavam-se perto das margens de um lago ou de um
curso de gua que desembocava num lago; tais stios podem ser reconhecidos
por uma concentrao localizada de ossadas e artefatos de pedra. Considerando
a variedade de espcies e o nmero de animais evidenciados pelos restos de ossos
sistematicamente partidos encontrados nesses depsitos, no h dvida de que se
trata de vestgios de atividades coletivas (caa e necrofagia) dos homindeos, que
usavam os instrumentos de pedra para, entre outras coisas, cortar a carne, os ossos e
tambm os alimentos vegetais, que deviam constituir a maior parte de sua dieta. A
variedade dos restos e a diversidade de seu grau de conservao sugerem que esses
acampamentos foram ocupados em repetidas ocasies, e no apenas numa parada
passageira. No entanto, existem tambm os chamados "stios de abate" onde apenas
um animal de grande porte foi morto e esquartejado por um grupo. Em geral,
a rea coberta pelos restos de ocupao deixados nos escarpamentos  pequena,
indicando que o grupo provavelmente era pouco numeroso, apenas duas ou trs
famlias. E discutvel at que ponto  verdadeiro o papel de matador-predador
por vezes atribudo aos primeiros homindeos. Embora a carne constitusse uma
parte cada vez mais importante de sua alimentao, parece pouco provvel que
eles fossem mais agressivos que outros carnvoros de grande porte; talvez fossem
at menos, porque no dependiam apenas da carne, mas tambm se utilizavam
amplamente de recursos vegetais.  evidente, no entanto, que foi a organizao da
caa que estimulou o homem primitivo a desenvolver um sistema scio-econmico
mais estruturado, possibilitado pela sua habilidade para fabricar utenslios com
propsitos definidos. Na frica oriental, os vestgios dos acampamentos, para os
quais eram levados regularmente os produtos da caa e da coleta, indicam que os
homindeos do fim do Plioceno e do Pleistoceno Inferior estavam provavelmente
Pr-Histria da frica austral                                                 559



organizados em grupos sociais flexveis, cuja composio poderia mudar com
frequncia. Esses grupos deviam manter-se unidos pela prtica de compartilhar o
alimento e pela fase em que os jovens dependiam de seus pais para alimentao e
aprendizado (como as crianas de hoje). As atividades que provavelmente levaram
os homindeos a trabalharem a pedra para obter lascas afiadas foram a caa e
o consumo da carne. A caa exigia organizao e comunicao eficazes entre
os participantes, o que levou, com o passar do tempo, ao desenvolvimento da
linguagem. A diviso de tarefas entre homens e mulheres deve ter comeado mais
ou menos nessa poca; os homens passaram a se dedicar  caa e as mulheres 
coleta de alimentos e aos cuidados com as crianas.
    Se as cavernas do Transvaal no eram os locais de habitao dos homindeos,
mas a despensa de algum outro carnvoro de grande porte, do qual os prprios
homindeos podem ter sido s vezes vtimas, parece provvel, no entanto, que
os australopitecos vivessem nas suas imediaes. Isso porque nas brechas mais
recentes do grupo de cavernas de Sterkfontein (Swartkrans, Kromdraai e de
Sterkfontein Extension Site), que podem ter 1,5 milho de anos, foram descobertos
utenslios de pedra rudimentares junto aos fsseis. Eles so feitos de rochas que
no so encontradas nas proximidades das cavernas  seixos de quartzito, quartzo
e diabsio  e presume-se que sejam provenientes de um acampamento prximo.
    Visto que a maioria dos restos de homindeos encontrados nas brechas mais
recentes de Swartkrans e Kromdraai so de australopitecos robustos, sups-se
que fossem estes os fabricantes dos utenslios. Pensava-se o mesmo a respeito de
Sterkfontein (Extension Site). Entretanto, fragmentos de um crnio e de uma
face e alguns ossos ps-cranianos pertencentes a uma espcie primitiva de Homo
foram encontrados no mesmo depsito de Swartkrans e  mais provvel que seja
essa a espcie responsvel pelos utenslios. Tal fato no exclui a possibilidade de
que os australopitecos tambm fabricassem utenslios: um recente experimento
realizado em Bristol demonstrou de maneira pitoresca que um jovem orangotango
podia fazer lascas a fim de obter comida, depois de lhe ter sido ensinado o
processo e de ele ter percebido o uso possvel das lascas. Como os fsseis de
australopitecos e de Homo so encontrados nas mesmas localidades na frica
oriental e meridional e como ocupavam nichos ecolgicos idnticos ou muito
semelhantes,  ainda mais provvel que o Australopithecus robustus fosse capaz
de fabricar utenslios rudimentares, como aqueles que pertencem  mais antiga
indstria conhecida, a Olduvaiense  embora se possa duvidar de que ele tivesse
capacidade intelectual para tanto e a fabricao de utenslios parea relacionada
mais especificamente com o surgimento de formas primitivas do Homo (H. habilis
e outros) h aproximadamente 2,5 milhes de anos.
560                                                                    Metodologia e pr-histria da frica



      Os primeiros utenslios de pedra:
      as indstrias olduvaienses
    Embora os primeiros utenslios do homem que sobreviveram sejam feitos
de pedra,  necessrio lembrar que outros materiais poderiam tambm ter sido
empregados  madeira, casca de rvore, osso, chifre, pele, etc.
     provvel que um longo perodo de utilizao de utenslios  durante o qual
os objetos que por sua forma natural se adequavam a determinado uso receberam
pouca ou nenhuma modificao  tenha precedido sua fabricao intencional,
que implicava a vontade expressa de produzir um pequeno nmero de tipos
de utenslios a partir de materiais que, sem modificaes, seriam inutilizveis.
Aps o lascamento ou outra transformao, esses materiais eram desbastados
at uma determinada forma e depois aprimorados por retoques. Desde o incio,
os utenslios de pedra demonstram a habilidade dos homindeos para talhar esse
material e assimilar os princpios da tecnologia lrica.
    A mais antiga indstria ltica conhecida no mundo foi chamada de Olduvaiense
 referindo-se  garganta de Olduvai, na Tanznia  e os exemplares mais antigos
da frica oriental datam de 2,6 milhes de anos atrs3.  possvel que algumas
das descobertas feitas no cascalho de antigos terraos fluviais (do Vaal ou do
Zambeze), ou em altas falsias das costas do sul da frica, pertenam tambm
a essa poca. Entretanto, como tais utenslios ainda no foram encontrados em
estratigrafia, associados a elementos que permitam sua datao, no se pode
afirmar nada sobre sua antiguidade, pois eles poderiam ser bem mais recentes.
Poderamos pensar que, tal como no grande vale do Rift da frica oriental, no
Rift do Malavi tivessem sido preservados tanto utenslios dessa poca quanto
fsseis de homindeos. Na extremidade norte do Malavi foram encontrados
restos de animais do Plio-Pleistoceno, que constituem o nico elo importante
entre os vestgios do leste e do sul da frica. No entanto, por alguma razo
desconhecida, essa rea s foi ocupada pelo homem primitivo muito mais tarde
e apenas raramente se encontram primatas nos sedimentos das profundas bacias
da fossa austral.
    Os utenslios dos depsitos mais recentes de australopitecneos (Swartkrans,
Kromdraai e Sterkfontein Extension), perto de Krugersdorp, pertencem a vrios


3     Os utenslios do tufo KBS de Koobi Fora haviam sido datados de 2,6 milhes de anos pelo mtodo do
      potssio-argnio (K/Ar). Entretanto, resultados mais recentes e correlaes da fauna com a formao
      de Shunguna, na bacia do Orno, e com a de Koobi Fora, no lago Turkana, indicam que sua antiguidade
      pode ter sido superestimada e que uma datao mais provvel seria 1,8 milho de anos.
Pr-Histria da frica austral                                                                             561



tipos caractersticos: choppers obtidos pela retirada de lascas de uma ou duas faces
de um seixo ou de um pequeno bloco, formando um bordo afiado irregular;
poliedros que mostram com frequncia sinais de golpes, mostrando terem sido
feitos atravs de violenta martelagem; instrumentos com base plana e borda de
preenso arredondada com uma borda ativa feita em parte da circunferncia,
formando um raspador; lascas adequadas para cortar e despedaar e ncleos de
onde essas lascas foram intencionalmente debitadas. Em geral, as lascas e os
resduos de preparao so geralmente raros em Sterkfontein Extension e em
Swartkrans, o que refora a suposio de que no se trata de lugares de habitao.
No entanto,  medida que prosseguem as escavaes sistemticas nas brechas
desses stios, revelando conjuntos mais completos de utenslios, podemos esperar
obter maiores dados sobre os artefatos dos primeiros homindeos.
    Comparados com as indstrias dos stios da frica oriental, esses utenslios da
frica do Sul revelam caractersticas mais prximas do Olduvaiense Recente que
do Antigo; portanto, podem ser considerados como pertencentes ao Olduvaiense
Evoludo. Na frica oriental, o Olduvaiense Evoludo mais antigo data de
aproximadamente 1,5 milho de anos atrs; tomando por base tambm os restos
de animais fsseis, admite-se hoje que os stios mais recentes de australopitecos
da frica do Sul pertencem a essa mesma poca4. Esto presentes ento duas
linhagens bem distintas de homindeos: a do Australopithecus robustus e uma
outra, correspondente aos primeiros representantes da verdadeira linhagem
Homo.


    O complexo acheulense
   Pouco mais ou menos nessa poca, surgiu uma segunda indstria, a acheulense,
caracterizada por grandes instrumentos cortantes conhecidos como bifaces e
machadinhas. Ela se distingue da olduvaiense pelos utenslios maiores, feitos com
grandes lascas, cuja obteno a partir de blocos ou boulders exigia fora e percia.
Em contraste, todos os utenslios olduvaienses podem ser seguros na palma da
mo ou, para trabalhos mais delicados, entre o polegar e os outros dedos. O
Olduvaiense Evoludo e o Acheulense foram descritos como duas indstrias


4    Recentemente, o Dr. C. K. Brain afirmou que a brecha mais antiga, que contm restos de Australopithecus
     e de Homo, poderia ser dividida em dois nveis. No nvel I, o mais antigo, foram encontrados A. robustus e
     Homo sapiens e apenas um utenslio de pedra indiscutvel; o nvel II, mais recente, contm Homo sapiens
     (Telanrhropus) e uma indstria ltica onde aparecem duas machadinhas acheulenses. O nvel II data
     provavelmente de 500.000 anos (BRAIN, C. K. Comunicao pessoal).
562                                                   Metodologia e pr-histria da frica



contemporneas, algumas vezes encontradas sob uma forma olduvaiense pura ou
acheulense pura e algumas vezes misturadas, em propores variveis, no mesmo
stio. Essas duas tradies tecnolgicas tm sido interpretadas de maneiras
diferentes. J foi sugerido que cada uma delas  produto de uma espcie diferente
de homindeos, ou ainda, que so o resultado de atividades diversas que exigiam
conjuntos de utenslios diferentes, relacionados com padres de comportamento
distintos (ver Captulo 19). Essas duas tradies persistem e so encontradas em
inmeras combinaes at por volta de -200.000 anos, ou seja, bem depois da
extino do A. robustus em consequncia de sua competio com o Homo, Por
essa razo, adotamos aqui a tese de que a existncia desses dois tipos distintos
de utenslios se deve a diferenas de atividades ou de modos de explorao
de recursos e a escolhas baseadas na tradio ou em preferncias individuais,
tendo sido tais artefatos produzidos por apenas uma populao de homindeos,
conforme as circunstncias exigiam. O aparecimento relativamente repentino
do Acheulense indica, portanto, que novos recursos estavam sendo explorados
ou que melhores mtodos tinham sido inventados para utilizar os recursos at
ento explorados com utenslios do tipo olduvaiense.
    Os mais antigos conjuntos sul-africanos de utenslios do Acheulense, e que
podem ser praticamente contemporneos dos homindeos Homo sapiens e A.
robustus de Swartkrans, provm de duas jazidas prximas, situadas na confluncia
do Yaal e de seu afluente Klip, perto de Yereeniging. Foram encontrados em um
terrao de cascalho, dez metros acima do rio atual; em sua maioria, os utenslios
so rolados e desgastados pelo atrito, estando em posio derivada e no no seu
contexto espacial de origem. Uma srie de utenslios foram encontrados: bifaces
pontiagudos feitos com a remoo de algumas lascas grandes, machadinhas,
poliedros, seixos lascados, raspadores nucleiformes e vrios utenslios feitos
sobre lascas e pouco retocados, bem como ncleos e resduos de preparao.
Todos eles revelam o emprego da tcnica de percusso com um percutor duro
e nesse aspecto so equivalentes ao Abbevilliense da Europa. A presena de
dois utenslios semelhantes a bifaces em Sterkfontein Extension Site parece
confirmar que esse stio no est afastado no teinpo dos stios do rio Klip
(Three Rivers e Klipplaatdrif ). Algumas descobertas de outros conjuntos de
utenslios de aparncia antiga foram feitas em diversas partes do sul da frica,
por exemplo, em antigos terraos fluviais de Stellenbosch, na provncia do Cabo,
ou perto de Livingstone, em Zmbia; so, porm, incompletos e datados de
maneira imprecisa.
Pr-Histria da frica austral                                563




Figura 20.5 Acheulense Inferior, Sterkfontein:
biface, lasca cuboide e dois ncleos (Apud MASON, R.
Prehistory of the Transvaal. Johannesburg, Witwatersrand
University Press, 1962. Fig. 83).
Figura 20.6 Utenslios do Acheulense Superior,. de
Kalambo Falls, datados de mais de 190.000 anos B.P.; os
utenslios grandes so feitos de quartzito e os pequenos
de slex negro: 1. raspador convergente; 2. raspador
cncavo; 3. raspador denticulado; 4.machadinha com
arestas divergentes; 5. faca sobre lasca com bordos
retocados; 6.machadinha com arestas paralelas; 7. biface
oval; 8. esferoide; 9. furador; 10. biface oval alongado;
11. biface lanceolado.
Figura 20.7 Utenslios provenientes dos depsitos de
Howiesonspoort: 1, 2, 4 e 5. segmentos de crculo com
bordo de preenso retocado; 3. trapzio com bordo de
preenso retocado; 6. ncleo levalloisiense; 7. buril; 8.
artefato retocado; 9. furador; 10 e 13. pontas bifaces; 11.
raspador; 12. raspador bilateral. Os exemplares 2, 3 e 5
provm de Howiesonspoort; todos os outros provm da
caverna do Tnel (Apud SAMPSON, C. G. The Stone
Age Archaeology of Southern Africa. Nova York, Academic
Press, 1974. Fig. 84).
564                                                                           Metodologia e pr-histria da frica



    Em algum ponto, entre 1 milho e 700.000 anos atrs, a primitiva linhagem
Homo (representada pelo crnio homindeo 1470 de Koobi Fora, a leste do lago
Turkana, e pelos fsseis de Homo habilis da garganta de Olduvai, da bacia do
Orno e de outros stios) foi suplantada por um tipo mais robusto e com maior
capacidade craniana, conhecido como Homo erectus. Na mesma poca, ou um
pouco antes, tinha havido uma rpida difuso de grupos homindeos em direo
ao norte da frica e, fora do continente africano, na Europa e na sia. Fsseis do
Homo erectus e restos de sua cultura so encontrados em vrias partes do Velho
Mundo, bastante distanciadas umas das outras. Na frica, foram descobertos
fsseis de Homo erectus na parte superior do Bed II da garganta de Olduvai
(uma forma com crebro desenvolvido), em Melka Kontur na Etipia e em
stios no litoral e no interior da regio noroeste da frica e no Magreb, onde
esto associados a indstrias do Acheulense Antigo.  muito provvel que os
vestgios acheulenses do sul da frica tenham sido deixados pelo Homo erectus,
embora at o momento no se tenha descoberto nenhum fssil desse homindeo
naquela regio.
     a partir do Acheulense Recente ou Evoludo, que comeamos a encontrar
no sul da frica, assim como em todo o continente africano, uma proliferao
de stios que sugere um aumento geral de nmero e tamanho dos grupos de
homindeos. A pequena quantidade de stios de perodos mais antigos pode ser
parcialmente atribuda  relativa escassez de sedimentos dessa poca, preservados.
Provavelmente, porm, esse no  o principal motivo para explicar o aumento
acentuado do nmero de stios descobertos pertencentes ao Acheulense Evoludo
e sua ampla extenso geogrfica. De acordo com o Atlas de PrHistria Africana,
so conhecidos na frica do Sul 389 stios desse perodo, tendo-se encontrado
conjuntos de machadinhas e bifaces tpicos na maioria dos sistemas fluviais
explorados. Apesar do grande nmero de depsitos conhecidos, apenas alguns
foram escavados e poucos esto em seu contexto de origem5, que preservaria a
distribuio de utenslios e outros sinais de ocupao depois de o stio ter sido
abandonado por seus habitantes.
    Os stios explorados mostram a variedade de habitats e alguns aspectos do
comportamento do homem do Acheulense. Nenhum desses stios foi ainda
datado com preciso, pois sua idade ultrapassa em muito o alcance da datao
pelo radiocarbono; alm disso, as rochas e os sedimentos com os quais esto


5     Por exemplo, grandes quantidades de utenslios acheulenses foram encontradas na parte ocidental do vale do rio
      Vaal e de muitos de seus afluentes. Apesar de alguns desses conjuntos de utenslios testemunharem mudanas
      tecnolgicas interessantes, todos foram deslocados pela eroso e esto em contexto espacial derivado.
Pr-Histria da frica austral                                                  565



associados no se adequam ao mtodo do potssio-argnio ou ao da cronologia
baseada nas reverses paleomagnticas. O stio localizado mais ao norte  o de
Kalambo Falls, na fronteira entre Zmbia e Tanznia, na frica central, onde
uma excepcional srie de circunstncias permitiu a conservao de madeira
em vrios nveis de ocupao.  possvel datar essa madeira, e uma amostra de
uma das camadas mais recentes foi datada de -190.000 anos atravs do mtodo
da racemizao dos aminocidos ( J. Bada, comunicao pessoal). Essa data
corresponde quela que foi obtida em Isimila, na Tanznia central, onde uma
srie estratificada acheulense semelhante foi datada de cerca de -260.000 anos
pelo mtodo do urnio-trio.  improvvel que alguma dessas indstrias seja
anterior a -700.000 anos, quando terminou a ltima grande poca de reverso
paleomagntica (poca de Matuyama), nem mais recente que -125.000 anos,
quando comeou o ltimo perodo interglacirio (Eemiano), durante o qual
surgiram indstrias mais avanadas. Portanto, pertencem essencialmente  poca
definida como Pleistoceno Mdio.
    Os stios de ocupao de Kalambo Falls localizavam-se nos bancos de areia 
beira do rio ou possivelmente no interior das florestas que cobriam as margens
nessa poca. O estudo do plen mostra que no incio do Acheulense a temperatura
era mais elevada e as precipitaes um pouco menos abundantes do que hoje;
no entanto, a transio para um clima mais rido era insuficiente para modificar
sensivelmente a vegetao que, como agora, consistia numa floresta ripcola
perene com vales pouco profundos e cheios de relva, periodicamente inundados
(dambos) e em matas de Brachystegia nas encostas mais altas. Todavia, por volta
do fim do Acheulense, o estudo do plen. e dos vestgios vegetais macroscpicos
indica uma baixa da temperatura e um certo aumento nas precipitaes; tais
alteraes permitiram que algumas espcies vegetais, que existem atualmente
300 m mais acima, descessem at o nvel da bacia local do Kalambo. Acredita-
-se que cada um dos nveis de habitao era ocupado apenas durante uma ou
duas estaes; depois a superfcie era coberta por depsitos de areia, barro e
lama do rio, sobre os quais se estabelecia uma nova ocupao. Esses horizontes
mostram concentraes claramente delimitadas, onde foi encontrado um grande
nmero de bifaces e machadinhas, muitos utenslios feitos sobre lascas retocadas,
raspadores nucleiformes e, em menor quantidade, pices, poliedros e esferoides.
    Associados a esta indstria ltica, encontraram-se vrios utenslios de madeira:
um chuo, bastes de cavar, bastes curtos e pontiagudos (provavelmente usados
tambm para cavar), um utenslio fino em forma de lmina e fragmentos de casca
de rvore que podem ter sido usados como bandejas. Alguns desses horizontes
fornecem numerosos traos do uso do fogo: troncos de rvores carbonizados,
566                                                     Metodologia e pr-histria da frica



carvo vegetal, cinzas e concentraes ovais, cncavas, de grama e de plantas
lenhos as partidas e carbonizadas que poderiam ter servido de leitos. Alm
disso, havia grande quantidade de gros e frutos carbonizados pertencentes a
gneros e espcies de plantas comestveis que ainda hoje crescem na bacia do
Kalambo. Como essas plantas amadurecem no fim da estao seca (setembro
e outubro), presume-se que tais instalaes acheulenses eram acampamentos
ocupados durante essa estao.
    Nenhum resto de fauna foi preservado em Kalambo Falls. Em Mwanganda,
porm, perto de Karonga, na extremidade noroeste do lago Malavi, existe um
outro stio do Pleistoceno Mdio, onde, prximo a um curso de gua que corre
na direo leste at o lago, foi esquartejado um elefante. Ao que parece, pelo
menos trs grupos de indivduos tomaram parte nessa atividade, pois foram
descobertos trs conjuntos distintos de ossos, cada um deles associado a utenslios
de pedra utilizados naquele local e depois abandonados. Esses utenslios so,
em sua maioria, lascas com poucos retoques, pequenos raspadores e alguns
seixos lascados; trata-se, na verdade, de utenslios do Olduvaiense Evoludo que
refletem caractersticas do Olduvaiense Primitivo. Em Oppermansdrif, perto de
Bloemhof, s margens do rio Vaal. As escavaes revelaram interessantes dados
sobre a eficincia do homem do Acheulense como caador, assim como sobre
sua tcnica de cortar a carne e se desfazer dos restos de ossos. Estes formam
vrios montes prximos ao curso de gua, misturados a bifaces provenientes do
mesmo horizonte.
    Os utenslios acheulenses so encontrados s vezes associados a afloramentos
de matria-prima e em meio a fragmentos de rocha e resduos de preparao.
Stios desse tipo (por exemplo, Gwelo Kopje, em Zimbabwe) fornecem-nos
poucas informaes sobre o meio ambiente, mas parecem ter sido ocupados
regularmente. Em Wonderboompoort, perto de Pretria, no Transvaal, foram
encontrados restos que formam uma camada de 3 m de espessura; esse depsito
parece estar associado a um dos pontos de passagem da cadeia de Magaliesberg,
numa rota de migrao de animais entre o middleveld e o highveld.
    Todavia, os locais de habitao preferidos durante o Acheulense situavam-
-se sempre perto da gua, em dambos, por exemplo, onde a caa se concentrava
e onde sempre havia gua disponvel. Um stio desse tipo existe em Kabwe
(Broken Hill), prximo ao famoso Kopje onde foram descobertos o crnio
e outros restos do Homo rhodesiensis. Nesse local, foram encontrados alguns
grandes utenslios cortantes junto a esferoides e inmeros utenslios pequenos
de quartzo. Em Lochard, no Zimbabwe, na regio drenada pelos rios Zambeze
e Limpopo, h um outro stio localizado em um dambo, que ainda no foi
Pr-Histria da frica austral                                                567



escavado mas onde foram encontrados muitos bifaces e machadinhas. Um outro
exemplo  a localidade de Cornlia, no norte do Estado Livre de Orange (frica
do Sul). Ao contrrio dos dois depsitos anteriores, em Cornlia encontraram-se
muitos vestgios de fauna, alguns dos quais podem estar relacionados com uma
indstria que compreende alguns bifaces e machadinhas e um certo nmero
de poliedros, seixos lascados e pequenos utenslios. Os animais, em particular
bbalos gigantes, foram provavelmente empurrados para o lamaal dos dambos
e ento mortos. H razes para crer que nessa poca o high veld era bem irrigado
e coberto por relva curta, com bosques esparsos e florestas ribeirinhas, no
muito diferente do que  hoje. Na vegetao estpica do Karroo, no norte da
provncia do Cabo e em Botsuana, a populao do acheulense instalou-se em
torno das depresses e bacias lacustres rasas que ento existiam em grande
nmero na regio. Um exemplo caracterstico desse tipo de assentamento 
Doomlagte, perto de Kimberley, onde se encontrou toda uma srie de utenslios,
aparentemente em seu contexto original, incrustados numa crosta calcria. H
sinais de repetidas ocupaes por um perodo bastante longo, mas no existem
restos de animais.
    Em Elandsfontein, perto de Hopefield, no oeste da provncia do Cabo, as
reas em torno dos charcos ou vleis e as depresses situadas entre as antigas
dunas de areia estabilizadas constituam para o homem do Acheulense timos
locais para caa de grandes mamferos. A fauna  a do Pleistoceno Mdio e,
em geral, caracterstica da fauna histrica do Cabo: elefantes, rinocerontes,
hipoptamos, girafas, antlopes de grande e mdio porte, Equus e javalis. Tambm
aqui os animais parecem ter sido mortos depois de conduzidos para terrenos
pantanosos; alm disso, h sinais da prtica de envenenar aguadas. Nesse stio foi
encontrada a calota craniana de um homindeo muito semelhante ao de Kabue
(Broken Hill) e inegavelmente mais avanado que o Homo erectus. Quanto ao
meio ambiente do oeste da provncia do Cabo, nada indica que fosse muito
diferente do que  hoje.
    Os homens do Acheulense viveram tambm no litoral, como mostra o
importante stio descoberto mais ao sul, na estreita plancie costeira, no cabo
Hangklip (False Bay), nas dunas de areias consolidadas que recobrem a praia
de 18 m. No h restos de fauna, mas foi encontrada uma grande quantidade
de bifaces bem acabados e um pequeno nmero de machadinhas, bem como
raspadores sobre lascas, raspadores nucleiformes, e pequenos utenslios.
Entretanto,  importante notar que, nessa poca, tanto nas margens atlnticas
do Marrocos quanto na bacia mediterrnea, o homem no se alimentava de
peixes e mamferos marinhos, mas quase to s de mamferos terrestres.
568                                                    Metodologia e pr-histria da frica



    Foram ainda ocupadas pelo homem do Acheulense reas  beira de fontes,
como a de Amanzi, na zona das chuvas de inverno ao sul da Grande Escarpa,
perto de Port Elizabeth. Nesse local, h vrias nascentes que, quando ativas,
depositaram uma srie de camadas estratificadas de areia; durante as pocas
de inatividade, quando cresciam no local canios e outros tipos de vegetao,
formaram-se camadas de turfa. O homem do Acheulense frequentava
regularmente essas fontes e acampava em suas imediaes, onde os utenslios
que ele abandonava foram pisoteados por elefantes e outros animais tambm
atrados pela gua. As pesquisas revelaram vrios conjuntos esparsos de utenslios
e, com base nos vestgios de madeira, plantas e plen, parece que a vegetao
no era muito diferente da que existe hoje no cabo Macchia.
    Finalmente, na frica meridional, o homem do Acheulense ocupou s vezes
cavernas, das quais duas devem ser mencionadas. A primeira, Cave of Hearths,
situa-se em Makapan, no bushveld do norte do Transvaal, e contm 9 m de depsitos
com fogueiras e nveis de ocupao acheulense. A anlise dos sedimentos indica
que as chuvas eram mais abundantes ento do que agora. A fauna pertence em
geral ao Pleistoceno Mdio e assemelha-se  do bushveld atual. Neste depsito
encontrou-se tambm um fragmento de maxilar humano, de um indivduo jovem
que pode ter afinidades com os fsseis neandertaloides ou talvez "rodesioides"6.
Os artefatos assemelham-se aos de Kalambo Falls, Hangklip e outros stios
onde foram descobertos grandes utenslios cortantes junto a um bom nmero
de artefatos pequenos. A segunda caverna  a de Montagu, no sul da provncia
do Cabo, e fica prxima a uma nascente e a um curso de gua permanentes, no
meio da vegetao de maqui. Ela tambm apresenta uma srie de camadas de
ocupao superpostas do Acheulense Recente, mas infelizmente nenhum resto
de fauna.
    Esses diversos stios constituem bons exemplos dos diferentes tipos de
habitat ocupados e da variedade do instrumental acheulense do Pleistoceno
Mdio. Todos os habitats tm certas caractersticas em comum. Todos se situam
em campo aberto, desde matas decduas (Kalambo Falls e Kabue Broken Hill)
at pradarias e parques naturais (Lochard e Cornlia) e maquis (Montagu e
Amanzi). Todos se localizam perto da gua, onde as rvores forneciam sombra
e frutos comestveis e a caa tendia a se concentrar  medida que a estao seca
avanava. Todos ficam em locais onde hoje existem associaes de vrios tipos
distintos de vegetao (ou seja, reas chamadas ectones); se o quadro geral era o


6     Ver p. 581.
Pr-Histria da frica austral                                                                           569



mesmo no passado, como indicam os vestgios atuais, todos esses diferentes tipos
de vegetao poderiam ser explorados no muito longe dos locais de habitao.
Nas reas em que a fauna foi preservada, nota-se que havia uma predileo por
animais de grande porte, como elefantes, hipoptamos, girafas, grandes bovdeos
e Equus; mas tambm aparecem restos de pequenos bovdeos, sunos, etc.
    Uma grande variedade de matrias-primas foi usada na fabricao de
utenslios de pedra, dependendo do material disponvel no local. Isso demonstra
que o homem do Acheulense possua grande versatilidade e habilidade para
lascar muitas rochas usando percutores duros e moles, e para fabricar utenslios
bem talhados e refinados. Demonstra tambm sua habilidade em selecionar,
entre as diversas tcnicas, a mais adequada ao material que estava sendo usado.
Nas reas onde grandes seixos de slex ou quartzito constituam a matria-
-prima, eles faziam os bifaces lascando diretamente o seixo. No entanto, quando
era necessrio usar blocos de pedra maiores, desenvolveram vrios mtodos
engenhosos7 preparavam e lascavam um ncleo de tamanho considervel a fim
de obter grandes lascas, com as quais eram feitos os bifaces e as machadinhas.
    No sul da frica,  provvel que o Acheulense Recente tenha tido uma
durao quase igual  desse perodo na frica oriental, onde se estendeu de
-700.000 a -200.000. Entretanto, no existe ainda nenhum mtodo de datao
suficientemente preciso para medir as diferenas de idade entre as vrias
indstrias acheulenses. Quando dispusermos de tais mtodos e quando for
encontrado maior nmero de indstrias em contextos estratigrficos, talvez se
possam definir em termos quantitativos as tendncias gerais da tecnologia dos
utenslios e estabelecer a possvel relao entre as diversas variantes identificadas
dentro do complexo acheulense, bem como a paleoecologia de um determinado
stio na poca em que foi ocupado.
    Conforme mostrou este breve resumo, as indstrias acheulenses ajustam-
-se a certos padres gerais que se encontram reproduzidos por todo o
mundo acheulense. H indstrias que consistem principalmente em bifaces e
machadinhas; outras compreendem seixos lascados e utenslios menores com
caractersticas do Olduvaiense Evoludo; h ainda as que mostram diversas
combinaes dessas duas tradies e aquelas em que predominam pices,
raspadores nucleiformes e outros utenslios "pesados". Portanto, embora exista
uma infinita variedade na composio das indstrias e na natureza do habitat


7    Por exemplo, pseudolevalloisiense, protolevalloisiense, levalloisiense de Tachengit e de Kombewa. Ver
     Brzillon. M. N. "La dnomination des objets de pierre taille". Gallia Prhistoire, Paris. Supl. IV. p.
     79-96 e 101-2.
570                                                    Metodologia e pr-histria da frica



e de seus recursos, certas caractersticas gerais parecem comuns ao Acheulense
como um todo, indicando que o modo de vida no variou quase nada de um
extremo a outro no mundo dos bifaces. O panorama do comportamento dos
homindeos no Pleistoceno Mdio mostra-nos grupos de caadores-coletores,
em geral com o mesmo estilo de vida e que tendiam a se agrupar e a estabelecer
comunicao entre si com certa eficincia. Viviam em grupos maiores que
nas pocas anteriores e ocupavam determinadas reas com mais regularidade,
seguindo um padro sazonal estabelecido. A estrutura social deveria ser ainda
flexvel, permitindo a livre circulao de indivduos e ideias. No entanto,
grandes reas do continente, inclusive as florestas, permaneciam despovoadas;
a distribuio esparsa do conjunto da populao implicava provavelmente o
isolamento quase total de cada um desses grupos em relao a seus vizinhos.

      O acheulense final ou "fauresmithiense"
    Sabe-se h muito tempo que certas indstrias exrstiram nos planaltos elevados
do interior do continente. Elas se caracterizam pela presena de bifaces bem
acabados e geralmente de tamanho menor, de uma grande srie de utenslios
feitos sobre lascas, de raspadores nucleiformes e de um nmero relativamente
pequeno de machadinhas.  provvel que sejam de uma poca mais recente que
o Acheulense visto acima; nesse caso, representam possivelmente um estgio
final da tradio dos bifaces. Entretanto, a maioria delas consiste em colees
de superfcie e que, por esse motivo, podem estar misturadas com materiais mais
recentes. A matria-prima utilizada era geralmente a lidianita (xisto endurecido),
nas regies onde essa rocha  abundante; em outras reas o quartzito era mais
usado.
    Apenas uma pequena quantidade de sries dessas indstrias provm de
escavaes e pouqussimas podem ser consideradas representativas. Uma
delas origina-se de uma antiga depresso, perto de Rooidam, a oeste de
Kimberley. Ali a indstria estava contida dentro de um depsito de cerca de
5 m de sedimentos, cobertos por uma camada espessa de calcrio estpico;
tais sedimentos representam a acumulao progressiva de coluvio provocada
pelas enxurradas. s vezes de dimenses reduzidas, os bifaces so em geral
rudimentares; a maior parte dos utenslios consistem em pequenos raspadores
e outros pequenos artefatos retocados, todos de lidianita. Nesse conjunto de
utenslios, pode-se observar um mtodo de preparao do ncleo conhecido
como "tcnica do ncleo discoide", que permite obter vrias lascas pequenas.
A tcnica levalloisiense, ao contrrio, pela qual se obtm apenas uma grande
Pr-Histria da frica austral                                                                       571



lasca em cada preparao do ncleo, parece no ter sido utilizada. Dois outros
depsitos (no rio Vaal, perto de Windsorten e na rea da barragem de Verwoerd,
no rio Orange) contm uma indstria semelhante, mas com a presena de ambas
as tcnicas  do ncleo discoide e levalloisiense. Parece que a tradio e talvez
outros fatores, como o tempo, poderiam explicar parcialmente tal variedade nas
formas das lascas e dos ncleos.
    Essas indstrias receberam o nome de Fauresmithiense, em referncia  regio
do Estado Livre de Orange onde os bifaces caractersticos em forma de amndoa
foram pela primeira vez encontrados em grandes quantidades na superfcie.
Entretanto, ainda no se sabe se essas indstrias apresentam caractersticas
suficientemente diversas do Acheulense para merecerem um nome distinto. Elas
so encontradas com mais frequncia nas pradarias, na vegetao do Karroo e no
maqui da frica do Sul e da Nambia. A nica indicao de sua provvel idade
 uma datao do carbonato de Rovidam feita pelo mtodo do urnio-trio, que
indicou 115.000 10.000 anos B.P.8 Permanece desconhecida a poca em que
as indstrias fauresmithienses foram suplantadas por uma nova tradio ou um
novo complexo tecnolgico, concentrado na produo de utenslios feitos sobre
lascas e lminas e que marca o incio da Middle Stone Age. E possvel que essa
mudana tenha ocorrido entre -100.000 e -80.000.
    Nas regies da frica central com precipitaes pluviomtricas maiores
e vegetao mais densa, o Acheulense Recente foi substitudo, no pelo
Fauresmithiense, mas por indstrias que apresentavam uma grande quantidade
de utenslios pesados: pices, bifaces, seixos lascados e raspadores nucleiformes.
Evidentemente, esses tipos de utenslios j apareciam nas indstrias acheulenses;
no entanto, com exceo de uma fcies pouco conhecida, nessa poca jamais
tinham prevalecido sobre os demais. Mais tarde, porm, esse equipamento pesado
tornou-se predominante nas reas de maiores precipitaes e temperaturas mais
elevadas, onde se encontra junto com uma srie de utenslios leves feitos sobre
lascas e fragmentos. Ele  encontrado em Zmbia, Zimbabwe, partes do sudeste
da frica (em particular na plancie de Moambique) e nas regies costeiras
de Natal, e pertence ao chamado complexo sangoense. Em sua maioria, as
indstrias sangoenses no so datadas, a no ser de modo relativo pelo mtodo
estratigrfico; no se sabe ao certo se elas so contemporneas do Acheulense
Final (Fauresmithiense) das savanas ervosas, ou mais recentes que ele.



8    B.P. (before present): "Antes do presente", tomando o ano de 1950 como ponto de referncia, pois foi
     nesse ano que se usou pela primeira vez o mtodo do carbono 14.
572                                                          Metodologia e pr-histria da frica




Figura 20.8 Utenslios da Middle Stone Age,
provenientes de Witkrans Cave. Exceto o de nmero 6,
que  de xisto, todos os demais so de slex negro: 1 e 2.
pontas unifaces; 3. lmina utilizada; 4, 6 e 7. raspadores
simples; 5. buril sobre truncatura; 8. raspador; 9. lasca
levalloisiense; 10. ncleo levalloisiense (Apud CLARK,
J. D. "Human behavioural differences in Southern
Africa during de Later Pleistocene". American
Anthropologist. "1971. v, 73. Fig. 11).
Figura 20.9 Utenslios do Lupembiense Mdio, de
Kalambo Falls, entulho I, jazida B1, 1956: 1. raspador
cncavo simples (slex); 2. raspador denticulado,
convergente e pontiagudo (slex); 3. ponta uniface
(slex); 4. buril didrico (crosta silicosa); 5. machado
nucleiforme (slex); 6. raspador nucleiforme (slex) ;
7. trinchante (quartzito); 8. ponta lanceolada (slex).
Figura 20.10 Distribuio de lminas e fragmentos
de lminas utilizadas, com relao a estruturas de
blocos de dolerito, no horizonte primrio em Orangia
(Apud SAMPSON, C. G. The Stone Age Archaeology of
Southern Africa. Nova York, Academic Press, 1974, p.
166. Fig. 58).
Pr-Histria da frica austral                                                                       573



    Em Kalambo Falls, a fcies local do Sangoense (indstria de Chipeta)
data de 46.000 a 38.000 B.P., segundo doze resultados obtidos pelo mtodo
do radiocarbono. Em Mufo, no nordeste de Angola, uma fase semelhante
data de aproximadamente 38.000 B.P. Em Zimbabwe, o Sangoense local
(indstria de Gwelo)  comparvel a indstrias anteriormente denominadas
"Proto-Stillbayense"9, mas poderia ser anterior a elas.  extremamente difcil
estabelecer uma correlao entre essas indstrias de tipo sangoense, visto que
 preciso considerar fatores ecolgicos e outros. Nas regies onde o habitat,
a tradio ou consideraes particulares favoreceram o uso desses utenslios
pesados,  provvel que eles tenham exercido desde logo um papel importante
e que tal papel tenha persistido por tanto tempo quanto as razes que levaram
 sua adoo. No se pode negar a existncia de uma correlao entre esse tipo
de utenslios e reas com maior precipitao pluviomtrica e, consequentemente,
vegetao mais densa. Portanto, esses elementos pesados podem ser considerados
mais como resultantes de determinaes ecolgicas que como representantes de
um determinado perodo ou estgio cultural na evoluo do instrumental ltico.
Como essas indstrias sangoenses esto ligadas a reas de vegetao mais densa,
pode-se esperar que suas primeiras manifestae-s tenham sido contemporneas,
nessas regies, dos estgios finais do Acheulense (Fauresmithiense ) nas savanas
ervosas e que no tenham ocorrido em habitats mais abertos, nos quais, como
vimos, era enfatizada a fabricao de outros tipos de utenslios. Indstrias de tipo
sangoense foram descobertas em Zmbia, Malavi, Zimbabwe, Moambique e
Angola, bem como no norte e no sudeste da frica do Sul. No Fauresmithiense
e no Sangoense, portanto, podemos perceber o comeo de uma especializao
regional dos utenslios, que reflete padres de adaptao diferentes conforme se
trate de pradarias, florestas claras ou florestas densas.

    Middle Stone Age
   A necessidade de considerar os utenslios de pedra do homem pr-histrico
 que, em geral,  tudo o que restou dele  como produto da atividade e das
necessidades imediatas de seus fabricantes, e no como obra de populaes
necessariamente distintas do ponto de vista gentico e tnico, impe-se


9    A composio desses conjuntos proto-stillbayenses em Zimbabwe pode ser melhor observada nos
     depsitos de cavernas em estratigrafia, como as de Pomongwe e Bambata, e no stio aberto do planalto
     de Chavuma, em referncia ao qual essa indstria foi recentemente rebatizada como "indstria de
     Chavuma". Embora no existam dataes precisas, parece que a indstria de Chavuma  anterior a
     42.000 B.P. Consequentemente, a indstria de Gwelo  ainda mais antiga.
574                                                                          Metodologia e pr-histria da frica



particularmente em relao aos vrios componentes das indstrias regionais
contemporneas do perodo conhecido por muito tempo como Middle
Stone Age. Para classificar um complexo como pertencente  Middle Stone
Age tomavam-se por base principalmente certas caractersticas tcnicas e
tipolgicas, bem como o fato de que, do ponto de vista da estratigrafia, ele se
situava entre a Early Stone Age e a Late Stone Age. Esses termos evolucionistas,
cronoestratigrficos, tm pouco significado atualmente, pois sua definio
permanece to insatisfatria quanto na primeira vez em que foram usados.
Alm disso, a datao pelo radiocarbono tem demonstrado que os estgios
tecnolgicos sobre os quais se fundamentam esses conceitos so antes conjecturais
que reais e que as tcnicas e os tipos de utenslios que eram seu produto final
transcendem limites horizontais to artificiais como esses. Como seu trabalho
est intimamente ligado aos artefatos de pedra, o pr-historiador tende s vezes
a negligenciar o fato de que eles representam apenas uma frao de uma vasta
gama de materiais e utenslios que no foram preservados. Se esses materiais e
instrumentos que se perderam estivessem disponveis para estudos, certamente
modificariam drasticamente nossas concepes sobre a tecnologia pr-histrica.
Alm disso, onde h necessidade, a tecnologia muda como resultado de novas
presses e da capacidade de seleo e adaptao do grupo. Esses dois fatos
devem ser levados em conta ao estudar as indstrias lticas que testemunham o
comportamento cultural durante o Pleistoceno Recente e o Holoceno.
    Num certo momento entre -100.000 e -80.000, o nvel do mar comeou a
baixar em relao ao alto nvel de +5 a 12 m, bem representado pelos restos de
praias elevadas em um certo nmero de localidades do litoral sul do continente10;
 logo aps essa poca, que o homem comeou a ocupar locais favorveis nessas
praias liberadas pelo mar. Alguns desses locais eram cavernas e, apesar das
particularidades locais, a tecnologia desse perodo  geralmente semelhante na
bacia do Mediterrneo e no sul da frica.
    O incio do ltimo perodo glacirio no hemisfrio norte corresponde nos
trpicos a uma diminuio da temperatura (aproximadamente de 6 a 8oC) e
a um clima mais seco, embora um decrscimo nas taxas de evaporao tenha
assegurado um suprimento regular de gua de superfcie e talvez at maior do
que atualmente. Na mesma poca, o clima semi-rido que ento existia na bacia
do Zaire, na regio equatorial, reduziu consideravelmente a floresta perene ou
substituiu-a por campos ou matas mais abertas, oferecendo, desse modo, um

10    Acredita-se que esse ltimo nvel elevado do mar corresponda  transgresso marinha do ltimo interglacirio
      (Eemiano) na bacia do Mediterrneo, onde o nvel do mar  geralmente semelhante  entre 6 e 8 m.
Pr-Histria da frica austral                                                                             575



habitat muito favorvel ao homem e aos animais de caa. Assim, tanto uns quanto
outros comearam a migrar para essa regio anteriormente desabitada. Da mesma
forma, durante o Pleistoceno Recente, o deserto de Nambia, hoje to inspito,
foi ocupado por grupos de caadores que deixaram seus utenslios nos locais de
acampamento.
    Durante a Middle Stone Age, a sequncia estratigrfica de cada grande
regio mostra um padro coerente de progresso tecnolgico, que se exprime
pela fabricao de utenslios cada vez mais elaborados e pela diminuio
progressiva no tamanho dos artefatos. Entretanto, o desenvolvimento cultural
em uma regio no  necessariamente semelhante ao que se verifica em outra,
embora possam existir tendncias e caractersticas comuns. Provavelmente,
muitos fatores  ecolgicos, tecnolgicos e sociais  foram responsveis pelas
variaes regionais que caracterizam essas indstrias do Pleistoceno Superior.
Modos de vida diferentes exigiam utenslios diversos ou impunham outros usos
para os mesmos utenslios; e embora desenvolvimentos tecnolgicos em escala
continental possam ter determinado a poca de introduo de uma caracterstica
aparentemente nova,  provvel que a natureza dos recursos existentes e os
mtodos tradicionais de explorao tenham sido os fatores decisivos para a
aceitao de determinado aperfeioamento e para a data em que foi adotado.
    Nessa poca, as tcnicas bsicas eram o mtodo levalloisiense e o dos ncleos
discoides, utilizados para extrair lascas, debitar as lminas, inicialmente por
percusso direta e, mais tarde, com a ajuda de uma pea intermediria. Com as
lascas e lminas fazia-se uma srie de utenslios leves, que eram retocados para
formar pontas, raspa dores, facas, buris (cinzis), furadores, etc. No sul da frica,
as indstrias regionais podem ser agrupadas, com base em sua tecnologia, em
trs unidades maiores, que so em grande parte, seno inteiramente, tambm
unidades cronolgicas. Por esse motivo,  mais fcil consider-las como grupos
ou fases do que como estgios, que implicariam relaes cronolgicas.
    O primeiro desses grupos ou fases (Grupo 1) caracteriza-se por grandes
lascas preparadas pelo mtodo levalloisiense e por longas lminas obtidas
por percusso direta. Apenas alguns conjuntos esparsos desses utenslios so
conhecidos11. Nos poucos stios onde existe uma sequncia estratigrfica, os
elementos mais evoludos tecnicamente so encontrados nas camadas superiores

11   O Pietersburgiense Inferior da camada 4 da Gruta das Lareiras em Makapan; o Middle Stone Age I,
     imediatamente acima da praia de 6-8 m, na embocadura do rio Klassies; um stio ao ar livre no Orange River
     Scheme (Elandskloof ); e um stio no Transvaal central (Koedoesrand). Alm dessas h ainda a indstria
     de Nakasasa, em Kalambo Falls, caracterizada por formas semelhantes, embora tambm contenha certos
     instrumentos bifaciais pesados, como os que se espera encontrar em indstrias das matas de Brachystegia.
576                                                                       Metodologia e pr-histria da frica



e os conjuntos lticos do Grupo I so os mais antigos (por exemplo, em Cave of
Hearths e em Kalambo Falls); no entanto, parece no haver nenhuma coerncia
cronolgica entre as diferentes regies. Por exemplo, acredita-se que a Middle
Stone Age I do rio Klassies date de aproximadamente -80.000 anos, enquanto
a indstria de Nakasasa, em Kalambo Falls, data de um perodo entre 39.000 e
30.000 anos B.P. As demais sries ainda no foram encontradas em contextos
que permitam sua datao.
    Outras indstrias que pertencem ao incio do Pleistoceno Superior, portanto,
anteriores a 40.000 anos B.P., mas que no so classificadas no Grupo I,
apresentam uma srie diferente de caractersticas.  o caso de uma indstria
de lascas, ncleos, raspadores nucleiformes, poliedros, bigornas e instrumentos
de moagem feitos de dolerito, que provm do nvel I da camada de turfa de
Florisbad, no Estado Livre de Orange. Esses utenslios so em geral atpicos e
 possvel que no representem toda a gama de artefatos produzidos nessa poca
no local; mas tambm  possvel que apenas uma lmina longilnea e retocada
possa ser associada a eles. Nesse mesmo nvel, foram descobertos um fragmento
de crnio de homindeo e o que parece ser o cabo de uma arma de arremesso
curva, feita de madeira. Este horizonte de Florisbad  anterior a 48.000 anos
B.P. Uma outra indstria, diferente mas provavelmente contempornea das do
Grupo 1,  a de Chavuma, em Zimbabwe, que  anterior a 42.000 anos B.P.,
como dissemos anteriormente. Caracteriza-se por pices, uns poucos bifaces e
um importante conjunto de utenslios leves, entre os quais h pontas, raspadores
e lminas com sinais de utilizao. Tais utenslios so feitos de matrias-primas
bastante variadas: calcednia, opalina, quartzito, quartzo e outras. A indstria
de Twin Rivers, em Zmbia (datada de 22.800 1000 B.P.), assemelha-se 
de Chavuma. Tal datao, porm, se estiver correta, acentua o fato de que um
mtodo baseado na tecnologia tem hoje pouco valor como meio de correlao
entre indstrias de diferentes regies.
    Muitas sries provenientes de cavernas e stios de superfcie so classificadas
num segundo grupo (Grupo II)12. Em geral, elas datam de um perodo entre
40.000 e 20.000 anos B.P., mas podem s vezes prolongar-se como, por
exemplo, no litoral sul. Tais indstrias caracterizam-se pelo uso diversificado
das tcnicas do ncleo discoide e levalloisiense, principalmente no que diz
respeito  debitagem de lascas triangulares, e pela produo de grande nmero


12    Exemplos de indstrias do Grupo II: camada 5 da Gruta das Lareiras; camada I da caverna de Mvulu,
      no Transvaal; Middle Stone Age II do rio Klassies; indstrias de Mossel Bay e da caverna de Skildergat,
      no sul da provncia do Cabo; e indstria stillbayense, da caverna de Mumbwa, em Zmbia.
Pr-Histria da frica austral                                                                          577



de lminas. Lascas triangulares e lminas, feitas frequentemente de quartzito e
lidianita, so comuns nas reas de chuvas de inverno ao sul da Grande Escarpa
do sudoeste da frica e no highveld do Estado Livre de Orange e do Transvaal.
Nesses utenslios do Grupo II, o trabalho de retoque nunca  muito extenso,
limitando-se geralmente aos bordos, que so frequentemente denticulados. Nas
matas tropicais claras do norte de Limpopo, onde a utilizao do quartzo era
mais difundida, a produo concentrava-se em lascas mais curtas, transformadas
em raspadores e em diversas outras formas, tambm com retoques limitados.
Nesse stio, uma pequena mas significativa parte do conjunto  composta de
utenslios pesados cuja produo foi possvel, como se acredita, graas  maior
utilizao da madeira e de seus produtos.
    Um terceiro grupo de indstrias (Grupo III)13 situa-se aproximadamente entre
35.000 e 15.000 B.P. e distingue-se por um nmero maior de utenslios bastante
retocados. O retoque dos raspadores  semi-invadente e no so raras as formas
com estrangulamento; as pontas foliceas podem ser retocadas inteiramente
em uma ou ambas as faces; os furadores e trituradores so caractersticos. De
modo geral, os utenslios tm dimenses menores e apresentam um trabalho de
retoque mais refinado do que o dos grupos anteriores.
    Alm dos trs grupos descritos, h um quarto (Grupo IV) que se destaca
por algumas diferenas significativas em relao aos outros. Tal complexo 
conhecido como Magosiense ou Second Intermediate  combina uma forma
evol uda e frequentemente miniaturizada das tcnicas do ncleo discoide e do
levalloisiense com a produo de lminas delicadas, de bordos paralelos, debitadas
com o auxlio de uma pea intermediria de osso, chifre ou madeira dura. As
matrias-primas escolhidas eram geralmente rochas criptocristalinas; as pontas
triangulares ou foliceas e os raspadores feitos com essas rochas, frequentemente
pelos mtodos do ncleo discoide e levalloisiense, so delicadamente retocadas,
s vezes, acredita-se, por presso. Ao lado desses utenslios tradicionais da Middle
Stone Age, foram encontrados outros feitos com lminas ou fragmentos de
lminas, muitos deles de tamanho reduzido, com um bordo desbastado, ou ainda
utilizados e retocados de diversas maneiras, bem como vrios tipos de buris,
principalmente uma forma carenada ou polidrica. Esse tipo de utenslios parece
ser prprio de certas partes do subcontinente, por exemplo, Zimbabwe, Zmbia,
a parte leste do Estado Livre de Orange, o sul da provncia do Cabo e algumas


13   Exemplos: a indstria do Pietersburgiense Superior da Gruta das Lareiras e daGruta de Mvulu ou da
     Gruta de Border, em Natal; a parte superior da indstria stillbayense da gruta de Peer, na provncia do
     Cabo; a indstria Bambata das cavernas Khami, em Zimbabwe.
578                                                        Metodologia e pr-histria da frica




Figura 20.11 Civilizao sangoense de Zimbabwe,
variante do Zambeze (diviso superior): 1 e 2. pices;
3 e 8. machados nucleiformes; 4. ncleo discoide; 5 e
6. lascas retocadas; 7. esferoide (Apud CLARK, J. D.
The Stone Age Cultures of Northern Rhodesia. Cidade
do Cabo, South African Archaeological Society, 1950.
Prancha XII).
Figura 20.12 Indstrias da Middle Stone Age,
provenientes de Twin Rivers (Zmbia), datadas de
32.000 a 22.000 anos B.P.: 1. raspador angular; 2. lasca
utilizada, destacada de um ncleo discoide de tamanho
reduzido; 3. raspador convergente; 4. raspador sem
ponta; 5. pequeno raspador; 6 e 7. bifaces pesados;
8. biface. Todos os exemplares so feitos de quartzo,
exceto o n. 3 (slex negro) e o n. 8 (dolerito) (Apud
CLARK, J. D. The Prehistory of Africa. Londres,
Thames and Hudson, 1970. Fig. 34).
Figura 20.13 Indstrias de Pietersburg e Bambata,
provenientes da gruta das Lareiras (Cave of Hearths),
no Transvaal, e da gruta de Bambata, em Zimbabwe.
Instrumentos caractersticos das regies de arbustos
espinhosos e do bushveld (Apud CLARK, J. D. The
Prehistory of Africa. Londres, Thames and Hudson,
1970. Fig. 35).
Pr-Histria da frica austral                                                                             579



reas da Nambia. No entanto, esses utenslios aparentemente no existem na
maior parte da regio central do planalto interior, onde a lidianita constitua a
principal matria-prima. Se essa distribuio tem uma base ecolgica, cabe-nos
tentar determinar o que havia em comum entre as regies onde as indstrias do
Grupo IV foram encontradas.
    Pensava-se que essas indstrias "evoludas" representavam uma fuso entre
as tcnicas do "ncleo preparado" da Middle Stone Age e a da debitagem de
lminas por meio de percutor do "Paleoltico Superior". Nesse caso, elas no
seriam muito anteriores a um perodo entre 15.000 e 20.000 B.P.; realmente,
um certo nmero de dataes enquadra-se nesse intervalo. Mais recentemente,
porm, vrias dataes muito anteriores a essas14 foram obtidas para as indstrias
do Grupo IV, que foram denominadas magosienses ou, na frica do Sul,
"Howieson's Poort" (do nome do stio, perto de Grahamstown, onde os primeiros
utenslios caractersticos foram encontrados). Infelizmente, com exceo da
caverna de Montagu na provncia do Cabo e da indstria de Tshangula em
Zimbabwe, ainda no existem informaes precisas sobre a composio dessas
descobertas, de modo que no sabemos se formam um conjunto homogneo ou
se existe mais de uma indstria entre elas.
    Supondo, por enquanto, que tais complexos sejam homogneos, essas datas
antigas indicam que uma tecnologia desenvolvida de lminas coexistiu no sul da
frica com as tecnologias tradicionais das lascas preparadas da Middle Stone
Age. O mesmo ocorre no norte da frica, onde dois complexos contemporneos,
a cultura de Daba e o Ateriense, se diferenciam regionalmente. No passado,
a evoluo e a sucesso de indstrias lticas eram, em geral, explicadas pelos
movimentos migratrios de populaes geneticamente diferentes. Todavia, essa
hiptese no  apoiada por outras evidncias, sendo mais provvel que o grau
de adoo e difuso de utenslios entre populaes de caadores-coletores tenha
dependido muito mais das vantagens de tais utenslios e de sua superioridade
sobre o equipamento tradicional, sobretudo onde seu emprego facilitasse a
explorao de novos recursos. A menos que implicassem a ocupao de regies
desabitadas, como o Novo Mundo ou a bacia do Zaire e as zonas florestais da
frica ocidental no fim do Pleistoceno Mdio, as migraes de longa distncia
eram provavelmente raras entre os grupos de caadores-coletores, relacionando-se


14   As indstrias do Grupo IV receberam as seguintes dataes: na caverna de Montagu, entre -23.200 e
     -48.850; no rio Klassies, no sul da provncia do Cabo, em torno de 36.000 B.P.; na caverna de Rose Cottage,
     no Estado Livre de Orange, -50.000; para o "Epi-Pietersburgiense" na caverna de Border, -46.300. A
     indstria de Tshangula , em Zimhahwe. situa-se entre 21.700 780 e 25.650  1800 anos B.P.
580                                                                       Metodologia e pr-histria da frica




 Figura 20.14 De 1 a 12. utenslios em slex e calcednia, das
 indstrias wiltonienses da provncia do Cabo, na frica do Sul,
 (segundo BURKITT, M. C. 1928): 1, 2 e 3, raspadores curtos; 4
 e 5. micrlitos retos com bordo no ativo aparado; 6. furador; 7, 8
 e 9. segmentos de crculo; 10 e 11. "crescentes duplos"; 12. contas
 de casca de ovo de avestruz. Os exemplares 3, 4 e 12 provm do
 abrigo na rocha de Wilton e os demais, da plancie do Cabo. De
 13 a 20, utenslios das indstrias de Matopan (Wiltoniense de
 Zimbabwe), provenientes da caverna de Amadzimba, Matopos
 Hills, em Zimbabwe (segundo COOKE, C. K. e ROBINSON, K.
 R. 1954): 13. furador espatulado de osso; 14. ponta de osso com
 talo em bisel; 15. elemento cilndrico; 16, 17, 18 e 19. segmentos
 de crculo e crescentes espessos, em quartzo; 20. pingente de ardsia,
 (Apud CLARK, J. D. The Prehistory of Africa, Londres, Thames and
 Hudson, 1970, Fig. 56).
 Figura 20.15 Utenslios de madeira provenientes de depsitos do
 Pleistoceno na frica austral: 15. cabo de propulsor ( esquerda)
 proveniente do nvel I da camada de turfa de Florisbad Mineral
 Spring, datado de cerca de 48.000 B.P.; comparar com o cabo
 de um propulsor australiano ( direita), com entalhes para evitar
 o deslizamento da mo; 16. maa e utenslio com duas pontas,
 provenientes do nvel de ocupao acheulense de Kalambo Falls
 (Zmbia), datados de 190.000 B.P. (Apud CLARK, J. D. The Prehistory
 of Africa, Londres, Thames and Hudson, 1970, Pranchas XV e XVI).
 Figura 20.16 Lasca-enx em forma de crescente feita de slex
 negro, montada por meio de mstique sobre um cabo de chifre de
 rinoceronte, proveniente de uma caverna da baa de Plettenberg, no
 leste da provncia do Cabo (segundo CLARK, J. D. 1970).
Pr-Histria da frica austral                                                                      581



mais com as populaes agrcolas. A mais provvel explicao para as mudanas
observadas nos utenslios  a inveno independente por comunidades quase
isoladas que dispunham de recursos e mtodos de explorao semelhantes;
portanto, as mudanas seriam devidas mais  difuso de estmulos do que a
grandes migraes tnicas.
    A ttulo de explicao,  necessrio examinar rapidamente os testemunhos
fsseis do sul da frica aps o fim do Acheulense, aos quais o crnio de Saldanha
parece estar associado. Como o crnio descoberto em Kabue (Broken Hill) se
assemelha bastante ao de Saldanha,  provvel que no haja um intervalo de
tempo muito grande entre os dois. O pequeno nmero de artefatos e esferoides
leves provenientes de Kabue, que parecem estar relacionados aos restos de
homindeos, no so caractersticos e poderiam pertencer a qualquer perodo
entre o Acheulense Recente e o incio da Middle Stone Age. Nesse depsito
foram encontrados horizontes de habitao em estratigrafia atribudos a esse
perodo, de forma que, embora se possa presumir que o crnio quase completo
e outros restos sejam representativos da famlia de homindeo responsvel pelo
Sangoense local ou pelo Acheulense Final, esse fato no poder ser comprovado
at que o prprio fssil seja datado por um mtodo mais preciso. Entretanto, as
semelhanas entre os fsseis de Saldanha e de Kabue (Broken Hill), bem como
entre o fragmento craniano (H. 12) do Bed IV de Olduvai e o de Njarassi,
no Rift do lago Eyasi, na frica oriental, parecem indicar que essas formas
"rodesioides" e outras formas aparentadas ao Homo sapiens substituram o
Homo erectus durante a ltima parte do Pleistoceno Mdio (como o homem de
Neandertal, na Eursia) e que, no incio do Pleistoceno Superior, encontravam-
-se amplamente distribudas nas regies tropicais da frica subsaariana15.
    As alteraes climticas (que, de acordo com estudos palinolgicos,
limnolgicos e outros, ocorreram na frica simultaneamente s que
acompanharam a ltima glaciao na Eursia), bem como a distribuio esparsa
e o relativo isolamento das populaes de homindeos causaram certamente
transformaes e desenvolvimentos em vrias direes diferentes, no momento
em que os homindeos se adaptavam de modo mais eficiente, nos planos cultural
e gentico, aos ambientes diversos que tinham conseguido ocupar.
    Quaisquer que tenham sido as causas  domnio da linguagem, evoluo
da estrutura social, tecnologia avanada ou outras  que deram ao homem
moderno (Homo sapiens sapiens) uma vantagem inegvel sobre as outras formas

15   Novas dataes de dois dos fsseis de homindeos, obtidas atravs do mtodo de racemizao, indicam
     um perodo entre 100.000 e 200.000 B.P. (BADA, J. Comunicao pessoal).
582                                                    Metodologia e pr-histria da frica



de homindeos,  claro que elas so a base do intercmbio gentico acarretado
pela substituio relativamente rpida das formas neandertaloides, rodesioides e
outras no to bem adaptadas. O homem moderno (representado pelos crnios
descobertos na "Formao de Kibish", na bacia inferior do Orno e em Kangera,
na bacia do lago Vitria) apareceu na frica oriental cerca de 200.000 anos B.P.
Na frica do Sul, o crnio de Florisbad, que tem mais de 48.000 anos, pertence a
uma forma primitiva e robusta, prxima do homem moderno. Um certo nmero
de fsseis mais recentes, mas datados com menor preciso e que, na maioria,
pertencem ao perodo entre -35.000 e -20.000 (provenientes de Boskop, caverna
de Border, Tuinplaas, Skildergat  caverna de Peer , Mimbwa e outros stios)
representam vrias populaes j modernas, diferenciadas regionalmente e
responsveis por algumas variantes culturais da Middle Stone Age.
    Por volta do fim do Pleistoceno, h cerca de 10.000 anos atrs, populaes
geneticamente aparentadas, mas distintas do ponto de vista regional, ancestrais
longnquos de alguns povos atuais, tinham-se diferenciado: os troncos de San
 grandes e pequenos  no sul e no centro-leste da frica; os negroides, na
frica equatorial e ocidental; e a forma niltica na frica oriental. Os fsseis
so fragmentrios e, em geral, limitam-se a apenas um espcime. Raramente se
encontram indicaes suficientes sobre a amplitude das variaes que podemos
esperar dentro de uma s populao. Mesmo assim, torna-se claro que as "raas"
africanas autctones tm uma considervel antiguidade no continente, onde
podemos considerar terem elas evoludo durante o Pleistoceno Superior e os
primrdios do Holoceno, atravs de um longo perodo de adaptao e seleo
nas principais regies biogeogrficas.
    Como foi mencionado anteriormente, as lminas obtidas por percusso
indireta e diversos utenslios pequenos feitos com lminas com bordo aparado ou
truncamento, descobertos entre os utenslios do Grupo IV (Howieson's Poort),
foram considerados no passado como uma evidncia de movimentos migratrios
das populaes; tais utenslios teriam sido introduzidos por grupos imigrantes
de "homens modernos".  necessrio aguardar o resultado de estudos definitivos
sobre os stios escavados para verificar se essa "hiptese tnica" ser confirmada
ou se tal complexo reflete a aceitao de novas tcnicas transmitidas pela difuso
de um estmulo e adotadas porque permitiam uma melhor explorao dos
recursos locais, ou ainda se  produto de fatores totalmente diferentes. Qualquer
que tenha sido a causa, quase no h dvida de que a introduo da tecnologia
das lamelas est ligada ao desenvolvimento dos utenslios compostos, nos quais
duas ou mais peas e/ou materiais eram combinados para fazer um utenslio
mais aperfeioado e mais eficiente. O encabamento dos utenslios de pedra ou
Pr-Histria da frica austral                                                 583



de outro material para obter uma eficincia maior comeou provavelmente na
poca das indstrias do Grupo II: os traos de adelgaamento nas faces dorsais
das pontas de Mossel Bay ou a retirada do talo por retoques inversos parecem
indicar modificaes relacionadas com a fixao de cabos. Na frica, o meio
mais simples de montar, por exemplo, uma faca de pedra ou uma ponta de
projtil era provavelmente utilizar diversas formas de mstique (resina, goma,
ltex, etc.) com ligamentos de fibras e tendes.
    O aparecimento do homem moderno na pr-histria est associado a uma
srie de prticas e caractersticas culturais inovadoras. Os sedimentos acumulados
nas cavernas e abrigos sob rochas e em alguns stios favorveis ao ar livre indicam
que desde ento as ocupaes sazonais tornaram-se regra geral. Ao que parece,
estamos diante de grupos muito mais estrutura dos, embora ainda abertos e de
composio sujeita a frequentes alteraes. A multiplicidade e a padronizao
dos diferentes tipos de utenslios, a maior frequncia de sepulturas intencionais
e o hbito de colocar junto ao morto objetos e alimentos para que ele pudesse
enfrentar o alm, o uso mais regular de pigmentos na decorao e possivelmente
no ritual, e at mesmo o gosto pela msica presente na frica do Norte - tudo
testemunha as indiscutveis vantagens genticas do Homo sapiens sapiens. Um
dos aspectos da maior especializao regional dos utenslios pode ser explicado
pelas preferncias locais por certas espcies de animais de caa e no crescente
uso de certos alimentos vegetais que precisavam ser modos e triturados. O
material de moagem aparece pela primeira vez com as indstrias dos grupos III
e IV e mais particularmente pouco depois de -25.000. Um conjunto significativo
de utenslios pesados acompanha os utenslios leves do norte e do nordeste de
Zmbia, refletindo um sistema de explorao com recursos muito semelhantes
aos do Zaire e de Angola.
    A viso tradicional da Middle Stone Age como um conjunto de variantes
regionais distintas (Stillbay, Pietersburg, Mossel Bay, Howieson's Poort, etc.),
todas mais ou menos contemporneas e caracterizadas por uns poucos fsseis-
-guias, parece hoje excessivamente simplificada. As indstrias da Middle Stone
Age podem ser consideradas como produtos de uma adaptao contnua a
regies ou zonas biogeogrficas distintas, onde as necessidades e atividades dos
grupos humanos determinaram a escolha das matrias-primas a serem usadas na
fabricao dos utenslios. Podemos compreender melhor a importncia relativa,
para o grupo, desses diferentes materiais  madeira, pedra, osso, chifre, etc.
 a partir de uma comparao entre os dados paleoecolgicos e os obtidos
atravs de estudos do tipo site catchment analysis (anlise de rea de captao de
584                                                                           Metodologia e pr-histria da frica



recursos).16 Um conjunto de utenslios de pedra comuns no  necessariamente
sinal de "mediocridade", nem um conjunto de utenslios mais "refinados"
representa superioridade. Por si s, os utenslios lticos podem fornecer apenas
uma quantidade mnima de informaes sobre o comportamento de quem os
produziu. Realmente significativa  a associao entre esses utenslios e todos
os outros produtos da atividade humana preservados, referentes a uma fase de
ocupao. A estrutura dos stios da Middle Stone Age  menos conhecida que a
dos stios do Acheulense e de pocas anteriores. A Cave of Hearths nos fornece
a prova da existncia de fogueiras, enquanto a caverna de Montagu nos informa
sobre a distribuio de artefatos em volta das fogueiras em cada horizonte. No
stio de Orange I foram encontradas "fundaes" de pedra de vrios pequenos
abrigos e em Zeekoegat 27, na regio do Orange River Scheme, h vestgios de
uma grande rea de atividade abrigada. Pilhas de ossos de uma ou vrias caadas
bem sucedidas foram descobertas em Kalkbank, na regio central do Transvaal;
finalmente, descobertas feitas na caverna dos Lees na Suazilndia, parecem
indicar que a hematita comeou a ser extrada para fabricar pigmento h cerca
de 28.000 anos atrs. Bigornas caladas para debitagem de pedras aparecem
nos horizontes do Rubble I, em Kalambo Falls, e datam de aproximadamente
27.000 B.P. No mesmo stio, pequenos crculos de pedras parecem ter delimitado
antigas fogueiras, enquanto em Botsuana foram encontrados vestgios de um
acampamento temporrio da indstria Bambata, dispersos s margens do rio
Nata. Restos de fauna sob a forma de resduos de alimentao indicam que a
fonte principal de abastecimento era constituda pelos grandes animais; alguns,
como bfalos, gnus, bbalos, zebras e sunos, estavam entre as espcies levadas
com mais frequncia para os locais de habitao. Em geral, parece existir nos
stios da Middle Stone Age uma variedade maior de espcies do que nos do
Acheulense. As descobertas sugerem que, embora melhores armas permitissem
caadas mais produtivas, as espcies capturadas continuavam a ser muito
variadas; foi apenas durante a Late Stone Age que a caa assumiu um carter
mais seletivo.
    Em resumo, no  mais possvel considerar as indstrias da Middle
Stone Age como uma progresso simples e linear para uma tecnologia mais
refinada e evoluda. Se as dataes esto corretas, essas indstrias mostram,

16    A site catchment analysis (anlise de captao de recursos)  um mtodo desenvolvido por C. VITA-FINZI
      e E. S. HIGGS, 1970, para estabelecer o potencial de recursos de uma regio explorada a partir de um
      determinado stio pr-histrico. Para tanto,  necessrio identificar os limites territoriais e em que medida
      o habitat e a bioma diferiam dos atuais. VITA-FINZI, C. e HIGGS, E. S. "Prehistoric economy in the
      Mount Carmel area of Palestine: site catchment analysis". Proc. of the Preh. Soc. 1970, 36, p. 1-37.
Pr-Histria da frica austral                                                 585



ao contrrio, vrias tcnicas diferentes com uma base essencialmente
econmica. Essas tcnicas influenciam-se mutuamente em graus diversos e
podem evoluir em funo das necessidades materiais. As diversas variantes
identificadas provavelmente refletem preferncias regionais quanto aos
recursos e  sua extrao, embora a maioria dessas variantes ainda precise ser
mais bem definida. Em algumas regies, certos stios com estratigrafia (Cave
of Hearths, por exemplo) apresentam uma clara sequncia evolutiva, enquanto
em outras (Klassies River, na costa meridional da frica do Sul, e a caverna
de Zombepata, em Zimbabwe) a sequncia estratigrfica mostra um padro
semelhante ao das tradies do Musteriense do oeste da Frana, e certos grupos
podem se suceder sem continuidade aparente. A substituio de um grupo por
outro pode ter tido uma origem econmica e refletir alteraes ecolgicas,
indicando portanto novas preferncias alimentares. Os raros testemunhos de
que dispomos confirmariam essa hiptese; mas ainda no possumos anlises
detalhadas da fauna nem dados sobre o plen que permitam estabelecer se tais
transformaes ocorreram simultaneamente em vastas regies biogeogrficas
ou se refletem apenas uma evoluo temporal dos recursos alimentares deste
ou daquele habitat.
   Embora a Middle Stone Age no sul da frica seja em grande parte
contempornea do Paleoltico Superior na Europa, seus estgios mais antigos,
apesar de pouco conhecidos, parecem ser contemporneos do Musteriense ou
do Jabrudiense (Pr-Aurignaciense) do Oriente Mdio.

    Late Stone Age
    No sul da frica, a imagem clssica da Late Stone Age  a de um conjunto de
indstrias compostas principalmente de utenslios microlticos, chamadas comum
ente de wiltonienses (do nome da caverna no oeste da provncia do Cabo onde
as indstrias caractersticas foram encontradas e descritas pela primeira vez), da
mesma forma que a indstria de raspadores smithfieldiense na rea de lidianita
do highveld. Entretanto, em algumas partes do subcontinente, encontraram-
-se indstrias que foram denominadas pr-wiltonienses. Elas surgiram h
pouco mais de 20.000 anos e assinalam uma mudana radical na tecnologia
dos utenslios de pedra. Os "ncleos preparados" da Middle Stone Age do
lugar a ncleos sem forma precisa dos quais so extradas lascas irregulares. Os
nicos utenslios que parecem preservar uma forma regular so diversos tipos de
raspadores grandes, raspadores feitos sobre lascas ou abruptos e vrios raspadores
menores convexos. Espcimes desses utenslios foram encontrados em stios do
586                                                                       Metodologia e pr-histria da frica



litoral sul17 do Estado Livre de Orange18, do Transvaal19 e da Nambia20, onde
esto associados  matana de trs elefantes.
    Em Zimbabwe, a indstria equivalente  o Pomongwiense, que se situa entre
9400 e 12.200 B.P. Ela est particularmente associada a extensas fogueiras de
cinzas brancas, e algumas das primeiras pontas de osso pertencem a essa poca.
Uma indstria possivelmente relacionada  pomongwiense  um dos nveis da
caverna de Leopard's Hill, em Zmbia, que data de 21.000 a 23.000 B.P. Outras
descobertas desse tipo, at agora sem datas, foram feitas em Pondoland (caverna
de Umgazana), no vale do mdio Zambeze, em Zmbia (Lukanda) e em outras
regies. Essa distribuio geogrfica indicaria que tal mudana tecnolgica
radical pode ter sido bem geral entre  20.000 e 9000 anos atrs. Suas causas
so ainda incertas, mas o autor deste captulo presume que ela poderia ser o
resultado de uma associao entre alteraes ambientais ocorridas nessa poca
(e que, segundo se acredita, deixaram vestgios em alguns stios do sul da frica,
por exemplo, na baa de Nelson, em Zombepata etc.) e o desenvolvimento ou
a difuso de equipamentos e tcnicas mais eficientes, relacionados em especial
com novos mtodos de caa.
    Algumas evidncias indicam que essas indstrias pr-wiltonienses estavam
associadas  caa de grandes animais ungulados: bbalos, gnus, antlopes azuis
e zebras. Alm disso, na caverna da baa de Nelson, elas parecem coincidir
com uma alterao ecolgica ocorrida pouco depois de 12.000 B.P., quando a
fauna das pradarias foi substituda por espcies da floresta perene. Alm disso,
o aparecimento de uma grande quantidade de animais marinhos entre os restos
indica que o aumento do nvel do mar nos estgios finais do Pleistoceno tinha
tornado possvel a explorao direta da fauna marinha a partir dessa caverna.
    Acredita-se hoje que as indstrias de lamelas com uma alta porcentagem de
utenslios microlticos com bordo aparado tenham surgido no sul da frica central
muito antes do que se pensava inicialmente. Uma das primeiras  representada
pelo estgio mais antigo Nachikufiense (Nachikufu I) em Zmbia, em que a
data mais antiga  16.715 95 B.P. Uma indstria wiltoniense local surgiu em


17    A caverna da baa de Nelson, datada entre 18.000 e 12.000 B.P.; Matjes River, datada entre 11.250 e
      10.500 B.P.; e Oakhurst. Na caverna da baa de Nelson, uma indstria que recobre a indstria de ras-
      padores abruptos data de 12.000 a 9000 B.P. A maioria dos utenslios so feitos sobre lascas grandes;
      no h formas microlticas. Uma indstria pr-wiltoniense semelhante  encontrada em outros stios na
      regio montanhosa do sul, por exemplo, em Melkhoutboom, onde data de 10.500 190 anos B. P.
18    Smithfield A, por exemplo a. indstria da Fase I de Zeekoegat 13.
19    Uitkomst, datado de 7680 B.P.
20    Windhoek. datado de 10.000 B.P.
Pr-Histria da frica austral                                                 587



Zimbabwe aproximadamente em 12.000 B.P. (gruta de Tshangula) e na frica
do Sul um pouco mais tarde (8000 a 5000 B.P.). Esses exemplos da frica
centro-sul encontram paralelo nas indstrias puramente microlticas de lminas
com bordos, provenientes de stios da frica oriental  os de Uganda (gruta de
Munyama, ilha de Buvuma, 14.480 130 B.P.), do Rift de NakurujNaivasha,
em Qunia (Prolonged Drift, 13.300 220 B.P.) e da Tanznia central (abrigo
sob rocha de Kiesese, 18.190 300 B.P.). Uma indstria relacionada a essas, mas
distinta regionalmente,  o Tshitoliense, na bacia do Zaire (12.970 250 B.P.).
    A tradio dos micrlitos coincide com o desenvolvimento de formas cada vez
mais eficientes de utenslios compostos, entre os quais um dos mais significativos
foi o arco e flecha. No se. sabe em que data essas armas surgiram pela primeira
vez na frica, o que ocorreu provavelmente durante a ltima fase do Pleistoceno.
To importantes quanto os segmentos de crculo e outros. utenslios de pedra
com bordo aparado, usados como armaduras de flechas, foram os diversos tipos
de pontas de osso e pontas de arremesso, provavelmente tambm utilizados
como pontas de flechas. Alguns deles, sem dvida, remontam a 12.000 anos B.P.
    Acredita-se que seja possvel reconhecer sequncias evolutivas nessas
indstrias microlticas em diversas partes do sul da frica; em outras regies,
porm, como no noroeste de Zmbia, o ncleo discoide persistiu aparentemente
at o segundo milnio antes da Era Crist, enquanto em outras partes (no
Estado Livre de Orange, por exemplo), os elementos microlticos wiltonienses.
Parecem ter desaparecido, dando lugar a indstrias onde predominaram os
raspadores (Smithfield B).
    Conhecemos um nmero maior de stios da Late Stone Age que da Middle Stone
Age e h razes para supor que o incio do Holoceno foi um perodo de crescimento
demogrfico. Foi tambm a partir dessa poca (por volta de 10.000 B.P.), que as
cavernas e os abrigos sob rochas passaram a ser ocupados com frequncia cada vez
maior. Os recursos locais foram explorados mais intensamente que antes e os restos
de fauna encontrados nos stios de habitao mostram a crescente importncia dada
 caa e  captura de determinados animais. O sistema de explorao provavelmente
no se diferenciava muito do que  utilizado hoje pelos San do Calaari e por outros
grupos de caadores-coletores da zona tropical rida.
    Os deslocamentos e o territrio de um grupo eram determinados pela
disponibilidade sazonal de recursos de gua, vegetais e animais, havendo sem dvida
contatos regulares entre grupos vizinhos. Os que viviam perto do mar ou de fontes
de gua doce exploravam agora os recursos locais: peixes, moluscos e mamferos
aquticos. Outros caavam sobretudo as grandes manadas de antlopes, e outros
ainda animais de pequeno porte. Na regio montanhosa do sul da provncia do
588                                                       Metodologia e pr-histria da frica



Cabo, s formas mais comuns de utenslios de pedra so diversos tipos de pequenos
raspadores; os resduos de alimento provm, em sua maioria, de pequenos mamferos,
provavelmente capturados com o auxlio de armadilhas. Por outro lado, em
Zimbabwe, Zmbia e outras regies, nas pradarias e florestas claras, as indstrias
contm grandes quantidades de segmentos de crculo microlticos e lamelas com
bordo aparado associados aos `restos de grandes mamferos. Esses utenslios indicam
que as principais armas eram provavelmente o arco e a flecha; os micrlitos eram
encabados sozinhos ou aos pares, formando largas pontas cortantes, semelhantes s
do Egito dinstico e s poucas flechas feitas pelos San da poca histrica e que foram
preservadas. A extenso territorial dos grupos de caadores dependia provavelmente
de vrios fatores ecolgicos. Na regio oeste da provncia do Cabo (De Hangen),
demonstrou-se que os grupos pr-histricos de San passavam o inverno na costa,
nutrindo-se principalmente de alimentos marinhos, e o vero, nas montanhas, cerca
de 140 km para o interior, onde a dieta consistia em diversos vegetais, daimes,
tartarugas e outros pequenos animais.
    Nas regies muito favorveis do sul da frica, os caadores-coletores da
Late Stone Age ocuparam algumas das reas mais ricas do mundo em recursos
alimentares vegetais e animais. Em regies como essas, nas quais as fontes de
caa eram praticamente inesgotveis, os caadores tinham tempo suficiente para
se dedicarem a atividades intelectuais, como prova a magnfica arte rupestre
dos montes Drakensberg, de Zimbabwe e da Nambia. Embora muitas dessas
obras de arte no tenham mais de 2000 ou 3000 anos, elas fornecem um registro
incomparvel do modo de vida desses caadores-coletores pr-histricos, que,
em muitos aspectos, se perpetuou at hoje entre os San do Calaari central. 
evidente que as origens dessa arte remontam a pocas muito longnquas; as mais
antigas pinturas descobertas at agora na frica austral provm do abrigo sob
rocha Apollo II, no sudoeste africano (Nambia), onde aparecem nas superfcies
do rochedo, numa camada de 28.000 anos B.P.
    Nos primeiros sculos da Era Crist, as populaes de caadores-coletores
da Late Stone Age foram substitudas, em grande parte do sul da frica, por
povos agricultores que conheciam a metalurgia. Esses povos foram provavelmente
os precursores de grupos de lngua bantu que migraram para o subcontinente
vindos de uma regio situada no noroeste (Chade e Camares). No sul da frica,
portanto, no h provas seguras da existncia de cultura neoltica, o que significa
que no havia povos agricultores que fabricassem cermica, mas apenas populaes
que utilizavam utenslios de pedra, em particular machados amolados e polidos.
Todavia,  necessrio salientar que, embora no haja traos seguros de agricultura
antes da chegada dos povos do incio da Idade do Ferro,  certo que, no sudoeste da
Pr-Histria da frica austral                                                 589



frica, j no primeiro sculo antes da Era Crist e quase certamente antes ainda,
alguns grupos da Late Stone Age recente possuam carneiros, e depois bovinos.
Alguns desses povos podem ser identificados com os Khoi Khoi histricos, ou
seja, com pastores nmades que no praticavam a agricultura, mas fabricavam um
tipo determinado de cermica. No entanto, nenhum vestgio de habitat pastoril
claramente identificado foi descoberto at agora; portanto, j que no podemos
recorrer s pesquisas arqueolgicas, nossas informaes sobre tais grupos devem ser
obtidas em fontes histricas. Uma questo que tambm est sem resposta refere-se
 origem de seu gado. Com base em dados lingusticos, alguns autores sugerem
que ele provinha de povos que falavam lnguas do Sudo central e oriental; outros,
porm, acreditam que esses animais vinham de povos migrantes do incio da Idade
do Ferro. Qualquer que seja sua origem,  pouco provvel que essa fase pastoril
seja anterior a 300 anos antes da Era Crist, tendo terminado no sculo XVIII.
    Assim, os dados fornecidos pelos estudos da pr-histria na frica austral
mostram o importante papel desempenhado pelo alto planalto interior na
evoluo do homem como fabricante de utenslios. A crescente engenhosidade
e eficincia com que as sucessivas populaes de homindeos desenvolveram
padres de comportamento e equipamento cultural que lhes permitiram explorar
de modo cada vez mais intenso os recursos dos ecossistemas onde viviam, ajudam
a explicar as diferenas tnicas e culturais que distinguem os povos autctones
do sul da frica hoje (San, Khoi Khoi, BergDama, OvaTjimba, Twa e Bantu).
Alm disso, demonstram ainda a grande antiguidade e a continuidade de muitas
caractersticas de comportamento que persistem at os dias de hoje.
Pr-Histria da frica Central                                                            591



                                    CAPTULO 21


               Pr-Histria da frica Central
                         PARTE I
                                  R. de Bayle des Hermens




    A bacia do Zaire estende-se geograficamente do golfo da Guin, a oeste, at
a zona dos grandes lagos, a leste, e entre o dcimo paralelo ao sul do equador, em
Angola e no Shaba (ex-Catanga), e o diviso r de guas das bacias hidrogrficas
do Chade e do Zaire, ao norte1.
    Representa hoje a zona essencialmente equatorial, e sua cobertura vegetal,
constituda pela grande floresta,  a mais densa de toda a frica. Por outro lado,
sabe-se tambm que essa zona florestal se estendeu, em alguns perodos muito
midos, muito mais ao norte do que atualmente. No decorrer dos milnios a
floresta regrediu, subsistindo somente em galerias de amplitude varivel, ao
longo dos rios. Insistimos nessa cobertura vegetal porque foi um fator primordial
no desenvolvimento e na evoluo das civilizaes pr-histricas da regio.
Segundo os trabalhos e os conhecimentos atuais, as culturas pr-histricas e,
mais particularmente, ao que parece, as que sucederam ao Acheulense evoluram
no prprio local, condicionadas pela floresta primria e sem contato com as
populaes que viviam nas zonas de vegetao menos densa. Ao norte, as
grandes migraes do Neoltico, deslocando-se de leste para oeste, contornaram
a floresta sem penetr-la, como se representasse uma barreira, um mundo no
qual no se aventuravam as populaes habituadas a viver nas zonas de savanas

1    Entendemos por frica Central os seguintes pases: Zaire, Repblica Centro -Africana, Repblica
     Popular do Congo, Gabo, Camares e, em parte, Angola, Ruanda e Burundi.
592                                                                       Metodologia e pr-histria da frica




Figura 21.1 Variaes climticas e indstrias pr-histricas da bacia do Zaire (segundo G. Mortelmans, 1952).



e nos grandes espaos desbastados. Nada do que conhecemos das indstrias do
Paleoltico Mdio e Superior, do Neoltico, da arte rupestre  pouco conhecida,
alis, na bacia do Zaire , permite afirmar que tenha havido contatos com
populaes que viviam em um Saara que ainda no era o grande deserto rido
de hoje. Se pensamos encontrar sinais de contatos,  para o leste e para o sul
da frica que nos devemos voltar e ali, ento, procurar o ponto de partida das
migraes dos grupos humanos que povoaram a grande floresta equatorial do
oeste.
Pr-Histria da frica Central                                                                          593



    Do ponto de vista climtico, o Quaternrio dessa regio estaria muito mais
prximo do Quaternrio da frica oriental, ainda que com variaes locais devidas
 altitude elevada das zonas montanhosas. Segundo G. Mortelmans (1952), teria
havido quatro perodos pluviais e dois episdios midos2:
    Nakuriano  2o mido
    Makaliano  1o mido
    Gambliano  4o pluvial
    Kanjeriano  3o pluvial
    Kamasiano  2o pluvial
    Kagueriano  1o pluvial
    Dessa alternncia de perodos relativamente secos com outros muito midos
depende, em certa medida, o povoamento de uma regio, e isso devido a modificaes
no que hoje chamamos "meio ambiente".
    A penetrao difcil na grande floresta fez com que vrios pr-historiadores
pensassem que o povoamento dessa zona tenha sido pouco significativo no perodo
que vai do Paleoltico Inferior ao Neoltico. De nossa parte, no concordamos com esse
ponto de vista, sendo oportuno desfazer o mito relativo  dificuldade de povoamento
da regio. Se em toda a regio as coletas de utenslios lticos foram, at certo ponto,
de pouca monta, isto ocorreu porque os estudiosos hesitaram em empreender
pesquisas de longa durao sob condies adversas. Em vista dos resultados obtidos
recentemente por vrias misses em Angola, na Repblica Centro-Africana e no
Zaire, e considerando a enorme quantidade de pedras lascadas coletadas, devemos
reconhecer que o povoamento pr-histrico do que se convencionou chamar "a
grande floresta"  to significativo quanto o de outros setores da frica.
    Finalmente, devemos observar que na zona equatorial mida os vestgios orgnicos
no se conservaram devido  acidez dos terrenos e que, portanto, com rarssimas
excees relativas a perodos muito recentes e mesmo histricos, os fsseis humanos,
os restos de fauna e o instrumental sseo esto totalmente ausentes.



2    Nakuriano. Fase mida definida pelos depsitos da praia inferior  dos 102 m do lago Nakuru, no Qunia.
     Makaliano. Fase mida reconhecida nas praias lacustres dos 114 m e 102 m do lado Nakuru.
     Gambliano. Pluvial definido ao redor dos lagos Nakuru, Naivasha e sobretudo Elmenteita (Gamble's
     Cave) no Qunia.
     Kanjeriano. 3o pluvial definido por L. S. B. LEAKEY com base em um depsito fossilfero descoberto
     em Kanjera em Kavirondo Gulf.
     Kamasiano. 2o pluvial, cujo nome se deve a depsitos de diatomitas estudados por Grgory em Kamasa
     no Kenya Rift Valley,
     Kagueriano. 1o pluvial assim chamado com base no sistema de terraos do rio Kaguera, na Tanznia,
     descoberto por E. J. Wayland em 1934.
594                                                   Metodologia e pr-histria da frica



      Histrico das pesquisas
    A pr-histria da zona da floresta equatorial da bacia do Congo permaneceu
ignorada durante muito tempo, em razo de sua enorme cobertura vegetal e
de suas macias formaes laterticas, nas quais se encontram encerradas as
indstrias de vrias culturas pr-histricas.
    Foi preciso esperar o desenvolvimento das grandes obras pblicas (construo
de estradas de ferro, rodovias, pontes e canais de saneamento) e as prospeces
de minerais para que se comeasse a conhecer a pr-histria desse setor, para que
os gelogos e pr-historiadores tivessem acesso aos cortes geolgicos reveladores
de instrumental ltico.
    No Zaire, as primeiras descobertas isoladas de utenslios pr-histricos
parecem ser as do Comandante C. Zbonsky, durante a construo das
linhas de estrada de ferro. Foram estudadas em 1899 por X. Stainer, que
tentou uma sntese provisria, apesar da ausncia de qualquer estratigrafia.
De 1927 a 1938, desenvolvem-se as pesquisas e importantes trabalhos so
publicados, em particular os de J. Colette, F. Cabu, E. Polinard, M. Bequaert,
G. Mortelmans, o do Rev. A. Anciaux de Favaux e do Ab. H. Breuil. Os mais
recentes so os de H. van Moorsel, F. van Noten e D. Cahen, cujas pesquisas
ainda prosseguem.
    Quanto  Repblica Popular do Congo, zona essencialmente florestal, os
trabalhos publicados so menos numerosos; convm, entretanto, assinalar as
pesquisas e estudos de J. Babet, R. L. Doize, G. Droux, H. Kelley, J. Lombard
e P. Leroy, particularmente relacionados com as descobertas efetuadas ao longo
da estrada de ferro que liga Ponta Negra a Brazzaville.
    A pr-histria do Gabo  conhecida pelos trabalhos de Guy de Beauchene,
B. Farine, B. Blankoff e Y. Pommeret, mas as informaes so bastante limitadas,
e nenhuma estratigrafia foi estabelecida com preciso.
    Os primeiros trabalhos efetuados na Repblica Centro-Africana foram os
do Prof. Lacroix, que, por volta de 1930, descobriu utenslios pr-histricos
nas aluvies dos rios do planalto de Muka. Essas descobertas foram publicadas
em 1933 pelo Ab. H. Breuil, e, no mesmo ano, Flix Ebou assinalava num
estudo de etnografia alguns utenslios de pedra descobertos no decorrer de
outros trabalhos. Finalmente, entre 1966 e 1968, foram efetuadas pesquisas
sistemticas no pas por R. de Bayle des Hermens. As publicaes que se
seguiram permitem que se tenha uma ideia bastante precisa das indstrias
pr-histricas encontradas numa zona onde praticamente nada se conhecia.
Pr-Histria da frica Central                                                595



    At os ltimos anos, muito pouco se sabia sobre a pr-histria de Camares,
e foi preciso esperar os trabalhos de N. David, J. Hervieu e A. Marliac para se
ter uma ideia geral de mais uma regio da frica cuja prospeco arqueolgica
ainda est por ser feita.
    Sobre Angola, podemos citar os nomes de J. Janmart, H. Breuil e J. D.
Clark, que efetuaram seus trabalhos nos ricos depsitos de aluvies das minas
de diamantes.


    Bases cronolgicas
   Utilizaremos para este pargrafo os trabalhos de cronologia do Quaternrio
da bacia do Zaire elaborados por G. Mortelmans (1955-1957), que, frente aos
atuais conhecimentos, so os mais aceitveis.

    O pluvial Kagueriano
    Parece ser o pluvial mais importante dos quatro que se sucederam. Foi um
perodo de escavao intensa dos vales e de formao de velhos terraos de
cascalhos, onde se encontram as mais antigas indstrias da bacia do Zaire.
Constitudas na quase totalidade por seixos lascados, essas indstrias so
classificadas num Pr-Acheulense Inferior (Kafuense, segundo G. Mortelmans).
Um perodo rido importante sucede ao pluvial Kagueriano, e os antigos
terraos cobrem-se de uma macia camada de laterito, onde se encontra um
Pr-Acheulense mais evoludo, porm mal situado cronologicamente devido 
falta de estratigrafia.

    O pluvial Kamasiano
   Situa-se no estgio final do Pleistoceno Inferior e abrange todo o Pleistoceno
Mdio. Na realidade, divide-se em duas fases, separadas por um perodo mais
seco. Na bacia do Kasai, atribuem-se a esse perodo os terraos de 30 m e de
22-24 m; no Shaba (Catanga) e, ao que parece, no oeste da Repblica Centro-
-Africana, os cascalhos de terraos, de fundo de talvegues e dos leitos fsseis
dos cursos d'gua. Ocorre, nesse caso, nas regies de relevo pouco acentuado, a
colmatagem de certos leitos de rios e a escavao de novos cursos. Nas camadas
profundas desses leitos fsseis encontra-se um instrumental pr-acheulense mais
evoludo que o dos antigos terraos do Kagueriano. Alguns bifaces comeam a
aparecer, mas seu lugar cronolgico no est estabelecido com exatido.
596                                                                  Metodologia e pr-histria da frica



    No fim do perodo maximal do Kamasiano, o Acheulense Inferior sucede
s indstrias de seixos lascados. Estas ainda se apresentam em grande nmero,
porm novos utenslios comeam a aparecer: os bifaces e as machadinhas em
particular. Estas ltimas, bastante raras no incio, rapidamente passam a ocupar
um lugar importante no conjunto de utenslios daquela cultura.
    O primeiro mximo kamasiano  seguido por uma fase moderadamente
seca, durante a qual ocorrem novas formaes de lateritos, ruptura de declives
e depsitos de limos fluviais. A esse perodo est relacionado um Acheulense
Mdio, cujos utenslios em geral so feitos a partir de lascas frequentemente
obtidas por meio de uma tcnica de debitagem lateral chamada Victoria West I3.
    No segundo mximo do Kamasiano4 menos acentuado que o primeiro, novos
cascalhos so depositados, formando-se os terraos de 15 m no Kasai. O ciclo
termina com o incio de um novo perodo seco, em que ocorre a formao de
novos lateritos. A evoluo do Acheulense prossegue com uma nova tcnica
de debitagem  a Victoria West II  e com o desenvolvimento de um novo
instrumento  o pico  que vai ocupar, na zona florestal, lugar de destaque
dentre os conjuntos industriais que sucedem ao Acheulense.
    O perodo rido Ps-Kamasiano  o mais importante conhecido nessa regio.
O Saara estende-se em direo ao sul, e o deserto do Calaari, em direo ao norte.
Alguns autores acreditam que a floresta equatorial tenha praticamente desaparecido,
subsistindo apenas como florestas ciliares. Areias vermelhas desrticas acumulam-
-se, em espessuras s vezes considerveis; o Acheulense desaparece ou, antes,
parece transformar-se, naquele mesmo local, em uma nova indstria denominada
Sangoense, em particular na frica equatorial e nas zonas florestais.
    Os utenslios se transformam. As machadinhas tornam-se raras e acabam por
desaparecer; os bifaces passam a ser mais espessos e macios; os pices tornam-se
muito abundantes, e novos objetos, totalmente desconhecidos no Acheulense, vm
figurar no conjunto de utenslios: peas bifaces alongadas, de grandes dimenses.
Esses instrumentos seriam adaptados  vida em meio florestal. H, entretanto,
uma contradio no que diz respeito ao meio ambiente onde se desenvolveu o
Sangoense, se se admite que a floresta equatorial tenha praticamente desaparecido
no rido Ps-Kamasiano em que se situa essa indstria. Deve-se reconhecer que o
Sangoense  uma das indstrias africanas menos conhecidas atualmente.


3     Nome dado a duas tcnicas de debitagem levalloisiense observadas particularmente nas indstrias
      recolhidas nas proximidades das quedas do Zambeze, em Vitria (Victoria Falls).
4     Alguns autores consideram este segundo mximo kamasiano o "Kanjeriano", o que d quatro perodos
      midos em vez de trs, dos quais um apresentaria duas fases bem distintas.
Pr-Histria da frica Central                                                  597



    O pluvial Gambliano
    O pluvial Gambliano assiste  reconstituio da floresta equatorial, enquanto
os rios escavam os vales e depositam s aluvies dos terraos baixos, constitudas
de areias elias acumuladas por ocasio do ltimo perodo rido. No Zaire
ocidental e no Kasai, o Sangoense evolui para uma nova indstria, menos
macia, o Lupembiense, tambm considerada uma cultura florestal. As regies
do sudeste vem desenvolverem-se indstrias semelhantes s da frica do Sul
e do Qunia: indstrias de lascas e lminas com fcies musteroides, conhecidas
pelo nome de Middle Stone Age (Mdia Idade da Pedra), mal situadas tanto na
sua estratigrafia, em geral inexistente, quanto na sua tipologia.

    O Makaliano e o Nakuriano, fases midas psgamblianas
    Esses dois perodos so muito menos acentuados que os pluviais precedentes:
entre eles intercala-se uma curta fase seca, no sendo o Nakuriano nitidamente
conhecido na bacia do Zaire. No Makaliano os rios escavam ligeiramente seu leito,
havendo, depois, nova colmatagem. O Lupembiense evolui no mesmo local: os
utenslios tornam-se cada vez menores, enquanto os trinchetes e pontas de flecha
aparecem em muito maior nmero no Tshitoliense, civilizao de caadores. No
Zaire oriental, no Shaba, e em Angola, desenvolvem-se inmeras fcies includas
na Late Stone Age (Alta Idade da Pedra), conjunto que, alis, precisa ser seriamente
reexaminado, pois compreende vrias indstrias to diferentes e discordantes que
no se consegue situ-las cronologicamente com exatido.
    Durante e aps o perodo mido Nakuriano, as indstrias neolticas entre
as quais, o Tshitoliense  invadem toda a frica equatorial, onde parecem ter
durao muito mais longa que em outros lugares. As civilizaes do couro e do
ferro s mais tarde penetraro nessa regio de difcil acesso, o que mostra mais
uma vez a evoluo local das culturas pr-histricas.


    As indstrias prhistricas da bacia do Zaire
    As indstrias pracheulenses
    Em toda a bacia do Zaire conhecem-se indstrias pr-histricas muito antigas,
constitudas de seixos partidos. Encontram-se em geral enterradas sob velhos
lateritos, como na bacia do Alto Kafila, no Zaire, e, na Repblica Centro-Africana,
nas formaes laterticas do planalto de Salo, no Alto Sanga. So encontradas,
ainda, nas aluvies profundas dos leitos fsseis de rios dessa mesma regio. Em
598                                                   Metodologia e pr-histria da frica



Angola, esto presentes nas aluvies profundas de elementos pesados de inmeros
rios.
    Essas culturas pr-histricas antigas, chamadas "culturas do seixo lascado",
Pebble Culture, Early Stone Age, recebem nomes diferentes conforme os lugares
ou os pr-historiadores que as assinalaram pela primeira vez. Na verdade, todas
so parte de uma lenta evoluo das tcnicas de lascamento, que durou cerca de
2 milhes de anos.

      O Kafuense
    Stio epnimo: vale do Kafu, em Uganda, descoberto por E. J. Wayland
em 1919. A indstria  constituda de seixos de rio, em geral apresentando
destacamentos de trs lascas em trs direes diferentes, raramente numa s,
o que determina um gume grosseiro. Atualmente o Kafuense subdivide-se em
quatro nveis: Kafuense Arcaico, Kafuense Antigo, Kafuense Recente e Kafuense
Evoludo. Esses quatro estgios so encontrados em Nsongesi (sul de U ganda),
nos terraos de 82 e 61 m. O Kafuense Evoludo  muito semelhante ou mesmo
idntico ao Olduvaiense. Alguns pr-historiadores consideram que os nveis
antigos do Kafuense no apresentam evidncias do trabalho humano, sendo os
seixos fendidos ali encontrados resultantes de fraturas naturais.

      O Olduvaiense
    Stio epnimo: Olduvai, na Tanznia, na plancie de Serengeti, descoberto por
Katwinkel em 1911, e que se tornou clebre a partir de 1926, com os trabalhos
e descobertas de L. S. B. Leakey.
    A garganta de Olduvai corta profundamente os depsitos de um antigo lago
do Pleistoceno Mdio e Superior. Ali foram identificados onze nveis "cheles-
-acheulenses" sobre um Pr-Acheulense que constitui o Olduvaiense.
    O Olduvaiense  uma indstria formada a partir de seixos de rio, em geral
menos planos que os do Kafuense. O lascamento  mais desenvolvido, e o gume
sinuoso  obtido por meio de destacamentos alternados, que no ltimo estgio
dessa indstria acabam por apresentar uma ponta, anunciando j as culturas
com bifaces. O Olduvaiense foi encontrado no Shaba, no oeste da Repblica
Centro-Africana (depsitos de aluvies do Alto Sanga), e, ao que parece, est
presente no nordeste de Angola. Contudo no foi identificado com segurana
em Camares, no Gabo e na Repblica Popular do Congo, apesar da descoberta
isolada de seixos lascados nesses pases s margens do golfo da Guin.
Pr-Histria da frica Central                                                     599



    O Acheulense
    O Acheulense  uma cultura particularmente bem representada na bacia do Zaire,
sendo certas jazidas de aluvies ou de terraos de uma riqueza excepcional. As divises
do Acheulense em quatro ou cinco estgios, conforme os autores, correspondem mais
especialmente s tcnicas de lascamento e de acabamento dos utenslios; so mais
tipolgicas do que estratigrficas. As jazidas acheulenses so constitudas em grande
parte pelas aluvies de cursos d'gua antigos, depositadas sob forma de terraos
em cascalhos e em areias de talvegue e nos leitos fsseis de pequenos rios cujos
cursos foram deslocados. As indstrias no se encontram em seu lugar de origem;
foram transportadas, concentradas pelo escoamento, sofrendo desgaste durante esse
processo. Em consequncia, o estudo do Acheulense nessas jazidas fundamenta-se
sobretudo na tipologia e no na estratigrafia, como em Olduvai, onde os depsitos
lacustres que encerram as indstrias tm uma espessura de 100 m aproximadamente.
    A indstria acheulense caracteriza-se por utenslios bastante variados e
muito mais elaborados do que os das culturas pr-acheulenses. O seixo lascado
permanece e, embora se torne mais raro  medida que a indstria evolui, no chega
a desaparecer. Utenslios novos adquirem grande importncia: em primeiro lugar,
o biface, objeto feito a partir de um seixo ou de uma lasca com destacamentos nas
duas faces, como o prprio nome indica; apresenta forma oval ou amigdaloide,
ponta mais ou menos pronunciada, base geralmente arredondada, seo na maioria
das vezes lenticular e dimenses muito variveis. Um outro utenslio importante 
a machadinha, caracterizada por um gume oposto  base e talhada a partir de uma
lasca. H ainda os pices, pouco numerosos no Acheulense Inferior e Mdio, mas
muito abundantes no Acheulense Final. Juntamente com esses quatro utenslios,
figuram no conjunto inmeras lascas, de dimenses muito variadas, utilizadas em
estado bruto ou retocadas de modo a formar raspadores e outros utenslios menos
elaborados, como as peas denticuladas, por exemplo.
    H cinco subdivises do Acheulense baseadas na tipologia e nas tcnicas de
debitagem.

    Acheulense I
    (Abbevilliense ou Chellense Antigo, para alguns autores)
    O instrumental inclui lascas muito grandes, obtidas pela percusso de
blocos rochosos sobre uma bigorna fixa. Essas lascas clactonienses, tambm
utilizadas em estado bruto, na maioria das vezes so transformadas em bifaces
e em machadinhas, instrumentos pesados e macios, com arestas laterais muito
600                                                     Metodologia e pr-histria da frica



sinuosas. O corte de seixos lascados no desapareceu; ao contrrio, desenvolveu-
-se, pois alguns bifaces ditos "de base reservada" so resultado do aperfeioamento
do lascamento de seixos do Pr-Acheulense.
    Este estgio  representado no Shaba pelas jazidas de Kamoa e de Luena,
descobertas por F. Cabu. No sul de Angola, foi reconhecido na bacia do Luembe.
Algumas jazidas do oeste da Repblica Centro-Africana tambm pertencem
ao Acheulense I. Com frequncia os utenslios desse estgio recolhidos nas
aluvies de terraos ou de leitos fsseis de rios apresentam-se muito desgastados
devido ao transporte fluvial.  particularmente o caso das jazidas de Lopo e de
Libangue, na Repblica Centro-Africana.

      Acheulense II
   (Abbevilliense Recente ou Acheulense Inferior)
    uma indstria muito semelhante  anterior, encontrvel igualmente nos
cascalhos dos rios de Angola e do Shaba; seus utenslios sofreram, no entanto,
um desgaste menor, sendo mais bem-acabados, do ponto de vista do lascamento
secundrio, que os do Acheulense I. As arestas dos bifaces e das machadinhas
tornam-se mais retilneas, ao que parece, em consequncia de retoques com
percutor mole, de madeira ou de osso.

      Acheulense III
    (Acheulense Mdio)
    Esse estgio  encontrado na superfcie, sobre os cascalhos de Luena e Kamoa,
onde se acha incorporado aos limos fluviais. Nele se opera uma verdadeira
revoluo nas tcnicas de debitagem: a preparao dos ncleos com o objetivo
de obter grandes lascas. Essa tcnica, bem conhecida na frica meridional, 
chamada Victoria West I.  a tcnica protolevalloisiense. A preparao do ncleo
resulta em um plano de percusso facetado. A lasca  retirada lateralmente e em
seguida cuidadosamente retocada para a obteno de um biface, machadinha
ou raspado r. O corte  feito com percutor manual mole. Os instrumentos so
bastante regulares e simtricos, tornando-se as arestas laterais praticamente
retilneas. As machadinhas so talhadas por retoque alterno dos bordos laterais,
o que lhes d uma seo retangular.
Pr-Histria da frica Central                                              601



    Acheulense IV
    (Acheulense Superior)
    Nesse estgio as tcnicas de debitagem permanecem basicamente as mesmas,
mas so aperfeioadas (tcnica Victoria West II). Trata-se de um ncleo muito
mais circular, com plano de percusso facetado, de onde so destacadas grandes
lascas com bulbo situado numa base estreita, diferente da base larga usada na
tcnica Victoria West I. Essas lascas servem para a fabricao dos utenslios,
bifaces, raspadores e machadinhas, todos finamente retocados. A seo das
machadinhas  trapezoidal ou lenticular. Esse Acheulense Superior encontra-
-se em Kama, nos limos do Kamasiano II, e no Kasai, nos terraos de 15 m.

    Acheulense V
   (Acheulense Evoludo e Final)
   O Acheulense Final presencia uma diversificao cultural em expresses
regionais mais bem adaptadas, ao que parece, ao meio ambiente climtico e
vegetal. Corresponde  instalao do homem nos mdios e baixos terraos secos.
Alm das tcnicas j conhecidas, comea a aparecer a tcnica de debitagem
Levallois. O restante do instrumental no apresenta diferenas em relao aos
estgios precedentes, exceto quanto  perfeio, ao acabamento e ao surgimento
de bifaces e de machadinhas de dimenses muito grandes, algumas com mais de
30 cm de comprimento. Um utenslio desenvolve-se de maneira considervel:
o pico, robusto e macio, de seo triangular ou trapezoidal; adaptado talvez
para o trabalho em madeira, com grandes peas bifaciais alongadas, j anuncia
o complexo Sangoense. Encontram-se, ainda, esferas de pedra cuidadosamente
preparadas, comparveis s "bolas". As jazidas do rio Mangala, a oeste da
Repblica Centro-Africana, forneceram uma srie particularmente importante
dessas "bolas". Esse Acheulense Final  encontrado no Shaba, em Kamoa, e nos
arredores de Kalina, no Zaire. Tambm est representado em Angola, talvez nas
proximidades de Brazzaville, e na Repblica Centro-Africana pelas ricas jazidas
do rio Ngoere, no Alto Sanga.
   Em toda a bacia do Zaire, desconhecem-se, infelizmente, os criadores dessa
cultura, em consequncia da acidez dos terrenos, que no permitiu a consrvao
de restos orgnicos.
602                                                     Metodologia e pr-histria da frica



      O Sangoense
   O stio epnimo que deu nome a essa cultura  Sango Bay, na margem do
lago Vitria, na Tanznia, descoberto por E. J. Wayland em 1920.
   O Sangoense  uma indstria derivada diretamente do substrato acheulense
local e sem introduo de elementos externos. Ocupa o fim do pluvial Kanjeriano
e continua durante uma fase de transio entre esse pluvial e o grande perodo
rido que o sucede.  uma indstria relativamente mal conhecida, que apresenta
vrias fcies locais. Estas parecem ter seguido uma evoluo interna e se adaptado
a um meio florestal ou, pelo menos, a um ambiente relativamente arborizado,
uma vez que tal indstria coincide com o incio de um perodo rido. Cinco
estgios foram identificados nessa cultura: Proto-Sangoense, Sangoense Inferior,
Sangoense Mdio, Sangoense Superior e Sangoense Final.
   Do conjunto de utenslios lticos sangoenses, o nico que chegou at ns
sofreu profundas modificaes em relao ao Acheulense Final, que o precede.
No incio de sua evoluo, os bifaces continuam a tradio acheulense; aos poucos
vo-se tornando mais macios, mais largos e mais curtos, surgindo tambm
alguns outros, semelhantes aos pices, com duas extremidades pontiagudas.
Por outro lado, as machadinhas desaparecem rapidamente, e as poucas que
subsistem so de pequenas dimenses com bordos laterais, muito sinuosas e
talhadas em lascas largas. Os seixos lascados ainda esto presentes, embora
no sejam muito abundantes. Os pices que apareceram no fim do Acheulense
passam a ocupar um lugar importante no conjunto de utenslios. Com grandes
dimenses, seo triangular, losangular ou trapezoidal, quando associados a
inmeros raspadores, parecem adaptar-se ao trabalho da madeira. O fenmeno
mais notvel  o aparecimento de peas bifaciais longas e estreitas, lascadas por
percusso e geralmente de grande delicadeza. Essas peas chegam a representar
cerca de um quarto do total conhecido dos instrumentos do Sangoense. Foram
classificadas em diversos tipos: pices, plainas, buris, goivas e punhais, que
em geral se associam para dar origem a instrumentos mltiplos: pices-buris,
pices-plainas, pices-goivas, pices-punhais. Algumas dessas peas atingem
por vezes dimenses excepcionais, ultrapassando 25 cm de comprimento. Com
a evoluo do Sangoense, estes utenslios, que praticamente no variam quanto
ao tipo, diminuem em dimenses, e o lascamento atinge grande perfeio.
   O Sangoense  muito abundante na bacia do Zaire.  conhecido, no Zaire,
na plancie de Kinshasa e no Alto Shaba, onde difere do Sangoense das zonas
ocidentais pela ausncia de punhais e de pontas foliceas; por outro lado, incluem-
Pr-Histria da frica Central    603




Figura 21.2 Monumento
megaltico da regio de Buar
na Repblica Centro-Africana
(Clich R. de Bayle des
Hermens).
Figura 21.3 Acheulense
Superior. Repblica Centro-
-Africana, rio Ngoere, Alto
Sanga. 1. Machadinha; 2. biface
(Fotos Museu de Histria
Natural) .
604                                                                        Metodologia e pr-histria da frica



-se na indstria inmeras bolas, poliedros facetados ou esferas cuidadosamente
acabadas com picoteamento, e numerosas lascas aproveitadas. Foi recolhido nas
aluvies do rio Luembe, em Candala e Lunda no nordeste de Angola, onde
muitas vezes aparece misturado com indstrias mais antigas ou mais recentes,
em consequncia de sua posio nos cascalhos revolvidos. Existe igualmente na
Repblica Popular do Congo, na margem direita do Stanley Pool e no Gabo,
onde recentemente foi identificado. Na Repblica Centro-Africana  conhecido
pelas jazidas excepcionalmente ricas do centro-este do pas, onde as aluvies das
minas de diamantes no Nzako a Ambilo, do Tr, Tiaga e Kono forneceram
milhares de utenslios em notvel estado de conservao, que se classificam como
pertencentes a um Sangoense Mdio ou Superior.
   At hoje, o Sangoense no apareceu verdadeiramente diferenciado em
Camares; a propsito, discute-se sua extenso para o oeste da frica. Alguns
autores assinalaram sua presena no Senegal; trata-se, na realidade, de indstrias
com peas bifaciais idnticas ou muito prximas das do Sangoense, mas ainda
muito mal situadas na cronologia pr-histrica.  possvel que grupos humanos
tenham-se deslocado em direo ao oeste na zona da grande floresta, mas at o
presente no temos meios de identificar suas influncias.
   Como o Acheulense, o Sangoense evolui localmente, sem grandes contatos
com o mundo exterior ao seu meio ambiente florestal.  sucedido por uma
indstria chamada Lupembiense, surgida de condies ainda pouco definidas,
e que apresentaremos a seguir.

      O Lupembiense
    O Lupembiense5 , segundo a classificao recomendada no Congresso Pan-
-Africano de 1955, uma indstria da Middle Stone Age. Entretanto, o termo Middle
Stone Age deve ser usado com precauo, pois abarca um conjunto de instrumentos
bastante heterogneos, cuja posio exata no foi ainda bem definida.
    O Lupembiense desenvolve-se no momento em que as condies de
pluviosidade voltam ao normal, no incio do quarto pluvial, chamado Gambliano;
atinge o pice no decorrer da segunda parte desse perodo muito mido, e a
datao absoluta indica uma durao de aproximadamente 25 mil anos. Assim
como o Acheulense Final, que se desenvolveu localmente, o Sangoense tambm
se modificou, refinou-se, adquiriu novas tcnicas de lascamento, que tiveram seu
apogeu no Lupembiense, sem que houvesse contatos com elementos estranhos 


5     Lupembiense. Stio epnimo: estao pr-histrica de Lupemba no Kasai; termo criado pelo Abade H. BREUIL.
Pr-Histria da frica Central                                                605



grande floresta, a qual continuou a representar um papel protetor. No incio do
Lupembiense subsistem ainda na indstria alguns bifaces, que logo desaparecem;
no foram encontradas machadinhas. Do ponto de vista da debitagem, a tcnica
levalloisiense predomina na obteno de lminas e lascas; o retoque  feito
por percusso. Num estgio posterior, a tcnica levalloisiense continua a ser
empregada na obteno de lascas, mas uma outra tcnica, muito mais avanada,
a debitagem por presso,  utilizada na produo de lminas bastante grandes,
que vo permitir a fabricao de peas longas, estreitas e notavelmente retocadas.
   Os ltimos trabalhos relativos ao Lupembiense permitiram identificar cinco
estgios.

    Lupembiense I
     encontrado em toda a bacia ocidental do Zaire, onde constitui uma evoluo
local do Sangoense. Os elementos acheulenses desaparecem totalmente; o
lascamento e o retoque so feitos por percusso. Os instrumentos do Sangoense
subsistem, mas evoluem, diminuindo em dimenses absolutas. Os pices,
pices-plainas, pices-planos no tm mais do que 15 cm. Surgem as goivas,
buris, peas cortantes e serras talhadas a partir de lminas. Com essas peas de
cuidadoso acabamento, a base dos instrumentos ainda  constituda de lascas
grosseiras. No final do Lupembiense I comeam a aparecer pontas, punhais e
verdadeiras pontas de flechas.

    Lupembiense II
    Este estgio foi definido em Pointe Kalina por J. Colette, mas  conhecido
tambm no Stanley Pool. Os buris foliceos do Lupembiense I evoluem,
transformando-se em machados. Buris com bordo retilneo e um novo tipo de
trinchete com gume oblquo substituem as formas conhecidas no Sangoense. As
armas compreendem punhais de 15 a 35 cm de comprimento e pontas foliceas
delicadamente talhadas e muito finas.

    Lupembiense III
   Foi identificado nos depsitos de superfcie do Stanley Pool e em alguns
depsitos de Angola. Nesse estgio a tcnica de debitagem da pedra atinge seu
apogeu com o retoque-presso. As lascas obtidas por uma tcnica levalloisiense
evoluda so triangulares, retangulares ou ovais. Surge um instrumental
pedunculado, que se desenvolve e se torna mais frequente. Os utenslios do
606                                                      Metodologia e pr-histria da frica



Lupembiense Antigo so encontrados aqui, mas com dimenses mais reduzidas:
pices, buris, pequenos bifaces, alguns raspadores, lesmas, trinchetes com gume
reto ou oblquo e lminas com bordo desbastado. Os punhais chegam a atingir
dimenses considerveis (at 46 cm). As pontas so denticuladas, constituindo
armas mortais; os machados tornam-se mais comuns, embora no abundantes.
Fato importante  o aparecimento de pontas de flechas de diversos tipos,
foliceas, losangulares, pedunculadas ou no, com bordos s vezes denticulados
e de grande perfeio.
    Em Angola, um estgio tardio do Lupembiense foi datado pelo mtodo
do C14: 14.503 560 anos, ou seja, 12.500 antes da Era Crist. Em relao 
Europa, situa-se no Paleoltico Superior.

      Lupembiense IV
    O Lupembiense IV  muito mal conhecido. Sua principal caracterstica seria
a tcnica epilevalloisiense de debitagem.

      LupemboTshitoliense
   Este ltimo estgio parece ter ocorrido, do ponto de vista estratigrfico, na fase
rida em que termina o Pleistoceno, na frica central e oriental, imediatamente
antes do primeiro perodo mido Makaliano. As jazidas conhecidas localizam-se
nas aluvies cascalhosas ou na base da camada mida que as recobre, muitas
vezes em ilhas fluviais.
   A tcnica de debitagem no se modifica em relao aos outros estgios
do Lupembiense; ainda  epilevalloisiense. Por outro lado, o retoque associa
 percusso e  presso uma nova tcnica: o retoque abrupto, que caracteriza
o Mesoltico. O instrumental ainda compreende buris, goivas e bifaces, mas
desaparecem os raspadores e lminas com dorso. Aos trinchetes vem juntar-se
um "microtrinchete" com retoque abrupto dos bordos, que pode ser considerado,
em certos casos, como uma armadura de gume transversal. As pontas de flechas
so mais variadas: foliceas, losangulares, farpadas, raramente denticuladas e
pedunculadas.
   Em Angola, uma indstria classificada no Lupembo-Tshitoliense data de
11.189 490 anos.
   O Lupembiense ainda no foi encontrado na Repblica Centro-Africana e
em Camares. Por outro lado, foi assinalado na Repblica Popular do Congo
Pr-Histria da frica Central                                               607



e no Gabo, mas, pelo fato das jazidas situarem-se em regies de difcil acesso,
continua mal definido.

    Culturas prhistricas de carter noflorestal
    Enquanto o Lupembiense ocupa a zona florestal do oeste da bacia do Zaire,
no Shaba e no leste de Angola desenvolvem-se culturas de caracteres no-
-florestais: o Proto-Stillbayense, o Stillbayense e o Magosiense. Essas culturas
vo apresentar uma grande expanso na frica do leste e do sul.

    O ProtoStillbayense
    O stio epnimo  Stillbay, jazida do litoral da provncia do Cabo. O Proto-
-Stillbayense  uma indstria caracterizada por pontas unifaciais, raspadores,
ferramentas denticuladas, pedras de arremesso, raros bifaces de pequenas
dimenses, pontas semifoliceas de seo espessa, grosseiramente retocadas em
buris, tambm pouco numerosos. Esses instrumentos so obtidos por retoque
relativamente abrupto.

    O Stillbayense
    No Stillbayense a natureza dos instrumentos no varia sensivelmente em
relao ao estgio anterior, mas se nota uma grande percia nas tcnicas de
debitagem epilevalloisiense. Uma aquisio importante  o retoque-presso,
utilizado sobretudo na feitura de armas e de pontas musteroides unifaciais
ou bifaciais, que de modo geral conservam seu talo facetado. Em um ltimo
estgio, conhecido somente no Qunia, figuram as lamelas com dorso, buris e
segmentos de crculo.
    O Proto-Stillbayense  muito abundante no Shaba; j o Stillbayense  menos
comum. Os restos humanos mais antigos descobertos no Zaire pertencem ao
Stillbayense. Trata-se de dois molares encontrados junto a quartzos lascados e
uma ponta bifacial, pelo Rev. A. Anciaux de Favaux, nas brechas ossferas de
Kakontwe.

    O Magosiense
   O stio epnimo dessa indstria  Magosi, em Uganda, descoberto por
Wayland em 1926.  uma cultura na qual se encontram as principais peas
do Stillbayense. Utenslios microlticos  lamelas com bordos desbastados,
608                                                                      Metodologia e pr-histria da frica



segmentos de crculo, tringulos, raspadores unguiformes, pequenos buris  e
contas feitas de casca de ovo de avestruz completam a indstria. O Magosiense
parece ter existido em Catanga, mas nenhum stio bem defnido foi at agora
registrado com segurana.


      Uma indstria mesoltica: O Tshitoliense
    No final do Pleistoceno dois perodos relativamente secos provocam um recuo
da cobertura florestal, especialmente nas altitudes.  nesses solos desbastados, nos
arredores das fontes, muitas vezes no cume de colhias tabulares ou em desfiladeiros,
que se instalam os homens do Tshitoliense6. As jazidas desse tipo so conhecidas
no planalto Bateke, no Stanley Pool, na plancie de Kinshasa e no nordeste de
Angola. O instrumental encontrado varia de uma para outra, contando ainda com
um nmero proporcionalmente grande de utenslios florestais, mas j de dimenses
muito reduzidas. Aparecem utenslios novos, ou pouco conhecidos nas indstrias
precedentes: plainas, lminas com ponta retocada, facas com dorso e, sobretudo,
elementos microlticos e geomtricos: trapzios, tringulos, gomos de laranja e
microtrinchetes. As pontas de flechas apresentam uma grande variedade de tipos
e de formas: foliceas, losangulares, ovais, triangulares, farpadas, pedunculadas,
denticuladas e com gume transversal. Em sua quase totalidade, so talhadas por
retoque-presso, o que lhes d grande elegncia.
    O Tshitoliense, por seu armamento reduzido s pontas de flecha, pode ser
considerado um Pr-Neoltico que no inclui cermica nem machados polidos.
Aparece como uma expresso tardia das culturas florestais africanas antes do
desenvolvimento do Neoltico do Zaire ocidental, aparentemente de carter intrusivo.

      O Neoltico
   Em toda a bacia do Zaire, no sentido amplo do termo, as civilizaes
pr-histricas mencionadas nos pargrafos anteriores constituem, do Pr-
-Acheulense ao Tshitoliense, etapas sucessivas de um complexo cultural imenso
desenvolvido em meio florestal, que, como j foi dito, evoluiu localmente, sem
contribuies sensveis do mundo exterior.
   As fcies neolticas  pois  preciso desde logo deixar claro que houve
vrias fcies, por vezes muito diferentes umas das outras  desenvolvem-se


6     Tshitoliense. Termo criado com base no instrumental ltico recolhido em Tshitolo, no Kasai.
Pr-Histria da frica Central                                                   609



no decorrer do ltimo e breve perodo mido: o Nakuriano. O clima de ento
 sensivelmente o mesmo que conhecemos hoje. A cobertura florestal  mais
densa, pois ainda no sofreu a ao devastadora do homem, e as espcies vegetais
so as que existem atualmente.
     portanto, no interior de uma floresta tropical muito densa que, vindos
do norte, depois de atravessar o rio nos arredores dos rpidos de Isanghila, os
criadores de uma cultura neoltica conhecida como "do Congo ocidental" vo
aos poucos se instalando. So eles portadores de novas tcnicas, que, em maior
ou menor grau, iro fundir-se com as j existentes no local. Esse Neoltico
distingue-se pelo emprego quase exclusivo de rochas difceis de trabalhar, como
os xistos, quartzos e a jadeta. As lascas so, portanto, muito malfeitas, resultando
um instrumental medocre. Os conjuntos de utenslios variam conforme os
stios. Incluem pices grosseiramente elaborados, buris, seixos lascados, de
pequenas dimenses, pedras perfuradas de vrias formas, pesos e materiais e,
sobretudo, um grande nmero de machados. Estes ltimos so inicialmente
lascados e parcialmente polidos; depois, picoteados e polidos cuidadosamente.
No Zaire so conhecidos inmeros polidores, que certamente serviram ao
polimento de machados. As pontas de flechas no esto ausentes, mas em geral
so de fabricao muito medocre e talhadas em lascas de quartzo. Em alguns
stios, mais especificamente em Ishango, a indstria apresenta utenslios de osso,
em particular arpes com uma e, mais tarde, com duas camadas de farpas. Ao
lado desse instrumental ltico e sseo, figura em algumas jazidas uma cermica
abundante, muito bem decorada e ornamentada.
    As jazidas neolticas so conhecidas no Cuango ocidental, em associao
com o Tshitoliense; em ambas as margens do rio Zaire, entre o Pool e Congo
dia Vanga; e em vrios pontos da Repblica Popular do Congo. Uma fcies
que apresenta grande nmero de machados de hematita com polimento
particularmente cuidadoso  encontrada em Uele, no norte do Zaire. O Neoltico
 conhecido (sob diversas fcies, como j indicamos) em Camares, no Gabo
e na Repblica Centro-Africana. Nesse ltimo pas, a jazida de Batalimo, em
Lobaye, encerra uma indstria em jadeta na qual inmeros machados lascados
encontram-se associados a uma cermica muito fina. A datao dessa indstria,
feita pelo mtodo de termoluminescncia,  380 220 da Era Crist. A data,
 primeira vista, pode parecer anormal; contudo, pelo que atualmente se sabe,
o Neoltico na zona da grande floresta parece ter durado muito mais tempo
que nas outras regies, prolongando-se at um perodo histrico. A introduo
dos metais no local teria ocorrido s bem mais tarde. Alguns autores situam o
advento do ferro num perodo j prximo do sculo IX da Era Crist.
610                                                                   Metodologia e pr-histria da frica



      Os monumentos megalticos
   As culturas megalticas desenvolveram-se sob diversas formas na frica,
particularmente na frica do norte e no Saara. A bacia do Zaire, com exceo
do noroeste da Repblica Centro-Africana, no conheceu tais culturas. Em
Angola, no Zaire, no Gabo, na Repblica Popular do Congo, no foi encontrado
nenhum monumento megaltico, e, em Camares, somente algumas pedras
colocadas em sentido vertical.
   Em contrapartida, a Repblica Centro-Africana, na regio de Buar, possui
meglitos particularmente notveis. Ocupam eles uma faixa de 130 km de




Figura 21.4 Vaso neoltico de fundo plano. Repblica Centro-Africana, Batalimo, Lobaye (Foto Laboratrio
de Pr-Histria. Museu de Histria Natural).
Pr-Histria da frica Central                                                611



comprimento e 30 km de largura na linha divisria das guas das bacias do
Zaire e do Chade. Ao que parece, no so conhecidos em Camares e tampouco
em outros lugares da Repblica Centro-Africana. Essa cultura encontra-se, pois,
confinada geograficamente ao noroeste do pas.
    Os monumentos apresentam-se sob a forma de tmulos, com dimenses
variveis, encimados por um certo nmero  de algumas unidades a vrias
dezenas  de pedras verticalmente colocadas, e cuja altura acima do solo chega
a ultrapassar 3 m. As escavaes realizadas em vrios desses monumentos
revelaram sua estrutura interna, mas forneceram poucos elementos arqueolgicos
 quartzo lascado, cermica e objetos de metal nas camadas superiores. Por outro
lado, os carves vegetais recolhidos permitiram fazer dataes pelo mtodo
do C147. Os resultados obtidos fornecem datas extremamente importantes: as
primeiras, relativas s camadas profundas dos monumentos: 7440 170 B.P., ou
seja, 5490 antes da Era Crist, e 6700 140 B.P., ou 4750 antes da Era Crist;
as segundas: 1920 100 B.P., isto , 30 da Era Crist, e 2400 110 B.P., ou 450
da Era Crist. Essas duas sries de dataes indicam, para as camadas mais
antigas, a idade da edificao dos meglitos e, para as mais recentes, a idade de
uma nova utilizao, alis confirmada por alguns objetos metlicos recolhidos
nas camadas superiores. No estgio em que se encontram, as pesquisas no
permitem atribuir com certeza os meglitos de Buar ao Neoltico, mas pode-se
dizer que a civilizao que os edificou  ao menos contempornea desse perodo.

    A arte rupestre
    Situada entre as duas grandes regies de arte rupestre  Saara e frica do
Sul , a bacia do Zaire tambm possui uma arte rupestre, embora no to rica
quanto se podia esperar em vista de sua localizao.
    No Chade, no Ennedi e no Borku desenvolveu-se uma arte rupestre que faz
parte dos grandes complexos saarianos. Em Camares conhece-se um stio de
gravuras sobre lajes horizontais, polidas e desgastadas pela eroso, no norte do
pas, em Bidzar. As representaes so essencialmente geomtricas: crculos e
arcos, ora isolados, ora em grupo.
    Em Angola existem gravuras na regio de Calola. Apresentam-se sobre
lajes horizontais, e os motivos so geomtricos, como em Camares. Pinturas
aparentemente mais recentes foram assinaladas nessa mesma regio. No Zaire
conhecem-se vrios stios de diferentes pocas. O Shaba parece ser a provncia


7    BAYLE DES HERMENS, R. e VIDAL, P. 1971, p. 81-82.
612                                                   Metodologia e pr-histria da frica



mais rica em arte rupestre e pertencer ao mesmo grupo que a Zmbia e
Angola do leste. Esse grupo  caracterizado por uma arte esquemtica, e no
naturalista como a da frica do Sul. Em 1952, o Ab. Henri Breuil publicava
as figuras gravadas e pontuadas da gruta de Kiantapo8, e G. Mortelmans, um
ensaio de sntese dos desenhos rupestres do Shaba9 chamando a ateno para
as dificuldades de datao dos diferentes estilos devido  falta de documentos
arqueolgicos. Foram descobertas lajes gravadas no Baixo Zaire, tendo a arte
rupestre, nessa regio, subsistido at poca muito recente. Sries de gravuras
do Monte Gundu, no Dele, parecem relacionadas aos ritos da gua e do fogo.
    Na Repblica Centro-Africana a arte rupestre atualmente conhecida
est situada no norte e no leste do pas. Ao norte, os abrigos de Toulou,
da Koumbala e do Djebel Mela apresentam pinturas tratadas com ocre
vermelho, preto e branco: personagens e signos diversos, mas ausncia de
representaes animais. No leste, as jazidas de Lengo e do Mpatou perto de
Bakouma apresentam uma arte gravada sobre lajes horizontais de laterito, ao
que parece relativamente recente e executada por homens que j conheciam
o ferro, tendo-se em conta as inmeras facas de arremesso e pontas de lana
ali encontradas.
    A arte rupestre da bacia do Zaire no tem nenhuma semelhana com a do
Saara. Seu eixo de penetrao deve ser buscado em direo  frica do sul e do
leste. Ela  bastante similar  que se conhece na regio bantu; , pois, recente,
e at mesmo histrica. Entretanto, tem grande importncia para o estudo das
migraes e movimentos de populaes de um perodo muito mal conhecido
da preto-histria ou mesmo da histria da frica tropical.


      Concluso
   De tudo o que expusemos sobre a pr-histria da bacia do Zaire, infere-
-se que at o Acheulense Superior as indstrias pr-histricas distinguem-se
muito pouco do que se conhece nas outras regies da frica subequatorial.  a
partir do complexo Sangoense que tem incio a grande diversificao regional
das culturas de fcies florestal, com um fato notvel: o isolamento quase total
em que viveram os homens dessa regio at a chegada dos neolticos vindos do
norte, fugindo, talvez, das zonas saarianas em razo do dessecamento.


8     BREUIL, H. 1952, p. 1-32, 14 pranchas.
9     MORTELMANS, G. 1952, p. 35-55, 9 pranchas.
Pr-Histria da frica Central                                             613



    A grande floresta equatorial constituiu uma barreira natural, limitando os
contatos com o norte e o sul do Equador. Nessa rea as culturas neolticas
tiveram uma durao muito maior do que em qualquer outra, uma vez que
continuaram isoladas e protegidas numa poca em que outras regies j haviam
entrado h muito tempo na histria, com a utilizao dos metais e do ferro.
Pr-Histria da frica Central                                          615



                                 CAPTULO 21


               Pr-Histria da frica Central
                        PARTE II
                          F. Van Noten com a colaborao de:
                     P. de Maret, J. Moeyersons, K. Muya, E. Roche




    A frica Central, tema deste captulo, compreende o Zaire e alguns pases
limtrofes: a Repblica do Congo, o Gabo, o Rio Muni, a Repblica Centro-
-Africana, Ruanda, Burundi e Angola.
    Desde o final do sculo XIX, essa parte do continente atraiu a ateno dos
arquelogos, mas as pesquisas sempre foram muito dispersas.
    Os primeiros pesquisadores que se interessaram pela frica Central quiseram
inicialmente reconhecer na regio perodos semelhantes aos descritos na Europa.
Foi X. Stainer quem tentou um primeiro estudo de conjunto em 1899, mas a J.
Colette cabe o mrito de ter realizado escavaes desde 1925 (Bequaert, 1938).
Entretanto, pode-se dizer que a pesquisa cientfica s se ampliou realmente
depois da Segunda Guerra Mundial. A partir de ento, estudos sistemticos
foram efetuados por J. D. Clark na Zmbia e em Angola, R. de Bayle des
Hermens na Repblica Centro-Africana, J. Nenquin em Ruanda e no Burundi,
G. Mortelmans, J. de Heinzelin e H. van Moorsel no Zaire, e pela Sociedade
Pr-Histrica e Proto-Histrica Gabonense no Gabo.
    No Zaire, os trabalhos se desenvolveram principalmente a partir da criao
do Instituto dos Museus Nacionais em 1970.
    Nossos conhecimentos, entretanto, ainda so bastante fragmentrios. Embora
Colette tenha sido um pioneiro realizando o primeiro estudo cronoestratigrfico,
seu exemplo foi muito pouco seguido, e em vrias partes da rea considerada
616                                                   Metodologia e pr-histria da frica




Figura 21.5   Zonas de vegetao da frica Central.
Pr-Histria da frica Central                                                 617



nossos conhecimentos baseiam-se unicamente nas coletas de superfcie. Mas 
preciso ter em conta que a arqueologia na frica Central se depara com muitas
dificuldades. Algumas reas, como o norte, por exemplo, no se prestam muito
bem a escavaes em razo das espessas crostas laterticas, enquanto que na
floresta as prospeces so difceis.
    Outros fatores dificultam ainda mais a tarefa; de modo geral, as condies
climticas e a acidez dos terrenos no permitiram a conservao dos restos
sseos, o que explica sua ausncia na maioria dos stios estudados. H, entretanto,
excees notadamente em Ishango e em Matupi, onde o meio calcrio possibilitou
a boa conservao do material.
    A nomenclatura tem sido constantemente revisada, e as subdivises,
discutidas com frequncia. A sucesso das antiga, mdia e recente idades da
pedra, entrecortada por perodos intermedirios, parece no ser mais aceitvel,
nem cronolgica, nem tipologicamente. Aps um perodo de rigorosas tentativas
de classificao, volta-se a considerar muito relativas e provisrias essas amplas
categorias.
    O estudo de stios novos escavados e datados sistematicamente confirma
esse procedimento. Citemos como exemplo a recente Idade da Pedra: em 1959,
J. D. Clark situava o incio desse perodo por volta de 7500 B.P. Em 1971,
obtnhamos para a gruta de Munyama, em Uganda, uma data aproximada de
15.000 B.P. (van Noten, 1971) e, seis anos mais tarde, a indstria microltica
de Matupi era datada de 40.000 B.P. aproximadamente (van Noten, 1977). H,
portanto, evidentes contradies entre a antiga classificao e as descobertas
recentes.
    Ainda que os arquelogos do mundo inteiro comecem a demonstrar um
especial interesse pelo modo de vida do homem pr-histrico, estudando seu
meio ambiente e tentando compreender as relaes que mantinha com esse
meio, a pr-histria na frica Central permaneceu durante muito tempo como
um estudo de tipologia e de cronologia. Nessa nomenclatura, o espao dedicado
ao homem  mnimo.
    Em lugar de organizar um catlogo exaustivo de stios, os quais, na maior
parte das vezes, mostram apenas descobertas de superfcie, iremos concentrar-
-nos nas rarssimas escavaes sistemticas que forneceram elementos para
dataes: Ishango, Gombe, Bitorri, Kamoa, Matupi e Kalambo. Esses conjuntos
de dados extremamente dispersos devero ser complementados com informaes
fornecidas pelo estudo de outras localidades.
    Estamos mais do que nunca convencidos da impossibilidade de estabelecer
grandes reas culturais bem definidas. Devemos nos limitar  constatao da
618                                                      Metodologia e pr-histria da frica



presena do homem num momento determinado, sem poder afirmar ainda se ele
evoluiu localmente ou se veio de fora. Certamente ele cedo se adaptou a meios
bem definidos, com clima, flora e fauna prprios. O caador-coletor primitivo
precisava explorar esses meios para sobreviver, e j a escolha do material existente
ditava seu procedimento quando da fabricao dos utenslios.  claro que o
homem deve ter respondido de diferentes maneiras s diferentes condies
criadas pela diversidade dos meios ambientes da frica Central. Resultou,
da, a existncia de reas distintas que por vezes mostram traos comuns mas,
ao mesmo tempo, adaptaes regionais, e mesmo locais, que no se explicam
simplesmente pela influncia de condies ecolgicas diferentes. Entretanto
seria prematuro falar em reas culturais.


      Quadro geogrfico
    Os traos gerais da morfologia da imensa regio chamada frica Central so
o resultado de uma srie de movimentos tectnicos que j haviam comeado no
incio do Tercirio, e que provavelmente ainda no cessaram.
    A bacia central, cuja altitude no ultrapassa 500 m,  rodeada por um
cinturo de planaltos, de colinas ou de montanhas, formados nas camadas
geolgicas que recobrem o embasamento cristalino pr-cambriano. Este aflora
na periferia;  muito acidentado  particularmente em Kivu, onde chega a
elevar-se acima de 3000 m  e bastante recortado pela eroso. Relevos muito
elevados dominam o embasamento em alguns lugares: os planaltos baslticos
(cerca de 3000 m) da margem sudeste do lago Kivu e da Adamaua (cerca
de 2500 m), os picos vulcnicos na regio das Virunga (cerca de 4500 m), o
horst do Ruwenzori (5119 m) e o planalto do Huambo (cerca de 2600 m). Os
movimentos tectnicos que afetaram as terras altas provocaram a formao de
grabens, tais como a fossa a leste da frica Central e o "buraco" do Benue.
    Exceto na regio costeira ao sul de Angola e na bacia do Cubango-Zambeze,
a frica Central recebe chuvas abundantes. Na bacia, as precipitaes so
regulares o ano todo: representam mais de 1700 mm de gua por ano. Nas costas
do Gabo, no Rio Muni e em Camares podem atingir 4000 mm. Nas regies
onde h uma estao seca (trs a sete meses) as precipitaes ainda atingem de
800 a 1200 mm.
    Na frica Central, a floresta densa e mida, que se desenvolve sob regime
pluvial elevado entre as latitudes 50 N e 4o S, cobre a bacia do Zaire, a maior parte
da Repblica Popular do Congo, o Gabo, o Rio Muni e o sul de Camares. A
Pr-Histria da frica Central                                                      619




Figura 21.6     Mapa da frica Central com os nomes dos lugares citados no texto.



leste, a floresta transforma-se, por formaes de transio, em florestas densas
de montanha que ocupam entre 2o N e 8o S, as cristas e as vertentes muito
bem regadas do leste do Zaire, de Ruanda e do Burundi. Nos lugares onde
sofreu degradao, a floresta densa foi substituda por nova vegetao e florestas
secundrias.
620                                                   Metodologia e pr-histria da frica



    A floresta equatorial  margeada por florestas densas semidecduas,
frequentemente bastante degradadas, todavia capazes de sobreviver a uma
estao seca de dois a trs meses. Ao norte, elas constituem uma franja pouco
extensa em latitude, que vai de Camares ao lago Vitria, passando pelo sul
da Repblica Centro-Africana e na regio entre os rios Bomu e Uele. Ao sul
formam, com as savanas de origem antrpica, um mosaico vegetal que cobre
parte da Repblica Popular do Congo, o Baixo Zaire, as terras baixas do Cuango,
o Kasai-Sankuru e o Lomami.
    Dispostas em arco ao redor da zona das florestas densas guineenses, as
florestas abertas e as savanas sudano-zambezianas cobrem regies onde a estao
seca chega a atingir sete meses: o centro de Camares, a Repblica Centro-
-Africana, o Sudo Meridional, o leste de Ruanda e do Burundi, o Shaba no
Zaire, a Zmbia e Angola.
    Grandes depresses pantanosas so encontradas ao longo dos rios, sobretudo
no curso do Nilo Branco ao sul do Sudo, na bacia e na depresso do Upemba
no Zaire, na bacia do Zambeze em Angola e na Zmbia.


      Evoluo do meio ambiente
    A reconstituio do meio ambiente do homem pr-histrico tornou-se
um elemento importante das pesquisas arqueolgicas. Os primeiros estudos
a respeito foram realizados no leste da frica. Vrios pesquisadores, como E.
J. Wayland (1929, 1934), P. E. Kent (1942) e E. Nilsson (1940, 1949), haviam
observado, no Quaternrio, alternncias de perodos midos (pluviais) e perodos
secos (interpluviais).
    Os pluviais foram considerados contemporneos das glaciaes do
Hemisfrio Norte e chamados, do mais antigo ao mais recente, Kagueriano,
Kamasi ano e Gambliano. Posteriormente foram reconhecidas duas fases midas
do incio do Holoceno, o Makaliano e o Nakuriano. L. S. B. Leakey (1949), J.
D. Clark (1962, 1963) e outros tentaram depois estender o uso desses nomes,
que haviam adquirido uma significao estratigrfica especfica no leste da
frica, a outras partes do continente. Por sua vez, autores como T. P. O'Brien
(1939), H. B. S. Cooke (1958), R. F. A. Flint (1959), F. F. Zeuner (1959) e W.
W. Bishop (1965) expressaram suas reservas quanto  generalizao da teoria:
as pesquisas efetuadas na frica Central mostraram que existem intervalos de
tempo considerveis entre as fases pluviais das duas regies.
Pr-Histria da frica Central                                                621



    J. de Ploey (1963) foi o primeiro a reconhecer na frica Central a existncia
de um perodo semi-rido no Pleistoceno Superior, ao menos em grande parte
contemporneo da glaciao de Wrm na Europa. Diversos autores ( J. Alexandre,
S. Alexandre, 1965; J. Moeyersons, 1975) constataram a presena dessa fase no
Shaba. Uma oscilao mais mida por volta de 6000 B.P. foi descoberta por J.
de Ploey (1963) no Baixo Zaire, em Mose no Shaba (Alexandre, comunicao
pessoal) e em Moussanda no Congo (Delibrias et al., 1974, 47). Os estudos
em Kamoa mostraram que essa fase foi precedida por uma outra oscilao
mida entre 12.000 B.P. e 8000 B.P., separada da oscilao de 6000 B.P. por
uma curta fase de eroso, ligada a uma nova ocorrncia da seca. A oscilao
mida entre 12.000 B.P. e 8000 B.P.  contempornea da extenso dos lagos
no leste da frica, encontrada por K. W. Butzer et al. (1972). Os estudos de J.
de Ploey (1963, 1965, 1968, 1969) no Baixo Zaire e de J. Moeyersons (1975)
em Kamoa indicam que os perodos mais secos eram caracterizados por uma
intensificao dos processos morfogenticos. Assim, na regio de Kinshasa,
durante o Leopoldvilliano, as colinas foram fortemente desnudadas, havendo,
em consequncia, intensa sedimentao na plancie. Do mesmo modo, em
Kamoa, esse perodo presenciou uma evoluo muito grande das vertentes sob
forma de estreitamento das bordas dos vales. Tudo isso vem confirmar a hiptese
de H. Rhodenburg (1970) da alternncia de fases morfodinmicas identificadas
com os perodos secos, e fases estveis, midas.
    A evoluo do meio ambiente na frica Central foi, portanto, fortemente
marcada pelas condies climticas dos ltimos cinquenta milnios. Os estudos
relativos s formaes vegetais atuais e ao seu equilbrio com o clima, bem
como as anlises palinolgicas de diversos stios permitiram a reconstituio da
cobertura vegetal antiga e das condies climticas que a determinaram.
     nas regies montanhosas do leste que se pode perceber melhor alteraes
climticas que acompanham as mudanas dos estgios de vegetao. Os
diagramas polnicos das turfeiras de altitude refletem uma sucesso de floras
frias, floras quentes e midas e floras secas, a qual se evidencia sobremaneira no
stio de Kalambo Falls, situado a 1200 m de altitude na Zmbia. J. D. Clark e E.
M. van Zinderen Bakker (1964) descobriram no local uma longa fase seca entre
55.000 B.P. e 10.000 B.P., com duas oscilaes midas por volta de 43.000 B.P.
e 28.000 B.P., e o incio de uma fase mida mais longa por volta de 10.000 B.P.
Durante os perodos ridos a temperatura baixou sensivelmente nas terras altas
ao redor do graben, como J. A. Coetzee e E. M. van Zinderen Bakker (1970)
j haviam assinalado no monte Qunia, onde evidenciaram a "Mount Kenya
glaciation" entre 26.000 B.P. e 14.000 B.P.
622                                                   Metodologia e pr-histria da frica



    J. D. Clark e E. M. van Zinderen Bakker (1962) tambm estudaram a
evoluo da cobertura vegetal na regio de Lunda. Uma floresta aberta seca de
Brachystegia ocupou a regio entre 40.000 B.P. e 10.000 B.P., dando lugar depois
a uma floresta mais cerrada durante a fase mida de 10.000 B.P. a 5000 B.P.
Segundo o estudo palinolgico do stio de Kamoa feito por E. Roche (1975),
em complementao ao estudo geomorfolgico de J. Moeyersons (1975), parece
ter havido um perodo seco do Acheulense Final at 15.000 B.P. Observa-
-se a evoluo progressiva de uma savana estpica para a floresta aberta, e,
posteriormente, a instalao de uma floresta mais densa, com a extenso das
galerias florestais consecutiva  umidificao do clima a partir de 12.000 B.P.
    Segundo M. Streel (1963), as florestas abertas secas e as savanas de Acacia
teriam se estendido grandemente entre 50.000 B.P. e 20.000 B.P. Essa extenso,
que supostamente comeou no Zambeze oriental, teve como efeito o recuo da
floresta densa em direo  bacia. Para P. Duvigneaud (1958), o Shaba pode
ser considerado um cruzamento, onde a vegetao  o reflexo de influncias de
diversas regies: guineo-congolesa, zambeziana e afro-oriental.
    Baseando-se na teoria da mobilidade do equador trmico enunciada por
Milankovitch, A. Schmitz (1971) acredita que um deslocamento de 8o ao sul
durante uma fase quente e mida que estaria situada entre 12.000 e 5000 B.P.
tenha provocado um grande desenvolvimento da floresta densa. Esta se teria
estendido por todo o Zaire e mesmo a parte de Angola, o que  atestado pela
presena de faixas de floresta densa mais seca nas florestas abertas atuais. As
florestas tambm teriam sido mais extensas ao norte, cobrindo a maior parte de
Camares e da Repblica Centro-Africana.
    Durante esse perodo mido, as florestas abertas e as savanas subsistiram
em estaes que lhes eram favorveis, ou seja, nos planaltos e solos pobres. 
bem provvel que os planaltos do Zaire meridional e de Angola jamais tenham
conhecido uma vegetao realmente cerrada, e que tenha sido a partir dessa
regio que a floresta aberta comeou a estender-se novamente quando o clima
voltou a ser seco depois de 5000 B.P. A. Schmitz (1971), no entanto, acredita
que tenha sido fundamentalmente uma ao antrpica que provocou, no ltimo
milnio, o recuo da floresta densa.
    Concluindo, a frica Central conheceu entre 5000 B.P. e 10.000 B.P.
uma longa fase seca contempornea da glaciaco de Wrm, enquanto a fase
mida que se iniciou por volta de 12.000 B.P. corresponderia s oscilaes
climticas que marcaram o incio do Holoceno. Durante esse longo perodo seco,
provavelmente interrompido por uma oscilao mida por volta de 28.000 B.P.,
foram intensos os processos morfodinmicos, e a floresta aberta ganhou maior
Pr-Histria da frica Central                                               623



extenso. No perodo mido do incio do Holoceno, a floresta densa estendeu-
-se sobre a maior parte da frica Central, e seu recuo atual  atribudo  ao
do homem.


    Povoamento da frica Central
    Na ausncia de ossadas humanas, admite-se, de modo geral, que a primeira
manifestao da presena do homem sejam os seixos fraturados, denominados
"seixos lascados". Estes se comparam aos artefatos do Olduvaiense, do stio
epnimo de Olduvai, na Tanznia. Verifica-se a ocorrncia de objetos semelhantes
em quase toda a frica Central: no Zaire na bacia do Kasai e no Shaba, em
Camares, no Gabo, no Congo, na Repblica Centro-Africana e no nordeste
de Angola, onde so encontrados nos aluvies. Mas nem sempre  fcil saber
se esses seixos foram lascados pelo homem ou por agentes naturais. No nos
parece correto (embora o fato seja muito frequente) considerar utenslios todos
os seixos que indubitavelmente apresentam marcas de lascamento intencional,
uma vez que se verifica serem, na maior parte, ncleos de onde foram destacadas
lascas. Estas  que foram empregadas, quer como utenslios para fins diversos,
quer como raspadores.
    Nenhum habitat que remonta a essa poca foi at hoje assinalado. Faltam
tambm artefatos de madeira e de osso, que devem ter representado parte
bastante significativa no conjunto de utenslios. Podemos imaginar que os
seixos lascados foram produzidos pelo Australopithecus ou pelo Homo habilis,
que, segundo observaes feitas em vrios lugares da frica, certamente eram
necrfagos. Entretanto, a vida social deve ter-se organizado a partir desse
momento. Tal perodo da histria do homem iniciou-se h mais de 2 milhes
de anos, prolongando-se at cerca de 500 mil anos atrs.
    Mas foi somente com o instrumental do Acheulense que obtivemos
a primeira prova indiscutvel da presena do homem na frica Central. O
estgio mais antigo, o Acheulense Inferior, s  conhecido na regio de Lunda
(Clark, 1968). O Acheulense Superior, em geral encontrado em meios ridos,
foi descoberto em diferentes pontos da periferia da bacia central; J. D. Clark
descreveu-o em Angola; J. Nenquin, em Ruanda e no Burundi; e R. de Bayle
des Hermens, na Repblica Centro-Africana. Kalambo, na Zmbia, e Kamoa,
no Zaire, constituem os melhores stios de referncia.
    O Acheulense caracterizou-se pelos bifaces e machadinhas, que foram objeto
de inmeras tentativas de classificao morfolgica (Cahen, Martin, 1972).
624                                                     Metodologia e pr-histria da frica



Alguns autores quiseram ver neles uma transformao de um estgio arcaico
para outro mais evoludo e estabeleceram uma sucesso de cinco estgios do
Acheulense (de I a V), porm essas diferenas tipolgicas nem sempre tm grande
significao cronolgica. Como o prprio nome indica, o biface  um artefato
talhado nas duas faces a partir de um seixo ou de uma lasca grande. Caracterizado
por uma ponta mais ou menos saliente, tem base quase sempre arredondada.
Alm do biface, outro instrumento muito caracterstico  a machadinha, que
termina por um gume. Ao lado desses utenslios, encontram-se artefatos menos
caractersticos, tais como triedros, pices, facas, esferoides e outros de pequenas
dimenses. Embora as descobertas do Acheulense sejam abundantes, os stios
onde essa indstria pode ser considerada como estando arqueologicamente em
seu prprio contexto, ou mesmo representada de forma homognea, ainda so
raros. Um dos nicos stios onde o Acheulense foi encontrado em estratigrafia
localiza-se s margens do rio Kamoa, no Shaba (Cahen, 1975). Este stio tem
vrios hectares de extenso. Os caadores-coletores que o habitavam deixaram
no local seus utenslios e os resduos de preparao. Pode-se, ento, deduzir que
se trata de um tipo de oficina-habitat. Em vista da homogeneidade da indstria,
na qual no se distingue evoluo, pode-se pensar ainda numa acumulao de
ocupaes sazonais. A matria-prima era trazida de um lugar a 1,5 km do stio,
onde se encontram enormes ncleos dormentes. As lascas eram transportadas ao
stio onde a debitagem e o acabamento dos utenslios deviam ser realizados. O
Acheulense Evoludo ou Final de Kamoa  anlogo s indstrias encontradas no
Saara e na frica do Sul. A data de 60.000 B.P. proposta deve ser considerada
um terminus ante quem; a data real, em nossa opinio, deve ser muito mais antiga.
    De acordo com descobertas feitas em outras regies da frica, sabemos que
essa indstria deve ser atribuda ao Homo erectus. Esse homindeo devia depender
da caa e da coleta para subsistir. Supe-se que a vida social continuasse a se
desenvolver e que o homem tivesse alcanado o domnio do fogo.


      Evoluo tecnolgica e adaptao
    Aps o Acheulense distinguimos vrias regies cujas indstrias, embora
bastante diferentes, do a impresso de uma certa unidade. Consideremos,
de maneira genrica, uma parte ocidental e uma parte oriental, podendo esta
ltima ser subdividida em duas, embora a falta de dados para o norte e o sul da
referida rea torne as subdivises bastante conjeturais. A parte ocidental, que
se estende de Angola at o Gabo,  a regio mais estudada. Engloba o Baixo
Pr-Histria da frica Central                                                625



Zaire, Kinshasa, a regio de Lunda, o Cuango e o Kasai, isto , o sudeste da
bacia do Zaire. A parte oriental abrange a regio interlacustre e a regio Shaba
 lago Tanganica.
    Na parte ocidental acredita-se reconhecer uma srie de indstrias, usualmente
descritas como uma sucesso tipolgico-cronolgica: o Sangoense, seguido do
Lupembiense, por sua vez seguido do Tshitoliense. O Sangoense representaria
a passagem entre o Acheulense e o Lupembiense e estaria situado no primeiro
perodo intermedirio. O Lupembiense constituiria a Middle Stone Age, enquanto
o Lupembo-Tshitoliense corresponderia ao segundo perodo intermedirio,
indo redundar finalmente no Tshitoliense, contemporneo da Late Stone Age da
frica Oriental e Austral. Como que prolongando a tcnica acheulense, todas
essas indstrias so caracterizadas pelo lascamento bifacial, enquanto a tcnica
levalloisiense raramente aparece.
    A parte oriental da frica Central apresenta uma mistura mais complexa
de indstrias. Estas so comparveis s da parte ocidental mas o lascamento
bifacial no  to abundante. Em contrapartida, as tcnicas de debitagem
denominadas musteriense e levalloisiense so muito desenvolvidas, e as lminas
e lascas laminares, numerosas. Desde o segundo perodo de transio notam-se
mudanas muito profundas, e a tradio interrompe-se definitivamente para dar
lugar s indstrias microlticas, as quais parecem no ter ligao alguma com
as indstrias anteriores. Bem caractersticas, as indstrias de tipo Sangoense e
Lupembiense dessas regies permitem distinguir duas reas diferentes: uma que
abrangeria a parte setentrional, isto , a regio interlacustre, caracterizada por
bifaces foliceos, lanceolados, e punhais; a outra a abranger a parte meridional,
isto , a regio do Shaba e as margens do lago Tanganica, caracterizada pela
ausncia de "pontas" e pela presena de utenslios bifaces de tipo burilou goiva,
que curiosamente quase no aparecem na regio interlacustre. Isso ilustra
bem o absurdo da distino entre indstrias de floresta e de savana. Alis,
nessa poca, nenhuma regio parece ter sido mais arborizada que outra. Ao
contrrio, o clima devia ser nitidamente mais seco do que hoje; foi somente
por volta do fim desse perodo que a floresta ganhou extenso. O stio de
Masango reflete bem o carter das indstrias da regio. Observa-se ali toda
uma gama de pontas bifaces ao lado de elementos grosseiros, tais como pices.
O trao levalloisiense encontra-se muito bem representado (Cahen, Haesaerts,
van Noten, 1972). Uma sequncia de indstrias lticas, do Sangoense  Late
Stone Age, teria sido descoberta em Sanga, mas ainda no foi detalhadamente
estudada (Nenquin, 1958).
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Este quadro apresenta os nomes das indstrias de acordo com os diferentes autores, as dataes por carbono
14 existentes, a evoluo do meio e da flora.


    Examinemos agora a regio ocidental mais de perto. Suas indstrias agrupam
toda a gama de elementos encontrados nas regies orientais, o que lhes confere
uma maior variedade tipolgica, correspondendo melhor  ideia que em geral
se faz do Sangoense e do Lupembiense. Encontram-se pices grosseiros que,
j presentes no Acheulense, persistem ainda at o Tshitoliense. Esse artefato,
considerado o fossile directeur do Sangoense, na realidade no tem significao
cronolgica. Mas encontramos tambm, associado a ele, um instrumental muito
elaborado, com belas pontas de lanas foliceas e longos punhais. Em seguida,
Pr-Histria da frica Central                                                627



vem-se igualmente aparecer pontas de flechas, provando que o homem j havia
descoberto o uso do arco.
    O Homo sapiens parece ter sido o responsvel por tais adaptaes, apesar
de no se ter encontrado at agora restos fsseis pertencentes a essa espcie.
So raros os stios onde se podem encontrar vrios nveis em estratigrafia.
Foi na ponta de Gombe que J. Colette descobriu a primeira sequncia dessas
indstrias da frica Central, fornecendo evidncias de quatro: o Kaliniense, o
Djokociense, o Ndoliense e o Leopoldiense, seguido de traos da Idade do Ferro.
O Primeiro Congresso Pan-Africano de Pr-Histria, realizado em Nairobi em
1947, no considerou os nomes das indstrias definidas por J. Colette e adotou
os termos Sangoense e Lupembiense, que no tinham nenhuma fundamentao
arqueolgica sria. Esses novos nomes entraram para a literatura e foram
empregados indiscriminadamente, no s na frica Central, mas tambm muito
alm de seus limites. A ponta de Gombe, nico stio conhecido onde seria
possvel estabelecer uma cronologia, foi novamente escavada por D. Cahen em
1973 e 1974 (Cahen, 1976) no intuito de precisar e datar a sequncia que J.
Colette havia descoberto. Excluindo algumas peas que evocam o Acheulense, a
sequncia inicia-se com o Kaliniense, caracterizado por pices grosseiros feitos
a partir de seixos ou lascas, raspadores macios, espessos utenslios denticulados
e plainas de grandes dimenses. Encontram-se tambm bifaces lanceolados,
raspadores convergentes, alm de utenslios bifaces ou unifaces estreitos,
com bordos mais ou menos paralelos. A esse conjunto somam-se inmeras
armaduras com gume transversal feitas a partir de lascas (pequenos trinchetes)
e ncleos circulares de tipo musteriense. A debitagem comporta lascas do tipo
levalloisiense e algumas lminas de m qualidade. Os elementos espessos lembram
o Sangoense, e os utenslios finos, o Lupembiense e mesmo o Tshitoliense. O
nvel seguinte, o Djokociense, caracteriza-se principalmente por pontas de flecha
pedunculadas ou foliceas, frequentemente retocadas por presso; a debitagem
 a mesma que no Kaliniense. O Djokociense evoca o Lupembiense Recente
da plancie de Kinshasa (Moorsel, 1968), o Lupembo-Tshitoliense, na verdade
o Tshitoliense Antigo, como foi definido por G. Mortelmans (1962) e J. D.
Clark (1963). O terceiro nvel, o Ndoliense, apresenta-se somente sob a forma
de pequenas concentraes. As pequenas pontas de flecha foliceas so tpicas;
a debitagem bipolar era praticada no prprio local, o que explica a presena de
"peas estilhaadas". Essa indstria  similar ao Tshitoliense Tardio (Moorsel,
1968; Cahen, Mortelmans, 1973).
    Uma das datas obtidas para o Kaliniense coincide com a idade estimada
para o Sangoense (Clark, 1969, 236), e, uma outra, com as fases antigas do
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Lupembiense (Clark, 1963, 18-19; Moorsel, 1968, 221). As datas estimadas
para as amostras do nvel Djokociense no diferem das que foram calculadas em
outros lugares para indstrias anlogas. Entre as datas associadas ao Ndoliense,
uma delas corresponde s do Tshitoliense Tardio, obtidas anteriormente na
plancie de Kinshasa e na regio de Lunda.
    De maneira geral, pode-se dizer que as indstrias encontradas em
estratigrafia em Lunda, em Gombe e na plancie de Kinshasa so comparveis
tipologicamente e coincidem cronologicamente. O Sangoense -Lupembiense
Inferior estaria situado entre 45.000 e 26.000 B.P., o Lupembiense Inferior iria
de 10.000 a 7000 B.P., e o Tshitoliense Superior, de 6000 a 4000 ou 3500 B.P.
(cf. quadro).
    Uma trincheira de prospeco escavada por P. de Maret na gruta de Dimba
mostrou uma sucesso de quinze camadas arqueolgicas e uma data de 20.000 650
B.P. para uma indstria do tipo Lupembiense Superior ou Lupembo-Tshitoliense.
Parece que uma data aproximada de 25.000 B.P. reduziria o hiato existente nas
dataes entre 27.000 B.P. e 15.000 B.P. assinalado por D. Cahen (1977).
    A gruta de Hau, nico stio que talvez se encontrasse na floresta
equatorial durante sua ocupao e onde F. van Noten descobriu uma indstria
"Lupembiense" seguida de uma "Late Stone Age", no produziu dataes de
radiocarbono aceitveis.
    J. P. Emphoux (1970) escavou em 1966 a gruta de Bitorri, l encontrando
vinte nveis de ocupao da Idade da Pedra. Um dos nveis forneceu uma data
por radiocarbono de 3930 200 B.P., e um outro, inferior, uma data de 4030
200 B.P. O material ltico, que no evoluiu de um nvel a outro, pode ser
considerado como formando uma unidade tipo lgica, cuja indstria lembra o
Tshitoliense Superior. O mesmo pesquisador datou de 6600 130 B.P. um nvel
Tshitoliense Mdio em Moussanda (Delibrias et al., 1974, p. 47).
    No Gabo, indstrias ditas lupembienses foram vrias vezes assinaladas
(Blankoff, 1965; Hadjigeorgiou, Pommeret, 1965; Farine, 1965).


      Caadorescoletores especializados
   Em um dado momento, provavelmente entre 50.000 B.P. e 40.000 B.P.,
surgem os micrlitos geomtricos: segmentos de crculo, tringulos, retngulos
e trapzios. Os mais caractersticos parecem ser os segmentos, ainda que na
frica do Sul tenham sido encontrados no final da Middle Stone Age, quando
Pr-Histria da frica Central                                                629



provavelmente eram empregados como farpas na base de pontas de lanas1. Por
outro lado, na Late Stone Age, esses micrlitos, isolados, serviam como armaduras
de flechas, de lanas, de arpes, de facas ou de buris.
    Como para o perodo anterior, a regio estudada pode ser dividida em duas
zonas distintas. Na parte ocidental, que abrange o norte de Angola, o Kasai, o
Cuango, o Baixo Zaire e a Repblica Popular do Congo, observa-se a persistncia
da tradio dita lupembiense, como se o Lupembiense, evoluindo no prprio
local, tivesse originado o Tshitoliense. Os micrlitos geomtricos tornam-se
numerosos, mas no dominam da mesma forma que na parte oriental, onde
representam o elemento essencial do conjunto de utenslios. S. Miller (1972), que
analisou o Tshitoliense e resumiu os trabalhos anteriores, definiu essa indstria
pela presena de utenslios bifaciais do tipo pico-buris, de pontas foliceas,
de pontas pedunculadas, de pequenos trinchetes e de micrlitos geomtricos.
A regio de Lunda teria fornecido uma indstria que reagrupava todos esses
elementos, ainda que geralmente representados de maneira incompleta nos
diferentes stios. Distingue-se, assim, uma fcies de vale com abundncia de
pequenos trinchetes, como em Dinga, e uma fcies de planalto, onde a armadura
era constituda principalmente de pontas pedunculadas (Bequaert, 1952). Um
stio do Planalto de Bateke, onde G. Mortelmans realizou uma escavao de
salvamento em 1959 (Cahen, Mortelmans, 1975), produziu uma indstria dita
"completa", como a descrita na regio de Lunda. O arenito polimorfo, que foi
praticamente o nico material utilizado no instrumental descoberto, provm
de depsitos dos quais os mais prximos esto a cerca de 10 km do stio. Essa
indstria caracteriza-se por uma grande proporo de lascas e de resduos de
lascamento (96,1%), alguns ncleos (1,4%) e alguns instrumentos (2,4%). Ao lado
de pontas de flecha foliceas e pedunculadas, foi encontrado um grande nmero
de micrlitos geomtricos e uma grande lasca com gume polido. A maioria dos
ncleos  do tipo circular ou lamelar; h tambm numerosos ncleos pequenos,
totalmente gastos. A debitagem, nos casos em que a massa  composta dos
resduos de retoque, apresenta algumas lascas levalloisienses, lminas e lamelas.
A esto as caractersticas de um Tshitoliense Tardio. Este stio parece ter sido
um acampamento de caa, pois, embora o planalto Bateke seja nitidamente
estpico,  recortado por galerias florestais, que devem ter atrado o homem
pr-histrico  procura de caa. Se a matria-prima utilizada era para l levada,
muitos utenslios devem ter sido talhados no prprio local, sendo possvel que o


1    CARTER, F. Comunicao pessoal.
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ltex e o copal encontrados em escavao tenham servido como massa para fixar
os micrlitos s hastes das lanas e s flechas. Os raspadores, buris e machados
certamente eram usados para a fabricao dos utenslios compsitos, nos quais
se empregavam gumes transversais e pontas de flechas pedunculadas bifaces.
    A regio de Lunda, estudada por J. D. Clark, apresentou um Tshitoliense
que estaria situado entre 13.000 e 4500 B.P. (Clark, 1963, 18-19), mas essa
indstria teria continuado at o incio da Era Crist (Clark, 1968, 125-149). O
Tshitoliense da plancie de Kinshasa, por sua vez, estaria localizado entre 9700
e 5700 B.P. (Moorsel, 1968, p. 221).
    Pode-se aqui perguntar a que correspondem as fcies reconhecidas no
Tshitoliense. Tratar-se-ia de adaptaes a meios variados e, por exemplo, de uma
especializao das tcnicas de caa, ou seriam diferenas unicamente "culturais"?
    Na parte oriental, na periferia da floresta equatorial, da Repblica Centro-
-Africana ao Shaba, encontram-se as indstrias ditas da Late Stone Age. As
indstrias mais antigas no so tipologicamente diversificadas, pois s mais tarde
surgiu um instrumental mais especializado.  o que se observou na gruta de
Matupi, onde duas estaes de escavaes sucessivas, em 1973 e 1974, revelaram
vestgios de uma longa ocupao humana, iniciada bem antes de 40.000 B.P.,
e continuando sem interrupo perceptvel at 3000 B.P. (van Noten, 1977). O
material por ora estudado provm de um nico metro quadrado, que forneceu
8045 artefatos; foi lascado quase exclusivamente sobre quartzo por um processo
caracterstico das indstrias puramente microlticas: a tcnica bipolar. Os
resduos de lascamento representam 90%; o instrumental propriamente dito,
apenas 5,4%, a que se devem acrescentar as peas que apresentam traos de
utilizao sem, entretanto, serem instrumentos acabados, e que representam
5%. A indstria  tipicamente microltica  o comprimento mximo das lascas
atinge cerca de 17,7 mm. Todo o instrumental propriamente dito consiste, em
ordem de ocorrncia, em peas entalhadas, raspadores, furadores, buris, lascas
e lamelas com bordo desbastado, lascas retocadas, peas quebradas e alguns
micrlitos geomtricos (segmentos, semicrculos, tringulos). O instrumental
macroltico, feito de quartzito, arenito ou xisto, consiste em ms, moedores,
bigornas, percutores, raspadores cncavos e alguns buris. Um fragmento de pedra
furada e decorada com incises foi datado de cerca de 20.000 B.P.2 Os restos
sseos da fauna esto bem conservados; indicariam um meio ambiente mais seco
que o atual. Os ocupantes da gruta caavam, em ordem decrescente, bovdeos

2     Conhecidas tambm sob o nome de Kw, as pedras perfuradas que fazem parte das indstrias da Late
      Stone Age eram provavelmente empregadas como lastros de bastes usados para escavar.
Pr-Histria da frica Central                                                631



(antlopes e bfalos), dames, roedores (principalmente Thryonomyidea), sunos
e, em menor proporo, cercopitecdeos e porcos-espinhos. Essa caverna, que
hoje se encontra na floresta equatorial, devia situar-se em savana durante
quase toda sua ocupao, mas no longe de florestas-galerias, como indicam as
anlises palinolgicas. Foi ocupada sem interrupo, enquanto a indstria muito
pouco caracterstica do incio se transformava em uma outra, mais clssica, que
forneceu micrlitos geomtricos, raros utenslios em osso, hematita vermelha,
empregada como corante, e rodelas perfuradas de casca de ovo de avestruz.
Em vista da pobreza de utenslios que pudessem servir como instrumentos ou
armas, sobretudo nas camadas antigas, acreditamos que o instrumental deva ter
sido, em grande parte, de madeira, como observamos em Gwisho (Fagan, van
Noten, 1972).
    As escavaes feitas por J. de Heinzelin, em 1950, em Ishango, revelaram
trs indstrias microlticas (Heinzelin, 1957). A mais antiga no apresenta
micrlitos geomtricos; a seguinte os mostra em grande quantidade, e, na mais
recente, eles so abundantes. O carter tipolgico , em geral, muito rudimentar;
a debitagem associa todas as tcnicas e deixa-se guiar pela natureza do quartzo
de m qualidade utilizado como matria-prima. Esses elementos lembram
incontestavelmente a evoluo observada em Matupi. Ishango forneceu uma
srie de arpes, que devem ter sido empregados na caa e pesca e que mostram
uma ntida evoluo, variando entre exemplares de duas fileiras de farpas, nas
camadas inferiores, e outros de uma s fileira, em nveis mais recentes. Uma das
descobertas mais .espetaculares  um bastonete de osso decorado com estrias
e que serve de cabo para uma lasca de quartzo. A data atribuda  indstria de
Ishango foi de 21.000 500 B.P., que pareceu muito antiga  poca da publicao
da monografia do stio; contudo, em vista das dataes obtidas em Matupi,
esse resultado parece atualmente muito menos improvvel. Os habitantes de
Ishango viviam da pesca e da caa, sobretudo da caa do hipoptamo e do
topi, alm de outros mamferos, muitos dos quais esto hoje desaparecidos. Os
pssaros tambm eram caados. Entre os peixes, encontram-se principalmente os
silurdeos, os cicldeos e os protopterdeos. Os restos humanos, descobertos entre
os resduos de cozinha, foram estudados por F. Twiesselmann (1958); mostram
que o stio era habitado por uma populao cujas caractersticas biomtricas
atpicas e rudes no apresentam nenhum vnculo direto com qualquer outra
populao moderna.
    Ao lado dessas indstrias puramente microlticas, surgem na regio
interlacustre, no Shaba e nas margens do lago Tanganica, indstrias
tipologicamente intermedirias entre um microltico puro e as indstrias tpicas
632                                                     Metodologia e pr-histria da frica



da parte ocidental da frica Central. Alis,  possvel pensar que, por seu carter
heterclito, essas indstrias representem um prolongamento da tradio da
Middle Stone Age acima descrita. J. Nenquin deve ter inventado o nome de
"Wilton/Tshitoliense" para descrever a Late Stone Age em Ruanda e no Burundi
(Nenquin, 1967), onde infelizmente muito poucos stios foram datados. Estima-
-se em 15.000--12.000 B.P. a idade da indstria de transio de Kamoa, que pode
ser comparada ao Lupembo-Tshitoliense da parte ocidental. No mesmo stio, a
Late Stone Age, que  pobre e pouco caracterstica,  datada de aproximadamente
6000 a 2000 B.P. (Cahen, 1975). Parece, portanto, que diferentes tradies
puderam subsistir durante muito tempo lado a lado; e, efetivamente, junto a
indstrias de carter misto, encontram-se outras puramente microlticas, como
em Mukinanira (van Noten, Hiernaux, 1967) e nos lagos Mokoto (van Noten,
1968-a).
    Na frica Central ainda no foi encontrado um stio de riqueza excepcional,
que permitisse a reconstituio detalhada do modo de vida desses caadores cuja
existncia devia ser comparvel  que ainda hoje levam os San no Calaari. O stio
de Gwisho, na Zmbia, d uma ideia bastante completa de como era a vida na
Late Stone Age no V milnio B.P. Ao lado de utenslios polidos, foi encontrada
- acontecimento excepcional  uma grande quantidade de objetos de madeira e
de osso, que provam a importncia do trabalho da madeira mesmo em savana
aberta (Fagan, van Noten, 1972).


      Fim das idades da pedra
    A abundncia de utenslios polidos em certas regies fez com que fossem
eles considerados o indcio de um neoltico; mas vimos que tais instrumentos
so encontrados desde a Late Stone Age e que eram fabricados e utilizados ainda
no sculo XIX na regio do Uele (van Noten, 1968). Assim sendo, a descoberta
de utenslios polidos fora de qualquer contexto arqueolgico no tem grande
significao. Entretanto a distribuio dos vestgios apresenta certo interesse,
pois esses objetos foram assinalados apenas na bacia central. No leste, tais
descobertas so extremamente raras; quando muito, conhecem-se no Burundi
dois machados polidos e uma gruta com polidores (van Noten, 1969; Cahen,
van Noten, 1970). O nmero de descobertas cresce um pouco em direo ao
sudeste, onde alguns machados polidos e polidores so assinalados no Shaba,
enquanto no Kasai, embora ainda se encontrem polidores, os utenslios polidos
praticamente inexistem (Celis, 1972).
Pr-Histria da frica Central                                               633



    Por outro lado, esses elementos representam o essencial das descobertas
arqueolgicas realizadas ao norte da grande floresta. Na bacia do Uele e at
Ituri, mais de 400 utenslios foram recolhidos, inclusive alguns esplndidos
machados de hematita cuidadosamente polidos e inmeros polidores. At agora
um s mapa da distribuio desses utenslios pde ser levantado (van Noten,
1968). Ao menos parcialmente, o "Neoltico Uelense" no remontaria alm do
sculo XVII, pertencendo, portanto,  Idade do Ferro, como parecem indicar as
escavaes feitas em Buru (F. e E. van Noten, 1974).
    Mais a oeste, na regio onde o Ubangui penetra na floresta, observou-se uma
outra concentrao de machados polidos. Muito menos trabalhados que os do
Uele, em geral so polidos apenas parcialmente. Uma prospeco empreendida
nessas regies no permitiu que se descobrissem semelhantes utenslios em
contexto arqueolgico. Mas do outro lado do rio, em Batalimo, na Repblica
Centro-Africana, R. de Bayle (1975) encontrou pela primeira vez em escavao
um machado com gume polido associado a uma indstria no-microltica e a
cermica. Esta ltima apresenta um fundo plano e com frequncia  inteiramente
decorada, combinando caneluras, incises e impresses, feitas principalmente
com um pente. Datada por termoluminescncia, essa cermica no seria anterior
ao sculo IV da Era Crist, o que parece bem recente para uma tal indstria.
Embora se tenham recolhido isoladamente outros machados polidos em
diversos pontos da Repblica Centro-Africana, no existe, que seja do nosso
conhecimento, um s polidor nessas regies.
    Antes de abordar a ltima zona de concentrao,  preciso assinalar que na
ilha de Fernando P, nos Camares, machados polidos associados a cermica
foram datados do sculo VII (Martin dei Molino, 1965) e permaneceram em
uso at poca recente.
    A ltima zona estende-se paralelamente  costa atlntica, do Gabo at o
noroeste de Angola. Os utenslios "neolticos" encontrados nessa imensa rea
so geralmente lascados, sendo apenas o gume polido.
    No Gabo, os machados apresentam bordos sinuosos formando um encaixe
caracterstico (Pommeret, 1966). Um pote, descoberto por ocasio de trabalhos
de grande escala, continha um fragmento de utenslio polido e de carvo vegetal
que, infelizmente, no foi datado (Pommeret, 1965). Na Repblica Popular
do Congo, bem como em Angola (Martins, 1976), conhecem-se apenas
descobertas de superfcie. Em contrapartida, na ponta de Gombe, J. Colette
encontrou um machado polido aparentemente associado a cermica de fundo
plano (Bequaert, 1938); criou o termo "neoltico leopoldiense", que passou a ser
usado para designar inmeros machados polidos encontrados no Baixo Zaire.
634                                                   Metodologia e pr-histria da frica



Mortelmans (1959) recolheu em superfcie, no Congo dia Vanga, machados
polidos, quartzos lascados atpicos e uma cermica rudimentar de fundo plano.
A mesma cermica  encontrada nas grutas de Ntadi-ntadi, Dimba e Ngovo,
associada, nesses dois ltimos stios, a machados polidos. Por quatro vezes o
carvo vegetal das proximidades foi datado de dois sculos antes da Era Crist
(Maret, 1977-a). Infelizmente, trata-se de sondagens muito limitadas para que
se possa excluir definitivamente a possibilidade de atribuio desses vestgios
 Idade do Ferro, visto que novas escavaes mostram que o Leopoldiense
da ponta de Gombe talvez avance pela Idade do Ferro (Cahen, 1976). Mas
como esse stio sofreu grandes perturbaes,  possvel tratar-se de uma simples
contaminao dos horizontes superiores.
    Em Dimba e Ngovo, nico stio onde as ossadas se conservaram, a anlise
da fauna associada no revelou at agora a presena de animais domsticos. Na
ausncia de outros dados socioeconmicos,  prematuro admitir um verdadeiro
neoltico cujos responsveis houvessem empregado utenslios polidos e cermica
e criado gado ou praticado a agricultura. O mesmo acontece com todas as outras
indstrias de aspecto neoltico coletadas at o momento na frica Central; no
lhes conhecemos nem os utilizadores, nem a poca, nem o sistema econmico.
Entretanto, lanou-se recentemente a hiptese de que alguns dos vestgios em
questo pertenceriam a um estgio final da Idade da Pedra, a que corresponderiam
talvez as primeiras etapas da expanso das populaes de lngua bantu, por volta
do ltimo milnio antes da Era Crist, isto , antes de adquirirem o domnio do
ferro (Phillipson, 1976; Maret, 1977-b; van Noten, 1978).
    Devemos tambm mencionar aqui os meglitos descobertos na regio
de Buar; remontariam ao V ou I milnio antes da Era Crist, podendo, no
entanto, tratar-se de um caso de reutilizao (Bayle des Hermens, 1975). Por
suas dimenses, esses monumentos parecem ser obra de populaes sedentrias,
que, supe-se, tinham ultrapassado o estgio da caa e da coleta. Queremos
notar que os pavimentos megalticos de Api constituem um fenmeno natural
e, de modo algum, trabalho humano (van Noten, 1973), como  o caso de todas
as outras construes consideradas meglitos conhecidas at hoje no Zaire.


      Sequncia idealizada?
   Por ocasio do Congresso Pan-Africano em Dacar em 1967, J. D. Clark
tentou estabelecer uma sequncia na nomenclatura da bacia do Zaire (Clark,
1971). Retraando o histrico das diferentes nomenclaturas utilizadas para
Pr-Histria da frica Central                                               635



designar as indstrias ps-acheulenses da regio aqui estudada, D. Cahen
mostrou claramente que se trata de um extraordinrio imbrglio (Cahen, 1977).
   As recentes escavaes feitas em Gombe permitiram restabelecer e datar
a sequncia arqueolgica definida por J. Colette. Mas as associaes entre as
peas provenientes de diferentes profundidades mostram que o stio sofreu
muitas perturbaes e que as indstrias no so homogneas (Cahen, 1976).
Os objetos movimentaram-se no solo, como confirmaram as experincias em
laboratrio (Moeyersons, 1977). Portanto,  possvel que fenmenos similares
tenham ocorrido em outros stios onde os vestgios arqueolgicos foram
depositados em areias Calaari revolvidas, como no nordeste de Angola, no
Baixo Zaire, no Kasai, no Shaba e no Congo (Cahen, Moeyersons, 1977).
Entretanto, no se sabe em que proporo as diferentes indstrias foram
afetadas por essas perturbaes. Por outro lado, observa-se uma convergncia
tipolgica e cronolgica impressionante entre os diferentes stios pr-
-histricos da bacia meridional do Zaire, e em menor escala, na da frica
Central. D. Cahen (1977) props reagrupar esses conjuntos pr-histricos
convergentes em um nico complexo industrial ps -Acheulense da frica
Central, que se fosse reduzindo em abrangncia at limitar-se ao sudoeste
da bacia do Zaire. Alm disso, o mesmo autor considera que termos como
Sangoense, Lupembiense e Tshitoliense no correspondem a nenhuma
realidade cientificamente estabelecida. Entretanto, como tentamos demonstrar
neste captulo, parece-nos possvel, aps o Acheulense, distinguir variantes
regionais nas indstrias lticas e seguir sua evoluo. Por mais esquemticas e
discutveis que sejam, essas distines refletem uma certa realidade, a qual, sem
dvida, parece agora muito mais complexa do que inicialmente se supunha. 
aperfeioando nossa taxonomia com base em novas escavaes que chegaremos
a compreender melhor a extraordinria diversidade apresentada pela frica
Central no decorrer das Idades da Pedra. A nomenclatura existente pode, em
nossa opinio, ser mantida como um instrumento de trabalho provisrio.


    Concluso
    O passado da frica Central  ainda pouco conhecido, pois s recentemente
passou a ser estudado de maneira sistemtica; mas a arqueologia j registra seus
primeiros resultados. Assim, no espao de alguns anos, o nmero de dataes
por carbono 14 quase quintuplicou (Maret, van Noten, Cahen, 1977) e puderam
ser esboadas as primeiras snteses (van Noten, em preparao).
636                                                    Metodologia e pr-histria da frica



    O objetivo primordial das novas pesquisas era efetuar uma srie de escavaes,
abrangendo regies e perodos diferentes, a fim de chegar, em prazo razovel, ao
estabelecimento de um quadro cronoestratigrfico geral para a frica Central.
Esse projeto ambicioso deve ser provisoriamente relegado a segundo plano: um
stio-chave, como o de Gombe, colocou em questo no s as nomenclaturas
existentes, mas tambm a validade das observaes estratigrficas; outros
stios, como Matupi, forneceram novas indstrias cujas dataes questionaram
sua insero num amplo quadro onde "indstrias" e "culturas" encontrariam
definitivamente seu "lugar".
    Parece cada vez mais claro que a cada descoberta de novos stios sempre se
encontra algo de original e inesperado. Isso vem em acordo com uma de nossas
hipteses de trabalho, que previa uma diversidade muito grande em cada uma
das "indstrias" ou "culturas". O homem, frente a um microambiente especfico,
teve que adaptar seu instrumental a esse meio. Comprazemo-nos a imagin-
-lo, nos limites de seu territrio, a levar uma vida mais sedentria que a vida
de nomadismo absoluto atribuda com demasiada frequncia aos caadores-
-coletores. Longe de perseguir infatigavelmente a caa, essas populaes devem
ter desenvolvido uma cultura prpria, sntese harmoniosa entre o meio ambiente
e as tradies ancestrais. No acreditamos em um determinismo absoluto
do meio. Uma vez estabelecido o equilbrio ecolgico, o instrumental pode
permanecer imutvel por longos perodos. Nesse caso, responde plenamente s
exigncias do meio e de seus habitantes; enquanto esse delicado equilbrio foi
mantido, nada houve que impeliu o homem a evoluir rapidamente.
Pr-Histria da frica do Norte                                           637



                                  CAPTULO 22


             Pr-Histria da frica do Norte
                                     L. Balout




   Prximos  Europa e mediterrneos pela costa martima setentrional, os
pases do Magreb foram percorridos h mais de um sculo pelos primeiros
pesquisadores interessados em sua pr-histria. Assim, acumulou-se uma
bibliografia abundante de valor altamente varivel, que foi mais tarde selecionada
e classificada (1952-1955-1974). Mas a pesquisa pr-histrica dessa parte do
norte da frica no conservou a dianteira que obteve durante muito tempo;
apresenta, ao contrrio, certo atraso em dois aspectos essenciais: nos mtodos de
escavao, com excees muito raras, e na cronologia absoluta, essencialmente
limitada s possibilidades do radiocarbono. Nesses aspectos, a frica oriental
realizou um progresso infinitamente maior.
   Pela falta de fsseis humanos do Pleistoceno Inferior, de datas obtidas
pelo mtodo do potssio-argnio (K/Ar) e de solos de ocupao paleoltico,
atualmente s  possvel avaliar a antiguidade da implantao de homindeos
no Magreb e no Saara por correlaes hipotticas sobre a fauna e a tipologia
das indstrias lticas.
   Por falta tambm de estratigrafias suficientemente extensas e numerosas,
tem sido difcil estabelecer a continuidade da ocupao humana, alis bastante
provvel. As jazidas essenciais encontram-se isoladas tanto no tempo quanto
no espao: Ternifine (atlantropo) na Arglia, por exemplo. Aguardam ainda em
grande parte uma soluo os problemas do Musteriense, de suas relaes com
638                                                     Metodologia e pr-histria da frica



o Ateriense, do homem desta ltima civilizao, da passagem do Ateriense ao
Iberomaurusiense, da estratigrafia do Capsiense, dos estgios de neolitizao.
A pesquisa pr-histrica forneceu dados importantes ao conhecimento do
Quaternrio no que diz respeito  estratigrafia e  paleontologia. Permitiu o
estabelecimento de uma tipologia cujo alcance ultrapassa os limites do Magreb.
Deve adotar de agora em diante uma ptica paleoetnolgica: passar do "homem
e seu meio" ao "homem em seu meio".


      As mais antigas indstrias humanas: o "PrAcheulense"
    No h falta de testemunhos, mas qualquer interpretao alm da tipolgica
 delicada. Baseia-se na estratigrafia do Quaternrio litoral do Marrocos
(Biberson), na paleontologia animal da Arglia (Ain Hanech, perto de Stif,
escavaes feitas por C. Arambourg) e da Tunsia (Ain Brimba, perto de Kebili),
e unicamente na tipologia do Saara (Reggan, In Afaleleh, etc.). Ligaes mais ou
menos frgeis podem ser estabelecidas entre as jazidas da Tanznia, do Qunia
e da Etipia. Dizemos frgeis porque somente o litoral atlntico do Marrocos
permitiu o estabelecimento de uma evoluo dos "seixos lascados" nas bases
utilizadas por P. Biberson e que so parcialmente contestadas; porque a fauna
no  necessariamente contempornea; porque h presena arqueolgica de um
lado e estrutura arqueolgica de outro; porque os mtodos de anlise tipolgica
so diferentes na frica "de lngua francesa" e de "lngua inglesa", etc.
    Atualmente no parece verossmil que a presena de homindeos no Magreb
e no Saara seja to antiga quanto na frica oriental e meridional. Ainda no
foram identificadas as indstrias sobre lascas que precederam os seixos lascados.
No h traos de uma osteodontokeratic culture, nem restos de australopitecos.
Entretanto, acreditamos que os seixos lascados do Marrocos, da Arglia e do
Saara faam parte de uma cronologia paralela  de Olduvai, isto , entre 2 e 1
milho de anos (2,5 milhes se considerarmos o seixo com lascamento bifacial
do Omo).
    As investigaes concentraram -se, sem dvida, numa correlao
cronoestratigrafia/evoluo tipolgica, que resultou no estabelecimento de listas
tipolgicas com implicaes cronolgicas testadas pelo trabalho de P. Biberson no
Marrocos, H. Hugot e L. Ramendo no Saara central, H. Alimen e J. Chavaillon
no Saara ocidental. A anlise  baseada nas caractersticas tcnicas cuja repetio
criou formas sistemticas. A classificao procede do simples ao complexo 
lascamento unifacial, bifacial, polidrico  e corresponde, provavelmente, a uma
Pr-Histria da frica do Norte                                                               639




Figura 22.1 Evoluo da Pebble Culture para as formas do Acheulense: os nmeros e figuras referem-
-se  classificao tipolgica usada para o Pr-Acheulense africano  H = machado (Foto M. Bovis).
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sequncia cronolgica. P. Biberson e J. Chavaillon edificaram sistemas de aspecto
regional, respectivamente nas praias quaternrias do Marrocos atlntico e nos
terrenos de Saura. Foi baseando-se na paleontologia que os "esferoides facetados"
do Ain Hanech foram situados na evoluo da fauna do Villafranchiano,
conhecida no Marrocos (Fouarat), na Arglia (Ain Boucherit, Ain Hanech) e
na Tunsia (lago Ischkeul, Ain Brimba).
    Aps essas consideraes, apoiamo -nos em uma estratigrafia do
Villafranchiano baseada em grande parte na paleontologia animal. Nesta srie
aparecem as indstrias humanas, e a evoluo em direo aos bifaces e machados
do Paleoltico Inferior Clssico pode ser provada; mas no h em parte alguma
estrutura arqueolgica e, portanto, nenhum quadro paleoetnolgico, como na
Tanznia (Olduvai), no Qunia e na Etipia.


      As indstrias acheulenses
   Desde o Simpsio de Burg Wartenstein (1965) e o Congresso Pan-Africano
de Pr-Histria em Dacar (1967), agrupa-se sob o termo "Acheulense africano"
todo o Paleoltico Inferior que, na Europa ocidental, corresponde ao Abbeviliense
e ao Acheulense, e tambm ao "Clactoniense" e ao "Levalloisiense", ambos muito
discutidos.
   O Acheulense  abundante no Magreb e, excluindo as estaes de superfcie,
apresenta-se em trs tipos de jazidas bastante particulares:
        a)   As jazidas relacionadas ao Quaternrio litoral, continental e at mesmo
             marinho.  o caso do Marrocos atlntico, onde P. Biberson pde propor
             uma sequncia acheulense partindo dos seixos lascados da Pebble Culture do
             Pr-Acheulense e chegando ao Paleoltico Mdio (Ateriense). Por razes
             relacionadas  geomorfologia do litoral, a Arglia no foi to favorecida.
             Entretanto, foram assinaladas "jazidas" na costa kabyle (Djidjelli) e perto
             de Annaba (Bne). No conheo nenhuma jazida acheulense desse tipo no
             litoral tunisiano.
        b)   As jazidas de aluvies fluviais ou lacustres. As primeiras so infinitamente
             mais raras e pobres que as da Europa, e as relaes estratigrficas e
             paleontolgicas so, na maioria das vezes, muito imprecisas.  o caso de
             vrios stios marroquinos (Uede Mellah) e argelinos: Ouzidane (perto de
             Tlemcen), Champlain (perto de Mda), Tamda (Uede Sebaou), Mansura
             (Constantina), Clairfontaine (norte de Tebessa), S'Baikid e sobretudo El-Ma
Pr-Histria da frica do Norte                                                                     641




Figura 22.2 Biface Acheulense  o mais evoludo da jazida de Ternifine (Arglia ocidental. Escavaes C.
Arambourg, 1954  Desenho M. Dauvois).
642                                                       Metodologia e pr-histria da frica



           El-Abiod (sul de Tebessa). Na Tunsia h o Acheulense de Redeyef (Gafsa).
           Vamos apenas mencionar as jazidas de margens de lagos, to extraordinrias
           na frica oriental (por exemplo, Olorgesailie, no Qunia). H o lago Karar
           (Tlemcen), onde se encontram escavaes muito antigas e mal dirigidas por
           M. Boulle, e Abuquir (Mostaganem), ainda menos conhecida. Um nico
           stio emerge desta impreciso, o de Sidi Zin (Le Kef, Tunsia), onde uma
           camada contendo machados foi encontrada entre duas outras de bifaces, sem
           machados. Por outro lado, o Acheulense ligado s jazidas lacustres aparece
           com bastante frequncia desde a Mauritnia at a Lbia.
      c)   As jazidas relacionadas s antigas fontes artesianas, que parecem ter atrado
           os homens do Acheulense ao Ateriense. A princpio,  o caso de Tit Mellil
           (Casablanca) e de Ain Fritissa (sul de Ujda) no Marrocos; do j citado
           "lago Karar" na Arglia, e de Chetma (Biskra), sobre o qual no se tem
           quase informaes, e principalmente de Ternifine (Mascara). Apenas
           esta ltima foi objeto de escavaes recentes (1954-1956) e sistemticas,
           confiadas ao professor C. Arambourg pela Arglia. Todavia, no devemos
           alimentar muitas iluses: a indstria  extremamente interessante, a fauna
            de uma riqueza prodigiosa e foi a que se descobriu o atlantropo; mas a
           estratigrafia desta notvel jazida apresenta problemas, o que deixa em aberto
           o elenco cronolgico no qual se insere o conjunto de documentos. Talvez a
           prpria natureza do stio, com areias constantemente revolvidas pelas fontes
           artesianas, tenha impedido o estabelecimento de uma cronoestratigrafia.
           Isto porm no foi demonstrado. O estudo dos utenslios parece provar que
           no se trata de oficinas de lascamento, mas sim de locais onde se faziam
           emboscadas  caa.
    O Acheulense do Magreb e o do Saara no diferem fundamentalmente
daquele que foi definido na Frana. Os mtodos de anlise (Bordes, 1961 e
Balout, 1967) no indicam nenhuma diferena bsica entre os bifaces. O mesmo
acontece com os triedros. A existncia de lascas e de uma pequena indstria
em Ternifine, por exemplo, no nos surpreende. A utilizao do percutor
mole apareceu mais ou menos no fim do Acheulense Antigo (lascamento ou
relascamento): uma nica pea foi encontrada em Ternifine (biface). V-se
tambm aparecer o "golpe de trinchete" no desprendimento da extremidade
distal dos triedros. O trao mais original, assinalado j h muito tempo,  a
importncia dos machados sobre lasca.  a que se pode sugerir a existncia
de um utenslio (espcie de machado) estritamente africano. Na verdade, no
se apresenta sempre no Acheulense da frica ( desconhecido no admirvel
Pr-Histria da frica do Norte                                                                    643




Figura 22.3    Machados de riolito do Acheulense encontrados no stio de Erg Tihodaine (Foto M. Bovis).
Figura 22.4    Ponta do Musteriense, El-Guettar (Tunsia. Escavaes Dr. Gruet. Foto M. Bovis).
Figura 22.5 "Esferoides facetados" de Ain Hanech (Foto M. Bovis).
644                                                     Metodologia e pr-histria da frica



conjunto de El-Ma El-Abiod, na Arglia, para citar um nico exemplo); por
outro lado,  encontrado desde o Oriente Prximo at a pennsula indiana. Sua
presena na Espanha (Rio Manzanares, perto de Madri) e a passagem pelos
Pirineus levaram H. Alimen a reconsiderar, recentemente (1975), o problema da
travessia do estreito de Gibraltar bem antes da navegao neoltica. Concluiu-se
pela existncia de uma ligao atravs do fundo alto e raso do estreito que se
tornou transitvel no decorrer das regresses de Riss.
    Deve-se a J. Tixier a anlise tipolgica mais pertinente dos machados do
Magreb. Duas constataes so de importncia capital. A primeira  a apario
de mtodo de corte "Levallois" desde o Acheulense Antigo, que resultar
na inacreditvel estandardizao dos machados Tabelbala-Tachenghit (Saara
argelino ocidental). A segunda  a tcnica da "lasca-ncleo", que permite obter
lascas de duas faces de debitagem opostas, determinando um gume perfeito
em todo o contorno (tcnica de Kombema na frica meridional). Teriam
esses mtodos to elaborados sido transmitidos pela frica  Europa, onde a
primeira desempenhou um papel pelo menos significativo antes do Paleoltico
Mdio?
    A definio do Acheulense sempre foi de ordem arqueolgica. As
indstrias associadas aos bifaces abrangem duas glaciaes (Mindel- Riss),
a interglaciria que as separa e os interestdios que as subdivide. P. Biberson
tentou estabelecer um paralelismo com as transgresses e regresses marinhas:
Amiriense = Mindel; Anfatiense = Riss; Tensiftiense = Riss. Essas correlaes
so sempre hipotticas. Um prolongamento na interglaciria Riss-Wrm 
perfeitamente plausvel.
    Por falta de dataes absolutas, devemos apoiar nossas teorias na paleontologia.
A fauna perde seus componentes oriundos do Villafranchiano Superior e torna-
-se a "grande fauna chadiano-zambeziana", como a qualificava C. Arambourg.
Ainda no conhecemos nada a respeito nem da microfauna nem da flora de
Ternifine.
    O atlantropo, tanto o de Ternifine (Atlanthropus Mauritanicus) quanto
os descobertos no Marrocos  Homem de Rabat(?) e de Sidi Abderrahman
(Casablanca)  pertencem ao Homo erectus. Esses pitecantropos, alis muito
semelhantes aos sinantropos de Pequim, situam-se de modo muito impreciso
numa cronologia: 400.000 a 500.000 anos parece a hiptese mais plausvel.
Em outras regies esses homens dominaram o fogo e talvez tenham tido uma
linguagem rudimentar. O Magreb no nos acrescenta nenhum dado nesse
campo.
Pr-Histria da frica do Norte                                                 645



    MusterienseAteriense
    Em 1955, escrevi que duvidava da existncia de um Musteriense autnomo
na frica do norte. Fui severamente repreendido pelo Dr. Gobert, que tinha
toda razo. Posteriormente (1965), modifiquei meu julgamento, mas o problema
no estava resolvido; estava simplesmente transferido. Havia, com certeza,
jazidas genuinamente musterienses no Magreb, mas situadas em condies
geogrficas extraordinrias, contrrias a algumas concepes aceitas de etnia pr-
-histrica. Seis jazidas na Tunsia: Sidi Zin (Le Kef ), Ain Mhrotta (Kairuan ) ,
Ain Meterchem (Djebel Chambi), Sidi Mansour de Gafsa, El-Guettar (Gafsa),
Uede Akarit (Gabes); uma nica na Arglia: Retaimia (vale do Chelif ); trs
no Marrocos: Taforalt (Ujda), Kifanbel Ghomari (Taza), Djebel Irhoud (Safi);
nenhuma no Saara. H, entretanto, centenas de stios pr ou ps-musterienses.
Isto no reflete o estado das pesquisas, pois a descoberta do Musteriense era
uma preocupao essencial dos pr-historiadores formados na Frana, onde ele 
abundante, como tambm nas pennsulas Ibrica e Italiana desde Gibraltar, por
exemplo. H 800 km de Sidi Zin (Le Kef ) at Retaimia, 360 km deste stio 
gruta de Taforalt, e ainda 700 km at atingir o Djebel Irhoud. Trata-se, entretanto,
de Musteriense perfeitamente caracterizado, assimilvel s fcies europeias, em
particular  tcnica de lascamento Levallois. Em duas extremidades geogrficas
temos o testemunho dos homens: os neandertalenses do Djebel Irhoud e o mais
antigo monumento ritual conhecido, o "cairn" ou "Hermaion" de El-Guettar,
do qual apenas o cume emergia da fonte,  qual ele era sem dvida consagrado.
Exceto em Uede Akarit, nenhuma jazida musteriense est prxima do litoral.
Mas onde estaria ento situada a costa do golfo de Gabes? O Musteriense do
Magreb s pode ter vindo do leste. O mais notvel  que este Musteriense
conheceu rapidamente uma evoluo original: transformou-se, no prprio local,
em "Ateriense". Baseando minhas dedues numa aplicao rigorosa das regras
de classificao geolgica pelos "fsseis mais recentes", considerei aterienses
esses depsitos industriais do Musteriense onde se encontrava uma ponta
pedunculada ateriense (El-Guettar, Ain Metherchem, etc.). No acredito que
esta pea seja uma prova de contemporaneidade de musterienses e aterienses;
penso que o Musteriense do Magreb tenha sofrido uma mutao diferente
da evoluo de todos os outros Musterienses. J. Tixier mostrou que no se
trata de uma associao de pontas ou de raspadores pedunculados, mas de uma
transformao de cerca de trinta formas musterienses em formas aterienses
pelo lascamento de um pednculo basilar. Na Europa, e particularmente na
646                                                    Metodologia e pr-histria da frica



Frana, o complexo Musteriense seguiu outros caminhos. O desenvolvimento
do Magrebiense foi to original que se chegou a adotar uma distino especfica,
hoje no mais defensvel. O Ateriense no passa de uma fcies evolutiva 
prpria de uma parte da frica  do Musteriense; coincide com ele at no
plano cronolgico. A definio de R. Vaufrey de um "Paleoltico Superior" no
 mais vlida.
    Anteriormente, alguns autores j haviam sugerido a existncia de um
"Musteriense de utenslios pedunculados", da mesma forma como hoje
empregamos o termo "musteriense de denticulados". E, como a indstria da
jazida epnima do Ateriense (Uede Djebbana, perto de Bir el-Ater, sul de
Tebessa) nunca foi analisada a fundo pelo seu descobridor, "Ateriense" permanece
um nomen nudum, como dizia M. Antoine. Trata-se de uma evoluo precoce
do Musteriense, abrangendo o Magreb e o Saara de norte a sul, e ao mesmo
tempo coincide cronologicamente com uma parte do Paleoltico Mdio e com
pelo menos o incio do Paleoltico Superior.
    Entretanto, nossas referncias cronolgicas ainda so muito imprecisas. As
correlaes propostas por G. Camps com as datas obtidas por MacBurney em
Cirenaica so frgeis, pois a identidade das indstrias no foi demonstrada.
O Ateriense  "muito discutvel" (Camps) e o Iberomaurusiense no existe
(Tixier). Relaes estratigrficas puderam ser estabelecidas com o Quaternrio
continental ou marinho, tanto no Saara quanto no Magreb, e tanto em cronologia
relativa quanto absoluta. O quadragsimo milnio antes da Era Crist no , sem
dvida, a data mais antiga que pode ser atribuda  apario do Ateriense. Nossa
dificuldade vem dos limites da fidedignidade do C14. Mas as datas obtidas no
Magreb e no Saara inscrevem-se entre -37.000 a -30.000, e constituem uma
sequncia coerente e plausvel. O Ateriense , portanto, no incio, um Paleoltico
Mdio. Em seguida,  contemporneo do Castelperroniense e do Aurignaciense,
isto , da primeira parte do Paleoltico Superior, ao menos na Frana. As relaes
com as formaes quaternrias so concordantes. H casos em que o Ateriense
foi encontrado, em condio original, nas praias neotirrenienses, emergidas
exatamente no incio da ltima grande regresso (em Karouba, por exemplo,
perto de Mostaganem, Arglia ocidental). O fim deste interestdio Wrmiano
(Wrm 1/2) ocorreu por volta de -48.000. As formaes continentais que
recobrem estas praias submersas no mar atual, geralmente rubificadas e ricas
em Ateriense, datam da regresso que pode ter atingido 150 m.
    Seria muito delicado determinar lima data para o fim do Ateriense. A
conquista do Saara  um fato, do mesmo modo que a evoluo tcnica da
indstria em formas mais ou menos anunciadoras do Neoltico.
Pr-Histria da frica do Norte                                                                          647




Figura 22.6 Ateriense do Uede Djouf el-Djemel (Arglia oriental): pontas e raspadores pedunculares,
"racloirs" ncleos Levallois (Foto M. Bovis).
Figura 22.7    Indstria do Capsiense tpico (Foto M. Bovis).
Figura 22.8 Indstria de armaduras do Capsiense superior: tringulos escalenos, trapzios e microburis,
serras, lminas denticuladas, pequeno buril de ngulo, furadores, raspadores, ncleos "canelados", etc. (Foto
M. Bovis).
Figura 22.9 Indstria do Capsiense superior: micrlitos geomtricos: trapzios, tringulos escalenos,
microburis e instrumentos em forma de crescente (Foto M. Bovis).
648                                                         Metodologia e pr-histria da frica



   Para H. Hugot, o Ateriense no transps a barreira dos grandes lagos,
repletos de diatomceas at o stimo milnio antes da Era Crist. A prova
desse Ateriense "Pr-Neoltico" no se mostrou to sedutora quanto a hiptese.
Entretanto, no se conhece a indstria intermediria, e o principal obstculo,
de ordem antropolgica, est em processo de desintegrao: todas as recentes
descobertas feitas no Marrocos reforam a hiptese de que o homem ateriense
no  mais um neandertalense como os musterienses do Djebel Irhoud, mas j
um Homo sapiens.


      Paleoltico Superior e Epipaleoltico
   Quaisquer que possam ter sido os prolongamentos aterienses no Saara, no
Magreb as coisas se passaram de outro modo.  intil voltar aqui  histria
da refutao das hipteses de R. Vaufrey, encaradas como autoridade durante
decnios. Mais vantajoso , sem dvida nenhuma, localizar os conhecimentos
atuais. Estes conhecimentos organizam-se em torno de quatro ideias bsicas:
           O Iberomaurusiense, que separei do Capsiense por razes antropolgicas e
            paleoetnolgicas,  muito mais antigo do que se imaginava.  contemporneo
            do Magdaleniense francs, e , portanto, uma civilizao do Paleoltico
            Superior.
           A controvrsia sobre o "Horizonte Collignon", que ops R. Vaufrey ao Dr.
            Gobert e a mim mesmo, est terminada: esta indstria de lamelas, mais
            prxima do Iberomaurusiense do que do Capsiense,  anterior a esta ltima.
           A distino estabelecida por R. Vaufrey, de um Capsiense "tpico" substitudo
            por um Capsiense "superior" ou "evoludo", d lugar a uma proliferao das
            indstrias capsienses, apoiada sobre um nmero bastante grande de datas
            radiomtricas, nem todas prontamente aceitas.
           O "Neoltico de tradio capsiense" criado por R. Vaufrey em bases muito
            estreitas, mas estendido por ele mesmo a uma grande parte da frica, deve ser
            restrito s suas dimenses originais e ceder as grandes reas indevidamente
            conquistadas a outras fcies da neolitizao africana.


      O lberomaurusiense
   A antiga definio de Pallary (1909), ainda citada, no  mais aceitvel. Ele
enfatizou insistentemente a profuso de uma tcnica, a da borda de preenso
retocada das lamelas, que marcou quase todo o instrumental ltico. Ser preciso
Pr-Histria da frica do Norte                                              649



esperar as minuciosas anlises tipolgicas de J. Tixier para substituir um
conjunto de formas precisas, por uma tcnica global, o que havia sido mais
ou menos percebido por certos pr-historiadores, em particular o Dr. Gobert,
na Tunsia. As novas escavaes feitas por E. Saxon na jazida de Tamar Hat
(cornija de Bejaia, Arglia) tornaram possvel obter datas isotpicas muito altas
e compreender melhor estes caadores de carneiros monteses, habitantes de
grutas litorneas separadas do mar por pntanos e uma plataforma continental
emersa, rica em mariscos. O Iberomaurusiense , na realidade, uma civilizao
litornea e teliense que, entretanto, conheceu penetraes continentais. Destas,
a jazida menos discutvel  a de Columnata (Tiaret, Arglia). Isto no impede
que a regio de Tnger e a costa do Sahel tunisiano paream muito vazias. A
ausncia de Iberomaurusiense na regio que vai da Tunsia at o sul do Uede
Medjerda pode ser atribuda a um desenvolvimento separado, que ser exposto
mais adiante.
    Mesmo analisado em detalhe, o instrumental Iberomaurusiense permanece
pobre. Algumas centenas de microburis recolhidos bem depois das escavaes,
na jazida tpica da Mouila (perto de Maghnia, Arglia), confirmaram estarem
eles vinculados  fabricao de pontas em triedro pontiagudo (chamadas "pontas
da Mouila") e no  de micrlitos geomtricos, como no Capsiense. A indstria
ssea  muito pobre, e h somente uma forma original: o "trinchete". No h
nem arte mobiliria, nem arte parietal. Estamos no tempo de Altamira e de
Lascaux, e os homens so, tanto ao norte como ao sul do Mediterrneo, do tipo
Cro-Magnon, o mesmo de "Mechta el-Arbi".
    No h provas satisfatrias da hiptese tradicionalmente aceita sobre
uma cultura de origem oriental dividida em dois ramos: o Cro-Magnon
europeu ao norte do Mediterrneo, e ao sul, ao longo dos rios africanos, o
Homem de Mechta el-Arbi. No plano antropolgico podem ser vistos como
descendentes dos neandertalenses por intermdio do homem ateriense. Por
mais sedutora que seja esta hiptese, ela no explica o desenvolvimento de
uma indstria sem nenhum ponto de comparao com o Musteriense e at
mesmo com o Ateriense, que a precederam. Sugerir que no tenham sido
os iberomaurusienses os portadores desta civilizao  pouco concebvel,
uma vez que ela no tem razes locais. E no  este o nico problema.
Estes "Cro -Magnon" do Magreb tiveram uma vocao e um destino
diametralmente opostos aos dos europeus. A indstria ltica, contempornea
do Magdaleniense, ao menos nos estgios mais antigos, era "mesoltica",
na medida em que foi outrora descrita como um "Aziliense barbaresco";
a indstria ssea no teve equivalncia com a dos magdalenienses, e no
650                                                 Metodologia e pr-histria da frica



houve nem arte mobiliria, nem arte parietal, apesar das informaes
em contrrio no Marrocos. Por outro lado, sobreviveram at o Neoltico
e chegaram a colonizar o arquiplago das Canrias por volta do fim do
terceiro milnio antes da Era Crist. H ainda muitas outras caractersticas
prprias do Magreb, como as mutilaes dentrias, os cemitrios em grutas
ou sob abrigos (Afalou-bou-Rhummel, Arglia; Taforalt, Marrocos) e os
monumentos funerrios (Columnata).

      O "horizonte collignon" e as outras indstrias lamelares
      prcapsienses
   Atualmente est provado em bases estratigrficas e geomorfolgicas
que as indstrias de lamelas da Tunsia Pr-Saariana (Gafsa, Lalla, regio
dos Chotts, etc.) so anteriores a toda a srie capsiense. Em Gafsa (Sidi
Mansour) o "horizonte Collignon" insere-se num aterro fluvial; o estgio final
de sedimentao nos lagos  marcado por importantes formaes gipsferas.
Iniciada uma nova sedimentao, ela  imediatamente interrompida por
um abaixamento de nvel da bacia de Gafsa, que causa uma nova eroso.
O Capsiense tpico e evoludo ocupa a superfcie dessa eroso, como
o testemunham os outeiros. Ainda no se pode estabelecer nenhuma
posio cronolgica, a no ser que h um pouco de Musteriense na base
da sedimentao. Estas indstrias lamelares s podem ser associadas ao
Iberomaurusiense na medida em que diferem especificamente do Capsiense.
A tipologia  diferente, exceto a proliferao da tcnica da borda de preenso
retocada. Sem dvida, sua origem deve ser pesq uisada em direo ao leste
(Cirenaica, Egito, Oriente Prximo). Outras indstrias epipaleolticas
originais podem ser situadas no local, entre o Iberomaurusiense e fcies
capsienses. O "Columnatiense" ao qual se associa a necrpole foi caracterizado
no stimo milnio por uma indstria extremamente microltica. Outros stios
foram descobertos e o mais importante  o de Koudiat Kifne Lahda (Ain
M'Lila, Arglia oriental), onde a indstria anterior ao Capsiense remonta,
igualmente, do stimo milnio. O termo "elassoltico" foi proposto para
designar este conjunto ultramicroltico ligado a um gnero de vida que no
pode ser definido. Outras fcies foram assinaladas na Arglia ocidental,
em particular o "Keremiense" e o "Kristeliense". A lista ainda est longe de
se concluir, pois, na verdade, entre o Iberomaurusiense, em grande parte
paleoltico, e o Capsiense, houve uma proliferao de indstrias comparvel
ao que ocorreu no Mesoltico europeu.
Pr-Histria da frica do Norte                                               651



    As fcies capsienses
    A "srie capsiense" foi a mola mestra das hipteses de R. Vaufrey: Capsiense
"tpico", "superior" e "de tradio capsiense". Embora essa estrutura simplista
tenha sido justamente criticada, com base sobretudo em inmeras datas
radiomtricas, deve-se reconhecer que as pesquisas realizadas a este respeito
no atingiram os progressos desejados nos ltimos vinte anos. Salvo excees
muito raras, as escavaes nos "viveiros de caracis" ainda no possibilitaram um
meio de identificar as estratigrafias nem as estruturas arqueolgicas.
    Enquanto no dispusermos de cortes suficientes para observar as superposies
das diversas fcies capsienses, basearemos as contemporaneidades e as sequncias
nas datas C14, muito menos confiveis que uma boa estratigrafia. Tendo sido
estabelecida em vrios pontos, a superposio Capsiense Superior/Capsiense
tpico permanece o ponto de partida de toda a classificao. Em ambos os
casos as jazidas renem grande quantidade de resduos revolvidos, uma mistura
de cinzas e seixos queimados, milhares de conchas de caracis, fragmentos de
ossadas de animais consumidos pelo homem, sua indstria ltica e ssea, objetos
de adorno, arte mobiliria, restos humanos, etc. Admitimos at certa especulao
a respeito de habitats sob cabanas que deram origem a esses resduos; talvez
cabanas de canios ligados entre si por argila, se considerarmos uma descoberta,
infelizmente demasiado antiga, feita na regio de Khenchela (Arglia oriental).
    A indstria ltica do Capsiense tpico  de uma qualidade notvel. Os buris
de ngulo sobre truncatura so excepcionalmente frequentes. Menos numerosas,
mas tambm caractersticas, so as grandes lminas com borda de preenso
retocada, conhecidas s vezes por "facas" com dorso ocreado. As lamelas
com borda de preenso retocada representam de 1/4 a 1/3 do instrumental
ltico, sendo s vezes obtidas por meio de retoque das extremidades dos buris
(aiguillons droits de Gobert). J existem microburis que no provm, como no
Iberomaurusiense, da fabricao das "pontas da Mouila", mas da manufatura de
verdadeiros micrlitos geomtricos (trapzios, tringulos escalenos). A indstria
ssea  pobre. O Capsiense tpico s  conhecido numa zona bem delimitada,
em ambos os lados da fronteira da Arglia com a Tunsia, mais ao sul do que ao
norte do paralelo 35. Se considerarmos as dataes radiomtricas, o Capsiense
tpico abrangeria somente o stimo milnio. Seria portanto, nesta mesma zona,
contemporneo do Capsiense "superior", fato que contraria as estratigrafias
j conhecidas. S acreditarei nessa teoria quando o Capsiense "superior" for
encontrado sob o Capsiense tpico! Neste caso, de onde surgiria o Capsiense
652                                                    Metodologia e pr-histria da frica



qualificado como "evoludo?" Alm disto, no temos dados suficientes a respeito
do homem da civilizao do Capsiense "tpico"...
    O Capsiense evoludo apresenta uma proliferao de fcies que invadiram o
oeste argelino e pelo menos uma parte do Saara. Devemos ainda ser prudentes e
no cometer o erro de R. Vaufrey, de estender o "Neoltico de tradio capsiense",
por adies sucessivas, a uma grande parte do continente africano.
    Com exceo do que denominei "fcies tebessiano", ainda sobrecarregado de
utenslios pesados do Capsiense tpico, o Capsiense evoludo  uma indstria
de objetos de tamanho pequeno, rica em micrlitos geomtricos de qualidade
tcnica geralmente excepcional, sobretudo os tringulos e alguns trapzios.
As distines feitas em bases "estatsticas" no so vlidas, pois trata-se de
colees de museus, de uma escolha e de uma seleo de escavaes em geral
mal feitas, espordicas, de "camadas" artificiais, de espessura varivel conforme
os escavadores. Um escargotire que estudei, o de Ain Dokkara, foi ocupado
pelo homem durante mil anos, desde meados do stimo milnio at meados
do sexto milnio antes da Era Crist. Seria possvel caracterizar a indstria por
uma estatstica global?
    O Capsiense "superior", ou pelo menos sua extenso setentrional at o quinto
milnio antes da Era Crist, perdurou at o processo de neolitizao, que abrangeu
um perodo muito longo. Assim, pode-se sustentar a contemporaneidade, em
regies diferentes, de indstrias do Capsiense tpico e superior e do Neoltico
"de tradio capsiense".
    A civilizao capsiense durou, portanto, quase 2000 anos, alguns sculos a
menos que a do Egito faranico. Se somos incapazes de escrever sua histria,
ao menos agruparemos os elementos essenciais de uma etnia. Os homens
do Capsiense no pertencem ao tipo cro-magnoide de Mechta-Afalou: so
mediterrneos, e o espcime mais completo e mais conservado, em condies
estratigrficas indiscutveis,  o Homem de Ain Dokkara (Tebessa), que remonta
 metade do stimo milnio. Os habitats capsienses contam-se s centenas e
perduraram durante sculos, chegando alguns a ultrapassar um milnio. Um tal
sedentarismo, pr-pastoral e pr-agrcola,  digno de nota. Todavia, as habitaes
no passavam de cabanas de junco e de ramos, revestidas de argila ou cobertas
com peles. O papel reservado  caa no era primordial, se considerarmos a
pequena quantidade de restos de animais, e no sua variedade. Os moluscos
terrestres tiveram uma importncia que no deve ser minimizada; j a colheita
de vegetais desempenhou um papel que no podemos medir sem excesso de
imaginao, nem as "foices" de Columnata, nem as esferas de pedra perfurada,
nem as moletas, nem o "lustro das colheitas" provam a existncia de agricultura.
Pr-Histria da frica do Norte                                                653



   A etnia capsiense inuma seus mortos segundo ritos variados, frequentemente
em decbito lateral fletido. O emprego contnuo do ocre permanece um mistrio.
Mais surpreendente ainda  a utilizao das ossadas humanas; a mais inesperada
 o "crnio trofu", usado talvez como mscara, descoberto em Faid Souar (Ain
Beida, Arglia). Quanto aos vivos, os capsienses praticavam mutilaes dentrias;
nas mulheres, tal prtica chegava a atingir os oito incisivos.
   Entretanto, so os primeiros artistas do Magreb: objetos de adereo, cascas de
ovos de avestruz gravadas desde o Capsiense tpico, plaquetas gravadas, pedras
esculpidas que podem at prenunciar a arte parietal.

    Neolitizao e neolticos
    Desde 1933, a viso que podemos ter do Neoltico na frica do norte foi
ordenada, sistematizada e uniformizada por R. Vaufrey. O "Neoltico de Tradio
Capsiense", que este autor localizou por todo o Magreb, o Saara e uma parte da
frica ao sul do Saara, tornou-se to aceito que a sigla "NTC" passou a ser de
uso corrente. Entretanto, Dr. Gobert e eu mesmo tnhamos expressado grandes
dvidas a respeito do carter artificial dessa construo, baseada num processo
de adies sucessivas cujo conjunto nos parecia discordante.
    Na verdade, no havamos compreendido a linha das dedues de R. Vaufrey.
Por que havia ele tomado como stio de referncia a jazida mais pobre da Meseta
de Jaatcha (Tunsia)? Em sua tese (1976), G. Roubet exps o encaminhamento
do raciocnio de R. Vaufrey. No  o Neoltico em si que o interessa; ele quer
apenas mostrar a conservao de uma "tradio capsiense" que se atenua
progressivamente ao distanciar-se das fontes originais. Assim, o Neoltico foi
apenas um epifenmeno do Capsiense. A extenso pretendida para o NTC
justifica-se pelo enxerto de elementos culturais considerados neolticos, o
que resulta numa concepo "tipolgica" do Neoltico e no considera o que
ultrapassa e explica as revolues tcnicas: a perturbao do gnero de vida. De
fato, a persistncia da tradio capsiense refuta a teoria do desenvolvimento de
uma cultura neoltica. As pontas projteis, "pontas de flechas", to abundantes no
Saara, so testemunhas do prolongamento de um gnero de vida de caadores-
-predadores que no se poderia qualificar como neoltico.
    Nessas condies, deve-se confinar o Neoltico de tradio capsiense aos
limites originais. Foi o que fez C. Roubet, baseando-se nas escavaes da gruta
Capeletti (Aurs, Arglia). Ao lado da indispensvel tipologia, a ecologia torna-
-se essencial, ou seja, o conhecimento do meio em que os homens viviam. Assim,
pode ser definida uma economia pastoral pr-agrcola, transumante, que no 
654                                    Metodologia e pr-histria da frica




Figura 22.10 Neoltico de
tradio capsiense do Damous
el-Ahmar, Arglia oriental. M e
moleta. Traos de carvo e ocre.
Fragmentos de conchas de Helix
(Foto M. Bovis).
Figura 22.11 Pequena placa
calcria gravada. Capsiense superior
do Khanguet el-Mouhaad, Arglia
oriental (Foto M. Bovis).
Pr-Histria da frica do Norte        655




Figura 22.12 Ain Hanech, seixos
com lascamento unifacial (chopper)
ou bifacial (choppingtool), (Foto M.
Bovis).
Figura 22.13 Pernio humano
em forma de punhal  Capsiense
superior  Mechta el-Arbi, Arglia
oriental), escavaes feitas em 1952
(Foto M. Bovis).
656                                                   Metodologia e pr-histria da frica



mais o fim da Pr-Histria, mas o ponto de partida da civilizao montanhesa
atual dos Ghaouia de Aurs, pequenos pastores de carneiros e cabras.
    Houve, portanto, entre o quinto e o segundo milnios antes da Era Crist,
muitas outras formas de neolitizao do Magreb alm do NTC stricto sensu.
Em primeiro lugar, as regies que permaneceram isoladas do Capsiense
tiveram uma evoluo original com duas caractersticas essenciais: suceder ao
Iberomaurusiense e relacionar-se muito cedo com a Europa mediterrnea (desde
o quinto milnio). A partir disso  que se levantou o problema da navegao.
H vrias fcies litorais do Neoltico, completamente independentes de qualquer
tradio capsiense, que atestam esses contatos com a Europa por sua cermica e
pela obsidiana importada. O mesmo aplica-se ao litoral atlntico no Marrocos.
    Em contrapartida, o Neoltico de tradio capsiense no pode ser estendido,
como sugeriu G. Camps, ao Saara setentrional; e menos ainda s regies mais
meridionais do Saara, onde se encontra a arte rupestre de Ahaggar e do Tassili
n'Ajjer.
    Entretanto, a associao da arte rupestre com o Neoltico, proposta por R.
Vaufrey, permanece bastante vlida, por mais discutvel que seja a atribuio da
tradio capsiense ao Neoltico. Trata-se ainda apenas de uma parte das obras
gravadas, pertencendo a outra  poca proto-histrica. Estas primeiras obras de
estilo naturalista no estariam ligadas nem  Europa nem ao Saara; sua origem
deve ser pesquisada na neolitizao capsiense, mas a articulao "Indstria-Arte"
ainda precisa ser provada.
    Assim, apesar da riqueza de testemunhos, a pr-histria do Magreb no foi
ainda bem compreendida. Somente com grandes escavaes e com o auxlio de
modernos mtodos cientficos  que ela poder progredir.
Pr-Histria do Saara                                                   657



                            CAPTULO 23


                        Pr-Histria do Saara
                                 H. J. Hugot




    O Saara  um imenso deserto que cobre a maior parte do norte da frica.
No  fcil delimit-lo nem tampouco defini-lo. A aridez , contudo, o
denominador comum das diversas regies que o constituem. Estendendo-se
de leste a oeste por 5700 km entre o mar Vermelho e o Atlntico, e de norte
a sul por 1500 km entre o Atlas pr-saariano e o Sahel sudans, as condies
desrticas se instalaram numa rea de quase 8,6 milhes de km2. O Saara
como o conhecemos hoje, entretanto, tem um aspecto muito diferente do que
apresentou no decorrer de diversos perodos da Pr-Histria.
    O que lhe confere a unidade atual  a notvel indigncia da higrometria, uma
das mais baixas do mundo. As principais caractersticas desse deserto so, alm
da extrema raridade de gua, grandes diferenas entre as temperaturas diurnas
e noturnas e a abundncia de areia, que, eternamente mobilizada pelo vento,
inflige intensivo desgaste a um modelado senil.
    Embora seja hoje um deserto, o Saara j foi bastante povoado em vrios
perodos. Atribui-se o abandono da regio pelas ltimas etnias que a ocuparam
 instalao de um clima cada vez mais seco e quente, que provocou a rarefao
das precipitaes e o esgotamento das fontes e dos rios. O consequente
desaparecimento da cobertura vegetal e da fauna, fonte de subsistncia do
homem, forou-o a procurar regies perifricas mais clementes.
658                                                         Metodologia e pr-histria da frica



    Muitos especialistas dedicaram-se ao problema das causas e consequncias
da "desertificao" do Saara, entre eles, E. F. Gautier1, T. Monod2, R. Capot-Rey3,
J. Dubief4, L. Balout5, K. Butzer, S. A. Huzayyin6, etc., para citar apenas alguns.
Conhecem-se hoje as razes tericas pelas quais a "mono do golfo da Guin"
e a "frente fria polar" deixaram de ser para o Saara as duas fontes de umidade
que comandavam a fertilidade que fez dele, na pr-histria, uma regio populosa
e prspera. Mas no h unanimidade quanto ao problema da evoluo do clima
saariano. Ainda no sabemos se a deteriorao climtica j atingiu seu grau
mximo, ou se ainda dever atingi-lo. No sabemos tambm de que forma se
deu a "desertificao": ter-se-ia propagado regularmente em torno de um ponto
central, ou teriam as margens do Saara se deslocado num movimento oscilatrio
que atingia ora o norte, ora o sul?
    Quanto  prpria sucesso de episdios climticos que por diversas
vezes possibilitaram o estabelecimento de populaes no Saara, falta muito
para que estejamos capacitados a reconstituir sua cronologia exata. Embora
alguns trabalhos de grande envergadura tenham sido elaborados aqui e acol,
devemos reconhecer que so raros e que nada de srio se fez para desenvolv-
-los. Entretanto, so eles de uma importncia capital, no somente no plano da
cincia, mas tambm no plano de uma melhor compreenso de um fenmeno
que interessa  vida humana. O conhecimento das modificaes climticas
do Saara durante o Quaternrio  doravante de interesse fundamental para o
estudo das transformaes ecolgicas. Quando cada metro quadrado tornar-se
vital para a humanidade, esse "maravilhoso deserto" representar um papel to
importante que seu passado ser conhecido com exatido.


      Histrico
    O desaparecimento de toda a publicao bibliogrfica regular relativa  pesquisa
pr-histrica do Saara como um todo tornou difcil a compilao dos trabalhos
ali realizados. No que diz respeito ao perodo colonial, possumos muitas dessas


1     GAUTIER, E. F. 1928.
2     MONOO, T. 1945. Burg-Wartenstein Symposium, 1961.
3     CAPOT-REY, R. 1953.
4     DUBIEF, J. 1959.
5     BALOUT, L. 1952, p. 9-21.
6     BUTZER, K. W. 1958; HUZAYYIN, S. A. 1936, p. 19-22.
Pr-Histria do Saara                                                                           659



bibliografias que, no entanto, so incompletas e s vezes encontram-se dispersas.
O fato de algumas descobertas importantes estarem, por exemplo, consignadas em
relatrios militares torna o acesso a elas bastante delicado. Com efeito, a diviso
poltica do Saara explica, por outro lado, a disperso de trabalhos consagrados s suas
riquezas pr-histricas, ingleses, espanhis, franceses e italianos, e mais recentemente
alemes, japoneses, russos, etc., deram uma grande contribuio cientfica  descoberta
do passado do Saara.
    Entretanto, a penetrao no "deserto"  relativamente recente.
    A primeira observao sria relativa  pr-histria saariana foi provavelmente a
publicada pelo Abade Richard em 18687, a respeito do Saara argeliano. No Egito as
pesquisas comeam quase na mesma poca, tendo como ponto de partida uma carta
de A. Arcelin datada de fevereiro de 18678. No oeste, as pesquisas s tero incio no
comeo do sculo.
    As que concernem ao Saara central devem muito s exploraes realizadas por
Foureau a partir de 18769, culminando com a grande misso de 1898-190010. Nesse
meio tempo O. Lenz11 assinala a presena de objetos pr-histricos em Toudenit,
em 1886. Logo depois, os estudos da pr-histria saariana iriam atingir uma certa
notoriedade, arrefecendo-se apenas em virtude das duas guerras mundiais.
    Com efeito, muitos cientistas foram atrados pela riqueza pr-histrica do
Saara. Seria impossvel apresentar uma lista completa de todos eles; mas a leitura
de trabalhos antigos ser sempre surpreendente, tal a riqueza que encerram. Os de
G. B. M. Flamand12, de Frobenius13, de C. Caton-Thompson14, por exemplo, so
indispensveis para se iniciar qualquer estudo srio da pr-histria saariana.
    A pesquisa pr-histrica ressentiu-se, no deserto mais do que em qualquer
outro lugar, de preocupaes circunstanciais, a que se somou um fenmeno muito
particular, que por longo tempo impediu a compreenso dos problemas dessa regio.
De fato, a pr-histria foi frequentemente considerada "cincia anexa" no conjunto
dos interesses das misses que se lanavam pelo Saara. Assim sendo, esteve confiada
a amadores ou a especialistas em outras reas, que no dispensaram ao seu contedo

7    RICHARD, Abade. 1868, p. 74-75.
8    ARCELIN, A. Em uma carta endereada  redao da revista Matriaux pour l'histoire primitive de
     l'homme, publicada no t. V de 1869.
9    FOUREAU, F. 1883.
10   FOUREAU, F. 1905.
11   LENZ, O. 1884.
12   FUMAND, G. B. M. 1902, p. 535-38, 114-15; PERRET, R. 1937, lista dos stios estudados.
13   FROBENIUS, L. 1937.
14   CATON-THOMPSON, G. e GARDNER, E. W. 1934.
660                                                        Metodologia e pr-histria da frica



a devida ateno. Alm disso, em um meio de difcil penetrao, onde a vida depende
de cada quilo de carga transportado, o volume, o peso e a dificuldade de acesso aos
documentos pr-histricos fizeram com que eles fossem negligenciados. Acrescenta-
-se tambm o fato de o Saara no ser o lugar ideal para viagens e, sobretudo, para
dar aos viajantes o tempo e os meios para proceder a investigaes detalhadas. Sem
dvida, isso explica por que durante muito tempo se falou em "indstrias infundadas",
de "ausncia completa de estratigrafia", de "nomen nudum", etc. Na verdade, a pr-
-histria do Saara  to rica quanto qualquer outra.
    Quando se concederam tempo e meios a misses especializadas, as coisas
mudaram rapidamente. Foi o que ocorreu aps a Segunda Guerra Mundial, fazendo
surgir um nmero infelizmente pouco elevado de excelentes monografias, que se
ocuparam, em especial, do Hoggar, de Saura, do Chade, da Mauritnia, do deserto
lbio, do Fezzan, etc.
    A colaborao da indstria e da cincia permitiu que fossem atingidos os
surpreendentes resultados registrados nos "Documents scientifiques des missions
Berliet-Tnr-Tchad"(Documentos Cientficos das Misses Berliet-Tenere-Chade)15.
    No entanto, a pr-histria do Saara, no obstante seu alto grau de interesse e sua
riqueza, est longe de poder ver-se representada em um "manual". No h sequer
uma obra de divulgao a respeito, numa poca em que, no entanto, se vai  Lua.
Resta-nos simplesmente lembrar que ela  objeto de um grande nmero de estudos
especficos e de alguns captulos de obras gerais, particularmente em H. Alimen16,
H. J. Hugot17 e R. Vaufrey18.


      Pesquisa de uma cronologia
   Desde seus primrdios, a pr-histria do Saara procurou suas sries de comparao
na Europa e, principalmente, na Frana. Eram comuns termos como "Clacto-
-Abbevilliense", "Chelles-Acheulense", "Musteriense", "lminas aurignacienses",
"pontas foliceas solutrenses", etc. Sentem-se ainda hoje os efeitos dos erros cometidos
por essa viso simplista. Ora, como para todas as pr-histrias do mundo, a do Saara
s pode nascer da anlise de monografias exaustivas consagradas a suas diversas
indstrias, e essas monografias ainda esto sendo aguardadas. Uma outra consequncia


15    HUGOT, H. J. 1962.
16    ALIMEN, H. 1960.
17    HUGOT, H. J. 1970.
18    VAUFREY, R. 1969.
Pr-Histria do Saara              661




Figura 23.1 Principais stios
de pinturas e gravuras rupestres
saarianas.
Figura 23.2 Machado plano com
entalhes, Gossolorum (Nger).
Figura 23.3 Machadinha de
Ti-n-Assako (Mali).
662                                                                          Metodologia e pr-histria da frica



lastimvel da indisciplina da pesquisa pr-histrica no Saara  a atribuio, conforme
as necessidades, de status sociais precisos a etnias desaparecidas, mesmo sem nenhuma
prova concreta da realidade dos fatos que as originaram.
    Duas observaes devem ser feitas a respeito da cronologia19. A primeira  que
no conhecemos ainda, em nenhum ponto do Saara, uma estratigrafia20 bastante
abrangente para nos permitir estabelecer a sucesso dos estgios pr-histricos com
preciso. A segunda  que, salvo para o Neoltico, no possumos datas que nos
permitam estabelecer uma cronologia absoluta. Apesar de todas essas dificuldades,
dispomos dos excelentes trabalhos de J. Chavaillon para Saura 21 H. Faure para o
Chade 22, de P. Chamard23 para a Mauritnia, todos baseados em slidos estudos
perifricos sobre a Arglia24, o Marrocos25, a Lbia 26, etc.
     luz desses trabalhos pode-se fazer uma ideia relativamente precisa das
grandes linhas do quadro cronolgico da pr-histria do Saara. Entretanto,
a pobreza de documentos paleontolgicos e, em geral, de matrias orgnicas
utilizveis para dataes atravs da medida da radiatividade subsidente relativos a
esse perodo no permitiu estender a cronologia absoluta para alm do Neoltico
(cf. Quadro seguinte).



19    Cronologia quaternria: sucesso no tempo de diversas fases climticas. No que se refere ao Saara, pobre
      em estratigrafia, em muitos casos conta-se apenas com elementos de cronologia relativa. Uma das
      melhores cronologias foi apresentada por J. CHAVAILLON (1964). Da base ao cume de Saura, no
      noroeste do Saara, o autor distinguiu:
                                                             Aidiense
       Quaternrio Antigo (Villafranchiano)
                                                             Mazeriense
                                                             Taourirtiense
       Quaternrio Mdio
                                                             Ougartiense
                                                             Sauriense
       Quaternrio Recente
                                                             Guiriense

20    Estratigrafia: sendo a estratigrafia a leitura e interpretao das camadas que se depositaram sucessivamente
      num local para formar o solo,  compreensvel que o Saara, atingido por grandes cataclismas climatolgicos,
      no tenha conservado muitos documentos. Existe, porm, o suficiente para mostrar que em diversos
      lugares h uma srie de trs terraos chamados antigo, mdio e recente, que so os testemunhos de
      trs grandes episdios climticos. Mas no se deve esquematizar demais. Na verdade, considerando os
      microclimas, o problema dos episdios climticos legveis na estratigrafia  extremamente complexo. A
      estratigrafia revela que por volta do ano 1000 antes da Era Crist a desertificao j se consumara.
21    CHAVAILLON, J. 1964.
22    FAURE, H. 1962.
23    CHAMARD, P. 1966-1970.
24    BALOUT, L. 1955.
25    BIBERSON, P. 1961.
26    MACBURNEY, C. B. M. e HEY, R. W. 1955
Pr-Histria do Saara                                                                                    663




Cronologia da pr-histria saariana.


    Naturalmente, o quadro que apresentamos est simplificado ao extremo.
Em particular, ele no apresenta um importante complexo de grandes lascas,
frequentemente de tcnica levalloisiense, encontradas em um terreno de bifaces
finos, de tamanho e peso reduzidos, e provavelmente situadas no fim do
Acheulense. Complexos desse tipo ocorrem em Tiguelguemine27, Broukkou28,
etc., Enfim, notaremos que at o momento presente nada foi encontrado que
nos autorize a falar de um Paleoltico Superior29 no Saara: o termo no tem


27   HUGOT, H. J. 1962.
28   HUGOT, H. J. 1962.
29   Paleoltico: a nova diviso cronolgica devida ao reconhecimento do Homo habilis como ancestral provvel
     da linha atual do homem no modificou os problemas relativos ao Saara. Em particular, atualmente
     parece no ter existido nem o Paleoltico Mdio nem o Epipaleoltico. Ter-se-ia um Paleoltico Terminal,
     representado pelo Ateriense, portanto posterior ao Musteriense, e separado do Neoltico por um breve
     hiato.
664                                                     Metodologia e pr-histria da frica



confirmao nos fatos. Seria mais perigoso ainda falar em Mesoltico, termo que
tende a cair em desuso.
   O quadro anterior pode dar ensejo a uma cronologia mais detalhada. Relaciona
as grandes linhas do que conhecemos da climatologia com o povoamento
pr-histrico.
   O Saara forneceu poucos esqueletos acompanhados de indstrias que
possibilitassem sua classificao. Entretanto, os que foram encontrados indicam
a antiguidade bastante remota do homem.


      O Paleoltico
      O aparecimento do homem no Saara e a indstria de seixos lascados
    Nas margens de antigos rios extintos observam-se, com muita frequencia,
terraos formados na poca em que os rios ainda no haviam secado. Esses
terraos apresentam trs nveis muito distintos, que para maior comodidade so
denominados terraos antigo, mdio e recente. No djebel Idjerane30, a 120 km a
leste de In Salah (Saara argeliano), o terrao antigo apresentou "seixos lascados".
Sabe-se que esses seixos so os primeiros utenslios com marcas observveis de
trabalho humano. Na maioria dos casos, so meros seixos de rios, de alguns dos
quais foram destacadas lascas para a obteno de um gume grosseiro e sinuoso.
Aventou-se a ideia de que esses objetos seriam especficos da indstria do Homo
habilis.
    No Saara nigeriano, nas ribanceiras do Tafassasset31 antigo afluente do
lago Chade, existem tambm grandes quantidades de seixos lascados, mas
em posio menos significativa que em Idjerane. Outros conjuntos, como o
de Aoulef32, foram revolvidos ou destrudos. Quanto  srie proveniente de
Saura33,  numericamente pouco importante para fornecer material suficiente
para um estudo. O que se pode afirmar  que a cultura dos seixos lascados
estendeu-se por todo o Saara, ento mido e muito diferente do deserto que hoje
conhecemos. Infelizmente, nenhum fssil animal ou humano da poca chegou
at ns, restando-nos simplesmente formular a hiptese de que esses utenslios
muito rudimentares, que, fora dos stios onde esto agrupados, encontram-se

30    BONNET, A. 1961, p. 51-61.
31    HUGOT, H. J. 1962, p. 151-52.
32    HUGOT, H. J. 1955, p. 131-49.
33    CHAVAlLLON, J. 1956.
Pr-Histria do Saara                                                        665



dispersos por todo o Saara, so exatamente os que foram lascados e utilizados
pelos nossos mais antigos ancestrais.

     O Homo erectus, fabricante de bifaces
    O final da civilizao dos seixos lascados deixa aparecer uma evoluo
tcnica que conduz a formas no abandonadas no incio do Paleoltico Inferior.
O mistrio que envolve a grande mutao humana e tcnica que assinala o
aparecimento do biface permanece intato. No Saara, no se descobriu nenhum
esqueleto dos autores desse notvel utenslio e seu derivado, a machadinha,
a qual evoca um horizonte florestal, que  poca devia predominar. Apesar
de ignorarmos a ecologia dos inventores do seixo lascado, estamos um pouco
mais bem informados sobre a de seus sucessores. Enquanto regio de grandes
lagos, o Saara apresentava uma hidrografia bastante significativa, precipitaes
suficientes para manter um tipo de vegetao indicadora de um clima tendendo
a frio. Evidentemente a grande fauna "etope" fazia-se presente em todo o Saara.
Fato marcante, as chuvas torrenciais que caracterizaram o perodo seguinte
destruram ou danificaram grandemente, em quase toda parte, os depsitos
constitudos nos grandes lagos da poca. Alm disso, uma sequncia muito seca
entre a poca precedente e o perodo de que tratamos pode ter acelerado os
processos de destruio.
    Em razo dessas destruies, os testemunhos estratigrficos so muito raros,
embora o nmero de bifaces encontrados no Saara seja enorme.
    No podemos afirmar que o homindeo fssil do Chade34 tenha sido um
fabricante de bifaces. Vaufrey35 coloca-o encabeando seu captulo sobre "o
Paleoltico Inferior e Mdio" do Saara. Mas esse venervel ancestral, a respeito
de quem ignoramos se foi um fabricante de utenslios, representa apenas uma
interessante descoberta paleontolgica.
    Em Tihodaine, mencionada pela primeira vez por Duveyrier em 186436
e visitada por E. F. Gautier e M. Reygasse em 193237, foi encontrada uma
indstria "aeheulense" com restos de rinoceronte, elefante, hipoptamo, bovdeos,
bfalo, facoquero, zebra, crocodilo, gazela, etc. Todas as evidncias mostram que
a indstria acheulense de Tihodaine  evoluda, em geral talhada em osso ou


34   COPPENS, Y. 1962, p. 455-9.
35   VAUFREY, R. op. cit. (pstumo), 1969, p. 21.
36 DUVEYRIER, H. 1864.
37   GAUTIER, E. F. e REYGASSE, M. 1934.
666                                                                      Metodologia e pr-histria da frica




Figura 23.4 e 23.5   Seixos lascados (Pebble Culture), Aoulef (Saara argeliano).
Figura 23.6 Biface do Paleoltico Inferior, Tachenghit (Saara argeliano).
Figura 23.7   Machadinha do Paleoltico Inferior, Tachenghit (Saara argeliano).
Pr-Histria do Saara                                                                                    667



madeira. A indstria j se encontra, pois, num estgio avanado do Acheulense,
no sendo uma continuao direta da civilizao precedente.
    No longe de Tihodaine existem duas grandes jazidas acheulenses que
apresentam uma mistura de bifaces, por vezes de formas bem reduzidas, quase
"s'baikienses", e de machadinhas. Trata-se da jazida do erg de Admer38, descoberta
por um militar em 1934 e publicada pela primeira vez por H. Lhote e H. Kelley
em 193639. Essa jazida de superfcie est mal datada, assim como tambm a do
uede Tafassasset40, descoberta pela misso Berliet-Tenere, mas sua importncia
no inspirou os trabalhos que teriam permitido mostrar sua grande valia.
    Tabelbala e Tachenghit41 so conhecidos pelos bifaces em arenito quartzoso
avermelhado, e principalmente pela srie impressionante de machadinhas, que
revelam uma tcnica muito evoluda.
    Nessa mesma parte da frica os trabalhos de J. Chavaillon e de H. Alimen
mostraram a presena, em seu prprio contexto, de um Acheulense Evoludo
que precederia imediatamente as indstrias de lascas, ou estaria includo em um
Aeheulense Mdio.  o mesmo caso de Mazer, Bni-Abbs e Kerzaz42.
    Em Chebket Mennouna (Saura, Saara argeliano)43 haveria uma srie
significativa; infelizmente ela  muito reduzida em nmero.
    Em In-Ekker, como em Meniet e Arak44, o Acheulense Mdio encontra-se
sob as aluvies que contm o Ateriense em difuso.
    O Acheulense tambm  encontrado em grande quantidade em Aoulef45, em
Sherda46, em el-Beyed47, em Esh Shaheinab48, no Saara ocidental49, em Kharga,
no deserto da Lbia50. Decididamente o Acheulense cobre toda a superfcie do
Saara, mas estamos ainda impossibilitados de classific-lo cronologicamente, pois,


38   Essa jazida de superfcie ilustra bem as dificuldades de fazer uma distino entre a indstria dominante
     e as contaminaes posteriores por outros objetos mais recentes.
39   LHOTE, H. e KELLEY, H. 1936, p. 217-26.
40   HUGOT, H. J. 1962.
41   CHAMPAULT, B. 1953.
42   ALIMEN, H. 1960, p. 421-23.
43   CHAVAILLON, J. 1958, p. 431-43; 1956, p. 231, ID.
44   HUGOT, H. J. 1963.
45   POND, W. P., et al. 1938, p. 17-21.
46   DALLONI, M. 1948.
47   BIRERSON, P. 1965, p. 173-89.
48   ARKELL, A. J. 1954, p. 30-34.
49   ALMAGRO-BASCH, M. 1946.
50   CATON-THOMPSON, G. 1952.
668                                                                   Metodologia e pr-histria da frica



 exceo de quatro ou cinco casos, ele no se encontra em posio estratigrfica.
O essencial ainda est por fazer: escavaes e sondagens seriamente conduzidas.

      Um ponto obscuro: as indstrias de lascas
    O Paleoltico Inferior na Europa e no Saara caracterizou-se por um objeto
que foi essencial, o biface. Partindo das mais grosseiras formas, agrupadas
inicialmente sob o nome de "Chellense", evoluiu em peas elegantes, equilibradas,
perfeitamente lascadas e bem-acabadas, como as de Micoque. No Saara os
primeiros bifaces foram anunciados pelos ltimos seixos lascados. Rapidamente
se opera uma transformao radical na tcnica de lascamento, e essa habilidade
nova da difcil arte de preparar a pedra no desconhece o alijamento e a perfeio
das formas. Na Europa e no Saara, esses progressos s se tornaram possveis
graas  descoberta da eficcia do percutor mole, de osso ou de madeira, que
substituiu o martelo de pedra, de pouca preciso, dada a violncia de seu impacto.
No entanto, apesar de o biface ser essencial  o fossile directeur, por assim dizer,
do Paleoltico Superior , est longe de ser o nico objeto manufaturado pelo
Homo erectus. Temos muitas razes para acreditar que, desde a mais remota
origem da tcnica, as lascas foram igualmente utilizadas; e no somente elas, mas
tambm uma boa parte dos resduos mltiplos provenientes do lascamento dos
ncleos. Por isso,  normal a preponderncia da lasca no alvorecer do Paleoltico
Mdio51. A lasca no , portanto, uma descoberta;  uma transformao. Essa
transformao se far notar tambm pela miniaturizao dos bifaces, que
aos poucos se tornaro armaduras. Em contra partida, o revolucionrio  a
generalizao da tcnica levalloisiense. No Saara, ela aparece muito cedo;  dela
que provm o processo de fabricao de certos bifaces de Tachenghit52;  a ela,
ainda, que se deve a indstria de Broukkou ou de Timbrourine. Mas, apesar
desse aparecimento precoce, no parece que o modo de vida dos inventores
tenha-se modificado. Esses precursores certamente no so os neandertalenses,
pois ento eles teriam, sem dvida, adotado um modo de vida diferente, que
exigiria a utilizao de um armamento e um instrumental mais leves, opostos
na sua concepo ao peso do biface e da machadinha. Na verdade, o fato mais
impressionante, a que no se tem prestado muita ateno, no  tanto a ausncia
de um Musteriense legtimo no Saara ou de qualquer outra forma musteroide


51    No se deve esquecer, no entanto, que a verdadeira mutao  humana e assinalada pelo aparecimento
      do Homem de Neandertal, autor das indstrias musterienses.
52    TIXIER, J. 1957.
Pr-Histria do Saara                                                                                      669



se operando, mas, sim, o fato do Ateriense, que o substituiu e que , com efeito,
"musterizante", ser por excelncia uma indstria de caadores. O pednculo
evoca no simplesmente um cabo, mas tambm a azagaia, as bolas; as grandes
lascas-pontas levalloisienses fazem pensar em instrumentos de caadores. Em
resumo,  uma indstria de migrantes e, por isso mesmo, leve, se comparada s
indstrias que a precedem.

     O Ateriense
   No estgio atual da pesquisa, o Ateriense53 toma, no Saara, o lugar ocupado
em outras regies pelo Musteriense. Apresenta vrios traos deste ltimo, pelo
destaque que d  tcnica levalloisiense, a qual se faz notar no s pela natureza
dos retoques mas tambm pela tipologia dos objetos acabados. Entretanto, dele
se distancia por duas caractersticas essenciais:
              a presena de um objeto pedunculado, que pode ser uma ponta com ou sem
               retoque, um raspador, um buril, ou at mesmo um furador;
              diferenas sensveis no plano estatstico em relao  indstria musteriense
               clssica; mas, excludo esse fato, persiste a ideia de "substrato musteroide",
               e, apesar de no possuirmos nenhum esqueleto ateriense,  hbito atribuir
               essa interessante indstria a um parente do Homem de Neandertal.
   O Ateriense, como se sabe,  uma indstria norte-africana que se difundiu
intensamente em direo ao sul54 para se fixar ao longo das margens dos
grandes lagos do Saara meridional.  medida que se estendia para o sul, foi-se
transformando at produzir a deslumbrante fcies do Adrar Bous55, onde se
renem ao cabedal clssico dos ncleos, lminas, lascas, raspadores, ferramentas
denticuladas, pontas duplas foliceas de tcnica bifacial e bolas de pedra, pontas
pedunculadas das muito bem-acabadas, tambm de tcnica bifacial. Uma delas
chega a ter 19 cm de comprimento.



53   Ateriense: indstria de origem norte-africana, composta essencialmente por uma base musteroide, a que
     se rene uma srie de objetos pedunculados. Cronologicamente o Ateriense  posterior ao Musteriense.
     Bastante influenciado pela tcnica levalloisiense, esse notvel instrumental ltico desenvolveu-se  medida
     que penetrava o Saara. Seu limite meridional parece ter-se constitudo pelos grandes lagos do sul j
     extintos, com exceo do Chade. Foi na margem nordeste do Chade antigo que se encontraram stios
     datados de -9000 a -8000. Esta indstria deve ser atribuda antes a um Paleoltico Terminal que a um
     Paleoltico Mdio.
54 HUGOT, H. J. 1967, p. 529-56.
55   HUGOT, H. J. 1962, p. 158-62.
670                                              Metodologia e pr-histria da frica




Figura 23.8 Grande ponta dupla bifacial
ateriense, Timimoum (Saara argeliano).
Figura 23.9   Pontas aterienses, Aoulef (Saara
argeliano).
Figura 23.10 Ponta dupla bifacial ateriense,
Adrar Bous V (Nger).
Pr-Histria do Saara                                                                                 671



   O Ateriense difundiu-se imensamente.  encontrado na Tunsia56, no
Marrocos57, na Arglia58, em Saura, no Tidikelt  onde utiliza com sucesso
o material de primeira qualidade fornecido por uma Arauearia fssil59 , na
Mauritnia, onde o Adrar estabelece grosso modo sua fronteira60. Encontra-se em
toda parte no Hoggar61 no erg de Admer62, em Tihodaine63, e no Adrar Bous64;
pode-se assinal-lo ainda no Fezzan, no Zumri, sendo Kharga, no Egito65, seu
derradeiro bastio oriental.
    muito difcil situar o Ateriense em uma sequncia cronolgica. Seu
aparecimento pode ter-se dado por volta de -35.000. s margens do lago Chade,
sua progresso parece ter sido estancada pelo ltimo alto nvel das guas. Nessas
condies, ele se estenderia entre -9000 e -7000. Mas so apenas hipteses.
   Parece lgico que a essa indstria to marcada por influncias do Musteriense
deveria suceder um Paleoltico Superior. Mas aqui se colocam duas questes.
Em primeiro lugar, podemos situar o Ateriense, afinal muito tardio, em um
Paleoltico Mdio? Em sua tese magistral, L. Balout acreditava no dever
ceder a essa tentao. Em segundo lugar, o que na verdade sabemos sobre um
Epipaleoltico legtimo no Saara? A bem dizer, muito pouco; a indstria do uede
Eched, descoberta por R. Mauny66, no revelou seu segredo. Os conjuntos lticos
de estilo capsiense encontrados na orla meridional do Tademat67 continuam
sendo objeto de discusso. Apenas a srie j antiga de Merdjouma (uede Mya,
planalto do Tademat, Saara central argeliano) pode atestar a implantao de
um grupo de capsienses verdadeiros numa regio hoje abrangida pelo Saara. 
muito pouco para que tenhamos alguma certeza.
   Por esse motivo, para que fosse encontrada uma soluo cronolgica, props-se
agrupar o Ateriense sob o ttulo pouco comprometedor de Paleoltico Terminal.



56   GRUET, M. 1934.
57   ANTOINE, M. 1938.
58   REYGASSE, M. 1922, p. 467-72.
59   GAUTIER, E. F. 1914; SAINT-MARTIN, M. de. 1908; REYGASSE, E. F. 1923.
60   GUITAT, R. 1972, p. 29-33.
61   HUGOT, H. J. 1962, p. 47-70.
62   BOBO, J. 1956, p. 263-68.
63   BALOUT, L. In: ARAMBOURG, C. e BALOUT, L. 1955, p. 287-92.
64   HUGOT, H. J. 1962, p. 158-62.
65   CATON-THOMPSON, G. 1952 e 1946.
66   Indstria indita depositada no departamento de pr-histria do IFAN da Universidade de Dacar.
67   HUGOT, H. J. 1952; 1955, p. 601-03.
672                                                                      Metodologia e pr-histria da frica



      O Hiato
    Recentemente, para qualificar uma indstria evoluda ps-ateriense do Adrar
Bous (Nger), J. D. Clark empregou a palavra "mesoltico". Num plano geral,
esse termo  que felizmente tende a cair em desuso  no tem sentido. No
corresponde a nada que se conhea no Saara, e seu uso s viria consagrar o erro
de Arkell68, bastante compreensvel no tempo em que esteve trabalhando no
Nilo. No atual estado da pesquisa, os pr-historiadores franceses no concordam
com o emprego do termo.
    Isso no quer dizer que o problema do Epipaleoltico no exista: o Sebiliense
III do Egito, invadido pelos micrlitos geomtricos69, precede o Neoltico A sem
se confundir com ele, e alguns indcios  muito raros,  verdade  permitem
supor que ele possa ter ultrapassado os limites das zonas onde foi reconhecido.


      O Neoltico
   Ignoramos o essencial a respeito da gnese das etnias neolticas70. Parecem
ter-se expandido pelo Saara partindo de pontos diferentes. Segundo M.-C.
Chamla71, h uma constante no povoamento neoltico do Saara: a mestiagem
entre Negros em um extremo, e, em outro, Brancos, de origem mesoriental,
agrupados ordinariamente sob o nome de "mediterrnicos".

      Primeiro povoamento: neolticos de tradio sudanesa
   O povoamento neoltico do Saara est longe de ser homogneo. Se se
considerar uma sequncia no estabelecimento dos grupos humanos, a onda
mais antiga parece ser a que, formada s margens do Nilo, na altura de Cartum
e Esh Shaheinab, realizou um movimento de leste para oeste ao longo dos


68    ARKELL, A. J. 1949; 1953.
69    VIGNARD, E. 1923, p. 1-76.
70    Neoltico: termo utilizado para designar o aparecimento de novas tcnicas, em particular a arte da
      cermica, o polimento da pedra, o incio da domesticao, da agricultura, do urbanismo, etc., que se
      juntam  base altamente evoluda da indstria ltica do Epipaleoltico. No Saara, ao que parece, os
      mais antigos stios neolticos podem ser atribudos ao V-VI milnio antes da Era Crist. Sabe-se que o
      Neoltico no resultou necessariamente do conhecimento de todas as tcnicas mencionadas. Entretanto,
      um dos fenmenos mais notveis, que convm considerar,  o cozimento dos alimentos, que, por suas
      transformaes qumicas ir influir de forma decisiva na evoluo fisiolgica do homem. O Neoltico
      saariano e suas mltiplas correntes so o admirvel exemplo de uma "exploso" tcnica e no de uma
      revoluo, como muitas vezes se afirmou.
71 CHAMLA, M.-C. 1968.
Pr-Histria do Saara                                                                                     673



grandes lagos. Parece no ter ultrapassado muito a franja oriental de Aoukr,
nem ter penetrado na floresta. Em contrapartida, fez ao menos duas incurses
ao norte: uma em Hoggar, at a margem setentrional da regio pr-tassiliana,
e outra em direo a Saura, partindo do Tilemsi. Reconhece-se facilmente essa
brilhante civilizao pelo carter particular e pela riqueza da decorao aplicada
 cermica. No plano industrial, entretanto,  extremamente difcil defini-la, pois
os "neolticos de tradio sudanesa" souberam tirar proveito de tudo. Primeiros
habitantes do Saara, foram eles pescadores-caadores-coletores. Eram grandes
apreciadores do hipoptamo e de bagas de ldo-bastardo (celtis sp), mas no
desprezavam o peixe dos lagos, nem a tartaruga de gua doce, nem a melancia.
O fato de terem fabricado em profuso enxs, enxadas, moedores, ms, etc.,
no significa absolutamente que tenham empregado qualquer forma de prtica
agrcola72. A presena constante de potes com bagas de ldo-bastardo e a
frequente descoberta de sinais de gros de cucurbitceas na escavao dos stios
podem sugerir uma hiptese de protocultura. Constata-se uma diviso do
trabalho em funo das tarefas especializadas. O polimento da pedra foi muito
difundido, e a panplia das armaduras, muito rica. Caava-se com arco ou com
lana; utilizava-se o arpo e o anzol feitos de osso. Machados, enxadas, enxs de
pedra polida ocupam um lugar expressivo no equipamento. Hbeis na confeco
de contas de pedra dura (amazonita, calcednia, hematita, cornalina, etc.), os
especialistas elaboraram um equipamento de perfurao muito engenhoso73,
que comporta estilhaos de buris, agulhas, furadores, empregados juntamente
com resinas e areia fina. O equipamento de triturao  numeroso e requintado.
Prova a existncia, se no de uma verdadeira indstria de moagem, ao menos
do conhecimento da arte da triturao. O produto triturado era com certeza o
ocre, mas talvez tambm gros selvagens, bagas, ervas secas, corantes vegetais,
produtos farmacuticos, etc. A cermica merece meno especial, no s pela
riqueza de sua decorao, mas tambm pela beleza das formas realizadas.
Queremos observar que no foram encontradas as bases cnicas com pequenas


72   Agricultura: "Cultura racional de plantas selecionadas em reas do solo, especialmente preparadas". A
     prova do conhecimento de uma agricultura pode resultar:
      de provas palinolgicas estatisticamente vlidas;
      da existncia de traos de terrenos cultivados;
      da coleta de vegetais fsseis identificados.
     Isoladamente a presena de um instrumental considerado "agrcola" no tem significado preciso. A enxada
     pode ter servido para extrair a argila para a fabricao da cermica; a m, para triturar corantes, gros
     selvagens, produtos medicamentosos, etc. A adjetivao "agrcola" resulta, portanto, de regras precisas e
     no de hipteses no verificadas.
73   GAUSSEN, M. e GAUSSEN, J. 1965, p. 237.
674                                                                     Metodologia e pr-histria da frica



cavidades nem as formas alongadas em nfora. Mas foram assinalados alguns
bicos invertidos, asas e botes.
   Essa primeira onda neoltica , pois, bastante conhecida.

      O Neoltico guineense
    A primeira vaga  seguida, mais ao sul, pela progresso de uma outra etnia
africana, que vai ocupar a floresta e que, apesar de sua importncia, permanecer
por muito tempo desconhecida, ocultada pela cobertura florestal. Esse Neoltico,
bem identificado na Guin, ser chamado, por essa razo, embora provavelmente
se tenha originado na frica Central, de Neoltico guineense74.

      O Neoltico de tradio capsiense
    Um pouco mais tarde, o Neoltico de tradio capsiense, produto da
neolitizao, no prprio local, do antigo Capsiense norte-africano, vai comear
a movimentar-se em direo ao sul. Chegar ao nordeste da Mauritnia, e
atingir o Hoggar, j que em Meniet foi descoberto abaixo da superfcie dos
stios do Neoltico de tradio sudanesa. Seu limite a leste  mais impreciso,
devido  falta de monografias lbias utilizveis. O Neoltico de tradio capsiense
 mais austero que o de tradio sudanesa. Sua cermica tem pouco ou nenhum
ornamento, mas, enquanto a indstria ltica de tradio sudanesa , de modo
geral, oportunista, a de tradio capsiense  de uma tcnica rigorosa, e sua
fcies saariana acha-se enriquecida por uma quantidade deslumbrante de
armaduras de pontas de flechas. A pedra polida , em geral, muito bonita e,
para desfazer a impresso produzida pela cermica, as vasilhas de pedra dura
e as estatuetas75 zoomrficas so verdadeiras obras-primas. Com essa fcies do
Neoltico encontram-se gros perfurados, que so, em alguns casos, fragmentos
de encrina, mas, de modo geral, rodelas confeccionadas com pequenos pedaos
de casca de ovo de avestruz. Ovos inteiros foram esvaziados e transformados
em recipientes, e alguns foram gravados com desenhos a trao.
    Sabe-se que os iberomaurusienses no so os capsienses. Enquanto estes
ltimos ocuparam principalmente os altos planaltos argelianos, onde deixaram
curiosos montes de conchas conhecidos com o nome de escargotires, os
iberomaurusienses estabeleceram-se na orla do Mediterrneo entre a Tunsia e

74    DELCROIX, R. e VAUFREY, R. 1939, p. 265-312.
75    Colees pr-histricas, Museu de Etnografia e de Pr-histria do Bardo (Argel); lbum no 1, A. M. G.
      ed., Paris, 1956, pr. 107-10.
Pr-Histria do Saara                   675




Figura 23.11 Cermica neoltica,
Dhar Tichitt (Mauritnia).
Figura 23.12    Cermica de Akreijit,
Mauritnia.
676                                                     Metodologia e pr-histria da frica



o Marrocos; no se sabe muito bem como estes cro-magnoides se instalaram na
frica do Norte, nem como se dividiram nas duas etnias. O certo  que ambos
foram "neolitizados" no prprio local. Os neolticos de tradio iberomaurusiense
que viviam prximos ao mar no puderam evitar sua influncia. Caminhando ao
longo da costa atlntica marroquina em direo ao sul, constata-se a existncia
de kiokennmddings formados com conchas de moluscos e ostras, em seguida
com arcas (Arca senilis), alis, ainda consumidas no Senegal. O litoral do Saara
marroquino e da Mauritnia foi ocupado por essa fcies muito particular, pouco
ou nada estudada, que se caracteriza por uma cermica pouco ornada, rude, de
pedras de fogueira e por uma indstria ltica rara. Seria muito interessante saber
como se formou e qual a sua origem, pois embora possa ter sofrido a influncia
de sua homloga, o Iberomaurusiense, no Marrocos, nada sabemos sobre seus
elementos constitutivos.

      O tenerense
   Uma quinta corrente que suscitou o interesse dos especialistas foi a identificada
no Adrar Bous e batizada, por essa razo, com o nome de "Tenerense". H
pouco tempo, J. D. Clark, que esteve no local, sugeriu que tal corrente pode ser
representativa do "Neoltico saariano". Isso  impensvel, a menos que o adjetivo
"saariano" corresponda a uma regio geogrfica muito extensa!
   Por suas armaduras em flor de ltus, discos, raspadores cncavos espessos,
elementos de serra, machados com garganta, assim como por sua tipologia e
composio estatstica, o Tenerense, descoberto por Joubert em 194176, no
pode ser considerado um Neoltico saariano clssico, pois esse termo se aplica
mais especialmente s fcies sudanesas e capsienses, que cobrem a maior parte
do Saara. Vaufrey, frequentem ente tentado pelo desejo de agrupar tudo no
Neoltico de tradio capsiense77, afirma: "As influncias egpcias reconhecidas
no Saara argeliano penetraram em sua mais perfeita forma at o Hoggar"; e mais
adiante: "Essas estaes do Tenere representam um apogeu da indstria neoltica
saariana, que evoca irresistivelmente o Pr-Dinstico egpcio"78. Assinalemos,
entretanto, que, excluindo o Tenere, a influncia egpcia no aparece nitidamente,
a despeito do que afirma Vaufrey.



76    JOUBERT, G. e VAUFREY, R. 1941-1946, p. 325-30.
77    VAUFREY, R. 1938, p. 10-29.
78    VAUFREY, R. 1969, p. 66.
Pr-Histria do Saara                                                                                   677



    Resta, pois, descobrir por que via a magnfica indstria tenerense, obtida
essencialmente a partir de um jaspe verde, recebeu as influncias que to bem
ilustra.
     preciso, porm, ter cuidado para no estender demais a noo de "fcies".
Atualmente sabemos que uma mesma etnia pode ter respondido com exuberncia
aos determinismos impostos pela ecologia, subsolo, minerais, etc. Onde o jaspe e
o slex permitem obter obras-primas a partir da pedra, a indstria ser diferente
da confeccionada com arenitos frgeis. O Adrar Bous e o Gossolorum79 so uma
s e mesma coisa, mas s depois de ter estudado a cermica, discos, machados,
etc.,  que se pode acreditar nisso. As duas indstrias tm em comum apenas a
qualidade de seu lascamento.
    Resta ainda dizer algumas palavras a respeito de uma enorme fcies neoltica
encontrada no sudeste da Mauritnia, exatamente ao longo do Dhar Tichitt80.
Importantes trabalhos realizados nessa regio mostram que a indstria, bastante
tardia, est ligada a um excepcional conjunto de aldeias em pedras secas, onde o
urbanismo81 e a arte das fortificaes so do maior interesse. Obteve-se, enfim,
a prova de que desde -1500 as comunidades locais consumiam milho-mido, o
que vem dar um sentido preciso ao enorme equipamento de moagem existente
nas runas das aldeias. Tanto a cermica quanto outras caractersticas particulares
demonstram ser africana a civilizao do Dhar Tichitt; essa civilizao sem
dvida proveio do leste, mais especificamente do vizinho Tilemsi, mas isso 
apenas uma hiptese de carter provisrio.
    Assim, o Neoltico pode ser reduzido a algumas linhas de fora geradoras
de correntes secundrias, que se caracterizam por sua base cultural comum,
identificada pela cermica e, mais raramente, pelas particularidades tcnicas
aplicadas  indstria ltica ou ssea.
    Em suma, o Neoltico estender-se- do V milnio antes da Era Crist ao
incio do I milnio. Durante esse perodo o nvel dos lagos no cessar de baixar.
Em consequncia, a grande fauna etope abandona as margens, principalmente
no sul; a flora se degrada, e o homem, por sua vez, emigra com seus rebanhos.




79   HUGOT, H. J. 1962, p. 154-63 e 168-70.
80   HUGOT, H. J. et al. 1973.
81   Urbanismo: estudo do plano de um conjunto de habitats geralmente ocupados por uma populao
     sedentria e organizados, de acordo com um plano preciso, em funo da diviso do trabalho e das
     ideias religiosas dos ocupantes, O nico conjunto que responde a essa definio  o do Dhar Tichitt, na
     Mauritnia, cujo incio foi datado de -2000.
678                                                   Metodologia e pr-histria da frica



      A fauna e a flora
    A fauna  herdada do Ateriense, que termina no momento em que os lagos
atingem o ltimo alto nvel; identifica-se ento, nas margens ou na prpria
gua, a fauna dita etope, com a presena de rinocerontes, crocodilos (Crocodilus
niloticus), hipoptamos, elefantes, zebras, girafas, bfalos e facoqueros.
Grandes siluros (Clarias), percas-do-nilo (Lates niloticus) e tartarugas de gua
doce (Trionyx) abundam nas guas. Os pastos so percorridos por caprinos,
antlopes, etc. Essa enumerao surpreende apenas pelo lugar a que se aplica:
o Saara. A flora confunde-se totalmente. No incio do Neoltico ainda so
encontradas nogueiras, tlias, salgueiros e freixos! Uma concha de um limnfilo
descoberto em Meniet (Mouydir, Saara argeliano), indica uma precipitao
de pelo menos 500 mm de gua; a urze cobre alguns estgios das montanhas.
Muito rapidamente, entretanto, essa vegetao se degrada e cede lugar a uma
outra, mais caracterstica de zona rida: cedro, pinho de Alep, zimbro, oliveira,
almecegueira e, entre outras, o ldo-bastardo, muito importante na alimentao
dos autctones.
    Nos lagos h tambm grande quantidade de moluscos; encontram-se, em
certos lugares, traos de enormes depsitos de valvas de nio.
    Com efeito, uma das caractersticas do Saara neoltico nos alvores dessa
civilizao  a presena de um conjunto de lagos isolados.  s margens desses
lagos que os neolticos de tradio sudanesa iro desenvolver-se. So eles que
tornaro possvel, por seus inmeros recursos, o estabelecimento humano.

      O Saara, bero agrcola
   A ideia foi lanada em diferentes oportunidades e, por vrias vezes, sem
verificao das possibilidades do emprego de um termo com implicaes to
graves.
   No se pode provar a prtica da agricultura com base apenas na presena de
objetos ou utenslios tidos como de uso agrcola. A agricultura fica demonstrada,
ao contrrio, quando os fsseis, gros ou plens justificam a hiptese aplicada
aos objetos ou utenslios. Os sacos de milho-mido encontrados em Tichitt
(Mauritnia) confirmam as ideias de Munson82 e as de Monod83 a respeito.




82    MUNSON, P. 1968. p. 6-13.
83    MONOD, T. 1961.
Pr-Histria do Saara                                                          679



    Quanto ao mais, sabemos que os neolticos do Saara acumularam grandes
quantidades de bagas de celtis sp, ou ldo-bastardo, que certamente foram
usadas na alimentao. Observou-se ainda em Meniet e Tichitt a presena de
gros de cucurbitceas, que provavelmente so de melancia e no de citrulus
colocinthis. Esses dois vegetais pressupem a coleta; no mximo, a protocultura,
mas no a agricultura, que se constitui na preparao do solo em vista de uma
cultura racional de plantas selecionadas.
    O quadro, portanto,  bastante pobre. Em Meniet84 a anlise palinolgica de
sedimentos neolticos no forneceu nenhuma indicao precisa do conhecimento
de qualquer forma de agricultura. No Adrar Bous uma anlise sumria no
acrescentou nenhum dado novo, tampouco em Ti-n-Assako e nos inmeros
stios estudados desse ponto de vista. Os nicos traos certos de um consumo de
produtos vegetais nos stios neolticos saarianos so os de gros: ziziphus, lotus,
celtis sp, diversas gramneas selvagens; devem-se acrescentar ainda os sinais de
Pennisetum evidenciados por Munson e os gros de milho-mido descobertos
em Tichitt nas turfas fossilizadas.
    No entanto,  preciso fazer a anlise sistemtica dos sedimentos neolticos
antes de tirar qualquer concluso. Apesar de seu enorme interesse, a palinologia
foi muito pouco aplicada no Saara. De todo modo, embora algumas plantas
tenham sido cultivadas no Saara, parece improvvel que essa regio tenha sido
o lugar privilegiado onde se desenvolveram as plantas de consumo corrente no
norte da frica.
    Finalmente, depois de muito tempo, foram os criadores que, em quase todas
as regies, sucederam aos "caadores-pescadores-coletores". O fato de um
instrumental de pedra, constitudo de enxadas, ms, moedores, pesos para lastrar
bastes de escavao e pices, ser encontrado em quase toda a regio no implica,
ipso facto, a existncia de uma agricultura no sentido real do termo. Em todo o
Egito, onde esse fenmeno se desenvolveu amplamente, encontram-se traos
precisos de sua presena, assim como em Tichitt, na Mauritnia, onde poderiam
ser explicados pela existncia de aldeias sedentrias. Contudo, em outras regies,
de acordo com o atual estgio de nossos conhecimentos,  pouco provvel que
o mesmo se tenha dado. E, de qualquer forma, no se deve esquecer que em
-1000 j havia praticamente ocorrido a desertificao do Saara. A cessao das
chuvas no favoreceu a agricultura, mas isso no implica o desconhecimento
de toda a protocultura, ou da coleta seletiva que a precedeu. Alm disso, com


84   FLAMAND, G. B. M. 1921.
680                                                   Metodologia e pr-histria da frica



certeza a experimentao de alimentos de origem vegetal deve ter estimulado a
busca de espcies determinadas, que seria uma primeira forma de seleo. Mas
s h possibilidade de cultura no quadro de uma sedentarizao ou de uma
fixao sazonal. Ora, em grande parte do Saara o Neoltico em seu apogeu faz
pensar antes em acampamentos nmades que em aldeias organizadas, as quais,
no entanto, existiram.

      A origem da domesticao e o Saara
   O Saara neoltico teve vida prpria. Embora os criadores bovidianos do
Tassili n'Ajjer sejam contemporneos das carroas "a solto galope"  de idade
imprecisa mas que podem ser contemporneas das invases dos "povos do mar",
que foram dispersados ao tentarem conquistar o Egito , no deixaram de
desenvolver localmente a arte da criao do gado, que sempre surpreende o
no-iniciado. A civilizao bovidiana parece ter desenvolvido em seu apogeu
mtodos to perfeitos de criao que fazem pressupor um longo aprendizado.
Os egpcios dedicaram-se a mltiplas experincias de domesticao de animais,
informao que nos  dada pelos baixos-relevos, que mostram ter-se tentado
domar felinos e gazelas, candeos e at mesmo hienas! Qual era a situao no
Saara? O galgo sudans, precioso auxiliar dos caadores nemadi, parece ser de
origem muito antiga.  ele provavelmente que est representado nas pinturas
bovidianas. H tambm outros indcios, mas, afinal, nenhuma prova absoluta.
Sabe-se que em -2000 o boi e o cachorro eram encontrados em Aoukr, mas
os rupestres no nos mostram que animais o homem teria tentado domesticar
em perodos anteriores.

      A vida neoltica
    Sabemos que os homens do Neoltico de tradio sudanesa foram de uma
curiosidade ilimitada no que diz respeito a novas tcnicas. Continuaram a lascar
a pedra, obtendo, assim, uma maravilhosa panplia de armaduras de pontas de
flechas e um instrumental em geral muito leve, composto de lamelas retocadas
de diversas maneiras, furadores, raspadores de formas mltiplas, micrlitos
geomtricos, serras, etc. A caracterstica nova  a tcnica sutil do polimento
da pedra, aplicada aos machados, enxadas, goivas e buris. Por vezes recipientes
de pedra dura, labrets, contas de amazonita, cornalina e quartzo, e bolas, talvez
usadas como projteis de funda, vm completar essa panplia. A ela se acrescenta
uma profuso de ms fixas e de moedores que no consistem necessariamente
Pr-Histria do Saara                                                 681




Figura 23.13    Pontas de flechas neolticas, In Guezzam (Nger).
Figura 23.14    Machado com garganta neoltica, Adrar Bous (Nger).
Figura 23.15    Machado polido neoltico, regio de Faya (Chade).
682                                                   Metodologia e pr-histria da frica



em prova do conhecimento da agricultura  e kwes  pedras para lastrar bastes
para escavao, recentemente ainda em uso na frica do Sul e tambm entre
os Pigmeus. O conjunto  completado por uma admirvel srie de vasos de
cermica, cujas formas e decorao j so bem "negro-africanas". O osso foi
trabalhado, servindo para confeccionar arpes, punes, agulhas, pentes de
oleiro, brunidores e talvez punhais. Os neolticos de tradio sudanesa souberam
adaptar-se maravilhosamente ao determinismo mineralgico das regies que
ocupavam, o que levou a acreditar numa multiplicidade de bases tnicas, apesar
de, ao contrrio, parecerem muito estveis e culturalmente muito unidos, fato
que se deveria  homogeneidade da inspirao das decoraes de sua cermica.
Devemos acrescentar que esses homens, formados no cadinho da vida socializada,
devem ter conhecido a navegao, e que  possvel que tenham circulado nos
lagos com barcos de canios, iguais aos que se conhecem no Chade com o nome
de kaddei. Os neolticos de tradio capsiense opem-se em muitos pontos aos
seus homlogos e predecessores de tradio sudanesa. Esses ltimos, partindo
do Sudo, caminharam em diversas vagas de leste para oeste, sem atingir, ao
que parece, a costa atlntica. Eram melanodermas e, quase sempre, africanos
autnticos. Os homens que partiram dos altos planaltos argelianos eram mais
mediterrnicos e herdaram de seus predecessores capsienses um dom notvel para
o lascamento do slex. O inventrio de seu instrumental  surpreendente; as finas
lamelas com retoques quase invisveis lembram joias. Furadores, pontas agudas,
pequenos raspadores juntam-se a micrlitos geomtricos formados de resduos
de lminas  trapzios, retngulos, tringulos e segmentos de crculo. Mas nem
por isso ignoravam a arte da caa, pois confeccionavam inmeras armaduras de
pontas de flechas, que so hoje, lamentavelmente, objeto de um grande comrcio
turstico. Os machados polidos so numerosos e desconhecem a forma espessa
e reduzida, frequente no Neoltico de tradio sudanesa. Diferentemente deste,
a tradio capsiense deu maior importncia ao instrumental ltico, cuja tcnica
foi tambm mais variada. Mas sabia, igualmente, polir vasilhas de pedra dura,
trabalhar em alto-relevo maravilhosas estatuetas, como a do bovdeo de Silet, o
carneiro de Tamentit, a gazela do Imakassen. A cermica, entretanto,  muito
menos rica em formas e decorao. No que faltasse imaginao aos artesos.
Ao contrrio, eles puderam demonstr-la com sua aptido para decorar ovos
de avestruz, com os quais, inteiros, faziam recipientes e, partidos, inmeras
contas. Muitos fragmentos de casca ainda conservam finos desenhos a trao.
Evidentemente, nesse contexto existem tambm ms fixas e moedores. Sabe-
-se com certeza que uma parte desse material serviu para triturar corantes,
provavelmente utilizados nas pinturas corporais.
Pr-Histria do Saara                                                         683



    O Neoltico litoral  pouco conhecido. Os trabalhos a respeito ainda no
foram publicados, ms  sabido que em toda a extenso da costa atlntica, a partir
do Marrocos, existem inmeros depsitos de conchas, por vezes verdadeiros tells,
misturados com cinzas e fragmentos de cermica. Isto ocorre at o Senegal,
parecendo que a esta latitude um movimento tnico proto-histrico passa a
predominar. Mantm-se inexplicvel a razo pela qual na fronteira da Mauritnia
e Saara Ocidental a cermica de base redonda ou plana conhecida no Saara d
lugar a uma cermica maravilhosa de base nitidamente cnica. Entretanto, nada
foi publicado a respeito dessa nova fcies.
    Mais a leste, no Air, no Adrar Bous, uma jazida sobressai claramente em
relao a outras fcies conhecidas do Neoltico saariano de qualquer origem.
 a que se chamou Tenerense. Obtido de um jaspe verde-vivo e irrompendo
num magnfico instrumental, esse Neoltico  rico em formas que evocam o
Eneoltico egpcio. Discos planos, armaduras em flor de ltus, raspadores com
entalhe chamados "crescentes", enxadas com gume polido pelo uso podem ser,
com efeito, coincidncias, mas a essa altura seria verdadeiramente estranho que
fossem casuais. Acrescentamos, ainda, que certos tipos de ms fixas associadas
a esse brilhante complexo so os mesmos que foram encontrados diante dos
baixos-relevos egpcios, e somos levados a crer que o Adrar Bous foi colonizado
por homens que teriam tido contatos estreitos com o Nilo, apesar de ser estranho
o fato de terem utilizado uma cermica semelhante, em todos os aspectos,  do
Neoltico de tradio sudanesa. Mas esta ltima no teve seus arqutipos em Esh
Shaheinab?
    Ao sul da linha dos lagos, em uma poca mais mida, a floresta deve ter
sido mais densa e mais verde do que hoje. Isso sem dvida explicaria que se
tivesse constitudo numa barreira que os habitantes do Saara no conseguiram
transpor. O estudo do Neoltico florestal, que por razes de comodidade e de
anterioridade foi denominado "guineense" mas que na verdade parece ter -se
originado em local muito mais distante, no Congo, talvez, est apenas comeado.


    Concluso
   O apaixonante estudo do passado do Saara est ainda engatinhando.
Oferece aos especialistas e aos homens de boa vontade uma oportunidade
excepcional que urge aproveitar antes que a explorao das ltimas reservas
naturais faa desaparecer para sempre a possibilidade de desvendar o mistrio
dos problemas que decididamente dizem respeito ao passado do homem. Ora,
684                                                  Metodologia e pr-histria da frica



 tomando conscincia do passado que a humanidade poder forjar seu futuro:
nossa experincia no se limita ao presente, mas vem em linha direta da pr-
-histria. Neg-lo  tirar-lhe toda base racional, todo valor cientfico. Mas a
pesquisa da pr-histria do Saara deixou de ser individual para tornar-se um
empreendimento coletivo, de equipe, portanto que precisa de meios para sua
realizao.  impressionante constatar como ela se encontra abandonada. Cabe
aos interessados em reconstituir a histria desse grande e rude deserto formar
os homens que sabero desvendar os seus segredos.
Pr-Histria da frica ocidental                                            685



                                   CAPTULO 24


             Pr-Histria da frica ocidental
                                      T. Shaw




    As principais zonas climticas e fitolgicas atravessam toda a frica ocidental,
de leste a oeste. As precipitaes mais fortes ocorrem perto da costa, e diminuem
 medida que se vai para o norte e para o interior. Ao norte, o lado meridional do
deserto faz limite com a faixa seca do Sahel; mais ao sul, encontra-se a zona da
grande savana; entre a savana e a floresta tropical, densa e mida, que se limita
com a costa, fica uma zona de floresta desmoitada, que antes havia sido floresta
e que a ao do homem transformou em savana.


    O clima e o meio ambiente
    As precipitaes na rea so nitidamente sazonais: no sul, elas predominam
de abril a outubro (com mxima em julho e outubro); no norte, de junho a
setembro. Essas chuvas so trazidas pelos ventos de sudoeste, que se enchem
de umidade no Atlntico. Porm, a frente intertropical corta a frica ocidental
de leste a oeste, separando a massa de ar tropical martima, formada sobre o
sul do Atlntico, da massa de ar continental e seca do Saara. A posio da
frente varia de acordo com as estaes do ano. Em janeiro, est no extremo
sul, de modo que os ventos alsios do nordeste, vindos da massa setentrional
de ar seco, descem diretamente na costa da Guin, provocando um grande
declnio de umidade.
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Figura 24.1   Zonas de vegetao da frica ocidental.
Pr-Histria da frica ocidental                                                687



    Para conhecer a pr-histria e a arqueologia da frica ocidental, 
imprescindvel que se tenha conhecimento dos padres climticos e vegetais: a
localizao e a extenso das diferentes zonas de vegetao, bem como a posio
da frente intertropical, sofreram variaes no passado, afetando as condies em
que o homem vivia, em diferentes perodos, na frica ocidental.
    Dentro dessas zonas de vegetao existem certas particularidades geogrficas
que provocam modificaes locais no padro geral: o macio de Futa Djalon, as
terras altas da Guin; no Togo, a cordilheira Atakora; em Camares, o planalto
de Bauchi e as terras altas de Mandara; o delta interior do Nger e sua grande
curva em direo ao norte, o lago Chade e o delta da foz do Nger. Entre Gana
e Nigria, h uma quebra de continuidade no cinturo de floresta tropical mida,
que  conhecida como a "passagem de Daom".


    O homem prhistrico
    Vestgios paleontolgicos
    At o momento, a frica ocidental no apresentou vestgios de formas humanas
primitivas nem de homindeos comparveis aos que foram achados na frica
oriental e meridional1, nem tampouco artefatos da poca correspondente2. Apesar
disso, poderamos supor que tais seres existiram na frica ocidental? A atual falta
de dados significa que esses homindeos realmente no viveram na frica ocidental
naquela poca, ou que as evidncias ainda no foram encontradas? Essa  uma
pergunta impossvel de ser respondida no momento; entretanto, na frica ocidental
no foi realizado nenhum esforo de pesquisa comparvel ao que teve lugar na frica
oriental. Devemos admitir tambm que os depsitos de mesma idade parecem ser
raros na frica ocidental, e  evidente que, devido ao alto grau de umidade e acidez
do solo, as condies de preservao so muito piores3. Esse fato  ilustrado por
dados de um perodo muito mais recente: um mapa de distribuio, na frica,
das descobertas de vestgios paleontolgicos da Late Stone Age, aponta um espao
em branco na regio da frica ocidental-Zaire4. Mas, depois da elaborao desse
mapa, descobertas referentes a essa poca feitas na Nigria e em Gana revelam que
o espao em branco indicava uma dada situao de pesquisa e no a ausncia de

1    LEAKEY, R. E. F. 1973.
2    LEAKEY, M. 1970.
3    CLARK, J. D. 1968, p. 37.
4    GABEL, C. 1966, p. 17.
688                                                           Metodologia e pr-histria da frica



ocupao humana5. O mesmo podemos dizer em relao ao perodo anterior, que
vamos abordar6, e tambm quanto ao mapa de distribuio dos depsitos fsseis de
vertebrados do Pleistoceno Mdio e Superior, que mostra um espao em branco
semelhante7. At onde podemos remontar, deve ter havido em certas partes da
frica ocidental condies ecolgicas muito semelhantes quelas que favoreceram
o desenvolvimento dos australopitecos da frica oriental  o que no significa
que essas regies foram de fato ocupadas. H muitas regies da floresta tropical
que poderiam, atualmente, prover as necessidades dos gorilas, mas na verdade, eles
so encontrados apenas em duas regies bem delimitadas8; e, apesar de uma certa
similaridade de condies, a savana da frica ocidental no sustenta uma caa to
rica em nmero e em variedade como a da frica oriental9.
    A poro craniofacial de uma caixa craniana encontrada a 200 km a oeste-
-sudoeste de Largeau  uma evidncia positiva que fala a favor da possibilidade de
serem encontrados, na frica ocidental, alguns dos primeiros homindeos do comeo
do Pleistoceno. Esse espcime foi chamado de Tchadanthropus uxoris10; inicialmente
pensou-se que se tratava de um australopiteco11, mas depois consideraram-no mais
prximo do Homo habilis12. De fato,  difcil fazer um julgamento, devido  falta de
datas exatas e por causa da fragmentao do crnio. Um estudo mais minucioso dessa
pea, com capacidade craniana de 850 a 1200 cm2 e que apresenta caractersticas
arcaicas e desenvolvidas, sugere uma evoluo para o Homo erectus13, um estgio mais
complexo dos homindeos. Convm repetir que na frica ocidental no h exemplos
dessa forma, embora tenham sido encontrados na Arglia14 alguns espcimes desse
mesmo tipo, chamados de Atlanthropus mauritanicus.

      As indstrias
   Embora o homem da pr-histria tenha feito utenslios tanto de osso e madeira
quanto de pedra, a madeira raramente  preservada e as condies do solo na frica


5     SHAW, T. 1965; 1969b; BROTHWELL, D. e SHAW, T. 1971; FLIGHT, C. 1968, 1970.
6     COPPENS, Y. B.I.F.A.N. 1966, p. 373.
7     COPPENS, Y. B.I.F.A.N. 1966, p. 374.
8     DORST, J. P. e DANDELOT, P. 1970, p. 100.
9     DORST, J. P. e DANDELOT, P. 1970, p. 213-23.
10    CAMPBELL, B. G. 1965, p. 4-9.
11    COPPENS, Y. 1961.
12    COPPENS, Y. 1965a; 1965b; COOKE, H. B. S. 1965.
13    COPPENS, Y. 1966, Anthropologia.
14    ARAMBOURG, C. e HOFSTETTER, R. 1954, 1955; ARAMBOURG, C. 1954, 1966.
Pr-Histria da frica ocidental                                                               689



ocidental no so favorveis  conservao do osso. Alm das lascas trabalhadas
de modo rudimentar, os utenslios de pedra mais simples e mais primitivos so os
seixos ou blocos, talhados por percusso constituindo instrumentos que apresentam
um gume de 3 a 12 cm de comprimento. Eles so conhecidos como indstria do
seixo lascado ou utenslios olduvaienses, referindo-se  garganta de Olduvai, na
Tanznia. So bastante frequentes na frica, sendo que os homens primitivos que
as fabricaram podem muito bem ter-se espalhado pela maior parte das savanas e
matas do continente. H exemplos desses utenslios em diversos lugares da frica
ocidental15, mas at o momento no  possvel ter certeza se algum deles data
genuinamente do mesmo perodo da indstria olduvaiense, que, na frica oriental;
situa-se entre -2 e -0,7 milhes de anos. Um estudo minucioso dos seixos lascados
encontrados ao longo do rio Gmbia, no Senegal, demonstrou ser bem provvel que
alguns deles tenham origem neoltica, enquanto outros possivelmente remontariam
 Late Stone Age; no h evidncias estratigrficas que permitam consider-los
como indstria da poca pr-acheulense16. Ento, s podemos ter certeza de que
esses seixos lascados pertencem a um perodo anterior quando eles so datados
independentemente, por terem sido encontrados in situ em depsitos que podem
ser datados, seja de modo relativo, seja de modo absoluto. A paleontologia permite
que se estabeleam datas relativas para os depsitos de Yayo, que revelaram o
Tchadanthropus; mas, infelizmente, no foi encontrada a nenhuma indstria
associada. A partir das indicaes fornecidas pelos ossos de fsseis do extinto
Hippopotamus imaguncula, extrados de um poo com profundidade de 58 m,
situado em Bornu17,  provvel que os sedimentos da bacia do Chade contenham
material paleontolgico e, sem dvida, arqueolgico do Pleistoceno; esse material,
porm, repousa sob uma camada muito espessa de aluvies mais recentes.


     Mudanas climticas
   Na Europa, ocorreram vrias glaciaes durante o Quaternrio, e as quatro
principais receberam o nome de rios da Alemanha. Sabe-se agora que, apesar
de os fenmenos glaciais apresentarem ritmo e padro gerais, muitas variaes
locais devem ser levadas em considerao; por isso, tambm se usam nomes


15   DAVIES, O. 1961, p. 1-4; DAVIES, O. 1964, p. 83-91; MAUNY, R. 1963; SOPER, R. C. 1965, p. 177;
     HUGOT, H. J. B.I.F.A.N. 1966.
16   MAUNY, R. 1968, p. 1283; BARBEY, C. e DESCAMPS, C. 1969.
17   TATTAM, C. M. 1944, p. 39.
690                                                                   Metodologia e pr-histria da frica



locais para cada regio particular. Embora o quadro resultante seja muito mais
complexo,  provavelmente bem mais prximo da realidade18.
   A mesma coisa aconteceu na frica, quando, nos vestgios de praias lacustres
elevadas graas a fases de eroso e de depsitos de cascalhos, os primeiros
pesquisadores encontraram traos caractersticos de perodos do Quaternrio, ao
longo dos quais o clima africano tinha sido muito mais mido que atualmente.
Esses perodos de precipitaes mais abundantes foram batizados de "pluviais".
A partir do momento em que o conceito de perodos glaciais foi aceito para as
zonas temperadas setentrionais, o que h de mais natural do que a ideia de que
houve, no calor dos trpicos, um perodo pluvial correspondente aos perodos
glaciais da Europa e da Amrica do Norte?19 Com o tempo, a ideia de trs e
depois de quatro perodos pluviais africanos tornou-se crena ortodoxa20; sups-
-se que eles correspondiam s glaciaes da era glacial europeia21, embora tenha
sido proposta uma nova teoria, segundo a qual um perodo pluvial africano
corresponderia a duas glaciaes setentrionais22. O fato de ter sido possvel
expor pontos de vista to diferentes mostra a quase impossibilidade de qualquer
correlao cronolgica exata. De qualquer forma, como se trata de grandes
distncias, as correlaes geolgicas no deveriam ser estabelecidas em funo
de climas e sim de formaes rochosas. Alm disso, os vestgios dos perodos
pluviais do lugar a muita confuso, quando comparados com os traos das
glaciaes23. Com o tempo, a prpria hiptese de quatro perodos pluviais na
frica foi posta em dvida24.
   A frica ocidental no escapou  extrapolao, e esforos tm sido feitos no
sentido de utilizar os resultados obtidos em outras partes do continente para
conferir uma certa significao aos dados que, de outro modo, ficariam isolados
ou difceis de interpretar25. Mais recentemente, entretanto, dois elementos
contriburam para o progresso da abordagem cientfica em relao  frica




18    FLINT, R. F. 1971; SPARK, B. W. e WEST, R. G. 1972.
19    WAYLAND, E. J. 1934; 1952.
20    LEAKEY, L. S. B. 1950; LEAKEY, L. S. B. 1952, Resoluo 14 (3), p. 7; CLARK, J. D. 1957, p. XXXI,
      Resoluo 2.
21    NILSSON, E. 1952.
22    SIMPSON, G. C. 1957.
23    CLARK, J. D. 1957, p. XXXI, Resoluo 4; BUTZER, K. W. 1971, p. 312-15.
24    FLINT, R. F. 1959.
25    BOND, G. 1956, p. 197-200; FAGG, B. E. B. 1959, p. 291; DAVIES, O. 1964, p. 9-12; PIAS, J. 1967.
Pr-Histria da frica ocidental                                                                  691



ocidental: uma pesquisa mais aprofundada sobre esse assunto26, e o surgimento
de uma nova teoria sobre as mudanas climticas na frica27.
    No que diz respeito a essas mudanas climticas, a frica ocidental no
oferece nenhuma informao geolgica ou geomorfolgica digna de f, que
remonte a um perodo anterior a antes da ltima glaciao na Europa. O
estudo do lago Chade evidenciou a existncia de altos nveis lacustres a partir
de -40.00028. Esse nvel alto  marcado pelo espinhao de Bama, sobre o qual
se eleva Maiduguri, que nesse local tem direo noroeste-sudeste. Depois, as
duas extremidades estendem-se em direo nordeste, cercando Largeau, toda
a depresso do Bodele e o Bahr el-Ghazal. Esse espinhao, considerado mais
uma barra de lagoa do que o traado real de uma margem, pode ter levado 6000
anos para se formar29. O antigo lago ficava a uma altura de 332 m acima do
nvel do mar, ao passo que atualmente a altitude do lago Chade  de 280 m; s
vezes acontecia de ele transbordar na passagem de Bongor e drenar o Benue.
Durante esse perodo mais mido, tudo indica que a floresta da frica ocidental
estendia-se bem mais para o norte do que atualmente; no entanto,  impossvel
afirmar que ela tenha atingido a latitude de 11o N30 ou a atual linha isoieta dos
750 mm31 enquanto a palinologia no nos tiver fornecido essa confirmao.
    Aproximadamente na poca do ltimo mximo da ltima glaciao no norte
da Europa (mais ou menos por volta de -20.000), parece que a frica ocidental
era muito mais seca do que agora. Nessa poca, os rios da regio despejavam
suas guas num oceano que ficava 100 m abaixo do nvel de hoje, pois uma
grande quantidade de gua ficou bloqueada nas calotas glaciais dos plos. Assim,
em Makurdi, o Benue cavou um leito cerca de 20 m abaixo do nvel atual do
mar, que se mostra ainda mais profundo em Iola; enquanto isso, em Jebba, o
leito fssil do Nger se encontra 25 m abaixo do nvel do mar e se aprofunda
ainda mais em Onitsha32. Tambm o Senegal corria num leito bem abaixo
do nvel de agora; mas grandes dunas de areia bloquearam sua foz, o mesmo
acontecendo com o curso mdio do Nger. Nessa poca, o lago Chade era seco;


26   Associao Senegalesa para o Estudo do Quaternrio, 1966, 1967, 1969; BURK, K. et al., 1971; BUT-
     ZER, K. W., 1972. p. 312-51.
27   ZINDEREN-BAKKER (E. M. van), 1967.
28   SERVANT, M. et al., 1969; GROVE, A. 1. e WARREN, A., 1968; BURKE, K. et al., 1971.
29   GROVE, A. T. e PULLAN, R. A., 1964.
30   DAVIES, O., 1964.
31   DAVIES, O., 1960.
32   VOUTE, C., 1962; FAURE, H. e ELOUARD, P., 1967.
692                                                   Metodologia e pr-histria da frica



dunas de areia formaram-se no fundo do lago e em certas regies da Nigria
setentrional indicando que havia precipitaes anuais inferiores a 150 mm, ao
passo que atualmente elas ultrapassam 850 mm. Embora apenas os depsitos da
foz do Senegal e das proximidades do lago Chade possam ser datados de modo
absoluto, todas as outras evidncias indicam que houve um perodo seco por
volta de -18.000. Se as dunas de areia foram formadas na latitude de Kano, a
regio florestal e a savana devem ter sido empurradas para bem longe, em direo
ao sul; na verdade,  provvel que a maior parte da floresta tenha desaparecido,
com exceo de florestas relquias em reas com precipitaes mais elevadas, tais
como a costa da Libria, parte do litoral da Costa do Marfim, o delta do Nger
e as montanhas de Camares.
    Aproximadamente no ano -10.000, as condies parecem ter evoludo para
uma umidade maior. O Nger do Mali transbordou sobre o Taoussassill, e o
Mega-Chade, como foi chamado33, recobriu novamente uma vasta superfcie;
as dunas de areia formadas durante o perodo seco anterior ficaram com
uma cor avermelhada, devido s estaes mais midas. Vestgios de carvo
vegetal dispersos em Igbo Ukwu, que datam do dcimo primeiro e do stimo
milnio antes da Era Crist, podem talvez indicar queima de arbustos e a
existncia, nessa latitude e nessa poca, de uma vegetao do tipo savana34.
 possvel que nesse perodo a floresta tivesse se espalhado outra vez em
direo ao norte, a partir das zonas-refgios do litoral, onde ela sobreviveu
no perodo seco precedente. A teoria mais satisfatria para relacionar os
acontecimentos climticos do fim do Quaternrio na frica ocidental aos
do norte da Europa baseia-se em provas, cada vez mais numerosas, de que
as variaes de temperatura so um fenmeno mundial; elas provocaram um
deslocamento das zonas climticas nos dois lados do equador, deslocamento
esse modificado pela configurao das grandes massas terrestres e ocenicas35.
Quando as temperaturas do planeta caram, o resultado foi uma glaciao nas
latitudes norte, que empurrou o anticiclone polar para o sul; as zonas climticas
situadas mais alm foram comprimidas em direo ao equador, de modo que
a frente intertropical norte foi deslocada para o sul de sua posio atual. Em
consequncia disso, os ventos secos do nordeste sopravam por mais tempo e
com maior fora, de uma extremidade a outra da frica ocidental, enquanto
os ventos pluviais do sudoeste, chamados ventos de mones, sopravam com

33    MOREAU, R. E. 1963; SERVANT, M. et al. 1969.
34    SHAW, T. 1970, p. 58, 91.
35    ZINDEREN-BAKKER (E. M. van). 1967.
Pr-Histria da frica ocidental                                                            693



menos fora, numa distncia menor, durante a estao mida. Esse fato explica
a coincidncia entre um perodo seco na frica ocidental e um perodo glacial
setentrional. Nessa mesma poca, o norte do Saara era mais mido do que
atualmente, pois a trajetria das tempestades do Atlntico desembocava no
sul da cadeia do Atlas, ao invs de passar ao norte da mesma.
    Depois, quando as temperaturas mundiais se elevaram, as calotas glaciais e a
frente intertropical afastaram-se para o norte e o nvel do mar atingiu a altura
de hoje. Devido ao deslocamento da trajetria das tempestades do Atlntico
em direo ao norte, o Saara do norte ficou mais seco; porm, suas reservas
aquticas e vegetais foram suficientes para adiar o dessecamento final, que
acabou ocorrendo por volta de -3000. Quando a aridez se tornou to intensa que
a populao no tinha mais condies de viver no Saara, tal fato naturalmente
teve repercusses nas zonas situadas mais ao sul.


     A Idade da Pedra
   Os termos "paleoltico", "epipaleoltico" e "neoltico" ainda esto em uso
no norte da frica; em compensao, os arquelogos da frica subsaariana,
depois de muito tempo, acharam prefervel utilizar sua prpria terminologia,
baseada na realidade de um continente e no num sistema europeu, imposto
de fora. Essa nova terminologia foi adotada oficialmente h cerca de vinte
anos, no 3o Congresso Pan-Africano sobre Pr-Histria. Ns usaremos ento
os termos "Early Stone Age", "Middle Stone Age" e "Late Stone Age"36. Os
limites cronolgicos dessas divises da Idade da Pedra variam um pouco de
regio para regio. Bem aproximadamente, podemos estabelecer o perodo que
vai de -2.500.000 a -50.000 para a Early Stone Age; de -50.000 a -15.000
para a Middle Stone Age; e, finalmente, de -15.000 a -5000 para a Late
Stone Age. Com o acmulo de novas informaes, essas divises e datas to
simples passam a ser modificadas e a exigir um quadro mais completo. O
prprio termo "neoltico" est sendo cada vez mais criticado quando aplicado
 frica subsaariana; na verdade, trata-se de um termo ambguo que no se
sabe se indica um perodo, um tipo de tecnologia, um tipo de economia ou a
combinao dos trs37.


36   CLARK, J. D. 1957, Resoluo 6.
37   BISHOP, W. W. e CLARK, J. D. 1967, p. 687-899; SHAW, T. 1967, p. 9-43; VOGEL, J. C. e BEAU-
     MONT, P. B. 1972.
694                                                   Metodologia e pr-histria da frica



      A Early Stone Age na frica ocidental
      O Acheulense
    No sul, no leste e no noroeste da frica, o complexo industrial olduvaiense
cedeu seu lugar ao complexo que conhecemos sob o nome de acheulense,
caracterizado por bifaces. Os bifaces so utenslios de forma oval ou oval
apontada cujo gume, em todo o contorno, foi cuidadosamente talhado nos
dois lados; um outro tipo de biface, a machadinha, tem um gume transversal
retilneo. Embora as mulheres e as crianas provavelmente se encarregassem do
fornecimento de pelo menos metade do alimento, atravs da coleta de bagas,
gros e razes, os homens agrupavam-se e coordenavam seus esforos para caar
animais de grande porte. O fogo era conhecido na frica desde o final do
perodo acheulense. O responsvel pela fabricao dos utenslios acheulenses,
em todos os locais onde foram encontrados,  o Homo erectus. Sua capacidade
cerebral  bem inferior  do homem moderno, mas, por outro lado, ele est bem
prximo deste ltimo quanto  estrutura corporal.
    Os tipos de bifaces geralmente considerados como primitivos (mais tarde
chamados de "chelenses") no existem no Saara, mas foram encontrados no
Senegal38, na Repblica da Guin39, na Mauritnia40 e em Gana, bastante
rolados, na estratigrafia dos aluvies do terrao mdio41  qualquer que seja
o significado dessa situao em termos de cronologia relativa. Sua rea de
distribuio foi objeto de mapas42 que pareciam indicar uma colonizao a
partir do rio Nger, ao longo da cadeia montanhosa de Atakora e das colinas
do Toga.
    Os ltimos estgios do Acheulense, caracterizados por belos bifaces talhados
com percutor de osso ou madeira, so prolficos no Saara, ao norte do paralelo
16. Talvez seja conveniente relacionar essa distribuio ao penltimo perodo
glacial na Europa (Riss), ou, talvez, ao primeiro mximo da ltima glaciao
(Wrm); nessa poca as chuvas devem ter sido mais abundantes no norte do
Saara e a regio desrtica recuou para o sul, oferecendo poucos atrativos para os
caadores-coletores. As terras elevadas do planalto de Jos parecem ter escapado
 regra:  possvel que o clima no tenha sido to rido e que tenha favorecido


38    CORBEIL, R. 1951.
39    CREACH, P. 1951.
40    MIAUNY, R. 1955, p. 461-79.
41    DAVIES, O. 1964, p. 86-91.
42    DAVIES, O. 1959.
Pr-Histria da frica ocidental                                                   695



a existncia de vastas campinas levemente arborizadas, do tipo procurado pelo
homem do Acheulense. Esse planalto apareceu como um promontrio de terras
habitveis projetado para o sul de Air e da principal regio acheulense do Saara
(norte do paralelo 16). Com base no mtodo do carbono 14, estabeleceu-se
que o material associado aos utenslios acheulenses, nos cascalhos de base que
enchem os canais cavados durante o perodo mido anterior, data de uma poca
"anterior a 39.000 B.P."43.
    Quando o homem do Acheulense habitava o planalto de Jos,  provvel
que o macio de Futa Djalon tambm tivesse sido favorvel  ocupao pelo
homem; alguns utenslios acheulenses foram descobertos nessa regio 44. H
tambm vestgios do Acheulense Mdio e Superior nos arredores e ao norte do
alto Senegal; tais vestgios poderiam ser considerados um elo de ligao entre a
regio de Futa Djalon e os prolficos stios arqueolgicos da Mauritnia.
    Traos do Acheulense foram registrados45 no sudeste de Gana e ao longo das
cadeias montanhosas do Toga e de Atakora; esses traos sugerem a possibilidade
de uma penetrao pelo norte dessas regies, que deviam ter um meio ambiente
favorvel. Entretanto, essa penetrao parece no ter sido muito significativa.
Na verdade, nenhum vestgio do Acheulense foi descoberto na regio atravs da
estratigrafia e  muito difcil, usando apenas a tipologia, classificar definitivamente
como acheulenses pequenas colees e raros espcimes. Isso acontece porque
algumas formas tendem a sobrepor-se s formas mais recentes da indstria
sangoense46 ou a confundir-se com elas.

     O Sangoense
    difcil definir o complexo industrial sangoense47 e at se pe em dvida
a sua existncia na frica ocidental48. Sucedendo o Acheulense e conservando
certas peas de seu instrumental, tais como pico e o biface, vem  luz um
novo complexo industrial; a machadinha desapareceu, os esferoides tornaram-
-se raros e deu-se prioridade aos pices, geralmente de forma pesada e macia.
Encontramos tambm choppers, em geral talhados sobre seixos.


43   BARENDSON, G. W. et al. 1965.
44   CLARK, J. D. Atlas, 1967.
45   DAVIES, O. 1964; CLARK, J. D. Atlas, 1967.
46   DAVIES, O. 1964, p. 83-97, 114, 137-39.
47   CLARK, J. D. 1971.
48   WAI-OGUSU, B. 1973.
696                                     Metodologia e pr-histria da frica




Figura 24.2 Cermica do Cabo
Manuel, Senegal; fragmentos decorados
(Foto I. Diagne, Museu do IFAN).
Figura 24.3 Brunidor de osso,
encontrado no stio neoltico do Cabo
Manuel (Foto I. Diagne, Museu do
IFAN).
Pr-Histria da frica ocidental                                              697



    Na frica ocidental, a distribuio dos elementos do Sangoense  mais
meridional que a do Acheulense49, sugerindo um novo modo de fixao. No
cabo Manuel, em Dacar, uma indstria antes considerada neoltica50, agora
 reconhecida como sangoense 51 ou, eventualmente, como uma de suas
sobrevivncias tardias. O mesmo pode-se dizer de certos elementos coletados
em Bamaco52. Na Nigria, os vestgios sangoenses situam-se, sobretudo, na parte
do pas que se estende do sul do planalto de Jos para o norte da floresta tropical
e densa; eles tambm so encontrados ao longo dos vales fluviais, em cascalhos
existentes entre 10 e 20 m acima do nvel atual do rio53. No vale do Nger,
perto de Bussa, existe uma indstria constituda, sobretudo, de seixos lascados
e que no apresenta indcios de pices; entretanto, por razes geolgicas, ela
 considerada contempornea do Sangoense54. Constatamos a presena de
utenslios sangoenses espalhados no p da cadeia montanhosa do Atakora-
-Togo e ao sul de Gana55. Esse material  raro no norte de Gana, mas aparece
com certa frequncia no sul.
    Em outras partes da frica56 atribuem-se ao Sangoense datas que remontam
a -50.000 e sugeriu-se que o complexo industrial sangoense poderia refletir a
necessidade de adaptar-se a uma regio mais arborizada durante um perodo
cada vez mais seco57. Na frica ocidental, a indstria sangoense no foi datada
pelo mtodo do carbono 14; no sul de Gana, o material sangoense do atalho da
estrada de ferro de Asokrochona , em sua totalidade, anterior ao "Beach IV"
de Davies, que ele prprio compara ao interestadial de Gottweig58  posio
estratigrfica que no fez nada mais do que dar o terminus post quem, que ns j
devamos esperar. Se, perto de Jebba, os cascalhos situados de 10 a 20 m acima
do Nger foram depositados quando o leito do rio correspondia ao nvel do alto
mar do Inchiriense Superior59, a presena entre eles de utenslios sangoenses
no rolados sugere uma data perto de -30.000; os espcimes rolados poderiam

49   CLARK, J. D. Atlas, 1967.
50   CORBEIL, R. et al. 1948, p. 413.
51   DAVIES, O. 1964, p. 115; HUGOT, H. J. 1964, p. 5.
52   DAVIES, O. 1964, p. 113-14.
53   DAVIES, O. 1964, p. 113-4; SOPER, R. C. 1965, p. 184-86.
54   SOPER, R. C. 1965, p. 186-88.
55   DAVIES, O. 1964, p. 98, 100.
56   CLARK, J. D. 1970, p. 250.
57   CLARK, J. D., 1960, p. 149.
58   DAVIES, O. 1964, p. 23, 137-42.
59   FAURE, H. e ELOUARD, P. 1967.
698                                                                      Metodologia e pr-histria da frica



ser contemporneos ou mais antigos.  possvel que a distribuio meridional
do Sangoense, num meio florestal e ao longo dos rios, testemunhe um modo de
vida adaptado  seca, anterior a -40.000; depois disso, o lago Chade comeou a
encher-se e a espalhar-se. Talvez os animais que eram caados outrora tenham
se tornado raros, fugindo em direo ao sul; o aumento na quantidade de pices
pode ser uma resposta  necessidade tanto de arrancar razes e tubrculos quanto
de cavar fossos para pegar animais, pois j no era to fcil caar em espao
aberto.

      A Middle Stone Age na frica ocidental
    O termo Middle Stone Age serve para descrever um conjunto de complexos
industriais aproximadamente de -35.000 a -15.000.
    Na frica ocidental, as indstrias pertencentes  Middle Stone Age foram
identificadas com menos certeza do que no resto da frica subsaariana.
Alguns espcimes raros do Lupembiense foram encontrados em Gana60 e na
Nigria61, mas nenhum deles oferece indicaes estratigrficas satisfatrias para
sua datao. No planalto de Jos e ao norte do mesmo, nas colinas de Lirue,
descobriram-se sries importantes de um material caracterizado por tales
facetados, que foram classificadas como pertencentes  Middle Stone Age62;
em Nok, essas sries esto em estratigrafia entre os cascalhos de base contendo
utenslios acheulenses e os depsitos. mais recentes, que apresentam elementos
da cultura Nok63. Sem relao com o complexo industrial lupembiense, tais sries
teriam mais pontos em comum com as indstrias do Paleoltico Mdio do norte
da frica, do tipo geral "musteriense", e provavelmente refletem um modo de
vida mais adaptado  savana. Indstrias semelhantes foram encontradas em
Gana, na Costa do Marfim64, em Dacar65 e no Saara Centrai66. Um fragmento
de madeira proveniente dos depsitos de Zenebi, no norte da Nigria, um dos
stios aluviais que continham vestgios musterienses, fornece uma data de -3485
110; entretanto, a posio exata desse fragmento de madeira em relao aos


60    DAVIES, O. 1964, p. 108-13.
61    Achado na superfcie, na regio de Afikpo, pelo professor D. D. Hartle e anteriormente nas colees da
      Universidade da Nigria, Nsukka.
62    SOPER, R. C. 1965, p. 188-90.
63    FAGG, B. E. B. 1956a, p. 211-14.
64    DAVIES, O. 1964, p. 124-42; CLARK, J. D. Atlas, 1967.
65    CORBEIL, R. et al. 1948; CORBEIL, R. 1951; RICHARD. 1955.
66    CLARK, J. D. Atlas, 1967.
Pr-Histria da frica ocidental                                                             699



utenslios de pedra no foi precisada, e a data  bem mais recente do que se
poderia esperar de uma indstria desse tipo67.
    Em Tiemassas, perto da costa do Senegal, as escavaes arqueolgicas
revelaram, entre outras, pontas bifaciais misturadas a utenslios do tipo Paleoltico
Mdio e Superior. No incio, considerou-se que se tratava de uma mescla de
elementos neolticos e mais antigos68. Entretanto, um exame mais meticuloso
mostrou que essas pontas bifaciais eram parte integrante de uma indstria
em estratigrafia, no comportando outros elementos neolticos; ela tambm
foi considerada como um exemplo de indstria musteriense, caracterizada
localmente por esses elementos e que substituiria, aqui, o ateriense69 encontrado
mais ao norte. Esse ltimo complexo industrial, pertencente ao final do
Paleoltico Mdio na Arglia, estende-se em direo ao sul, no deserto. Davies
v na frica ocidental um prolongamento dessa indstria que ele chama de
"ateriense guineense"70; seus argumentos, porm, no so convincentes, sendo
postos em dvida pela maior parte dos pesquisadores71.

     A Late Stone Age
   Em quase toda a frica a Late Stone Age  caracterizada pelo desenvolvimento
de pequenos utenslios de pedra, que por essa razo foram chamados de
"micrlitos". Trata-se de peas minsculas cuidadosamente talhadas para serem
cravadas nas hastes das flechas, formando pontas e farpas, ou para constiturem
outros tipos de utenslios compostos. Elas mostram que seus autores possuam o
arco e que a caa a arco desempenhava um papel importante em sua economia.
   Nesse ponto, ficamos confusos com o termo "neoltico" e com a ambiguidade
de seu significado; sempre que possvel,  conveniente evitar seu uso na frica,
principalmente na frica subsaariana72, mas deve-se levar em conta a persistncia
desse termo no norte da frica e no Saara. Nesse deserto, encontramos muitas
indstrias que foram chamadas de neolticas por causa de suas formas, e que na
regio central, datam do sexto milnio antes da Era Crist. O clima era mais
mido que atualmente, o que resultou numa flora do tipo mediterrneo e numa

67   BARENDSON, G. W. et al. 1965.
68 DAGAN, T. 1956.
69   GUILLOT, R. e DESCAMPS, C. 1969.
70   DAVIES, O. 1964, p. 116-23.
71   HUGOT, H. J. 1966a.
72   BISHOP, W. W. e CLARK, J. D. 1967, p. 898, Resoluo Q; CLARK, J. D. 1967; SHAW, T. 1967, p.
     35, Resoluo 13; MUNSON, P. 1968, p. 11. Alguns autores no compartilham dessa opinio.
700                                                                     Metodologia e pr-histria da frica




Figura 24.4   M feita de rocha vulcnica, encontrada no stio neoltico de Ngor (Foto I. Diagne, Museu
do IFAN).
Figura 24.5   Pendentes de pedra basalto do stio neoltico de Patte d'Oie (Foto I. Diagne, Museu do IFAN).
Pr-Histria da frica ocidental                                                     701



populao de pastores, que podem ou no ter sido agricultores73. No restam
dvidas acerca da presena de agricultores em Cirenaica em -480074; atualmente,
porm, ficou demonstrado que o Neoltico de tradio capsiense, largamente
espalhado pelo noroeste da frica e que sucedeu s culturas epipaleolticas,
no apresentava prticas agrcolas, embora ele tenha se estendido para alm do
segundo milnio antes da Era Crist75. Houve um tempo em que as descobertas
feitas em Rufisque, no Senegal, foram classificadas como pertencentes ao
Neoltico de tradio capsiense76, mas  prefervel consider-las como fazendo
parte do continuum microltico espalhado pela frica ocidental77. Alm dessas
escavaes perto de Dacar, esse continuum microltico ou Microltico da Guin
est amplamente distribudo na metade leste da frica ocidental; na metade
oeste, porm, ele parece estar ausente nos stios mais meridionais, na regio da
Libria, da Serra Leoa e do sul da Repblica da Guin. Foi na Guin, num certo
nmero de cavernas e abrigos sob rochas que foram feitas as primeiras escavaes
arqueolgicas da frica ocidental. Algumas dessas escavaes aconteceram
h mais de setenta anos atrs78. Em alguns stios existem peas bifaciais que
lembram formas anteriores  Late Stone Age; entre essas peas, algumas parecem
pequenas enxadas, o que no deixa de ser um testemunho indireto de que se
praticou a agricultura. Essa possibilidade certamente no deve ser descartada,
pois nessa poca o arroz substitui o inhame como principal colheita na metade
oeste da frica ocidental; esse arroz africano, o Oryza glaberrima, provavelmente
foi domesticado na zona do delta do mdio Nger79. Existem tambm em Gana
grandes fragmentos de quartzo com os contornos mal delineados80, que tambm
parecem enxadas e que tm sido considerados como uma prova da existncia
de prticas agrcolas no local; mas no h datas nem maneiras vlidas de se
comprovar isso. A maior parte dos stios da Repblica da Guin revelaram
micrlitos, machados de pedra polida, ms e cermica, o mesmo acontecendo
na Guin-Bissau81. Alguns stios guineenses continham cermica, se bem que

73   HUGOT, H. J. 1963, p. 148-51; MORI, F. 1965; CAMPS, G. 1969.
74   MCBURNEY, C. B. M. 1967, p. 298.
75   ROUBET, C. 1971.
76   VAUFREY, R. 1946; ALIMEN, H. 1857, p. 229-33; DAVIES, O. 1964, p. 236.
77   HUGOT, H. J. 1957, 1964, p. 4-6; SHAW, T. 1971a, p. 62.
78   HAMY, E. T. 1900; GUEBHARD, P. 1907, 1909; DESPLAGNES, L. B.S.G.C., 1907; HUE, 1912;
     HUBERT, R. 1922; BREUIL, H. 1931; DELCROIX, R. e VAUFREY, R. 1939; SHAW, T. 1944.
79 PORTERES, R. 1962, p. 197-99.
80 DAVIES, O. 1964, p. 203-30.
81   MATEUS, A. 1952.
702                                                       Metodologia e pr-histria da frica



na gruta de Kakimbon ela s apareceu na camada superior82. As escavaes
efetuadas no abrigo sob a rocha de Blande, na extremidade sudeste da Repblica
da Guin, revelaram igualmente uma indstria que inclua machados de pedra e
cermica, junto com instrumentos bifaciais de grande porte que lembram as das
cavernas de Kindia e Futa Djalon, mas sem qualquer elemento microltico83. Os
micrlitos tambm no aparecem na caverna de Yengema, em Serra Leoa, onde
o nvel mais antigo revelou a presena de uma pequena indstria de lascas de
quartzo, comparada pelo pesquisador  indstria de Ishango, do lago Eduardo;
no nvel mdio, os pices e as "enxadas" bifaciais  que se parecem com parte do
material das cavernas guineenses  so considerados pelo pesquisador como um
complexo industrial lupembiense; por fim, o nvel superior revelou machados
de pedra e cermica que foram situados, com base em duas dataes feitas por
termoluminescncia, no perodo de -2000 a -175084. De qualquer modo, aparece
um elemento microltico nos dois outros abrigos sob a rocha, explorados mais ao
norte de Serra Leoa, em Yagala e Kamabai; as dataes feitas por radiocarbono
indicam aqui uma fase da Late Stone Age que vai de -2500 at o sculo VII
da Era Crist85.
    Parece que nessa parte oeste da frica ocidental, nos stios mais meridionais,
teria sobrevivido relativamente inalterada uma tradio da Middle Stone Age
(que pode tambm existir em Dacar e Bamaco); parece tambm que ela no teria
nem inventado nem adotado a tcnica microltica;  bem possvel que as razes
sejam de ordem ecolgica, pois a tcnica microltica est associada  economia da
regio das savanas, onde a caa desempenhava um papel relevante. Se assinalarmos
a distribuio dos stios sem micrlitos (Conacri, Yengema, Bland) e traarmos
uma linha de demarcao entre esses ltimos e os stios que possuem micrlitos
(Kamabai, Yagala, Kindia, Nhampassere), perceberemos que essa linha  bem
prxima da que separa a floresta da savana. As novas tcnicas de machados
polidos e de cermica chegaram a essa regio posteriormente, provenientes
do norte. A data da apario dessas influncias situa-se aproximadamente na
metade do terceiro milnio antes da Era Crist, o que corresponde ao momento
em que o dessecamento do Saara se completa;  pois razovel aproximar esses
dois eventos e ver neles a influncia da migrao das populaes para fora
do Saara. Embora no tenhamos ainda nenhuma evidncia osteolgica a esse

82    HAMY, E. T. 1900.
83    HOLAS, B. 1950, 1952; HOLAS, B. e MAUNY, R. 1953.
84    COON, C. S. 1968.
85    ATHERTON, J. H. 1972.
Pr-Histria da frica ocidental                                                              703



respeito,  provvel que nessa migrao tais populaes tenham tambm trazido
gado, entre outras talvez a cepa ancestral da raa Ndama de Futa Djalon, que 
imune  tripanossomase.
    Em quase todo o restante da frica ocidental, um continuum microltico
precede as tcnicas de fabricao de cermica e de machados de pedra polida;
estes ltimos, mais parecem fazer parte da tradio microltica do que t-la
substitudo.
    Em Kourounkorokale, perto do Bamaco, uma camada inferior com micrlitos
e objetos de osso rudimentares est subjacente a uma camada que apresenta
micrlitos mais sofisticados, machados de osso polido e cermica86.
    Na Nigria, os abrigos sob a rocha de Rop87, no planalto de Bauchi, e em Iwo
Eleru, no Western State, revelaram nveis microlticos sem peas de cermica
e sem machados polidos, sob camadas de indstrias microlticas que possuam
esses ltimos. Em Iwo Eleru, obteve-se uma datao de radiocarbono de -9200,
perto da base da camada inferior; a transio para a camada superior parece
ser pouco posterior a -300088. Em Old Oyo, na caverna de Mejiro, encontrou-
-se uma indstria microltica desprovida de cermica e de machados de pedra
polida; essa amostra, porm,  pequena e no est datada89. Em Gana, a caverna
de Bosumpra, em Abetifi, revelou uma associao de peas de cermica,
micrlitos e machados de pedra polida, tambm sem data90. Ainda em Gana,
h fcies remanescentes da Late Stone Age, chamadas de "cultura de Kintampo".
Sucedendo a uma fase anterior dotada de cermica e de micrlitos, a cultura de
Kintampo apresenta machados de pedra polida, braceletes de pedra (conhecidas
a partir dos stios neolticos do Saara) e um tipo especial de moedor de pedra.
A fase antiga (Punpun) data de -1400, enquanto a fase recente apresenta gado
domstico e cabras-ans de uma raa parecida com a Dwarf Shorthorn ou ans-
-de-chifre-curto da frica ocidental91. At mesmo no sul da Mauritnia, na
fase mais antiga (Akreijit) da sequncia de Tichitt, os micrlitos esto presentes




86   SZUMOWSKI, G. 1956.
87   FAGG, B. E. B. 1944, 1972; EYO, E. W.A.J.A., 1972; ROSENFELD, A. 1972; FAGO, A. 1972b.
88   SHAW, T. 1969b.
89 WILLETT, F. 1962b.
90 SHAW, T. 1944.
91 DAVIES, O. 1962; 1964, p. 239-46; 1967b, p. 216-22; FLIGHT, C. 1968, 1970; CARTER, P. L. e
   FLIGHT, C. 1972.
704                                 Metodologia e pr-histria da frica




Figura 24.6 Machados polidos
de "Bel Air" em dolerito (Foto I.
Diagne, Museu do IFAN).
Fig ura      24.7 Cermica
neoltica de "Bel Air", do stio
de Diakit, no Senegal (Foto I.
Diagne, Museu do IFAN).
Pr-Histria da frica ocidental                                            705



junto com a cermica e os machados de pedra; mas eles desaparecem em todas
as fases subsequentes92.
    Ao longo das margens setentrionais de nossa rea, na zona do Sahel,
imediatamente ao sul do deserto saariano, a situao  um pouco diversa na
ltima fase da Late Stone Age, com adaptaes locais  ecologia, evidenciadas
na cultura material. Em Karkarichinkat, ao norte de Gao, entre -2000 e -1500,
as populaes pastoris viviam em colinas acima do nvel dos cursos de gua
sazonais; elas conheciam a cermica e possuam um equipamento ltico que
inclua machados de pedra polida, pontas de flechas bifaciais do tipo saariano
(mas sem base cncava)93 e raros micrlitos; a pesca era um aspecto importante
da economia, como ficou largamente evidenciado no sul do Saara, nos tempos
do Neoltico recente94. No nordeste da Nigria, em Daima, constatou-se, mil
anos mais tarde, uma situao quase anloga:  muito provvel que os criadores
de gado tenham cultivado o sorgo na argila frtil deixada pela retrao do lago
Chade, e, embora eles tivessem utilizado peas de cermica, machados polidos
e uma grande quantidade de objetos de osso, no conheciam a indstria de
micrlitos95.
    Na extremidade oposta de nossa regio, ao longo das margens meridionais da
frica ocidental na costa atlntica, ocorreu uma adaptao a um meio ecolgico
totalmente diferente. Nesse lugar, os povos da Late Stone Age utilizavam
moluscos, abundantes nas lagoas e nos esturios, tanto como iscas para pescar,
quanto para a prpria alimentao, deixando atrs de si grande acmulo de
conchas. Na Costa do Marfim, tais concheiras existiram desde -1600 at o sculo
XIV da Era Crist96. No Senegal, descobriu-se numa delas um machado feito
de osso97. Stios anlogos que foram objeto de estudos na regio de Casamance
so posteriores  Idade da Pedra98.
    Em Afikpo, no sul da Nigria, foi encontrado um stio contendo cermica,
machados de pedra polida e uma indstria ltica sem micrlitos; a datao
por radiocarbono situa essa indstria entre -3000 e -100099. Em Fernando


92   MUNSON, P. 1968, 1970.
93   MAUNY, R. 1955b; SMITH, A. 1974.
94   MONOD, T. e MAUNY, R. 1957.
95   CONNAH, G. 1967, 1969, 1971.
96   MAUNY, R. 1973; OLSSON, I. V. 1973
97   JOIRE, J. 1947; MAUNY, R. 1957, 1961, p. 156-62.
98   LINARES DE SAPIR, O. 1971.
99   HARTLE, D. D. 1966, 1968.
706                                                               Metodologia e pr-histria da frica



P, distinguimos quatro fases principais num complexo da Late Stone Age100
que apresenta peas de cermica e machados de pedra polida mas no tem
micrlitos; uma datao por radiocarbono indica o sculo VI da Era Crist para
a fase mais antiga, o que, salvo engano, torna essa sequncia bastante tardia; a
forma curvada dos machados apresenta pontos em comum com a dos machados
provenientes do sudeste da Nigria101, de Camares e da Repblica do Chade102.
    Em resumo, a Late Stone Age na frica ocidental pode ser dividida em
duas fases: a fase I, cujo incio no ultrapassou -10.000, tem duas fcies: a fcies
A apresenta uma indstria de micrlitos, associada  caa na savana; a fcies
B pertence  zona florestal na extremidade sudoeste da frica ocidental e no
apresenta micrlitos. A fase II, que comeou logo depois de -3000, tem quatro
fcies: a fcies A, na maior parte da savana, apresenta peas de cermica e
machados de pedra polida associados aos micrlitos; a fcies B, no Sahel, inclui
a pesca em sua economia e praticamente no apresenta micrlitos, apesar de ter
uma indstria de objetos de osso como arpes, anzis, etc.; a fcies C  costeira
e sua economia  adaptada  explorao de recursos das lagunas e dos esturios;
a fcies D, associada  paisagem da floresta, apresenta peas de cermica e
machados de pedra polida, mas no dispe de micrlitos.
    Durante o terceiro milnio, quando os pastores do Saara emigraram pela
primeira vez para o sul, eles no somente encontraram "caadores microlticos",
mas tambm abandonaram uma regio onde o slex era abundante e foram para
outra, onde as armaduras e as farpas de flechas s podiam ser feitas de quartzo
ou outros tipos de pedras com as quais era extremamente difcil fazer pontas
bifaciais. Assim, em sua maioria eles parecem ter adotado a tcnica microltica
local para armar e farpar suas flechas; essa tcnica era eficaz, embora o resultado,
do ponto de vista esttico, no fosse muito agradvel a olhos modernos. Os
que chegaram at Ntereso, no centro de Gana, durante a segunda metade do
segundo milnio, e a conservaram suas pontas de flechas bifaciais caractersticas,
constituem uma exceo103.
    Se essa migrao das, populaes do Saara em direo ao sul representou
a introduo de um elemento novo na populao autctone, ela no teve
influncia visvel no tipo fsico: todos pertenciam igualmente  raa negra104. Se,


100 MARTIN DE MOLINO. 1965.
101 KENNEDY, R. A. 1960.
102 CLARK, J. D. 1967, p. 618.
103 DAVIES, O. 1966a; 1967a; 1967b, p. 163; SHAW, T. 1969c, p. 227-28.
104 CHAMLA, M. C. 1968; BROTHWELL, D. e SHAW, T. 1971.
Pr-Histria da frica ocidental                                               707



como parece provvel, os imigrantes falavam o protonilo-saariano, os pequenos
grupos devem ter perdido seus dialetos particulares e adotado o nger-congo que
predominava na regio; somente os grandes grupos, tais como os ancestrais dos
Songhai, teriam conservado seu prprio idioma105.


    A economia de produo
    A passagem de uma situao na qual o homem dependia da caa, da pesca e
da coleta de frutas silvestres, para a prtica da agricultura e da criao de gado,
 o passo mais importante dado por nossos ancestrais no decorrer dos dez
ltimos milnios. Essa revoluo no aconteceu num nico ponto do mundo
para depois espalhar-se por todos os lugares, mas sim num nmero limitado
de "focos". Para a Europa, a sia ocidental e o nordeste da frica, o foco mais
importante se encontra na regio montanhosa de Anatlia, do Ir e do norte do
Iraque. Foi nesses lugares que se desenvolveram a cultura do trigo e da cevada
e a domesticao da ovelha, da cabra e dos bovinos. Mais tarde, a tcnica de
produo de alimentos foi introduzida nos grandes vales fluviais do Tigre e do
Eufrates, do Nilo e do Indo, aprimorada pela drenagem e pela irrigao106. No
quinto milnio, ovinos e bovinos foram domesticados no Egito, onde tambm
se cultivaram cereais107. Atualmente, temos provas de que o gado domesticado
j existia anteriormente nas terras altas saarianas, e temos indicaes, embora
insuficientes, do cultivo de cereais108. Como mostra o exemplo do vale do Nilo,
a dificuldade encontrada no cultivo de cereais na frica subsaariana reside no
fato de que as mais antigas plantas cultivadas  o trigo e a cevada  dependem
das chuvas de inverno e s com bastante dificuldade conseguem desenvolver-se
ao sul da frente tropical, na regio das chuvas de vero. Foi necessrio cultivar
gramneas selvagens apropriadas, de onde se originaram diversos tipos de
milhetes africanos. Dessas gramneas, a mais importante  a Sorghum bicolor
ou milho da Guin, cuja cultura se iniciou na primeira metade do segundo
milnio, na regio situada entre o deserto e a savana, entre o Nilo e o lago
Chade109. Foram cultivadas outras gramneas selvagens, de onde se originaram

105 GREENBERG, J. H. 1963b.
106 CLARK, G. 1969, p. 70 e segs.; UCKO, P. J. e DIMBLEBY; G. W. 1969.
107 CATON-THOMPSON, G. e GARDNER, E. W. 1934; SEDDON, D. 1968, p. 490; WENDORF, F.
    et al. 1970, p. 1168
108 MORI, F. 1965; CAMPS, G. 1969.
109 DE WET, J. M. J. e HARLAN, J. R. 1971
708                                                       Metodologia e pr-histria da frica



o milhete perolado e o milhete coracan ou finger millet; o arroz africano j foi
mencionado110. No sul da Mauritnia, ao redor de Tichitt, h traos do consumo
de gros de gramneas locais, mais aproximadamente em -1000; a proporo
de milhete perolado sobe de 5 para 60%111. Nas regies mais midas da frica
ocidental, o principal tubrculo era o inhame, havendo mais de uma variedade
africana112; todavia, embora essa cultura tenha existido h 5000 anos atrs, ainda
no ternos dados arqueolgicos e botnicos que possam provar isso; uma longa
histria do cultivo do inhame complementado pelo uso de outros produtos
nutritivos como as bagas de palmeiras oleaginosas, protegidas ou conservadas,
ajudariam a explicar a densidade populacional do sul da Nigria113.
    Apesar de ser um pr-requisito para a urbanizao, o desenvolvimento da
produo de alimentos no implica automaticamente e por si s no crescimento de
vilas e cidades. Parece que outros elementos entram em jogo, tais como o aumento,
at um certo nvel, da presso demogrfica e a diminuio das terras cultivveis114.
Na frica subsaariana, a incidncia da malria aumentou em consequncia do
desmatamento em funo da agricultura e da presena de comunidades estveis
mais importantes; tambm o crescimento populacional resultante da prtica da
agricultura foi mais lento do que deveria ter sido115 e, na maior parte das zonas
subsaarianas, no havia na poca falta de terras cultivveis116. Entretanto, no comeo
do primeiro milnio da Era Crist estabeleceu-se uma economia agrcola suficiente
para satisfazer as necessidades de antigos reinos como Gana, Mali, Songhai, Benin
e Ashanti.


      O advento do metal
  Apesar das propostas feitas j h muito tempo, baseadas em razes
metodolgicas vlidas, para que se abandonasse na Europa o sistema das "trs




110 PORTERES, R. 1951, 1958, 1972.
111 MUNSON, P. 1968, 1970.
112 COURSEY, D. G. 1967, 1972.
113 SHAW, T. 1972, p. 27-28; REES, A. R. 1965.
114 WEBB, M. C. 1968.
115 LIVINGSTONE, F. B. 1958; WIESENFELD, S. L. 1967; COURSEY, D. G. e ALEXANDER, J.
    1968.
116 SHAW, T. 1971b, p. 150-53.
Pr-Histria da frica ocidental                                                        709




Figura 24.8 Vaso de fundo plano da Idade do Ferro (Foto de I. Diagne, Museu do IFAN).




idades"  Idade da Pedra, Idade do Bronze e Idade do Ferro117  ele continuou
a ser usado por se mostrar conveniente.


117 DANIEL, G. 1943.
710                                                           Metodologia e pr-histria da frica



    No seu conjunto, a frica ocidental mal teve a Idade do Bronze. No entanto,
vinda da Espanha e do Marrocos, uma de suas fcies se manifestou na Mauritnia,
onde foram descobertos cerca de 130 objetos de cobre e onde foram exploradas
as ricas minas de Akjujt, que uma datao em radiocarbono situa no sculo V
antes da Era Crist; alm disso, foram encontradas pontas de flechas achatadas,
feitas de cobre, no Mali e no sudeste da Arglia118.
    Por que a frica ocidental no conheceu a Idade do Bronze? Por que ela
no foi mais influenciada pela antiga civilizao egpcia? As razes residem
parcialmente no fato de que o terceiro milnio  durante o qual a metalurgia,
a escrita, a construo dos monumentos de pedra, a utilizao da roda e a
centralizao do governo se estabeleceram solidamente no Egito foi tambm a
poca do dessecamento final do Saara. Desse modo, as populaes abandonaram
o deserto e ele no mais serviu de elo indireto entre o Egito e a frica ocidental.
Esse elo s foi restabelecido cerca de 3000 anos mais tarde, graas ao camelo. As
outras razes esto ligadas ao estabelecimento, mais tardio e mais lento, de uma
economia agrcola na frica ocidental, como foi descrito acima. Preocupados
em conferir certa dignidade e brilho  histria da frica ocidental, alguns
autores tentaram estabelecer uma ligao entre esta e o antigo Egito, para que
ela partilhasse da mesma glria119; isso parece-nos totalmente desnecessrio120.


      O incio da Idade do Ferro (de aproximadamente 400 a 700)
    Durante todo o incio da Idade do Ferro, muitas regies da frica ocidental
permaneceram isoladas do exterior, e, na maioria dos casos, os contatos que
porventura existiram com o mundo antigo conhecido foram indiretos, espordicos
e sem importncia121. Muito se tem falado acerca da pretensa viagem de Hano,
mas sua narrativa provavelmente  uma inveno122. O relato de Herdoto sobre
o "comrcio mudo" dos cartagineses com o ouro da frica ocidental  quase com
certeza baseado em fatos123. Seguramente devem ter existido alguns motivos
de contato com o mundo exterior, pois foi no comeo desse perodo que o
conhecimento do ferro chegou  frica. No se trata apenas da importao de


118 MAUNY, R. 1951; MAUNY, R. e HALLEMANS, J. 1957; LAMBERT, N. 1970, 1971.
119 LUCAS, J. O. 1948; DIOP, C. A. 1960, 1962.
120 SHAW, T. 1964a, p. 24.
121 LAW, R. C. C. 1967; FERGUSSON, J. 1969; MAUNY, R. 1970b, p. 78-137.
122 PICARD, G. C. 1971; MAUNY, R. 1970a; 1971, p. 75-7.
123 HERDOTO. 1964, Livro IV, p. 363.
Pr-Histria da frica ocidental                       711




Figura 24.9 Crculo megaltico, Tiekene Boussoura,
Senegal: o "tmulo do rei" aparece em primeiro plano
(Foto I. Diagne, Museu do IFAN).
Figura 24.10 Estatueta antropomrfica encontrada
em Thiaroye, no Senegal (Foto I. Diagne, Museu do
IFAN).
712                                                             Metodologia e pr-histria da frica



objetos de ferro, mas tambm do conhecimento da tcnica de transformao
do metal, difcil de considerar como uma inveno autnoma, j que na poca
no se conhecia nada sobre metalurgia124. Em Taruga, na Nigria central,
estudou-se um certo nmero de stios de fundio de ferro; o radiocarbono
indica datas que vo do sculo V ao III antes da Era Crist125. As escavaes
feitas nos outeiros habitados do vale do Nger tambm indicam a presena
do ferro aproximadamente no sculo II antes da Era Crist126. Parece quase
certo que o conhecimento da tcnica da metalurgia do ferro tenha chegado 
frica ocidental vinda no de Mero, como foi sugerido com frequncia127, mas
da regio da frica do norte ento submetida  influncia de Cartago; talvez
os garamantes, utilizadores de carros, tenham servido de intermedirios: h
gravuras rupestres desses carros ao longo da estrada que liga o Fezzan  curva do
mdio Nger128. Mais a oeste, as pinturas rupestres revelam um outro itinerrio
de carros, que ligava o Marrocos ao sul da Mauritnia; talvez tenha sido sob a
presso dos nmades que sabiam manejar o ferro (a lana de ponta de metal
torna-se a arma mais usada e substitui o arco nas gravuras sobre rochas) que os
homens da Late Stone Age de Tichitt (fase Akinjeir) se decidiram a fortificar
suas aldeias a partir do sculo V ou IV antes da Era Crist129. Em Taruga, as
descobertas feitas por ocasio das escavaes foram associadas s estatuetas de
terracota desse estilo to caracterstico ao qual se deu o nome da aldeia nigeriana
de Nok, onde elas foram encontradas pela primeira vez e em maior nmero,
durante a explorao de minas de estanho130. Levando em conta que elas eram
provenientes de aluvies contendo estanho, foram geralmente as cabeas das
esttuas mais slidas e resistentes que o resto do corpo  que permaneceram
intatas. Foi difcil, no incio, saber se os outros objetos descobertos no cascalho
eram todos contemporneos das esttuas ou se eles representavam uma mistura
de objeto da mesma poca e de outras mais antigas; pois, alm dos objetos de
ferro e de tubos que serviam para tirar o ferro fundido, foram encontrados
machados de pedra polida e instrumentos menores do tipo da Late Stone Age131.

124 DAVIES, O. 1966b; SHAW, T. 1969b, p. 227-28.
125 FAGG, B. E. B. 1968, 1969.
126 PRIDDY, A. J. 1970; HARTLE, D. D. 1970; YAMAZAKI, F. et al. 1973, p. 231-32.
127 CLARK, G. 1969, p. 201.
128 MAUNY, R. 1952; LHOTE, H. 1966; SHAW, T. 1969c, p. 229; DANIELS, C. 1970, p. 43-4; HUARD,
    P. 1966.
129 MAUNY, R. 1947 e 1971, p. 70; MUNSON, P. 1968, p. 10.
130 FAGG, B. E. B. 1945; 1956b; 1959.
131 FAGG, B. E. B. 1956b.
Pr-Histria da frica ocidental                                                                713



Atualmente, parece que o material da Late Stone Age  mais antigo e deve-
-se a um depsito aluvial132. Em Taruga no h nenhum vestgio da Idade da
Pedra, embora se tenha achado um machado de pedra polida num dos raros
stios de ocupao da rea133. A datao dos cascalhos situa as estatuetas entre
-500 e o ano 200 da Era Crist  lapso de tempo posteriormente confirmado
e tornado mais preciso com o auxlio de dataes por radiocarbono feitas em
Taruga, no stio de ocupao j mencionado (sculo III antes da Era Crist), e
por uma outra datao por termoluminescncia (-620 230)134. Embora no seja
constante, o estilo das terracotas representa uma realizao artstica admirvel e
alguns especialistas de histria da arte consideram-nas como predecessoras de
certas formas de arte ioruba, que ser descoberta mil anos mais tarde, a 600 km
alm, na direo do sudeste135. As descobertas da civilizao de Nok ocorreram
numa vasta regio que se estende de sul a oeste do planalto de Jos, com cerca
de 500 km de comprimento.
    Perto do rio Gmbia, no Senegal e em Gmbia, h um distrito no qual se
encontra um grande nmero de pilares de pedra dispostos verticalmente, isolados
ou distribudos em crculos; os megalitos mais bem trabalhados so duplos e
tendem a representar uma lira. As escavaes realizadas foram esclarecidas por
trs dataes atravs de radiocarbono, que indicaram os sculos VI e VIII, sem
considerar duas datas do sculo I, provenientes do antigo solo sob os megalitos e
que revelam um terminus post quem para sua construo; parece que se tratava de
monumentos funerrios136. Em Tondidarou, na curva do mdio Nger, um notvel
conjunto de monumentos de pedra de forma flica foi arruinado pela ignorncia
e pelo entusiasmo ingnuo de pesquisadores e administradores do sculo XX.
Consequentemente, no temos um conhecimento mais profundo sobre eles;
talvez pertenam  mesma poca que os monumentos senegambienses137.
    No final do perodo dos primeiros contatos, na orla norte da frica ocidental,
as populaes negras se relacionaram com os berberes nmades do deserto,
que a partir de ento dispunham de camelos e transportavam para o norte o


132 SHAW, T. 1963, p. 455.
133 FAGG, A. 1972 b.
134 FAGG, B. E. B. e FLEMING, S. J. 1970.
135 FAGG, W. e WILLETT, F. 1960, p. 32; WILLETT, F. 1960, p. 245; 1967, p. 119-20, 184; 1968, p. 33;
    RUBIN, A. 1970.
136 OZANNE, P. 1966; BEALE, F. C. 1966; CISS, K. e THILMANS, G. 1968; FAGAN, B. M. 1969,
    p. 150; DESCAMPS. 1971.
137 DESPLAGNES, A. M. L. 1907a, p. 40-41; MAES, E. 1924; MAUNY, R. 1961, p. 129-34; 1971a, p.
    133-36.
714                                                   Metodologia e pr-histria da frica



ouro da frica ocidental, atravs do Saara. No final do sculo VIII, a fama de
"Gana, a terra do ouro" tinha chegado a Bagd138. Essas regies setentrionais
da frica ocidental possuam agora noes rudimentares de agricultura e uma
tecnologia do ferro. Elas estavam prontas para iniciar o desenvolvimento poltico
e a formao de Estados, para fazer frente  presso dos nmades vindos do
norte, para apoderar-se, enfim, do controle lucrativo do comrcio do ouro. Mais
ao sul, ao norte da Serra Leoa, a passagem para a utilizao do ferro no parece
ter ocorrido at o sculo VIII e, assim mesmo, fez-se bem lentamente139.




138 LEVTZION, N. 1971, p. 120.
139 ATHERTON, J. H. 1972, 1973.
Pr-Histria do vale do Nilo                                                715



                               CAPTULO 25


                  Pr-Histria do vale do Nilo
                                    F. Debono




    Sudo, Nbia e Egito, trs regies bem diferentes ligadas entre si apenas por
um rio, constituem um nico vale. Atualmente, porm,  difcil imaginar que
o imenso deserto que circunda o vale nos dois lados outrora tenha oferecido,
dependendo das flutuaes climticas e ecolgicas, pontos de parada, locais de
passagem ou barreiras intransponveis com o resto do continente africano. Esses
mesmos fatores fsicos tambm condicionaram o modo de vida dos primeiros
habitantes do vale, na sua luta interminvel para adaptar-se a meios hostis ou
favorveis  sua expanso.
    Nesse contexto, traaremos um relato conciso da longa evoluo de tais povos,
desde as origens da hominizao at o apogeu faranico. Determinadas culturas,
em determinados momentos, j so bem conhecidas; em muitos outros casos,
o carter ainda incompleto das pesquisas, de um lado, e a tendncia exagerada
 classificao, de outro, levaram a uma fragmentao que, no futuro, poderia
tornar-se artificial e, s vezes, at abusiva: a multiplicao de "tipos", em certos
casos somente a alguns quilmetros de distncia, tem algo de pouco verossmil.
Os historiadores descontentes com essa disperso procuraram reagrupar os
"tipos" conhecidos em grandes categorias cronolgicas, embora algumas delas
possam, com o tempo, tornar-se inadequadas ou imperfeitas.
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      Olduvaiense1
    Esta cultura , em toda parte, caracterizada pelos seixos lascados (choppers).
Descobertas recentes relativas  origem do homem permitem afirmar que no
apenas em outras partes da frica, mas tambm no vale do Nilo existem alguns
dos primeiros traos deixados pelo homem.
    No Sudo, a partir de 1949, foram descobertos em Nuri e Wawa vestgios
muito antigos desses seres j humanos, tais como seixos grosseiramente lascados
formando rsticos utenslios. No entanto, esses achados isolados e superficiais
no podem constituir uma prova definitiva. Somente a partir de 1971, depois de
pesquisas sistemticas efetuadas em Tebas, no Alto Egito, foi possvel certificar-
-se a respeito desse ponto. A explorao de 25 depsitos aluviais do Quaternrio
Antigo teve como resultado uma rica coleo desses utenslios primitivos. A
descoberta, em 1974, de trs stios estratificados contendo choppers forneceu
informaes importantes que acabaram com as ltimas dvidas. As camadas de
seixos lascados eram subjacentes ao Acheulense antigo (Old Stone Age), que
em suas camadas mais antigas caracteriza-se sobretudo por triedros. H bem
pouco tempo, um dente de um homindeo foi encontrado nas antigas aluvies
da montanha tebana, associado aos choppers. Lembramos que, em meados de
1925, foi encontrada uma sequncia parecida nas aluvies de Abbassieh, perto
do Cairo; na poca, porm, os seixos lascados dessa camada foram classificados
na categoria dos elitos. Uma contribuio suplementar para o estudo desse
perodo remoto foi dada bem recentemente, como resultado de nossas escavaes
em Adeimah, em 1974, no Alto Egito (expedio do IFAO2); trata-se de um
novo depsito que ainda est sendo estudado, mas que parece ser semelhante
aos anteriores.


      Old Stone Age3
   A bela indstria ltica desse perodo, caracterizada pelos bifaces de
extremidades estreitadas, existe praticamente em toda a frica. Ela pode
mesmo ter surgido nesse continente, a partir dos seixos lascados do perodo

1     Esse perodo recebe esse nome por causa dos achados na garganta de Olduvai (ver captulo 28);
      anteriormente foi por vezes chamado de Pr-Acheulense ou Paleoltico Arcaico.
2     Instituto Francs de Arqueologia Oriental.
3     Corresponde, grosso modo, ao Paleoltico Inferior, tambm frequentemente denominado Acheulense,
      perodo que vai de cerca de -600.000 a -200.000.
Pr-Histria do vale do Nilo                                                                717



anterior, e depois se espalhado pelo resto do. mundo. No vale do Nilo, os
testemunhos dessa civilizao manifestam-se sem interrupo aparente desde
o Sudo at o Egito. Graas a trabalhos recentes, essa cultura  mais bem
conhecida no norte do Sudo que nas regies meridionais. Em Atbara, Wawa
e Nuri, o Acheulense Inferior, ilustrado por bifaces grosseiros com bordos
sinuosos,  acompanhado de seixos lascados. Em Nuri, ele desenvolve -se
com um complexo de transio. O Acheulense Superior e Mdio, estudado
sobretudo no norte, distingue -se pela melhoria no acabamento e pela
apario de indstrias paralevalloisienses. Essas ltimas, que mais tarde
deram origem  tcnica de debitagem levalloisiense, podem ser vistas ainda
em Khor Abu Anga. Enquanto o Acheulense  encontrado tambm em
outros continentes, um tipo sangoense  a verso final do Acheulense (que
persistiu durante muito tempo)   peculiar  frica. Identificado at ento
principalmente na frica central e meridional, comea agora a ser detectado
tambm no Sudo, em Khor Abu Anga e Sai. A partir de Uadi Halfa, ele
parece perder vrias de suas caractersticas. Ao que tudo indica, no Sudo
existem muito poucas machadinhas bifaciais com bisel distal.
    Na Nbia egpcia, o Acheulense foi encontrado nos antigos terraos do rio.
Podemos observar a uma evoluo baseada no aperfeioamento da tcnica de
lascamento. Suas caractersticas tipolgicas, porm, no so suficientemente
conhecidas. No Egito, em compensao, os stios estratificados de Abbassieh
(perto do Cairo), que estudamos recentemente (1974) em Tebas, e os velhos
terraos do Nilo revelam indstrias acheulenses em estgios sucessivos. O nvel
olduvaiense, caracterizado pelos seixos lascados,  sucedido por um Acheulense
que apresenta triedros, bifaces grosseiros e tambm seixos lascados. No nvel
seguinte h bifaces mais evoludos e peas protolevalloisienses. O stio de
Kharga tem camadas superpostas de um Acheulense mais recente, terminando
na Middle Stone Age. Se os bifaces mostram as formas clssicas encontradas
em outros lugares, s vezes acham-se exemplares cuja extremidade distal foi
retrabalhada em forma de machadinha; no momento, esse  o nico tipo de
machadinha conhecido no Egito. So tambm caractersticos do Egito os
bifaces trabalhados segundo uma tcnica parecida com a de "Victoria-West",
que precedeu a clssica tcnica de lascamento levalloisiense4. Outros bifaces do
tipo sangoense, talvez mais recentes, so encontrados no muito longe do Cairo.



4    Uma grande lasca  destacada por percusso, em geral num dos lados, mais raramente numa das
     extremidades; a prpria lasca  utilizada como utenslio.
718                                                                    Metodologia e pr-histria da frica



      Middle Stone Age5
    Mudanas nas condies de vida levaram, nesse momento, ao uso generalizado
da lasca, ao invs do biface, que tornou-se raro e depois desapareceu. Essas lascas
com tales facetados, geralmente feitas a partir da tcnica paralevalloisiense
j mencionada, provm de um ncleo especial que produzia lascas de formas
predeterminadas. Em algumas partes da frica, esse procedimento perdurou
at o Neoltico, o que indicava j ser o resultado de uma reflexo tecnolgica
avanada.
    A indstria musteriense, que usava a tcnica de debitagem levalloisiense, foi
pouco estudada no sul do Sudo, embora ela provavelmente exista em Tangasi
e, sob uma forma mais evoluda, em Abu Tabari e Nuri. Por outro lado, uma
recente pesquisa realizada no norte estabeleceu quatro conjuntos distintos: o
Musteriense nbio, o Musteriense denticulado, o Sangoense lupembiense e o
Khormusiense.
    O Musteriense nbio aproxima-se do musteriense da Europa mas no 
idntico a ele. Nota-se a uma pequena porcentagem de lascas levalloisienses
e utenslios do tipo musteriense, pobremente retocados, comparveis aos do
Paleoltico Superior, e em alguns casos, aos bifaces acheulenses (mais ou menos
de -45.000 a -33.000). O Musteriense denticulado tambm apresenta algumas
lascas levalloisienses e pouqussimas lminas, ao passo que as peas denticuladas
aparecem em grande quantidade. O Sangoense Lupembiense caracteriza-se
por um incremento da tcnica de lascamento levalloisiense,  qual se juntam
bifaces, raspadores laterais, peas chanfradas ou denticuladas, lascas truncadas
e bifaces pontudos com retoques foliceos. O Khormusiense estende-se desde
Gemai at as imediaes de Dongola e compreende uma grande quantidade
de lascas levalloisienses retocadas, peas denticuladas e, mais raramente, buris;
por meio de trabalhos recentes, esse perodo foi datado de cerca de -25.000 a
- 16000. Ultimamente essas estimativas foram revistas e estabeleceu-se nova
data: -41.490 a -33.800.
    Em comparao com o norte do Sudo, os dados colhidos na Nbia egpcia
so insuficientes. Os antigos trabalhos de Sandford e Arkell estabeleceram a
predominncia da tcnica de debitagem levalloisiense, algumas vezes de tradio
acheulense. Pesquisas mais atuais (1962) fazem meno a essa tcnica em Afyeh
e em Khor Daoud. Ns mesmos a detectamos em Amada, em 1962-1963,


5     Esse termo abrange, de forma genrica, o Paleolitico Mdio, aproximadamente desde -200.000.
Pr-Histria do vale do Nilo                                                                              719



numa forma levalloisiense pura. Em Uadi Sebua, estudamos um indstria que,
com toda certeza, pertence  fase final desse perodo e  associada a lascas no-
-levalloisienses, incluindo muitos buris.
    O Ateriense, indstria tpica do Magreb e do Saara meridional, distingue-se
por lascas de base peduncular acentuada e pelo uso de retoques foliceos. Tendo
comeado, sem dvida, com o Musteriense, ele sobreviveu acidentalmente em
algumas reas at o perodo Neoltico. Na Nbia egpcia, ele foi h pouco tempo
identificado no deserto lbio, a noroeste de Abu Simbel6, associado a uma fauna
muito rica: rinocerontes brancos, grandes bovinos, asnos selvagens, duas espcies
de gazela, antlopes, raposas, chacais, facocheros, avestruzes, uma espcie extinta
de dromedrio e tartarugas. Na Nbia, o Ateriense parece relacionar-se com
o Amadiense, uma indstria de tradio mustero-levalloisiense. No Egito,
ele existe em estado puro nos osis do leste, em Siwa, Dakhla e Kharga. No
deserto oriental,  encontrado em Uadi Hammamat. No prprio vale do Nilo
ele se espalha em pequenos lotes em Tebas e Dara (?). Pode ter influenciado
o Hawariense no perodo seguinte, em Esna e Tebas. Ele se apresenta em
dimenses microlticas, nessa mesma indstria, em Abbassieh e Jebel Ahmar,
perto do Cairo (desde no mnimo -44.000 at pelo menos -7000).
    Apesar dos numerosos vestgios das culturas da Middle Stone Age no Egito,
um estudo tipolgico exaustivo de seu instrumental est longe de ser completado.
Os primeiros trabalhos sobre os velhos terraos do vale do Nilo e do Faium
permitiram uma viso geral da civilizao que existia nesse perodo. No entanto,
nossas recentes escavaes sistemticas na montanha de Tebas, desde 1971, sob
os auspcios da UNESCO, revelaram algo de novo. Ocorrncias estratificadas
nos depsitos geolgicos e numa centena de stios desse perodo, colocados em
estgios cronolgicos sucessivos, permitem j esboar em suas grandes linhas a
evoluo dessa indstria, que se anuncia predominantemente levalloisiense. Todas
essas pesquisas convergem para demonstrar a existncia de um antigo perodo
acheulense-levalloisiense seguido de outro, marcado por ncleos macios que
se tornam progressivamente menores e mais refinados. Numa fase mais recente,
aparecem sobre as lascas laminares7 muitos retoques secundrios de aparncia
musteriense, assim como diversos utenslios. Se essas indstrias apresentam
elementos semelhantes aos de outras indstrias africanas, devemos mencionar
ainda uma tipicamente egpcia, que nunca foi encontrada em nenhum outro


6    Essas descobertas datam de 1976. Elas foram feitas em Bir Terfawi e Bir Sahara.
7    A partir desse perodo encontraram-se duas tcnicas de lascamento: a levalloisiense clssica e o
     desprendimento de lminas alongadas. Entre essas duas tcnicas, existem muitas outras formas de transio.
720                                                                    Metodologia e pr-histria da frica




Figura 25.1   O Vale das Rainhas (Foto J. Devisse).
Figura 25.2 Pontas de dardos em slex de Mirgissa, Sudo (escavaes conduzidas por J. Vercautter, Misso
Arqueolgica Francesa no Sudo).
Pr-Histria do vale do Nilo                                                                     721



lugar. Trata-se de uma indstria muito numerosa, denominada Jebel-Suhan,
caracterizada pelo uso de ncleos lascados pela tcnica levalloisiense, com planos
de percusso bipolares, que depois de usados foram retrabalhados em uma das
extremidades para dar origem a um raspador cncavo.
    No que diz respeito ao homem dessa poca, descobrimos em Silsileh, em
1962, dois fragmentos de uma calota craniana que provavelmente datam desse
perodo8. Seu estudo ainda est inacabado, mas j revelou algumas caractersticas
arcaicas associadas a outras, mais recentes. O prosseguimento desses trabalhos
pode elucidar a controvertida questo da origem do homem africano no
Paleoltico Mdio, muito pouco conhecido at o momento atravs de achados
isolados ocorridos em Cirenaica, Marrocos e Zmbia.


    Late Stone Age
    Na Europa e em outras regies da frica, a transio do perodo anterior
para este , em geral, marcada por uma ruptura extremamente brutal e rpida,
em termos tecnolgicos e, s vezes, at em termos humanos. Isso, porm, no se
verifica no vale do Nilo. A dificuldade em descobrir linhas ntidas de demarcao
entre um perodo e outro torna complicada a tarefa de estabelecer sequncias
cronolgicas. No mesmo lugar, a partir do perodo anterior, a evoluo deu
origem a fcies regionais novas, por vezes paralelas, ajustadas s condies locais.
Ao mesmo tempo, as mudanas nas condies ambientais parecem ter alterado
o relacionamento entre os habitantes do vale e seus vizinhos; antigas relaes
foram cortadas e estabeleceram-se novas alianas. A lista dos tipos culturais
recentemente identificados d a impresso de uma disperso muito grande. Essa
, no entanto, uma interpretao provisria, at que anlises mais detalhadas
tornem possvel estabelecer uma sntese desses tipos. Tais comentrios aplicam-
-se tambm ao perodo seguinte, o Epipaleoltico.
    Este perodo acabou de ser estudado no setor norte do Sudo, e mostra duas
indstrias distintas:
              o Jemaiense, nos arredores de Uadi Halfa, apresenta poucas lascas
               levalloisienses, pontas levemente retocadas, e caracteriza-se por raspadares
               laterais e distais, buris e peas denticuladas (cerca de -15.000 a -13.000);



8    Informaes cedidas por M. P. Vandermeersh (do Laboratrio de Paleontologia Humana, Faculdade de
     Cincias, Universidade de Paris VI), a quem foi confiado o estudo desses documentos.
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               o Sebiliense, encontrado anteriormente em Kom Ombo no Egito, aparece
                agora no Sudo, em Uadi Halfa, no estgio I. Suas lascas com truncamentos
                retocados provm de ncleos discoides ou levalloisienses cerca de -13.000
                a -9000).
      Na Nbia egpcia so conhecidas duas indstrias:
               o Amadiense, descoberto por ns em Amada (expedies do Instituto
                Alemo, 1963), apresenta um instrumental variado predominantemente
                levalloisiense, associado a raspadores-limpadores, furadores, peas feitas pela
                tcnica de Kharga (veja mais adiante) e exemplos ocasionais de retoques
                foliceos que lembram a indstria ateriense;
               o Sebiliense, identificado por ns em Sebua (expedio do IFAO, 1964)
                em vrias localidades, tambm pertence ao estgio I, misturado com lascas
                simples ou levalloisienses, alguns raspadores e muitos buris. Provavelmente,
                ele existe tambm em Khor Daoud.
      Foram identificadas ainda as seguintes indstrias pertencentes a esse perodo:
               Gizeense, encontrada perto do Cairo desde 1938. Compreende a tcnica
                Levallois; as formas quase geomtricas de suas lascas parecem ter
                semelhanas com o Khormusiense.
               Hawariense (antes conhecido como Epilevalloisiense)9, indstria microltica
                que se estende pelo menos de Esna, no Alto Egito, at o pice do Delta e
                reas vizinhas (Uadi Tumilat). Com tcnica de retalhamento levalloisiense,
                como o Sebiliense (mas no possuindo formas geomtricas), compreende
                estgios e fcies diversos, ainda em estudo.  caracterizado tambm pelo
                nmero de ncleos bipolares provavelmente derivados do chamado ncleo
                "Jebel-Suhan", j mencionado na Middle Stone Age. Alguns ncleos,
                talvez mais recentes, que produziram simultaneamente lascas e lamelas de
                extremidades facetadas, constituem a transio para as lamelas de talo liso,
                predominantes na Late Stone Age e no Epipaleoltico. O Hawariense de
                Esna e de Tebas sofreu influncia ateriense, pois ocasionalmente aparecem
                retoques foliceos e peas hbridas. Por outro lado, lascas microlticas
                pedunculadas, tipologicamente aterienses, so encontradas no Hawariense,


9     No incio, o Sebiliense pareceu caracterizar todo esse perodo, em todos os lugares, mas as pesquisas mostra-
      ram que ele caracterizou apenas a rea de Kom Ombo. Depois disso, foi descoberto um tipo contemporneo
      porm diferente, ao qual o termo epilevalloisiense foi aplicado. Aps discusses entre especialistas, o autor,
      rejeitando a ideia de designar uma cultura unicamente por suas tcnicas, preferiu design-la pelo nome do
      lugar onde ela havia sido descoberta. Assim, o Epilevalloisiense passou a ser o Hawariense.
Pr-Histria do vale do Nilo                                                            723



               de Abbassieh e de Jebel Ahmar, perto do Cairo. Poderiam essas influncias
               ser o resultado de invases do vale pelos povos do deserto?
              Kharguiense, mais ou menos contemporneo do Hawariense e cuja existncia
                contestada por alguns pr-historiadores. Aparece no osis de Kharga com
               uma tcnica Levallois-Kharguiense que precede a forma Kharguiense pura.
               Essa indstria de lascas levalloisienses com retoques abruptos, de aparncia
               disforme, ocorre tambm no osis de Karkur, no Egito, e em Oara e Tebas.
               Em Esna (Alto Egito) e em Amada (Nbia egpcia)  associada a outras
               indstrias.


    Epipaleoltico
   No vale do Nilo, em geral, esse perodo difere do anterior graas  substituio
das tcnicas de destacamento de lascas pelas de produo de lminas e lamelas
microlticas, de tales facetados, exceto em casos de repetio, sobrevivncia
ou duplicao. As pesquisas efetuadas no norte do Sudo e no sul da Nbia
egpcia revelaram um complexo de indstrias que, s vezes, representam
indubitavelmente fcies de uma mesma cultura.
              O Halfiense, de Uadi Halfa (Khor Koussa), seria identificado tambm ao
               norte de Kom Ombo (Egito). Ele representaria uma transio precoce do
               retalhamento levalloisiense da poca precedente para a tcnica microltica
               que utiliza a lasca ou a lamela. O uso da tcnica de retoque de Ushtata seria
               uma prtica avanada que apareceria mais tarde, com o Ibero-maurusiense
               do Magreb. Observa-se no Halfiense o emprego sucessivo de lascas e
               lamelas com dorso, raspadores, buris e peas escamadas e denticuladas
               (aproximadamente de -18.000 a -15.000).
              O Ballaniense, mais recente em Uadi Halfa e em Ballana, compreende
               micrlitos truncados, outros com o dorso levemente retocado, lascas
               truncadas, raspadores, buris, pontas e ncleos simples ou com planos de
               percusso opostos (aproximadamente de -14.000 a -12.000).
              O Qadiense, proveniente de Abka e de Toshk na Nbia, compreende um
               conjunto de utenslios que consiste de lascas inicialmente microlticas e
               depois lamelares. Inclui raspadores, dorsos arredondados, buris, utenslios
               truncados e pontas que depois se degeneram. As sepulturas ovais situadas
               dentro ou fora das casas so cobertas com lajes. Elas revelam a presena de
724                                                                         Metodologia e pr-histria da frica



                um povo muito parecido com o Cro-Magnon do Magreb (aproximadamente
                -12.000 a -15.000).
               O Arkiniense, no Egito, conhecido atravs de um nico stio perto de Uadi
                Halfa,  sobretudo uma indstria de lascas. Compreende raspadores distais,
                lamelas com dorso com retoques de Ouchtata, semicrculos, peas escamadas
                e pequenos piles (aproximadamente em -7400).
               O El Kabiense, perto de El-Kab, foi identificado em trs camadas de ocupao
                sucessivas. Uma delas revelou o que parece ser uma paleta retangular, em
                osso polido (mais ou menos em -5000).
               O Shamakiense, na regio de Uadi HaIfa, tem ncleos multidirecionais e em
                sua ltima fase apresenta utenslios de forma geomtrica associados a peas
                mais grosseiras. Seria um desenvolvimento lateral do Capsiense do Magreb
                (mais ou menos de -5000 a -3270).
               O Silsiliense, estudado por ns (e por outros depois de ns) no Egito, na
                regio do Djebel Silsileh, perto de Kom Ombo, comporta trs estgios.
                O Silsiliense I apresenta lamelas levemente retocadas, s vezes providas
                de espiga, tringulos irregulares que ocasionalmente tambm tm espigas,
                microburis, uns poucos buris e raspadores, alm de uma indstria de
                ossos. Os vestgios humanos parecem ser do tipo Cro-Magnon (cerca de
                -l3.000). O Silsiliense II 10 apresenta lminas e lamelas longas com retoques
                descontnuos, s vezes com espigas, buris, raspadores e uma indstria
                de ossos (mais ou menos -12.000). O Silsiliense III; ainda em estudo,
                apresenta uma grande quantidade de lamelas geralmente pouco retocadas,
                pedras de fogo e uma cabana redonda, a mais antiga achada at hoje no
                Egito.
               O Fakuriense, estudado na regio de Esna, parece guardar um certo
                parentesco com o Ibero-Maurusiense. Provavelmente ele existiu tambm
                em outros lugares do Egito (mais ou menos em -13.000). Essa indstria
                caracteriza -se por delicadas lamelas retocadas, furadores e flechas
                pequenas.
               O Sebiliense, que conserva a tcnica de lascamento levalloisiense, caracteriza-
                -se por lascas de formas geomtricas e com bases retocadas. Indstria
                meridional no Egito, aparece principalmente em setores de Kom Ombo e



10    Denominao dada por P. Smith (1966) relembrando o deus Sebek, personificado por um crocodilo,
      divindade associada a essa regio. Tendo feito escavaes nesse stio, ns sugerimos o termo Silsiliense II
      (de Djebel Silsileh, situado nessa rea) como estando mais de acordo com a regra habitual de dar nomes
      s culturas baseando-se na toponmia.
Pr-Histria do vale do Nilo                                                              725



               de Silsileh, e em Darau, mais particularmente no estgio II. Confirmada na
               Nbia, essa indstria  muito mais rara no norte, sendo por vezes atpica.
               Nossos trabalhos em Silsileh revelaram tambm um conjunto de utenslios
               de osso, ms e moletas, alm de restos humanos que provm de nossas
               escavaes ainda em estudo (aproximadamente -11.000). O exemplo
               do Sebiliense  interessante para discutir. As dataes fsico -qumicas
               sugerem uma cronologia que,  primeira vista, contradiz as informaes
               tecnolgicas fornecidas por essa cultura. O fato se torna ainda mais notvel
               se lembrarmos que o Sebiliense no est afastado, nem no tempo nem no
               espao, do Fakuriense.
              O Menchiense (regio de Silsileh) compreende uma indstria ltica um
               pouco aparentada ao Aurignaciense do Levante e uma indstria de ossos 
               moletas, lamelas com bordos brilhantes, objetos de adorno e restos humanos.
               Uma relativa contemporaneidade com o Sebiliense II ressalta da analogia
               de certos instrumentos novos, de tipo intermedirio.
              O Lakeitiense, identificado por ns no deserto oriental, caracteriza -se
               por serras fortemente denticuladas, acompanhadas de pequenas flechas
               pedunculadas.
              O Helwaniense, que ns detectamos nas cercanias de Heluan, no sul do
               Cairo, compreende quatro fases distintas: a primeira revela uma grande
               quantidade de lminas e lamelas, s vezes levemente retocadas no estilo
               oushtata; a segunda distingue-se por micrlitos que consistem em tringulos
               issceles e escalenos, segmentos de crculos e microburis; a terceira apresenta
               segmentos de crculos; a quarta e ltima oferece um novo tipo de segmento
               de crculo com base retilnea.
              O Natufiense, da Palestina, teria feito incurses sucessivas em territrio
               egpcio. Em Heluan, foi identificada uma fase dessa indstria caracterizada
               por peas com dorso retocado por retoques cruzados. Quanto s pontas
               de flechas com bases simetricamente entalhadas, de incio atribudas ao
               Natufiense, j havia referncias a elas na rea desde 1876. Ns mesmos
               encontramos algumas nessa regio em 1936, e, mais recentemente, em 1953,
               as descobrimos tambm na parte norte do deserto oriental (cerca de -8000
               a -7000). Depois elas foram achadas em El-Khiam e Jeric, na Palestina,
               sendo conhecidas entre os especialistas como "pontas de El-Khiam". A
               hiptese de infiltraes natufienses tem ainda de ser verificada com bastante
               cuidado.
726                                                                       Metodologia e pr-histria da frica



      Neoltico e PrDinstico
    Esse longo perodo que, grosso modo, cobre dois milnios (mais ou menos
de -5000 a -3000)  analisado aqui detalhadamente. Os aspectos materiais de
cada uma das "culturas" ou "horizontes culturais" que constituem tal perodo
so descritos minuciosamente. Compem assim um repertrio indispensvel
queles que desejam apreciar, em seu contexto fsico, a lenta evoluo que,
grupos de povos nmades ou seminmades, conduz pouco a pouco  formao
de sociedades, seja fortemente centralizadas, como no Egito, seja organizadas
em pequenos principados independentes, como no Sudo niltico. Quanto
ao desenvolvimento histrico dessas sociedades neolticas e pr-dinsticas, ele
 tratado no captulo 28 do presente volume. Os dois relatos so, portanto,
complementares, abordando os problemas sob ngulos diferentes. As referncias
necessrias para permitir que o leitor localize uma determinada "cultura", descrita
neste captulo, no contexto mais geral da evoluo histrica do conjunto dos
"horizontes culturais" do captulo 28, so dadas nas notas de rodap.
    Esse novo perodo marca uma etapa decisiva da histria da humanidade.
Tendo mudado de uma vida nmade ou seminmade para uma vida sedentria,
o homem do Nilo criou as caractersticas principais da civilizao como a
conhecemos hoje. O habitat fixo determinou o uso da cermica, a domesticao
e a criao de gado, a agricultura e a multiplicidade de utenslios que visam
satisfazer s necessidades crescentes dos homens.
               O Cartumiense11  talvez a cultura mais antiga desse perodo no Sudo12.
                Ele  encontrado em mais de uma dezena de localidades, espalhadas por
                uma vasta regio, estendendo-se desde Kassala, no leste, e sobre 400 km
                em pleno deserto, no oeste, at Dongola, no norte, e quase at Abu Higar,
                s margens do Nilo Branco, no sul. Os dados obtidos atravs de escavaes
                em Cartum, das quais participamos, fornecem as provas de um habitat
                fixo: a utilizao de cabanas guarnecidas de cerca, o uso em larga escala de
                uma cermica elaborada e o emprego de ms. A cermica, constituda de
                tigelas, caracteriza-se por uma decorao de linhas sinuosas cavadas por
                inciso (wavy lines) e por pontos impressos (dotted lines). O instrumental
                ltico abundante, feitos de quartzo, nitidamente microltico e geomtrico,



11     a "antiga Cartum" do captulo 28, p. 820. Ns preferimos conservar o termo "Cartumiense", prevenindo-
      -nos para futuras descobertas que possam revelar fases anteriores a esta.
12    Ver captulo 28, p. 820-21.
Pr-Histria do vale do Nilo                                                              727



               compreende tipos variados: semicrculos e segmentos de crculos, tringulos
               escalenos, retngulos, trapzios, lascas escamadas e furadores. Os semicrculos
               e os segmentos de crculos, retocados at no gume, mostram semelhanas
               com os do Wiltoniense e do Neoltico de Hyrax Hill, em Zimbabwe. Os
               instrumentos, feitos de uma rocha dura chamada riolito so maiores que os
               de quartzo, incluindo lascas e lminas simples, algumas com talo retocado
               (raspadores), semicrculos volumosos e uns poucos raspadores. Os arpes
               de osso com farpas, em geral unilaterais, tambm so caractersticos do
               Cartumiense. H ainda pequenos piles de pedra com uma cpula central,
               moedores, percutores, discos com uma perfurao central, algumas ms
               e contrapesos para rede de pesca, provavelmente do mesmo tipo das de
               Faium, em El Omari (Egito) e no Saara nigeriano. Os objetos de adorno
               incluem contas em forma de disco, feitas de casca de ovo de avestruz e
               alguns pingentes; o ocre vermelho ou amarelo era usado para pintar o
               corpo. Os mortos eram enterrados em suas prprias casas, deitados de lado,
               e pertenciam a uma raa negra, a mais antiga da frica. Em vida, eles
               sofreram mutilaes dentrias rituais, como as praticadas entre os capsienses
               e os ibero-maurusienses do Maghreb e entre os povos neolticos do Qunia.
               Essa prtica persistiu por muito tempo no Sudo e em outras partes da
               frica. A fauna identificada consistia principalmente de bfalos, antlopes,
               hipoptamos, gatos selvagens, porcos-espinhos, camundongos, crocodilos e
               uma enorme quantidade de peixes (cerca de -4000?).
              O Shaheinabiense aparece em numerosos stios espalhados pelo sul da Sexta
               Catarata. As escavaes em Esh Shaheinab revelam elementos de uma
               cultura claramente derivada do Cartumiense. Suas caractersticas peculiares
               so uma cermica especial e o uso de goivas e de machados de osso polido.
               A cermica consiste em tigelas, decoradas s vezes com dotted lines, como no
               Cartumiense; entretanto, o que o individualiza  o alisamento das superfcies,
               o engobe vermelho, a presena de bordas negras e a decorao em tringulos
               incisos. O equipamento ltico enriqueceu-se ainda com peas microlticas,
               machados polidos, goivas polidas ("planas") e cabeas de maas planas ou
               convexas. Os arpes em osso continuam, ao passo que aparecem anzis em
               madreprola, alm de contas em amazonita ou em cornalina e batoques,
               ainda usados atualmente. Bfalos, antlopes, girafas e facocheros eram
               caados e a cabra-an domesticada. No h traos de habitaes frgeis,
               mas encontram-se fogueiras cavadas na terra. O Shaheinabiense 13 tem


13   s vezes denominado "Neoltico de Cartum".
728                                                             Metodologia e pr-histria da frica



               caractersticas similares s de um dos estgios do Faiumiense egpcio, como
               por exemplo, o uso de plainas, goivas, arpes, cabeas de maas, amazonita e
               fogueiras escavadas na terra. Ele se liga ao Pr-Dinstico Antigo do Egito
               pela cermica lisa e a de bordas negras do Alto Egito. Os pontos em comum
               com o oeste (Tibesti) so sugeridos pela amazonita, a goiva e a cermica
               com decorao incisa; a cabra-an liga-o com o noroeste. O stio de Kadero,
               que ainda est sendo escavado e pertence a um perodo mais recente, revelou
               a presena de sepulturas (cerca de -3500 a cerca de -3000).
   As escavaes ainda em curso (1976-1977) em Kadada, na regio de Shendi,
esto fornecendo uma terceira variante do Shaheinabiense, provavelmente
posterior, que compreende sepulturas associadas s habitaes. Suas caractersticas
peculiares parecem ser machados de pedra polida de grandes dimenses, paletas
de pintura de forma quase romboidal, discos furados de uso ainda indeterminado,
vasos caliciformes e jarros usados como sepultura de crianas.
              O Abkiense14 do norte e do sul do Sudo, pelo menos at Sai, seria
               contemporneo sucessivamente do Cartumiense e do Shaheinabiense. Ele se
               prolongaria mesmo alm dessa poca, passando por quatro etapas: a primeira
                pobre em cermica e deriva talvez do Oadiense; a segunda compreende um
               conjunto de peas de cermica com orifcios incisos e superfcie decorada
               com traos gravados em ziguezague e pontilhados redondos ou retangulares;
               a terceira apresenta utenslios lticos incluindo furadores feitos sobre lascas
               s vezes mltiplas e lamelas simples ou com bordos retocados; a ltima
               possui cermica com bordas negras e superfcies vermelhas  polidas ou
               estriadas  mais ou menos semelhante ao Shaheinabiense, ao Grupo A da
               Nbia e ao Egito pr-dinstico (cerca de -3380 a -2985).
              O PsShamakiense, encontrado somente em dois stios  caracterizado por
               micropontas, lamelas entalhadas, lascas laterais e plainas, sugerindo contatos
               com o Faium e o osis de Kharga (aproximadamente -3650 a -3270).
   A ausncia, na Nbia egpcia, das culturas acima mencionadas ou de culturas
cronologicamente correspondentes explicar-se-ia por uma conjuntura ecolgica
particular, pela raridade dos stios ou talvez mais simplesmente por uma
explorao incompleta. Por outro lado, a Nbia egpcia, salvo particularidades
locais, mostra uma afinidade bastante clara com as civilizaes do Pr-Dinstico
egpcio, e mesmo com o Badariense.


14    Comparar com o Abkiense do captulo 28, p. 821.
Pr-Histria do vale do Nilo                                                           729



              O Nagadiense I15 aparece, entre outros, em Eneiba, Sebua, Shellal e Khor
               Abu Daoud (Nbia), at agora o nico local onde se encontrou uma rea
               de habitao com depsitos para provises.
              O Nagadiense II16 aparece perto de Abu Simbel e em Khor Daoud, Sebua,
               Bahan e Ohemhit. A partir da primeira dinastia, os contatos entre a Nbia
               e o Egito diminuram. As indstrias da Nbia evoluram no mesmo local
               em que j existiam, mantendo suas caractersticas pr-histricas at o Novo
               Imprio, sob os nomes sucessivos de Grupo A17, Grupo B e Grupo C nbios.
   No Egito, diferentes condies geogrficas e ambientais fizeram evoluir dois
grupos culturais distintos, que se desenvolveram paralelamente em territrio
egpcio, no sul e no norte. Eles preservaram esta .independncia de culturas, at
que o pas foi unificado sob a primeira dinastia. O uso do cobre desempenha
um papel secundrio, pois ele se verificou no sul muito antes que no norte, por
causa da proximidade de pequenos depsitos desse mineral, suficientes para
uso limitado.

     O grupo cultural do sul (Alto Egito)
   O grupo do sul manifestou-se desde o comeo como uma civilizao avanada.
Ela foi descrita com base no estudo de grandes e numerosos cemitrios e de
vestgios pouco importantes de regies habitadas.
              O Tasiense, ainda sumariamente analisado e at mesmo contestado por alguns
               pr-historiadores, aparece no Mdio Egito em Tasa, Badari, Mostagedda e
               Matmar. Estudado nas sepulturas e atravs de parcos vestgios de aldeias,
               ele apresenta caractersticas peculiares desconhecidas em outros lugares. A
               cermica, em sua maioria tigelas escuras, mais raramente vermelhas e com
               bordas negras, s vezes com superfcies enrugadas, distingue-se pelo ngulo
               pronunciado entre a parte superior reta ou oblqua e a base estreita. Os
               vasos caliciformes com decorao incisa ou pontilhada ilustram um outro
               tipo original, de carter inteiramente africano. O equipamento ltico inclui
               sobretudo machados polidos de grandes propores, em calcrio silicificado,
               raspadores, facas, furadores, etc. Paletas de pintura de forma retangular,
               quase sempre em alabastro, anis, braceletes de marfim e conchas marinhas


15   Pr-Dinstico Antigo do captulo 28, p. 825.
16   Pr- Dinstico Mdio do captulo 28, p. 826.
17   Ver captulo 28, p. 832-33.
730                                                                     Metodologia e pr-histria da frica



                perfuradas completam a srie de objetos de adorno. H tambm colheres e
                anzis de osso. No que diz respeito a costumes funerrios, os tmulos so
                ovais ou retangulares, apresentando s vezes um nicho lateral que abriga um
                corpo em decbito lateral, com braos e pernas fletidos, a cabea apontada
                para o sul e o rosto voltado para o oeste. Junto ao morto eram colocados
                vasos, utenslios e enfeites pessoais.
               O Badariense18, civilizao brilhante especialmente no Mdio Egito, aparece
                em Badari, Mostajedda, Matmar e Hmamih. Seu carter original 
                realado por uma cermica muito bonita, que abrange vasos de diversas
                cores  vermelho, marrom, cinza  ou vermelhos com bordas negras, em
                geral recobertos de linhas finamente incisas, sobretudo em posio oblqua.
                So, em especial, gamelas estreitas, carenadas ou com boca larga. H tambm
                tigelas e copos de basalto, alm de vasos de marfim. A parte interna , por
                vezes, ornamentada com motivos vegetais incisos. O instrumental ltico
                inclui armaduras bifaciais com gume denticulado e convexo, cabeas de
                flechas com base cncava ou em forma de folha de louro, como tambm
                outros utenslios lamelares. As conchas de cozinha, os pentes, as pulseiras,
                os anzis e as estatuetas de marfim ou osso so de grande valor artstico. As
                estatuetas de mulheres e as de hipoptamos tm uma funo ritual. Entre
                os enfeites pessoais encontram-se contas de quartzo encaixadas em cobre
                fundido, conchas, paletas de pintura em xisto, retangulares e em geral - com
                extremidades cncavas. Cultivam-se o trigo, a cevada e o linho; o boi e o
                carneiro so domesticados, ao passo que a gazela, a avestruz e a tartaruga
                so caadas para servirem de alimento. No h vestgios das habitaes, que
                no passavam de frgeis cabanas.
   Os mortos, contrados e deitados de lado com a cabea apontada para o sul
e o rosto voltado para oeste, eram enterrados em tmulos redondos, ovais ou,
mais raramente, retangulares; levavam consigo, para a vida no alm, os vrios
objetos j mencionados.  provvel que algumas ramificaes desiguais dessa
cultura sejam descobertas no deserto oriental (Uadi Hammamat), em Armant
(Alto Egito), na regio de Adaima (Alto Egito) e at mesmo na Nbia.
               O Negadiense I19  encontrado em Hmamih e em Mostagedda em
                estratigrafia, abaixo do Badariense, desde o Mdio Egito, a Nbia e at
                mesmo o deserto oriental (Uadi Hammamat). A cermica  de superfcie


18    Pr-Dinstico Primitivo, captulo 28, p. 824
19    Pr-Dinstico Antigo do captulo 28, p. 825, s vezes conhecido como Amratiense.
Pr-Histria do vale do Nilo                                                             731



               lisa ou polida, e de cor vermelha, marrom ou preta   diferente da do
               Badariense. Uma caracterstica tpica do Negadiense I  a decorao na
               cermica: os desenhos no so mais gravados e sim pintados em branco
               sobre vermelho, assumindo formas lineares ou apresentando motivos
               vegetais e composies e estilo naturalista. Os vasos de pedra, tubulares,
               em geral de basalto com alas perfuradas, terminam por uma base cnica. O
               instrumental ltico bifacial inclui flechas com base cncava, facas em forma
               de losango e de vrgula, alm de outras com extremidade bifurcada em forma
               de U, machados polidos, instrumentos lamelares e cabeas de maa discoides
               ou cnicas. As paletas de pintura, feitas sobretudo em xisto, tm no incio a
               forma de losango e, depois, a forma de animal. Os objetos em marfim e osso,
               pertencentes a uma nova tradio, so enfeitados, assim como os pentes e os
               alfinetes, com figuras humanas ou de animais. Eles eram utilizados para fins
               mgicos, mas, s vezes, serviam tambm como arpes. As casas, identificadas
               em Mahasna, so abrigos frgeis cercados por paliadas.
    O uso do cobre aumenta cada vez mais. Em geral, guardavam-se as provises
em depsitos cavados na terra; no entanto, em Mostagedda e Deir el-Medineh
elas eram guardadas em vasos. No que diz respeito aos costumes funerrios, os
mortos eram enterrados em tmulos retangulares, deitados de lado e com as
pernas encolhidas, a cabea apontada para o sul e o rosto para oeste; h exemplos
de inumaes mltiplas e de corpos desmembrados (cerca de -4000 a -3500).
              O Negadiense II20, estratigraficamente posterior ao Negadiense I em
               Hmamih, Mostagedda e Armant,  encontrado desde a entrada de
               Faium, em Gerzeh, at o sul da Nbia egpcia. A cermica tradicional do
               Negadiense I desenvolve-se adquirindo orifcios mais estreitos e bordas
               pronunciadas. A cermica com decorao branca  substituda por outra,
               cor-de-rosa, decorada em marrom, com motivos simblicos estilizados:
               espirais, barcos, plantas e figuras com braos erguidos. Tambm so tpicos
               os vasos bojudos com alas onduladas, que mais tarde se tornaro tubulares
               e que, na proto-histria, perdero suas alas. Os vasos feitos de vrios tipos
               de pedra, em geral muito evoludos, reproduzem frequentemente as formas
               da cermica rosa. Os instrumentos de pedra, tambm bastante evoludos,
               incluem facas bifendidas com extremidades em forma de V e outras que
               apresentam gumes opostos, um cncavo e outro convexo, com retoques bem
               regulares sobre uma das faces, previamente polida. Algumas vezes os cabos


20   Pr-Dinstico Mdio ou Gerzeense do captulo 28, p. 826.
732                                                            Metodologia e pr-histria da frica



               so cobertos com uma folha de ouro ou de marfim. As cabeas das maas
               so piriformes. A indstria do cobre, mais evoluda, produz pontas, alfinetes
               e machados. As paletas, cada vez mais estilizadas, tornam-se finalmente
               arredondadas ou retangulares. As estatuetas de osso ou marfim tambm se
               estilizaram bastante. As prticas funerrias acusam um refinamento maior:
               as paredes das covas ovais ou retangulares se revestem de madeira, lama ou
               tijolo. As recentes escavaes realizadas por ns em Adeimah (expedio do
               IFAO, 1974) revelaram tmulos de um tipo novo, em forma de banheira,
               datando do final dessa civilizao. Nesse perodo, a disposio das oferendas
               segue determinados padres; s vezes, elas so colocadas em anexos laterais.
               Encontram-se ainda corpos desmembrados, mas os tmulos mltiplos
               desaparecem. Alm disso, a orientao dos mortos no  mais uniforme.
               As habitaes consistem em cabanas redondas ou semi-redondas, feitas de
               argila, em abrigos frgeis e em estruturas de terra, retangulares, como as
               encontradas em El-Amra (mais ou menos de -3500 a -3100).


      O grupo cultural do norte (Baixo Egito)
   O grupo cultural do norte diferencia-se sensivelmente do do sul, sobretudo
devido  extenso das regies habitadas,  cermica monocrmica e ao costume
passageiro de inumar os mortos em suas prprias casas.
              O Faiumiense B21, ainda pouco conhecido, foi estudado ao norte do lago
               Faium e pertenceria ao final do Paleoltico, ou melhor, ao Neoltico pr-
               -cermico. Ele compreende lamelas simples e microlticas com dorso
               retocado, arpes de osso e pequenos piles. As mais recentes pesquisas
               identificaram um estgio intermedirio entre o Faiumiense B, mais antigo,
               e o Faiumiense A, mais prximo de ns. Esse estgio, que propomos chamar
               de Faiumiense C, apresenta goivas e pontas de flechas bifaciais pedunculadas
               parecidas com as do deserto ocidental (osis de Siwa, na Lbia) e constituiria
               um elo de ligao com o Saara, podendo ser datado de aproximadamente
               -6500 a -5190.
              O Faiumiense A22, bem melhor estudado em seus locais de habitao, apresenta
               um tipo grosseiro de cermica monocrmica  lisa ou polida  vermelha,
               marrom ou preta, compreendendo tigelas, copos, xcaras, selhas retangulares
               e vasos com p ou com bordas guarnecidas de salincias arredondadas, como


21    Ver NeolticoFaium B, captulo 28, p. 820.
22    Pr-Dinstico Primitivo do captulo 28, p. 821.
Pr-Histria do vale do Nilo                                                            733



               no Badariense. A indstria ltica, de tcnica bifacial avanada, compreende
               flechas com bases triangulares ou cncavas, pontas, armaduras de foices
               montadas em cabos retos de madeira, machados polidos e uma cabea de
               maa discoide. Em osso, encontramos alfinetes, furadores e pontas com
               bases pedunculadas. As paletas de pintura, grosseiras, so de pedra calcria
               ou mais raramente de diorito. Conchas do mar e fragmentos de cascas
               de ovos e de microclnio (amazonita) foram usados para fazer cordes de
               contas. Nos locais de habitao, no ficou trao algum dos abrigos, sem
               dvida muito frgeis, mas h muitas fogueiras cavadas no solo, semelhantes
               s achadas em Shaheinab, no Sudo. Silos constitudos de cestos enterrados
               no cho, agrupados perto das habitaes, teriam sido usados para armazenar
               trigo, cevada, linho e outros produtos. O porco, a cabra, o boi, o hipoptamo
               e a tartaruga serviam de alimento para a populao. At o momento no h
               vestgios de cemitrios, que, sem dvida, ficavam um pouco afastados. Essa
               cultura (cerca de -4441 a -3860) poderia ser contempornea do Badariense.
              O Merindiense23 ocupa uma extensa rea habitada de mais de 2 hectares a
               oeste do delta do Nilo. As escavaes, ainda por terminar e com resultados
               publicados somente em forma de relatos preliminares, atestam trs camadas
               sucessivas de restos arqueolgicos que traam a evoluo de uma mesma
               cultura no decorrer das pocas. Trata-se de uma cultura original, mas tpica
               do grupo do norte. A cermica monocrmica  lisa, polida ou rugosa 
               apresenta tipos variados, principalmente tigelas, copos, pratos e bilhas,
               mas no h nenhuma pea com bocal de bordos estreitados. As formas
               especficas incluem conchas de cozinha como as do Badariense, tigelas
               com salincias arredondadas como as do Badariense e do Faiumiense,
               alm de vasos com ps como os do Faiumiense. s vezes esses vasos so
               decorados com pontos escavados na borda, linhas verticais incisas, motivos
               em relevo ou ainda com um desenho em forma de folha de palmeira. H
               uns poucos vasos feitos de basalto ou de pedra verde dura, terminados
               por um p, do tipo Negadiense I. O instrumental ltico bifacial contm os
               mesmos tipos que aparecem no Faiumiense. H tambm uma cabea de
               maa piriforme ou globular. Sovelas, agulhas, furadores, arpes, esptulas e
               anzis so feitos de osso ou marfim. Os objetos de adorno incluem grampos
               de cabelo, pulseiras, anis, conchas perfuradas e contas de vrios materiais.
               So dignas de meno duas paletas de pintura, uma escutiforme em xisto e



23   Ver captulo 28, p. 820.
734                                                             Metodologia e pr-histria da frica



                outra em granito, materiais importados do sul. As habitaes, inicialmente,
                so cabanas espaosas, frgeis e ovais, sustentadas por estacas; depois vm
                as cabanas mais resistentes e menores; por fim, as casas ovais com paredes
                feitas de massa de argila comprimida, formando at alinhamentos de ruas.
                Silos do tipo faiumiense juntam-se s cabanas, sendo posteriormente
                substitudos por jarros enterrados no solo. Os mortos (nem todos,  claro)
                eram enterrados em covas ovais, sem aparato funerrio, entre as habitaes e
                voltados, ao que parece, em direo s suas casas. Domesticavam-se o porco,
                o carneiro, a cabra e o co e caavam-se hipoptamos, crocodilos, tartarugas,
                entre outros. A pesca tambm era praticada. Tendo-se desenvolvido entre
                -4180 e -3580, essa cultura poderia ser contempornea do Faiumiense e
                prolongar-se at o comeo do Negadiense I.
               O Omariense A 24, outra cultura do grupo do norte, apareceu perto de Heluan,
                entre os restos de uma vasta regio habitada com mais de 1 km de extenso,
                na entrada de Uadi Hof. Um anexo dessa aldeia pr-histrica ergue-se
                sobre um planalto, no topo de uma falsia abrupta, exemplo nico no Egito.
                Escavaes feitas por ns e ainda inacabadas revelaram os elementos de
                uma nova civilizao, diferente da encontrada no sul, como em Merinde
                e em Faium. A cermica  de refinada qualidade e com um estilo mais
                evoludo que o da dos dois stios j mencionados, embora monocrmica 
                compreende uma grande variedade de tipos. Entre os dezessete formatos
                de vasos  lisos ou polidos, de cor vermelha, marrom ou preta enumeram-se
                alguns com aberturas estreitadas, outros ovoides, outros ainda cilndricos,
                tachos com boca larga ou cncavos, outros cnicos, alm de copos e alguns
                jarros. Somente os vasos com salincias arredondadas assemelham-se aos de
                Merinde e Faium. Vasos de basalto ou calcita foram muito pouco usados.
                A indstria ltica bifacial de slex no difere, no todo, das encontradas nos
                stios precedentes; j a indstria lamelar apresenta algumas caractersticas
                particulares, novas no Egito. Trata-se de facas com dorso arqueado, aparadas
                perto da ponta, com um pequeno cabo na base, formado a partir de um
                duplo entalhe; so, talvez, uma sobrevivncia do Matufiense, que ocupou
                a regio durante o perodo anterior. Podemos citar ainda contrapesos para
                rede de pesca de um tipo encontrado no Cartumiense, no Faiumiense e no
                Saara nigeriano, onde tambm existe uma abundante indstria de lascas.
                A indstria de ossos, de boa qualidade, apresenta os tipos clssicos. Os



24    Ver captulo 28, p. 820.
Pr-Histria do vale do Nilo                                                                        735



               anzis, porm, so feitos de chifre. Os objetos de adorno, mais numerosos,
               incluem conchas de gastrpodes no mar Vermelho e contas feitas com
               ovos de avestruz, ossos, pedras e vrtebras de peixes. Os numulitdeos
               fsseis, perfurados, serviam como pingentes. A galena e a resina eram
               importadas. Quanto s paletas para triturar o ocre, so grosseiras e feitas
               em calcrio e quartzito. A fauna compreende bovinos, cabras, antlopes,
               porcos, hipoptamos, uma espcie de cachorro, avestruzes, lesmas, tartarugas
               e uma grande quantidade de peixes. Cultivavam-se trigo, cevada e linho.
               A vegetao inclui principalmente sicmoros, tamareiras, tamargas e alfas.
               As habitaes so de dois tipos: ovais, com tetos sustentados por estacas,
               ou redondas, parcialmente enterradas no cho, distinguindo-se dos silos 
               dispostos por toda parte por serem maiores que eles. Os mortos, sepultados
               na prpria aldeia, de maneira mais concentrada que em Merinde, esto
               em geral dispostos segundo uma orientao constante, num vaso de barro,
               com a cabea apontada para o sul e o rosto para o oeste. Um dos cadveres,
               provavelmente o de um chefe, segurava um cetro de madeira (o cetro
               "Ams") com uma forma conhecida no norte do pas na poca faranica
               (aproximadamente -3300?).
              O Omariense B25 aparece e se desenvolve no comeo do Negadiense I. Foi
               identificado por ns a leste do stio precedente e difere dele no que diz
               respeito s prticas funerrias e  indstria. Assim, o cemitrio era bastante
               afastado da regio habitada e consistia em sepulturas cobertas por um
               amontoado de pedras. Nenhuma regra constante orienta o alinhamento
               dos corpos. A regio habitada  bem menor que a do Omariense A,
               mas nossas pesquisas nesse campo ainda esto longe de se completarem.
               Enquanto a cermica mostra pontos em comum com a do perodo anterior,
               o equipamento ltico  totalmente diferente. Baseado na tcnica laminar,
               ele compe-se de pequenas facas, de raspadores de dimenses reduzidas,
               chatos e arredondados, e tambm de pequenas talhadeiras. Enquanto nossos
               trabalhos no forem retomados, no temos condies de estabelecer datas
               para esse stio em relao ao Omariense A.
              O Meadiense26 foi revelado por escavaes ainda incompletas, efetuadas
               numa extensa aglomerao prxima de duas necrpoles em Meadi, perto

25   Talvez possa ser colocado no Pr-Dinstico Recente (tambm conhecido como Gerzeense Recente,
     do captulo 28, p. 827), embora a data ainda permanea incerta.
26   Talvez pertena, ao menos em parte, ao Pr-Dinstico Recente ou Gerzeense Recente (ver captulo 28,
     p. 827), mas pode tambm ser contemporneo do Pr-Dinstico Mdio ou Gerzeense (ver captulo 28,
     p. 827-28).
736                                                       Metodologia e pr-histria da frica



          do Cairo, e tambm por nossas prprias escavaes numa terceira necrpole
          descoberta em Helipolis, um subrbio do Cairo. Trata-se de uma cultura
          bastante diferente das demais, e no segue direta e cronologicamente a cultura
          omariense, representando um conjunto cultural secundrio dentro do grupo
          do norte. Sua cermica monocrmica, em geral lisa, de cor negra ou marrom
          mas s vezes vermelha ou coberta de engobe branco,  menos refinada que
          a do Omariense. Os modelos mais comuns so vasos ovoides alongados
          com bordas pronunciadas, embora haja pequenos vasos de gargalo globular,
          geralmente com uma decorao de pontos gravados. Mais caractersticos so
          os vasos com anis circulares na base (basering), que lembram os vasos de
          basalto desse tipo encontrados em outras regies e presentes tambm aqui.
          Parecem ser muito raros, provavelmente importados do sul, os vasos com
          decorao marrom do Negadiense II. Vasos bojudos e com alas onduladas,
          existentes no Negadiense II e na Palestina, tambm foram encontrados no
          Meadiense. Eles refletem a continuao dos contatos culturais entre o Nilo e
          a Palestina. Da mesma forma, os vasos tubulares de basalto so semelhantes
          aos do Alto Egito na poca do Negadiense I. Manifesta-se em profuso uma
          bela indstria de lminas de pedra, trabalhadas em instrumentos tpicos
          dessa cultura. Mais raras, e talvez igualmente importadas do Negadiense I,
          so as facas bifendidas em forma de U.  pequena a quantidade de objetos
          de adorno. As poucas paletas de xis to em forma de losango tambm vm
          do Negadiense I; as demais so de quartzito ou simples blocos de slex
          achatados.
    Um ponto importante  que a cultura meadiense, pela primeira vez entre as
culturas pr-dinsticas do norte do pas, faz uso do cobre e em escala bastante
grande. O Faiumiense, o Merindiense e o Amariense no o conheciam, embora
no Alto Egito ele tenha sido usado em perodos bem anteriores. Desde o
Badariense, e sobretudo a partir do Negadiense, os povos do vale do Nilo
exploraram os pequenos depsitos vizinhos, no sul do deserto oriental. De
fato, foram achados alfinetes, cinzis, furadores, anzis e machados de cobre.
Ao mesmo tempo, parece ter havido a uma espcie de afluxo do mineral. Em
Meadi, esse metal comeou a ter uma importncia notria. Em nosso ponto de
vista, tal fato se deve aos contatos dos meadienses com os depsitos minerais
do Sinai. Esses contatos so confirmados pelas vrias caractersticas em comum
com as culturas do leste. Alm da cermica, j citada, presente tambm na
Palestina, podemos citar alguns utenslios de slex e de mangans. A fauna
Pr-Histria do vale do Nilo                                                  737



compreende bovinos, carneiros, cabras, porcos, hipoptamos, tartarugas e peixes.
Os recursos vegetais so o trigo, a cevada, o rcino e a alfa.
    Na regio habitada foi encontrado um grande nmero de estacas cravadas
no cho, que permitem provar a existncia de cabanas ovais, alm de vestgios
de abrigos toscos. Tambm foram descobertas cabanas mais evoludas, de forma
retangular e construdas com tijolos, como em Mahasna, e outras subterrneas,
s quais se tinha acesso atravs de degraus. Jarros enterrados no solo serviam de
silos para cereais, havendo ainda escavaes circulares que constituam armazns
para provises, nos quais frequentem ente foram descobertos vasos, como no
Negadiense. Os cemitrios, afastados das aldeias, continham tumbas ovais ou
redondas, nunca retangulares, que preservavam corpos fletidos, em decbito
lateral, quase sempre com a cabea apontada para o sul e o rosto para o leste;
junto com o corpo comumente havia vasos. As gazelas  sem dvida animais
sagrados  eram tambm enterrados nesse cemitrio, acompanhadas de muitos
vasos. Na necrpole de Helipolis, no limite do cemitrio, desenterramos uma fila
de ces, dispostos em todos os sentidos e sem aparato funerrio, provavelmente
destinados ao papel de guardies, como o que tinham desempenhado em vida.
    Essa cultura no sucedeu imediatamente  Omariense; ela apareceu no
fim do Negadiense I e prosseguiu seu desenvolvimento at quase o fim do
Negadiense II do Alto Egito.


    A continuao do uso da pedra no perodo faranico
    Aps ter descrito as vrias tendncias existentes no Egito durante o perodo
pr-dinstico, vamos fazer um resumo de suas principais caractersticas, tentando
explicar as causas de suas disparidades e mostrar como elas se encontraram na
poca faranica.
    Durante a longa histria dos faras, tm-se feito aluses aos dois Egitos  o
do norte e o do sul  unificados pelo legendrio Mens, fundador da primeira
dinastia. Essas aluses repousam sobre fatos constatados, que remontam a um
perodo muito antigo da pr-histria. Escavaes recentes atestaram a veracidade
dessa tradio e estabeleceram que esse dualismo regional entre norte e sul do
pas j prevalecia no estgio conhecido como "Neoltico". As diferenas no
eram meramente geogrficas; elas envolveram diversos aspectos da vida do
homem, a ponto de originarem dois grandes grupos culturais especficos, que
tiveram suas razes em condies geogrficas e ambientais diferentes. O grupo
do sul surgiu ao longo do estreito corredor do Nilo, cercado por duas falsias
738                                                   Metodologia e pr-histria da frica



ridas. O grupo do norte delineou-se no vasto leque do frtil delta de horizontes
sem fim.
   O grupo do norte revelou muitas culturas, semelhantes em suas grandes
linhas mas diversificadas nos detalhes, que so mais ou menos sucessivas
cronologicamente. J o grupo do sul acusa, num fundo comum, divergncias bem
mais pronunciadas que as existentes entre as culturas do norte. Tais distines
opem-se nos caracteres desses dois conjuntos que, mais tarde, constituiro o
Grande Egito. Assim, desde os primeiros estgios o norte apresenta um progresso
notvel no que diz respeito ao desenvolvimento urbano. No Faium, achamos
pequenos lugarejos, um bem prximo ao outro, e em Merinde, uma verdadeira
aldeia de quase 2 hectares, com alinhamentos de casas. El-Omari estende-se
por mais de 1 km e Meadi por 1,5 km. No sul, ao contrrio, tendo em vista a
exiguidade aparente dos stios, muito poucos vestgios urbanos sobreviveram
at aqui.
   Quanto s outras manifestaes concernentes  vida do homem e s suas
realizaes no Egito durante esse perodo, a cermica do norte  seja ela marrom,
preta ou vermelha  apesar da evoluo das formas, preserva uma monocromia
imutvel, caracterizada pela ausncia quase total de decorao. No sul, em
compensao, as caractersticas distintivas so a multiplicidade de formas e
a decorao bastante elaborada, com a presena dos famosos vasos de bordas
negras.
   Se a cermica do norte parece acusar uma certa inferioridade, o mesmo no
acontece com a indstria do slex, que revela um extraordinrio aperfeioamento
em sua feitura. Isso no significa que no sul o acabamento de algumas peas no
tenha atingido um nvel elevado. No campo da arte pura, o norte mostra uma
indigncia absoluta, que contrasta com o grande impulso obtido no sul. Esse
impulso manifestou-se desde o Badariense, atravs de estatuetas de terracota,
osso e marfim, e tambm de objetos de uso dirio, como pentes, conchas de
cozinha, pingentes, belas paletas para triturar cosmticos e amuletos talhados
em xisto verde.
   Assim sendo, constatamos que h grandes diferenas, nos mais variados
campos, entre as duas partes do Egito. Poderamos dizer que, enquanto o norte
mostra um desenvolvimento superior sob o ponto de vista da economia e da
urbanizao, o sul atingiu um estgio muito adiantado em termos de habilidade
artstica, prenunciando a poca dos faras. A unificao dessas culturas
complementares certamente ser responsvel pela grandeza do Egito faranico.
   Entretanto, o advento do perodo histrico  com a introduo da escrita,
a unificao do Egito sob um nico rei e o desenvolvimento do uso do metal
Pr-Histria do vale do Nilo                                                   739



 no modificou certos aspectos do modo de vida dos povos do vale do Nilo.
Referimo-nos, em particular,  persistncia no uso do slex, material muitssimo
eficiente e abundante no pas, que prosseguiu ao longo do perodo faranico.
     importante ressaltar aqui que o domnio do trabalho em slex realmente
alcanou seu apogeu sob as primeiras dinastias, como o testemunham as
extraordinrias facas ditas de "sacrifcio" dos tmulos reais de Abidos, no Alto
Egito, e de Saqqara e Heluan, perto do Cairo; a perfeio com que so elaboradas
e o seu tamanho so impressionantes. Os vestgios de habitaes dessa poca
revelaram todo um instrumental domstico em slex e somente alguns objetos de
cobre, encontrados em Hieracmpolis e em El-Kab, no Alto Egito, e em Uadi
Hammamat, no deserto oriental.
    Entre os vestgios do Mdio Imprio, da antiga Tebas a Karnak, recentemente
descobertos, encontramos uma grande quantidade de peas em slex; elas no
diferem, em termos de tcnica de fabricao e de tipos, dos instrumentos utilizados
durante o Paleoltico Superior e o Epipaleoltico. H mesmo numerosos buris
e alguns micrlitos. Alm disso, as exploraes sistemticas, empreendidas por
ns desde 1971 na montanha tebana em Luxor revelaram que, entre as duzentas
oficinas de lascamento de slex, mais da metade no data da pr-histria e sim do
Novo Imprio. Elas abasteciam a capital de grande quantidade de instrumentos
produzidos atravs de uma tcnica mais rudimentar que a utilizada no Mdio
Imprio. Esses instrumentos consistiam quase exclusivamente em lminas de facas
e armaduras de foices. Essas ltimas persistiram ainda durante a poca Baixa.
    No tempo dos faras o slex no foi reservado somente aos utenslios de uso
domstico. Os crescentes de slex serviram para furar braceletes de xisto em
Uadi Hammamat, objetos de adorno usados desde a proto-histria at o fim da
poca arcaica. No fim da terceira dinastia, num certo momento, os crescentes
foram empregados para cortar blocos de pedra para a pirmide de degraus do
fara Djoser, em Saqqara. Os vasos de pedra macia foram trabalhados com a
ajuda desses mesmos instrumentos nas oficinas de Faium, perto dos depsitos
de calcita, at o Antigo Imprio.
    Desde as primeiras dinastias at o final do Novo Imprio, as flechas dos
guerreiros egpcios eram armadas com pontas cortantes de slex. As da poca
do fara Tutankhamon (XVIII dinastia) eram feitas de vidro, material de luxo
to eficiente quanto o slex.
    O Egito faranico tambm usou rochas menos frgeis que o slex para a
fabricao de utenslios com fins especficos. Os pices e os malhos destinados
aos trabalhos em minas e pedreiras, providos de encabadouros, eram feitos de
pedras duras durante o Antigo Imprio. No Mdio e no Novo Imprio eram
740                                                    Metodologia e pr-histria da frica



mais toscos e feitos de calcrio silicificado. Os hipogeus funerrios do Antigo
Imprio em Gizeh, perto do Cairo, os do Mdio Imprio, no Mdio Egito, e
os do Novo Imprio, na montanha tebana, foram escavados e construdos com
essas mesmas ferramentas grosseiras.
    Na Nbia egpcia e em parte da Nbia sudanesa, agora submersas, as pesquisas
arqueolgicas no foram levadas muito adiante por ocasio das operaes de
salvamento. Isso nos priva, daqui para a frente, de valiosos informes sobre o
passado dessas regies, entre outras as que se referem  persistncia no uso da
pedra em pocas histricas.
    Mas o material arqueolgico trazido de uma aldeia do Grupo C nbio
(Mdio Imprio), em es-Sebua, permitiu-nos identificar uma srie de lminas,
lamelas e armaduras de foices em slex. Estas ltimas, sem dvida importadas
do Egito, so similares, em todos os aspectos, s que foram descobertas em
Karnak, mencionadas acima, e que pertencem ao mesmo perodo. Por outro
lado, em Amada, outra aldeia do Grupo C, ainda na Nbia egpcia, escavada
por ns h algum tempo atrs, encontramos provas suplementares relativas 
sobrevivncia da Idade da Pedra durante a Idade do Metal. Do mesmo modo
que em es-Sebua, havia lminas, lamelas e armaduras de foices em slex, de
origem egpcia; alm disso, ligadas a essa indstria ltica importada, descobrimos
no stio de Amada minsculas pontas de flechas transversais em gata e em
cornalina, como tambm machados de pedra dura polida, de fabricao local.
    Quanto  Nbia sudanesa, as escavaes empreendidas na fortaleza egpcia
de Mirgissa revelou, como era de esperar, a presena de armas. Elas datavam da
28a dinastia e incluam flechas do tipo clssico, isto , com pontas cortantes de
pedra, como as descritas anteriormente. Mas, fato novo, as cabeas das lanas
no eram de metal, como no Egito faranico naquela poca, mas de slex,
feitas segundo uma tcnica de lascamento bifacial perfeita, semelhante  usada
no perodo Neoltico. O reaparecimento desse mtodo tinha por finalidade
reproduzir o mais fielmente possvel as cabeas de lana de metal. A dificuldade
em obter o metal foi, com certeza, o que motivou esse retorno a uma tcnica de
fabricao esquecida h milnios.


      Concluso
    Depois de ter traado este panorama sumrio da histria dos primeiros
homens que habitaram o vale do Nilo, resta-nos fazer um balano final: reunir
as evidncias obtidas e apontar as vrias e importantes lacunas que restam.
Pr-Histria do vale do Nilo                                                 741



    No que diz respeito aos perodos mais remotos, descobertas bastante recentes
confirmam a presena do homem mais primitivo de que se tem notcia  o
olduvaiense  no somente na frica do sul e do leste, mas tambm na parte norte
do vale do Nilo. Ns o conhecemos atravs de um abundante instrumental ltico.
Mas seria conveniente continuar as pesquisas para completar a documentao
osteolgica, representada at agora por um nico dente humano. Exploraes
semelhantes relativas a essa poca deveriam ser feitas no setor sudans, que 
um ponto de contato com a Etipia, onde se fizeram achados importantssimos
para esse perodo.
    O conjunto de instrumentos lticos da Old Stone Age foi muito bem
analisado em sua tipologia, quase unicamente na regio de Uadi Halfa. A regio
de Tebas, por sua vez, forneceu dados sobre uma das fases mais remotas. Porm,
existem ainda numerosos problemas para serem resolvidos, entre outros os que
se relacionam com as "raas" humanas desse perodo.
    Quanto  Middle Stone Age, os testemunhos lticos aparecem em grande
nmero ao longo de todo o vale do Nilo. Progressos conseguidos na regio de
Uadi Halfa permitiram-nos compreender melhor a morfologia dos utenslios
de pedra nesse determinado setor. As proveitosas coletas feitas na montanha
de Tebas esto ainda em estudo, e permitiro comparaes importantes com
o material recolhido no sul. Os fragmentos de um osso occipital so ainda os
nicos vestgios humanos encontrados at agora. No deserto lbio, a noroeste
de Uadi Halfa, foi descoberto pela primeira vez um conjunto de utenslios de
pedra associado a uma fauna. Para esse perodo, h ainda vastas regies do Sudo
a serem exploradas.
    O Ateriense, quase contemporneo, foi h pouco tempo constatado no deserto,
a noroeste de Abu Simbel. Associada a uma fauna, essa indstria originria do
noroeste africano espalhou-se muito tarde pela regio. Seria interessante ver at
que ponto ela dataria do mesmo perodo que as outras descobertas no Egito, e
se ela pde influenciar as indstrias tipicamente egpcias.
    Quanto  Late Stone Age e ao Epipaleoltico, os achados provenientes apenas
de setores bem definidos forneceram numerosos dados antes desconhecidos.
Contudo, talvez pela falta de evidncias estratigrficas, abusou -se das
denominaes novas, apoiadas em estudos estatsticos e anlises fsico-qumicas
imperfeitas.
    Houve progressos inegveis no que diz respeito ao Neoltico (termo que
no tem um sentido preciso no Egito) e ao Pr-Dinstico ao longo do vale
do Nilo. Assim, no Egito, os stios do grupo cultural do sul revelaram uma
copiosa documentao obtida principalmente nos cemitrios. Mas  necessrio
742                                                   Metodologia e pr-histria da frica



fazer pesquisas em grande escala nas regies habitadas, de modo a conseguir
informaes mais completas sobre as habitaes, a cermica domstica e os
utenslios de pedra.
    Pelo fato de ocuparem uma rea bem vasta, os stios do norte do Egito
no foram exaustivamente explorados e, portanto, so conhecidos apenas por
relatos parciais. Apesar disso, forneceram dados bem mais completos que os
stios contemporneos que ficam ao sul, graas s pesquisas realizadas tanto nas
habitaes quanto nos cemitrios. Seria conveniente ento que as investigaes
levadas a efeito nessa parte do Egito  interrompidas h alguns anos por diversas
razes  fossem retomadas a fim de se completar a documentao.
    Quanto  Nbia sudanesa, vrias civilizaes especficas pertencentes a esses
perodos foram estudadas cuidadosamente. At agora, as mais representativas
dentre elas parecem ser a Cartumiense e a Shaheinabiense. Mas h muito
trabalho ainda por fazer, pois foram descobertas dezenas de stios aparentemente
relacionados a essas culturas ou a fases diferentes, e que esto esperando pelas
escavaes. O objetivo dessa pesquisa  contribuir para o ajustamento dos elos
da corrente da histria africana antes do perodo faranico.
A arte pr-histrica africana                                                                   743



                                      CAPTULO 26


                    A arte pr-histrica africana
                                            J. KiZerbo




    Com o aparecimento do homem, surgem no s utenslios, mas tambm
uma produo artstica. Homo faber, homo artifex. A pr-histria africana no
foge  regra.
    H milnios as relquias pr-histricas deste continente vm sofrendo
degradaes provocadas tanto pelo homem quanto pelos elementos naturais.
J na pr-histria, movido por uma iconoclastia ritual, o homem perpetrou
por vezes atos de destruio. Os colonizadores civis ou militares, os turistas, os
industriais do petrleo, os autctones, entregam-se ainda a essas depredaes e
"pilhagens desavergonhadas" de que fala L. Balout no prefcio da brochura de
apresentao da exposio: "O Saara antes do deserto"1.
    De maneira geral, a arte pr-histrica africana ornamenta a frica na regio dos
planaltos e dos macios, enquanto a frica das altas cordilheiras, das depresses
e das bacias fluviais e florestais da zona equatorial  incomparavelmente menos
rica nesse campo.



1    H. LHOTE refere-se a militares franceses que em 1954, na Arglia, cobriram com uma camada de tinta
     a leo o magnfico painel de elefantes de Hadjira Mahisserat, para melhor fotograf-lo. Outros criva-
     ram de balas de metralhadora a parede prxima  grande gravura do escorpio, em Geret et-Taleb. Em
     Beni Unif, as cristas decoradas com gravuras foram demolidas e as pedras utilizadas como material de
     construo, etc. Cf. H. LHOTE, 1976. Mesmo certos especialistas no esto isentos de culpa; inmeras
     obras foram recortadas e enviadas para Viena por Emil Holub, no fim do sculo XIX.
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    Nos setores privilegiados, os stios localizam-se essencialmente no nvel
das falsias, formando o rebordo das terras altas, sobretudo quando avanam
sobre os talvegues de rios atuais ou j desaparecidos. Os dois centros mais
importantes so a regio do Saara e a frica austral. Entre o Atlas e a
floresta tropical de um lado, e o mar Vermelho e o Atlntico de outro, foram
localizados inmeros stios, contendo dezenas, talvez centenas de milhares de
gravuras e pinturas. Alguns desses centros so hoje mundialmente conhecidos,
graas aos trabalhos de pr-historiadores franceses, italianos, anglo-saxes e,
cada vez mais, africanos. Bons exemplos podem ser encontrados na Arglia
o sul orans, o Tassili n'Ajjer ( Jabbaren, Sefar, Tissoukai, Djanet, etc.) , no
sul do Marrocos, no Fezzan (Lbia), no Air e no Tenere (Nger), no Tibesti
(Chade), na Nbia, no macio da Etipia, no Dhar Tichitt (Mauritnia),
em Momedes (Angola). O segundo epicentro importante situa-se no cone
meridional da frica, entre o oceano ndico e o Atlntico; tanto no Lesoto
quanto em Botsuana, em Malavi, em Ngwane, na Nambia e na Repblica
Sul-Africana, particularmente nas regies de Orange, do Vaal e do Transvaal,
etc. Nessas regies as pinturas encontram-se em abrigos rochosos, ao passo
que as gravuras esto a cu aberto. As grutas, como a de Cango (Cabo), so
excepcionais. Raros so os pases africanos em que no se tenham descoberto
vestgios estticos, embora,  verdade, nem sempre sejam pr -histricos. A
prospeco, no entanto, est longe de se completar.
    Por que esse florescimento nos desertos e nas estepes? Em primeiro lugar,
porque, na poca, a regio no era de desertos e estepes. Em segundo, porque,
ao tornar-se como  hoje, transformou-se num meio propcio  conservao,
graas  prpria secura do ar; no Saara, por exemplo, descobriram-se objetos
que estavam in situ h milnios. Por que  beira dos vales que recortam os
macios? Por razes de habitat, de defesa e de aprovisionamento de gua
e de caa. No Tassili arentico situado ao redor do ncleo cristalino dos
montes do Hoggar, que avana para o sul por uma falsia de 500 m, as
alternncias de calor e frio sensveis sobretudo no nvel do solo, juntamente
com os pequenos cursos de gua, cavaram na base das montanhas coberturas
e abrigos, grandiosos que dominavam os talvegues dos rios. Um dos exemplos
mais impressionantes  o abrigo sob rocha de Tin Tazarift. Por outro lado, os
arenitos tabulares foram escavados e sulcados pela eroso elica, formando
galerias naturais, logo exploradas pelo homem. Tal  o quadro de vida traado
com tanta fidelidade e brio pelas obras-primas da arte mural africana.
A arte pr-histrica africana                                                                            745



    Cronologia e evoluo
    Mtodos... e dificuldades de datao
    A aplicao do mtodo estratigrfico  rocha in situ frequentemente se revela de
pouca utilidade, pois o clima mido que perdurou por longos perodos da pr-histria
provocou uma lixiviao profunda das camadas que recobrem o solo dos abrigos.
Contudo, na frica do Sul encontram-se s vezes gravuras sob as pinturas; os restos
de matrias orgnicas (pintura) cados das paredes numa camada no explorada
podem fornecer alguns indcios. Mas os aterros e desaterros, s vezes intencionais,
dessas camadas confundem a datao, mesmo relativa, que se poderia esperar obter.
    Recorre-se ento, algumas vezes, s ptinas dos quadros e das rochas-suporte,
fazendo-se um estudo comparado de suas modificaes cromticas. Este mtodo,
que se mostra adequado j que leva em conta o prprio objeto em estudo, parte
do princpio de que as ptinas mais claras e mais distintas da rocha-me so
as mais recentes. Com efeito, a formao da ptina opera-se lentamente sobre
todas as rochas, inclusive os arenitos brancos. Trata-se de um processo anlogo 
laterizao, atravs da qual os xidos e carbonatos infiltrados sob forma lquida
pela chuva ou pela umidade voltam  superfcie por capilaridade e, graas 
evaporao, formam uma crosta slida, mais ou menos escura conforme sua
antiguidade. Ter-se-ia ento, tomando como referncia a rocha local, uma base
terica de cronologia relativa. Mas so muitos os obstculos: tudo vai depender
da natureza da rocha, de ela estar ou no exposta ao sol, de ficar na direo do
vento ou contra ele, etc. Essa cronologia , pois, dupla ou triplamente relativa2.
    Outras vezes, para avaliar a antiguidade dos quadros, tomam-se por base os
animais representados, j que nem todas as espcies viveram nos mesmos grandes
perodos. O bbalo, por exemplo,  uma espcie muito antiga, hoje extinta,
conhecida apenas atravs das ossadas fsseis. Mas esses animais no podem ter
sido reproduzidos como lembrana de um perodo anterior? Os estilos tambm
no constituem, como veremos, um ponto de referncia preciso; longe disso. 
bem verdade que, no comeo, a observao parece ter sido predominante, donde
uma veia seminaturalista caracterstica. Por outro lado, as gravuras bublicas do
Saara so, em geral, anteriores s pinturas. Os objetos subjacentes que tm o
mesmo tipo de decorao que as pinturas so, em princpio, contemporneos
destas. Mas no h, absolutamente, nenhuma regra geral.

2    A deformao do perfil do trao que, nas gravuras, sob o efeito de processos fsico-qumicos, passa do V
     original para uma forma alargada e rebaixada, fornece apenas indicaes muito vagas sobre a idade do
     quadro.
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    Outro procedimento que tambm se utiliza s vezes  a datao relativa
a partir de traados superpostos, ou seja, traos que recobrem outros traos
e que, portanto, so mais recentes. Contudo, nem sempre se encontram tais
superposies, e, alm disso, a deteriorao das rochas e a alterao dos pigmentos
frequentemente tornam a interpretao arriscada e contraditria3.
    Resta,  claro, o mtodo do C14, que  o ideal mas cuja aplicao  muito
rara, devido s razes j mencionadas. Alm do mais, impem-se numerosas
precaues: o fragmento de pintura no esteve em contato com matrias orgnicas
recentes? O fragmento de carvo no provm de um incndio provocado por um
raio? Apesar de tudo, as datas obtidas por esse mtodo multiplicam-se pouco
a pouco. Em Meniet, por exemplo (Mouydir), no Saara central, um carvo
recolhido numa camada profunda forneceu a data de 5410 +300 B.P.
    A poltica tambm pode se imiscuir na cronologia. Os observadores beres, por
exemplo, esto muito pouco dispostos a aceitar a grande antiguidade da civilizao
artstica dos autctones africanos. Tendem, pois, a reduzir-lhe o desenvolvimento,
seja por omisso, seja aplicando mecanicamente mtodos de avaliao utilizados
para os rupestres europeus. Nessas condies, as representaes do Drakensberg
so situadas por eles como posteriores ao sculo XVII, isto , muito tempo depois
da chegada dos Bantu. Ora, sem contar que a arte rupestre sul-africana representa,
por vezes, animais que datam de pocas muito anteriores nessa regio, parece
pouco provvel que os San tenham "esperado" os conflitos com os Bantu para
desenvolver uma forma de arte para cuja prtica seria necessrio um mnimo de
estabilidade. Convm, portanto, reexaminar a questo dos perodos.

      Perodos
   Quando se deseja classificar os achados da arte pr-histrica em sequncias
temporais inteligveis, a primeira abordagem deve ser geolgica e ecolgica,
j que era o meio  mais determinante do que hoje para os povos ento
mais desprovidos tecnicamente  que estabelecia e impunha o quadro geral
da existncia. O bitopo, particularmente, condicionava a vida das espcies
representadas, inclusive a do prprio homem, suas tcnicas e seus estilos. Se


3     J. D. LAJOUX aplicou as mais recentes tcnicas fotogrficas nas pinturas de Inahouanrhat (Tassili).
      Personagens vermelhas pareciam ter sido pintadas sobre a figura de uma mulher mascarada de cor
      marrom-esverdeada, mas os ornamentos brancos da mulher foram acrescentados mais tarde sobre as
      figuras vermelhas.  comum entre os aborgines da Austrlia a prtica de repintar as representaes
      rupestres (wondjina), a fim de revigor-las; essa prtica  acompanhada de narrativas mticas para invocar
      a chuva. L. Frobenius observou o mesmo costume entre os jovens senegaleses.
A arte pr-histrica africana                                                                             747



 verdade que, segundo a expresso de J. Ruffie, "o homem na origem  um
animal tropical" africano, as condies temperadas do norte aps as grandes
glaciaes permitiram a colonizao humana da Europa, que culminou com o
esplndido desabrochar da arte das galerias subterrneas, h quarenta sculos.
A arte mural africana  muito posterior. Na opinio de certos autores, como E.
Holm, suas origens datam do Epipaleoltico; mas ela marcou essencialmente o
perodo Neoltico4.
   Tomou-se o hbito de batizar os grandes perodos da arte mural com o
nome do animal que lhe serve de referncia tipolgica. Assim, quatro grandes
sequncias foram caracterizadas pelo bbalo, o boi, o cavalo e o camelo.
   O bbalo (Bubalus antiquus) era uma espcie de bfalo gigantesco que data,
segundo os paleontlogos, do incio do Quaternrio.  representado desde o
comeo da arte rupestre (aproximadamente 9000 B.P.) at cerca do ano 6000
B.P. Outros animais que marcam este perodo so o elefante e o rinoceronte.
Quanto ao boi, trata-se tanto do Bos ibericus ou bachyceros, com chifres curtos e
grossos, como do Bos africanus, dotado de magnficos chifres em forma de lira.
Ele aparece por volta do ano 6000 B.P.
   O cavalo (Equus caballus) aparece por volta do ano 3500 B.P., por vezes
atrelado a um carro5. O estilo do galope areo, embora no seja realista, 
naturalista na trilha ocidental do Marrocos ao Sudo, sendo, contudo, muito
esquematizado na "rota" oriental do Fezzan6. Aqui j estamos h muito no
perodo histrico em que o hipoptamo desaparece das representaes rupestres,
o que sem dvida indica o fim das guas perenes. O camelo fecha a fila desta


4    O Neoltico saariano mostra-se cada vez mais antigo  luz das descobertas recentes. Um stio neoltico
     que continha cermica no macio de Hoggar foi datado de 8450 B.P. pelo mtodo do carbono 14; ,
     pois, praticamente contemporneo do Neoltico do oriente prximo. Ver tambm as datas sugeridas por
     D. Olderogge no Captulo XI para dois stios na Nbia: Ballana (12.050 B.P.) e Toshk (12.550 B.P.).
     Em In-Itinem foram encontrados restos de alimentos em um abrigo sob rocha decorado com pinturas
     do perodo bovidiano. A ocupao mais antiga foi datada pelo carbono 14 de 4860 250 B. P. No macio
     de Acacus (Lbia), F. Mori encontrou, entre duas camadas com restos de ocupao, um fragmento de
     parede desabada com pintura do perodo bovidiano. As duas camadas foram datadas, descobrindo-se
     que o fragmento de parede data de 4730 B.P. (Ver H. LHOTE, 1976, p. 102 e 109). Tambm  citada
     a data de 7450 B.P. para o perodo bovidiano mdio de Acacus, cf. H. J. HUGOT, 1974, p. 274. J. D.
     CLARK indica uma data de 6310 250 B.P. para Solwezi (Zmbia). Por outro lado, a data indicada na
     tese de J. T. LOUW para o abrigo de Mattes (Provncia do Cabo, 11.250 400 B.P.)  considerada pouco
     segura. O caso de Tin-Hanakatem  extraordinrio: pode-se estabelecer uma correlao entre os afrescos
     e toda uma srie de nveis neolticos e proto-histricos que contm esqueletos, ou seja, uma estratigrafia
     humana fcil de datar, incluindo at mesmo um nvel ateriense. Cf. "Dcouverte exceptionnelle au
     Tassili", Archeologia, n. 94, maio 1976, p. 28 e 29.
5    A chegada do cavalo  frica  frequentemente relacionada  chegada dos hicsos ao Egito. Ver a esse
     respeito J. KI-ZERBO, 1973, p. 99.
6    A respeito das "rotas dos carros", ver R. MAUNY, 1961.
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caravana histrica. Levado para o Egito aproximadamente no ano -500 pelos
conquistadores persas, aparece com frequncia no incio da Era Crist7.
    Em se tratando da pr-histria, so principalmente os dois primeiros perodos e o
incio do perodo equidiano que nos interessam neste trabalho. So eles que marcam
a vida ativa desse espao imenso, que mais tarde se tornaria o deserto do Saara.
Por outro lado, no interior de cada grande perodo, os especialistas, obcecados pela
subdiviso cronolgica, discutem os subperodos. Mas as descobertas prosseguem; e
 preciso tomar cuidado para no colar apressada e rigidamente etiquetas zoolgicas
sobre perodos inteiros de um passado to pouco conhecido. Trata-se antes, se 
que posso me expressar assim, de dinastias animais iconograficamente muito vagas,
com inmeras superposies. O carneiro, por exemplo, classificado como posterior
ao bbalo e ao elefante, parece ser s vezes seu contemporneo. Est presente nas
mesmas paredes, representado com as mesmas tcnicas e apresentando a mesma
ptina. Talvez ele fosse pr-domesticado ou mantido em cativeiro, para fins religiosos.
Da mesma forma, os grandes bois gravados de Dider (Tassili), um deles com mais de
5 m, com grandes chifres em lira incorporando um smbolo, parecem contemporneos
do bbalo. O boi com pingente de Oued Djerat  colocado por alguns especialistas no
perodo bublico. Por outro lado, so frequentes as representaes de novos animais,
como por exemplo as corujas de Tan-Terirt, que, em nmero de aproximadamente
quarenta, sobrepem-se s imagens de bovinos.
    Fora da regio do Saara, os grandes perodos geralmente so posteriores e se
definem por critrios que variam de autor para autor, sobretudo entre os que, para
estabelecer uma periodizao, apiam-se, s vezes, em tcnicas, gneros e estilos8.


      Tcnicas, gneros e estilos
      Tcnicas
      As gravuras
   As gravuras encontradas nos locais onde tambm existem pinturas so, em
geral, anteriores a estas, e sua melhor tcnica surge nos perodos mais recuados.
Aparecem sobre rochas arenticas menos duras, mas tambm em granitos


7     Entretanto, o camelo parece ser conhecido desde o perodo faranico. Cf. E. DEMOUGEOT, 1960, p.
      209-47.
8     Na frica meridional, com base na forma do trao, na tcnica de trabalho da rocha (inciso, martelagem
      mais ou menos acentuada, polimento, etc.) e no tipo de seres representados, certos autores distinguem
      dois grandes perodos, o primeiro com duas fases e o segundo com quatro.
A arte pr-histrica africana                                   749




Figura 26.1     Rinoceronte, Blaka, Nger (Foto H. J. Hugot).
Figura 26.2     Gazela, Blaka, Nger (Foto H. J. Hugot).
Figura 26.3     Bovino, Tin Rharo, Mali (Foto H. J. Hugot).
Figura 26.4 Elefante, In-Ekker, Saara argelino (Foto H.
P. C. Haam).
750                                                    Metodologia e pr-histria da frica



e quartzitos, sendo executadas com uma pedra apontada golpeada com um
percutor neoltico. Alguns exemplares de percutores foram encontrados nos
locais das gravuras. Dispondo apenas desse equipamento mnimo, conseguiu-
-se grande preciso tcnica. O elefante de Bardai  delineado com um trao
leve e simples;  quase um esboo, mas mostra o essencial. J os elefantes de In
Galjeien (Mathendous) e de In-Habeter II e o rinoceronte de Gonoa (Tibesti)
so profundamente burilados com um trao ao mesmo tempo pesado e cheio
de vida. Os entalhes, em forma de V ou de U, tm aproximadamente 1 cm de
profundidade; foram feitos com uma machadinha de pedra ou com um pedao
de madeira bem dura, utilizando talvez areia mida como abrasivo. Algumas
vezes, parece que vrias tcnicas foram combinadas; por exemplo, a martelagem
delicada e a inciso em forma de V. A piquetagem prvia deixou, aqui e ali, traos
de asperezas no fundo da ranhura. O polimento final era acompanhado por um
trabalho de cinzelamento. Indiscutivelmente, a execuo dessas gravuras exigiu
por vezes habilidades atlticas. No Oued Djerat, por exemplo, h um elefante
de 4,5 m de altura e esboos de um rinoceronte de 8 m de comprimento.
   Acredita-se que, na frica central e meridional, as gravuras de contornos
profundamente entalhados estivessem relacionadas a finalidades religiosas,
enquanto os desenhos feitos com ranhuras mais delicadas teriam uma finalidade
pedaggica ou de iniciao. O refinamento provm do fato de que algumas
superfcies, vazadas e polidas com brilhantismo, representam as cores das
peles dos animais ou dos objetos carregados por eles. Encontramos a uma
prefigurao dos baixos-relevos do Egito faranico. Com efeito, a figura aparece,
por vezes, como um relevo entalhado na rocha vazada com essa finalidade
(camafeu). A rocha-matriz  utilizada de maneira muito apropriada. Citamos
como exemplo uma girafa que foi gravada num bloco alongado de diabsio
cujo formato combina perfeitamente com o da girafa (Transvaal ocidental).
Na regio de Leeufontein, um rinoceronte foi entalhado sobre uma rocha de
superfcie spera e com arestas angulosas que reproduzem exatamente a carapaa
do animal. Na colina de Maretjiesfontein (Transvaal ocidental), uma zebra
quagga foi representada por entalhe e piquetagem sobre um bloco de diabsio e
seu maxilar inferior coincide com uma pequena salincia da pedra que lembra
sua forma anatmica. No Museu do Transvaal h um esplndido antlope
macho cuja crina foi reproduzida por linhas piquetadas, e a mecha frontal,
por entalhes delicados. As cores interna (azul) e superficial (ocre vermelho) da
rocha so utilizadas com perfeio para realar os contrastes. Outra obra-prima
dos gravadores pr-histricos africanos  o grupo de girafas de Blaka, com suas
pelagens manchadas, suas patas em posies extremamente naturais e mesmo
A arte pr-histrica africana                                                 751



suas caudas em movimento oscilante. Em seu aspecto global, porm, a tcnica
comeou a decair. J durante o perodo chamado bovidiano, as gravuras so
frequentemente medocres, como  o caso das girafas de El Greiribat, entalhadas
com piquetagem larga e grosseira.

    As pinturas
    As pinturas no devem ser completamente dissociadas das gravuras. Em
Tissoukai, por exemplo, h esboos gravados sobre as paredes, sugerindo que os
artistas gravavam antes de pintar. Tambm aqui os trabalhos artsticos exigiam, s
vezes, proezas atlticas. Em Uede Djerat, h uma pintura do perodo equidiano
com 9 m de comprimento, feita num teto com uma inclinao abrupta. Em
alguns stios do Tassili, como Tissoukai, as pinturas aparecem a mais de 4 m de
altura, como se a inteno fosse evitar as partes inferiores ao alcance do homem;
para isso, foi necessrio utilizar escadas rudimentares e at mesmo andaimes.
    As pinturas so monocromticas ou policromadas, conforme o caso9. No
baixo Mertoutek, era usado o caulim roxo; no abrigo da face sul do Enneri
Blaka, o caulim ocre vermelho de tipo sanguneo; em outros locais, uma
paleta furta-cor com uma tal combinao de tons que era capaz de recriar
as condies e o equilbrio da realidade. Para tanto, fazia-se necessria uma
tcnica bastante complexa, tendo sido encontrados vestgios de atelis. Em
In-Itinem, por exemplo, pequenas ms chatas e minsculos trituradores para
pulverizar rochas, assim como pequenos gods de pintura, foram descobertos
nas escavaes. Os pigmentos revelaram-se muito resistentes, conservando
at hoje um vio e um frescor extraordinrios. A gama relativamente rica 
constituda de algumas cores bsicas: o vermelho e o marrom, provenientes do
ocre tirado do xido de ferro; o branco, obtido a partir do caulim, do excremento
de animais, do ltex ou de xidos de zinco; o preto, extrado do carvo vegetal,
de ossos calcinados e triturados ou da fumaa e da gordura queimada. Alm
dessas cores, eram utilizados tambm o amarelo, o verde, o violeta, etc. Depois
de finamente triturados num almofariz com um pilo, esses ingredientes eram
misturados com um lquido, talvez leite (cuja casena  uma excelente liga),
gordura derretida ou, ainda clara do ovo, mel, ou tutano cozido. Isso explica o
vio dos tons que perdura h milnios. As cores eram aplicadas com os dedos,
com penas de pssaros, com esptulas de palha ou de madeira mascada, com
plos de animais presos a um graveto por meio de tendes, e tambm por um


9    LAJOUX, J. D. 1977, p. 151.
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processo de pulverizao em que o lquido era borrifado com a boca. Foi atravs
desse ltimo processo que foram realizadas as mos em negativo, visveis at
hoje nas paredes rochosas, e que constituem uma espcie de assinatura original
dessas obras-primas.
   Algumas vezes faziam-se correes nas pinturas, mas sem apagar os traos
anteriores.  essa a origem dos bovinos com quatro chifres, homens com trs
braos, etc. Tambm nas pinturas as caractersticas da rocha eram utilizadas de
modo engenhoso, como, por exemplo, em Tihilahi, onde uma fenda natural da
parede tornou-se o bebedouro sobre o qual a manada se inclina10.

      As joias
    A arte ligada aos adornos no exige uma tcnica menos desenvolvida,
muito pelo contrrio. Algumas contas so de cornalina, rocha extremamente
dura. As tcnicas dos joalheiros podem ser reconstitudas atravs do estudo
dos restos deixados em diversas etapas de seu trabalho. Inicialmente, discos
planos eram desprendidos por percusso, depois por frico. Em seguida, uma
lasca pontiaguda, grossa e quadrangular era destacada de um bloco de slex e
servia como buril. Sua ponta aguada era cravada no centro do disco em ambos
os lados, alternadamente, produzindo dois furos alinhados. O momento mais
delicado do trabalho era fazer os dois furos coincidirem. O estilete de slex se
transformava ento numa broca giratria e, com a ajuda de areia fina misturada
com resina vegetal, limava o furo central at abri-lo por completo. Outras pedras
igualmente duras (amazonita, hematita, calcednia) tambm eram utilizadas,
assim como o osso e o marfim, na confeco de pingentes, braceletes e adornos
para o tornozelo. A pedra-pomes era usada para polir esses ornamentos. Em
Tin Hanakaten, foram descobertas algumas brocas de microdiorito no meio de
contas feitas com casca de ovo de avestruz.

      A cermica
   A pasta para a cermica era preparada com uma liga feita com estrume de
ruminantes. A seguir, um cordel desse material era enrolado sobre si mesmo e
trabalhado com os dedos e com um instrumento alisador. O gargalo desses potes
tem mltiplas formas: anelados, alargados, inclinados, curvos. O cozimento
devia ser impecvel, a julgar pelas cores matizadas que vo do rosa ao marrom-


10    LAJOUX, J. D. 1977, p. 151.
A arte pr-histrica africana                                                  753



-escuro. O engobe era conhecido, assim como o verniz vegetal, utilizado ainda
hoje na cermica da frica e para laquear ou ornamentar o assoalho, o telhado
ou as paredes das casas. As decoraes, magnficas, eram feitas com pentes de
osso, espinhas de peixe, impresses de espigas de milho, corda e gros, com
uma riqueza de imaginao que se expressa atravs de uma grande variedade
de motivos. Em Uede Eched, no norte do Mali, fornos de ceramistas agrupados
em local isolado atestam a importncia do trabalho desses artfices, que nada
ficava a dever  habilidade de seus congneres de Es-Shaheinab, no Sudo
Cartumiense11.

     A escultura
   A escultura tambm est presente, limitando-se, no entanto, a miniaturas: um
ruminante deitado em Uede Amazzar (Tassili); um boi deitado em Tarzerouck
(Hoggar); uma pequena lebre com longas orelhas cadas sobre o corpo em
Adjefou; uma impressionante cabea de carneiro em Tamentit, no Touat; uma
escultura de pedra antropomrfica em Ouan Sidi, no Erg oriental; uma cabea
de coruja esplendidamente estilizada em Tabelbalet; estatuetas de argila que
representam formas estilizadas de pssaros, mulheres e bovdeos, um dos quais
ainda apresenta dois pequenos ramos  guisa de chifres, em Tin Hanakaten.

     Tipos e estilos
    Em termos gerais,  possvel distinguir no Saara trs grandes tipos e estilos
que coincidem aproximadamente com os perodos mencionados acima.
    O primeiro  o tipo arcaico, de tamanho monumental, seminaturalista ou
simbolista. O homem parece estar ainda sob o impacto das primeiras emoes
perante a fora dos animais selvagens que  preciso dominar, eventualmente
atravs da magia. Podemos distinguir a dois estgios. O primeiro  o estilo
"bublico", localizado sobretudo no sul de Or, no Tassili e no Fezzan, que
apresenta gravuras caracterizadas por um agudo senso de observao. As figuras
so exclusivamente de animais, em geral de grande porte, e com frequncia
isolados. O estilo seminaturalista, despojado e austero, limita-se aos traos
essenciais, feitos com maestria. Exemplos desse estilo so o rinoceronte e os
pelicanos do Uede Djerat (Tassili), o elefante de Bardai (Chade), o elefante de In
Galjeien no Uede Mathendous. O segundo estgio se caracterizou por antlopes


11   Cf. HUGOT, J. H. 1974, p. 155.
754                              Metodologia e pr-histria da frica




Figura 26.5 Pintura rupestre,
Nambia (Foto A. A. A., Myers,
n. 3672).
Figura 26.6 Pintura rupestre,
Tibesti, Chade (Foto Hoa-Qui,
n. ART 11003).
A arte pr-histrica africana                                                 755



e argalis, geralmente pintados. Os homens esto em toda a parte, com suas
"cabeas redondas". O estilo ainda  seminaturalista e, s vezes, simbolista; mas
as linhas, em vez de sbrias, so ao contrrio animadas, at mesmo dinmicas
ou patticas. Os ritos mgicos esto prximos; podemos senti-los nos animais
totens, nos homens mascarados, nas danas rituais, etc. As figuras isoladas no
so prprias desta fase. Existem representaes de pequeno porte, mas tambm
frisos e afrescos compostos, os maiores do mundo. Esse estilo, concentrado no
Tassili,  visto em cenas que retratam argalis com chifres poderosos, danarinos
mascarados como em Sefar (stio epnimo, segundo J. Lajoux), a sacerdotisa de
Ouanrhet (chamada de Dama Branca).
    O segundo grande tipo  o da pintura e da gravura naturalistas com figuras
de tamanho pequeno, isoladas ou em grupos. O estilo  claramente descritivo.
J se pode sentir que o homem  ativo e que domina e controla os bovinos,
caninos, ovinos e caprinos. As cores se multiplicam.  o Saara das aldeias e dos
acampamentos. O stio epnimo seria Jabbaren.
    O terceiro tipo estilstico  esquemtico, simbolista ou abstrato. As tcnicas
anteriores so conservadas, mas frequentemente entram em decadncia. Todavia,
no se deve crer que tal decadncia tenha sido generalizada. As tcnicas de
gravura, sobretudo, decaem: os contornos so vagos, o pontilhado e a piquetagem
grosseiros. Na pintura, porm, o estilo do trao fino, apesar de inferior em
certos aspectos ao trao austero e vigoroso dos estgios anteriores, permite
apreender melhor o movimento, s vezes de trs quartos de perfil; ele se presta
bem  estilizao e s frmulas novas. A elegncia dos traos do homem de
Gonoa (Saara do Chade), por exemplo, lembra um bico-de-pena, em que
os olhos, as pupilas, os cabelos, a boca e o nariz so representados com uma
preciso quase fotogrfica. Tambm a tcnica da aquarela permite obter nuances
muito delicadas, como no caso do pequeno antlope de lheren (Tassili) com
patas vacilantes, que vem mamar em sua me que abaixa ternamente a cabea.
Este gnero  adequado  estilizao de cavalos e carroas, posteriormente de
dromedrios, e tambm do homem que  representado com dois tringulos,
como em Assedjen Ouan Mellen, ou que tem apenas um longo pescoo em
lugar de cabea. Existem, portanto, tendncias simultneas  preciso do
trao e ao esquematismo geomtrico um pouco descuidado, que se combina,
no fim do perodo, com os caracteres alfabticos lbico-berberes ou tifinagh.
Um grande nmero de detalhes, como as selas rabes com contraborraina,
obviamente posteriores ao sculo VII da Era Crist, permitem comprovar que
essas composies no pertencem  pr-histria.
756                                                      Metodologia e pr-histria da frica



    Alguns comentrios se fazem necessrios a propsito desses estilos que
evoluem sem limites cronolgicos precisos. O segundo estgio do estilo arcaico,
em particular,  bastante heterogneo. O bovino que anda a passo lento, de Sefar,
no tem nada em comum com as cabeas mascaradas e os motivos simbolistas.
Por outro lado, certos esteretipos atravessam vrios tipos e estilos, tal como a
tcnica pictrica que consiste em representar os bovdeos com os chifres de frente
e a cabea de perfil, encontrada em Ouan Render. So tambm estereotipados
certos gestos e atitudes, como a dos pastores que tm um brao estendido
enquanto o outro est dobrado sobre a cintura. Enfim, nota-se claramente a
existncia de certos temas regionais: o carneiro no sul de Or, a espiral no Tassili,
que no aparece no Fezzan nem no sul de Or. Em compensao, os temas
sexuais caracterizam sobretudo o Fezzan e o Tassili.
    No que diz respeito ao estilo dos adornos, foram encontrados no Capsiense
Superior ovos de avestruzes gravados com motivos geomtricos. Mas 
sobretudo ao Neoltico de tradio sudanesa que devemos os instrumentos e
armas artsticas, os esplndidos broches de slex jaspeado, envernizados em verde
e vermelho-escuro, a cermica decorada com linhas onduladas (wavy line), as
pontas de flechas de Tichitt, com suas denticulaes cuidadosamente polidas e
seu perfeito formato triangular.
    Nas outras regies da frica, a tipologia ainda est sendo estudada. Na
Nambia, por exemplo, um autor menciona a existncia de vinte estratos e estilos
de cores diferentes, com quatro grandes fases: 1. fase dos grandes animais em
estilo arcaico, sem figuras humanas; 2. painis de pequenas dimenses com
representaes humanas; 3. fase monocromtica com cenas de caa e danas
rituais cheias de vida; 4. fase policromada que atinge o apogeu esttico, como
no abrigo de Philipp Cave (Damaraland) e nas pinturas de Brandberg, datadas
do ano 1500 B.P.
    L. Frobenius, por sua vez, distingue dois estilos principais de arte rupestre
na frica meridional. Na ponta sul do continente, do Transvaal ao Cabo, do
Drakensberg oriental s falsias da costa da Nambia, trata-se de uma arte
"naturalista", na qual predominam os animais, quase sempre representados
isoladamente, com uma habilidade consumada que reproduz com exatido as
dobras da pele de um paquiderme e as listras da pelagem de uma zebra. Mas essa
arte  inanimada e fria, ainda que as pinturas sejam policromadas e compostas,
e as cores aplicadas por frico com notvel habilidade. Trata-se de cenas bem
estruturadas de caadas, de danas, de procisses e de conselhos. Por outro lado,
do centro do Transvaal ao Zambeze (Zmbia, Zimbabwe, Malavi), a arte 
fundamentalmente monocromtica, baseada no vermelho ou no ocre dos xidos
A arte pr-histrica africana                                                                             757



de ferro, s vezes aproximando-se do violeta. A rocha-suporte  o granito e no o
arenito, como no caso precedente. A tcnica utilizada  o desenho, que  to fiel
ao real quanto as "aquarelas" do sul; no entanto, no se trata de uma fidelidade
mecnica. A realidade , algumas vezes, interpretada em composies cnicas
em que se nota uma prodigiosa fertilidade de imaginao12.
    O homem  retratado com ombros largos e cintura estreita, ou seja,
"cuneiforme". Visto de frente, seus membros aparecem de perfil, como nos
baixos-relevos egpcios. No sul, os personagens so mais naturais, com membros
mais harmoniosos, em cenas de caa e de combate, que s vezes se confundem.
No norte, h cenas de funerais solenes, talvez exquias reais, com personagens
demonstrando sentimentos pungentes de pesar. A fauna, ao contrrio, na grande
caverna de Inoro, por exemplo, desfila no como uma arca de No, cuidadosamente
organizada, mas como um bestirio fantasmagrico: pssaros gigantescos com
bicos semelhantes a mandbulas de crocodilos, elefantes enormes com o dorso
denticulado, animais bicfalos. Por vezes, so mitos elaborados, como o da chuva.
O pano de fundo desses afrescos fantsticos consiste em verdadeiras paisagens
onde os rochedos estilizados, as rvores identificveis do ponto de vista botnico
e os lagos piscosos esto dispostos de maneira inteligente. Essa  a arte do
Zimbabwe, menos animada fisicamente que a do Sul, mas carregada de emoes
tumultuosas ou pungentes. Segundo Frobenius, o estilo "cuneiforme" estaria
ligado a uma civilizao altamente desenvolvida, e sabemos que na regio de
Zimbabwe existiram tais civilizaes. Tambm de acordo com ele, esse estilo
anguloso e austero foi substitudo por um estilo de traos mais arredondados e
flexveis, mais afetado e efeminado, quando as sociedades que o haviam inspirado
entraram em decadncia13.
    No Alto Volta, as gravuras rupestres no norte do pas (Aribinda) tm um
estilo seminaturalista ou esquemtico, enquanto no sul elas so sobretudo de
forma geomtrica. Tambm existem pinturas nas cavernas da falsia de Banfora.
    Na frica central, as pesquisas revelaram stios que comprovam a ocupao
humana desde o pr-Acheulense at a Idade dos Metais. Foram localizados
alguns centros de arte rupestre: o abrigo de Toulou na regio de Ndele, habitado
desde a pr-histria at hoje, e que apresenta personagens estilizados, pintados
de vermelho e muito antigos, e figuras pintadas de branco, com as mos na


12   A representao da caa e dos animais , no conjunto, naturalista, s vezes, por razes mgicas, pois a
     imagem deve reproduzir o mais exatamente possvel o objeto do rito. Por outro lado, as efgies humanas
     so, com frequncia, deliberadamente esquemticas; trata-se de proteg-las contra as influncias mgicas.
13   HABERLAND, E. 1973, p. 27.
758                                                                         Metodologia e pr-histria da frica



cintura; o abrigo de Koumbala; os stios de gravuras nas cabeceiras do Mpatou
e os stios de Lengo (Mbomou). Essa arte tem muito pouco em comum com a
do Saara, relacionando-se mais com as pinturas da frica oriental e meridional14.


      Motivaes e interpretaes
    As representaes rupestres foram denominadas petroglifos. De fato, mais
que qualquer outra, essa arte representa uma linguagem de signos, isto , uma
ponte entre o real e a ideia.  um smbolo grfico que requer uma chave para
ser entendido. O desconhecimento das condies sociais de produo dessa
arte , na verdade, a maior desvantagem para sua correta explicao. Por isso, 
importante no fazer interpretaes apressadas, omitindo a etapa da descrio do
prprio signo, ou seja, a anlise formal. Ora, frequentemente, a prpria descrio
j  feita em termos de interpretao. O ideal seria uma abordagem estatstica,
que permitiria proceder ao levantamento de dados quantitativos e qualitativos
do maior nmero possvel de pinturas, a fim de tornar vivel uma anlise
comparativa15. Seria possvel verificar, por exemplo, se os conjuntos de signos
encontrados num certo nmero de quadros obedecem a uma dinmica qualquer
no tempo e no espao. Mas a sequncia evolutiva reconstituda ser tanto mais
plausvel quanto mais completa a documentao. Enfim, essas hipteses, que
resultam da anlise formal, s podero ser confirmadas se concordarem com a
massa de dados que constituem o sistema global dessa sociedade. De fato, um
quadro pr-histrico  apenas uma parcela mnima de um macro-sistema de
informao, isto , de uma cultura que compreende muitos outros semelhantes.
Nesse nvel de anlise, verificamos o quanto  complexo o sistema de signos
a que precisamos chegar para apreender o verdadeiro significado de uma
representao esttica. Sem contar que esta ltima, alm do significado bvio,
pode apresentar um outro oculto, pois o signo  no somente signo de algo,
mas tambm signo para algum (simbolismo).  necessrio, portanto, passar da
morfologia  sintaxe social e do simples comentrio de um quadro puramente
naturalista; cujo significado  evidente,  decodificao da mensagem cifrada de
um quadro abstrato. E nesse ponto que a referncia ao contexto cultural se torna


14    R. de BAYLES des HERMENS, 1976.
15    Essa abordagem quantitativa pode eventualmente passar por uma anlise de computador, com as devidas
      precaues. A esse respeito, ver os trabalhos de A. Striedter no Instituto Frobenius de Frankfurt, dirigido
      pelo Professor Haberland.
A arte pr-histrica africana                                                                            759



indispensvel, pois os objetos so representados de maneiras diferentes segundo
as culturas. Quanto mais um signo est afastado do objeto designado, mais ele
 especfico de uma cultura, mais ele serve de indicador. Exatamente como uma
mesma onomatopeia que, presente em vrias lnguas, no caracteriza nenhuma
delas de modo especial; nada mais  que o reflexo de uma mesma natureza
comum. Isso no ocorre com uma palavra tpica de uma determinada lngua.
Podemos ento considerar as grandes galerias de arte como estaes emissoras
de mensagens culturais. Mas, quais so os receptores? Ser que essas estaes
no emitiam mensagens sobretudo para os prprios produtores e tambm para
o conjunto de sua sociedade, a qual nos deixou uma quantidade demasiado
pequena de outros vestgios que pudessem facilitar a leitura e a decodificao
dessas mensagens? Em resumo, a problemtica e os mtodos de explorao
esttica devem chegar a uma definio dos tipos de cultura que so a base
dessas manifestaes parciais. Delimitando os espaos culturais em que esto
mergulhados, podemos reconstituir o contexto histrico em que elas se inseriam.
     por esse motivo que a descrio de pinturas rupestres africanas por meio
de frmulas ou legendas, como Os juzes de paz, A dama branca, O arrancador
de dentes, Josefina vendida pelas irms, Os marcianos,  inadequada, pois transfere
e aliena todo um conjunto cultural, interpretando-o atravs do cdigo de um
nico observador ou de uma outra civilizao16. Podemos estabelecer como
princpio geral que a arte pr-histrica africana deve ser interpretada sobretudo
a partir de referncias autctones. Apenas quando a soluo para um problema
no for encontrada no ambiente espao-temporal e cultural do lugar, da regio
ou do continente,  que podemos procurar suas causas em outra parte.
    Assim, existem duas abordagens principais para a interpretao da arte pr-
-histrica: a idealista e a materialista. Segundo a explicao idealista, essa arte
expressava principalmente a viso de mundo das populaes da poca.
    Essas concepes, sozinhas, explicam tanto o contedo quanto a prpria
execuo das representaes. E importante, pois, que nos libertemos do jugo
racionalista: "A arte do sul da frica", escreve Erik Holm, "aparece sob sua
verdadeira forma se a consideramos como a manifestao do fervor religioso e
da necessidade de transcender as coisas; essa foi a metafsica da humanidade
primitiva e as imagens zoomorfas so apenas uma mscara que disfara a


16   Sobre esse assunto, ver as observaes pertinentes de J. D. LAJOUX, 1977, p. 115 et seqs. Sem negar o
     direito ao humor nem a imensa cultura do Abade Breuil e os eminentes servios que prestou ao estudo
     da pr-histria em geral e da frica em particular, devemos dizer que frequentemente ele se deixou levar
     por essa tendncia.
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Figura 26.7 "Pista da Serpente", pintura rupestre (Foto A. A. A., Mauduit, n. 35 C).
Figura 26.8   Dama Branca, pintura rupestre (Foto A. A. A., Duverger, n. DUV-4852).
A arte pr-histrica africana                                                                 761



verdadeira natureza das aspiraes humanas. Em vez de nos deixarmos levar
por polmicas, contentemo-nos com as indicaes fornecidas pelo mito; elas
so suficientemente explcitas"17.
    Nessas condies, o simbolismo mitolgico e cosmognico  a chave
principal para explorar o universo da arte rupestre. L. Frobenius desenvolveu
brilhantemente as mesmas teses, embora ele acrescente tambm consideraes
sociolgicas.
    Diz-se que, em Leeufontein, o leo foi gravado sobre a face lateral da rocha
para ser iluminado pelos primeiros raios do sol porque ele representa o astro
do dia, enquanto o rinoceronte est voltado para o poente por ser esprito da
noite e da escurido. O rinoceronte, cujos chifres simbolizam o crescente da lua
nova,  considerado pela tradio como o assassino da lua. E. Holm refere-se
tambm  "finalidade ritual" das cavernas situadas nos macios afastados. A
lenda cosmognica, coletada entre os San no sculo XIX pelo fillogo alemo
Willem Bleek, levou-o a afirmar que eles "no fazem distino entre a matria e
o esprito". O antlope do Cabo desenhado com os membros atrofiados simboliza
a lua nascente. Quando aparece diante de figuras humanas, como na galeria de
Herenveen (Drakensberg), presume-se que esteja sendo adorado. O gil cabrito
monts listrado de vermelho simboliza a tempestade, o louva-a-deus simboliza
o raio e o elefante, a nuvem de chuva (como vemos no Monte Saint-Paul,
Drakensberg). Esse mito pode ser encontrado no somente em outras partes da
frica (Philipp Cave na Nambia, Djebel Bes Seba e Ain Guedja na Arglia),
mas tambm num marfim gravado em La Madeleine, na Frana.
    O magnfico antlope do Cabo, no museu do Transvaal, apresenta uma
pelagem cor de mel; isso indicaria simplesmente que o antlope foi criado pelo
louva-a-deus, encarnao do sol, e que o louva-a-deus, a fim de lustrar o pelo
do animal, ungiu-o com mel puro. Se, por vezes, a zebra quagga foi pintada
sem listras, como na caverna de Nswatugi, nos montes Matopo, no Zimbabwe,
 porque originariamente a zebra no era listrada. Ela s adquiria as marcas
em sua pelagem depois de seu dorso ter sido queimado pelos raios do sol. De
acordo com esse ponto de vista, bastaria possuir, nos seus menores detalhes, o
"metabolismo pantesta" das origens africanas para dispor de uma espcie de
chave mestra que permitiria decifrar todos os enigmas da arte rupestre africana,
qualificada como "atemporal como omito". Mas, confessemos, isto  mais bonito
que verdadeiro.


17   HOLM, E. L' Art dans te Monde. L'Age de pierre, p. 183 et seqs.; p. 170 et seqs., etc.
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    Os adeptos da abordagem materialista, por outro lado, afirmam que a arte
pr-histrica, como qualquer outra, nada mais  que o reflexo da existncia
concreta dos homens de uma determinada sociedade: um momento "ideolgico"
e um instrumento superestrutural que expressa um certo equilbrio ecolgico e
sociolgico e permite ao homem preserv-lo ou melhor-lo em seu favor.
    Em nossa opinio,  possvel fazer uma sntese dessas duas abordagens, que,
isoladas, seriam incompletas. A arte pr-histrica africana foi incontestavelmente
um veculo de mensagens pedaggicas e sociais. Os San, que constituem hoje o
povo mais prximo da realidade das representaes rupestres, afirmam que seus
antepassados lhes explicaram sua viso do mundo a partir desse gigantesco livro
de imagens que so as galerias. A educao dos povos que desconhecem a escrita
est baseada sobretudo na imagem e no som, no audiovisual, fato comprovado
at hoje pela iniciao dos jovens na frica subsaariana. Os petroglifos da
arte so algo semelhante. No entanto,  evidente que o mito no explica tudo,
pois, antes de produzir o mito,  necessrio produzir e reproduzir a prpria
sociedade. Assim, o mito pode se tornar um meio privilegiado para melhorar
(ou deteriorar) as foras produtivas e as relaes de produo. Alis, o prprio
E. Holm sugere isso quando cita o caso do jovem San convencido de que a
ponta de flecha talhada em quartzo brilhante  uma parte da estrela que ele
invoca ao afiar o gume: "Voc, que nunca erra o alvo, voc, que  infalvel, faa-
-me atingir minha presa!" Essa frase  de alcance essencialmente utilitarista, ao
contrrio da concluso idealista de Holm. Para sobreviver, o homem ordena e
mobiliza o Universo.  essa a funo do mito, mas no creio que seja a nica18.
No devemos permitir que a floresta de smbolos nos impea de ver as rvores
da realidade concreta.
    Na verdade, s vezes a funo espiritual pode existir de modo autnomo,
servindo ento subjetivamente no mais como um meio, mas como um fim em
si. O mito representa para o homem um modo de compreender o Universo,
organizando-o, ou seja, racionalizando-o de uma determinada maneira, visto que
h uma certa lgica imanente no discurso mitolgico. A finalidade espiritual existe,
portanto, mesmo quando carregada de contedos infra-estruturais. Representar
um ser temido j , de fato, libertar-se dele; mant-lo sob nosso olhar significa
domin-lo. O silncio mineral quase palpvel que existe nos corredores rochosos

18    Do ponto de vista propriamente historiogrfico, devemos assinalar que os mitos esto, s vezes, repletos de
      ensinamentos. Assim, segundo os San, o sol, cansado de ser carregado nas costas da zebra, abandonou-a
      para se refugiar entre os chifres de um touro. Isso nos leva ao outro extremo do continente, s figuraes
      norte-africanas (sul de Or, Saara, Egito) de bovdeos com discos solares. Teria Htor, a deusa-vaca,
      nascido de um mito pan-africano?
A arte pr-histrica africana                                                                          763



secretos e fechados em In-Itinem e Tissoukai significaria o recolhimento dos
santurios e locais de iniciao ou o esconderijo de animais encurralados ou
roubados? Talvez os dois. As figuras mascaradas com cabeas zoomorfas e os
animais com atributos ceflicos (discos, aurolas, barras, etc.)19, frequentemente
associados no sul de Or e no Oued Djerat, fazem lembrar personagens em
posio de orao diante dos animais. Tambm os trs caadores mascarados
de Djerat, que parecem cercar um bfalo que traz um disco sobre a cabea,
representam talvez uma cena de magia. Sendo as mscaras ainda hoje utilizadas
por alguns povos africanos, por que no basear a interpretao de tais cenas
nessa problemtica cultural, em vez de nos entregarmos  pura especulao?
Descobriramos que nem sempre a explicao  de fundo religioso. At hoje, os
caadores da zona do Sahel usam uma cabea de calau que balanam para cima
e para baixo, imitando esse pssaro, para, andando de quatro, se aproximarem
de um antlope antes de atirarem suas flechas. s vezes, porm, a desproporo
entre os meios e o resultado  tamanha que sugere fortemente o uso da magia,
como quando um homem mascarado arrasta sem esforo um rinoceronte
abatido com as patas para o ar, numa gravura de In-Habeter (Lbia). Certos
ritos de fecundidade aparecem claramente no comportamento das figuras que
parecem entregues a cpulas rituais, como o coito entre uma mulher e um
homem mascarado em Tin Lalan (Lbia), ou nas figuras com falos protuberantes
que executam danas animadas. De fato, a fertilidade era o que mais importava,
sobretudo no fim do perodo pr-histrico no Saara ou no deserto da Nambia,
quando todo vestgio de vida recuava diante da seca crescente e implacvel.
No stio neoltico de Tin Felki, foi encontrado um adorno de cornalina
com formato hexagonal, identificado por Hampat Ba como um talism de
fertilidade, utilizado at hoje pelas mulheres peul20. Nesse caso especfico, no
devemos deixar de considerar tambm a motivao esttica. Como os homens e
as mulheres do Neoltico africano pertenciam  categoria sapiens como ns, no
podemos lhes negar um sentimento caracterstico de nossa espcie: o prazer
de criar formas pelo simples e puro gosto de contempl-las. A admirao que
experimentamos hoje diante dessas criaes era ainda mais intensa quando os
quadros acabavam de ser criados, e seus modelos fervilhavam nas vizinhanas.
Os pequenos piles para ps cosmticos, as contas de amazonita, calcednia ou
de casca de ovo de avestruz do Tnr, assim como os contornos soberbamente


19   Ver os clebres exemplos do boi de Maia Dib (Lbia) e do carneiro de Boualem (Atlas Saariano).
20   A cruz de Agads ou de Iferouane teria se originado do signo de Tanit, smbolo sexual feminino.
764                              Metodologia e pr-histria da frica




Figura 26.9 Detalhe de uma
gravura rupestre, Alto Volta
(Foto J. Devisse).
Figura 26.10 Pintura rupestre,
Nambia (Foto A. A. A., Myers,
n. 3808).
A arte pr-histrica africana                                                 765



modelados dos machados com garganta so testemunhas do elevado gosto
esttico dos africanos daquela poca.
    So relativamente numerosos os esboos abandonados como insatisfatrios.
Por outro lado, inmeros quadros esto de tal maneira expostos ao ar livre e aos
transeuntes que no h sombra de dvida acerca de seu carter profano. Tratava-
-se, em geral, da arte popular. Popular tambm no sentido de que provavelmente
havia uma inteno "histrica" na sua criao. De fato, o prazer de recordar e
o desejo de perpetuar a lembrana de feitos individuais ou coletivos tambm
fazem parte das caractersticas de nossa espcie humana. O homem nasceu
cronista, e os artistas da pr-histria so os primeiros historiadores africanos,
pois eles nos legaram em termos legveis os estgios progressivos do homem
africano em suas relaes com o meio natural e social.


    O peso da histria, ou a arte como documento
    Em que medida a arte pr-histrica africana  a edio ilustrada do primeiro
livro de histria da frica?

    O meio ambiente ecolgico
    Em primeiro lugar, a arte pr-histrica constitui um filme documentrio
sobre a infraestrutura das primeiras sociedades que viveram em nosso
continente; por exemplo, sobre o seu ambiente ecolgico. Esse bitopo pode
ser comprovado diretamente, como no caso dos objetos encontrados in situ, mas
pode tambm ser deduzido do contedo das pinturas. Cabe lembrar, como alerta,
que uma representao esttica no  necessariamente uma descrio objetiva
do meio ambiente que lhe  contemporneo. O artista poderia ter reproduzido
lembranas antigas ou ter materializado miragens e sonhos. Mas, neste caso,
no h nenhuma dvida, pois os testemunhos concordam com os resultados da
anlise geomorfolgica que determinou a extenso dos lagos pr-histricos e das
antigas bacias hidrogrficas. Num stio em Adrar Bous, datado de 5140 B.P. pelo
mtodo do C14, H. Lhote descobriu ossos de hipoptamos, o que confirma, por
exemplo, a autenticidade histrica do grupo de hipoptamos reproduzidos em
Assedjen Ouan Mellen. Ora, esse animal  um verdadeiro indicador ecolgico,
pois necessita de guas perenes para sobreviver. Um outro indicador  o elefante,
que consome diariamente enormes quantidades de vegetais. O Saara das pinturas
pr-histricas deve ter sido um grande parque com vegetao mediterrnea, da
766                                                                      Metodologia e pr-histria da frica




Figura 26.11 Pinturas rupestres, planalto do Tassili n'Ajjer, Arglia (Fotos A. A. A., 1 e 4 Naud, no 12599,
12379; 2 e 3, Sudriez, no 31, 43
A arte pr-histrica africana                                                                         767



qual ainda hoje restam alguns vestgios. Esse meio ecolgico foi substitudo
gradativamente por um bitopo "sudans e saheliano"21. No perodo do cavalo
e da carroa, so encontradas algumas representaes de rvores, tais como
palmeiras, que sem dvida indicam a existncia de osis.
   Na frica meridional, o estilo nrdico (ou rodesiano)  marcado por grande
nmero de desenhos de rvores, sendo possvel identificar algumas delas. Nos
abrigos e nos lugares hoje desertos, havia uma fauna abundante e variada,
ressuscitando, por assim dizer, uma espcie de arca de No, um jardim zoolgico
petrificado: gravuras de peixes, de animais selvagens, hirsutos e fortes, como
o antigo bbalo com seus chifres enormes de at 3 m de dimetro, de felinos,
como o guepardo e o protelo, de macacos cercopitecos ou cinocfalos (em Tin
Tazarift), de avestruzes, corujas, etc. Em todos os lugares aparecem cenas de caa
que lembram a eterna luta entre o homem e os animais selvagens. Essas cenas
cheias de vida e, s vezes, de violncia, em que se v a vitria da inteligncia
sobre a fora bruta, no deixam de lembrar os caadores mencionados por
Yoyotte no vale do Nilo pr-dinstico, com bolsas flicas entre as pernas, suas
armas curvas e "caudas postias" que, na realidade, como ainda hoje na frica
tropical, nada mais eram que uma pele de animal levada a tiracolo. Em Iheren,
h uma cena de caa ao leo onde a fera est cercada por lanas ameaadoras.
Em Tissoukai, um onagro abatido est prestes a ser esquartejado. No vale do
Nilo, na Lbia e em todo o Saara, h uma enorme quantidade de pinturas de
armadilhas, demonstrando a engenhosidade multiforme dos homens de ento,
que adaptavam suas tcnicas ao habitat e aos costumes dos animais22.
   Essa profuso de pinturas cinegticas encontradas desde o Nilo at o
Atlntico evidencia a existncia de uma verdadeira civilizao de caadores.
No escapavam nem mesmo os animais de grande porte, como o elefante, como
se pode ver na grande cena de caa do alto Mertoutek. Em quase toda parte as
armadilhas esto associadas aos smbolos dos caadores, num padro cultural
de grande originalidade, que existiu em quase toda a frica durante dezenas de
milhares de anos, at uma poca bastante avanada no perodo histrico, como
indica a lenda de Sundiata.




21   Y. e M. Via, 1974.
22   H paliadas e redes, armadilhas com disparador, fossos ou trpolas, mundus, armadilhas de bloqueio,
     de tenso ou toro, como em Dao Timni, na fronteira entre o Nger e o Chade, onde uma girafa est
     imobilizada por complexo sistema de tenso que lhe abaixa o pescoo at  horizontal. Para detalhes
     das pesquisas sobre esse importante assunto, ver P. Huard e J. Leclant, 1973, p. 136 et seqs.
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    Essas representaes nos mostram tambm a passagem gradativa do estgio
de espreita ou captura dos animais, para o de seu aprisionamento e, em seguida,
o de sua domesticao. Vemos um homem armado com um arco e conduzindo
um animal preso por uma trela, enquanto uma caada ao argali, em Tissoukai, 
feita com a ajuda de ces. O galgo saluki representado em Sefar, com sua cauda
enrolada, atravessou os tempos como o companheiro do homem do deserto. Uma
cena de Jabbaren mostra um caador  espreita diante de um animal selvagem;
equipado com uma arma curva, ele est sendo seguido por um outro animal
tambm  espreita, mas que parece domesticado. As variedades de bovdeos so
retratadas: Bos ibericus com chifres curtos e espessos no sul, Bos africanus com
grandes chifres em forma de lira em Taghit, Jabbaren, etc. s vezes esses animais
aparecem com um pingente no pescoo (Oued Djerat).
    Existem ainda bovdeos com chifres esplendidamente trabalhados e
decorados, artificialmente retorcidos em forma de espiral como em In-Itinem.
A variedade de jumento caada em Tissoukai  a mesma domesticada desde
o Neoltico, quando  visto montado por um homem. H tambm ovinos e
caprinos. At mesmo embarcaes so reproduzidas, como em Tin Tazarift, com
um perfil que lembra os barcos de papiro dos lagos e rios do Sudo chadiano
e da Nbia.

      O contexto humano
   Em In-Itinem, h pinturas que mostram homens inclinados para o cho,
manejando instrumentos angulares que lembram as cenas de colheita com foices
dos baixos-relevos faranicos. As pinturas de mulheres curvadas na postura
caracterstica de quem est joeirando ou respigando parecem indicar o cultivo
de cereais durante o Neoltico no Saara, aparentemente comprovado pela
abundncia de ms e piles para gros23. No entanto, os estudos palinolgicos
de amostras saarianas apontam para a necessidade de uma certa prudncia.
Talvez se trate de coleta, embora seja difcil traar os limites entre a vegecultura
ou protocultura e a agricultura propriamente dita. Em Battle Cave, moas San
partem para a colheita, tendo sobre o ombro um basto para cavar. De qualquer
maneira, a profuso de obras de arte rupestre e de utenslios descobertos em
vastas regies da frica, em particular nas reas hoje desrticas, d uma ideia
interessante sobre a densidade demogrfica dessas regies. A grande quantidade
de artefatos sugere, s vezes, uma produo semi-industrial, como no nordeste


23    Os que foram descobertos pela misso Berliet-Tenere classificam-se entre os mais belos.
A arte pr-histrica africana                                                 769



de Bchard e no erg Erroui, e mesmo em Madjouba (Saara ocidental), como
provam as observaes de T. Monod.
    A arte pr-histrica africana tambm fornece muitos dados sobre as
vestimentas dos homens de ento. Como  comum acontecer em pocas
primitivas, os homens usavam muito mais adornos que as mulheres at o perodo
bovidiano, quando a tendncia parece inverter-se.
    Vestindo peles de animais, enfeitando a fronte com faixas decoradas ou
usando mantos de plumas, os homens ostentam diversas insgnias, s vezes
enigmticas: colares, braadeiras, braceletes, etc. Frequentemente as mulheres
aparecem com um mnimo de roupas, portando s vezes a lempe (faixa de algodo
passada entre as pernas e presa com um cinto, com as pontas soltas cadas na
frente e atrs), comum entre as jovens da regio sudanesa. Mas h tambm a
tanga com os panos dispostos de diversas maneiras, vestidos colantes, vrias
espcies de porta-seios, inmeros tipos de adornos de cabea, inclusive um em
forma de crista, como em Jabbaren.
    As habitaes so quase sempre representadas de forma esquemtica:
as cabanas so semi-esferas nas quais vemos moblia e cenas domsticas.
As descobertas nos penhascos de Tichitt (Mauritnia), onde 127 aldeias j
foram identificadas, demonstram que os africanos do Neoltico tambm eram
construtores. Situadas sobre os contrafortes que formam a extenso meridional do
Dahr, essas aglomeraes em pedra seca, cada uma agrupando aproximadamente
3000 pessoas, apoiavam-se em geral sobre um alicerce de rochas ciclpicas,
lembrando os zimbabwe da frica central e austral. Essa arte arquitetnica,
notvel para a poca,  caracterizada pelos pilares de sustentao feitos de pedra
talhada24.
    Portanto, por meio dos afrescos da arte rupestre africana, podemos entrever
toda uma sociedade que se anima at quase adquirir a terceira dimenso, a da
vida. Em Takedetoumatine, por exemplo, mulheres de formas rolias e que
parecem terem sido bem alimentadas com leite, esto sentadas com seus filhos
na frente das cabanas; novilhos esto cuidadosamente amarrados em fila com
uma corda, enquanto homens ocupam-se em ordenhar vacas.  uma cena de
crepsculo, impregnada de serenidade pastoril. Poderia o nmero de mulheres
ser indcio de um regime poligmico? Em Orange Springs e em Nkosisama
Stream (Natal), h cenas de danas cheias de vida, que mostram as pessoas




24   Ver os trabalhos de H. J. Hugot sobre Tichitt.
770                                           Metodologia e pr-histria da frica




Figura 26.12 Cena ertica, Tassili (Foto P.
Colombel, n. 75321).
Figura 26.13 Cena ertica, Tassili (Foto P.
Colombel, n. 731075).
A arte pr-histrica africana                                               771



reunidas, principalmente mulheres, batendo palmas em torno de danarinos
mascarados.
    Em Jabbaren, uma mulher arrasta seu filho rebelde. Em Sefar, um homem
puxa o cabresto de novilhos, ainda hoje objeto sagrado (dangul) entre certos
pastores peul. O grandioso afresco do abrigo de Iheren, um dos pontos altos da
pintura pr-histrica, mostra uma fila de bois finamente ajaezados, com odres
de gua pendurados nos flancos, montados por mulheres que ostentam ricos
adornos. Alguns animais inclinam-se para o bebedouro, enquanto um imenso
rebanho avana de modo majestoso. Mulheres enfeitadas esto indolentemente
instaladas em frente de suas casas e homens com plumas nos cabelos parecem
ter parado para saud-las. Dentro das cabanas, podem-se ver vrias peas de
moblia.
    Em In-Itinem, h uma cena onde aparecem figuras eminentes em trajes
luxuosos e guerreiros uniformizados, o que demonstra o incio de uma
hierarquizao social. Arqueiros vestidos com mantos parecem organizados em
grupos de patrulha com um comandante. H aqui um certo bafio de "foras
policiais".
    No sul da frica, so abundantes as cenas de guerra, retratando os inmeros
conflitos entre os San e os Bantu.
    Entretanto, nada disso abolia o amor. Muitas cenas demonstram que os
artistas pr-histricos africanos no alimentavam nenhum sentimento de falso
pudor quanto a esse aspecto da vida de sua sociedade. Existem representaes
de animais no cio, como no contraforte oeste de Blaka, onde se vem dois
rinocerontes, um dos quais cheira os rgos sexuais do outro. Noutra parte, h
um bode no ato de cobrir uma cabra. As cenas de cpula humana em posies
variadas demonstram com ingenuidade e realismo que o homem no inventou
nada de essencial nessa rea desde os tempos antigos. No rochedo Ahanna, no
Uede Djerat (Tassili), h uma srie de homens mascarados com gigantescos
falos eretos, prestes a penetrarem mulheres em posio ginecolgica. Todos
os detalhes esto presentes. O grande afresco de Tin Lallan (Acacus, Lbia)
tambm  consagrado principalmente a esse mesmo tema orgaco (Hugot-
-Bruggman, n. 164).
    Em Inahouanrhat, h uma cena mais prosaica de coito a tergo, enquanto
em Timenzouzine (Tassili) um casal copulando est cercado por outros trs,
ainda em p, e a atitude de resistncia mais ou menos fingida das mulheres 
perfeitamente reproduzida.
    Quanto  magia e  religio, somos obrigados a admitir que o significado
de um grande nmero de quadros ainda permanece obscuro, pois eles esto
772                                                                    Metodologia e pr-histria da frica



cercados pelo mistrio dos mitos. O que significam os bois bicfalos ou os
bois com dois corpos hermafroditas e uma s cabea encontrados no Uede
Djerat? E as espirais magnificamente gravadas, associadas a inmeros animais,
como a que est representada sobre o bbalo do Uede Djerat? Esse motivo,
tambm encontrado na cermica de Guerze, parece estar ligado aos ritos de
caa (encantamento) assim como a espiral da serpente Mehen da poca tini
ta (I e II dinastias faranicas)25. Para alguns especialistas, a espiral significa a
continuidade da vida. Quanto ao cordo umbilical existente entre duas pessoas,
partindo, por exemplo, da interseco das coxas de uma mulher e chegando ao
umbigo de um arqueiro que est caando, parece significar um fluxo mstico
que parte da me em prece, com as mos erguidas, e chega at o filho, que se
encontra em situao de perigo. Da mesma forma, no sul da frica (Botsuana)
um animal "que faz chover"  conduzido atravs da regio atado a uma corda
puxada por uma procisso de pessoas atentas. Os motivos ligados ao sol fazem
parte do mesmo fundo religioso. Entretanto, somente a referncia ao contexto
cultural e cultual genuinamente africano permitir a compreenso de quadros
cujo significado ainda permanece obscuro. Foi o que aconteceu quando A.
Hampat B reconheceu numa cena de Tin Tazarift, denominada at ento
Os bois esquemticos (como as patas desses animais pareciam reduzidas a tocos,
supunha-se que estivessem deitados), o cerimonial de lotori, em que os bois so
levados  gua em celebrao  sua origem aqutica. Ao lado dessa cena h um
motivo digital indecifrvel, no qual Hampat B detectou uma aluso ao mito
da mo de Kikala, o primeiro pastor. Essa mo simboliza os cls peul, as cores
da pelagem dos bois e os quatro elementos naturais26.
    Em geral, o desenvolvimento indica a transio da magia, s vezes ligada s
danas paroxsticas, para a religio, como  atestado pela sequncia do grande
friso em In-Itinem que representa o sacrifcio de um carneiro.

      Relaes e migraes
   A tendncia a explicar todas as caractersticas culturais africanas atravs
da teoria das influncias exteriores deve ser rejeitada. Todavia, isso no quer
dizer que devamos negar essas influncias, mas sim defini-las com preciso.
A arte rupestre franco-cantbrica, que data de 40.000 anos aproximadamente,


25    Ver tambm o papel da serpente nas cosmogonias africanas.
26     preciso cuidado para no extrapolar automaticamente os mitos e lendas modernos para explicar cada
      detalhe dos smbolos encontrados na pr-histria. Cf. J. D. LAJOUX, 1977.
A arte pr-histrica africana                                                                       773



pertence ao Paleoltico, sendo portanto anterior  arte pr-histrica africana.
Por outro lado, o Neoltico do Saara  anterior ao da Europa27. Desse modo,
foi grande a tentao de atribuir  inspirao dos artistas do continente uma
origem setentrional. Chegou-se mesmo a falar de uma arte eurafricana cujo
foco teria sido europeu, sugerindo assim uma espcie de teoria hamtica da arte
pr-histrica africana.

     Uma civilizao autctone
    No h nada de verdadeiro na teoria referida acima. Alm do fato de pelo
menos 15.000 anos separarem os dois movimentos estticos, j foi reconhecido
que a arte do Levante espanhol, que deveria ser o elo de ligao no caso de uma
eventual influncia, nada tem em comum com a arte originria do sul de Or,
do Tassili e do Fezzan. L. Balout salientou insistentemente no haver conexo
entre a pr-histria da frica do norte e a da Espanha durante o Paleoltico
Superior. Alm disso, a origem capsiense das gravuras do sul de Or e do Saara
 rejeitada por quase todos os autores. A arte pr-histrica originou-se de fato
nos montes Atlas e seus plos ou epicentros so genuinamente africanos.
    Pergunta-se tambm se no foi a partir do Leste, ou seja, do vale do Nilo,
que essa arte expandiu-se para o interior do continente. Ora,  evidente que o
desenvolvimento artstico do vale egpcio do rio  bem posterior ao da frica
saariana e sudanesa. As representaes saarianas de bovdeos com crculos entre
os chifres so bastante anteriores s da vaca celeste Htor. Tambm o falco
finamente cinzelado sobre a placa de arenito em Hammada-el-Guir  bem
anterior s representaes, do mesmo gnero porm menores, que aparecem nas
paletas das tumbas pr-dinsticas egpcias prefigurando Hrus. O magnfico
carneiro com esfera de Boualem  bastante anterior ao carneiro de Amon,
que surge no Egito apenas durante a XVIII dinastia. Malraux considerou as
cabeas zoomorfas de Uede Djerat como "prefiguraes da zoolatria egpcia". O
mesmo pode-se afirmar acerca das deusas com cabea de pssaro de Jabbaren. O
seminaturalismo surge no Egito somente na poca guerzeense, assemelhando-se
ao das gravuras saarianas do perodo dos bovinos.  o caso dos quadros em Uadi
Hammamat que so, alis, de execuo medocre. Os admirveis barcos "de tipo
egpcio" do Saara (Tin Tazarift) so, sem dvida, simplesmente de tipo saariano.
As silhuetas de Rhardes (Tissoukai)  que supostamente representariam Hicsos,


27   "O Neoltico saariano data pelo menos do oitavo milnio antes da Era Crist. At pouco tempo atrs,
     prevalecia a opinio de que era posterior ao Neoltico da frica do Norte, do Egito e do Oriente
     Prximo". H. LHOTE, 1976, p. 227.
774                                                                    Metodologia e pr-histria da frica



o Fara, Antinea com um adorno de cabea que lembra o pschent faranico 
devem, em minha opinio, ser reavaliadas no sentido inverso, em termos de
perspectiva histrica.  certo que o Egito exerceu uma importante influncia
sobre o interior da frica, mas  certo tambm que essa influncia foi limitada.
No entanto, mais evidente ainda  a anterioridade da civilizao do Saara pr-
-histrico. H tambm o fato de nenhum obstculo, alm da distncia, separar
os povos de Hoggar, Tassili e Fezzan do vale do Nilo, que foi por muito
tempo (at o ressecamento do Saara) uma regio hostil, coberta de pntanos.
Foi somente a partir do perodo "histrico" que o Egito adquiriu o esplendor
responsvel pela tendncia atual de tudo lhe atribuir, segundo o princpio de
que "s se empresta aos ricos". Mas, em matria de arte e de tcnica, os plos
estavam situados originariamente no Saara, no Sudo Cartumiense, na frica
oriental e no Oriente Prximo. Alis, o Saara pr-histrico deve muito mais
s influncias do sudeste da frica que s do Oriente Prximo. J as relaes
entre o sul da frica e a regio do Saara no parecem estar baseadas em provas
concretas, embora Frobenius tenha chamado a ateno para um certo nmero
de analogias28. Chegou-se mesmo a falar de uma "civilizao magosiense"
que, segundo E. Holm, teria sido quase pan-africana, mas no h nada muito
claro sobre isso. De qualquer modo, a produo artstica da pr-histria sul-
-africana , em geral, posterior  da frica do norte do equador; apesar de
o povoamento da parte meridional do continente ser extremamente antigo29.
Como j dissemos, certos autores atribuem erroneamente ao sculo XVII grande
perodo das representaes do macio do Drakensberg, ou seja, aps a chegada
dos Bantu. Em todo caso, do ponto de vista estilstico, parece que a pintura do
sul no tem afinidades com o perodo chamado de "Cabeas redondas" do Saara,
relacionando-se apenas com o perodo bovidiano. Ela se distingue tambm por
motivos tpicos, como a vegetao abundante, as paisagens com representaes
estilizadas de rochas, os temas funerrios, etc. De qualquer maneira, o estudo
comparativo deve ser mais desenvolvido e, principalmente, o quadro geral da
histria do Homo sapiens pr-histrico africano deve ser melhor elucidado, antes
de podermos traar eventuais flechas que representem a direo de correntes
artsticas.


28    HAUERLAND, E. 1973, p. 74.
29    Cf. J. D. CLARK, captulo 20 deste volume. Alguns autores sugerem que a arte rupestre difundiu-se a
      partir do Zimbabwe em direo  Nambia e ao Cabo, em seguida, em direo ao Transvaal e  regio
      de Orange; quanto s obras policromadas evoludas, novamente do Zimbabwe em direo  Nambia.
      Cf. A. R. WILLCOX, 1963.
A arte pr-histrica africana                                                                            775



     Esquematismo das teorias raciais
    Essa observao  ainda mais vlida quando consideramos as "raas"
responsveis pela produo artstica. Mas no seria um abuso de linguagem utilizar,
neste caso, o conceito de raa?30 Poderiam os poucos esqueletos ou restos sseos
disponveis autorizar a elaborao das ousadas teorias sobre o povoamento por
"raas" pr-histricas? Entretanto, certos autores esquematizaram um processo
demogrfico de rara complexidade, que passamos a relatar. Aps o povoamento
original por "africanos" autctones, povos neandertalenses do Oriente Prximo
teriam emigrado para a frica em dois ramos, um avanando at o Marrocos
e o outro em direo aos planaltos elevados do leste africano atravs do Chifre
da frica. So os aterienses do Paleoltico Mdio. Em seguida, aps uma fase
epipaleoltica, provavelmente relacionada ao Sebiliense do Egito, uma outra
vaga de povos cro-magnoides teria atingido a frica do Norte, comportando
um ncleo ibero-maurusiense e um ncleo capsiense. Sem dvida, esses grupos
teriam passado por um processo de neolitizao em seus novos habitats, dando
origem, em particular, ao Neoltico de tradio capsiense que ocupa, entre outras
regies, o norte do Saara. No entanto, outros centros apresentam uma notvel
diversificao tcnica e artstica. Devemos citar, sobretudo, a forte influncia das
tradies neolticas sudanesa e "guineense", com centros secundrios em Tnr
e no litoral atlntico ao norte da Mauritnia31. Na opinio de certos autores,
o perodo bubaliano da arte rupestre seria devido a povos "mediterrnicos"
mal definidos, brancos segundo alguns, mestios de acordo com outros. O
perodo das "Cabeas redondas" seria atribudo a grupos "negroides" os quais,
consideram alguns, ter-se-iam miscigenado com povos do Oriente Prximo
e constituiriam o Neoltico de tradio sudanesa. O perodo bovidiano seria
obra dos ancestrais dos peul. Finalmente, mais ao sul, a tradio denominada
guineense teria influenciado at as construes sobre a falsia de Tichitt
(Mauritnia).  preciso salientar que todas essas reconstituies so demasiado
frgeis e privilegiam enormemente as influncias extra-africanas. Chega-se ao
ponto de falar de "ntida influncia africana" numa representao rupestre do
Saara. Mas, sobretudo, essas reconstituies tendem a estabelecer equivalncias
entre conceitos to diversos quanto raa, etnia, gnero de vida e civilizao.
H referncias a negros, brancos, peul, africanos, capsienses, sudaneses, sem

30   O processo de especiao a que se refere J. Ruffi j deveria estar, em grande parte, abolido, sobretudo
     com as miscigenaes facilitadas pela ecologia bastante homognea do habitat saariano. Ver captulo 10,
     parte II, "Teorias relativas s `raas' e histria da frica", p. 277-286.
31   Cf. H. J. HUGOT, 1979, p. 62 et seqs.
776                                                                     Metodologia e pr-histria da frica



que, por razes bvias, se defina precisamente nenhum desses vocbulos.
Lhote, por exemplo, rejeita a influncia dos capsienses nas gravuras do perodo
bubaliano32. Entretanto, ele declara que nas gravuras em Oued Djerat "no h
um s perfil genuinamente negroide; todos os que aparecem com distino so
incontestavelmente caucasoides. Devemos presumir, portanto, que se tratava de
brancos, exatamente a impresso que temos aps examinar as figuras do sul de
Or e do Fezzan". "Que pena", disse-me um dia um colega sul-africano, "que
no possam falar."33
     com base nessas mesmas frgeis indicaes de morfologia antropolgica que
o perodo das "Cabeas redondas"  atribudo aos negros e o perodo bovidiano aos
peul. Mas a identificao racial  frequentemente baseada tambm nos modos de
vida e nas culturas, o que constitui uma grande aberrao. Os povos neolticos de
tradio sudanesa so definidos como "a etnia dos caadores-pastores originrios
do leste". Os "traos finos, as tcnicas pastoris, os ornatos de cabea em forma
de crista das mulheres e a trana de cabelos usada pelos homens" bastam para
atribuir aos Peul toda a arte rupestre que reproduz essas caractersticas, embora
hoje eles no demonstrem nenhum gosto esttico desse gnero e nem mesmo
tenham conservado sua lembrana, ao contrrio do que ocorre entre os San,
por exemplo. E tambm apesar de todos os "estgios" e estilos, assim como
todos os perfis antropolgicos estarem largamente reproduzidos na arte rupestre,
sobrepondo-se uns aos outros. Ainda hoje, em quase todas as regies da frica
tropical,  possvel reconstituir a gama de perfis encontrados nas pinturas do
Saara34. Sem contar que um pintor "peul" pode ter reproduzido danarinos
mascarados, da mesma forma que um artista "negro" pode perfeitamente ter
retratado cenas da vida pastoril ou ter transformado os traos de seus heris e
heronas, como fazem atualmente certos pintores senegaleses. Os San, que so
homens pequenos, frequentemente no se retratam altos, esbeltos e elegantes,
com anatomias foradas? Toda arte  conveno e jamais algum viu um povo
negro composto apenas de "cabeas redondas". Alm disso, seria a especializao
"agricultores-pastores" to acentuada quanto atualmente?35


32    Cf. H. LHOTE, 1976, p. 110.
33    Cf. H. LHOTE, 1976, p. 41.
34    P. V. TOBIAS salienta tambm que todos os tamanhos e formas de crnios so encontrados entre os
      hotentotes do Cabo.
35    " surpreendente que no conheamos nenhum critrio seguro para distinguir os homens do perodo
      bubaliano dos homens do primeiro perodo pastoril (bovino I). A existncia de bovdeos, quase
      certamente domesticados desde a poca das belas gravuras naturalistas, faria recuar consideravelmente
      o surgimento da criao de animais". Th. Monod, janeiro, 1951.
A arte pr-histrica africana                                                                              777



    Bem a propsito, H. J. Hugot escreve sobre os homens neolticos da
Mauritnia: "Quando chegaram, os homens negros de Tichitt traziam consigo
seus bois". Mais adiante, ele diz que "durante a fase pastoril mdia chegam os
elementos negroides. E o grande perodo bovidiano, com as manadas de bois
retratadas em profuso"36. Portanto, o pastoreio no  um critrio suficiente, assim
como no o so a craniometria e as impresses subjetivas sobre as caractersticas
fsicas. No so as "raas" que fazem a histria, e a cincia moderna no inclui
a raa entre os caracteres somticos superficiais37. Todas as "damas brancas" das
pinturas rupestres africanas, como a que existe na frica do Sul, que tem apenas
o rosto branco e que lembrava a Breuil os afrescos de Cnossos e "a passagem
de colunas de prospectores vindos do golfo Prsico", representam sem dvida
sacerdotes, caadores ou jovens africanas saindo de cerimnias de iniciao,
como fazem ainda hoje, pintadas com caulim branco, cor que denota a morte
de uma personalidade anterior e a ascenso a um novo status38.
    Tambm existem controvrsias a respeito da autoria das obras de arte
rupestre no sul da frica. Mas, neste caso, o quadro histrico geral  um pouco
mais conhecido. Trata-se, inicialmente, das relaes entre os Khoi-Khoi e os
San, depois entre os Khoisan e os Bantu. H muitos quadros que retratam essa
dinmica histrica. A comparao estatstica das mos positivas desenhadas
sobre as rochas corresponde  compleio dos San, como tambm a esteatopigia,
a semi-ereo do pnis, etc. Quanto s gravuras do perodo dos cavalos e das
carroas elas relacionam-se  poca histrica.
    Podemos nos indagar se os pintores e os gravadores pertenciam a povos
diferentes, os primeiros trabalhando nos abrigos, e os segundos nas colinas.
Tudo indica que no. De fato, os pintores geralmente no podiam trabalhar ao
ar livre; se o fizeram, suas obras certamente perderam as cores e desapareceram.
Por outro lado, o dolerito e o diabsio dos kopje eram as melhores rochas para a
gravao, pois ofereciam um belo contraste entre a ptina ocre e o interior cinza
ou azul da rocha, o que no ocorria com o calcrio dos abrigos. Alis, encontram-
-se por vezes pinturas e gravuras nos mesmos locais, e tambm gravuras que


36   HUGOT, H. J. op. cit., p. 225-74.
37   Cf. captulo 10, parte II, "Teorias relativas s `raas' e histria da frica", p. 277-86.
38   Segundo inmeros autores, "a Dama Branca" de Brandberg, cujas reprodues no fazem justia ao
     quadro real, seria, na verdade, um rapaz, a julgar pelo seu arco, suas ndegas estreitas e seu rgo sexual
     protuberante (como acontece frequentemente entre os San, cujo pnis  semi-ereto). Quanto  sua cor,
     devemos salientar que a face no  pintada, mas representada pela prpria rocha, enquanto o corpo  rosa
     dos ps at a cintura e negro mais acima. Alis, a cor no significa nada, pois existem elefantes, macacos
     e mulheres pintados de vermelho e homens de branco. Cf. A. R. WILLCOX, 1963, p. 43-45.
778                                                     Metodologia e pr-histria da frica



foram inicialmente pintadas, como no distrito de Tarkestad. Acontece, ainda,
de uma mesma conveno esttica ser encontrada tanto nas gravuras quanto
nas pinturas.

      Esttica
   No mbito esttico propriamente dito, a arte pr-histrica africana  a fonte
de inspirao, a introduo brilhante da arte africana moderna cujas razes foram
to pouco exploradas at agora. H nela uma riqueza de estilos dos quais se pode
acompanhar a evoluo, s vezes quase passo a passo, at as criaes estticas
modernas. A arte africana moderna foi muito influenciada pela arte rabe e pela
europeia, mas existe tambm uma antiga tradio cuja matriz se encontra nos abrigos
sob rocha e nas galerias pr-histricas. A pintura baseia-se em cores simples como
o ocre vermelho, o branco, o preto, o amarelo e, acessoriam ente, o azul e o verde.
Ainda hoje, essas cores podem ser vistas nas mscaras e nos adornos dos danarinos.
   Trata-se de uma arte fundada na observao, na ateno quase amorosa
e por vezes reverente diante da realidade. Tanto a gravura quanto a pintura
apresentam esse aspecto, mas de modos diferentes. O bovino de, Augsburgo
(Botsuana), do qual se conservou apenas a parte anterior,  delineado com um
trao impecvel que reproduz os detalhes anatmicos mais precisos do focinho,
dos olhos, das orelhas, dos plos, etc. A girafa em Eneri Blaka  uma verdadeira
escultura realista; as manchas do pelame foram feitas por martelagem, com
entalhes delicadamente sombreados para mostrar o contorno da cabea, das
arcadas zigomticas, dos chifres, dos olhos globulosos, das narinas e dos cascos
fendidos, brilhantes. O aspecto natural provm da maestria do trao que delineia
soberbamente o perfil, da martelagem que refina os detalhes interiores e tambm
da presena de um filhote que se apia em sua me com um movimento de
espontaneidade tocante.
   Essa veia de observao tambm  encontrada no afresco de Iheren, onde se
comprimem sem jamais se confundirem, tal a segurana do trao, dezesseis girafas
combinadas com graa, grupos de mulheres cobertas de adornos viajando em
seus bois de carga, gazelas e antlopes (dorca, dama, oryx, bbalos) identificados
respectivamente pelos chifres finos, pela pelagem branca, pelos longos chifres
voltados para trs e pela cabea alongada. No mesmo painel, uma girafa recm-
-nascida, ainda ligada pelo cordo umbilical, tenta equilibrar-se sobre as patas.
Um leo com um carneiro entre as garras espreita os homens armados que o
perseguem, enquanto outros carneiros fogem aterrorizados. Um boi se aproxima
A arte pr-histrica africana                                                                        779



de uma poa de gua para beber, o que faz as rs saltarem. E a agitao brilhante
e pattica da natureza, onde o homem-rei  o intruso.
   Mas o naturalismo dos detalhes jamais exclui o recurso ao essencial e uma
arte da composio cnica que deriva de uma espcie de abordagem escultural
da pintura. Assim, personagem principal  apresentado em primeiro plano,
dominando os outros, que so relativamente menores.  o caso dos grandes
caadores mascarados que se destacam das feras por seu tamanho; do fara
abatendo seus inimigos, ou do oba de Benin engrandecido em relao a seus
sditos.
   A nfase no essencial d origem s formas simbolistas, anttese do barroco.
Combinada com a tcnica da escultura, produz esse ritmo caracterstico que
d vida tanto ao bbalo desenhado com um trao seco e despojado, quanto 
manada de bovinos de Jabbaren, da qual temos a impresso de ouvir o rudo
surdo dos cascos, a respirao quente e os mugidos.


     A atualidade da arte prhistrica africana
    Popular e quotidiana, essa arte  animada por um senso de humor que  a
ironia alegre ou amarga da vida. Esotrica, ela vibra como um fervor mstico
levado pelo estilete ou pelo pincel do artista, e nos d alguns dos mais belos
flores da arte universal, como o carneiro com um disco solar, de Boualem,
cuja atitude hiertica anuncia o mistrio e convida  meditao39. Essa dupla
abordagem traduz bem a dupla condio do homem africano moderno: to
espontneo e quase trivial no dia-a-dia, to srio e mstico quando tomado pelo
ritmo de uma dana religiosa.
    Em suma, a arte pr-histrica africana no est morta. Ela vive, ainda que apenas
nos topnimos que perduram. Um vale afluente do Uede Djerat, denominado Tin
Tehed, ou seja, "o lugar da jumenta",  efetivamente marcado por uma bela gravura
de asno. Issoukai-n-Afella tem a fama de ser assombrado por espritos (djenoun)
talvez porque, diante de um monte de seixos constitudos por arremessos de pedras
votivas, exista uma figura zoomorfa assustadora, que rene os atributos da raposa
aos da coruja, sem falar num sexo de tamanho descomunal.




39    notvel que certos autores mencionem a existncia de dois carneiros encarregados de proteger o rei
     contra o mau-olhado na corte do imperador do Mali, no sculo XIV. O carneiro existe tambm em
     outras cortes africanas: Mero, Akan (Gana), Kuba (Zaire) e Kanem (Chade).
780                                                                   Metodologia e pr-histria da frica



    Essa arte mereceria ser reintroduzida na vida dos africanos, ao menos atravs
de programas escolares, pois a distncia que dela os separa constitui uma barreira
s atravessada pelos estudiosos e especialistas dos pases ricos.
    Ela deveria ser ciosamente protegida de danos de todo tipo que constantemente
a ameaam, pois  um patrimnio sem preo40. Um registro completo deveria
ser organizado, para permitir um estudo comparativo.
    De fato, a arte  o homem. E na medida em que a arte pr-histrica  um
testemunho integral do homem africano primitivo, desde seu meio ecolgico at
suas emoes mais elevadas, na medida em que a imagem  um signo s vezes
to eloquente quanto a escrita, podemos afirmar que a arte mural africana  o
primeiro livro de histria desse continente. Mas trata-se evidentemente de um
testemunho ambguo e enigmtico, que precisa do respaldo de outras fontes
de informao, como a paleontologia, a climatologia, a arqueologia, a tradio
oral, etc.
    Sozinha, a arte pr-histrica no revela seno a parte visvel de um iceberg,
 a projeo, sobre o quadro mineral e congelado dos abrigos sob rocha, de um
cenrio vivo desaparecido para sempre. A arte  reflexo e fora motriz. Por meio
da arte pr-histrica o homem africano proclamou, atravs dos tempos, sua luta
encarniada para dominar a natureza, mas tambm seu afastamento consciente
dessa natureza, para alcanar o prazer infinito da criao, o xtase do homem
demiurgo.




40    Em 1974, um decreto do governo argelino transformou toda a zona das pinturas e gravuras do Tassili
      em parque nacional.
Origens, desenvolvimento e expanso das tcnicas agrcolas                                        781



                                        CAPTULO 27


       Origens, desenvolvimento e expanso
              das tcnicas agrcolas
                                      R. Portres* e J. Barrau




    Durante muito tempo, as ideias sobre as origens da agricultura foram
fortemente influenciadas pelo etnocentrismo. A tendncia era (e ainda , por
vezes) a de considerar o bero agrcola e pastoril do Oriente Prximo, sede
da "revoluo neoltica" definida por Gordon Childe1 no somente como o
local de surgimento da cultura dos cereais mais importantes (trigo, cevada,
etc.) e da criao de animais (cabras, carneiros; mais tarde, bovinos), que so
as bases materiais da civilizao ocidental, mas tambm como o ncleo de
origem da prpria civilizao, ao menos no que diz respeito ao "Velho Mundo".
Sem dvida, as pesquisas arqueolgicas realizadas desde a Segunda Guerra
Mundial, sobretudo nos ltimos vinte anos, contriburam para modificar
em parte esse ponto de vista limitado e, de certo modo, pretensioso. Essas


*    Roland Portres, professor do Museu Nacional de Histria Natural de Paris, faleceu em 20 de maro
     de 1974. Encarregado pelo Comit Cientfico Internacional para a Redao de uma Histria Geral
     da frica de redigir este captulo sobre as origens e o desenvolvimento das tcnicas agrcolas, chegou
     a fazer um esboo que foi, no entanto, uma de suas ltimas tarefas. A obra ficou, portanto, inacabada;
     baseando-me nas inmeras publicaes de Roland Portres, nas suas anotaes e nas nossas frequentes
     conversas sobre o assunto, propus-me levar a cabo este trabalho, procurando permanecer fiel ao interesse
     apaixonado que Portres dedicava  fascinante natureza da frica, a seus pases, povos e civilizaes.
     Ainda que imperfeita, esta contribuio  sua obra  uma homenagem prestada ao mestre e ao amigo que
     tanto fez para um melhor conhecimento da agricultura e das plantas cultivadas do continente africano.
      Jacques Barrau.
1    1942 (revisto em 1954).
782                                                                   Metodologia e pr-histria da frica



pesquisas certamente mostraram a importncia do "crescente frtil" na histria
da agricultura mundial2, mas tambm revelaram o papel de outras partes do
globo nessa evoluo to importante na histria da humanidade: a produo
de alimentos que, at ento, tinham sido coletados no meio ambiente natural.
Desse modo, tornou-se mais evidente a significao das invenes agrcolas e do
cultivo de vegetais na Amrica3, assim como a relativa anterioridade do centro
agrcola do sudeste asitico tropical4 e, finalmente, a contribuio africana para
a histria dessa agricultura mundial.
    No entanto, o clebre agrnomo e geneticista russo N. I. Vavilov5 j reconhecia,
h quase meio sculo, a existncia de centros de origem de plantas cultivadas
na frica; mais tarde, um de seus colaboradores, A. Kuptsov6, demonstrou a
presena de beros agrcolas primrios nesse continente. Alguns anos depois, um
dos autores deste captulo definiu com preciso a localizao, o nmero e o
papel desses beros7.
    Por muito tempo, todavia, o papel da frica no desenvolvimento da
agricultura, de suas tcnicas e de seus recursos foi minimizado, at mesmo
ignorado, devido a preconceitos coloniais e ao desconhecimento da origem de
vrios cultgenos africanos e, em geral, da pr-histria do continente.
    Essa situao mudou radicalmente e, nos ltimos anos, tem-se manifestado
um grande interesse pelo estudo das origens da agricultura africana, como
o comprovam, por exemplo, os ensaios publicados em 1968 em Current
Anthropology8 e os inmeros comentrios que provocaram. A esse respeito,
devemos citar tambm os estudos reunidos por J. D. Fage e R. Oliver9 e ainda,
mais recentemente, a contribuio de W. G. L. Randles para a histria da
civilizao bantu10. Mas, antes de tentar uma breve sntese dos conhecimentos
sobre a pr-histria e a histria agrcolas da frica,  conveniente descrever em
traos gerais o quadro ecolgico em que se desenrolaram.



2     Ver, por exemplo, BRAIDWOOD, R. L. 1960.
3     Sobre esse assunto, ver, por exemplo, MACNEISH, R. S. 1964.
4     Ver BARRAU, J. 1975.
5     VAVILOV, N. I. 1951, p. 1-6.
6     KUPSTOV, A. 1955 e DARLINGTON, C. D. 1963.
7     Ver PORTRES, R. 1962.
8     DAVIES, O. "The origins of agriculture in West Africa." HUGOT, H. J. "The origins of agriculture:
      Sahara." SEDDON, D. "The origins and development of agriculture in East and Southern Africa."
9     FAGE, J. D. e OUVER, R. 1970.
10    RANDLES, W. G. L. 1974.
Origens, desenvolvimento e expanso das tcnicas agrcolas                   783



    O meio ambiente e as origens da agricultura africana
     evidente que as origens, a diversificao e o desenvolvimento das tcnicas
agrcolas estavam estreitamente relacionados s condies do meio ambiente
(clima, hidrografia, relevo, solos, vegetao, tipos de plantas originariamente
utilizadas e alimentos que forneciam, etc.). Embora esses fatores tenham
desempenhado um papel importante, at mesmo preponderante, na origem
da agricultura e da criao de animais, no foram, entretanto, os nicos a
interferir, pois esses processos implicavam tambm fatos de cultura e de
civilizao.
    Mesmo nas pocas pr-agrcolas e nos perodos iniciais da agricultura,
os homens levavam consigo, nas migraes ou deslocamentos, seus
instrumentos, tcnicas, modos de compreender e interpretar o ambiente,
maneiras de adaptar e utilizar o espao, etc. Carregavam tambm toda uma
srie de atitudes e comportamentos criados a partir de suas relaes com
a natureza em seus habitats de origem. Assim, em uma poca em que a
Europa apenas emergia do Paleoltico, o cultivo de vegetais e a criao de
animais j estavam bem estabelecidos no Oriente Prximo, onde as primeiras
cidades comeavam a surgir. Ora, foi do Oriente Prximo que essa Europa
um pouco atrasada recebeu as invenes tcnicas e consequentes ideologias
que iam tornar possvel a sua "revoluo neoltica", baseada na agricultura e
na criao de animais.
    Fenmenos semelhantes de difuso ou de intercmbio aconteceram em
outras partes do mundo e, evidentemente, tambm na frica, em razo das
migraes internas e externas que afetaram esse continente.
     essencial, todavia, compreender as implicaes das invenes agrcolas e
pastoris, assim como do cultivo de plantas e domesticao de animais. O homem
passou da apropriao de alimentos (coleta, caa)  produo (cultivo, criao).
Desse modo, progressiva e parcialmente, o homem se liberou das imposies
dos ecossistemas a que pertencia e onde, at o surgimento da agricultura e da
criao, levava uma vida "biocentica" como os outros organismos, sujeitos ao
curso normal dos processos da natureza.
    A introduo da agricultura e da criao de animais foi a mudana
fundamental que permitiu ao homem adaptar -se a diversos ambientes e
modificar os complexos biolgicos, fazendo -os produzir mais ou fornecer
gneros outros que os produzidos por meios naturais. Em consequncia do
novo papel do homem, agricultor ou criador, operaram-se transformaes mais
784                                                     Metodologia e pr-histria da frica



ou menos profundas nos meios naturais, bem como na quantidade e qualidade
dos seus produtos.
    No entanto, apesar do domnio do homem sobre os elementos de seu
ambiente natural, ele no foi capaz de se libertar completa e imediatamente de
todas as imposies desse ambiente. Assim, devemos, primeiramente, considerar
as caractersticas ambientais que podem ter exercido um papel preponderante na
pr-histria e na histria agrcolas. No caso da frica, faz-se necessrio traar
um esboo do meio ambiente: a frica parece estar dividida em largas faixas
latitudinais, diferenciadas do ponto de vista ecolgico e dispostas simetricamente
dos dois lados do Equador.
    Como salienta Randles (op. cit.), algumas dessas faixas podem ter servido
como barreiras para as correntes migratrias norte-sul. E o caso do Saara, da
grande floresta equatorial, da "estepe" da Tanznia e do deserto do Calaari.
Outras faixas, ao contrrio, ofereciam espaos a essas correntes que nelas poderiam
encontrar "nichos" favorveis:  o caso das savanas do norte e do sul. Randles
salienta igualmente que nenhuma dessas barreiras era totalmente intransponvel;
o Saara e a grande floresta, por exemplo, permitiam, at certo ponto, a circulao
humana.
    Na frica, a latitude no  o nico fator a permitir uma delimitao sumria
das grandes zonas ecolgicas. O relevo e, portanto, a altitude tambm interferem;
assim, a dorsal Zaire-Nilo separa as terras altas do leste da frica do peneplano
do oeste, que por sua vez  dividido por um pequeno eixo elevado que se estende
da ilha de Prncipe at o Chade.
    H, portanto, excees nesse zoneamento ecolgico latitudinal do continente
africano. Talvez a mais importante dessas excees sejam as terras altas que
se estendem, paralelamente ao Rift, do norte do lago Vitria aos montes
Munchinga e que, citando Randles novamente, constituem um estreito corredor
salubre atravs da "barreira equatorial" (mapa 1). H tambm o "reduto" da
Etipia, cuja importncia para a origem africana das plantas cultivadas ser
mencionada mais adiante.
    Se combinarmos agora esses dados diversos, por mais sumrios que sejam,
veremos que a frica comporta, ao norte, a leste e ao sul, uma zona quase
semicircular de savanas e estepes rodeando um ncleo de florestas equatoriais;
depois, tanto ao norte como ao sul, duas zonas ridas, o Saara e o Calaari;
finalmente, no extremo norte e no extremo sul, duas estreitas zonas quase
homoclimticas que, simplificando bastante, poderamos descrever como
"mediterrneas"  quanto ao clima evidentemente  embora existam certas
peculiaridades ecolgicas no extremo sul da frica (mapa 2). Partindo do
Origens, desenvolvimento e expanso das tcnicas agrcolas   785




Figura 27.1    Zoneamento ecolgico latitudinal.
Figura 27.2    Diferentes ecossistemas.
786                                                                        Metodologia e pr-histria da frica



"corao" florestal e deixando de lado as regies litorneas, temos, portanto, um
gradiente que vai do muito mido ao muito seco, de "ecossistemas generalizados"
do tipo "floresta tropical mida" a "ecossistemas" mais "especializados" do tipo
"savana" ou "estepe" e vegetao de deserto11.
    A propsito dos desertos, mais especificamente do Saara,  preciso lembrar
que nem sempre foram regies ridas, tendo permitido, no passado, a prtica
da agricultura e da criao de animais. Diversos autores12 sugeriram que certos
beros agrcolas e pastoris poderiam estar situados no Saara.
    Retomemos o mapa ecolgico do continente africano que acabamos de
ver. Em nossa opinio,  possvel presumir que, na poca pr-agrcola, fossem
praticadas no ecossistema generalizado da grande selva tropical formas de coleta e
de caa semelhantes s existentes ainda hoje entre os pigmeus. Cabe notar que
os recursos alimentares, vegetais e animais, desses ecossistemas so to variados e
abundantes quanto os componentes de suas biocenoses.
    Nossas observaes sobre a economia de grupos de pigmeus revelaram que
esses recursos, levando-se em conta sua abundncia e a densidade das populaes,
asseguravam-lhes a subsistncia sem exigir grandes esforos.
    A mesma constatao  vlida para os caadores-coletores de ecossistemas
mais especializados de regies ridas ou semi-ridas, como os San Kung do
Calaari, estudados por R. B. Lee13. No caso desse povo, entretanto, os recursos
so menos variados e sua explorao  limitada pelo suprimento de gua: em
consequncia da acentuada variao pluviomtrica sazonal, s so explorados os
recursos prximos a fontes de gua.
    Aps o fim do Pleistoceno, ocorreu uma fase mida, o Makaliense (-5500
a -2500), que facilitou os contatos entre o litoral mediterrneo e as regies
ao sul do Saara, enquanto a elevao do nvel dos cursos d'gua e dos lagos
tornou possvel, mesmo no corao do continente, o desenvolvimento da pesca
e a relativa sedentarizao das populaes que se dedicavam a essa atividade,
condio propcia a uma transio progressiva pata a produo agrcola14. Esse
processo foi acelerado, sem dvida, pelas migraes provenientes dos beros
agrcolas do Oriente Prximo e do Mediterrneo15.


11    Sobre os termos "ecossistema especializado" e "ecossistema generalizado", ver HARRIS, D. 1969.
12    Por exemplo, CHEVALLIER, A. 1938; HUGOT, H. J., op. cit. e HESTER, J. J. 1968.
13    LEE, R. B. 1966.
14    A respeito da sedentarizao dos pescadores e suas relaes com as origens da agricultura, ver SAUER,
      C. O. 1952.
15    Sobre esse assunto, ver CLARK, J. D. 1970.
Origens, desenvolvimento e expanso das tcnicas agrcolas                       787



    Ademais, desde o fim do Pleistoceno, ou seja, entre -9000 e o incio do
Makaliense, parecem ter existido no continente africano locais privilegiados
onde a coleta abundante certamente encorajou a concentrao de populaes
humanas. Foi o que aconteceu nas zonas de transio entre floresta e savana
situadas na periferia da floresta equatorial, nos planaltos herbosos do leste da
frica, nas margens dos lagos e grandes rios, inclusive o Nilo, assim como nas
regies litorneas ao norte e ao sul do continente16.
    Essas zonas de transio, particularmente a interface floresta-savana, tornaram-
-se, muito mais tarde, "nichos" privilegiados para o desenvolvimento da agricultura
e, consequentemente, para a emergncia de algumas das civilizaes africanas.
Randles (op. cit.) escreve a esse respeito que  "nos limites das duas savanas (sahel
e orlas de florestas) que se situam as mais prestigiosas civilizaes bantu".
    Passamos agora a considerar mais detalhadamente as possibilidades de
domesticao vegetal que o continente africano oferecia, j que, de acordo com
a lgica da ecologia, so as plantas os produtores primrios.


     A origem africana de certas plantas cultivadas
    As cincias naturais s comearam a se interessar pela origem das plantas
cultivadas h relativamente pouco tempo. Na verdade, com exceo da notvel
obra de A. de Candolle, publicada em 1883, foi s com os trabalhos do geneticista
sovitico N. I. Vavilov e de sua equipe, logo aps a revoluo de outubro
de 1917, que se desenvolveu uma abordagem sinttica, em escala mundial,
dessa questo de fundamental importncia para a histria da humanidade: a
adaptao do meio ambiente e a utilizao de seus recursos17. Combinando
uma anlise sistemtica de dados botnicos e fitogeogrficos com levantamentos
agrobotnicos e estudos genticos, Vavilov e seus colaboradores, com base na
variabilidade das plantas cultivadas, reconheceram a existncia de oito centros de
origem de plantas cultivadas (dos quais trs so centros secundrios, isto , ligados
a centros regionais importantes). Apenas um desses centros, o Abissnio, est
situado na frica, enquanto um outro, o Mediterrneo, compreende uma parte do
continente africano (frica do Norte, Egito) e apresenta, igualmente, afinidades
com o vasto e importante centro do Oriente Prximo onde surgiram, entre outras
plantas cultivadas, os cereais mais importantes (trigo, cevada, centeio).


16   Ver CLARK, J. D. 1970.
17   Sobre a vasta obra de N. I. VAVILOV ver 1951, op. cit.
788                                                      Metodologia e pr-histria da frica



    No que diz respeito  frica, as descobertas de Vavilov representaram
um progresso sensvel em relao s concluses de Candolle (op. cit.) que
reconhecia apenas trs principais centros de origem para a agricultura e a
domesticao de vegetais: China, Sudeste Asitico (com uma extenso at o
Egito) e Amrica.
    A contribuio de Vavilov para o conhecimento da origem das plantas
cultivadas foi tambm da maior importncia no plano terico, tendo
evidenciado a necessidade de distino entre um centro de variao primria,
caracterizado por uma grande diversidade de formas de uma planta, com
manifestao majoritria de caracteres dominantes, e reas de variao secundria
que apresentam grande nmero de caracteres recessivos, encobertos no centro
de variao primria.
    A localizao e a distribuio geogrficas desses diversos centros de variao
permitem determinar o local de um bero agrcola; se as reas desses centros
coincidem total ou parcialmente, pode-se supor que, nessa regio, civilizaes
exerceram por muito tempo atividades de domesticao e transformao de
certas espcies vegetais.
     importante salientar que o centro de origem botnica de uma espcie
vegetal cultivada no coincide necessariamente com as reas de variabilidade
relacionadas s intervenes do homem. Em outras palavras, a zona ocupada
pelas possveis formas selvagens de um cultgeno distingue-se frequentemente,
e de maneira clara, das regies em que esse cultgeno surgiu em decorrncia da
ao do homem (cultivo, seleo e diversificao). H pelo menos uma explicao
para esse fato: a transferncia frequente de espcies selvagens para fora de seu
habitat de origem durante a poca da coleta18.
    Quanto ao continente africano, um dos autores deste captulo pde completar
o quadro estabelecido por Vavilov19, demonstrando que, alm do centro abissinio e
da parte africana do centro mediterrneo, havia tambm um centro afroocidental e
um afrooriental, sendo este ltimo provavelmente um prolongamento do centro
abissnio nas terras altas equatoriais20.
    Agrupando e resumindo os dados relativos aos diversos focos ou centros de
origem e diversificao das plantas cultivadas, temos o seguinte quadro:




18    Ver BARRAU, J. 1962.
19    Ver PORTRES, R. 1950, p. 9-10; 1951, p. 239-40.
20    Sobre esse assunto, ver tambm SCHNELL, R. 1957.
Origens, desenvolvimento e expanso das tcnicas agrcolas                     789



     Centro mediterrneo (poro africana)
    A esse centro corresponde todo um grupo de plantas cultivadas caractersticas
das regies mediterrneas; a presena de cereais (trigo e cevada, principalmente)
e leguminosas com gros comestveis (Cicer, Lens, Pisum, Vicia, etc.), denota
a afinidade desse centro com o do Oriente Prximo. Encontramos tambm
uma srie de "cultgenos" mediterrneos, como a oliveira (Olea europea L.)
e a alfarrobeira (Ceratonia siliqua L.). Algumas dessas plantas, todavia, so
prprias da frica como a Argania sideroxylon Roem., rvore marroquina que
fornece leo e goma. Esse centro inclui o Egito, cujos laos com o centro do
Oriente Prximo so evidentes e cuja influncia sobre a histria da agricultura
e da criao de animais na frica setentrional foi importante. O Egito divide
com a Sria a origem de uma planta de grande interesse econmico, o bersim
ou trevo de Alexandria (Trifolium alexandrinum L.). Embora essa poro
africana do centro mediterrneo no tenha desempenhado um papel direto na
histria agrcola da frica tropical, ela influenciou profundamente o Saara
quando este atravessava uma fase climtica mais favorvel ao desenvolvimento
agrcola e pastoril21.

     Centro abissnio
    Encontram-se a plantas cultivadas comuns ao centro do Oriente Prximo (trigo,
cevada, leguminosas como Cicer, Lens, Pisum, Vicia) e aos centros propriamente
africanos (Sorghum ... ) sobre os quais falaremos mais adiante. Alm disso,  fato
comprovado que plantas originrias da sia tropical passaram por esse centro ao
penetrarem na frica. Entretanto, esse centro possui "cultgenos" caractersticos,
como o cafeeiro da Arbia (Coffea arabica L.), a bananeira abissnia (Musa
ensete I. F. Gmelin), o teff (Eragrostis abyssinica Schrad.) e o niger de sementes
oleaginosas (Guizotia abyssinica L. F. Cass).

     Centro lesteafricano
   Caracteriza-se pelas variedades de sorgo diferenciadas a partir do Sorghum
verticilliflorum Stapf., variedades de milhetes penicilares como Eleusine coracana
Gaertn., variedades de gergelim, etc.



21   Sobre esse assunto, ver CLARK, J. D. e HUGOT, H. J. Op. cit.
790                                                       Metodologia e pr-histria da frica



      Centro oesteafricano
     o local de origem de diversas variedades de sorgo derivadas do Sorghum
arundinaceum Stapf., de milhetes penicilares como Pennisetum pychnostachyum
Stapf. e Hubb. e P. Gambiense Stapf. e Hubb., variedades de milhetes digitrios
como o iburu (Digitaria iburua Stapf.) e o fonio (D. exilis Stapf.) e vrios tipos
de arroz sobre os quais voltaremos a falar22. Nesse centro, podemos distinguir
dois grandes setores: tropical e subequatorial. O setor tropical se subdivide
em vrios subsetores (Senegambiano, Nger central, Chade-niltico), cada um
caracterizado por plantas cultivadas especficas, principalmente cereais, mas
tambm por plantas tuberculares (Coleus dazo Chev.) e oleaginosas, como
Butyrospermum parkii (Don.) Kotschy (conhecido igualmente pelos botnicos
como Vitellaria paradoxa Gaertner).
    No setor subequatorial, existem principalmente inhames (Dioscorea cayenensis
Lamk., D. dumetorum Pax, D. rotundata Poir.), plantas de sementes oleaginosas
(Elaeis guineensis Jacq., Telfairia occidentalis Hook. F., etc.) e plantas estimulantes
(Cola nitida A. Chev.). Na verdade, esse centro se estende at a frica central,
assim como as reas de distribuio de certos gneros de vegetais citados acima
(Cola, Coleus, Elaeis, etc.). A "ervilha da terra" (Voandzeia subterranea Thon.) e a
leguminosa geocrpea africana Kerstingiella geocarpa Harms. pertencem tambm
ao centro oesteafricano.
    Em nossa opinio, a leste e ao sul do ncleo formado pela floresta equatorial,
existiu inicialmente um complexo de cultgenos semelhante ao encontrado no
centro oesteafricano; tal complexo se prolongava em uma faixa que envolvia o
ncleo florestal e margeava o centro lesteafricano, ocupando aproximadamente
a zona do permetro florestal onde a coleta era mais intensa23.

      Os "beros" agrcolas
   As concluses precedentes nos levaram24 a considerar a existncia de um
certo nmero de beros agrcolas no continente africano. Portanto, de norte a sul,
temos os seguintes beros (mapa 3):




22    Ver PORTRES, R. 1962, op. cit.
23    Ver SEDDON, D. 1968, op. cit.
24    Ver PORTRES, R. 1962, op. cit.
Origens, desenvolvimento e expanso das tcnicas agrcolas   791




Figura 27.3    Os beros agrcolas africanos.
Figura 27.4    Mapa geoagrcola da frica.
792                                                            Metodologia e pr-histria da frica



              O bero afromediterrneo que, estendendo-se do Egito ao Marrocos,
               influenciou a agricultura e a criao de animais no Saara e trocou influncias
               com o bero do Oriente Prximo atravs do Egito;
              O bero afroocidental, a oeste, com dois setores, tropical e subequatorial;
              O bero niloabissinio, a leste, com dois setores, niltico e abissnio;
              O bero afrocentral;
              A leste deste ltimo, o bero afrooriental, que se estende para o oeste, na
               direo de Angola.
   Mais ao sul, parece que as populaes de coletores, supridas de recursos
abundantes e protegidas pela aridez do Calaari, resistiram por muito tempo 
penetrao da agricultura e do pastoreio a partir dos beros que acabamos de
descrever, particularmente a partir do afrooriental25.

      Centro hortcola e centro agrcola
   Na verdade, o conceito de bero tem o inconveniente de dar a impresso de
um "patchwork", em se tratando de pr-histria e histria agrcolas. Entretanto,
com base nas concluses precedentes, parece-nos possvel apresentar um quadro
geral mais coerente:
         a)    Ao ncleo central de florestas, ecossistema "generalizado", corresponde um
               centro de "vegecultura" (para empregar esse termo insatisfatrio criado por
               R. J. Braidwood e C. A. Reed)26 que preferimos chamar de centro hortcola
               onde, no entanto, a produtividade da coleta no meio florestal permitiu
               que ela continuasse a existir. Devemos salientar que o potencial de plantas
               domesticveis desse centro no era to grande quanto o das florestas
               tropicais midas da sia ou da Amrica.
         b)     orla das savanas desse ncleo florestal, ecossistema mais especializado,
               corresponde um centro agrcola de cereais que se estendia da frica ocidental
                frica oriental e se prolongava para o sul na direo de Angola.
   Ao norte, na parte mediterrnea do continente africano, a influncia da
agricultura de cereais da Mesopotmia se fez sentir nitidamente atravs do
Egito. Tambm o Saara sofreu essa influncia na poca em que desfrutava de
condies favorveis. Esse fato poderia explicar certas difuses, tanto para o sul
do deserto atual como para o norte, a partir da frica subsaariana.

25    Ver SEDDON, D. 1968, op. cit.
26    BRAIDWOOD, R. J. e REED, C. A. 1957.
Origens, desenvolvimento e expanso das tcnicas agrcolas                    793



   A influncia mesopotmica atingiu tambm o "reduto" etope que apresenta,
entretanto, semelhanas com o centro agrcola das savanas e estepes e possui
caractersticas cultignicas prprias.
   Um centro hortcola difere de um centro agrcola pela predominncia de
tubrculos multiplicados por via vegetativa e pelas prticas agrcolas semelhantes
s da jardinagem. No campo, o ager das savanas e estepes se ope, de uma certa
maneira, ao jardim-pomar, o hortus da floresta e de sua orla.
   No continente africano como um todo, os principais implementos agrcolas
eram a enxada e a vara para cavar (assim como suas variaes) mas, atravs do
Egito e da Etipia, um arado primitivo introduziu-se em parte do centro agrcola
cerealfero.


    O cultivo do sorgo e do arroz
    Em contraste com o centro hortcola da floresta tropical, localizado em um
ecossistema generalizado, o centro agrcola africano, no ecossistema relativamente
especializado das savanas e das estepes, caracteriza -se pela utilizao
predominante da reproduo das plantas cultivadas por via sexuada (semeadura)
e pela importncia dos cereais no regime alimentar.
    Os tipos de agricultura que se desenvolveram nesse centro baseavam -se
em um "cultivo em massa" dos vegetais, em oposio ao "cultivo individual"
da horticultura. As civilizaes do centro agrcola certamente estenderam seus
campos  custa da floresta durante sua expanso territorial que, alis, deve
ter contribudo para o incremento da savana. Em termos ecolgicos, esse
aumento da rea ocupada pela savana corresponde a uma "especializao" de
ecossistemas originariamente generalizados. Portanto, tudo se passou como se essas
civilizaes agrcolas tivessem desse modo adaptado o meio ambiente natural
s suas tcnicas, ou melhor,  sua maneira de perceber esse meio. Durante a
penetrao da agricultura na floresta, tambm  possvel que tenha ocorrido
o processo inverso, por exemplo, o abandono do cultivo de cereais em favor
de culturas caractersticas das florestas e at mesmo  a hiptese no pode ser
ignorada  a eventual adoo da coleta de plantas como meio de subsistncia
por povos agricultores das savanas, obrigados a viverem nas florestas durante
suas migraes.
    O fato  que os cereais permanecem como culturas caractersticas das savanas
e das estepes. Entre esses cereais  e apesar da existncia de outras espcies
794                                                               Metodologia e pr-histria da frica




Figura 27.5   Aspecto de uma queimada (aps a combusto)  Futa Djalon: Pita, Timbi-Madina (Foto R.
Portres).
Figura 27.6 Terra lavrada com o Kadyendo pelos Diula de Oussouye (Casamance) antes do replantio do
arroz (Foto R. Portres).
Origens, desenvolvimento e expanso das tcnicas agrcolas                      795



cultivadas nos diversos beros do centro agrcola  o sorgo (Sorghum sp.) ou
"milhete grande" aparece como o cereal comum a todas as reas desse centro.
    A origem do sorgo, ou melhor, das diversas variedades de sorgo, foi objeto de
opinies contraditrias27, mas, ao que parece, sua origem  realmente africana,
tendo as vrias espcies surgido independentemente no interior do centro agrcola
africano.
    A espcie selvagem Sorghum arundinaceum Stapf., cuja rea cobre a zona
tropical mida do Cabo Verde ao oceano ndico, deu origem  variedade de
sorgos cultivados no oeste da frica: S. aterrimum Stapf., S. nitens Snowd., S.
drummondii Millsp. e Chase, S. margaritiferum Stapf., S. guineense Stapf., S.
gambicum Snowd., S. exsertum Snowd., etc.
    A espcie selvagem S. verticilliflorum Stapf. da frica oriental, da Eritreia ao
sudeste da frica, deu origem a dois grupos de sorgos cultivados: um grupo do
sudeste africano, os sorgos "Kafir" (S. caffrorum Beauv., S. coriaceum Snowd. e S.
dulcicaule, sorgo doce) e um grupo nilo-chadiano, do Sudo nigeriano  Eritreia
(S. nigricans Snowd. e S. caudatum Stapf.).
    A espcie selvagem S. aethiopicum Rupr., da Eritreia e da Abissnia, deu
origem ao S. rigidum Snowd. do Nilo Azul, ao S. durra Stapf. cultivado do
Chade  ndia e em todas as regies semidesrticas, ao S. cernum Host., ao S.
subglabrescens Schw. e Asch das regies nilticas e ao S. nigricum do delta central
do Nger.
    No subsetor do Nger central, setor tropical do bero afroocidental (ver
acima), existe uma variedade especial de sorgo cultivado, S. mellitum Snowd.
var. mellituni Snowd., que, por ser rico em acar,  utilizado no preparo de uma
bebida alcolica28. Alis, diversos tipos de sorgo so utilizados para preparar a
"cerveja de milhete".
    Efetuaram-se cruzamentos entre esses diversos grupos de sorgos cultivados,
como prova a existncia do S. conspicuum Snowd. (da Tanznia ao Zimbabwe
e a Angola) e do S. roxburghii Stapf. (Uganda, Qunia, Zimbabwe, frica do
Sul), que parecem ser o resultado do cruzamento entre sorgos da espcie S.
arundinaceum e da espcie S. verticilliflorum.
    Entre as variedades citadas, uma delas, o S. durra, merece uma meno
especial em razo de sua vasta distribuio: do Sudo oriental  sia Menor e
 ndia, da Mesopotmia ao Ir e ao Guzerate.


27   Ver PORTERES, R. 1962, op. cit.
28   Ver SCHNELL, R. 1957, op. cit.
796                                                                    Metodologia e pr-histria da frica




Figura 27.7 O Soung ou p entre os Seereer Gnominka, pescadores-rizicultores das ilhas da Petite Cte,
no Senegal. Esse instrumento  utilizado para arar e sulcar o solo dos arrozais de mangue e corresponde ao
Kadyendo dos Diula Bayott de Casamance e ao Kofi ou Kop dos Baga do litoral da Guin (Foto R. Portres).
Origens, desenvolvimento e expanso das tcnicas agrcolas                     797



    Como vimos,  grande a importncia desses cereais para a economia do centro
agrcola das savanas e das estepes africanas; tal importncia ultrapassa, alis, os
limites do continente africano, pois j h muito tempo certas variedades de
Sorghum so cultivadas em outras regies do mundo.
    Assim, a frica parece ser ao mesmo tempo um conjunto de beros agrcolas
originais e um mosaico de centros de origem de plantas cultivadas, algumas das
quais adquiriram uma importncia econmica de escala mundial.
    A frica foi o local de origem de outros cereais importantes, entre os quais
se destaca o arroz. Inicialmente, a rizicultura baseou-se nas variedades de arroz
propriamente africanas, que merecem ateno. Elas so originrias do bero afro
ocidental, mais precisamente do subsetor do Nger central (centro primrio) e
do subsetor senegambiano (centro secundrio).
    J na Antiguidade, Estrabo referiu-se a uma rizicultura africana e no sculo
XIV, Ibn Battuta mencionou que o arroz era cultivado na regio do Nger29. Esses
testemunhos foram frequentemente ignorados e por muito tempo acreditou-se
que a rizicultura na frica tivesse por origem o arroz asitico (Oryza sativa
L.). Por volta de 1914 apenas  que se reconheceu a existncia de um arroz
especificamente africano, O. glaberrima Steudel, com panculas rgidas e eretas e
cariopses marrons ou vermelhas. Esse arroz pode ser explorado atravs de coleta,
mas pode, igualmente, ser cultivado; parece estar relacionado ao O. breviligulata
A. Chev. e O. Roer, encontrado em grande parte da frica tropical.
    O arroz africano fornece uma boa ilustrao das teorias propostas por N.
I. Vavilov quanto  origem das plantas cultivadas: grande extenso da rea da
espcie selvagem; possibilidade mxima de variao do arroz africano com
predominncia de caractersticas dominantes no delta central do Nger (centro
primrio); diversificao em variedades com caracteres recessivos no Alto
Gmbia e Casamance (centro secundrio).
    Portanto, a partir do delta central do Nger, as variedades cultivadas de arroz
africano se difundiram por todo o oeste da frica at o litoral da Guin. A
coleta da espcie selvagem O. glaberrima , sem dvida, muito antiga. Esse
cereal devia ser abundante nas regies de coleta relativamente intensiva, onde
as condies favoreceram o incio do cultivo de vegetais. Podemos, portanto,
supor que o cultivo desse arroz , pelo menos, to antigo quanto o dos outros
cereais africanos.




29   Ver SCHNELL, R. 1957, op. cit.
798                                                                        Metodologia e pr-histria da frica




Figura 27.8 Arrozais em solos hidromorfos sujeitos a cheias temporrias na estao das chuvas (rizicultura
de impluvium), Casamance: aldeia bayoyy de Niassa (Foto R. Portres).
Figura 27.9 Ilhas artificiais para a cultura do arroz em arrozais aquticos muito profundos onde o nvel da
gua no baixa o suficiente. Durante a estao seca, a terra  ocupada por Scirpus littoralis Schrader; Nymphae
Lotus em flor. Guin Bissau: Kassabol, nas proximidades de Cap Varella (Foto R. Portres).
Origens, desenvolvimento e expanso das tcnicas agrcolas                      799



    Mais tarde, as variedades de arroz cultivadas da sia (O. sativa) foram
introduzidas na frica, possivelmente a partir do sculo VIII pelos rabes (na
costa oriental), ou a partir do sculo XVI pelos europeus (na costa ocidental).
    Estabelecida a origem de vrias espcies cultivadas (no presente captulo
s pudemos apresentar um resumo), aparece de maneira clara o carter
endgeno das civilizaes agrcolas da frica, a partir dos recursos vegetais dos
meios ambientes naturais locais e sem necessariamente implicar influncias
extra-africanas.


     Relaes entre a frica e a sia
    Como j dissemos acima, as difuses provenientes do bero agrcola e pastoril
do Oriente Prximo mesopotmico devem certamente ter desempenhado papel
importante na histria antiga da agricultura na frica. Assim, da Abissnia  frica
do Norte, passando pelo vale do Nilo, existe uma zona que se pode considerar
como pertencente ao domnio paleomediterrneo definido por Haudricourt e
Hedin (1943, op. cit.). No entanto, mesmo nessa zona, encontramos espcies
cultivadas propriamente africanas, na Etipia sobretudo mas tambm no Egito
e na frica do Norte.
    Mais interessante, mas talvez menos conhecida,  a histria das relaes
antigas entre a frica e a sia. A frica deu  sia vegetais domsticos, como
o sorgo, por exemplo, mas recebeu em troca no apenas cultgenos do Oriente
Prximo (variedades de trigo, cevada, etc.), como tambm plantas vindas do
sudeste tropical da sia. Com efeito, parece provvel que  seja atravs da via
sabeia do sul da Arbia e leste da frica, seja atravs de antigos navegadores que
aportaram na costa sudeste  tenham sido introduzidas no continente africano,
no passado, as bananeiras, o inhame grande (Dioscorea alata L.), o taro (Colocasia
esculenta L. Schott) e talvez a cana-de-acar (Saccarum off icinarum L.).
Algumas dessas plantas cultivadas originrias da sia, sobretudo as bananeiras,
permitiram uma penetrao mais fcil da agricultura nas regies de florestas
tropicais da frica.
    O sorgo  um bom exemplo desse intercmbio entre a frica e a sia30. Com
efeito, existem na sia variedades de sorgos cultivados de origem africana, alm
das j mencionadas.  o caso do S. bicolor Moench que parece ser o resultado do
cruzamento entre cultgenos do S. aethiopicum e a espcie selvagem S. sudanense.

30   Ver PORTRES, R. 1962, op. cit.
800                                                      Metodologia e pr-histria da frica



Ao S. bicolor podemos relacionar principalmente o S. dochna Snowd. da ndia, da
Arbia e da Birmnia, reintroduzido mais recentemente na frica, assim como o
S. miliforme Snowd. da ndia, introduzido recentemente no Qunia. Uma outra
variedade de sorgo cultivado, S. nervosum Bess., parece estar relacionado ao S.
aethiopicum e ao S. bicolor;  possvel que sorgos da Birmnia e da China, entre
outros, estejam relacionados a essa variedade.
    Sem entrar nos detalhes necessariamente complexos desse "coquetel"
gentico, devemos salientar que existem indcios de antigos contatos entre
sorgos africanos e asiticos. Tudo leva a crer que houve relaes muito antigas
entre a frica oriental e a sia, bem como intercmbio de vegetais, fato que
parece confirmado pela existncia, em pocas pr-coloniais, de alguns cultgenos
(ver acima) originrios do sudeste asitico tropical.
    No se pode excluir a possibilidade anteriormente mencionada de que a
penetrao da agricultura na floresta africana foi facilitada pela chegada de
cultgenos (bananeiras, taro, etc.), originrias do ecossistema generalizado que  a
floresta tropical mida do sudeste da sia e das ndias Orientais. Desta ltima
regio, alis, vieram os primeiros grupos migrantes que, com algumas de suas
plantas cultivadas, atingiram Madagscar e a costa oriental da frica.
    Se, em pocas passadas, houve um intercmbio de plantas cultivadas entre a
frica e a sia, parece claro, no entanto, que a frica deve muito  sia no que diz
respeito aos animais domsticos. Certas espcies de sunos da frica oriental parecem
relacionados aos sunos domesticados na sia. Como observa C. Wrigley31: " quase
certo que a criao de animais no se desenvolveu independentemente na frica ao
sul do Saara, onde a fauna no inclui e no inclua nenhum possvel ancestral dos
bovinos, caprinos e ovinos domsticos." Essas espcies vieram do Egito atravs do
vale do Nilo. Entretanto, deve-se notar que h uma boa possibilidade de que certos
animais tenham sido domesticados na parte africana do domnio paleomediterrneo
(ver acima), sobretudo os bovinos no Egito, onde os homens do pr-neoltico caavam
as espcies Bos primigenius e B. brachyceros.
    O esboo que apresentamos mostra o quanto a frica est longe de ser esse
continente que  segundo a ideia por muito tempo propalada  recebeu o essencial
de seu desenvolvimento agrcola e pastoril de outras regies do mundo.  evidente
que, assim como a Europa e a sia, a frica dos tempos antigos no era refratria s
influncias exteriores. Tambm  verdade que o norte do continente africano pertence,
como a Europa e a sia, a um domnio mediterrneo que, no passado, apresentou uma


31    WRIGLEY, C. 1970.
Origens, desenvolvimento e expanso das tcnicas agrcolas                                801



continuidade ecolgica maior do que atualmente. No entanto, a frica desenvolveu
uma agricultura e uma horticultura baseadas principalmente no cultivo de vegetais
peculiares ao continente, vegetais esses que, alis, beneficiaram o resto do mundo,
como o sorgo, por exemplo. O fato de que a coleta e a caa permaneceram por muito
tempo, em algumas regies da frica, como fontes de subsistncia, no significa
um atraso, mas  resultado da abundncia e diversidade dos recursos naturais, que
permitiram ao homem viver sem muito esforo nos diversos ecossistemas sem ter
necessariamente de transform-los.


     guisa de concluso
    Ao lado da coleta, encontramos na frica essa forma de agricultura nascente
que consiste em ajudar, em favorecer o desenvolvimento de um vegetal sem, no
entanto, intervir diretamente na sua reproduo.  o que ocorre ainda hoje com
plantas alimentcias arborescentes, como a cola, a sapotcea ou o dendezeiro.
Mas encontramos igualmente todos os estgios da evoluo da horticultura e
da agricultura. H, em resumo, uma grande diversidade de tcnicas agrcolas
tradicionais, que incluem toda uma srie de utilizaes engenhosas dos solos
para a cultura das variedades africanas de arroz, bem como diversas formas de
queimada e de arroteamento com inmeras variaes e ainda sistemas agro-
-silvo-pecurios, etc.
    O incio e o desenvolvimento da agricultura na frica esto ligados
essencialmente a trs centros principais (mapa 4):
              O primeiro, que compreendia o norte do continente, do Egito ao Marrocos,
               pertencia ao domnio mediterrneo e sofreu certamente a influncia do
               bero agrcola e pastoril do Oriente Prximo, embora tenha sem dvida
               desenvolvido recursos prprios.
              O segundo compreendia a faixa perifrica de savanas e estepes, ao redor
               do corao florestal da frica; foi onde se desenvolveu uma agricultura de
               cereais (sorgo, milhete, etc.).
              O terceiro, finalmente, localizava-se na floresta e em sua orla; caracterizava-
               -se por uma horticultura associada  coleta. Algumas das espcies vegetais
               colhidas deram origem a espcies cultivadas.
   Entre esses centros no existiam barreiras intransponveis. Nas proximidades
das culturas dos osis, encontramos variedades de trigo, sorgo e milhete; nas
savanas, so encontradas plantas alimentcias originrias da horticultura da
802                                                      Metodologia e pr-histria da frica



orla florestal, a qual por sua vez cultivou vegetais caractersticos da coleta
especializada praticada na selva tropical. A Etipia, por exemplo, possui em sua
flora econmica tradicional, alm das espcies que lhe so prprias, espcies
pertencentes ao domnio mediterrneo, outras originrias do centro agrcola das
savanas e das estepes africanas e, ainda, outras vindas da sia.
    Dentre todos esses centros, o que parece ter maior significao para a histria
da agricultura na frica  o centro agrcola das savanas e estepes, sobretudo suas
reas prximas da floresta, dos rios e dos lagos mais importantes.
    Ainda  difcil datar com preciso a pr-histria e a histria da agricultura
na frica. Entretanto, pode-se presumir que o perodo decisivo do incio da
agricultura realmente africana foi o final do Pleistoceno, entre -9000 e -5000.
Nessa poca, na periferia do ncleo central constitudo por florestas, ocorreu,
ao que parece, uma intensificao, at mesmo uma especializao na coleta de
plantas. Nos rios e lagos do interior, a pesca se desenvolveu, levando a uma relativa
sedentarizao. Em resumo, surgiram condies propcias s domesticaes.
Enquanto esperamos que a arqueologia confirme ou no esse ponto de vista,
podemos presumir ter sido essa a origem da agricultura na frica, ao passo que,
no "crescente frtil" do Oriente Prximo, constituam-se as bases agrcolas e
pastoris das civilizaes da Europa.
Descoberta e difuso dos metais e desenvolvimento dos sistemas sociais at o sculo V antes da Era Crist 803



                                         CAPTULO 28


         Descoberta e difuso dos metais e
        desenvolvimento dos sistemas sociais
         at o sculo V antes da Era Crist
                                                J. Vercoutter




    Na histria geral da frica, o vale do Nilo ocupa um lugar de destaque.
Apesar dos obstculos, s vezes exagerados1, representados pelas cataratas, o
Nilo, com seus 6500 km de extenso aproximadamente, constitui, de norte a
sul, um meio de comunicao e de intercmbio transcontinental de considervel
importncia. O vale do Nilo, estendendo-se ao norte para alm do 16o paralelo,
e ultrapassando os desertos de Bayouda a oeste e de Butana a leste, atinge
uma regio de chuvas anuais e permite alcanar a grande via fluvial leste-
-oeste da frica, que, atravs dos vales e depresses do Nger e do Chade, dos
planaltos do Darfur e do Kordofan e das plancies de piemonte do Atbara e do
Baraka, vai do Atlntico ao mar Vermelho. Assim, s vantagens de um eixo de
comunicao norte-sul, que se estende dos Grandes Lagos da frica equatorial
ao Mediterrneo, somam-se as do eixo leste-oeste, com a bacia do Nilo dando
acesso s bacias do Zaire, do Nger e do Senegal.
    Essa vasta regio que ocupa a extremidade nordeste do continente ,
portanto, de excepcional importncia, desde os primrdios da Histria da frica.
Infelizmente, continua arqueolgica e historicamente mal explorada. O vale
inferior do Nilo, da Segunda Catarata ao Mediterrneo,  relativamente bem
conhecido graas aos esforos dos arquelogos que o vm explorando desde o

1    Sobre as cataratas e seus obstculos reais ou imaginrios, a obra mais detalhada continua a ser a de A.
     CHELU, 1891, p. 30-73, que descreve cada uma das cataratas e apresenta os mapas dos canais navegveis.
804                                                    Metodologia e pr-histria da frica



incio do sculo XIX at os nossos dias. Mas o mesmo no ocorre com o vale
mdio do rio (entre a Segunda e a Sexta Cataratas), nem com o vale superior
(de Cartum aos Grandes Lagos) e com as regies desrticas prximas ao Nilo e
seus afluentes. Toda essa rea, a leste e a oeste do Nilo, continua inexplorada do
ponto de vista arqueolgico, e o conhecimento que se tem de sua Histria est
inteiramente fundamentado em hipteses, muitas vezes baseadas em observaes
quantitativa e qualitativamente insuficientes ou falhas.
    Neste captulo, seguiremos simultaneamente as ordens cronolgica e
geogrfica. Faremos uma diviso em dois perodos: primeiro, do Neoltico
at princpios do terceiro milnio, quando aparecem documentos escritos no
vale inferior do Nilo; sobre esse perodo apresentaremos  partindo do mais
conhecido para o desconhecido, a saber, do norte para o sul  tudo o que se sabe
a respeito das civilizaes que viveram s margens do rio. O segundo perodo,
que vai de princpios do terceiro milnio at o sculo V antes da Era Crist,
ser geograficamente estudado, como o primeiro perodo, do vale inferior ao
vale superior do Nilo.


      Do Neoltico ao terceiro milnio antes da Era Crist
    Nesse perodo, que abrange aproximadamente dois milnios, de -5000 a
-3000, ocorre a descoberta e a difuso do metal no vale do Nilo e a manifestao
dos primeiros sistemas sociais. Do ponto de vista histrico , portanto, um dos
perodos mais importantes, seno o mais importante.
    Por ser difcil falarmos dos sculos obscuros da proto-histria niltica do
quarto milnio antes da Era Crist (de -3800 a -3000) sem nos referirmos, ao
mesmo tempo, s culturas que os precederam, recapitularemos rapidamente, e sem
nos determos em seus aspectos materiais, as culturas neolticas do vale do Nilo j
estudadas nesta obra (cf. captulo 2). Com efeito, todas as pesquisas recentes na
Nbia e no Egito confirmaram amplamente o fato de que a descoberta do metal
no representa uma quebra na evoluo geral das civilizaes do nordeste da
frica. As culturas da idade do cobre so as descendentes legtimas e diretas das
culturas do Neoltico, sendo frequentemente impossvel distinguir, in loco, um
stio arqueolgico do fim do Neoltico de um outro do Calcoltico. O primeiro
rei da dinastia tinita no Egito  o descendente legtimo dos chefes das ltimas
etnias neolticas, exatamente como os grandes faras da poca tebana descendem
dos chefes do Imprio Menfita.
Descoberta e difuso dos metais e desenvolvimento dos sistemas sociais at o sculo V antes da Era Crist   805



    O vale inferior do Nilo, de 4500 a 30002
   A organizao social que se v, ou melhor, que se imagina instalar-se no
vale inferior do Nilo, no Egito, a partir de -3000, resulta incontestavelmente
das tcnicas requeridas pela irrigao para a valorizao agrcola do vale. Esta
tomada de posse do vale pelo homem teve incio no Neoltico, prosseguindo at
o aparecimento de um sistema monrquico unificado.
      Herdoto disse, e muitos autores repetiram posteriormente: "O Egito 
uma ddiva do Nilo". Desde o incio da poca histrica, quando chegava ao fim
o processo de dessecao da frica saariana, do Atlntico ao mar Vermelho, o
Egito no poderia ter vivido sem a inundao anual do rio; sem a enchente,
seria como o prprio Saara ou o Neguev. Mas esse presente que recebe do
Nilo, que lhe d vida, pode tambm transformar-se em catstrofe. No ano 3 de
Osorkon III (-754), a inundao foi to grande que nenhum dique resistiu e
"os templos de Tebas ficaram como um pntano"; o Sumossacerdote de Amon
teve de suplicar ao deus que impedisse as guas de subirem. A mesma catstrofe
ocorreu no ano 6 de Taharqa (-683), quando todo o vale "transformou-se em
oceano"  embora o rei, temendo perder prestgio, tenha apresentado o fenmeno
como uma bno do Cu!
   As enchentes variam bastante: excessivamente grandes ou pequenas,
raramente como se desejaria que fossem3. Assim, de 1871 a 1900, foram
registradas trs enchentes fracas, trs medocres, dez benficas, onze muito
volumosas e trs perigosas. Em trinta enchentes, apenas dez puderam ser
consideradas satisfatrias4.
   Portanto, devemos reconhecer que a histria da civilizao na frica niltica
 tambm a da "domesticao", por assim dizer, do Nilo pelo homem. Essa
domesticao exige a construo de diques ou aterros  uns paralelos, outros
perpendiculares em relao ao curso do rio. Esse sistema permite a construo,
em ambas as margens, de bacias artificiais, ou hods, destinadas a diminuir a
fora da enchente, a cont-la e a estend-la s terras que normalmente no
atingiria.



2    Sobre a formao do Egito (anterior ao Neoltico e ao Calcoltico, que presenciam o desenvolvimento
     dos primeiros sistemas sociais) ler o excelente estudo de W. C. HAYES, 1965. Essa obra pstuma,
     editada por K. C. SEELE, contm um captulo inteiro sobre a formao do Egito: I, p. 1-29, com uma
     abundante bibliografia analtica nas p. 29-41.
3    Sobre os perigos da inundao, cf. J. BESANON, 1957, p. 78-84.
4    BESANON, op. cit, p. 82-83; bibliografia, p. 387-88.
806                                                                       Metodologia e pr-histria da frica



   Fruto de uma longa experincia, tal sistema s pde ser implantado
progressivamente5. Com efeito, para terem real eficcia, as bacias artificiais
deviam ser metodicamente planejadas para todo o territrio, ou pelo menos para
vastas regies. Consequentemente, foi necessrio um acordo prvio entre grande
nmero de homens para a realizao desse trabalho comunitrio. Eis a origem
dos primeiros sistemas sociais no vale inferior do Nilo: primeiro, agrupamento
de etnias em torno de um centro agrcola provincial; em seguida, unio de vrios
desses centros e, finalmente, formao de dois agrupamentos polticos maiores,
um no sul e outro no norte6.
   A documentao de que dispomos referente a esse perodo de -5000 a -3000
 no permite determinar a natureza do sistema social que  a base da ocupao
e valorizao do vale inferior do Nilo. O prprio termo "etnia", que acabamos
de empregar, certamente no  correto. Nada nos autoriza a afirmar que houve,
nessa poca, grupos tnicos muito diferenciados ao longo do vale do Nilo, embora
parea confirmada a existncia de grupos polticos ou poltico-religiosos. A nica
indicao de que dispomos fundamenta-se nas representaes que aparecem em
monumentos votivos de pequenas dimenses: paletas para maquilagem, clavas
cerimoniais de significado mgico-religioso. Essa documentao reflete apenas,
e bem sumariamente, a situao no final do perodo, nas ltimas geraes do fim
do quarto milnio7. Pode-se admitir, todavia, que o sistema social praticamente
no evoluiu ao longo dos dois milnios que durou o perodo, de acordo com as
observaes feitas a partir dessa documentao.
   O incio da histria escrita coincide, em geral, com a fuso dos agrupamentos
do norte e do sul em um s sistema e sob a autoridade de um nico rei. Temos a,
esquematicamente, a histria do vale inferior do Nilo, de -5000 a -3000, histria
como se v, dominada no apenas pela descoberta do metal, acontecimento na
verdade de importncia menor, mas principalmente pelo domnio do homem
sobre todo o vale. Esse domnio, independentemente da construo de diques e
barragens, exigiu o aplanamento do solo a fim de que a gua no se estagnasse
nas terras baixas e, por outro lado, se espalhasse a grande distncia para ampliar


5     As obras gerais sobre a irrigao no Egito no examinam, ao que sabemos, a questo do aparecimento
      e desenvolvimento progressivo da irrigao no Egito. O sistema j estabelecido  descrito em J.
      BESANON, op. cit., p. 85-97, e em F. HARTMANN, 1923, p. 113-18. L. KRZYZANIAK, 1977,
      distingue um perodo de irrigao natural, p. 52-123, e um perodo de irrigao controlada, p. 127-67.
      Esta teria comeado no Gerzehense (Nagada II), cf. ibid. p. 137, por volta de -3070 290. Quanto a essa
      data, ver H. A. NORDSTROM, 1972, p. 5.
6     J. VERCOUTTER, 1967, p. 253-57.
7     Sobre esses problemas, cf. J.-L. de CENIVAL, 1973, p. 49-57.
Descoberta e difuso dos metais e desenvolvimento dos sistemas sociais at o sculo V antes da Era Crist   807



as terras cultivveis do vale. Trata-se, sem dvida, de uma vitria do campons
sobre uma natureza indiscutivelmente hostil.

     O Neoltico
    Encontraremos no captulo 25 do presente volume uma descrio detalhada
do aspecto material das diferentes "culturas" ou "horizontes culturais" que
constituem, por assim dizer, a trama da evoluo social dessas culturas agrupadas
sob os termos gerais de "Neoltico" e de "Pr-Dinstico" no vale do Nilo, tanto
no Sudo como no Egito. Nas pginas seguintes, preocupamo-nos unicamente
em realar os aspectos sociais e o desenvolvimento histrico dessas culturas.
Com efeito, Neoltico e Pr-Dinstico constituem no vale do Nilo um
continuum cultural. Apenas para citar um exemplo, o "Badariense", analisado
detalhadamente no captulo 25,  apenas uma etapa na evoluo de uma cultura
que, tendo comeado no "Tasiense", termina no "Negadiense II" e nas sociedades
"pr-tinitas". Em outras palavras, apresentamos aqui, de forma sinttica, o que
est descrito de forma analtica no captulo 25. Os dois aspectos dos problemas
levantados so complementares, e encontraremos entre colchetes [...] as
referncias que permitiro ao leitor voltar facilmente  descrio detalhada das
"culturas" que so abordadas, no presente captulo, apenas de modo genrico.
    O perodo Neoltico no Egito  conhecido somente atravs de um pequeno
nmero de stios que muitas vezes no so contemporneos. O mais antigo
localiza-se s bordas da depresso do Faium [= Faiumiense B], a oeste do vale,
no Mdio Egito8. Ao norte, so conhecidos os stios de Merinde-Beni-Salame9
[= Merindiense], no Delta ocidental,  beira do deserto, cerca de 50 kma
noroeste do Cairo, e de El-Omari10 [= Omariense A e B], prximo ao Cairo,
perto de Heluan. No Mdio e no Alto Egito existem os stios de Deir Taza, no
sudeste de Assiut e, menos importantes, os de Toukh e de Armant-Cebelein,
na regio de Tebas11. As comparaes que podem ser estabelecidas entre esses
stios para se determinar a natureza e a extenso dos diferentes aspectos do


8    Sobre o Neoltico do Faium, cf. W. C. HAYES, 1965, p. 93-99, e 139-40; ver tambm as observaes de
     F. WENDORF, R. SAID e SCHILD, 1970, p. 1161-171.
9    Sobre o stio de Merinde-Beni-Salame, cf. W. C. HAYES, op. cit. p. 103-16 e 141-43; ver tambm, para
     a cermica, L. HJALMAR, 1962, p. 3 e segs.
10   Cf. W. C. HAYES, op. cit., p. 117-22 e 143-44.
11 Infelizmente no dispomos dos estudos e da bibliografia crtica de W. C. HAYES sobre o Alto Egito;
   a obra ficou incompleta em virtude do falecimento do autor (cf. op. cit., p. 148, n. 1). Tomaremos como
   ponto de referncia o estudo de J. VANDIER, 1952, p. 166-80.
808                                                                     Metodologia e pr-histria da frica



Neoltico que representam tornaram-se ainda mais difceis devido ao fato de
no serem contemporneos, segundo as anlises do carbono 14. O stio mais
antigo, o de Faium A, data de -4400 (180); em seguida vm os de Merinde,
de -4100 (180) e de El-Omari, de -3300 (230); por ltimo, o de Taza, que
data do fim do Neoltico12.
    Em outras palavras, os stios explorados nos elucidam, por um lado, a fase
inicial do Neoltico no Faium e no Delta e, por outro, a fase final desse perodo
no extremo sul do Delta e no Mdio Egito. No entanto, de -4000 a -3300, isto
, durante sete sculos, nada sabemos, ou muito pouco, sobre a evoluo geral do
Neoltico egpcio na sua totalidade. O mesmo ocorre em relao  regio ao sul
do Mdio Egito.  certo que as descobertas de superfcie nas proximidades do
vale e no deserto so numerosas; provam a existncia do que se chama "intervalo
mido", ou "Neoltico subpluvial"13, no fim do sexto milnio, que representa uma
pausa no processo de dessecao climtica do nordeste da frica. Mas essas
descobertas, que so vestgios das culturas neolticas, pouco nos elucidam, dada a
falta de escavaes sistemticas; os nicos estudos proveitosos continuam sendo
os que se apiam nos stios arqueolgicos mencionados acima. Vastas regies e
longos perodos permanecem ainda inexplorados. Esse desconhecimento  ainda
mais lamentvel por ser geralmente aceito que a "revoluo" neoltica chegou
ao Egito proveniente do Oriente Prximo siro-palestiniano, o "crescente frtil",
onde foi comprovada h muito tempo. Foi dessa forma que o protoneoltico de
Jeric pde ser datado de -6800; , portanto, bem anterior ao Neoltico do Faium.
Mas para provar que o Neoltico no vale inferior do Nilo e principalmente no
Delta e no Faium veio realmente da sia, seria necessrio conhecer os stios da
orla martima e da parte oriental do Delta, at a altura de Mnfis. E so essas
justamente algumas das reas pouco conhecidas por ns. Consequentemente, a
origem asitica do Neoltico egpcio continua sendo uma hiptese14. Hiptese
que agora est a exigir confirmao porque, no ltimo decnio, as pesquisas
arqueolgicas no Saara provaram que o Neoltico tambm  muito antigo no
local, principalmente no Ahaggar, onde o stio de Amekni  quase contemporneo



12    Sobre o Neoltico "Tasiense", cf. G. BRUNTON, 1937, p. 5-33. Quanto  data, cf. W. F. LIBBY, 1955,
      p. 77-78.
13    BUTZER, 1964, p. 449-53 e G. CAMPS, 1974, p. 222.
14    Estudando o problema da origem do povoamento do Egito pr-dinstico, E. BAUMGARTEL rejeitou,
      em 1955, a possibilidade das procedncias ocidental, setentrional e oriental (cf. E. BAUMGARTEL,
      1955, p. 19). Os recentes trabalhos dos arquelogos no Saara (cf. abaixo) revelaram que essa posio
      devia ser modificada no que diz respeito ao oeste; todavia continua vlida para o leste.
Descoberta e difuso dos metais e desenvolvimento dos sistemas sociais at o sculo V antes da Era Crist   809



ao de Jeric protoneoltico15. No obstante, observaremos que as datas desse
Neoltico saaro-sudans so todas anteriores s do Neoltico egpcio, pelo menos
para os stios do Faium e de Merinde-Beni-Salame16, atualmente datados, e
s do Neoltico nubiano17. Alm disso, os objetos de cermica talvez tenham
aparecido primeiro na Nbia e depois no Egito18, isso, bem entendido, se nos
basearmos nas fontes de que dispomos atualmente.
   Levando-se em conta a antiguidade do Neoltico saaro-sudans, v-se que
no est excluda a priori a possibilidade de o Neoltico do vale do Nilo, tanto
no Egito como na Nbia, ser o descendente desse Neoltico africano. Porm,
 necessrio certa prudncia, considerando-se, por um lado, a enorme raridade
dos stios neolticos no vale inferior do Nilo, no Egito; e, por outro lado, o fato
de somente as margens do rio terem sido cuidadosamente exploradas na Nbia,
e apenas entre a Primeira Catarata e o sul da Segunda Catarata. A faixa que se
estende entre o vale do rio e o Saara Oriental  ainda desconhecida, do ponto
de vista arqueolgico. Mesmo assim, as influncias exercidas no Capsiense e
no Ibero-Maurusiense da frica do Norte em direo  Nbia, e no Sebiliense
e mdio Paleoltico da frica central igualmente rumo  Nbia19, podem ter
persistido no protoneoltico. O Delta egpcio, constituindo um cruzamento de
vrios caminhos, pde ser o ponto de encontro de influncias vindas tanto do
oeste e do sul, como do leste e do nordeste.
   Desde a emergncia do Neoltico no vale inferior do Nilo, constata-se uma
diferenciao cultural entre o grupo do norte e o do sul.  certo que nos dois
grupos as populaes so constitudas por agricultores e pastores, que continuam
a praticar a caa e a pesca; todavia o prprio material que nos deixaram difere
sensivelmente de um grupo a outro em natureza, qualidade e quantidade [25].
O mesmo ocorre em relao a certos costumes.
   No norte, as casas melhor agrupadas podem sugerir uma estrutura social j
coerente; os mortos so enterrados nas aldeias como se continuassem a pertencer
a uma comunidade organizada20. J no sul as sepulturas so cavadas  beira
do deserto; as casas esto dispersas, mas parece existir uma organizao mais

15   G. CAMPS, 1974, p. 224; 1969. Amekni data de 6700 antes da Era Crist; o protoneoltico de Jeric
     de 6800 antes da Era Crist.
16   H. NORDSTROM, op. cit., p. 5.
17   H. NORDSTROM, op. cit., p. 8, 16-17 e 251.
18   F. WENDORF, 1968, p. 1053. A cermica aparece na Nbia no "Shamarkiense" em -5750, mas somente
     em 6391 B.P., ou seja, por volta de -4400 no Faium.
19   F. WENDORF, op. cit., p. 1055, fig. 8.
20 H. JUNKER, 1930, p. 36-47. Para a bibliografia completa do stio, cf. captulo 25.
810                                                                   Metodologia e pr-histria da frica



prxima  familiar. As diferenas entre os dois grupos so tambm perceptveis
nas tcnicas utilizadas por um e outro: os artesos do norte dispem de um
mtodo mais refinado para o trabalho em pedra e passam a fabricar vasos de
pedra, dando incio a uma tcnica que se tornar uma das mais caractersticas do
Egito faranico arcaico. Quanto  cermica, em compensao, se o norte conhece
maior variedade de formas, o sul possui melhor tcnica de fabricao.  nessa
poca, de fato, que aparece, ao lado da cermica preta com decorao branca, a
notvel cermica vermelha com bordos pretos que ser igualmente transmitida
ao Egito pr-dinstico e arcaico, transformando-se numa das indstrias mais
peculiares do vale do Nilo, tanto no Sudo como no Egito.
    Assim, desde o Neoltico delineia-se a separao entre dois grupos culturais
e talvez entre dois sistemas sociais. Um situa-se ao redor da regio de Mnfis,
Faium e extremidade noroeste do Delta; o outro, no Mdio e no Alto Egito,
entre Assiut e Tebas21. Essa diferena cultural, embora no exclua pontos de
contato entre os grupos, vai-se tornando mais ntida nos ltimos sculos do
quarto milnio, antes da fuso, quando se constituram numa nica civilizao
com caractersticas comuns. Esse fato ocorreu pouco antes do advento da
monarquia unificada no vale egpcio do Nilo, por volta de -300022.

      O PrDinstico
    frequente qualificar-se o Pr-Dinstico egpcio de Eneoltico ou Calcoltico,
como se o aparecimento do metal representasse um acontecimento capital,
um momento decisivo no desenvolvimento do vale. Devemos salientar que,
na verdade, no h nenhuma ruptura entre o Neoltico e o Eneoltico no vale
inferior do Nilo. Pelo contrrio, a continuidade do desenvolvimento  evidente;
esta a razo pela qual preferimos manter o termo PrDinstico para qualificar
esses sculos obscuros, mas de importncia primordial para a Histria da frica.
   O advento do metal no Egito  lento e no parece ter sido obra de povos
invasores. Contrariamente ao que ocorre em outras civilizaes, o cobre aparece
antes do ouro23, embora este ltimo seja mais facilmente encontrado em estado
natural, em jazidas localizadas nas proximidades do vale. Os primeiros objetos
de cobre, de pequenas dimenses, aparecem, no grupo do sul, no stio de Badari


21    Convm observar que o grupo do norte no se expande at o mar;  to "continental" quanto o grupo
      do sul, cf. J.-L. de CENIVAL, op. cit., Mapa A, p. 50.
22 J. VERCOUTTER, 1967, p. 250-53.
23    Cf. A. LUCAS, 1962, p. 199-200.
Descoberta e difuso dos metais e desenvolvimento dos sistemas sociais at o sculo V antes da Era Crist   811



(que deu nome  cultura Badariense)24, e no grupo do norte, em Demeh, Kasr-
-Maroun e Khasmet-ed-Dib, no Faium; esse conjunto de stios  denominado
Faium-A para diferenci-lo do Faium neoltico ou do Faium-B.
    H discusses a propsito da origem da metalurgia do cobre no Egito25. 
possvel que tenha sido trazida do exterior, do Oriente Prximo; nesse caso,
porm, somente em escala muito limitada: uns poucos indivduos revelando
aos habitantes do vale a tcnica do cobre. Entretanto no se poderia afastar a
hiptese de um fenmeno de convergncia: os prprios habitantes do vale do
Nilo descobrindo o metal praticamente na mesma poca em que era descoberto
no "crescente frtil". Com efeito, foi nessa poca que, talvez acidentalmente,
as populaes badarienses descobriram o esmalte azul, ao aquecer pedras ou
paletas nas quais havia sido triturado material para a pintura dos olhos  base
de malaquita, que  um minrio de cobre26. Assim, os habitantes do vale teriam
descoberto simultaneamente o cobre, que trabalhavam a frio, e a chamada
"faiana egpcia", isto , o esmalte azul, que logo passou a ser utilizado na
fabricao de contas de adorno.
    Qualquer que seja a origem do metal, asitica ou autctone, sua utilizao
era muito limitada e os utenslios de pedra continuavam a ser os mais comuns,
tanto no grupo do norte como no do sul. Uma coisa  certa: a descoberta ou
a difuso do metal no alterou em nada a organizao social, como se pode
comprovar pelas sepulturas.
    O Pr-Dinstico, de aproximadamente -4000 a -3000, pode ser dividido
em quatro fases que ajudam a marcar a evoluo do vale durante esse perodo,
infelizmente ainda bastante obscuro. Portanto distinguiremos os Pr-Dinsticos
Primitivo, Antigo, Mdio e Recente.
    No PrDinstico Primitivo [= Badariense], os dois grupos, do sul e do norte,
continuam a evoluir independentemente um do outro. No sul, a maior parte
das informaes referentes a essa fase provm do stio arqueolgico de Badari,
nos arredores de Deir Tasa. Apesar do aparecimento do metal, o Badariense27 e


24   Cf. captulo 25. A civilizao badariense foi estudada com frequncia (cf. bibliografia abaixo). A obra
     bsica continua sendo a de G. BRUNTON e G. CATON-THOMPSON, 1928, complementada com
     G. BRUNTON, 1948, cap. VI, p. 9-12.
25   Cf. A. LUCAS, op. cit., p. 201-06. Sobre a origem da metalurgia do cobre no Oriente Mdio antigo, cf.
     B. J. FORBES, 1964, p. 16-23. O nome hieroglfico do cobre s pde ser decifrado recentemente; cf. J.
     R. HARRIS, 1961, p. 50-62.
26   A. LUCAS, op. cit., p. 201.
27   Sobre essa civilizao, as obras bsicas continuam sendo as de G. BRUNTON, 1928, p. 142; 1937, p.
     33-66 e 1948, p. 4-11.
812                                                  Metodologia e pr-histria da frica



o Neoltico tm tantos pontos em comum que, por vezes, pergunta-se se essa
cultura no seria uma simples variante local do Tasiense neoltico. O estudo
dos esqueletos revela que os homens do Badariense do Pr-Dinstico Primitivo
eram fisicamente muito semelhantes aos egpcios que vivem atualmente na
mesma regio. As populaes continuavam a viver em choupanas de forma
oval, um pouco mais confortveis do que as da poca anterior; j usavam
esteiras tranadas, almofadas de couro e at camas de madeira. O culto aos
mortos desenvolve-se; o cadver  isolado em uma cmara de madeira, dentro
da sepultura oval, e cercado de moblia funerria, alimento, vasos e objetos de
uso dirio. Como os neolticos do Tasiense, os badarienses cultivam e tecem o
linho, e alm disso utilizam o couro obtido pela caa e pela criao. Praticam,
portanto, uma economia mista; criao e agricultura so ainda suplementadas
pela caa e pela pesca. Continuam a fabricar vasos vermelhos com bordos pretos
e excelente cermica vermelha finamente polida. A descoberta do esmalte torna
possvel aos artesos a fabricao de contas de adorno de um azul intenso. O
material para a pintura dos olhos  pulverizado sobre paletas de xisto, algumas
das quais so decoradas, assim como pentes de marfim. Dessa forma, a arte
surge gradativamente.
   PrDinstico Primitivo [= Faiumiense A]. A camada mais recente de
Merinde-Beni-Salame poderia tambm pertencer a esse Pr-Dinstico Primitivo
que  conhecido no grupo do Norte graas aos stios do Faium-A28. Como no
Badariense, o slex  empregado em escala muito maior do que o metal na
fabricao de utenslios. Os cera mistas do Faium-B produzem maior variedade
de formas de vasos que os do Badariense, mas sua tcnica  menos aperfeioada.
 certo que o arteso do norte revelou-se novamente superior, modelando
belssimas vasilhas e vasos de pedra, principalmente de xisto preto. Mas, em
geral, os dois grupos praticamente no se distinguiam, cada qual representando
apenas a evoluo normal da cultura neoltica que o precedeu na regio. Nada
indica que tenha havido, em qualquer dos grupos, diferenas apreciveis entre
os membros da comunidade. Em particular, no parece ter existido, dentro da
coletividade, elementos sensivelmente mais ricos do que outros. Tudo transcorre
como se houvesse igualdade social entre os diversos membros da comunidade,
independentemente de idade ou sexo. Essa concluso baseia-se, naturalmente,
na suposio de que as necrpoles conhecidas e pesquisadas arqueologicamente
pertenceram  totalidade do grupo humano em questo; em outras palavras,


28    G. CATON-THOMPSON e E. W. GARDNER, 1934.
Descoberta e difuso dos metais e desenvolvimento dos sistemas sociais at o sculo V antes da Era Crist   813



que nenhum membro dessa comunidade foi sepultado fora dessas necrpoles
em virtude de alguma discriminao racial, religiosa ou social.
    O PrDinstico Antigo [= Negadiense I] infelizmente s  conhecido pelos
stios do sul. Recebe tambm o nome de Amratiense, derivado do topnimo
El-Amrah29, perto de Abidos, portanto consideravelmente mais ao sul do que
Badari. O Amratiense corresponde tambm ao que por vezes se denomina
cultura de Nagada I, segundo a nomenclatura de Flinders Petrie, utilizada
principalmente nas dataes com carbono 14.
    A cultura amratiense  descendente, quanto  poca, da badariense, no
havendo ruptura tambm nesse caso; em alguns stios a camada amratiense est
em contato direto com a camada badariense. A cultura amratiense continua a
produzir a cermica vermelha com bordos pretos da cultura precedente, mas
introduz a cermica decorada com desenhos geomtricos e naturalistas, pintados
de branco fosco sobre fundo vermelho ou marrom avermelhado; mais raramente,
a decorao consiste em incises preenchidas de branco sobre fundo preto. O
ceramista amratiense, mais inventiva que seu predecessor badariense, cria formas
novas, principalmente de animais. A caa tem ainda grande destaque entre os
temas da decorao naturalista, especialmente a caa ao hipoptamo. Pode-se,
ento, supor que no Pr-Dinstico Antigo ainda no estava concluda a transio
entre um sistema social formado por caadores-pescadores relativamente
nmades e um sistema de aldeias ou grupos de agricultores-pastores sedentrios.
    Deve-se observar que a arma tpica do Amratiense  uma clava, frequentemente
talhada numa pedra dura, em forma de tronco de cone30. O fato  importante,
pois essa arma desaparece completamente aps o Amratiense. Um dos caracteres
do sistema hieroglfico, na poca histrica, emprega-a com valor fontico 31; isso
significa que foi na poca amratiense, portanto no Pr-Dinstico Antigo, por
volta de -3800 (data fornecida pelo C14), que o sistema de escrita hieroglfica
deve ter comeado a se formar.
    A arte continua a se desenvolver. Nesse perodo, aparecem estatuetas
representando homens barbados com estojo flico, mulheres danando e animais
diversos, simultaneamente a grande quantidade de paletas para maquilagem com
decoraes e pentes ornamentados com desenhos de animais32.


29   Cf. J. VANDIER, op. cit., p. 231-32. O stio foi descoberto em 1900. Foi publicado por D. RANDALL-
     MACIVER e A. C. MACE, 1902, p. 352.
30   Sobre essa clava, cf. W. M. F. PETRIE, il. XXVI e p. 22-24.
31   A. H. GARDINER, 1957, p. 510, quadro 1.
32   J. L. de CENIVAL, op. cit., p. 1621.
814                                                                         Metodologia e pr-histria da frica



    Dentre os stios do Amratiense, agrupados entre Assiut (ao norte) e Tebas
(ao sul), destacam-se os de Nagada, Ballas, Hou e Abidos.  lamentvel no se
conhecer, no grupo do norte, nenhum stio contemporneo do Amratiense, tanto
mais que, neste ltimo, percebem-se ntidos vestgios de contato entre o norte e o
sul, principalmente pela existncia de vasos de pedra com formas caractersticas
do Pr-Dinstico setentrional em meio ao mobilirio funerrio amratiense. Nas
prticas funerrias nada indica que tenha ocorrido uma mudana de organizao
social entre o Pr-Dinstico Primitivo e o Pr-Dinstico Antigo do Amratiense.
Observa-se ainda a existncia de comunidades constitudas de indivduos que
gozam de igualdade social, mesmo sob a autoridade de um nico chefe ou de
um grupo de indivduos.
    Aps um sculo de existncia, talvez menos, a cultura amratiense incorpora-
-se a uma nova e complexa cultura que mistura elementos do Amratiense com
outros de origem incontestavelmente setentrional. Essa cultura mista, o Pr
Dinstico Mdio [= Negadiense II e talvez Omariense A] ou Gerzeense (Nagada
II na nomenclatura de Petrie), deriva seu nome do stio de Gerzeh33, no Baixo
Egito, perto do Faium, onde aparece com maior evidncia. Apresenta dois
aspectos, um puramente gerzeense ao norte, outro misturando amratiense e
gerzeense ao sul34.
    Essa nova cultura encontra-se centralizada, ao norte, na regio ao redor de
Mnfis, do Faium e da extremidade sul do Delta.  sobretudo na cermica
que o Gerzeense setentrional manifesta sua originalidade, com vasos de cor
amarelo-clara, fabricados com material bem diferente daquele utilizado na
cermica produzida no sul. A decorao  naturalista, ocre avermelhada sobre
fundo claro, com novos temas: montanhas, bis, flamingos, alos e sobretudo
embarcaes. Como os artesos do Faium-A, dos quais so sucessores, os do
Gerzeense fabricam vasos de pedra, mas utilizam xisto e outras rochas mais
duras: brecha, basalto, diorito, serpentina. A arma tpica dessa cultura  a clava
piriforme35 que se tornar a arma real por excelncia nos primrdios da Histria
e ser, como a clava do Amratiense, um dos caracteres da escrita hieroglfica36.
    Nota-se tambm uma evoluo social e religiosa. Agora os mortos so
enterrados em tmulos retangulares, com a cabea voltada para o norte, de


33    A aldeia de EIl-Gerzeh est situada na latitude do Faium, portanto bem ao sul do atual Cairo; o stio pr-
      -dinstico foi escavado em 1911. Cf. W. M. F. PETRIE, E. MACKAY e G. WAINWRIGHT, 1912.
34    J. VERCOUTTER, 1967, p. 245-67, e J. VANDIER, op. cit., p. 248-52 e 436-96.
35    W. M. F. PETRIE, op. cit., il. XXVI e p. 22-24.
36    A. H. GARDINER, op. cit., p. 510, quadro 3.
Descoberta e difuso dos metais e desenvolvimento dos sistemas sociais at o sculo V antes da Era Crist   815



frente para leste e no mais para oeste. Quanto s embarcaes, representadas
com grande frequncia nos objetos de cermica do Gerzeense, trazem na proa
smbolos em que facilmente se reconhecem os precursores das insgnias dos
nomos ou provncias do Egito faranico.
    Ultrapassando a fase da famlia e da aldeia, os grupos humanos passam a
reunir-se em associaes muito mais amplas. O poder que resulta dessa nova
organizao social permite, sem dvida, um maior aproveitamento do vale por
meio da irrigao e traz, por conseguinte, um enriquecimento considervel
que se reflete na produo de objetos trabalhados: vasos de pedra de melhor
qualidade e em maior quantidade; maior nmero de instrumentos e armas de
cobre, tais como tesouras, adagas, pontas de arpo e machados. Na verdade, no
se trata de um acaso o fato de, nessa poca, os adornos funerrios ostentarem
ouro e vrios tipos de pedras semipreciosas: lpis-lazli, calcednia, turquesa,
cornalina, gata. A estaturia desenvolve-se, e os motivos representados, falco
e cabea de vaca principalmente, mostram com clareza como a prpria religio
faranica tambm est em formao: Hrus, o Falco, e Htor, a Vaca, j so
adorados.
    No sul, as culturas posteriores ao Amratiense do Pr-Dinstico Antigo esto
fortemente impregnadas de influncias gerzeenses. Assim, a cermica gerzeense
clssica, cor de camura, com decorao naturalista vermelha,  encontrada lado
a lado com a tradicional cermica do sul, vermelha com bordos pretos ou com
decorao em branco fosco.
    A influncia  de fato recproca entre os dois grupos e as semelhanas
so numerosas; instrumentos lticos notadamente (nessa poca, a tcnica de
lascamento de instrumentos cortantes de slex atinge o auge da perfeio) e
paletas para maquilagem apresentam aspecto anlogo nas duas culturas. Assim,
os dois grupos culturais encaminhavam-se, gradativamente, para uma fuso
completa.
    Essa fuso entre o norte e o sul acontecer no PrDinstico Recente, ou
Gerzeense Recente; s vezes tambm denominado Semainiense [= Omariense
B e Meadiense]37. Estamos agora no limiar da Histria; essa ltima fase teve
curta durao. Se mantivermos a data de -3000 para o incio da Histria, o
que fizemos para continuarmos fiis s datas ainda tradicionalmente aceitas, o
Pr-Dinstico Recente provavelmente no teria durado mais de duas ou trs
geraes, no mximo. Uma data do C14 para o Pr-Dinstico Mdio nos revela

37   A expresso  de F. PETRIE, 1939, p. 55 e segs. Semaineh  uma aldeia do Alto Egito, perto de Qena.
     Cf. tb. J. VERCOUTTER, 1967, p. 247-50.
816                                                                     Metodologia e pr-histria da frica



que este se prolongou at -3066, o que deixa apenas trs quartos de sculo para
a transio do fim do Pr-Dinstico Mdio ao incio da Histria. Ao que tudo
indica, esse incio deveria ser deslocado para uns duzentos anos mais tarde;
mas mesmo localizando-o por volta de -280038, restam apenas pouco mais de
dois sculos para uma fase em que se completou o processo de aproveitamento
do vale inferior do Nilo e estabeleceu-se um sistema social dirigido por uma
monarquia de direito divino.
    Essa fase encontra-se to prxima daquela que testemunha o aparecimento
da escrita que tentou-se extrapolar as informaes fornecidas pelos textos
escritos para o que a arqueologia nos revela39. Os textos deixam entrever que, no
incio do Pr-Dinstico Recente e talvez desde o fim do Pr-Dinstico Mdio, a
cidade mais poderosa do sul era Ombos (Noubet em egpcio), perto de Nagada,
portanto exatamente no centro da cultura amratiense. O deus da cidade  Seth,
deus animal sobre cuja natureza ainda se discute; tem sido identificado como um
tamandu, uma espcie de porco, uma girafa... um animal mtico ou h muito
desaparecido da fauna egpcia. Os textos nos informam que esse deus meridional
entra em luta com um deus-falco, Hrus, adorado na cidade de Behedet, que
provavelmente estava localizada no Delta, isto , dentro dos domnios da cultura
gerzeense. Portanto, no fim do Pr-Dinstico Mdio, o Egito estaria dividido
em duas estruturas sociais, uma ao norte, dominada por Hrus de Behedet, e
outra ao sul, dirigida por Seth de Ombos. Tambm nesse caso, infelizmente,
as fontes de que dispomos no permitem determinar com preciso a natureza
dessas estruturas sociais. Pode-se, no mximo, ter uma ideia da importncia do
chefe de grupo, importncia que reside em seus poderes mgicos e religiosos, que
se traduzir, na poca histrica, no carter divino do representante da realeza40.
Poder-se-ia, talvez, admitir a hiptese de o chefe dispor de poderes praticamente
ilimitados em relao aos indivduos da coletividade, sendo que esta, por sua vez,
podia, quando a ocasio se apresentasse, matar o chefe cujos poderes mgicos
estivessem em declnio (cf. A. Moret, La mise  mort du dieu en Egypte).
    Interpretando os textos, admite-se que a luta entre esses dois grupos teria
terminado, numa primeira etapa, com uma vitria do norte sobre o sul, e que aps
essa vitria teria sido criado um reino unificado, tendo por ncleo Helipolis41,
perto do Cairo, a uns 60 km ao norte do stio de Gerzeh. Traduzida em termos


38    A. SCHARFF, 1950, p. 191.
39    A obra bsica continua sendo o brilhante ensaio de K. SETHE, 1930.
40    Cf. G. POSENER, 1960.
41    K. SETHE, op. cit.; hiptese refutada por H. KEES, 1961, p. 43.
Descoberta e difuso dos metais e desenvolvimento dos sistemas sociais at o sculo V antes da Era Crist   817



arqueolgicos, essa vitria do norte sobre o sul corresponderia  penetrao da
cultura gerzeense em domnio amratiense.
    Durante o Pr-Dinstico Recente, sempre por extrapolao das informaes
fornecidas pelos textos, teria havido uma evoluo poltica ou social nos dois
grupos, no norte e no sul. A unidade poltica resultante da vitria do norte sobre
o sul, no fim do Pr-Dinstico Mdio ou no incio do Pr-Dinstico Recente,
teria tido curta durao e cada grupo teria retornado imediatamente  sua
existncia independente. Aps essa evoluo, constata-se que o centro poltico
do norte desloca-se de Behedet, cuja posio exata  ainda desconhecida, para
Buto, a oeste do Delta, a cerca de 40 km do mar, regio em que no foi possvel
atingir as camadas arqueolgicas contemporneas do Pr-Dinstico. Ao mesmo
tempo, a capital poltica do sul passava de Ombos para El Kab (Nekkeb em
egpcio antigo), cem quilmetros mais ao sul42. O grupo do sul torna-se, assim,
mais meridional, e o do norte, mais setentrional.
    Em Buto adorava-se uma deusa-cobra, Uadjit; em El Kab um abutre-fmea.
Essas duas divindades, na poca histrica, sero protetoras dos faras e figuraro
regularmente no ritual da cerimnia de coroao43. Alguns documentos,
posteriores de cerca de um milnio, tinham conservado os nomes dos soberanos
desses agrupamentos polticos do fim do Pr-Dinstico Recente, mas poucos
chegaram at ns. A partir dessa poca, parece haver uma unidade cultural entre
o norte e o sul. Assim, o deus Hrus, originrio do norte,  tambm adorado no
sul, e os chefes polticos, no norte como no sul, consideram-se seus servidores
ou partidrios, com o ttulo de Shemsu Hrus44.
    Do ponto de vista material, h pouca diferena entre a civilizao do Pr-
-Dinstico Mdio e a do Pr-Dinstico Recente, mas observa-se um incontestvel
progresso na arte e na tcnica. A figura humana torna-se um tema abordado com
frequncia pelos artistas, e a pintura mural aparece em Hieracmpolis (Nekkem,
em egpcio antigo), importante centro situado na margem ocidental do Nilo,
quase defronte a El Kab45. Hieracmpolis torna-se o bero da realeza do sul que,
por volta de -3000, d incio  luta contra o norte.
     impossvel saber quanto tempo durou essa luta. Ocupa os ltimos anos
do Pr-Dinstico Recente e termina com a vitria do sul sobre o norte e com
a criao de um estado unificado abrangendo todo o vale; desde El Kab at o


42   J. VERCOUTTER, 1967, p. 248-49.
43   Cf. A. H. GARDINER, 1957, p. 71-76.
44   Sobre os ShemsouHor, cf. J. VANDIER, op. cit., p. 129-30 e 635-36.
45   Hieracmpolis forneceu numerosos documentos pr-dinsticos, cf. PORTER e MOSS, 1937, p. 191-99.
818                                                                    Metodologia e pr-histria da frica



Mediterrneo. Esse estado ser governado por reis do sul, originrios da regio
de This46, bem prximo a Abidos, que constituem as duas primeiras dinastias,
denominadas tinitas. Por essa razo o breve perodo do Pr-Dinstico Recente
 geralmente conhecido como PrTinita.
   Os objetos pr-tinitas que chegaram at ns foram todos encontrados em
Hieracmpolis47. So, sobretudo, grandes paletas votivas48 decoradas com cenas
histricas, e grandes clavas esculpidas em calcrio. As cenas que ornamentam
esses dois tipos de documentos permitem-nos entrever o sistema poltico e social
dominante na poca, no vale inferior do Nilo. O pas est dividido em provncias
ou grupos humanos, cujas insgnias so vistas acompanhando o soberano nas
grandes ocasies.
   A comparao das insgnias representadas nas embarcaes gerzeenses e nas
paletas ou clavas pr-tinitas, com os emblemas dos "nomos" ou provncias, em
monumentos da poca histrica, revela que desde o Gerzeense o sistema social
no vale inferior do Nilo, no norte como no sul, progride em termos geogrficos
e econmicos, e no ticos. O grupo humano organiza-se em torno de um
habitat e de sua divindade. Este fato  consequncia dos imperativos agrcolas
impostos ao vale pelo regime do Nilo, tanto ao norte como no sul. O grupo
s pode sobreviver e desenvolver-se na medida em que se torna numeroso e
organizado o suficiente para executar os trabalhos que colocaro seu territrio
ao abrigo das enchentes, aumentaro as terras cultivveis e garantiro reservas
de alimento, indispensveis devido  irregularidade das cheias do Nilo. A dupla
organizao, agrcola e religiosa  pois apenas a divindade pode garantir o
sucesso dos trabalhos empreendidos e, consequentemente, a prosperidade do
grupo ,  o fato primordial e permanente que domina o sistema social do vale
inferior do Nilo.
    possvel, entretanto, que esse sistema baseado na distribuio geogrfica
tenha substitudo um sistema mais antigo de fundamento tnico ou social. 
o que parecem sugerir trs palavras do egpcio antigo que, existentes desde os
primrdios da Histria, persistiro at o fim da civilizao egpcia. Essas palavras,
Pt, Rekhyt e Henememet49, aplicam-se, ao que parece; a trs agrupamentos


46    O stio da capital no foi descoberto. A presena de uma necrpole real dessa poca (cf. W. M. F.
      PETRIE, 1901) na margem oeste do Nilo, em Abidos, indica que a cidade devia estar localizada nas
      proximidades.
47    O stio foi explorado em 1898; cf. J. E. QUIBELL, Hierakonpolis, Londres, 1900-1902.
48    As mais belas foram reunidas por W. M. F. PETRIE, 1953.
49    A. H. GARDINER, 1947, v. I, p. 98-112.
Descoberta e difuso dos metais e desenvolvimento dos sistemas sociais at o sculo V antes da Era Crist   819



humanos muito grandes: os Pt seriam os habitantes do vale superior, tendo
Hrus por senhor; os Rekhyt seriam os do vale inferior, vencidos no final do
Pr-Dinstico Recente; os Henememet ou "povo do Sol", teriam habitado a
regio oriental situada entre o mar Vermelho e o Nilo. Essa ltima regio, ainda
habitada no Neoltico e no Pr-Dinstico,  importante para a economia do
vale, visto que fornece metais, cobre e ouro. E  esse vasto sistema "sociotnico"
que se fracionaria em pequenas unidades geogrficas e agrcolas. O papel da
monarquia ser puramente poltico: numa primeira etapa, reunir esses grupos
de provncias em duas grandes confederaes, uma ao norte e outra ao sul;
numa segunda etapa, unificar  fora as duas confederaes em um nico reino,
garantindo assim um melhor aproveitamento da totalidade do territrio egpcio.
Essa segunda tarefa ser obra dos primeiros faras tinitas.  nessa poca que
passamos  Histria.

     O vale superior do Nilo (5000 a 3000)
    As diversas culturas do vale inferior do Nilo aqui abordadas no ultrapassam,
ao sul, a regio de El Kab. A regio de Assu e a Primeira Catarata pertencem j
a uma rea cultural diferente. Do ponto de vista tnico, tudo parece indicar que
as populaes do vale superior do Nilo estavam prximas das do grupo sul do
vale inferior: badarienses e amratienses. Poder-se-ia estender as comparaes aos
grupos tnicos dos arredores do Saara oriental, mas os estudos antropolgicos
pertinentes so ainda pouco numerosos50.
    Neoltico e Pr-Dinstico so pouco conhecidos no Egito, como constatamos,
devido ao pequeno nmero de stios cientificamente explorados. A situao 
ainda pior em se tratando do vale superior, onde apenas a parte setentrional,
entre a Primeira e a Segunda Catarata, est relativamente bem explorada 
convm observar que os resultados das escavaes feitas de 1960 a 1966 no
foram ainda publicados in extenso51.
    Da Segunda Catarata at os Grandes Lagos da frica equatorial, os raros
elementos conhecidos provm de relatrios de prospeco em superfcie, pois 
mnimo o nmero de stios em que foram realizadas escavaes. Por essa razo,
nossos conhecimentos, no tempo e no espao, so muito mais limitados em
relao ao vale superior do que ao vale egpcio.


50   Cf. O. V. NIELSEN, 1970, passim e p. 22, bibliografia p. 136-39.
51   Sobre as pocas que aqui nos interessam, destacaremos principalmente as obras de F. WENDORF, 1968
     e H. NORDSTRM, 1972.
820                                                     Metodologia e pr-histria da frica



      O Neoltico ( 5000 a 3800)
   As primeiras escavaes em um stio indiscutivelmente neoltico foram realizadas
na regio de Cartum. A cultura a descoberta, por vezes conhecida pelo nome de
Neoltico de Cartum,  geralmente chamada Shaheinab [= Shaheinabense]52.
   Shaheinab  um stio de habitat cujas sepulturas no foram encontradas;
mas o abundante material que forneceu, objetos de uso quotidiano, prova
que os sudaneses da regio, sobretudo caadores e pescadores, eram tambm
criadores. O estudo de sua cermica, decorada pela impresso de uma
roseta rotativa, indica que eram provavelmente descendentes de uma outra
cultura neoltica mais antiga cujos vestgios foram encontrados em um stio
localizado na prpria regio de Cartum. Esse stio, Cartum Antigo (Early
Khartoum)53 [= Cartumiense], contm tmulos onde negros tinham sido
inumados. Se, como tudo indica, Shaheinab provm realmente do Cartum
Antigo, teramos de admitir que estamos em presena, tambm nesse caso,
de uma populao negra, composta de grupos de caadores e de pescadores
que matavam lees, bfalos, hipoptamos e igualmente antlopes, gazelas,
rix e lebres, cujas ossadas encontramos em suas habitaes. Suas armas
eram machadinhas polidas e clavas semi-esfricas que, de um modo geral,
consideramos predecessores da clava troncnica amratiense. Trabalhavam
a madeira e conheciam a tecelagem, embora aparentemente preferissem o
couro na confeco das vestimentas. Sua civilizao  s vezes denominada
"cultura da goiva", dado o grande nmero de ferramentas desse tipo
descobertas no stio. Graas  sua cermica bastante caracterstica, foi
possvel provar que a cultura de Shaheinab estendia-se, no s a oeste
(Tenere, Tibesti) e a leste, mas tambm ao sul de Cartum, ao longo do
Nilo Branco e do Nilo Azul. No h indcios que permitam determinar
qual era a sua organizao social.
   Seria interessante saber quais eram as ligaes entre o Neoltico de Shaheinab
e o do vale inferior, principalmente do Faium; infelizmente no se conhece
nenhum stio ao norte de Cartum, entre a Sexta e a Stima Catarata, que permita
estabelecer comparaes teis. Os trabalhos recentes na baixa Nbia, ao norte
da Segunda Catarata, parecem ter demonstrado que o Neoltico dessa regio 
semelhante ao de Shaheinab, embora ainda apresente diferenas bastantes para



52    Cf. A. J. ARKELL, 1953.
53    Cf. A. J. ARKELL, 1949.
Descoberta e difuso dos metais e desenvolvimento dos sistemas sociais at o sculo V antes da Era Crist   821



que os arquelogos anglo-saxes que o estudaram tenham-no denominado
"Cartum Variante"54.
    No vale superior, a passagem do Neoltico ao Pr-Dinstico, portanto, ao
Eneoltico, continua ainda muito obscura. Algumas sepulturas encontradas na
confluncia do Nilo Branco e do Nilo Azul poderiam indicar a existncia, nesse
local, de uma cultura influenciada pelo Pr-Dinstico nubiano, conhecido como
do Grupo A (cf. acima), mas ainda no pde ser datada com preciso.
    Nas proximidades da Segunda Catarata, em compensao, foi descoberta
recentemente uma indstria  qual se deu o nome de Abkiense (Abkan)55 [= Abkiense]
derivado do nome do stio de Abka, onde se encontra melhor representada. Ela
ainda  conhecida apenas por sua produo ltica e por sua cermica. Nem todos
os stios em que foi encontrada foram publicados. Pelo que se sabe, essa cultura
aparentemente pertence a uma populao de caadores-pescadores, como a de
Shaheinab, mas a caa apresenta-se menos produtiva, talvez por iniciar-se a
fase de dessecao que vem aps o "perodo mido". Para a pesca, os homens
de Abka parecem utilizar imensas armadilhas permanentes, inteligentemente
instaladas nos canais da catarata durante a vazante, e onde os peixes ficavam
presos por ocasio do recuo da inundao. A coleta de frutas e plantas silvestres
completava-lhes os recursos alimentcios. A construo das armadilhas, feitas de
paredes de pedra muitas vezes de grandes dimenses, implica um agrupamento
social j organizado. A cultura abkiense no tem aparentemente relao com a
de Shaheinab que, in loco, em sua forma de "Cartum Variante", parece ser a um
tempo distinta e contempornea dessa cultura. O Abkiense seria uma forma
particular do Neoltico que nada deveria ao sul nem ao norte. Por outro lado,
parece que foi realmente do Neoltico abkiense que proveio o Pr-Dinstico
nubiano.

     PrDinstico (3800 a 2800)
   Quando, em 1907, o governo egpcio decidiu elevar mais 7 m a primeira
barragem de Assu, inundando assim toda a baixa Nbia, de Shellal a Korosko,
uma prospeco arqueolgica sistemtica foi empreendida na regio a ser
inundada. Os arquelogos, constatando as diferenas culturais entre o Egito,
que conheciam bem, e a Nbia, adotaram um sistema provisrio de classificao
por letras para as novas culturas que descobriam, distinguindo, segundo uma


54   F. WENDORF, 1968, p. 768-90 e H. NORDSTRM, 1972, p. 9-10.
55   Descrio dessa indstria em F. WENDORF, 1968, p. 611-29; cf. tb. H. NORDSTRM, 1972, p. 12-16.
822                                                                     Metodologia e pr-histria da frica



datao relativa, o Grupo A, o Grupo B, o Grupo C, etc.56 Depois tentou-se
estabelecer um sistema semelhante ao utilizado para o vale inferior, em que o
Nubiano Antigo e o Nubiano Mdio, por exemplo, corresponderiam ao Antigo
Imprio e ao Mdio Imprio57. Mas diante das dificuldades encontradas para
estender esse sistema da Nbia ao norte da Segunda Catarata at a Nbia ao
sul da Segunda Catarata, abandonou-se provisoriamente a tentativa. Portanto,
continuaremos a utilizar a denominao Grupo A, que abrange o Pr-Dinstico.
    O Grupo A58 vai do fim do Neoltico, por volta de -3800, at o fim do Antigo
Imprio egpcio, -2200 aproximadamente. Nesse grupo podemos distinguir
vrias fases: o Grupo A antigo, de -3800 at -3200 aproximadamente; o Grupo
A clssico, de -3200 a -2800 aproximadamente; e o Grupo A recente (antigo
Grupo B), de -2800 at -2200 aproximadamente. Consideraremos apenas as
duas primeiras fases.
    O Grupo A antigo  o menos conhecido59. Foi durante as recentes escavaes na
Nbia sudanesa, entre 1960 e 1966, que se constatou ser a civilizao "eneoltica"
do Grupo A sucessora direta da abkiense do Neoltico; portanto, ser preciso
esperar a publicao dos relatrios das escavaes in extenso para se ter uma ideia
mais precisa do que esse Grupo representa. Na baixa Nbia, o stio de Khor Bahan,
ao sul de Shellal, pertence aparentemente a essa fase antiga e  contemporneo do
Gerzeense, portanto, do Pr-Dinstico Mdio egpcio. Nessa poca, a agricultura e
a criao de gado, ausentes no Abkiense, so praticadas na baixa Nbia: utilizando
uma tcnica prpria do vale superior, as comunidades de agricultores construam,
por ocasio da vazante, barragens de pedra perpendiculares ao rio que tinham por
efeito diminuir a fora da corrente, facilitando o depsito do limo nos campos
 margem do Nilo, e aumentar a extenso das terras cultivveis. Alm disso, a
descoberta de ossos de bovdeos e caprdeos nos tmulos, sem dvida provenientes
de sacrifcios fnebres, sugere que essas comunidades eram seminmades. Sendo
os campos insuficientes para alimentar um grande nmero de animais, somos
levados a crer que as populaes deslocavam-se, durante uma parte do ano, para
os planaltos vizinhos, na poca provavelmente recobertos pela estepe, como atesta
a presena de antlopes e de lees.



56    G. A. REISNER, 1910, p. 313-32.
57    B. G. TRIGGER, 1965, p. 67 e segs. fig. 1, p. 46.
58    Nem todos os relatrios das escavaes feitas na Nbia por solicitao da Unesco, tanto no Egito como
      no Sudo, esto publicados. Sobre o Grupo A, ver H. NORDSTRM, 1972. p. 17-32.
59    H. NORDSTRM, 1972, p. 17-28 e passim.
Descoberta e difuso dos metais e desenvolvimento dos sistemas sociais at o sculo V antes da Era Crist   823



    A descoberta de objetos de cobre nos stios do Grupo A levanta a questo
da difuso desse metal no vale superior. Como as populaes do Badariense, os
africanos do Grupo A utilizavam a malaquita como maquilagem para os olhos
e a pulverizavam sobre paletas de quartzo; conheciam tambm a tcnica de
fabricao da massa esmaltada ("faiana egpcia"). Considerando-se a existncia
de jazidas de minrio de cobre na Nbia, exploradas em pocas remotas,  bem
possvel que os objetos de cobre encontrados nos stios do Grupo A antigo
(sobretudo agulhas) sejam exclusivamente de fabricao local60.
    As importaes provenientes do norte limitam-se, aparentemente, a vasos de
pedra, alabastro, xisto, brecha e a matrias-primas como o slex, que praticamente
no existe nos arenitos da Nbia, mas  encontrado em abundncia no Egito. A
cermica  ainda do tipo vermelho com bordos pretos e fabricada localmente
segundo excelente tcnica. Na confeco de utenslios e armas, as populaes
do Grupo A utilizavam mais frequentemente a pedra e o osso que o metal:
facas e clavas, exatamente como as do Amratiense, so de slex ou de diorito e
basalto; as agulhas ou fivelas e furadores so em geral de osso ou de marfim. O
ouro aparece nas joias. As paletas para maquilagem de xisto so provavelmente
inspiradas nas egpcias, mas encontram-se tambm paletas de quartzo branco
que so tpicas da cultura do Grupo A61.
    Ao Grupo A antigo, ainda pouco conhecido, sucede o Grupo A clssico que, a
julgar pelo nmero de tmulos e necrpoles que deixou, conhece o que se poderia
chamar de exploso demogrfica62. Muito prximo de seu predecessor do ponto
de vista material, o Grupo A clssico diferencia-se sobretudo pela importao
de um nmero bem maior de objetos do vale inferior. Viu-se nesse fenmeno a
prova de um comrcio ativo entre os vales inferior e superior do Nilo. A cermica
mantm uma qualidade e uma beleza superiores, mas simultaneamente aparece
um grande nmero. de vasos importados do tipo gerzeense, de cor clara. Esses
vasos foram provavelmente utilizados para conservar matrias perecveis (pensa-
-se particularmente no leo), importadas em troca do marfim e do bano que
vinham do sul.
    A cultura do Grupo A clssico continua a prosperar at aproximadamente
-2800, quando, de maneira repentina, desaparece quase inteiramente, cedendo



60   Cabe observar que j no Antigo Imprio o minrio de cobre parece ter sido tratado in loco, notadamente
     em Buhen, cf. W. B. EMERY, 1965, p. 111-14.
61 F. HINTZE, 1967, p. 44.
62   B. G. TRIGGER, 1965, p. 74-75.
824                                                    Metodologia e pr-histria da frica



lugar  cultura do Grupo A recente (antigo grupo B)63, muito pobre. Esse fato
foi visto como consequncia dos ataques egpcios desfechados pelos faras da
primeira dinastia tinita. Inscries egpcias dessa poca, descobertas ao norte da
Segunda Catarata, tornam essa explicao muito plausvel. De qualquer forma,
samos agora da poca pr-histrica.
    Em resumo, esse obscuro mas importante perodo em que o vale do Nilo
passou do Neoltico ao fim do Pr-Dinstico caracteriza-se, no vale inferior,
pela passagem de um sistema social baseado em famlias ou grupos restritos de
caadores-pescadores que praticam pequena criao e uma agricultura limitada
s margens do rio e ao Faium, para um sistema complexo de sedentrios
organizados em aldeias ou grupos de aldeias que praticam a irrigao e uma
agricultura especializada. Essas aldeias encontram-se agrupadas, por volta de
-3000, sob a autoridade de um nico lder, o fara, que governa o vale inferior,
da Primeira Catarata ao Mediterrneo.
    No vale superior, observa-se a transio de agrupamentos de pescadores-
-caadores, que praticam uma criao de gado bastante limitada, para um sistema
que rene criadores-agricultores provavelmente seminmades, mas vinculados
geograficamente ao rio, onde constroem espiges com o objetivo de aumentar as
terras cultivveis. A construo desses espiges supe uma organizao coletiva
importante, menos considervel, entretanto, que no vale inferior.
    Nessa mesma poca, a partir de -3300, observa-se a difuso do cobre por
todo o vale do Nilo. Embora a origem da metalurgia do cobre permanea pouco
conhecida e constitua objeto de discusso, no  impossvel que esta tenha
nascido ou que tenha sido reinventada no vale do Nilo.


      A poca histrica, de 3000 ao
      sculo V antes da Era Crist
    Quando os primeiros textos egpcios aparecem, por volta de -3000, os
sistemas sociais j esto estabelecidos, ao que parece, em todo o vale do Nilo
e praticamente no evoluem da em diante. Ao norte, temos um sistema de
monarquia de direito divino governando um grupo de indivduos iguais perante
o rei, pelo menos teoricamente. Ao sul, o sistema  aparentemente menos
rgido, e em virtude do nomadismo, ou seminomadismo, um sistema baseado


63    H. S. SMITH, 1966, p. 118-124.
Descoberta e difuso dos metais e desenvolvimento dos sistemas sociais at o sculo V antes da Era Crist   825



em grande parte na famlia, manteve-se provavelmente durante quase todo o
perodo que vai de -3000 ao sculo V antes da Era Crist. Ser apenas no final
desse perodo que o vale do Nilo, entre a Primeira Catarata e a confluncia do
Nilo Branco e do Nilo Azul (talvez ainda mais ao sul) conhecer um regime
social provavelmente semelhante ao do vale egpcio.
    Levando-se em conta o carter esttico desses sistemas sociais ao longo
desse perodo, sua evoluo ser objeto de uma rpida exposio. Insistiremos,
sobretudo, em dois fatos culturais que caracterizam esse perodo: a descoberta
e a difuso do bronze e, muito mais tarde, do ferro.

     Evoluo dos sistemas sociais
    Em virtude da falta de documentos jurdicos, a organizao social no vale
inferior  conhecida apenas de modo incompleto. De acordo com os autores
clssicos, entre outros Herdoto e Estrabo, a sociedade egpcia teria sido
dividida em castas rgidas. Tal afirmao certamente  falsa, exceto, talvez,
para os militares, no final do perodo faranico. Assim, nunca existiu a "classe
dos sacerdotes", como pretende Estrabo. Nem  certo que tenha havido uma
classe de escravos, no sentido que atribumos  palavra64. Na verdade, o sistema
social egpcio, na poca histrica,  bastante flexvel. Est baseado mais na
explorao do solo, no desenvolvimento do pas do que em um direito rgido.
Como a moeda nunca foi utilizada no Egito, o indivduo deve estar ligado a
uma organizao que lhe fornea alimento, roupas e habitao, qualquer que
seja sua posio social.
    A mais simples dessas organizaes  a propriedade familiar. Se a terra
pertence ao fara, o direito de cultiv-la  s vezes atribudo a um particular,
que pode transmiti-lo a seus herdeiros65. Sempre houve propriedades familiares
desse tipo, frequentemente exguas, nas quais o prprio chefe de famlia distribui
a renda a seu gosto, e a famlia, lato sensu, fica na sua inteira dependncia. A
nica obrigao do chefe de famlia  cumprir os deveres para com o Estado:
impostos, corveias, prestao de servios.
    Ao lado das propriedades familiares, existem as propriedades religiosas
e reais, muito mais importantes. As propriedades religiosas, sobretudo a
partir da XVIII dinastia (aps -1580), eram por vezes muito ricas. Assim, a


64   Cf. as pertinentes observaes de G. POSENER em G. POSENER, S. SAUNERON e J. YOYOTTE,
     1959, s. v. Esclavage, p. 107.
65   J. PIRENNE, 1932, p. 2006-11 e G. POSENER, 1959, p. 76 e 107.
826                                                                         Metodologia e pr-histria da frica



propriedadedo deus Amon inclui 81322 homens, 421362 cabeas de gado, 43
jardins, 2393 km2 de campos, 83 barcos, 65 aldeias66. Esses bens estendem-
-se pelo Alto e Baixo Egito, pela Sria-Palestina, pela Nbia. A propriedade
real est constituda nos mesmos moldes e encontra-se espalhada pelo pas,
em torno de um palcio ou do templo funerrio do soberano. Cada indivduo
vive na dependncia obrigatria de uma dessas propriedades, que supre suas
necessidades de maneira bastante hierarquizada. A remunerao, em espcie,
varia muito de acordo com a funo exercida: um escriba recebe mais vveres
do que um agricultor ou um arteso; isso permite que os mais favorecidos pelo
sistema adquiram, por sua vez, servidores e propriedades familiares, vendendo
no a sua funo, mas uma parte da renda destinada a essa funo.
    Querendo escapar das limitaes impostas pelo sistema social egpcio, o
indivduo s dispe do recurso da fuga. Os "desertores" fogem para oeste, perto
do deserto, onde vivem de ataques s culturas do vale, ou ento vo para o
exterior, principalmente para a Sria-Palestina67.
    A estabilidade do sistema social depende, em grande parte, da autoridade
e da energia do poder central, o rei e a administrao. Quando eles so
fracos, observa-se uma grande desorganizao no funcionamento do sistema,
at mesmo revolues, como a que ocorreu entre -2200 e -2100, quando a
autoridade do fara foi colocada em questo e os favoritos destitudos de seus
bens68. Conhecem-se tambm desordens locais, como a greve dos artesos da
propriedade real de Deir el-Medineh, em 1165, que no haviam recebido sua
cota mensal de vveres nem as vestimentas que lhes eram devidas...
    A situao social de um indivduo no  fixada definitivamente; a qualquer
momento pode ser colocada em questo, por vontade do fara ou em virtude
de erros cometidos no exerccio de uma funo. Fatos como o rebaixamento de
um funcionrio e seu retorno " terra" so mencionados frequentemente nos
textos egpcios69.
    A partir de -1580 aproximadamente, os militares passam a ocupar um lugar 
parte no sistema social egpcio. Para expulsar os hicsos do Egito e empreender sua
poltica de incurses agressivas na Nbia e na sia Menor, os faras criaram um


66    J. H. BREASTED, 1906, p. 97.
67    Um exemplo significativo  o de Sinuhe, que temendo ser implicado numa conspirao palaciana, foge
      para a Palestina. Ser-lhe- necessrio solicitar o perdo do fara para poder voltar ao Egito. Cf. G.
      LEFEBVRE, 1949. "L'Histoire de Sinouh", p. 1-25. Ver tb. W. K. SIMPSON, ed., 1972, p. 57-74.
68    J. VANDIER, 1962, p. 213-20 e 235-37.
69    Notadamente no decreto de Nauri, no qual  uma das sanes correntes, cf. F. L. GRIFFITH, 1927, p. 200-08.
Descoberta e difuso dos metais e desenvolvimento dos sistemas sociais at o sculo V antes da Era Crist   827




Figura 28.1 Tmulo de Rekh mi-re em Tebas (The Metropolitan
Museum of Art, Egyptian Expedition, vol. X).
Figura 28.2 Tmulo de Huy: parede leste (fachada sul).
Figura 28.3 Navalha, Mirgissa, Sudo (Foto Misso Arqueolgica
Francesa no Sudo).
828                                                    Metodologia e pr-histria da frica



verdadeiro exrcito profissional70. Os militares so recompensados com doaes
de terras, de propriedades agrcolas, que podem legar a seus herdeiros contanto
que estes prossigam na carreira militar. Esse sistema foi se desenvolvendo atravs
dos sculos e acabou por criar, no final da histria do Egito, uma verdadeira
"casta" militar.
    No vale superior do Nilo, a organizao social  ainda pouco conhecida.
Vimos que no fim da poca pr-dinstica, estabelecera-se um sistema
social (pelo menos na baixa Nbia) que inclua sedentrios e nmades ou
seminmades, sem que se possa saber se uns e outros viviam em comunidade
ou simplesmente lado a lado. Os raros documentos egpcios que fazem aluso
 organizao poltica das populaes ao sul da Primeira Catarata sugerem
a existncia de agrupamentos humanos de baixa densidade esparsamente
distribudos ao longo do vale, sob a autoridade de chefes locais cujo poder
era hereditrio71.
    A arqueologia praticamente no fornece outras informaes. A criao
continua a ser um fator econmico importante do vale superior; provavelmente
favorece a sobrevivncia das estruturas familiares. A partir de -1580, contudo,
a interveno egpcia certamente modifica o sistema ento vigente, ou melhor,
faz com que desaparea. A ocupao dos territrios ao sul de Assuan pelo Egito
leva rapidamente ao seu despovoamento72. Para sustentar sua poltica asitica,
o Egito explora ao mximo o vale superior, cujos habitantes desaparecem,
provavelmente fugindo para o sul e para o oeste, buscando refgio em regies
ainda hoje desconhecidas pela arqueologia.
    Somente por volta de -750, sob o impulso de soberanos sudaneses
originrios da regio de Dongola, presenciamos a criao de um verdadeiro
reino organizado, inspirado no modelo egpcio. Estende-se, ao que parece, da
confluncia dos dois Nilos, ao sul, primeiramente at a Segunda Catarata, em
seguida at o Mediterrneo, incluindo a baixa Nbia de -750 a -65073. Nesse
reino, o matriarcado exerce uma funo importante (pelo menos para a famlia
governante), mas os documentos so muito raros e pouco explcitos para nos
esclarecer sobre o sistema social ento vigente.



70    R. O. FAULKNER, 1953, p. 41-47.
71    G. POSENER, 1940, p. 35-38 e 48-62
72    W. Y. ADAMS, 1964, p. 104-09.
73    H. V. ZEISSL, 1955, p. 12-16.
Descoberta e difuso dos metais e desenvolvimento dos sistemas sociais at o sculo V antes da Era Crist   829




Figura 28.4 Tmulo de Huy (Foto "The Egypte Exploration Society").



     Difuso dos metais
    Em princpios do perodo histrico, os metais preciosos, ouro e prata, assim
como o cobre, so conhecidos e amplamente difundidos em todo o vale do
Nilo. A metalurgia desses trs metais continua a se desenvolver aps o terceiro
milnio. No segundo milnio aparecem o bronze, liga de cobre e estanho e,
esporadicamente, o ferro, a partir de -1580.
    Entre a Primeira e a Terceira Catarata est localizada a maior parte das
minas de ouro exploradas pelos egpcios e pelos nbios74. A prospeco de
metais preciosos levou os egpcios do Mdio Imprio a ultrapassarem a Segunda
Catarata. No Novo Imprio, o ouro desempenha um papel primordial na poltica
asitica do Egito para "comprar" as alianas locais. O ouro extrado das minas do



74   J. VERCOUTTER, 1959, p. 128-33 e mapa p. 129.
830                                                   Metodologia e pr-histria da frica



Egito e da Nbia contm sempre uma grande proporo de prata75, distinguindo-
-se o ouro branco, ou electrum (hadji em egpcio) que contm pelo menos 20% de
prata, do ouro amarelo (noub, em egpcio); a esse respeito convm observar que
no se sabe ao certo se o topnimo Nbia tem sua origem nessa palavra egpcia.
O ouro teve mltiplas aplicaes no Egito; era empregado na confeco de joias,
na moblia funerria e mesmo na arquitetura, em que a ponta dos obeliscos, os
prticos e certas dependncias dos templos eram recobertos com folhas de ouro.
    O vale superior do Nilo emprega o ouro com a mesma profuso, embora a
pilhagem sistemtica das sepulturas nos tenha deixado relativamente poucos
objetos de ouro: amuletos, contas de adorno, ornamentos para o cabelo,
braceletes, anis e brincos. A moblia de madeira, no sculo XVIII antes da Era
Crist, era por vezes recoberta com folhas de ouro. A moblia funerria no sculo
VIII  tambm de uma grande riqueza em ouro e prata, como se v em Nuri,
abaixo da Quarta Catarata, onde, apesar das antigas pilhagens, foram recolhidos
numerosos objetos76.
    S a anlise em laboratrio permite distinguir o cobre do bronze77. Este s
aparece no vale do Nilo a partir de -2000 aproximadamente; ainda  preciso
esperar at -1500 para que seja difundido por vastas reas, sem nunca chegar
a tomar o lugar do cobre. O bronze, liga de cobre e estanho, tem a vantagem
de ser mais resistente do que o cobre (se a proporo de estanho no for muito
grande), de ter um ponto de fuso mais baixo e de ser de moldagem mais fcil.
    Embora o Egito possua algumas jazidas de estanho, o bronze no foi
descoberto no vale do Nilo; aparentemente vem da Sria78, onde  conhecido
desde o incio do segundo milnio. Nas ligas egpcias, a proporo de estanho
varia de 2% a 16%. Contendo at 4% de estanho, o bronze  mais duro que o
cobre; alm dessa porcentagem, torna-se quebradio e perde muitas de suas
vantagens. Essa  provavelmente a razo pela qual nunca tomou o lugar do cobre,
que pode ser consideravelmente endurecido por simples martelagem.
    No se possuem anlises dos objetos de cobre  ou bronze  encontrados no
vale superior, principalmente em Kerma; datando do segundo milnio, poderiam
nos informar se o bronze fora adotado no vale superior. De qualquer forma, os
objetos de cobre (ou bronze) so abundantes no local, mais do que no prprio
Egito: foram encontradas em Kerma 130 adagas de cobre do perodo de -1800

75    A. LUCAS, 1962, p. 224-34.
76    D. DUNHAM, 1955, passim
77    A. LUCAS, op. cit., p. 199-217 e 217-23.
78    A. LUCAS, op. cit, p. 217-18 e 255-57.
Descoberta e difuso dos metais e desenvolvimento dos sistemas sociais at o sculo V antes da Era Crist   831




Figura 28.5     Esttua de cobre de Ppi I (Antigo Imprio). Museu do Cairo.
832                                                                     Metodologia e pr-histria da frica



a -1700, aproximadamente, isto , mais do que todo o Egito forneceu. Nessa
poca o cobre  utilizado na fabricao de objetos de toucador, principalmente
espelhos, armas e ferramentas, vasos, jias, incrustaes para mveis. Geralmente
batido,  moldado em rarssimos casos.
    O nmero e a qualidade dos objetos encontrados em Kerma79 provam que
o vale superior teve um papel importante na difuso da metalurgia do cobre
na frica, desde o segundo milnio da Era Crist. A magnitude dessa difuso
deve-se em grande parte  presena de minas de cobre no complexo geolgico
bsico do Nilo.
    Durante muito tempo o vale do Nilo conheceu apenas o ferro meterico80.
 apenas no fim do sculo VIII antes da Era Crist que o ferro comea a se
difundir pelo vale inferior; um sculo depois  to utilizado quanto o bronze e
o cobre. Nessa poca,  fundido e trabalhado no Egito nos centros de influncia
grega.
    O vale do Nilo ocupa ento um lugar de destaque na difuso do ferro na
frica81.  possvel que esse metal tenha sido trabalhado mais remotamente no
vale superior do Nilo, do que no vale inferior, o que explicaria sua utilizao
frequente sob a XXV dinastia, originrio de Dongola (por volta de -800). Todavia,
ainda que o vale superior dispusesse ao mesmo tempo de minrio de ferro e de
florestas para a fabricao do carvo vegetal necessrio  metalurgia do ferro,
 somente a partir do sculo I antes da Era Crist, com o desenvolvimento da
civilizao merotica entre a Terceira e a Sexta Catarata, que o ferro se difundir
por vastas reas82. Portanto, foi sobretudo como iniciadora da civilizao de
Mero que a cultura niltica de Napata (do sculo VII ao sculo IV antes da
Era Crist) desempenhou um papel importante na difuso do ferro na frica.




79    G. A. REISNER, 1923, cap. 26, p. 176-205.
80    P. L. SHINNIE, 1971, p. 92-94.
81    A. LUCAS, 1962, op. cit., p. 235-43.
82    O papel de Mero na difuso do ferro na frica no  to evidente quanto se acreditava h algum
      tempo; cf. P. L. SHINNIE, 1971, p. 94-95; que cita tambm B. C. TRIGGER, 1969, p. 23-50. Na
      verdade Mero no  o nico centro possvel de difuso. O ferro pde ser difundido a partir da frica
      do Norte atravs das rotas das caravanas que cruzavam o Saara, cf. P. L. SHINNIE, 1967, p. 168 com
      uma referncia a C. HUARD, 1960, p. 134-78 e 1964, p. 49-50.
Concluso: Da natureza bruta  humanidade liberada                         833




               Concluso:
 Da natureza bruta  humanidade liberada
                                            J. KiZerbo




   Os captulos anteriores demonstram amplamente o importante papel
desempenhado pela frica no alvorecer da humanidade. A frica e a sia,
atualmente colocadas na periferia do mundo tecnicamente desenvolvido, estavam na
vanguarda do progresso durante os primeiros 15.000 sculos da histria do mundo,
desde o australopiteco e o pitecantropo. De acordo com os conhecimentos de que
dispomos atualmente, a frica foi o cenrio principal da emergncia do homem
como espcie soberana na terra, assim como do aparecimento de uma sociedade
poltica. Mas esse papel eminente na Pr-Histria ser substitudo, durante o
perodo histrico dos dois ltimos milnios, por uma "lei" de desenvolvimento
caracterizada pela explorao e pela sua reduo ao papel de utenslio.


    A frica, ptria do homem?
    Embora no haja certeza absoluta a esse respeito  pelo fato de a histria da
humanidade continuar obscura desde as origens, de a histria subterrnea no
ter sido inteiramente exumada, de as escavaes estarem apenas no comeo na
frica e de a acidez do solo devorar muitos restos fsseis , as descobertas feitas
at aqui j classificam este continente como um dos grandes, seno o principal
bero do fenmeno de hominizao. Isso  verdade j na fase do queniapiteco
(Kenyapithecus wickeri  14 milhes de anos), que alguns consideram o iniciador
834                                                     Metodologia e pr-histria da frica



da dinastia humana. O ramapiteco da sia  apenas uma variedade que
conseguiu alcanar a ndia a partir da frica. Mas isso se verifica sobretudo com
o australopiteco (Australopithecus Africanus ou afarensis) que  incontestavelmente
o primeiro homindeo, bpede explorador das savanas da frica oriental e central
e cujas moldagens endocranianas revelaram um desenvolvimento dos lobos
frontais e parietais do crebro, testemunhando j um nvel elevado das faculdades
intelectuais. Em seguida, temos os zinjantropos e a variedade que tem o to
prestigioso nome de Homo habilis. So os primeiros humanos a representarem
um novo salto na ascenso para o status de homem moderno.
    Vm depois os arcantropos (pitecantropos e atlantropos), os paleantropos ou
neandertalenses e, finalmente, o tipo Homo sapiens sapiens (homem de Elmenteita
no Qunia, de Kibish na Etipia), cujas caractersticas, frequentemente negroides,
foram observadas por muitos autores no perodo Aurignaciense Superior. Quer
sejam policentristas ou monocentristas, todos os estudiosos reconhecem que  na
frica que se encontram todos os elos da corrente que nos liga aos mais antigos
homindeos e pr-homindeos, incluindo as variedades que aparentemente ficaram
no estgio de esboo do homem e no puderam empreender a arrancada histrica
que permitiu chegar  estatura e ao status de Ado. Alm disso,  na frica que se
encontram ainda os "ancestrais", ou melhor, os considerados primos do homem.
Segundo W. W. Howells, "os grandes macacos da frica, o gorila e o chimpanz
esto realmente mais prximos do homem do que qualquer um dos trs em relao
ao orangotango da Indonsia"1. E no sem motivo! A sia em suas latitudes
inferiores e sobretudo a frica, em virtude de seu notvel mergulho no hemisfrio
sul, escapavam das desanimadoras condies climticas das zonas setentrionais.
Assim, durante os cerca de 200.000 anos do Kagueriano, a Europa, coberta por
camadas de gelo, no oferece nenhum vestgio de utenslios paleolticos, enquanto a
frica, no mesmo perodo, apresenta trs variedades sucessivas de pedras, talhadas
segundo tcnicas em evoluo. De fato, as latitudes tropicais beneficiavam-se na
poca de um clima "temperado" favorvel  vida animal e a seu desenvolvimento.
Se quisermos detectar as causas do aparecimento do homem, temos de levar em
conta, em primeiro lugar, o meio geogrfico e ecolgico. Em seguida  preciso
considerar a tecnologia e, por fim, o meio social.

      A adaptao ao meio
  A adaptao ao meio foi um dos mais poderosos fatores de formao do
homem, desde suas origens. As caractersticas morfossomticas das populaes

1     W. W. HOWELLS, 1972, p. 5.
Concluso: Da natureza bruta  humanidade liberada                                          835



africanas at o presente foram elaboradas nesse perodo crucial da Pr-Histria.
Assim, o carter glabro da pele, sua cor morena, acobreada ou negra, a abundncia
de glndulas sudorparas, as narinas e os lbios proeminentes de grande nmero
de africanos, os cabelos crespos, encaracolados ou encarapinhados, tudo isso
provm das condies tropicais. A melanina e o cabelos encarapinhados, por
exemplo, protegem do calor. Alm disso, a postura ereta, que foi uma etapa to
decisiva do processo de hominizao e que implicou ou acarretou um novo
arranjo dos ossos da cintura plvica, est ligada, na opinio de alguns pr-
-historiadores,  adaptao ao meio geogrfico das savanas de ervas altas dos
planaltos do leste africano: era preciso manter-se sempre ereto para olhar por
cima, a fim de espreitar sua presa ou fugir dos animais hostis.
    Outros cientistas (Alister Hardy, por exemplo) consideram o meio aqutico
responsvel no s pelo aparecimento de vida mas tambm pela hominizao.
Esse  tambm o ponto de vista de Mrs. Elaine Morgan, para quem tal processo
se teria desenvolvido na frica, s margens dos grandes lagos ou do oceano. Ela
explica a postura ereta pela necessidade de manter a cabea fora da gua, na
qual se havia mergulhado para escapar de animais muito fortes, mas que evitam
a gua. Atribui ainda ao meio aqutico certas caractersticas humanas, como a
existncia de uma camada gordurosa subcutnea, a posio retrada dos rgos
sexuais na mulher e o alongamento correspondente do rgo sexual masculino,
o fato de sermos os nicos primatas que choram, etc.2 Todas essas adaptaes
biolgicas foram gradativamente incorporadas pela hereditariedade e passaram
a ser transmitidas como caractersticas permanentes.
    A adaptao ao meio imps tambm o estilo dos primeiros utenslios
humanos. Assim, C. Gabel manifesta-se a favor de uma origem autctone dos
utenslios do tipo "capsiano", no qual o estilo de lminas, buris e raspadores se
adapta a um material excelente, a obsidiana.

    O meio tecnolgico
    O meio tecnolgico criado pelos homindeos africanos foi, com efeito, o
segundo fator que lhes permitiu distinguirem-se do restante na natureza e,
posteriormente, domin-la.
     por ter sido faber (arteso), que o homem se tornou sapiens (inteligente).
Com as mos livres da necessidade de apoiar o corpo, o homem estava apto a
aliviar os msculos e os ossos do maxilar e do crnio de numerosos trabalhos.


2   A. HARDY, especialista em biologia marinha, citado por Elaine MORGAN, 1973, p. 33-55.
836                                                    Metodologia e pr-histria da frica



Da a liberao e o crescimento da caixa craniana, onde os centros sensitivo-
-motores do crtex se desenvolvem. Alm disso, a mo confronta o homem com
o mundo natural.  uma antena que capta um nmero infinito de mensagens,
as quais organizam o crebro e o fazem chegar ao julgamento, particularmente
atravs do conceito de meios apropriados para alcanar um dado fim (princpio
de identidade e causalidade).
    Aps terem aprendido a lascar grosseiramente a pedra, quebrando-a de modo
desigual em pedaos cujo tamanho depende de mero acaso (pebble culture do
homem de Olduvai), os homens pr-histricos africanos passaram para uma
etapa mais consciente do trabalho criador. A presena de utenslios lticos em
diferentes estgios de elaborao nas grandes oficinas, como as das cercanias
de Kinshasa, permite concluir que a representao do objeto terminado era
apreendida desde a etapa inicial e se materializava lasca a lasca. Como em outros
lugares, o progresso nessa rea passou do lascamento obtido atravs da batida de
um seixo contra outro ao lascamento com o auxlio de um percutor menos duro
e cilndrico (martelo de madeira, de osso, etc.), depois  percusso indireta (por
intermdio de um cinzel) e finalmente  presso para os retoques de acabamento,
especialmente nos micrlitos.
    Um progresso constante caracteriza o domnio do homem pr-histrico
sobre os utenslios. Desde os primeiros passos, reconhece-se na mudana de
material, no acabamento dos instrumentos e das armas, esta busca da eficcia
sempre mais apurada e da adaptao a fins cada vez mais complexos que  o sinal
da inteligncia e que liberta os homens dos esteretipos do instinto. Foi assim
que se passou do biface factotum s indstrias de lascas (Egito, Lbia, Saara),
depois s fcies mais especializadas do Ateriense3, do Fauresmithiense4, do
Sangoense5, do Stillbayense6, e finalmente s formas mais refinadas do Neoltico
(Capsiense, Wiltoniense, Magosiense, Elmenteitiense).
    Na frica, mais do que em qualquer outro lugar,  impossvel traar um
limiar cronolgico ntido que permita demarcar em nmeros precisos a passagem
de um estgio a outro. As diferentes fases da Pr-Histria aparentemente se
sobrepuseram, se interpenetraram e coexistiram durante longos perodos. Na
mesma camada estratigrfica, podemos encontrar relquias da Idade da Pedra
primitiva, utenslios muito mais evoludos (pedras polidas) e at objetos de


3     De Bir el-Ater, na Arglia.
4     De Fauresmith, na frica do Sul.
5     De Sango Bay, na margem oeste do lago Vitria.
6     De Stillbay, na provncia do Cabo.
Concluso: Da natureza bruta  humanidade liberada                                837



metal.  assim que o Sangoense, que comea a partir da primeira Idade da Pedra,
se prolonga at o fim do Neoltico. O conjunto destes progressos, caracterizado
por trocas e emprstimos mltiplos, apresenta-se antes sob a forma de vagas de
invenes com amplo raio histrico, entrecruzando-se s vezes e se inscrevendo
numa curva ascendente geral, que desgua no perodo histrico da Antiguidade,
aps o domnio das tcnicas agropastoris e a inveno da cermica.
    A cultura do trigo, da cevada e das plantas txteis, como o linho do Faium,
expandia-se, assim como a criao de animais domsticos. Dois focos principais
de seleo e de explorao agrcolas exerceram sem dvida uma influncia
marcante desde o VI ou V milnio: o vale do Nilo e a curva do Nger. Foram
domesticados o sorgo, o milho mido, algumas variedades de arroz, o gergelim,
o fonio e, mais ao sul, o inhame, o d (lbiscus esculentust) por suas folhas e fibras,
a palmeira oleaginosa, a noz de cola e provavelmente uma certa variedade de
algodo. O vale do Nilo beneficiou-se, alm disso, dos produtos vindos da
Mesopotmia, como o emmer (trigo), a cevada, as cebolas, as lentilhas e as
ervilhas, os meles e os figos, ao passo que da sia chegavam  cana-de-acar,
outras variedades de arroz e a banana  esta, sem dvida, atravs da Etipia.
Este ltimo pas, instrudo sobre os mtodos de cultivo pelos camponeses do
vale do Nilo, desenvolveu tambm a cultura do caf. Os stios de Nakuru e do
rio Njoro, no Qunia, sugerem igualmente o impulso dado  cultura de cereais.
    Grande nmero de plantas domesticadas durante a Pr-Histria ainda
persistem sob formas s vezes melhoradas e alimentam os africanos at hoje.
Elas propiciaram a fixao e a estabilizao dos homens, sem o que no h
civilizao progressiva. O verdadeiro Neoltico, que se desenvolveu na Europa
ocidental apenas entre -3000 e -2000, comeou 3000 anos mais cedo no Egito.
A cermica de Elmenteita (Qunia); que remonta sem dvida a cinco milnios,
 um dos elementos que permite inferir que o conhecimento da cermica chegou
ao Saara e ao Egito a partir das terras altas da frica oriental. A cermica,
inovao revolucionria, acompanha a acumulao primitiva do capital na forma
de bens extrados da natureza pela indstria humana. Com a cozinha, comea
um dos aspectos mais refinados da cultura, que nos permite medir o progresso
qualitativo alcanado desde o Homo habilis e sua dieta de folhas, razes e carne
de animal recm-abatido, em suma, sua "economia de caa".

    A dinmica social
   Mas essas mudanas qualitativas, que confirmavam e consolidavam as
aptides essenciais do homem, s foram possveis atravs de trocas com seus
838                                                                     Metodologia e pr-histria da frica



semelhantes e graas a uma dinmica social que modelou o ser humano
pelo menos tanto quanto os impulsos provenientes das profundezas de sua
vitalidade, dos meandros de seus lobos cerebrais ou dos interstcios de sua
subconscincia. O fator social teve, alis, um papel importante no nvel da
agressividade, pela eliminao violenta dos mais fracos. Assim, o Homo sapiens
teve de expulsar os neandertalenses, aps uma espcie de guerra mundial
que durou muitas dezenas de milnios. Mas a dimenso social tambm
desempenhou um papel mais positivo: "Os estudos comparativos de moldes
endocranianos dos paleantropus e do Homo sapiens revelam justamente que,
nestes ltimos, as partes corticais, que esto ligadas s funes do trabalho e
da fala e  regulao do comportamento do indivduo no seio da coletividade,
atingem um desenvolvimento considervel"7.
    Na verdade, a sociabilidade teve um papel fundamental na aquisio da
linguagem, desde os sinais sonoros herdados dos antepassados animais at os
sons mais articulados, combinados de maneiras diferentes em forma de slabas.
A fase de lalao, caracterizada por monosslabos, visava a desencadear, como
por reflexo condicionado, um certo ato, gesto ou comportamento, ou ainda
chamar a ateno para determinado acontecimento ocorrido ou iminente. Em
resumo, no comeo a fala era essencialmente relao. Ao mesmo tempo, o
alongamento da mandbula fazia recuar os rgos da garganta, abaixando assim
o ponto de ligao da lngua. "O fluxo de ar expirado no mais se encaminhava
diretamente para os lbios, como nos macacos, mas transpunha uma srie de
barreiras controladas pelos centros corticais"8.
    Em suma, a fala  um processo dialtico entre a biologia, as tcnicas e o esprito,
mas depende da mediao do grupo. Sem um parceiro a lhe fazer eco, sem um
interlocutor, o homem teria permanecido mudo. Reciprocamente, porm, a fala
 uma aquisio to preciosa que, nas representaes mgicas ou cosmognicas
africanas, lhe  reconhecido um poder sobre as coisas. O verbo  criador. A palavra
 tambm o condutor do progresso.  a transmisso dos conhecimentos, a tradio
ou "a herana dos ouvidos".  a capitalizao do saber, que eleva o homem,
definitivamente, acima da eterna mecnica fechada do instinto9. Enfim, a fala foi
a aurora da autoridade social, isto , da liderana e do poder.


7     V. P. IAKIMOV, 1972, p. 2.
8     Cf. V. BOUNAK, 1972, p. 69.
9     "No  a linguagem  que permitiu ao homem conceituar, memorizar e retransmitir os conhecimentos
      adquiridos diretamente na experincia da vida cotidiana  o mais extraordinrio produto da capacidade
      cientfica das sociedades no instrudas?" B. VERHAEGEN, 1974, p. 154.
Concluso: Da natureza bruta  humanidade liberada                            839



    Emergncia das sociedades polticas
   Se o Homo sapiens  um animal poltico, ele passou a s-lo durante esse
perodo pr-histrico.  muito difcil periodizar as causas e as etapas desse
processo. Mas, nesse caso tambm, as tcnicas de produo e as relaes sociais
desempenharam um papel importante.

    As tcnicas
    Na verdade, os pr-homindeos e os homens pr-histricos africanos viveram
em rebanhos, depois em bandos, em grupos e em equipes organizadas graas
a tarefas tcnicas concretas que eles, para sobreviverem e viverem melhor, s
podiam realizar em grupo.
    O habitat j  um aspecto comunitrio que aparece desde os primeiros
albores da inteligncia humana. H sempre um lugar para reunio, mesmo
que transitrio, um lugar adaptado ao repouso,  defesa, ao abastecimento. O
fogo j reunia periodicamente os membros do grupo para resguard -los dos
animais, do medo e da escurido exterior. No vale do Omo (Etipia), humildes
vestgios lticos, intencionalmente dispostos, delineiam ainda sobre o solo a
planta exumada das "cabanas" dos primeiros homindeos. Tais abrigos iro se
aperfeioando at essas aldeias neolticas localizadas em regies altas, pontos
privilegiados protegidos das inundaes e dos ataques, mas prximas de uma
fonte de gua, como por exemplo na falsia de Tichitt-Walata (Mauritnia).
Mas era para a pesca e sobretudo para a caa que a identidade de objetivos se
manifestava de modo decisivo. Nossos ancestrais pr-histricos no podiam
abater animais dotados de maior fora do que eles, a no ser por meio de uma
organizao superior. Reuniam-se para encurralar os animais, acossando-os
em direo s falsias e ravinas, onde alguns de seus companheiros se tinham
postado para liquid-los. Cavavam, junto s fontes de gua, onde a caa grada
chegava em grande quantidade na poca da seca, armadilhas gigantescas,
dentro das quais os animais caam. Mas era necessrio, a seguir, abater o
animal, esquartej-lo e transportar os pedaos, tarefas que j exigem uma certa
diviso do trabalho. Esta adquire toda a sua importncia no Neoltico, graas
 crescente diversificao de atividades. Realmente, o jovem do Paleoltico no
tinha escolha. Sua orientao profissional era automtica: coleta, caa ou pesca.
No Neoltico, porm, a margem de escolha  muito maior, o que implica uma
criteriosa repartio das tarefas, que se tornam cada vez mais especializadas:
840                                                                     Metodologia e pr-histria da frica



para mulheres e homens, camponeses e pastores, sapateiros, artesos em pedra,
madeira, ou osso e, logo, ferreiros.

      As relaes sociais
    Essa nova organizao e a crescente eficcia das ferramentas permitiram
liberar pessoal excedente, oferecendo a alguns a possibilidade de abandonar a
funo de produtor de bens, para se dedicarem aos servios. As relaes sociais se
diversificam ao mesmo tempo que os grupos, que se justapem ou se sobrepem,
num esboo de hierarquia.  tambm o momento em que as "raas" se formam
e se fixam; as mais arcaicas so os khoisan e os pigmeus. O negro de grande
porte (sudans ou bantu) aparecer mais tarde, assim como o homem de Asselar
(vale do Oued Tilemsi, no Mali). O negro, que h pouco havia empreendido
uma expanso pluricontinental10, diferenciou-se e desenvolveu-se, ao que parece
vitoriosamente, na frica, sua terra de origem, a partir do Saara. No entanto,
em outras regies era rechaado, como no reduto dravdico do Deccan na sia,
ou suplantado, como na Europa, por raas mais bem adaptadas s condies
climticas desfavorveis. Esse fato ocorreu tambm nas regies da frica do
norte, em favor das "raas" mediterrneas. Segundo Furon, as estatuetas do
Aurignaciense apresentam um tipo tnico negroide. Para esse autor, de fato,
"os aurignacienses negroides prolongam-se numa civilizao conhecida como
capsiense"11. Dumoulin de Laplante, por sua vez, escreve: "Nessa poca, uma
migrao de negroides do tipo hotentote teria, partindo da frica meridional e
central, submergido a frica do norte [...] e trazido para a Europa mediterrnea,
 fora, uma nova civilizao: o Aurignaciense"12. Deve-se portanto concluir que,
na orla do mundo negro, antigas mestiagens so responsveis por populaes
com caractersticas negroides menos marcantes, prematuramente batizadas de
"raa parda": peul, etopes, somalis, nilotas, etc. Falou-se mesmo, abusivamente,
de raa "camita".
    Um outro domnio em que a representao da vida social nos  mostrada com
insupervel vigor  o da arte pr-histrica africana, mural e plstica. Tendo sido
a frica o continente mais importante na evoluo pr-histrica, aquele onde as
populaes de homindeos e posteriormente de homineos eram as mais antigas,


10    Cf. "H 30.000 anos a raa negra cobria o mundo", Sciences et Avenir, outubro 1954, n. 92. Ver tambm
      A. MORET, 1931.
11 R. FURON, 1943, p. 14-15.
12    DUMOULIN DE LAPLANTE, 1947, p. 13.
Concluso: Da natureza bruta  humanidade liberada                             841



as mais numerosas e as mais inventivas, no  surpreendente que a arte pr-
-histrica africana seja de longe a mais rica do mundo e que tenha imposto, na
poca, um dominium to importante quanto a msica negro-africana no mundo
de hoje. Esses vestgios esto concentrados sobretudo na frica meridional
e oriental, no Saara, no Egito e nos altos planaltos do Atlas. Seguramente,
essa arte foi muitas vezes o reflexo do deslumbramento individual diante da
efervescente vida animal que se agitava ao redor do abrigo. Na maioria das
vezes, contudo, trata-se de uma arte social centrada nas tarefas cotidianas, "os
trabalhos e os dias" do grupo, seus confrontos com as feras ou os cls hostis, suas
nsias e seus terrores, seus passatempos e seus jogos, em suma, os pontos altos
da vida coletiva. Galerias ou afrescos animados e palpitantes, que refletem no
espelho das paredes rochosas a vida impetuosa ou buclica dos primeiros cls
humanos. Essa arte, que tem sua origem numa tcnica apurada at o mais alto
grau, reflete com frequncia tambm as preocupaes e as angstias espirituais
do grupo. Representa danas de feitiaria, grupos de caadores mascarados,
feiticeiros em plena ao, mulheres com o rosto pintado de branco (como ainda
hoje se faz na frica negra, nas cerimnias de iniciao) e que se apressam, como
que chamadas para algum misterioso encontro. Sente-se, alis, com o correr do
tempo, uma passagem gradual da magia  religio, o que confirma a evoluo do
homem para a sociedade poltica durante a Pr-Histria africana, j que grande
nmero de lderes so, no incio, simultaneamente chefes e sacerdotes.
    De fato, o crescimento das foras produtivas no Neoltico deve ter provocado
uma expanso demogrfica, que por sua vez desencadeou fenmenos migratrios,
como prova a disperso caracterstica de certas "oficinas" pr-histricas, cujo
material ltico apresenta parentesco de estilo. O raio de ao dos ataques e
das mudanas definitivas estendia-se  medida que aumentava a eficcia das
ferramentas e das armas, s vezes relacionada com a reduo de seu peso. A
frica  um continente que os homens percorreram em todos os sentidos,
atrados pelos imensos horizontes dessa vasta terra. A inextricvel confuso das
imbricaes que o mapa tnico africano apresenta hoje, num quebra-cabea que
desencorajaria um computador,  resultado desse movimento browniano dos
povos, de envergadura plurimilenar. Tanto quanto se possa julgar, os primeiros
movimentos migratrios parecem ter comeado com os "Bantu" do leste e do
nordeste para se expandirem em direo ao oeste e ao norte. Depois, a partir
do Neoltico, a tendncia geral  aparentemente a descida para o sul, como
sob o efeito repulsivo do gigantesco deserto, terrvel faixa ecolgica instalada
soberanamente desde ento de um lado a outro do continente. Esse refluxo
para o sul e para o leste (sudaneses, bantu, nilotas, etc.) prosseguir durante o
842                                 Metodologia e pr-histria da frica




Da natureza bruta  humanidade
liberada.
Figura 29.1 Australopithe
cus boisei, jazidas do Omo (Col.
Museu do Homem; Foto Oster,
n 77.1495.493).
Figura 29.2 Laboratrio desti-
nado s pesquisas sobre o rema-
nejo do delta do Senegal, Rosso-
Bethio, Senegal (Foto B. Nantet).
Concluso: Da natureza bruta  humanidade liberada                           843



perodo histrico at o sculo XIX, quando as ltimas vagas terminariam nas
costas do mar austral.
   O lder de caravana que, carregado de amuletos e armas, conduziu o cl ao
progresso ou  aventura,  o ancestral epnimo que impulsionava seu povo para a
histria e cujo nome atravessar os sculos, aureolado com um halo de venerao
quase ritual. Na verdade, as migraes eram essencialmente fenmenos de
grupos, atos de componentes eminentemente sociais.
   Essas migraes, consequncias de vitrias (ou derrotas) no meio original,
apresentaro finalmente um saldo com resultados ambguos. Por um lado,
propiciam de fato o progresso, porque a ocupao de pores sucessivas e
convergentes garante pouco a pouco a posse, ou ento o domnio do continente;
alm disso, graas s trocas que promovem, pem em relevo as inovaes, por uma
espcie de efeito cumulativo. Por outro lado, contudo, diluindo a densidade do
povoamento num espao imenso, impedem os grupos humanos de atingirem o
limiar de concentrao a partir do qual, para sobreviver, o formigueiro humano 
obrigado a se ultrapassar em invenes. A disperso no meio geogrfico aumenta
a influncia deste ltimo e tende a reconduzir os primeiros cls africanos s
origens obscuras, em que o homem abria caminho, por meio de um parto
doloroso, atravs da crosta opaca do universo no inteligente.

    O movimento histrico
    Assim, a trama da evoluo humana, da qual acabamos de traar resumidamente
o sentido e as etapas, revela-nos o homem pr-histrico africano afastando-se
penosamente da natureza para mergulhar pouco a pouco na coletividade humana
em forma de grupos, de comunidades primitivas, agregando-se e desagregando-
-se para se recompor de outras formas, com tcnicas que cada vez mais utilizam
ferramentas ou armas de ferro, em casamentos ou combates que fazem ressoar
os primeiros cantos de amor e os primeiros choques de armas da histria. O que
impressiona nessa ascenso  a permanncia, atravs do movimento histrico,
at pleno sculo XX, de comunidades originariamente nascidas na Pr-Histria.
Alis, se demarcarmos como incio da Histria a utilizao de objetos de ferro,
podemos dizer que a Pr-Histria teve continuidade em vrias regies africanas
at o ano 1000, aproximadamente. Ainda no sculo XIX, as foras produtivas e
as relaes socioeconmicas de grande nmero de grupos africanos (no apenas
paleonegrticos) no eram substancialmente diferentes daquelas da Pr-Histria,
exceto quanto  utilizao de instrumentos de metal. As tcnicas de caa dos
844                                                    Metodologia e pr-histria da frica



pigmeus reproduzem, em pleno sculo XX, as prprias tcnicas dos africanos da
Pr-Histria, de milhares de anos atrs.
    Para alm do esplndido apogeu da civilizao egpcia e das realizaes
eminentes ou gloriosas de tantos reinos e imprios africanos, essa realidade
macia perdura, dando corpo e textura  linha de desenvolvimento das sociedades
africanas, e merece ser destacada de forma conveniente.
    Decerto, o "sentido da histria" nunca implicou uma direo unvoca, com a
qual o esprito dos homens tenha concordado unanimemente. As concepes a
esse respeito so mltiplas.
    Marx e Teilhard de Chardin tm, cada um, as suas. A prpria frica produziu
pensadores, alguns dos quais tinham uma viso profunda da dinmica e do
destino do movimento histrico. Santo Agostinho (354-430) faz a viso dos
historiadores dar um passo de gigante, ao romper com a concepo cclica do
eterno retorno, corrente nessa poca, e professar que, do pecado original ao juzo
final, existe um eixo irreversvel, traado em seu conjunto pela vontade divina,
mas ao longo do qual, por seus atos, cada homem se salva ou se perde. E a cidade
terrestre  estudada em seu passado apenas para que nela sejam detectados os
sinais anunciadores da Cidade de Deus.
    Por sua vez, Ibn Khaldun (1332-1406), embora reconhecendo a Al um
imprio eminente sobre os destinos humanos,  o fundador da Histria como
cincia, fundamentada em provas confirmadas pela razo. "Deve-se confiar
em seu prprio julgamento, j que toda verdade pode ser concebida pela
inteligncia." Por outro lado, para ele, o objetivo dessa cincia no  apenas a
espuma superficial dos acontecimentos: "qual  a vantagem de relatar os nomes
das mulheres de um antigo soberano, ou a inscrio gravada em seu anel?". Ele
estuda, sobretudo, os modos de produo e de vida, as relaes sociais, em suma,
a civilizao (alUmrn alBashar). Finalmente, elabora, para explicar o processo
de progresso da histria, uma teoria dialtica que ope o papel do esprito
solidrio igualitarista (asabiya)  ditadura do rei, respectivamente nas zonas
rurais e pastoris (alUmrn alBadaw) e nas cidades (alUmrn alHadar).
    Portanto, h uma passagem incessante e alternada do dominium de um ao da
outra forma de civilizao, sem que esse ritmo seja cclico, pois se reproduz, a
cada vez, em um nvel superior, para dar origem a uma espcie de progresso em
espiral. Afirmando que "as diferenas nos costumes e nas instituies dos diversos
povos dependem da maneira como cada um deles prov  sua subsistncia", Ibn
Khaldun formulava, com clareza e alguns sculos de antecedncia, uma das
proposies fundamentais do materialismo histrico de Karl Marx. Este ltimo,
aps ter analisado, com o vigor e o poder de sntese que lhe so caractersticos,
Concluso: Da natureza bruta  humanidade liberada                                                          845



a lei da evoluo do mundo ocidental, debruou-se subsidiariamente sobre os
modos de produo exticos. Em 1859, em Formen, destaca o conceito de modo
de produo asitico, uma das trs formas de comunidade agrrias, "naturais",
baseadas na propriedade comum do solo. O modo de produo asitico
caracteriza-se pela existncia de comunidades aldes de base, dominadas por
um corpo estatal beneficirio dos excedentes de produo dos camponeses,
submetidos no a uma escravido individual, mas a uma "escravido geral"
que os subordina como grupo. Portanto, concomitantemente a um poder de
funo pblica, os dirigentes exercem um poder de explorao das comunidades
inferiores. Essa comunidade superior atribui a si a propriedade suprema das
terras13, comercializa os excedentes e empreende trabalhos de vulto, sobretudo
de irrigao, para aumentar a produo. Em resumo, exerce sobre as massas
uma autoridade qualificada de "despotismo oriental". Ora, os conhecimentos
arqueolgicos e antropolgicos acumulados desde Marx mostraram que o
desenvolvimento de certas sociedades no  redutvel nem a todos os cinco
estgios definidos por Marx em O Capital e erigidos em dogma intangvel
por Stalin, nem  variedade pr-capitalista do "modo de produo asitico",
considerado uma variante da passagem para o Estado, no caso de sociedades
no europeias. Em particular, e dependendo de estudos monogrficos posteriores
invalidando essa proposio, a anlise concreta das estruturas africanas no
permite isolar todas as caractersticas formuladas por Marx para descrever a
sucesso dos diferentes modos de produo.
    Assim, no estgio da comunidade primitiva  contrariamente s formas
europeias (antiga e germnica), que se diferenciam pelo fato de a apropriao
privada do solo j se desenvolver no seio da propriedade comum  a realidade
africana no revela tal apropriao14. Fora essa notvel caracterstica, as
comunidades originais da frica apresentam os mesmos traos de outras do
resto do mundo. Da mesma forma, so muito flagrantes as diferenas que
existem entre as estruturas africanas e o modo de produo asitico. Com
efeito, nas comunidades aldes africanas a autoridade superior, o Estado, no
 mais proprietria da terra do que os particulares. Por outro lado, o Estado
geralmente no empreende trabalhos de vulto. Quanto  prpria estrutura


13   A unidade superior  apresentada como o "proprietrio superior" ou como "o nico proprietrio". Com
     efeito, "Marx ora insiste sobre o fato de que o prprio Estado  o verdadeiro proprietrio da terra, ora faz
     simultaneamente observaes sobre a importncia dos direitos de propriedade das comunidades aldes.
     Sem dvida, no existe contradio entre essas duas tendncias". J. CHESNEAUX, 1969, p. 29.
14   "No existe propriedade privada da terra, no sentido do direito romano ou do Cdigo Civil". J. SURET-
     -CANALE, 1964, p. 108.
846                                                                       Metodologia e pr-histria da frica



do poder, enquanto superestrutura, no se inclui em nenhuma definio de
modo de produo, embora seja um indcio da constituio de classes. Essa
estrutura, na frica, no apresenta os traos do "despotismo oriental" descrito
por Marx15. Sem negar que tenham existido casos de autocracia sanguinria,
a autoridade estatal na frica negra quase sempre assume a forma de uma
monarquia moderada, limitada por corpos constitudos e costumes  verdadeiras
constituies no escritas  instituies em geral herdadas da organizao ou
da estratificao social anteriores. Mesmo no caso de imprios prestigiosos e
eficientes como o Mali, descritos com admirao por Ibn Battuta no sculo XIV,
que se estendiam por vastos territrios, a descentralizao, por escolha deliberada,
deixava as comunidades de base funcionarem dentro de um verdadeiro sistema
de autonomia. De qualquer modo, sendo a escrita em geral pouco utilizada e
tendo as tcnicas e os meios de deslocamento permanecido pouco desenvolvidos,
o poder das metrpoles era sempre diminudo pela distncia. Essa distncia
tornava igualmente muito concreta a permanente ameaa de os subordinados
se livrarem de uma eventual autocracia por meio da fuga.
    Por outro lado, na frica a produo excedente das comunidades de base
parece ter sido modesta, exceto quando havia um monoplio estatal sobre
gneros preciosos, como o ouro em Gana ou Ashanti, o marfim, o sal, etc. No
entanto, mesmo nesse caso, no devemos esquecer a contrapartida de servios
prestados pela chefia (segurana, justia, mercados, etc.), nem minimizar o
fato de que uma boa parte das contribuies e rendas era redistribuda, por
ocasio das festas costumeiras, conforme o cdigo de honra em vigor para
os que deviam viver nobremente16. Isso explica a suntuosa generosidade de
Kankou Mussa, o Magnfico, imperador do Mali, na poca de sua faustosa
peregrinao em 1324.
    Quanto ao modo de produo escravista, existia ele na frica? Tambm nesse
caso, somos obrigados a responder negativamente. Em quase todas as sociedades
ao sul do Saara, a escravido desempenhou um papel apenas marginal. Os


15    "Se entendemos por despotismo uma autoridade absoluta e arbitrria, no podemos rejeitar a ideia de
      um despotismo africano." J. SURET-CANALE, op. cit., p. 125. "No acreditamos que haja razes para
      encontrar, na organizao dos Estados africanos, a reproduo de um modelo tomado de emprstimo 
      sia; no mximo, podemos destacar algumas semelhanas superficiais". Op. cit., p. 122.
16    J. MAQUET, aps ter observado que para G. BALANDIER "afinal, o preo que os detentores do
      poder poltico deviam pagar nunca  integralmente recompensado", acredita, por sua vez, que os servios
      pblicos dos chefes "exigem um poder coercitivo apenas nas sociedades muito vastas, heterogneas e
      urbanas. Em qualquer outra parte, a estrutura de linhagens e suas sanes no impostas pela fora so
      suficientes...". Portanto, conclui: "Excetuando a redistribuio, era sem contrapartida econmica que o
      excedente de uma sociedade tradicional era apropriada pelos governantes". J. MAQUET, 1970, p. 99-101.
Concluso: Da natureza bruta  humanidade liberada                                                           847



escravos, ou melhor, os cativos, eram quase sempre prisioneiros de guerra. O
cativeiro no reduzia um homem ao estado de propriedade pura e simples, no
sentido definido por Cato... O prprio escravo africano gozava frequentemente
de um certo direito de propriedade e geralmente no era explorado como um
instrumento ou animal. O prisioneiro de guerra, caso no fosse sacrificado
ritualmente, como acontecia s vezes, era muito rapidamente integrado  famlia
da qual se tornara propriedade coletiva. Era um complemento humano da
famlia, que se beneficiava, com o tempo, de uma libertao de direito ou de fato.
    Quando empregados como soldados de infantaria, os prisioneiros gozavam de
vantagens substanciais e s vezes, como em Kayor, chegavam a ser representados
no governo, na pessoa do generalssimo. Em Ashanti, para garantir a integrao
"nacional", era estritamente proibido fazer aluso  origem servil de algum, de
modo que um antigo prisioneiro podia tornar-se chefe de aldeia. "A condio de
prisioneiro, embora comum na frica [...], no implicava um papel determinado
na produo, que caracteriza uma classe social".17
    Em locais onde a escravido adquire carter macio e qualitativamente
diferente, como no Daom, em Ashanti e em Zanzibar nos sculos XVIII e
XIX, trata-se de estruturas originadas j de um modo de produo dominante,
o capitalismo, e que, na realidade, so suscitadas pelo impacto econmico
exterior. E que dizer do modo de produo feudal? Comparaes precipitadas
levaram alguns autores a qualificarem de "feudal" uma ou outra chefia africana 18.
Tambm nesse caso, contudo, falando em termos gerais, no h apropriao nem
atribuio privada da terra, portanto no h feudo. O solo  um bem comunitrio
inalienvel, a tal ponto que o grupo de conquistadores que se apropria do poder
poltico deixa com frequncia a responsabilidade das terras da comunidade ao
dirigente autctone, o "chefe da terra"  o tengsoba mossi, por exemplo. Na
verdade, a autoridade da aristocracia "era exercida sobre os bens e os homens,
sem atingir a propriedade fundiria em si, prerrogativa dos autctones"19. Alis,
a "nobreza" africana no entrou para o comrcio. Continuava a ser sempre um
atributo de nascimento, do qual ningum podia privar o titular.


17   J. SURET-CANALE, op. cit., p. 119. Ver tambm A. A. DIENG, C. E. R. M. n. 114, 1974: crtica
     penetrante e documentadas das teses marxistas "elsticas" de M. DIOP, 1971-1972.
18   Mesmo quando se pensa como J. MAQUET, lembrando M. BLOCH e GANSHOF, que "no  o feudo,
     mas a relao entre o senhor e o vassalo que  crucial",  claro que no saberamos dissociar inteiramente um
     do outro. As relaes de "feudalismo" que o autor descreve parecem, alis, um tanto peculiares s sociedades
     interlacustres e estabelecem-se frequentemente, como em Ankole ou em Buha, entre os membros da casta
     superior. Nessas condies, trata-se da mesma realidade institucional da Europa, por exemplo?
19   Cf. V. KABORE, 1962, p. 609-23.
848                                                     Metodologia e pr-histria da frica



    Finalmente, devemos considerar as estruturas socioeconmicas como
o sistema familiar matrilinear, que caracterizou fortemente as sociedades
africanas, pelo menos em sua origem, antes que influncias posteriores como
o islamismo, a civilizao ocidental, etc., impusessem pouco a pouco o sistema
patrilinear. Essa estrutura social, to importante para definir o eminente papel
da mulher na comunidade, comportava igualmente consequncias econmicas,
polticas e espirituais, uma vez que ela desempenhava um papel marcante tanto
na herana de bens materiais como dos direitos  sucesso real, a exemplo do
que ocorria em Gana. O parentesco uterino parece ter sado das profundezas
da Pr-Histria africana, do momento em que a sedentarizao do Neoltico
tinha exaltado as funes domsticas da mulher, a ponto de torn-las o
elemento central do corpo social. Numerosas prticas tm origem nesse fato,
tais como o "parentesco de brincadeira", o casamento com a irm, o dote pago
aos pais da futura esposa, etc.
    Nessas condies, como se pode descrever a linha de evoluo caracterstica das
sociedades africanas moldadas pela Pr-Histria? Deve-se observar inicialmente
que durante esse perodo a frica desempenhou nas relaes intercontinentais o
papel de plo e foco central de inveno e divulgao das tcnicas. Mas essa alta
funo bem depressa se transformou em posio subordinada e perifrica, em
virtude dos fatores internos antagnicos acima mencionados, e igualmente em
consequncia do usufruto de bens e servios africanos sem compensao suficiente
em favor desse continente, por exemplo, sob a forma de uma transferncia
equivalente de capitais e de tcnicas. Essa explorao plurimilenar da frica
teve trs perodos culminantes. Primeiro a Antiguidade, quando, aps o declnio
do Egito, o vale do Nilo e as provncias romanas do resto da frica do norte
sofrem intensa explorao e tornam-se o celeiro de Roma. Alm dos gneros
alimentcios, o Imprio Romano retirou da frica uma quantidade enorme de
animais selvagens, de escravos e de gladiadores para o exrcito, os palcios, os
latifndios e os jogos sanguinrios do circo. No sculo XVI, comea a sinistra
era do trfico de negros. Finalmente, no sculo XIX, assistimos  consagrao
da dependncia pela ocupao territorial e pela colonizao. A acumulao de
capital na Europa e o progresso da revoluo industrial, fenmenos simultneos
e complementares, seriam inconcebveis sem a contribuio forada da sia, das
Amricas e sobretudo da frica.
    Paralelamente, mesmo durante os sculos de desenvolvimento interno, em
que a rapina externa no era to acentuada (da Antiguidade ao sculo XVI),
numerosas contradies no interior do prprio sistema africano constituam
obstculos estruturais endgenos  passagem, por presso interna, para estruturas
Concluso: Da natureza bruta  humanidade liberada                                                     849



mais progressivas. Como observa com perspiccia J. Suret-Canale a respeito do
modo de produo asitico (mas essa observao vale a fortiori para o caso
africano, incluindo o perodo colonial):
     "Nesse sistema, com efeito, o recrudescimento da explorao de classe, longe de
     destruir as estruturas baseadas na propriedade coletiva da terra, refora-as: elas
     constituem o quadro no qual se efetua a retirada antecipada do sobreproduto,
     condio indispensvel da explorao".
    Realmente, so as comunidades de base que, como tais, so responsveis pelo
pagamento do sobreproduto. A frica dos cls e das aldeias ainda existentes,
pouco vinculada  apropriao privada da terra (um bem to vasto e to precioso,
mas tambm to gratuito quanto o ar), ignorou durante muito tempo o problema
da aquisio de terras como fonte de conflitos entre grupos sociais. Mas essa
no foi a nica causa do "arcasmo" das formas sociais observveis na frica. O
baixo nvel das tcnicas e das foras produtivas, numa espcie de crculo vicioso,
era simultaneamente causa e consequncia da diluio demogrfica num espao
no controlado, porque quase ilimitado.
    Em virtude dos obstculos naturais, o trfico comercial de longa distncia
quase nunca se tornou muito pondervel, apoiando-se nos produtos de luxo
frequentemente limitados aos osis econmicos dos palcios. De fato, sem
recorrer  noo plekhariovista de "meio geogrfico", pois este timo  apenas
uma das facetas do meio histrico, devemos efetivamente levar em conta as
barreiras ecolgicas mencionadas na Introduo deste volume. A contraprova
dessa afirmao  que, todas as vezes em que essas barreiras foram total ou
parcialmente suprimidas, como no vale do Nilo e em menor escala no vale
do Nger, a dinmica social ativou-se; em favor do progresso concomitante da
densidade humana e da propriedade privada.
    Assim, no houve na frica (negra), em seu conjunto, nem fase escravista
nem fase feudal como no Ocidente20. Nem se pode dizer que os modos africanos
sejam modalidades desses sistemas socioeconmicos, pois frequentemente h
falta de elementos constitutivos essenciais. Isso significa que se deve subtrair a
frica aos princpios gerais de evoluo da espcie humana? Evidentemente no.
No entanto, mesmo que esses princpios sejam comuns a toda a humanidade,
mesmo admitindo que o essencial das categorias metodolgicas gerais do


20   J. CHESNEAUX, op. cit., p. 36: "O que parece bem definido  a quase impossibilidade de considerar
     que as sociedades africanas pr-coloniais, com raras excees, dependem da escravido ou do feudalismo
     propriamente ditos".
850                                                                          Metodologia e pr-histria da frica



materialismo histrico seja universalmente aplicvel, haveria razes para nos
concentrarmos unicamente no essencial: as correspondncias (no mecnicas)
que podem ser observadas entre as foras produtivas e as relaes de produo,
assim como a passagem (no mecnica) das formas de sociedade sem classes
s formas sociais de lutas de classe. Nesse caso, conviria analisar as realidades
africanas no contexto, no de um retorno, mas de recurso a Karl Marx. Se a razo
 una, a cincia consiste em aplic-la a cada um de seus objetos.
    Em resumo, constata-se na frica a permanncia marcante de um modo de
produo sui generis, semelhante aos outros tipos de comunidades "primitivas",
mas com diferenas fundamentais, especialmente uma espcie de averso 
propriedade privada ou estatal21.
    A seguir, h uma passagem gradual e espordica para formas estatais, elas
prprias imersas durante muito tempo na rede de relaes pr-estatais subjacentes;
tais formas emergem progressivamente, por impulso interno e presso externa,
da ganga do coletivismo primitivo desestruturado, para se reorganizarem, com
base na apropriao privada e no fortalecimento do Estado, num modo de
produo capitalista, inicialmente dominante e depois monopolizador.
    O Estado colonial foi, na realidade, criado para administrar as sucursais
perifricas do capital, antes de ser substitudo por um Estado capitalista
independente, em meados do sculo XX. Alternativamente, ocorreu a transio
do predomnio comunitrio original para o do capitalismo colonial e depois para
uma via socialista de desenvolvimento.
    De qualquer forma, um fato se impe claramente na frica: por razes
estruturais que no sofreram modificaes em sua essncia h pelo menos meio
milnio, e levando em conta o crescimento demogrfico, as foras produtivas
estagnaram-se, fato que no exclui crescimentos espordicos e localizados, com
ou sem desenvolvimento. Essa estagnao no exclui tambm o extraordinrio
florescimento artstico, nem o refinamento das relaes interpessoais. E como se
os africanos tivessem investido nessas reas a essncia de sua energia criadora22.
Em resumo, a civilizao material, que teve origem nas latitudes tropicais afro-
-asiticas durante a Pr-Histria, espalhou-se em direo s latitudes setentrionais
at o istmo europeu, onde, por um processo cumulativo de conjugao de tcnicas


21    Averso que no est relacionada a um especfico estado inato, nem a uma "natureza" diferente, mas a
      um meio histrico original.
22    Essa  a razo pela qual, na definio de um eventual "modo de produo africano" deveria dar-se
      ateno especial s "instituies" sociolgicas, polticas e "ideolgicas". com referncia s anlises de A.
      GRAMSCI e de N. POULANTZAS.
Concluso: Da natureza bruta  humanidade liberada                          851



e de aambarcamento de capitais, por assim dizer se instalou e se cristalizou
brilhantemente. E de onde vir a transformao desse sistema, que se espalha
pelo mundo? De seu ncleo ocidental ou da periferia, reeditando assim o papel
dos "brbaros" em relao ao Imprio Romano? A histria o dir. Desde j,
podemos afirmar que a pr-histria da frica  a histria da hominizao de um
primata diferenciado, e posteriormente da humanizao da Natureza por esse
agente vetor responsvel por todo o progresso.  uma longa marcha, durante
a qual o equilbrio entre a natureza e o homem se rompeu pouco a pouco
em favor da razo. Restava o equilbrio ou o desequilbrio dinmico entre. os
grupos humanos, dentro do continente e em relao ao exterior. Ora, quanto
mais as foras produtivas aumentam, mais os antagonismos afiam o gume do
interesse e do desejo de poder. As lutas de libertao, que ainda hoje assolam
alguns territrios da frica, so simultaneamente o indicador e a negao desse
empreendimento de domesticao do continente no contexto de um sistema que
poderamos chamar de modo de subproduo africano. Mas desde os primeiros
balbucios do Homo habilis, encontramos j a mesma luta de libertao, a mesma
inteno obstinada e irreprimvel de ter acesso ao ser-mais, desvencilhando-se
da alienao pela natureza e depois pelo homem.
    Em suma, a criao, a autocriao do homem, iniciada h milhares de
milnios, ainda prossegue na frica. Em outros termos, de certa maneira a
Pr-Histria da frica ainda no terminou.
Concluso: Da natureza bruta  humanidade liberada                          853




          Membros do Comit Cientfico
       Internacional para a Redao de uma
             Histria Geral da frica




Prof. J. F. A. Ajayi (Nigria)  1971 Coordenador do volume VI
Prof. F. A. Albuquerque Mouro (Brasil)  1975
Prof. A. A. Boahen (Gana)  1971 Coordenador do volume VII
S. Exa Sr. Boubou Hama (Nger)  1971-1978 (demitido em 1978; falecido em 1982)
S. Exa Sra. Mutumba M. Bull, Ph. D. (Zmbia)  1971
Prof. D. Chanaiwa (Zimbabue)  1975
Prof. P. D. Curtin (EUA)  1975
Prof. J. Devisse (Frana)  1971
Prof. M. Difuila (Angola)  1978
Prof. Cheikh Anta Diop (Senegal)  1971 Prof. H. Djait (Tunsia)  1975
Prof. J. D. Fage (Reino Unido)  1971-1981 (demitido)
S. Exa Sr. M. El Fasi (Marrocos)  1971 Coordenador do volume III
Prof. J. L. Franco (Cuba)  1971
Sr. Musa H. I. Galaal (Somlia)  1971-1981 (falecido)
Prof. Dr. V. L. Grottanelli (Itlia)  1971
Prof. E. Haberland (Repblica Federal da Alemanha)  1971
Dr. Aklilu Habte (Etipia)  1971
S. Exa. Sr. A. Hampat B (Mali)  1971-1978 (demitido)
854                                                            Metodologia e pr-histria da frica



Dr. I. S. El-Hareir (Lbia)  1978
Dr. I. Hrbek (Tchecoslovquia)  1971 Codiretor do volume III
Dra. A. Jones (Libria)  1971
Pe. Alexis Kagame (Ruanda)  1971-1981 (falecido)
Prof. I. M. Kimambo (Tanznia)  1971
Prof. J. Ki-Zerbo (Alto Volta)  1971 Coordenador do volume I
Sr. D. Laya (Nger)  1979
Dr. A. Letnev (URSS)  1971
Dr. G. Mokhtar (Egito)  1971 Coordenador do volume II
Prof. P. Mutibwa (Uganda)  1975
Prof. D. T. Niane (Senegal)  1971 Coordenador do volume IV
Prof. L. D. Ngcongco (Botsuana)  1971
Prof. T. Obenga (Repblica Popular do Congo)  1975
Prof. B. A. Ogot (Qunia)  1971 Coordenador do volume V
Prof. C. Ravoajanahary (Madagscar)  1971
Sr. W. Rodney (Guiana)  1979-1980 (falecido)
Prof. M. Shibeika (Sudo)  1971-1980 (falecido)
Prof. Y. A. Talib (Cingapura)  1975
Prof. A. Teixeira da Mota (Portugal)  1978-1982 (falecido).
Mons. T. Tshibangu (Zaire)  1971
Prof. J. Vansina (Blgica)  1971
Rt. Hon. Dr. E. Williams (Trinidad e Tobago)  1976-1978 (demitido em 1978; falecido
em 1980)
Prof. A. Mazrui (Qunia) Coordenador do volume VIII (no  membro do Comit)
Prof. C. Wondji (Costa do Marfim) Codiretor do volume VIII (no  membro do
Comit)

Secretaria do Comit Cientfico Internacional para a Redao de Uma Histria Geral da frica:
Sr. Maurice Glel, Diviso de Estudos e Difuso de Culturas, UNESCO, 1, rue Miollis,
75015 Paris.
Dados biogrficos dos autores do volume I                                           855




                          Dados biogrficos dos
                           autores do volume I




  Introduo         J. Ki-Zerbo (Alto Volta). Especialista em metodologia da Histria
                     da frica; autor de vrias obras sobre a frica negra e sua histria;
                     professor de Histria no Centre d'Enseignement Suprieur de
                     Ougadougou; Secretrio Geral do Conseil Africain et Malgache pour
                     l'Enseignement Suprieur.
  Captulo 1         J. D. Fage (Reino Unido). Especialista em Histria da frica Ocidental;
                     autor e co-editor de publicaes sobre a Histria da frica. Pro-Vice
                     Chancellor da Universidade de Birmingham e ex-diretor do Centro
                     de Estudos Africanos da Universidade de Birmingham.
  Captulo 2         S. Exa Boubou Hama (Nger). Especialista em tradies orais; autor de
                     vrias obras sobre a Histria do Nger e da regio do Sudo; ex-Diretor
                     do Centre Rgional de Recherche et de Documentation sur les
                     traditions Orales et pour le Dveloppement des Langues Africaines.
  Captulo 3         P. D. Curtin (Estados Unidos da Amrica). Especialista em histria do
                     comrcio de escravos; autor de vrias obras sobre o assunto; professor
                     de Histria na Universidade John-Hopkins.
  Captulo 4         T. Obenga (Repblica Popular do Congo). Especialista em lnguas
                     africanas; autor de vrios artigos sobre a Histria da frica e de obras
                     sobre a frica na Antiguidade; professor na Faculdade de Letras da
                     Universidade Marien N'Gouabi.
856                                                       Metodologia e pr-histria da frica



 Captulo 5    H. Djait (Tunsia). Especialista em histria medieval do Maghreb;
               autor de vrios artigos e obras sobre a histria da Tunsia; professor
               na Universidade de Tnis.
 Captulo 6    I. Hrbek (Tchecoslovquia). Especialista em histria da frica e da
               civilizao rabe; autor de vrias obras sobre a Histria da frica;
               professor; chefe da seo dos pases rabes e africanos do Instituto
               Oriental de Praga.
 Captulo 7    J. Vansina (Blgica). Especialista em histria da frica; autor de vrias
               obras sobre a Histria da frica Equatorial; professor de Histria na
               Universidade de Wisconsin (Estados Unidos da Amrica).
 Captulo 8    S. Exa A. Hampat B (Mali). Especialista em tradies orais; autor
               de vrias obras sobre os antigos imprios africanos e a civilizao
               africana.
 Capitulo 9    Z. Iskander (Egito). Especialista em Histria do Egito; autor de
               vrias obras e artigos sobre o Egito antigo; diretor geral dos Assuntos
               Tcnicos no Departamento de Antiguidades.
 Captulo 10   P. Diagne (Senegal). Linguista; Doutor em Cincias Polticas e
               Econmicas; autor de duas obras sobre o poder poltico africano e a
               gramtica wolof; professor assistente na Universidade de Dacar.
 Captulo 11   D. A. Olderogge (URSS). Especialista em Cincias Sociais da frica;
               autor de vrias obras sobre a frica; membro da Academia de Cincias
               da URSS.
 Captulo 12   J. H. Greenberg (Estados Unidos da Amrica). Linguista; autor de
               vrias obras e artigos sobre Antropologia e Lingustica; professor de
               Antropologia na Universidade de Stanford.
 Captulo 13   S. Diarra (Mali). Especialista em Geografia Tropical; professor de
               Geografia na Universidade de Abidjan.
 Captulo 14   A. Mobogunje (Nigria). Autor de diversas obras sobre os Ioruba;
               professor de Geografia na Universidade de Ibadan.
 Captulo 15   J. Ki-Zerbo (Alto Volta). Vide Introduo.
 Captulo 16   S. Rushdi (Egito). Fsico; Presidente da Egyptian Geological Survey
               and Mining Authority.
               H. Faure (Frana). Doutor em Cincias; especialista em Geologia da
               Frana do ultramar; obras sobre a Geologia da frica Ocidental; Mestre
               de Conferncias na Universidade de Dacar e depois na Universidade
               de Paris V. Presidente do Comit Tcnico de Geologia do Quaternrio
               do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS).
Dados biogrficos dos autores do volume I                                                857



  Captulo 17        L. Balout (Frana). Especialista em Pr-Histria da frica; autor de
                     vrias obras e artigos sobre a frica do Norte; ex-Diretor do Musum
                     National d'Histoire Naturelle de Paris.
                     Y. Coppens (Frana). Especialista em Pr-Histria; autor de vrias
                     obras sobre a origem da humanidade; Subdiretor do Museu Nacional
                     de Histria Natural de Paris.
  Captulo 18        R. Leakey ( Reino Unido). Especialista em Pr-Histria da frica;
                     autor de obras sobre as escavaes relacionadas  investigao da
                     origem do homem na frica Oriental; Chefe do International Louis
                     Leakey Memorial Institute for African Prehistory.
  Capitulo 19        J. E. G. Sutton (Reino Unido). Especialista em Pr-Histria; autor de
                     diversas obras e artigos sobre a Pr-Histria da frica; ex-Presidente
                     do Departamento de Arqueologia da Universidade de Oxford.
  Captulo 20        J. D. Clark (Estados Unidos da Amrica). Especialista em Pr-Histria
                     da frica; autor de vrias publicaes sobre a Pr-Histria e as antigas
                     civilizaes africanas; professor de Histria e de Arqueologia.
  Captulo 21        R. de Bayle des Hermens (Frana). Especialista em Pr-Histria;
                     autor de vrias obras e artigos, notadamente sobre a Pr-Histria da
                     frica; encarregado de pesquisas no Centre National de la Recherche
                     Scientifique de Paris.
                     F. Van Noten (Blgica). Especialista em Pr-Histria; autor de obras
                     e artigos sobre a Pr-Histria; Conservador do Real Museu de Pr-
                     Histria e Arqueologia.
  Captulo 22        L. Balout (Frana). Vide captulo 17.
  Captulo 23        H. J. Hugot (Frana). Especialista em Pr-Histria; Mestre de
                     Conferncias; autor de diversas obras sobre Histria Natural da Pr-
                     Histria e do Quaternrio; Subdiretor do Museu Nacional de Histria
                     Natural de Paris.
  Captulo 24        T. Shaw (Reino Unido). Professor de Histria Antiga; autor de vrios
                     trabalhos sobre a Pr-Histria da frica Ocidental; Vice-Presidente
                     do Congresso Panafricano de Pr-Histria.
  Captulo 25        F. Debono (Reino Unido). Especialista em Pr-Histria do Egito;
                     autor de vrias obras e artigos sobre a pesquisa Pr-Histrica no Egito;
                     pesquisador.
  Captulo 26        J. Ki-Zerbo (Alto Volta).
  Captulo 27        R. Portres (Frana). Dedicou grande parte de sua vida  pesquisa
                     botnica na frica; ex-professor do Museu Nacional de Histria
                     Natural de Paris; falecido.
858                                                        Metodologia e pr-histria da frica



               J. Barrau (Frana). Autor de diversos trabalhos sobre as plantas tropicais;
               Subdiretor do Laboratrio de Etnobotnica e de Etnozoologia (Paris).
 Capitulo 28   J. Vercoutter (Frana). Especialista em Histria Antiga; professor de
               Histria; Diretor do Institut Franais d' Archologie Orientale du
               Caire.
 Concluso     J. Ki-Zerbo (Alto Volta). Vide Introduo.
Abreviaes e listas de peridicos                                             859




                                   Abreviaes e
                                listas de peridicos




A A -- American Anthropologist, Washington.
A A R S C -- Annales de l'Acadmie Royale des Sciences Coloniales, Bruxelas.
A A T A -- Art Archaeological and Technical Abstracts, Nova Iorque.
A C P M -- Annals of the Cape Provincial Museums, Grahamstown.
Actas V Congr. P P E C -- Actas dei V Congresso Panafricano de Prehistoria y de
   Estudio dei Cuaternario, Tenerife, 1966.
Actes I Coll. Intern. Archol. Afr. -- Actes du Ier Colloque International d'Archologie
   Africaine, Fort Lamy, 11-16 dez. 1966. Publications de l'Institut National Tchadien
   pour les Sciences Humaines, Fort Lamy.
Actes Coll. Intern. Fer -- Actes du Colloque International, Le Fer  Travers les ges,
   Nancy, 3-6 out. 1956. Annales de l'Est, Mm. n. 16, Nancy.
Actes II Coll. Intern. L N A -- Actes du Second Colloque International de Linguistique
   Ngro-Africaine, Dacar.
Actes 46 Congr. A F AS -- Actes du 46e Congrs de l'Association Franaise pour
   l'Avancement des Sciences, Montpellier, 1922.
Actes XV Congr. I A A P -- Actes du Congrs International d'Anthropologie et
   d'Archologie Prhistorique, Paris, 1931.
Actes II Congr. P P E Q -- Actes de la Deuxime Session du Congrs Panafricain de
   Prhistoire et de l'tude du Quaternaire, Argel, ser-out. 1952.
Actes IV Congr. P P E Q -- Actes du IVe Congrs Panafricain de Prhistoire et de
   l'Etude du Quaternaire, Lopoldville, 1959, Tervuren, 1962, AMRAC 40.
860                                                       Metodologia e pr-histria da frica



Actes VII Congr. P P E Q -- Actes du VIIe Congrs Panafricain de Prhistoire et de
   l'tude du Quaternaire, Adis Abeba, 1971.
Actes III Congr. U I S P P -- Actes du Troisime Congrs de l'Union Internationale
   des Sciences Prhistoriques et Protohistoriques, Zurique, 1950.
Actes VI Congr. U I S P P -- Actes du VIe Congrs de l'Union Internationale des
   Sciences Prhistoriques et Protohistoriques, Roma, 1962.
Actes IX Congr. U I S P P -- Actes du IXe Congrs de L'Union Internationale des
   Sciences Prhistoriques et Protohistoriques, Nice, 1976.
Acts IX I N Q U A Congr. -- Acts of the IXth International Association Congress for
   Quaternal Research, Christchurch, Nova Zelndia.
Acts III P C P Q S -- Acts of the Third Panafrican Congress of Prehistory and
   Quarternary Studies, Livingstone, 1955, London, Chatto and Windus, 1957.
A D G -- Abhandlungen der Deutschen Geographentags.
Africana -- Africana Bulletin, Uniwersytet Warszawski, Studium Afrycanistyczne,
   Varsvia.
A G -- Archaeologia Geographica, Hamburgo, RFA.
A G S -- American Geographical Society, Nova Yorque.
A H S -- African Historical Studies, Boston University, African Studies Center, Boston.
A J H G -- American Journal of Human Genetics, American Society of Human
   Genetics, Chicago.
A J P A -- American Journal of Physical Anthropology, American Association of
   Physical Anthropologists, Filadlfia.
A L R -- African Languages Review (agora African Languages), International African
   Institute, Londres.
A L S -- African Language Studies, School of Oriental and African Studies,
   Londres.
A M R A C -- Annales du Muse Royal d'Afrique Centrale, Srie in 8, Sciences
   Humaines, Tervuren, Blgica.
A M R C B -- Annales du Muse Royal du Congo Belge.
A N -- African Notes, University of Ibadan, Institute of African Studies, Ibadan,
   Nigria.
Annales -- Economies, socits, civilisations, Paris.
Ant. Afr. -- Antiquits Africaines, ditions du Centre National de la Recherche Scien-
   tifique, Paris.
A S A E -- Annales du Service des Antiquits de l'Egypte, Cairo.
A S A M -- Annals of the South African Museum, Cape Town.
A T -- Agronomie Tropicale.
A Z -- Afrika Zamani, Journal de l'Association des Historiens Africains.
B A S E Q U A -- Bulletin de l'Association Sngalaise d'Etudes Quaternaires
   Africaines, Dacar.
Abreviaes e listas de peridicos                                               861



B A U G S -- Bulletin of the All Union Geographical Society.
B C E H S -- Bulletin du Comit d'tudes Historiques et Scientifiques de l'Afrique
    Occidentale Franaise, Dacar.
B F A -- Bulletin of the Faculty of Arts, Cairo.
B G H D -- Bulletin de Gographie Historique et Descriptive, Comit des Travaux
    Historiques, Paris.
B G S A -- Bulletin of the Geological Society of America, Nova Iorque.
B I E -- Bulletin de l'Institut d'Egypte, Cairo.
B I E G T -- Bulletin d'lnformation et de Liaison des Instituts d'Ethno-sociologie et
    de Gographie Tropicale, Abidjan.
B I F A N -- Bulletin de l'Institut Franais (agora Fondamental) d'Afrique Noire,
    Dacar.
B I F A O -- Bulletin de l'Institut Franais d'Archologie Orientale, Cairo.
B I R S C -- Bulletin de I'Institut de Recherches Scientifiques du Congo.
B J B E -- Bulletin du Jardin Botanique de l'tat, Bruxelas.
B M L -- Bowman Memorial Lectures, The American Geographical Society, Nova
    Iorque.
B N H S N -- Bulletin of News of the Historical Society of Nigeria, Ibadan.
B R AS -- Bulletin of the Royal Asiatic Society.
B S A -- Bulletin de la Socit d'Anthropologie de Paris, Paris.
B S A E -- British School of Archaeology in Egypt and Egyptian Research Account,
    Londres.
B S E R P -- Bulletin de la Socit d'tudes et de Recherches Prhistoriques, Les
    Eyzies, Frana.
B S O A S -- Bulletin of the School of Oriental and African Studies, Londres.
B S G C -- Bulletin de la Socit de Gographie Commerciale, Bordeaux, Frana.
B S G F -- Bulletin de la Socit Gologique de France, Paris.
B S H N A N -- Bulletin de la Socit d'Histoire Naturelle d'Afrique du Nord.
B S L -- Bulletin de la Socit de Linguistique, Paris.
B S P F -- Bulletin de la Socit Prhistorique Franaise, Paris.
B S P M -- Bulletin de la Socit Prhistorique du Maroc, Rabat.
B S P P G -- Bulletin de la Socit Prhistorique et Protohistorique Gabonaise,
    Libreville.
B SR B A P -- Bulletin de la Socit Royale Belge d'Anthropologie et de Pr-histoire,
    Bruxelas.
B S R B B -- Bulletin de la Socit Royale de Botanique de Belgique, Bruxelas.
B U P A -- Boston University Papers on Africa, African Studies Center, Boston
    University, 1967.
C A -- Current Anthropology, Chicago.
C A E H -- Cahiers d' Anthropologie et d'Ecologie Humaine, Toulouse.
862                                                        Metodologia e pr-histria da frica



C D A P C -- Companhia de Diamantes de Angola, Publicaes Culturais, Lisboa.
C E A -- Cahiers d'tudes Africaines, Paris, Mouton.
C H E -- Cahiers d'Histoire Egyptienne, Helipolis.
C H M -- Cahiers d'Histoire Mondiale, Paris, Librairie des Mridiens.
C J A S -- The Canadian Journal of African Studies (Revue Canadienne des tudes
    Africaines), Canadian Association of African Studies, Department of Geography,
    Carleton University, Ottawa.
C L A D -- Centre de Linguistique Aplique de Dakar.
C M -- Cahiers de la Mabok, Tervuren, Blgica.
Coll. C N R S -- Colloques Internationaux du Centre National de la Recherche
    Scientifique, Paris.
C O R S TOM -- Cahiers de l'Office de la Recherche Scientifique et Technique
    d'Outre-Mer, Srie Sciences Humaines, Paris.
C R A P E -- Centre de Recherches d' Anthropologie, de Prhistoire et d'Ethnographie
    d'Alger.
C R A S -- Compte Rendu Hebdomadaire des Sances de l'Acadmie des Sciences,
    Paris.
C R S B -- Compte Rendu de la Socit de Biogographie.
E A J -- East African Journal, East African Institute of Social & Cultural Affairs,
    Nairobi.
Ecol. Monogr. -- Ecological Monographs.
Econ. Bot. -- Economic Botany.
G A -- Geografiska Annaler, Swedish Society of Anthropology and Geography,
    Estocolmo.
G J -- The Geographical Journal, Londres.
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                          ndice Remissivo




frica meridional (aus-        frica do noroeste - 356,       56, 361, 364, 368-9,
   tral) - 143, 307, 309,         413, 416, 507, 564,          374-5, 377-79, 382,
   315, 346, 350, 355-56,         694, 701.                    496, 549, 555, 579,
   370, 411, 423-24, 476,      frica do norte - 1, 42,        685, 714, 792.
   551, 560, 568, 588-89,         47, 49, 50, 52-3, 90,     frica oriental - 2, 13,
   600, 625, 644, 744,            98, 108-13, 120, 256,        19, 87, 118, 120, 131,
   748, 756, 767, 769,            298, 301, 310, 327-          160, 165, 298, 301,
   840-41.                        28, 335, 350-51, 376,        309-10, 312, 315, 335,
frica central - 64, 70, 82,      378-79, 444, 481, 501,       340, 346, 348, 350-51,
   254-55, 309, 330, 380,         522, 583, 610, 637-          364, 369, 377-78, 382,
   382, 396, 406, 411,            55, 676, 712, 773-75,        404-8, 413, 438-9, 441,
   532, 547, 549, 565,            787, 799, 809, 832,          444, 452, 456, 472,
   571, 586, 591, 606,            840, 848.                    478, 482, 494, 497,
   615-36, 674, 717, 750,      frica ocidental - 2, 5,        501-2, 506-7, 511-50,
   757, 769, 790, 809.            6, 17, 47, 51, 87, 101,      551-55, 557-61, 569,
frica equatorial - 377,          120, 124, 128, 130,          581-2, 587, 593, 625,
   404, 409, 414, 582,            131, 133, 139, 155,          637-8, 542, 687-89,
   596-97, 803, 819.              170, 190, 210, 229,          758, 774, 792, 795,
frica do nordeste - 310,         280, 301, 305, 312,          800, 834, 837.
   350, 416, 451, 544, 707,       320, 321, 324, 329-30,    frica subequatorial - 404,
   803-4, 808, 843. 721.          340, 346, 350-51, 354-       612.
928                                                            Metodologia e pr-histria da frica



frica subsaariana - 12-4,      Australopithecus - 298, 448,       222, 252, 262, 265-70,
   19, 51, 581, 693, 698-          456, 458, 460-4, 467,           274, 279-81, 327-28,
   9, 707-8, 762, 792.             469-70, 476, 483, 487,          335, 383, 387-88, 710,
frica do sudeste - 114,           498, 500-1, 503-6, 561,         738, 762, 780, 806,
   133, 307, 330, 354,             623,834.                        813-14, 816, 846.
   470, 571, 597, 774,          Brasil - 51-2, 121, 292.        Etnias - 73, 173, 192, 203,
   782, 788, 795.               Chefes, chefias - 24-6,            206-7, 252-5, 263, 265,
frica tropical - 2, 4-7, 45,      28-9, 30, 32, 47, 63,           283-4, 392, 645, 652-3,
   52-3, 106, 112, 120,            68, 70, 73-4, 116, 131,         657, 662, 672, 674-7,
   349, 351, 365, 376,             145, 150, 153, 182,             775-6, 804-6.
   448, 612, 767, 776,             190-1, 195, 206, 304,        Etnocentrismo - 40, 57,
   789, 797.                       391, 393, 735, 804,             263, 781.
Agricultura - 26, 44, 63-          814, 816-17, 825, 828,       Evoluo (evolucionismo)
   4, 123, 192, 266, 297,          841, 846-7.                     - 283, 388.
   349, 363, 373, 381,          Colonial (colonialismo) -       Gentica - 249, 257, 283,
   383, 472, 486, 520,             1, 11-2, 15, 17, 20, 21,        285, 287-88, 290-91,
   528-29, 545=58, 588-            28-9, 30, 37-8, 41-8,           293, 303, 310, 315,
   89, 634, 652, 678-79,           51-2, 54, 56, 59, 74,           317, 319, 325, 343,
   682, 701, 707-8, 714,           115, 130, 132-33, 135,          497, 553.
   726, 768, 781-8, 783,           160, 163, 176, 183,          Geografia - 7, 60-2, 79,
   786-89, 792-93, 799-            211, 261, 290, 361,             86, 89, 93, 96, 100-1,
   802, 822-24.                    384, 658, 849-50.               120, 122, 149, 155,
Animismo - 32, 210, 398.        Cronologia - 65, 123, 154,         165, 184, 258, 260,
Antropologia - 10, 46-7,           156-7, 159-60, 165-66,          340, 345-65, 367-84.
   49, 265-66, 307, 323,           203, 231-32, 234, 239,       Geologia - 60, 390, 438,
   391, 395.                       253, 299, 388-89, 393,          495, 520.
Arqueologia - 12-3, 21, 45,        402, 417, 420-21, 424-       Griots - 29, 72, 141, 150,
   52, 55, 57, 59, 60, 63,         25, 435-37, 439, 440-           169, 176, 178, 191,
   65-6, 70, 89, 161, 165-         42, 444, 472, 476, 480,         193-99, 202, 204, 267.
   66, 213-46, 389-90,             514, 522, 524, 552,          Historiografia da frica
   495, 528, 617, 635, 687,        555, 565, 595, 604,             - 1-22, 43-4, 105-7,
   780, 802, 816, 828.             617, 627, 637-38, 644,          112, 117, 123, 127,
Arte - 146, 150, 169, 199,         646, 658, 660, 662-64,          129.
   208, 218, 224, 261,             694, 725, 745-6.             Homindeos - 60-1, 284,
   279, 390-91, 397, 473,       Escrita (fontes escritas)          417, 441-42, 444, 448-
   482, 517, 543, 588,             - 1, 4-6, 10, 12, 15,           49, 451, 456, 460, 462,
   592, 611-12, 649, 653,          17, 21, 35, 41-2, 64,           470, 474, 488, 491-5,
   656, 668, 677, 713,             66-9, 77-101, 105-37,           498, 500-1, 507, 511,
   738, 743-80, 812-13,            139-41, 146, 149, 159,          530, 532, 551-53, 555,
   817, 841.                       161-2, 166-8, 208, 219,         557-64, 570, 581-82,
ndice Remissivo                                                                   929



    589, 637-38, 687-88,         307, 309-10, 312, 314-        691-2, 697, 701, 707,
    834-35, 839-41.              16, 317-36, 337-44,           712-13, 727, 734, 744,
Hominizao - 286, 447-          372, 392-93, 398, 543,        749, 767, 790, 795,
    70, 471-80, 715, 833,        546, 549, 588-89, 634,        797, 803, 837, 849.
    835, 851.                    759, 838.                  Nilo - 53, 64-5, 67, 69,
Homo erectus - 287-88,        Lingustica - 14-6, 21, 45,      81-2, 112, 254, 258,
    462, 466-69, 487-88,         60, 66, 69, 70, 73, 136,      280, 292, 299, 303,
    499, 501-2, 507, 532,        162, 166, 247-81, 291,        310, 316, 321, 333,
    534, 564, 567, 581,          295-316, 317-336,             358, 360, 372, 376-77,
    624, 644, 665, 688,          337-44, 389, 392-93,          380, 382-83, 396, 405,
    694.                         549.                          407-8, 410-11, 413-15,
Homo habilis - 288, 462-      Metodologia - 20, 59, 66,        444, 544-45, 547-48,
    64, 467-69, 484, 499,        75, 139-66, 262-63,           672, 683, 707, 715-42,
    500, 502, 504, 532,          387.                          767, 773-4, 787, 799,
    564, 623, 663-64, 688,    Migraes - 155-56, 256,         803-11, 816-25, 828-
    834, 837, 851.               290, 292, 295-316,            32, 837, 849..
Homo sapiens - 60, 287,          349, 374, 381, 514,        Origem africana da huma-
    298, 470-72, 484, 496-       546, 579, 581, 591-2,         nidade - 61, 286-9, 293,
    98, 500, 502, 507, 522,      612, 772, 783, 786,           296-97, 470-72, 491,
    534, 536, 538, 557,          793, 843.                     511-13, 522, 787, 833.
    561-62, 581, 627, 648,    Mulheres - 15, 25, 29-30,     Paleontologia - 60-1, 473,
    774, 838-39.                 32, 73, 150, 191, 203,        495, 504, 638-40, 644,
Homo sapiens sapiens - 496,      307, 311, 393, 531,           689, 780.
    552,536, 581, 583, 834.      559, 653, 694, 730,        "Raas" (teorias raciais)
ndico, oceano - 2, 118-19,      753, 763, 768-69, 771,        - 10, 14, 28, 41, 200,
    328, 350-51, 354-56,         776-78, 813, 840-41,          262-63, 283-92, 296,
    408, 744, 795.               844.                          298, 301, 303, 307,
Interdisciplinaridade -       Msica - 193, 195, 199-          310, 315, 321-2, 393,
    387, 390, 396.               200, 207, 300, 392,           496, 525, 536, 582,
lnguas - 5-6, 11, 13-4,         583, 841.                     703, 706, 727, 741,
    16-7, 18-20, 26, 42,      Nger - 15, 20, 27, 29-30,       775-77, 840-41.
    46, 49-51, 53-4, 66-7,       32, 70, 78, 82, 93, 107-   Racismo - 40-1.
    77-8, 82-3, 99, 103,         8, 119, 128, 180, 192,     Repblica Centro-Africana
    106-8, 111-14, 116-19,       196, 206, 210, 250,           - 203, 255, 305, 332,
    120-21, 124-57, 129-         260, 263, 303, 306,           593-5, 597-8, 600-1,
    32, 137, 142-3, 162,         314, 326, 329-33, 336,        603-4, 606, 609-10,
    164, 174, 178, 180-4,        341, 350-51, 358-61,          615, 620-23, 630, 633.
    195-7, 203-4, 206,           383, 425, 430, 432,        Tradio oral - 4, 21, 45,
    247-49, 250-67, 281,         547, 549, 661, 664,           60, 63, 65-6, 7-2, 75,
    291, 295-6, 300-1, 305,      670, 672, 681, 687,           112, 122, 124, 126,
930                                                     Metodologia e pr-histria da frica



   129, 139-66, 167-9,       Utenslios - 192, 297-8,        629-33, 642, 646, 652,
   174, 185, 189, 205-7,        369, 371-2, 374, 398,        664-5, 678, 685, 689,
   209, 211, 267-68, 389,       401, 405, 412, 414-5,        694, 695-99, 716-9,
   391-2, 513, 780.             468-76, 506, 511-18,         723-30, 736, 739-
Trfico de escravos - 7-9,      522, 524-6, 529-44,          43, 768, 811-2, 823,
   28, 40, 121, 130, 375,       558-89, 593-7, 599-          834-7.
   384, 848.                    609, 618, 623-27,
                                  Organizao
                           das Naes Unidas
                              para a Educao,
                          a Cincia e a Cultura




UNESCO HISTRIA GERAL DA FRICA VOLUMES I-VIII

Durante muito tempo, mitos e preconceitos de toda         melhor permitissem acompanhar a evoluo dos
espcie ocultaram ao mundo a verdadeira histria da       diferentes povos africanos em seus contextos
frica. As sociedades africanas eram vistas como          socioculturais especficos.
sociedades que no podiam ter histria. Apesar dos        Esta Coleo traz  luz tanto a unidade histrica da
importantes trabalhos realizados desde as primeiras       frica quanto suas relaes com os outros continentes,
dcadas do sculo XX por pioneiros como Leo Frobenius,    sobretudo as Amricas e o Caribe. Durante muito
Maurice Delafosse e Arturo Labriola, um grande            tempo, as manifestaes de criatividade dos descendentes
nmero de estudiosos no africanos, presos a certos       de africanos nas Amricas foram isoladas por certos
postulados, afirmava que essas sociedades no podiam      historiadores num agregado heterclito de africanismos.
ser objeto de um estudo cientfico, devido, sobretudo,
                                                          Desnecessrio dizer que tal no  a atitude dos autores
 ausncia de fontes e de documentos escritos.
                                                          desta obra. Aqui, a resistncia dos escravos deportados
De fato, havia uma recusa a considerar o povo africano    para as Amricas, a "clandestinidade" poltica e cultural,
como criador de culturas originais que floresceram e se   a participao constante e macia dos descendentes de
perpetuaram ao longo dos sculos por caminhos             africanos nas primeiras lutas pela independncia, assim
prprios, as quais os historiadores, a menos que          como nos movimentos de libertao nacional, so
abandonem certos preconceitos e renovem seus              entendidas em sua real significao: foram vigorosas
mtodos de abordagem, no podem apreender.                afirmaes de identidade que contriburam para forjar o
A situao evoluiu muito a partir do fim da Segunda       conceito universal de Humanidade.
Guerra Mundial e, em particular, desde que os pases      Outro aspecto ressaltado nesta obra so as relaes da
africanos, tendo conquistado sua independncia,           frica com o sul da sia atravs do oceano ndico,
comearam a participar ativamente da vida da              assim como as contribuies africanas a outras
comunidade internacional e dos intercmbios que ela
                                                          civilizaes por um processo de trocas mtuas.
implica. Um nmero crescente de historiadores tem se
empenhado em abordar o estudo da frica com maior         Avaliando o atual estgio de nossos conhecimentos sobre
rigor, objetividade e imparcialidade, utilizando com      a frica, propondo diferentes pontos de vista sobre as
as devidas precaues fontes africanas originais.         culturas africanas e oferecendo uma nova leitura da histria,
No exerccio de seu direito  iniciativa histrica,       a Histria Geral da frica tem a indiscutvel vantagem
os prprios africanos sentiram profundamente a            de mostrar tanto a luz quanto a sombra, sem dissimular as
necessidade de restabelecer em bases slidas a            divergncias de opinio que existem entre os estudiosos.
historicidade de suas sociedades.                         Nesse contexto,  de suma importncia a publicao
Os especialistas de vrios pases que trabalharam nesta   dos oito volumes da Histria Geral da frica que ora se
obra tiveram o cuidado de questionar as simplificaes    apresenta em sua atual verso em portugus como fruto
excessivas provenientes de uma concepo linear e         da parceria entre a Representao da UNESCO no Brasil,
restritiva da histria universal e de restabelecer a      a Secretaria de Educao Continuada, Alfabetizao e
verdade dos fatos sempre que necessrio e possvel.       Diversidade do Ministrio da Educao do Brasil (Secad/
Esforaram-se por resgatar os dados histricos que        MEC) e a Universidade Federal de So Carlos (UFSCar).
